Conservação de cadáveres pelos métodos de formalização e glicerinação

0
190
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI SOLICITAR AGORA!
PDF

ARTIGO ORIGINAL

MACIEL, Jonas Eduardo Machado [1], SILVA, Diego Ruan Souza [2], CUNHA, Gabriel Lima [3], FIRMINO, Fabíola Pereira [4], SOUZA, Alexandre Navarro Alves de [5]

MACIEL, Jonas Eduardo Machado. Et al. Conservação de cadáveres pelos métodos de formalização e glicerinação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 08, Vol. 12, pp. 20-30. Agosto de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/veterinaria/conservacao-de-cadaveres

RESUMO

Na formação de um médico veterinário o estudo da anatomia dos animais domésticos se faz indispensável para o exercício da profissão. Para que a anatomia seja ensinada faz-se o uso de diversas metodologias com o objetivo de proporcionar uma experiência anatômica mais próxima do real possível. A metodologia mais comum consiste no estudo de cadáveres conservados, porém, para que haja qualidade nestas peças são necessárias conservações que proporcionem estruturas em boas condições e existem diversos métodos de conservação. Cada técnica difere quanto á: sensação tátil, olfato, visualização da peça anatômica e suas estruturas. Este estudo teve como objetivo comparar a técnica de glicerinação com a de formalização seguida de salinização. Para realização do projeto, na presente metodologia, foram utilizados dois cadáveres que foram conservados pelos métodos de glicerinação e formalização, que foram então avaliados por alunos de medicina veterinária que por meio de um questionário. Neste questionário avaliou-se a visualização, consistência e odor. Os resultados obtidos nos questionários foram analisados estatisticamente (p <0,05). No quesito visualização, o método de glicerinação obteve a média de 7,9, enquanto que a formalização obteve média 7, no quesito consistência a glicerinação obteve média 7 e a formalização média 5,9, no quesito odor a glicerinação obteve média 2.9 e a formalização 5,7, nesta última escala, quanto mais próximo de 0  menor é a irritação à mucosa nasal. Conforme a comparação das médias comprovou-se que o método de glicerinação é a melhor opção para estudo da anatomia em comparação a peças formolizadas.

Palavras-Chave: Anatomia, conservação, cadáveres, formalização, glicerinação.

1. INTRODUÇÃO

A anatomia consiste no estudo da forma, disposição e estrutura do corpo dos animais, é uma matriz curricular, portanto, é de extrema importância para continuidade de conhecimentos adquiridos ao longo da graduação (KONIG et al., 2011). O conhecimento morfológico das estruturas corpóreas é pertinente para conhecer as condições fisiológicas do organismo e saber diferenciar de condições patológicas (CURY et al., 2013).

Sendo uma das bases da medicina veterinária, o seu estudo deve ser feito de forma meticulosa e para isso são necessários métodos de ensino que proporcionem ao discente uma experiência satisfatória. Existem diversos métodos de ensino atualmente, sendo alguns mais antigos, como a conservação de cadáveres por formol e algumas tendências que vêm ganhando espaço nas universidades, como: estudo anatômico virtual, modelos anatômicos sintéticos e o uso de cadáveres livres de formol (MASSARI et al., 2018).

As metodologias de ensino apresentam diferentes resultados que são refletidos no aprendizado do aluno, por isso, a utilização de mais de um método é interessante, visto que, cada método tem sua peculiaridade e destacam estruturas diferentes. Nos métodos por conservação de cadáveres existem aqueles conservados por formalina e aqueles que são confeccionados a partir de outras soluções conservadoras, que visam ser menos agressivos á saúde de quem às manipula (KARAM et al., 2016).

O formol é uma substância tóxica que se em contato direto ou indireto com tecidos pode trazer graves lesões, além de ter caráter carcinogênico, mutagênico e teratogênico (VERONEZ et al., 2006). Para reduzir os riscos da exposição ao formol, novas formas de conservação de cadáveres são exploradas, como é o caso da glicerinação.

A glicerinação é uma técnica de conservação feita a partir da glicerina que é uma substância de caráter antisséptico, desta forma, pode ser utilizada como solução conservadora para peças anatômicas, a glicerina trás menos riscos á saúde e teoricamente apresenta bons resultados na conservação de cadáveres (KARAM et al., 2016).

O presente estudo objetivou-se em desenvolver uma nova peça anatômica pelo método de glicerinação para que a mesma seja comparada com uma peça de formalização conservada em solução salina a partir de um questionário avaliando visualização, consistência e odor, feito por discentes do curso de medicina veterinária do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM). Caso a hipótese de que não há diferença entre as técnicas seja refutada, ao final das análises estatísticas dos dados é possível chegar a um veredito de qual técnica de conservação é melhor para o aprendizado dos alunos, possibilitando a escolha da técnica de conservação mais adequada.

2. METODOLOGIA

A pesquisa, de caráter qualitativo, teve como principais objetos de trabalho a utilização de dois cadáveres adquiridos de clínicas veterinárias particulares, concedidos por seus tutores por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).  Os procedimentos para conservação foram feitos no laboratório de anatomia animal do IFAM-CMZL.

Os cadáveres usados na pesquisa foram: uma fêmea da espécie canina e uma fêmea da espécie felina usados, respectivamente, para as técnicas de formalização e glicerinação.

2.1 TÉCNICAS E MATERIAIS

Antes da conservação dos cadáveres, as peças anatômicas têm quer ser dissecadas para exposição dos tecidos e órgãos que devem ser visualizados durante o estudo, para isso, são utilizados materiais básicos de dissecação e segurança laboratorial. Dentre os materiais estão: luvas de látex, óculos de proteção, máscaras respiratórias, Becker de 1L, seringas de 20 ml, formaldeído, glicerina, cloreto de sódio, recipientes para submergir as peças e materiais para dissecação, como: bisturi cabo 4, lâmina 22, tesouras metzembaum curva ponta romba-romba e tesoura íris e pinça anatômica.

Na técnica de formalização a solução conservadora é feita a partir da solução composta de 3 partes de água destilada para 1 parte formol a 10%, após esta mistura, a solução é injetada com uma seringa em órgãos parenquimatosos e posteriormente todo o cadáver é submerso na solução durante 45 dias. Passados os 45 dias a peça é retirada da solução e lavada com água corrente e colocado em solução salina a 30% feita a partir da mistura de 10 litros de água com 3 kg de cloreto de sódio.

Após a lavagem a peça está pronta para estudo, porém, sua manutenção da conservação se faz com solução salina. O aspecto da peça pronta para estudo pode ser observado na Imagem 1.

Na técnica de glicerinação, o cadáver é conservado em três etapas, sendo estas: desidratação, clareamento e fixação secagem. Na etapa de desidratação o cadáver é submerso em álcool etílico 70% durante uma semana, passado o período o cadáver é retirado e lavado com água corrente, então se inicia a etapa de clareamento, onde ocorre a submersão do mesmo em água oxigenada 3% durante uma semana, a etapa final consiste na retirada e lavagem do cadáver para ser submerso na solução fixadora composta por álcool etílico 70% e glicerina 98%, respeitando a proporção de 1:2 respectivamente, nesta ultima etapa chamada de fixação secagem o cadáver é mantido por uma semana submerso e após este período está pronto para estudo.

Ao término de seu preparo, o cadáver deve ser mantido na solução de glicerina para sua conservação, sendo retirado durante o estudo. O aspecto da peça pronta para estudo pode ser observada na Imagem 2.

Imagem 1. Cadáver conservado a partir da técnica de formalização

Fonte: autores.

Imagem 2. Cadáver conservado a partir da técnica de glicerinação

Fonte: autores.

2.2 AVALIAÇÕES

Para avaliar qual técnica de conservação é melhor para o aprendizado da anatomia foram feitos questionários que visaram julgar as peças anatômicas em três quesitos: olfato, consistência e visualização de estruturas. Os quesitos visualização e consistência foram avaliados diante uma escala de 0 a 10, na qual 0 representa um qualidade péssima, inviável para estudo e 10 representa uma qualidade ótima, própria para estudo anatômico. O quesito odor foi avaliado também numa escala de 0 a 10, porém, quanto mais próximo de 0 menor a irritação á mucosa nasal, sendo quase imperceptível e quanto mais próximo de 10 maior a irritação nasal impossibilitando o estudo.

Os questionários foram realizados com 20 alunos do 1º período, 10 alunos do 5° período e 10 alunos do 7° período de medicina veterinária do IFAM-CMZL que avaliaram comparativamente as peças expostas, esta diferença entre períodos se dá pela hipótese de que a avaliação mais experiente, do 5° e 7° período, proporcionaria uma discrepância nos resultados em relação à avaliação do 1° período, e por isso foram analisadas estatisticamente em grupos separados. Ao todo foram realizados 40 questionários os quais foram tabulados na plataforma Windows Excel e estatisticamente avaliados com auxílio da plataforma GraphPad InStat 3.

Os dados foram submetidos à uma avaliação estatística de Kolmogorv-Smirnoff testando sua normalidade e realizando então o teste T pareado na qual todos os valores consideraram valor P < 0,05.

Para a avaliação do custo, foi realizada utilizada a tabulação do orçamento utilizado nos materiais de consumo descritos nas duas técnicas supracitadas para comparação.

3. RESULTADOS

Conforme a Tabela 1 pode-se concluir que a técnica de glicerinação obteve um resultado satisfatório, sendo avaliada como superior em todos os quesitos apresentados. A tabela compara os três quesitos avaliados entre glicerinação e formalização, mostrando suas respectivas médias, desvios padrões e valor P.

Segundo os resultados apresentados podemos observar que alunos de diversos períodos de medicina veterinária avaliaram as peças e puderam julgar a técnica de glicerinação como a melhor técnica para estudo da anatomia descritiva dos animais domésticos.

A análise estatística provou que não houve diferença significativa entre as avaliações do 5° e 7° período em relação ao 1° período.

Tabela 1. Médias, desvios padrões (±) e valor P dos quesitos avaliados comparando as técnicas de glicerinação e formalização.

Quesitos avaliados Glicerinação Formalização Valor P
Visualização 7,9 (± 1,4) 7,0 (± 1,6) 0,0126
Consistência 7,0 (± 1,9) 5,9 (± 1,9) 0,0041
Odor 2,3 (± 1,8) 5,7 (± 2,3) <0,0001

Fonte: autores.

Os resultados em relação a custo, o método de glicerinação foi mais elevado do que o método de formalização, por conter mais componentes para preparar a solução conservadora e por preço mais elevado da glicerina em relação ao formol, os custos dos métodos utilizados podem ser observados na Tabela 2.

Tabela 2. Custos dos materiais utilizados nos métodos de conservação.

Materiais Glicerinação Formalização
Líquido conservador

(glicerina/ formol)

R$ 320 R$ 180
Álcool etílico 70% R$ 112
Água oxigenada 3% R$ 50,75
Cloreto de sódio R$ 62,10
TOTAL R$ 482,75 R$ 242,10

Fonte: autores.

4. DISCUSSÃO

A peça feita por método de glicerinação foi eleita como a melhor para estudo, principalmente no quesito odor é possível observar que há uma diferença maior entre as médias dos métodos, logo, há menos irritabilidade nasal, quesito que incomoda bastante quando manipulamos peças feitas a partir de formol e que, dependendo da quantidade e tempo de exposição, pode levar ao coma e posterior óbito (VERONEZ et al., 2010).

O odor característico do formol causa efeitos deletérios não somente ao sistema respiratório, mas também a qualquer tecido que seja exposto por um longo período de tempo, sendo assim, é uma grande vantagem excluir ou diminuir os efeitos nocivos do formol no ambiente de estudo (VERONEZ et al., 2010).

Além das vantagens em relação aos efeitos deletérios do formol, a glicerina proporcionou uma boa visualização das estruturas e sua consistência permaneceu menos rígida e mais maleável, deixando as estruturas menos friáveis ao toque e mais próxima do real (KARAM et al., 2016).

Devemos levar em consideração que o cadáver utilizado para o método de glicerinação foi um felino e para o método de formalização foi um canino, a diferença de espécies se dá pelo fato de a técnica de glicerinação ter um custo maior, portanto, a solução conservadora e o recipiente utilizado tiveram que ser em menor quantidade e tamanho visando a viabilidade econômica do projeto que foi uma limitação.

A diferença de tamanho entre as espécies faz com que a glicerinação seja ainda mais cara do que o avaliado, pois o volume de solução conservadora necessária foi menor do que o volume de solução conservadora necessária para a formalização.

A manutenção das peças é relativamente barata, pois as mesmas ficam em soluções conservadoras já preestabelecidas no momento da confecção, o método de formalização já vem sendo utilizado no laboratório de anatomia do IFAM-CMZL por alguns anos, então é visto que a durabilidade de peças formolizadas é de aproximadamente 1 a 3 anos se mantidas em condições favoráveis para a sua conservação. O método de glicerinação nunca foi utilizado, por isso a observação prática está sendo feita agora, mas estudos apontam que se a peça for mantida em sua solução conservadora ou em ambiente fechado sem qualquer tipo de líquido a durabilidade observada é de 2,5 a 3 anos, sendo necessária a manutenção ou troca após este período (CURY et al., 2013).

Como a hipótese de que haveria uma diferença significativa entre as avaliações do 5° e 7° período em relação ao 1° período foi descartada, as notas avaliadas nos questionários foram submetidas à análise estatística como pertencentes a um único grupo.

5. CONCLUSÃO

Dentre as duas técnicas avaliadas pelos discentes, a melhor foi a de glicerinação, sendo esta, mais bem avaliada nos três quesitos dispostos (visualização, consistência e odor). Não houve discrepância entre 1°, 5° e 7° período, portanto independente da experiência do graduando a desvantagem constatada pelo método é seu maior custo. Visando resguardar a saúde dos estudantes de anatomia e primando pela qualidade a partir dos resultados sugerimos a técnica de glicerinação como escolha, pois manteve as propriedades físicas da peça mais próximas do real, satisfazendo os alunos quanto à manipulação e aparência da peça anatômica com menor irritabilidade nasal e sem os riscos adversos do uso do formol.

6. AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Amazonas (FAPEAM) pelo apoio e financiamento.

7. REFERÊNCIAS

CURY, F.S.; CENSONI, J.B.; AMBRÓSIO, C.E. Técnicas anatômicas no ensino da prática de anatomia animal. Pesq. Vet. Bras. 33(5):688-696. 2013.

GIGEK, T.; OLIVEIRA, J.E.M.; NETO, A.C.A.; CARVALHO, W.L.; PEREIRA, F.V.; ALMEIDA, A.H. Estudo Analítico da Técnica de Glicerinação Empregada para Conservação de Peças Anatômicas de Bovinos. Anais V Simpósio de Ciências da Unesp, Dracena, SP, p.1-3. (Resumo). 2009. Disponível em http://www2.dracena.unesp.br/eventos/sicud_2009/anais/veterinaria/043_2009.pdf. Acesso em: 17 fev. 2020

INACIO, M. C. P.; BALDI, F. H.; MENDONÇA, T. A.; MANSUR, V.F.R. Conservação de carcaças a base de formaldeído comparando a eficácia do armazenamento sob refrigeração e em solução aquosa de cloreto de sódio a 30%. Revista da Universidade do Vale do Rio Verde; Vol. 16; n° 1. 8f. Universidade Vale do Rio Verde. Três Corações, MG. 2018.

KARAM, R. G.; CURY, F. S.; AMBROSIO, C. E.; MAÇANARES, C. A. F. Uso da glicerina para a substituição do formaldeído na conservação de peças anatômicas. Pesq. Vet. Bras. 36 (7): 671-675, jul. 2016.

KONIG, H. E.; LIEBICH, H. G. Anatomia dos Animais Domésticos: texto e atlas colorido. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

MASSARI, C. H. A. L.; SCHOENAU1, L. S. F.; CERETA1, A. D.; MIGLINO, M. A. Tendências do Ensino de Anatomia Animal na Graduação de Medicina Veterinária. Rev. Grad. USP, vol. 3, n. 2 jul. 2018.

SCHERER, S. Desenvolvimento de modelo experimental em cadáver de cão conservado com a solução de larssen modificada para treinamento em videocirurgia: nefrectomia total e tireoidectomia. 2009.  78f. Dissertação (mestrado em ciências veterinárias). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.

SOUZA, M. C. C. M. I. Desenvolvimento e avaliação de método substitutivo para a prática da hemostasia em cadáveres quimicamente preservados. 2012. 81f. Dissertação (mestrado em clínica cirúrgica veterinária). Universidade de São Paulo. SP.

VERONEZ, D.A.L.; FARIAS, E.L.P.; FRAGA, R.; FREITAS, R.S.; PETERSEN, M.L.; SILVEIRA, J.R.P. Potencial de risco para a saúde ocupacional de docentes, pesquisadores e técnicos de anatomia expostos ao formaldeído. Rev. Gest. Integr. em Saúde do Trab. e Meio Amb. 5(2):1-13. 2010.

[1] Aluno de graduação do curso de Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), Manaus, AM.

[2] Aluno de graduação do curso de Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), Manaus, AM.

[3] Aluno de graduação do curso de Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), Manaus, AM.

[4] Aluna de graduação do curso de Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), Manaus, AM.

[5] Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), Professor Adjunto do curso de Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), Manaus, AM.

Enviado: Maio, 2020.

Aprovado: Agosto, 2020.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here