Percepção dos profissionais sobre a utilização da tecnologia assistiva de baixo custo na unidade de terapia intensiva adulto: um olhar do terapeuta ocupacional

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SILVA, Maria Natália Costa [1], CARRARETTO, Cíntia Pontim [2]

SILVA, Maria Natália Costa. CARRARETTO, Cíntia Pontim. Percepção dos profissionais sobre a utilização da tecnologia assistiva de baixo custo na unidade de terapia intensiva adulto: um olhar do terapeuta ocupacional. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 05, Vol. 13, pp. 123-138. Maio de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/utilizacao-da-tecnologia

RESUMO

O terapeuta ocupacional utiliza a Tecnologia Assistiva (TA) nas suas intervenções, como um meio facilitador para o processo de reabilitação e promoção da qualidade de vida, podendo utilizar recursos, adaptações e dispositivos que facilitam o desempenho motor, cognitivo, sensorial e social do paciente crítico na Unidade de Terapia Intensiva. O presente estudo tem o objetivo de identificar o conhecimento e descrever a percepção da equipe multiprofissional da UTI, acerca da utilização de recursos e equipamentos de TA, pelo profissional terapeuta ocupacional. Trata-se de uma pesquisa realizada em uma Unidade de Terapia Intensiva Adulto de um Hospital Geral de nível quaternário, que se configura como aplicada, com abordagem qualitativa descritiva exploratória, e utilizou-se a análise temática, como método para avaliação dos dados coletados. Dessa forma, resultou-se que através do conhecimento surgirá a necessidade, e todo trabalho realizado resultará em empoderamento do profissional atuante em TA e da equipe participante. E por fim, considera-se que, um maior investimento pessoal, estrutural, material e científico estimulará o crescimento do serviço de terapia ocupacional e tecnologia assistiva e auxiliará no processo de disseminação dessa prática.

Palavras-chaves: Terapia Ocupacional, Unidade de Terapia Intensiva de Adulto, Equipamentos de Autoajuda, Tecnologia de Baixo Custo.

1. INTRODUÇÃO

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um serviço hospitalar designado a pessoas em situação grave ou de risco, em condições clínicas ou cirúrgicas, necessitando de cuidados intensivos contínuos, com monitorização durante vinte e quatro horas por dia, além de equipamentos e equipe multidisciplinar especializada (BRASIL, 2017). É um ambiente de alta complexidade, que oferece suporte e assistência integral ao paciente em estado crítico, visando sua estabilidade e recuperação do estado de saúde.

Os progressos da tecnologia nos cuidados intensivos aumentaram a sobrevivência de pessoas após as doenças críticas, no entanto o custo para essa sobrevida são as sequelas físicas e a diminuição da qualidade de vida desses indivíduos, bem como implicações sociais e emocionais (KOESTER et al., 2018). Sabe-se que para que esse impacto negativo diminua esses pacientes necessitam de uma atenção integral e holística, com uma equipe interdisciplinar que ofereça assistividade precoce e proporcione medidas de conforto e qualidade de vida ainda no período de internação hospitalar.

Apesar do grande avanço tecnológico e assistencial, o ambiente da UTI não deixa de ser um lugar hostil e de grande sofrimento físico, emocional, psicológico e social para as pessoas que necessitam desse suporte de atendimento. E por isso as consequências negativas também trazem um impacto importante na vida desse sujeito que pode perdurar por longo período ou de forma permanente em sua vida após alta hospitalar.

O repouso absoluto no leito favorece o declínio funcional e traz como consequências a mobilidade reduzida, perda de massa muscular, dor e outros déficits importantes, que contribuem para a dependência nas atividades diárias (OKUMA et al., 2017). Diante disso, sabe-se que é comum que pacientes internados em UTI permaneçam restritos completamente no leito, com diminuição da mobilidade, mesmo sem indicação hemodinâmica, durante as intervenções da rotina assistencial, o que gera consequências negativas e graves.

Em 24 de fevereiro de 2010, a Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA), estabeleceu a atuação do profissional Terapeuta Ocupacional (TO) como parte da equipe assistencial da UTI, considerando que o paciente crítico necessita de uma assistência interdisciplinar para atender suas demandas integrais (BRASIL, 2010).

A atuação do terapeuta ocupacional junto a pacientes hospitalizados proporciona melhor enfrentamento da condição de internação, melhores níveis de independência, funcionalidade e qualidade de vida, bem como pode facilitar a retomada da vida cotidiana e a participação social dos indivíduos. A intervenção terapêutica ocupacional é apontada como promotora do resgate da vida cotidiana impactada pelo adoecimento e pela situação de hospitalização (DE CARLO; LUZO, 2004). Considerando que os pacientes críticos estão em estado hemodinâmico, fisiológico e psicossocial desequilibrados, é necessário que o profissional se aproprie da rotina de uma UTI, do funcionamento de seus equipamentos, para desenvolver segurança prática, utilizando estratégias técnicas e manejando a instabilidade dos pacientes críticos (BOMBARDA et al., 2016).

“As intervenções da TO afetam diretamente a pessoa por meio de interações sensoriais, motoras e cognitivas, e/ou relativas ao ambiente, com inter­venções físicas e sociais” (TOBAR; ALVAREZ; GARRIDO, 2017). O Terapeuta Ocupacional é um profissional habilitado em avaliar a história ocupacional e analisar as atividades, para traçar um plano de intervenção baseada em aspectos subjetivos dos pacientes, atentando-se para a viabilidade do que será proposto, visando como objetivo a assistividade precoce, priorizando o conforto, qualidade de vida e potencializando a diminuição dos déficits no período de internação, que perdurará com benefícios após a alta hospitalar.

Sabendo que a Tecnologia pode ser compreendida como um “conjunto de conhecimentos, especialmente princípios científicos, aplicados a determinado ramo de atividade” (FIALHO, et al., 2015), considera-se um grande aliado, que facilita a intervenção da terapia ocupacional e a vida dos indivíduos que são beneficiados, pois através dele consegue-se alcançar diversas áreas do conhecimento e de atuação, colaborando para o desenvolvimento de artigos inovadores principalmente no campo da saúde.

As tecnologias envolvidas no cuidado em saúde são classificadas como leve, leve-dura e dura. As tecnologias leves estão voltadas para o acolhimento, cuidado integral e relacional, considerando os trabalhadores e usuários em sua necessidade subjetiva no processo do cuidado; As tecnologias leve-duras contam-se como saberes estruturados, que compreendem conhecimentos técnico-científicos em relação a maneira como cada profissional aplica o conhecimento para produzir o cuidado; As tecnologias duras são aquelas que se utilizam de normas, instrumentos e equipamentos tecnológicos (MERHY; FRANCO, 2003).

Uma das áreas de intervenção da Terapia Ocupacional é a Tecnologia Assistiva (TA), que “abrange recursos, serviços, estratégias e técnicas com o objetivo de proporcionar melhor qualidade de vida aos indivíduos com perdas funcionais transitórias ou permanentes […]” (PELOSI; GOMES, 2018). Esse profissional se utiliza da Tecnologia Assistiva (TA) nas suas intervenções, como um meio facilitador do processo de reabilitação e promoção da qualidade de vida, podendo empregar meios, recursos, adaptações e dispositivos que facilitam o desempenho motor, cognitivo, sensorial e social do paciente.

O Comitê de Ajuda Técnicas, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, estabelece uma definição que é aceita em todo território brasileiro:

Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2009, p. 58).

Os recursos e serviços de Tecnologia Assistiva se organizam em algumas categorias de acordo com os objetivos funcionais a que se aplicam, tais como auxílios para a vida diária e vida prática; comunicação aumentativa e alternativa (CAA); recursos de acessibilidade ao computador; sistemas de controle de ambiente; projetos arquitetônicos para acessibilidade; órteses e próteses; adequação postural; auxílios de mobilidade; auxílios para ampliação da função visual e recursos que traduzem conteúdos visuais em áudio ou informação tátil; auxílios para melhorar a função auditiva e recursos utilizados para traduzir os conteúdos de áudio em imagens, texto e língua de sinais; mobilidade em veículos; e esporte e lazer (BERSCH, 2017). Esse leque de possibilidades promove oportunidades de oferecer uma qualidade de vida maior, que gera autonomia e independência na vida das pessoas.

Classifica-se a TA como concreta ou teórica. Sendo a concreta o objeto ou recurso de fato, e a teórica as intervenções que incluem treinamentos e instrução de conhecimentos. Os dispositivos de TA podem ser intitulados como equipamentos ou instrumentos. Será um equipamento quando este puder oferecer uma função que beneficia o usuário. E um instrumento quando a aplicabilidade do uso depender da funcionalidade da pessoa (PELOSI; GOMES, 2018).

Diante disso, pode-se dizer que a Tecnologia Assistiva está classificada dentro das tecnologias leveduras e duras, porém não se desconsidera que antes de oferecer o serviço ou o produto, é inevitável que não perpasse pela tecnologia leve, pois é onde o processo de vínculo entre profissional e paciente é construído, através da relação e do acolhimento.

Para realizar algum serviço de TA o profissional fará a avaliação, a seleção do dispositivo adequado, orientação e treino de uso do recurso, acompanhamento durante a implementação e adaptação, as reavaliações e os ajustes que forem necessários (BERSCH, 2017). O terapeuta ocupacional pode desempenhar todo esse trabalho na UTI, seguindo além da singularidade do paciente, as particularidades que o ambiente exige.

Todo o trabalho desenvolvido em um serviço de TA deverá envolver diretamente o usuário e terá como base o conhecimento de seu contexto de vida, a valorização de suas intenções e necessidades funcionais pessoais, bem como a identificação de suas habilidades atuais. A equipe de profissionais contribuirá com a avaliação do potencial físico, sensorial e cognitivo do usuário; com o conhecimento a respeito dos recursos de TA disponíveis no mercado ou que deverão ser projetados para uma necessidade particular (BERSCH, 2017, p. 13).

Pacientes internados e que estão com dificuldade de comunicação, serão afetados pelo ambiente físico e social do hospital, que influenciarão negativamente na sua relação com a equipe multiprofissional, impossibilitando o entendimento de necessidades básicas (NASCIMENTO, et al., 2017). Nesse sentido, observa-se que o benefício do uso de recursos de TA estende-se para quem está ao entorno do usuário, porém além de dispositivos para CAA, é necessário a implementação de outros recursos que podem oferecer muitos ganhos na qualidade de vida do paciente durante sua estadia na UTI, e consequentemente prevenir maiores déficits após a alta.

No entanto, apesar de oferecer diferentes possibilidades de apresentação, utilidade e funcionalidade, pouco se é conhecido e utilizado no que diz respeito ao processo de avaliação, prescrição e confecção desses recursos pelo profissional Terapeuta Ocupacional na UTI, gerando um desconhecimento também por parte da equipe multiprofissional sobre a importância e a necessidade desses recursos para o paciente.

Uma vez que o Terapeuta Ocupacional não maneja bem a utilização da TA na UTI, consequentemente a equipe também terá desconhecimento da necessidade de algum recurso para o paciente quando for preciso, podendo delongar ou inviabilizar o acesso aos dispositivos.

“A obtenção de percepções da equipe de modo condizente ao trabalho efetivado parte do pressuposto de uma prática interdisciplinar” (BOMBARDA et al., 2016). De fato, através do conhecimento surgirá a necessidade, e todo trabalho realizado resultará em empoderamento do profissional atuante em TA e da equipe participante.

Com o propósito de mensurar e disseminar o conhecimento sobre as possibilidades da TA para o paciente crítico, deu-se a necessidade de realizar tal pesquisa. Pois de fato o uso da TA na UTI é carregado de muitos desafios, desde o processo de planejamento, avaliação, confecção, utilização e higienização.

E não depende apenas do profissional Terapeuta Ocupacional para acontecer, pois exige uma dinâmica entre conhecimento da equipe sobre a intervenção e os dispositivos, sensibilização da importância do uso para o processo de reabilitação e qualidade de vida do paciente, bem como a continuidade e acompanhamento dos cuidados diários. Sabendo que a cada plantão muda os profissionais assistenciais, o que exige organização e comunicação entre as equipes.

Destaca-se como relevante a importância deste trabalho, por ter caráter social e acadêmico, que busca construir conhecimentos, baseados em preceitos teóricos para alicerçar a construção, utilização e fortalecimento do uso de recursos de Tecnologia Assistiva (TA) na UTI, que visa proporcionar melhorias no desempenho e na qualidade de vida de pacientes críticos, tanto no contexto hospitalar, como no familiar, após a alta.

Assim, o presente estudo tem o objetivo de identificar o conhecimento e descrever a percepção da equipe multiprofissional da UTI, acerca da utilização de recursos e equipamentos de Tecnologia Assistiva, pelo profissional Terapeuta Ocupacional, no paciente crítico.

2. DESENHO DO ESTUDO

O estudo foi delineado através do parecer técnico do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Geral de Fortaleza, sob o nº 3.814.904.

A pesquisa proposta se configura como Aplicada, em que “abrange estudos elaborados com a finalidade de resolver problemas identificados no âmbito das sociedades em que os pesquisadores vivem” (GIL, 2017, p. 24). Gerando mais conhecimentos e questões a serem destrinchadas através da pesquisa.

Ainda trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa descritiva exploratória.

A abordagem qualitativa corresponde a questões mais subjetivas, adentrando o âmbito dos significados, das relações, das representações, crenças, percepções e opiniões, relacionadas com a interpretação do ser humano sobre seu modo de agir e de pensar no meio da realidade em que vive através do compartilhamento dessas experiências com o outro que o cerca (MINAYO, 2016). A autora concorda que nesse tipo de pesquisa o pesquisador utiliza as experiências de vida para auxiliar e analisar no desmembramento do estudo.

A pesquisa descritiva busca descrever características de uma delimitada população ou fenômeno, buscando saber suas opiniões, atitudes e crenças, além de identificar possíveis relações entre as variáveis analisadas, investigando a natureza dessa relação (GIL, 2017).

Já a pesquisa exploratória tem como propósito criar mais “familiaridade com um problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses”. Podendo a sua delineação ser mais flexível, considerando os diversos aspectos do que está sendo estudado (GIL, 2017).

Dessa forma a pesquisa exploratória e descritiva é um estudo que visa conhecer o que será estudado, observando, descrevendo e documentando aspectos do objeto de estudo, para a partir disso formar um pensamento advindo das experiências humanas.

O estudo aconteceu no período de janeiro de 2020, a fevereiro de 2020, na Unidade de Terapia Intensiva Adulto, que atende pessoas com perfis clínicos diversos, em sua grande maioria tratando de doenças críticas gastrointestinais e neurológicas, do Hospital Geral de nível quaternário, localizado na cidade de Fortaleza – CE.

Em meio as vivências do programa de Residência Multiprofissional em Terapia Intensiva, observou-se que havia um desconhecimento ou um conhecimento vago, por parte da equipe multidisciplinar da UTI, em relação a atuação do Terapeuta Ocupacional utilizando serviços de tecnologia assistiva como meio de intervenção nos pacientes críticos. E diante disso, considerou-se como participantes do estudo, os profissionais da saúde, de nível técnico e superior, podendo ser residente médico ou multiprofissional com escala fixa de pelo menos um mês na UTI.

O estudo utilizou-se de uma entrevista semiestruturada, como método de coleta de informações, que Minayo (2010, p. 64) se refere como a combinação de “perguntas fechadas e abertas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender a indagação formulada”.

Como método de análise de dados da pesquisa, utilizou-se o método Análise Temática, que tem como enfoque o tema que está sendo abordado, pois é através dele que se destrincha todo o texto, analisado de acordo com as teorias utilizadas, o que auxilia para a descoberta do centro da comunicação da pesquisa que aparece com mais frequência, podendo significar o objetivo de análise do estudo (MINAYO, 2010).

A pesquisa seguiu os princípios éticos recomendados pela Resolução nº 466/2012 do Ministério da Saúde (BRASIL, 2012). A citada Resolução indica, sob a perspectiva do indivíduo e das coletividades, referenciais da bioética, como, autonomia, não maleficência, beneficência, justiça e equidade, entre outros, e visa a assegurar os direitos e deveres que dizem respeito aos participantes da pesquisa, à população científica e ao Estado. Os participantes foram orientados e esclarecidos sobre os objetivos da pesquisa e receberam um convite formal mediante a apresentação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Foram adotadas atitudes éticas durante todo o processo de desenvolvimento do estudo, perpassando pelo tema, objetivos da pesquisa e análise temática durante todo seguimento da pesquisa.

3. RESULTADOS

A amostra foi composta por trinta e dois profissionais da saúde (100%) com idade entre 20 a 48 anos. Sendo eles um Terapeuta Ocupacional (3%), sete Enfermeiros (22%), quatro Enfermeiros residentes (13%), dois Técnicos de Enfermagem (6%), sete Fisioterapeutas (22%), quatro Fisioterapeutas residentes (13%), dois Médicos (6%), dois Farmacêuticos residentes (6%), um Fonoaudiólogo residente (3%), um Nutricionista (3%) e um Nutricionista residente (3%) (Figura 1).

Figura 1. Profissionais de saúde da UTI, participantes da pesquisa.

Fonte: Elaboração própria.

Os resultados da coleta foram divididos em alguns tópicos temáticos, que são eles: conhecimento, significado, recurso e profissional. Tomando como norteadores para o recolhimento de informações válidas, em busca de atingir o objetivo da pesquisa (Tabela 1).

Tabela 1 – Base de conteúdo presente no instrumento de coleta de dados da pesquisa

TÓPICOS TEMÁTICOS AÇÕES
Conhecimento Conhecimento sobre o termo Tecnologia Assistiva
Significado Ideia do que significa TA e sua importância
Recursos Recurso de TA que já foi presenciado sendo utilizado na UTI
Profissional Profissional que foi visto utilizando tal recurso.

Fonte: Elaboração própria

O inicio do roteiro da entrevista consistiu buscar o conhecimento de quanto é conhecido à expressão Tecnologia Assistiva, visto que é um termo ainda novo, pouco sabido ou erroneamente identificado pelas pessoas. Dessa forma foi possível perceber que 66% dos profissionais das diferentes categorias responderam que já ouviram falar sobre tal termo e 34% nunca ouviram falar. Porém, o saber do conceito de fato, nem todos que responderam “sim” no quesito conhecimento, soube responder o real significado e importância da TA. Isso porque 24% dos profissionais entrevistados que responderam que conheciam o termo, não souberam relatar o conceito correto de Tecnologia Assistiva (Figura 2).

Figura 2 – Porcentagem de conhecimento dos profissionais sobre o termo Tecnologia Assistiva.

Fonte: Elaboração própria.

No entanto, em geral, as respostas descritas pelos entrevistados em relação ao conhecimento da TA, foi baseada em torno de relatos envolvendo melhora no desempenho da funcionalidade, atividade de vida diária e diminuição do tempo de internação.

Os recursos de TA elencados na pesquisa se destacaram em: órtese de membros superiores, órtese de membros inferiores, mobiliários e adaptações. Onde foi trazido pelos profissionais, que os recursos de TA mais utilizados na UTI em que trabalhavam, são os mobiliários, as órteses de membros superiores e as adaptações de utensílios facilitadores das atividades diárias básicas.

Os profissionais que mais foram avistados utilizando esses recursos foram, em sua grande maioria, o terapeuta ocupacional e o fisioterapeuta. No entanto também foi mencionado nos dados coletados da pesquisa, que o profissional enfermeiro e fonoaudiólogo também se beneficiam de tais recursos na prática profissional dentro da UTI.

4. DISCUSSÃO

Tecnologia Assistiva ainda é um conceito novo, que muitas vezes passa despercebido em meio ao fazer da prática de vários profissionais. O termo Assistive Technology foi criado em 1988 na legislação norte-americana e foi renovado em 1998, onde regula os direitos dos cidadãos com deficiência dos Estados Unidos (BERSHS, 2017). Todavia, somente em 2006 que o presente termo, Tecnologia Assistiva, foi traduzido e recebeu uma definição brasileira pelo Comitê de Ajudas Técnicas (BRASIL, 2009).

Nesse sentido, é compreensível considerar que parte dos profissionais participantes do estudo, mesmo que conhecedores do termo, ainda são leigos do significado e do fazer efetivo da Tecnologia Assistiva. Uma vez que a TA é envolvida por uma complexidade de possibilidades, que podem ser oferecidas para beneficio da prática profissional e para qualidade de vida do paciente.

Os recursos de TA mais utilizados na UTI, que foram abordados pelos profissionais na pesquisa, são aqueles que proporcionam o posicionamento funcional e facilitam a realização de atividades básicas de vida diária, bem como a viabilização da comunicação, levando em consideração os aspectos subjetivos e as necessidades individuais de cada sujeito.

Muitas vezes é necessário que o profissional se reajuste, para que tenha condições de oferecer tais dispositivos, sabendo que, nem sempre a rede de saúde pública oferece materiais para a confecção desses recursos. Carraretto e Aguiar (2018, p. 249) relatam que a “criatividade no uso de materiais alternativos de baixo custo é a solução encontrada por terapeutas ocupacionais para indicação personalizadas, com o propósito de viabilizar o treino das AVDs e AIVDs”.

O terapeuta ocupacional avalia a individualidade da pessoa, os aspectos socioculturais e ambientais, além de orientar e acompanhar acerca do uso do equipamento, oferecendo suporte aos profissionais que estão envolvidos com esse paciente (PELOSI; GOMES, 2018). E por esse motivo é tão necessário que haja conhecimento da equipe acerca dos recursos de TA, uma vez que o trabalho precisa ser realizado de forma integrada.

A TA é uma área de cunho interdisciplinar que abrange diversas áreas do conhecimento, sendo da saúde ou não, e que envolve também os usuários e seus familiares (PELOSI; GOMES, 2018). E é de fundamental importância, que a equipe multidisciplinar tenha conhecimento disto, para dar continuidade e fazer parte do serviço de TA oferecido pelo terapeuta ocupacional na UTI.

O trabalho de uma equipe interdisciplinar tem a capacidade de oferecer serviços centrados no usuário, com um olhar holístico sobre as necessidades do sujeito (FARIAS et al., 2018). Essa pesquisa buscou conhecer como os profissionais percebiam o uso da TA pelo TO na UTI, e durante a coleta dos dados do estudo percebeu-se que houve um maior interesse por parte da equipe de aproximar-se para entender melhor o processo de trabalho do TO durante a rotina. Entretanto, deve-se levar em consideração que houve dificuldades para coletar os dados, visto que a rotina da UTI é muito dinâmica e o tempo dos profissionais muito restrito.

Sabe-se que buscar conhecimento sobre o fazer do outro profissional, não o faz invasor da área alheia, mas sim, cooperador de um trabalho mais integrado e completo, com o objetivo de oferecer um serviço com menos lacunas.

No entanto a cultura que foi anteriormente estabelecida, onde cada profissão faz o seu trabalho, ainda é muito predominante na rotina dessa unidade, o que dificulta muito o estabelecimento da assistividade precoce nos pacientes críticos, visto que muitos profissionais ainda mantêm resistência em aceitar, valorizar e participar de um cuidado mais humanizado e sensibilizado para esse sujeito, que o fazer do TO, juntamente com a equipe multidisciplinar e alguns recursos e serviços de TA pode oferecer.

Vale ressaltar que a disponibilização de tecnologias assistivas no CTI do presente estudo, ainda está muito aquém do que realmente o serviço necessita, bem como profissionais capacitados e disponibilizados para tal proposta. Assim também se pode considerar que além dos fatores que foram mencionados nesse estudo, ter um serviço com pouca estrutura pessoal e estrutural, também contribui para um serviço pouco ostensivo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O terapeuta ocupacional vem buscando ganhar seu espaço no contexto da terapia intensiva inserindo seu fazer multidimensional nesse cenário rico de possibilidades. Onde inserir a tecnologia assistiva é dar um passo de ousadia para alcançar maiores alternativas de oferecer qualidade de vida para o paciente, durante e depois do período de internação.

Verificou-se que ainda é pouco sabido sobre o uso desses dispositivos no presente contexto, o que dificulta a disseminação e estimulação da prescrição, encaminhamentos e reconhecimento da necessidade desse serviço na UTI.

É necessário maior investimento pessoal, estrutural e material, para o crescimento do serviço de terapia ocupacional e tecnologia assistiva, que consequentemente fará a sensibilização da equipe através da prática, mostrando a diferença que esses dispositivos fazem no processo de tratamento do paciente.

Considera-se que a partir desta experiência, possa estimular o desenvolvimento de práticas e pesquisas nesse contexto, a fim de evidenciar a importância dessa temática para idealizar o que se tem desenvolvido e elaborar o fortalecimento da atuação do terapeuta ocupacional neste âmbito.

REFERÊNCIAS

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DE CARLO Marysia Mara Rodrigues do Prado; KUDO, Aide Mitie. Terapia Ocupacional: em contextos hospitalares e cuidados paliativos. São Paulo: Payá; 2018.

FARIAS, Danyelle Nóbrega de. et al. Interdisciplinaridade e interprofissionalidade na estratégia saúde da família. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p.141-162, jan./abr. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/tes/v16n1/1678-1007-tes-1981-7746-sol00098.pdf. Acesso em: 20 ago. 2020.

FIALHO, Flavia Andrade. et al. Tecnologias aplicadas pela enfermagem no cuidado neonatal. Revista Baiana de Enfermagem, Salvador, v. 29, n. 1, p.23-32, mar. 2015. Disponível em: https://portalseer.ufba.br/index.php/enfermagem/article/viewFile/12309/9538. Acesso em: 02 dez. 2019.

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[1] Residência Multiprofissional em Terapia Intensiva do Hospital Geral de Fortaleza. Especialização em Neurociência e Reabilitação. Graduação em Terapia Ocupacional. Fortaleza – Ceará, Brasil.

[2] Orientadora. Mestrado em Psicologia. Especialista em Psicomotricidade e Ontogênese da Motricidade. Graduação em Terapia Ocupacional.  Coordenadora e docente do curso de pós graduação em Neurociências e Reabilitação e coordenadora de cursos de pós graduação da Escola de Saúde da Universidade de Fortaleza – Ceará, Brasil.

Enviado: Outubro, 2020.

Aprovado: Maio, 2021.

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