O Led na iluminação da paisagem urbana

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Artigo Original

CARNEIRO, Cristiane Regina Cecon [1], BRUNA, Gilda Collet [2]

CARNEIRO, Cristiane Regina Cecon. BRUNA, Gilda Collet. O Led na iluminação da paisagem urbana. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 04, Vol. 05, pp. 16-32 Abril de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Objetivando compreender as causas das recentes transformações verificadas na iluminação das cidades, o artigo explora os potenciais técnicos e estéticos da tecnologia LED (abreviação para Light-Emitting Diode), que significa diodo emissor de luz. Após o advento do LED é possível identificar novas estratégias da aplicação da luz em cenários urbanos destinados às pessoas, que não refletem apenas a utilização de postes, mas que apresentam outras técnicas de iluminação como: luz no mobiliário urbano, no piso, balizamento de percursos e de obstáculos, luz de destaque, projeções de imagens, entre outras. Este trabalho foi fundamentado na atualização teórica com bibliografia específica e no método de análise estruturado em torno de dois estudos de caso. Com o propósito de explorar e ilustrar como a tecnologia LED está sendo utilizada na iluminação de espaços públicos para pessoas foram selecionados dois parques, o Parque High Line, em Nova Iorque, Estados Unidos e o Parque Fluvial Renato Poblete, Santiago, Chile. Analisou-se a composição da luz, destacando alguns aspectos visuais possibilitados pela tecnologia LED.

Palavras-Chave: Iluminação Artificial, LED, Paisagem Urbana.

INTRODUÇÃO

Qualquer abordagem relacionada ao tema iluminação, seja ela natural ou artificial, está associada ao ser humano. Por isto, qualidade visual, segurança e mobiliário urbano são considerados convites para participar de atividades ao ar livre, que vão além das simples caminhadas. Logo, o planejamento dos espaços públicos pode ser usado para influenciar o alcance e o caráter das dinâmicas nos ambientes urbanos. Experimentar a vida na cidade é um entretenimento estimulante, pois as cenas mudam constantemente. De acordo com Gehl, (2010, p.23) há muito a se ver “[…] e essas experiências estão relacionadas a um dos mais importantes temas da vida humana: as pessoas”. As modestas e despretensiosas formas de contato passivo de ver e ouvir, simplesmente observar os outros e o que está acontecendo num determinado momento é a atividade urbana mais difundida. (GEHL, 2010).

Neste sentido, a iluminação artificial possui papel fundamental para que as cidades possam funcionar bem durante o dia e à noite. O foco dos novos desafios globais está centrado em temas relacionados a cidades mais seguras, sustentáveis e saudáveis. Isto reflete uma preocupação crescente com a dimensão humana e uma exigência cada vez maior por melhorias na qualidade da vida urbana. Para contribuir com estas demandas e visando minimizar o problema global do aumento do consumo de energia, surge um novo personagem neste cenário: o diodo emissor de luz, mais conhecido como LED (abreviação para Light- Emitting Diode). Na verdade o LED não é tão novo, o mundo o está usando há décadas, como por exemplo, na luz indicadora de ligado e desligado dos equipamentos eletrônicos. A novidade é que recentemente se conseguiu aumentar a intensidade de emissão luminosa e se produzir “luz branca”. Com isso, o LED passou a ser visto como uma possibilidade de sucesso pelo mercado da iluminação.

1. A TECNOLOGIA LED E SUAS APLICAÇÕES

A história do LED começa no início do século XX, quando a emissão de luz por um material em estado sólido, causada por uma fonte de energia elétrica, foi denominada de eletroluminescência. Já naquela época, reconheceu-se que o processo que levava à emissão de luz era fundamentalmente diferente da incandescência. Na incandescência, apenas quando o filamento é aquecido a altas temperaturas, tipicamente acima de 750º C, ocorre a emissão de luz. Já a eletroluminescência acontece à temperatura ambiente. (SCHUBERT, 2006).

O que faz os LEDs serem tão diferentes das outras fontes de luz é que no LED a eletricidade é convertida em luz diretamente na matéria. Este fenômeno é chamado de eletroluminescência e este tipo de iluminação também é denominado de iluminação de estado sólido (Solid-State Lighting). A tecnologia LED é baseada em diodos, construídos por camadas muito finas de materiais semicondutores. Quando uma corrente elétrica é aplicada em um diodo os elétrons que estão sobrando na polaridade negativa são atraídos pelas lacunas da polaridade positiva. Desta forma, ocorre um equilíbrio entre as cargas e o resultado é a produção de luz. (LORENZ; MARQUES; MONTEIRO, 2016).

Mas, como em todos os avanços tecnológicos, antes do produto final existe um longo caminho a ser percorrido. Assim, o LED só começou a ser visto como uma alternativa de bons resultados pelo mercado da iluminação, em 1994, quando o pesquisador japonês Shuji Nakamura, apresentou o primeiro LED azul de alta intensidade. Em seguida, Nakamura provou que o revestindo com um fósforo amarelado, podia-se gerar luz branca de alta intensidade. Após anos de refinamento por grandes fabricantes de iluminação, os LEDs usam até 75% menos energia e duram até 25 vezes mais que as lâmpadas incandescentes, e até 3 vezes mais do que as lâmpadas fluorescentes compactas. Outras eficiências são possíveis quando o LED é alimentado por fontes de energia renováveis, incluindo sistemas solares, eólicos e de biocombustíveis. (JACKSON, 2015).

De acordo com o Technical Memorandum on Light Emitting Diode (LED) Sources and Systems (2005), os LEDs são dispositivos de estado sólido que não usam gases ou filamentos, por isso a sua resistência contra choques mecânicos e vibrações é maior. Destacam-se ainda outras características que diferenciam o LED das outras fontes de luz:

1- Luz fria ao toque – o calor não é irradiado no feixe de luz do LED.

2- Baixa voltagem – são acionados por corrente de baixa voltagem e por isso são mais seguros em caso de choques elétricos.

3- Projetado para direcionar luz – não se baseiam mais no paradigma lâmpada e luminária, pois eles são projetados de forma integrada.

4- Sem falhas abruptas – o fluxo luminoso do LED diminui com o tempo, em vez da falha abrupta que ocorre com as lâmpadas incandescentes.

5- Dimensões reduzidas – permitindo maior flexibilidade no projeto.

6- Controle – através da integração do LED a dispositivos específicos é possível que cada ponto seja identificado individualmente. Quando interligados a uma rede, wiffi ou bluetooth é possível controlar: o liga e desliga, o fluxo luminoso, a cor da luz, o tempo de funcionamento, se o ponto requer manutenção, entre outros.

7- Maior vida útil com relação às outras fontes – consequentemente custos menores com manutenção. Considerando-se como vida útil uma manutenção mínima do fluxo luminoso igual a 70%, após 50.000 horas de uso. Em termos de comparação, uma lâmpada incandescente típica dura cerca de 1.000 horas; uma lâmpada fluorescente compacta de 8.000 a 10.000 horas; e as melhores lâmpadas fluorescentes tubulares podem durar mais de 30.000 horas.

8- Emite luz monocromática – dispensando o uso de filtros coloridos.

9- Menor consumo de energia – maior eficiência luminosa comparada às outras fontes. Os LEDs emitem um fluxo luminoso maior dividido pela energia consumida = (lm/W).

10- Ausência de deterioração causada pelo liga e desliga sucessivos.

As particularidades desta tecnologia demonstram porque a fabricação dos produtos de iluminação baseados em LED tem pouca coisa em comum com os produtos de iluminação convencionais. A miniaturização das fontes de luz, por exemplo, possibilitam que sua instalação seja feita facilmente em: pisos, paredes, tetos ou mesmo em móveis; ampliando as possibilidades do uso da luz. O estado sólido dos dispositivos e sua longa vida útil permitem que eles sejam instalados em áreas de difícil acesso, onde a manutenção é trabalhosa, como pontes e passarelas.

Outra característica dos dispositivos construídos com LED é que o fluxo luminoso pode ser modificável em função da variação da corrente elétrica aplicada a ele. Isto propicia um ajuste preciso da intensidade do feixe de luz. Além disso, os LEDs emitem um comprimento de onda monocromático, isto significa que eles dispensam a utilização de filtros coloridos. Estes filtros são responsáveis pela perda de intensidade luminosa. Por este motivo, os LEDs são mais eficientes em aplicações de luz colorida, como é o caso dos semáforos. (SCOPACASA, 2004).

Pode-se dizer que a tecnologia LED é a mais profunda mudança que a indústria da iluminação tem testemunhado desde a invenção da luz elétrica. A maioria das pessoas ainda pensa em iluminação apenas em termos de lâmpadas de tubo ou bulbos, mas atualmente isto não é tão simples, a iluminação transformou-se num sistema complexo. (JOHNSTONE, 2017).

2. TRANSFORMAÇÕES NA ILUMINAÇÃO DAS CIDADES

A cronologia indica três grandes períodos com notáveis avanços criativos na tecnologia da iluminação classificados como: era da radiância natural, era da eletricidade e era da eletroluminescência. A era da radiância natural mostra como comunidades antigas aprenderam a construir bolas de fogo, lâmpadas de óleo, lanternas e outros tipos de luminárias para acompanhar os pedestres com segurança em áreas escuras. A era da eletricidade transformou a atmosfera e as experiências nas cidades à noite. As horas de compras foram estendidas no final do século XIX, assim como aumentaram a altura dos edifícios, a quantidade de carros, e as áreas de iluminação pública. E por fim a terceira era da luz, chamada de era da eletroluminescência. (KYRIAKOU, 2015).

Depois da Segunda Guerra Mundial, as cidades ocidentais estavam sendo reconstruídas muito rapidamente através de conceitos de design padronizados. As chamadas construções em massa produziam atmosferas noturnas monótonas, ao longo de muitas cidades e subúrbios. Do mesmo modo, durante grande parte do século XX, a iluminação pública foi sinônimo de iluminação para rodovias; e sua principal função era oferecer melhor visibilidade aos motoristas. Mas, no início dos anos 1960, influenciados pelo livro “The death and life of great american cities” (1961), de Jane Jacobs, alguns intelectuais ingleses e americanos, começaram a questionar os planos de desenvolvimento urbano, para que se aproximassem mais dos homens e da natureza. Para explicar metaforicamente como estimular a permanência nos locais por um período mais longo e por pessoas diversas, Jacobs utiliza a analogia de fogueiras acesas em campos escuros, criando espaços ao seu redor. A autora ressalta a importância da iluminação para as pessoas poderem caminhar na cidade no período noturno e com isto induzindo-as a contribuir com seus olhos na vigilância dos espaços públicos. (KYRIAKOU, 2015).

O aumento do turismo internacional a partir dos anos 1960 foi outro fator importante na demanda por projetos de iluminação mais sofisticados. As cidades começaram a utilizar a luz de forma estratégica para ressaltar aspectos relacionados à segurança, identidade cultural e história, buscando atrair os turistas. De fato, os espaços urbanos passaram a ser cada vez mais utilizados à noite para atividades culturais, sociais, esportivas e de entretenimento; não só por turistas, mas também pelos habitantes da cidade. (RANKEL, 2014).

No século XXI, as cidades estão sofrendo muitas transformações sociais. Nota-se uma redução do número de moradores nos domicílios, principalmente nas regiões mais ricas do mundo. Isto explica a necessidade de maiores contatos sociais, face ao aumento do interesse em permanecer nos espaços comuns da cidade. (GEHL, 2015).

Outro tema relevante e que tem relação direta com a iluminação urbana, são os esforços globais para a redução das emissões de CO2. Com este propósito, os projetos de iluminação contemporâneos revelam uma atenção renovada com relação aos pedestres e aos ciclistas. Locais atraentes e bem iluminados visam contribuir para uma mudança de comportamento com relação ao uso de veículos poluidores da atmosfera. (SEITINGER e WEISS, 2015).

Os espaços urbanos são cada vez mais utilizados à noite para atividades culturais, sociais, esportivas e de entretenimento. Por isto, diversas intervenções no campo da iluminação artificial têm sido executas, almejando requalificar os espaços das cidades. Estas intervenções normalmente utilizam-se da iluminação decorativa ou de destaque, em conjunto com a iluminação funcional. Isto se dá, pois a funcional atende os níveis satisfatórios de visibilidade e segurança; e a decorativa confere identidade aos locais. (RANKEL, 2014).

Sem dúvida a iluminação funcional é fundamental, principalmente para promover segurança, entretanto, desde os anos 2000 a iluminação decorativa em áreas públicas tem se diversificado com a inserção da tecnologia LED. Associar o LED a sistemas de controle digitais permitem a manipulação da intensidade e da cor da luz. Utilizar equipamentos como câmeras e detectores de movimento integrados às luminárias pode fazer com que a luz seja reduzida durante os períodos de baixa ocupação das ruas, ampliando a economia de energia e da poluição luminosa. (KYRIAKOU, 2015).

As funções da iluminação urbana estão em constante evolução, porém as demandas mais recentes não excluem as anteriores; pelo contrário, o cenário ideal pressupõe que todas as variáveis sejam atendidas. Antes a iluminação urbana era vista apenas sob o ponto de vista técnico, hoje ela também é analisada sob o aspecto da percepção do usuário, pois “[…] ilumina-se o ambiente à noite para alcançar objetivos sociais, ou econômicos, que incluem segurança, apoio ao desenvolvimento, destaque às áreas históricas ou espaços verdes públicos e para enviar mensagens”. (MASCARÓ, 2006, p.21).

3. ASPECTOS SOBRE A VISÃO HUMANA E A PERCEPÇÃO DA LUZ

As pessoas confiam no sol para iluminar os espaços externos, mas depois do escurecer a visão nas cidades provem das lâmpadas das ruas, das vitrines, dos faróis dos veículos, e de dentro ou da superfície dos edifícios. Por isso é relevante compreender que as pessoas enxergam de maneiras diferentes durante o dia e à noite.

No processo da visão, quando a luz atinge a retina, os estímulos oferecidos pelos objetos e o espaço ao redor se transformam em informações de cor e volume. É na retina que se encontram os cones e os bastonetes, células altamente sofisticadas, especializadas em detectar as longitudes de onda procedentes do entorno. Estas células criam os impulsos nervosos em resposta ao estímulo da luz. Os bastonetes ficam distribuídos uniformemente sobre a retina e são eficazes em baixos níveis de luz, contribuem para a visão periférica e para detectar e realizar movimentos. Já os cones ficam concentrados numa pequena área da retina chamada fóvea ou mancha amarela, onde se forma a imagem que será transmitida ao cérebro; e são eles que permitem distinguir as cores. (BENYA, 2001).

O olho humano é um órgão enormemente sensível e ajustável, capaz de compensar uma vasta gama de condições e funcionar com sucesso sob uma variedade de ambientes visuais. A visão fotópica é definida como a visão em níveis relativamente altos de luz. É quando os cones, que são as células que têm a capacidade de reconhecer as cores estão completamente ativados. A visão escotópica ocorre com baixos níveis de iluminação, menos de uma candela sob o qual os cones não funcionam e os bastonetes são ativados, não há percepção de cor. A visão mesópica ocorre no estado entre os extremos da visão fotópica e da escotópica, neste estado cones e bastonetes estão ativos, ela é experimentada ao entardecer, sob o céu iluminado pela lua brilhante e inclui a maioria das condições de iluminação ao ar livre. (BENYA, 2001).

Adaptação é outro aspecto importante da visão humana, pois trata da capacidade do olho humano em se adaptar a diferentes níveis de iluminação. Quando as pessoas se movem de um ambiente interior para um ambiente exterior, por exemplo, ocorre uma mudança no tamanho da pupila que consegue contrair em resposta a um aumento nos níveis de luz cinco vezes mais rápido do que ela pode dilatar em resposta a uma queda nos níveis de luz. O sistema dos cones pode se regenerar dentro de 10 a 12 minutos, enquanto o sistema dos bastonetes pode requerer até 60 minutos para total regeneração. Portanto, a adaptação para ambientes mais escuros, leva consideravelmente mais tempo do que a adaptação para ambientes mais brilhantes. (BENYA, 2001).

Deste modo, durante o dia, os níveis de luz dos ambientes interiores podem parecer mais escuros para pessoas que estão adaptadas à luz do dia. Similarmente à noite, as pessoas adaptadas ao brilho dos ambientes interiores podem ter a visão prejudicada pelo escuro. Por esta razão as áreas de transição entre os espaços interiores e exteriores são muito importantes para a adaptação e o conforto visual humano.

Ofuscamento é causado pela luz indesejada no campo visual. As sensações de desconforto provocadas pelo ofuscamento podem ser inibidoras ou perturbadoras. Consequentemente, o sistema visual traduz a luz refletida nas superfícies, pois os olhos não são capazes de trabalhar com altos níveis de luz incidindo diretamente sobre eles. Por isto, altos níveis de iluminação e brilho das luzes da rua e do entorno podem causar ofuscamento, especialmente quando estão em contraste com níveis de iluminação muito baixos perto do solo ou além da área iluminada.

Logo, algumas correlações entre luz e visão humana referem-se aos seguintes fenômenos: adaptação, brilho, fototropismo e visão vertical. Como já exposto anteriormente adaptação é a habilidade do sistema visual humano em trabalhar de acordo com diferentes níveis de luz. O conceito de brilho refere-se à forma com que os objetos refletem luz diferentemente e é através do brilho que se percebe onde um objeto começa e outro termina. A ideia de fototropismo diz respeito ao entendimento de que os homens são atraídos pela luz por instinto e que o olho do observador se moverá da superfície mais brilhante para a próxima mais brilhante. E visão vertical trata da limitação do olho humano em receber luz direta. (RUSSELL, 2015).

Todos estes fatores participam para o funcionamento do aparelho sensorial humano e desempenham papel central na compreensão da implantação estratégica da luz artificial nas cidades. Na prática, o ponto mais importante para um projeto efetivo de iluminação está no posicionamento das fontes de luz, dado que o olho humano vê o reflexo da luz através das superfícies dos artefatos que o rodeiam. (SEITINGER, 2010).

4. PRINCÍPIOS E ESTRATÉGIAS PARA ILUMINAR ESPAÇOS EXTERNOS

A visão humana é primariamente orientada em relação à luz do dia, onde a iluminação é bastante uniforme em todo o campo visual. Já a iluminação noturna é muito seletiva, com grandes contrastes entre áreas claras e escuras. Enquanto a luz do dia é relativamente neutra em resposta emocional, o uso da luz artificial no período noturno pode provocar uma ampla gama de reações. A iluminação da paisagem urbana desempenha um papel fundamental em revelar os lugares à noite e evocar significado às paisagens abandonadas, a fim de estabelecer elos com os habitantes da cidade. (NARBONI, 2016).

Por isso, a iluminação para espaços externos com predominância de pessoas deve atender aos requisitos de: segurança, identificação, estética e usabilidade. Segurança, pois áreas escuras e lugares escondidos devem ser iluminados a fim de facilitar a circulação e minimizar possíveis perigos pessoais ou prejuízos contra o patrimônio. Além disso, é importante promover uma boa identificação dos locais, favorecendo a compreensão das suas principais características. Do ponto de vista estético, quando as qualidades de um espaço são ressaltadas apropriadamente, a sua aparência e o seu reconhecimento melhoram. Por fim, uma iluminação adequada encoraja o uso das áreas no período noturno, possibilitando a ampliação do horário de utilização de parques, praças, passeios e áreas de recreação. (NARBONI, 2016).

Os princípios de um projeto de iluminação devem se basear na: coesão, profundidade, pontos focais, qualidade da luz, perspectiva, equilíbrio, simetria e conforto visual. A coesão se refere a iluminar satisfatoriamente todas as regiões, de maneira que as áreas se conectem fazendo sentido visual, sem espaços escuros e rupturas na experiência do espectador. A profundidade diz respeito a uma iluminação seletiva de itens e lugares perto e longe do espectador, isto traz qualidade tridimensional para a experiência visual. Os pontos focais são aqueles que servem como locais de interesse visual. A seleção e iluminação de alguns pontos têm duas funções, primeiro revelar a sua existência à noite e segundo direcionar a experiência visual de um ponto focal para outro. A qualidade da luz diz respeito à forma como ela afeta emocionalmente cada pessoa, por isso ela normalmente é descrita como: luz romântica, luz dramática, luz sutil e outras. Estas respostas emocionais são alcançadas através de estratégias do uso da luz incluindo: direção e controle do feixe, localização das luminárias, variações de brilho e cores. A perspectiva se refere ao hábil posicionamento das fontes de luz, levando em consideração a localização do espectador. O equilíbrio também está relacionado a uma iluminação que tenha sentido visual. A simetria representa equivalência em ambos os lados de uma linha divisória. Similar ao equilíbrio, simetria é um arranjo que traz sentido visual. E por fim o conforto visual, porque a iluminação que é excessivamente brilhante, ou apresenta contrastes extremos diminui a segurança do lugar e deprecia o seu valor estético. (NARBONI, 2016).

Portanto, as características do local determinam o tipo de luz que cada ambiente requer. Logo, as técnicas de iluminação são utilizadas com objetivos específicos. São elas que determinam como e o que se quer ressaltar. A técnica conhecida como up lighting, por exemplo, é um recurso bastante utilizado para criar sombras nas paredes dos elementos arquitetônicos e também é ideal para trazer à tona a textura das superfícies. A iluminação de degraus ou step lighting é usada para ressaltar os desníveis das escadas permitindo a visualização de obstáculos.

O autor Russell (2015) trata do uso da luz dividindo sua aplicação em cinco camadas. Estas camadas são definidas conforme o objetivo que se pretende alcançar: coreografar uma experiência; definir ambiência; acentuar objetos; revelar a arquitetura e a forma de um espaço; e iluminar áreas de tarefas. A primeira camada significa que a iluminação pode ser usada para criar objetivos, caminhos e encorajar o movimento. A segunda camada serve para definir a ambiência de um espaço, sugerindo que ao adicionar intensidade, cor e textura, é possível desencadear emoções. A quarta camada é usada para revelar e ressaltar aspectos da arquitetura e da forma de um espaço. A quinta camada é mais utilizada na iluminação de interiores, pois trata da iluminação das áreas de tarefas.

Contudo historicamente a liberdade de criação num projeto de iluminação era extremamente limitada pela tecnologia das lâmpadas e das luminárias. A integração entre a fonte de luz e a construção também era bastante prejudicada, principalmente pela fragilidade dos componentes e pelo excessivo aquecimento dos dispositivos. Desta forma, quando a tecnologia LED foi introduzida em escala comercial nos anos 2000, surge um novo estímulo criativo para os profissionais da área. (SONNEMAN, 2018).

5. ESTUDOS DE CASO

5.1 HIGH LINE PARK, NEW YORK, EUA, 2009-2014

O parque High Line é um parque linear criado em 2009, em Nova Iorque, sobre uma antiga linha férrea elevada construída em 1930 para eliminar os cruzamentos ferroviários perigosos ao nível da rua, que originalmente era utilizada para transportar cargas. Em 1980 ela foi desativada e hoje é de propriedade da Cidade de Nova Iorque. Em 1999 os residentes da comunidade fundaram o Friends of the High Line e conseguiram preservar e transformar a linha elevada em um parque, em um momento em que a estrutura histórica estava ameaçada de demolição.

Os autores do projeto de iluminação, Hervé Descottes e seu estúdio L’Observatoire International, decidiram criar uma experiência de caminhada de contemplação da cena noturna de Manhattan. Sendo assim, a iluminação do parque não poderia competir com a luz do pano de fundo da cidade. Por isto, fontes de luz LED foram instaladas abaixo do nível dos olhos: na parte inferior do mobiliário (fig. 1 e fig. 2); e ao longo do perímetro da antiga estrada de ferro, criando um ambiente sem brilho e ofuscamento. Esta luz suave marca a borda e a silhueta do High Line para os espectadores da rua.

Figura. 1 – Bancos sob a luz do dia.

Fonte: Cristiane Cecon, 2013.

Figura. 2 – Ilustração da iluminação instalada embaixo dos bancos.

Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

Para minimizar o ofuscamento causado pelos altos níveis de iluminação e brilho das luzes das edificações do entorno, a iluminação foi distribuída essencialmente para o piso e para a vegetação adjacente ao percurso. Assim, as fachadas iluminadas da cidade também fazem parte do contexto, complementando a iluminação. Esta decisão reflete a preocupação dos autores do projeto em não gerar mais poluição luminosa. A perspectiva e a simetria do trajeto são reforçadas pela luz destacando a vegetação em ambos os lados do caminho e abaixo dos bancos. Ressaltar a vegetação, que delineia todo o percurso, ampliou as qualidades estéticas do local e ainda envolve o usuário sem provocar contrastes extremos.

Analisando este primeiro exemplo identifica-se uma nova técnica de iluminação no cenário urbano: a luz sob o mobiliário. A utilização deste recurso tornou-se possível devido à natureza dos componentes sólidos e ao feixe de luz fria do LED. Este artifício conferiu identidade e conforto visual ao parque.

5.2 PARQUE FLUVIAL RENATO POBLETE, SANTIAGO, CHILE, 2015

O parque fluvial Renato Poblete está localizado no meio de uma paisagem industrial semipoluída, no Rio Mapocho, em Santiago, Chile. O objetivo do projeto era requalificar esta área da cidade que não contava com parques verdes ou espaços públicos. O projeto de iluminação foi executado pelo escritório DIAV de Paulina Villalobos e Pamela Padruno e teve como estratégia orientar e encorajar as trilhas sem brilho ou ofuscamento. Para isso as pontes e as escadas (fig. 3 e fig. 4) foram iluminadas com de fitas de LED, criando uma iluminação linear.

Figura. 3 – Escada sob a luz do dia.

Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

Figura. 4 – Ilustração da iluminação linear da escada.

Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

Para os habitantes urbanos de um clima semiárido, contemplar uma lagoa é uma experiência paisagística nova, dessa forma, as autoras do projeto escolheram reproduzir imagens da água sobre as grandes áreas de concreto do parque, através de projetores instalados em postes de 12 metros de altura. A mesma ideia foi utilizada para destacar os brinquedos do playground (fig. 5 e fig. 6).

Figura. 5 – Brinquedo sob a luz do dia.

Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

Fig. 6 – Ilustração da iluminação com projeção de imagem.

Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

A iluminação do mobiliário também foi utilizada como estratégia de projeto. Os bancos são cubos de concreto, tendo alguns deles um recorte. Este espaço foi utilizado para embutir uma luminária LED, que direciona a luz para o gramado (fig. 7 e fig.8).

Fig. 7: Foto do mobiliário com e sem recorte.

Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

Fig. 8 – Ilustração da iluminação no recorte do banco.

C:\Users\Cristiane\AppData\Local\Microsoft\Windows\INetCache\Content.Word\Poblete_Banco4.jpg
Fonte: Cristiane Cecon, 2018.

Neste segundo exemplo verifica-se a aplicação de diversas camadas de luz. Estas camadas foram usadas com a intenção de: coreografar o caminho pelo parque, balizar os obstáculos, enfatizar objetos, criar ambiências e revelar a arquitetura do espaço. Contudo, neste caso destaca-se principalmente a utilização da projeção de imagens. Este artifício expandiu as possibilidades do uso criativo da luz proporcionando experiências visuais inesperadas aos usuários do parque.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na “Era da Eletroluminescência”, observa-se que os projetos de iluminação para as cidades, antes centrados nas estradas, começam a pensar na luz para as pessoas. Atualmente, muitas das técnicas utilizadas na iluminação de interiores, como a criação de múltiplas camadas, são aplicadas a espaços ao ar livre. Esta liberdade de criação resulta dos avanços contínuos no campo da iluminação de estado sólido com relação ao: tamanho, eficiência energética, não emissão de radiação infravermelha e na longevidade das fontes.

Os dois exemplos escolhidos ilustram como a aplicação da tecnologia LED na iluminação de espaços públicos pode transformar o uso da luz. De uma entidade funcional, elaborada apenas para atender padrões quantificáveis, ela pode passar a ser um elemento de composição visual, oferecendo novas experiências às pessoas. As demandas atuais anseiam por uma iluminação que atenda às necessidades e preferências de diferentes grupos de usuários dentro do domínio urbano. Pois, a boa iluminação promove experiências sensoriais confortáveis, proporciona oportunidades para ver, brincar e praticar atividades físicas durante a noite, e consequentemente aumenta a permanência nestes espaços.

Na medida em que novas tecnologias, como o LED são inseridas nas cidades, os benefícios superam o propósito apenas da diminuição de custos e da economia de energia elétrica, mas favorecem a atração de atividades econômicas e sociais. A relevância do uso da luz no espaço urbano é ser capaz de enfatizar os pontos fortes dos lugares atuando como um meio que pode reconectar as pessoas a estas áreas.

REFERÊNCIAS

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[1] Mestranda, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo.

[2] Professora Doutora, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

Enviado: Março, 2019

Aprovado: Abril, 2019

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