Rinosporidiose Nasal: Relato De Caso

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/rinosporidiose-nasal
Rinosporidiose Nasal: Relato De Caso
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ARTIGO ORIGINAL

RIBEIRO, Fernando Rodrigues [1], AMARAL, Flavio Cabral de Freitas [2], ESPOSITO, Mario Pinheiro [3], LOSS, Thais Baratela [4], PIN, Laís Cristina [5], LIMA, Fabrizzio Omir Barbosa Barros [6]

RIBEIRO, Fernando Rodrigues. Et al. Rinosporidiose Nasal: Relato De Caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 01, Vol. 02, pp. 77-83 . Janeiro de 2019. ISSN:2448-0959

RESUMO

A Rinosporidiose é uma doença granulomatosa crônica causada pelo Rhinosporidium seeberi. Em alguns países da Ásia é considerada uma doença endêmica, porém é rara em nosso país. Tem evolução lenta e os pacientes acometidos geralmente apresentam obstrução nasal progressiva unilateral e episódios de epistaxe. O tratamento é feito com remoção cirúrgica da lesão e eletrocauterização de sua implantação. Apresentamos um caso de Rinosporidiose nasal acometendo um paciente de 12 anos que iniciou os sintomas da doença há 3 anos e que apresentou boa resposta ao tratamento cirúrgico.

Palavras-chave: Rinosporidiose nasal, obstrução nasal, granulomatose, Rhinosporidium seeberi.

INTRODUÇÃO

A Rinosporidiose é uma doença granulomatosa crônica e rara, causada pelo Rhinosporidium seeberi. Acomete mais comumente a mucosa nasal (70% dos casos), porém pode afetar a nasofaringe, conjuntiva, uretra e genitália 1,2,3.

Trata-se de uma doença endêmica em algumas áreas da Ásia, principalmente nos trópicos. Raramente acomete crianças, sendo mais comum em homens na segunda ou terceira década de vida 1.

Clinicamente apresenta-se como pólipo friável, de consistência amolecida, aspecto moriforme, sendo seus sintomas mais frequentes a obstrução nasal e epistaxe. Pode acometer, além da raça humana, outros animais como cavalos, bovinos e gansos 2.

O tratamento mais efetivo é a excisão cirúrgica da lesão com eletrocoagulação de sua base 4,5.

RELATO DO CASO

Paciente LBF, 12 anos de idade, sexo masculino, cor parda, procedente de zona rural do município de Barão de Melgaço-MT. Procurou atendimento médico em nosso serviço devido queixa de obstrução nasal progressiva em fossa nasal esquerda, sensação de corpo estranho e episódios de epistaxes há 3 anos. Apresentava ainda, história de banhos e mergulhos frequentes em represas e lagos.

À rinoscopia anterior, apresentava em assoalho de fossa nasal esquerda, lesão de aspecto moriforme, coloração levemente rosácea, consistência firme e provável implantação em porção posterior de corneto nasal inferior esquerdo.

O exame de videonasofibroscopia confirmou os achados da rinoscopia anterior e ajudou a delimitar melhor a extensão da lesão.

A tomografia de seios da face demonstrou assimetria dos cornetos nasais inferiores, estando o esquerdo com maior volume e obliterando a coluna aérea regional (Figura 1).

Figura 1. Tomografia computadorizada de seios da face com contraste, corte axial. Observa-se diminuição da coluna aérea em fossa nasal esquerda.

Fonte: autor

Após realização dos exames complementares levantou-se a hipótese de papiloma nasossinusal. O paciente foi então encaminhado para cirurgia, sendo na ocasião utilizado anestesia geral e acesso cirúrgico endonasal com auxílio de endoscópio de 0°. Foi feita remoção completa da lesão com eletrocauterização de sua implantação.

O exame anatomopatológico mostrou epitélio do tipo malpighiano, estroma edemaciado, bem vascularizado, tendo de permeio infiltrado linfoplasmocitário, ácinos e ductos de glândulas mucosecretoras, granulomas com células gigantes multinucleadas do tipo corpo estranho e estruturas fúngicas constituídas por esporângios contendo esporangiosporos identificados como Rinosporidium spp (Figuras 2 e 3).

O paciente apresentou boa evolução no período pós-operatório, com remissão completa dos sintomas relatados inicialmente e sem recidiva da lesão até o momento.

Figura 2. Coloração Grocott. Aumento 100X. Presença de esporângios em diferentes estágios de maturação com presença de numerosos endosporos em seu interior.

Fonte: autor

Figura 3. Coloração hematoxilina eosina. Aumento 100X. Presença de numerosos esporângios circundados por importante infiltrado inflamatório misto.

Fonte: autor

DISCUSSÃO

A rinosporidiose nasal é uma infecção endêmica de regiões da Ásia, como Índia e Siri Lanka, mais pode ser encontrada em outras partes do mundo como Américas, Europa e África. Predomina em zonas tropicais e subtropicais e se considera que 90% dos casos são provenientes da Ásia enquanto menos de 5% são encontrados na América do Sul 4,6. No Brasil existem poucos casos descritos, estatística essa que pode ser falha pela não notificação de todos os casos e por nem todos os pólipos nasais excisados cirurgicamente serem submetidos a exame histopatológico 2.

Devem-se a Seeber, na Argentina, em 1896, os primeiros estudos a respeito, ao observar os microrganismos nos cortes de pólipo nasal de um jovem agricultor; seu mestre Wernicke, em 1900, chamou-os de Coccidium seeberi. Na Índia, em 1903, O’Kinealq, desconhecendo os trabalhos de Seeber, isolou o mesmo microrganismo o qual, juntamente com Minchin e Fanthann, denominou Rhinosporidium kinealy. Em 1912, Seeber reivindicou a prioridade da descoberta e passou a chamá-la de Rhinosporidium seeberi, devido à frequente localização na mucosa nasal 7.

Acomete todas as faixas etárias, com pico de incidência ao redor da 2ª ou 3ª década com proporção homem:mulher de 3:1. As populações de baixo nível sócio-econômico são mais freqüentemente acometidas com boa parte dos doentes provenientes de zona rural, sobretudo agricultores (“doença profissional”) e nadadores de lagoas 3,2.

Sugere-se que o solo com partículas de fezes secas de animais e a água podem estar contaminadas com esporos do patógeno, assim a inalação da poeira e/ou o contato da mucosa nasal com água contaminada inoculadas via microtraumatismos dígitos-ungueais seriam os possíveis meios de transmissão, explicando a predominância na cavidade nasal e conjuntiva ocular 2,1. Este patógeno levaria à inflamação do tecido mucocutâneo, penetraria no tecido profundo, onde cresceria por divisão amitótica ou multiplicação assexuada, formando os esporos que se uniriam para formar o esporângio 7.

O exame clínico mostra massa de aspecto polipóide, friável, sangrante ao toque, indolor, finamente lobulada séssil ou pediculada, moriforme. A implantação septal é a mais comum, podendo provir também do corneto inferior e do assoalho nasal 3. O diagnóstico raramente é feito clinicamente. A punção aspirativa por agulha fina (PAAF) e a biópsia, através do estudo histopatológico e citológico da lesão, definem o diagnóstico 1.

Quanto ao diagnóstico diferencial é preciso ter em conta lesões como rinoescleroma, hemangiofibromas e carcinomas, assim como enfermidades infecciosas: granuloma piogênico, coccidioidomicose, paracoccidioidomicose, criptococose e aspergilose 5.

O tratamento mais efetivo é a extirpação cirúrgica da lesão com eletrocoagulação de sua base 5. O tratamento clínico não é recomendado, pois não oferece resultados favoráveis 7. A falha em cultivar o Rhinosporidium seeberi in vitro impediu a determinação de sua sensibilidade in vitro a fármacos que possam ter aplicação clínica 5,7.

Recorrência, disseminação em locais anatomicamente próximos e infecções bacterianas são as complicações mais frequentes. Porém, o prognóstico é bom quando a excisão for total 7,8.

CONCLUSÃO

Apesar de ser uma doença rara em nosso meio, como exposto arteriormente, a rinosporidiose nasal deve ser sempre lembrada nas hipóteses diagnósticas em pacientes com história de obstrução nasal, principalmente se os doentes forem procedentes de zona rural e com exposição à água parada, como lagoas e represas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CROSARA, P.F.T.B.; BECKER, C.G.; FREITAS, V.A.; NUNES, F.B.; BECKER, H.M.G.; GUIMARAES, R.E.S.; et al. Nasal Rhinosporidiosis: Differential Diagnosis of Fungal Sinusitis and Inverted Papilloma. Int. Arch. Otorhinolaryngol, 13(1):93-95, 2009.

2. ABDU, L.N; PEREIRA, J.C.; Nasal Rhinosporidiosis: Four cases relate and literature review. International Archives of Otorhinolaryngology, 11(2):214-219, 2007.

3. FRANÇA JR, G.V.; Rinosporidiose na infância. Jornal de pediatria, 70(5):299-301, 1994.

4. KARIN, K.M; BAHAMONDE, S.H.; KARLE, P.M.; Rinosporidiosis nasal: Reporte de un nuevo caso y revisión de la literaturaRev. Otorrinolaringol. Cir. Cabeza Cuello, 76( 3):320-324, 2016.

5. PÉREZ, R.I.M.; VÁSQUEZ, C.M.C.; DUNCAN, C.A.V.; GRICE, O.M.; Differential diagnosis of rhinosporidiosis: report of a case. Iatreia, 25(3):272-276, 2012.

6.VALLARELLI, A.F.A.; ROSA, S.P.; SOUZA, E.M.; Rinosporidiose: manifestação cutânea. Anais Brasileiros de Dermatologia, 86(2):373-4, 2011.

7. PATROCINIO, L.G.; PATROCINIO, T.G; PATROCINIO, J.A.; MANIGLIA, J.V.; Granulomatoses Nasais. In: Pignatari SSN, Lima WTA, eds, Tratado de Otorrinolaringologia, 3 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

8. DAS, S.; KASHYAP, B.; BARUA, M.; et al. Nasal Rhinosporidiosis in humans: new interpretations and a review of the literature of this enigmatic disease. Med. Mycol, 49:311-315, 2011.

[1] Residente em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial do Hospital Otorrino de Cuiabá-MT.

[2] Especialista em Otorrinolaringologia pela Universidade de São Paulo.

[3] Doutor em Otorrinolaringologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Coordenador da Residência de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial do Hospital Otorrino de Cuiabá.

[4] Residente em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial do Hospital Otorrino de Cuiabá-MT.

[5] Residente em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial do Hospital Otorrino de Cuiabá-MT.

[6] Residente em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial do Hospital Otorrino de Cuiabá-MT.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Janeiro, 2019

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