Construção e validação de conteúdo de uma tabela de classificação de risco de quedas em idosos

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ARTIGO ORIGINAL

SOUSA, Natalia Silva de [1], BARBOSA, Ana Cláudia [2]

SOUSA, Natalia Silva de. BARBOSA, Ana Cláudia. Construção e validação de conteúdo de uma tabela de classificação de risco de quedas em idosos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 10, Vol. 03, pp. 127-145. Outubro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/construcao-e-validacao

RESUMO

Introdução: O evento queda é definido como sendo multifatorial, tendo como causa fatores intrínsecos ou extrínsecos. Para que o evento queda venha a acontecer algumas características devem ser observadas e considerando que uma queda em idosos pode acarretar a incapacidade, necessário se faz um Estudo aprofundado sobre o real risco no idoso através de instrumentos de avaliação. Objetivo: Construir e validar o conteúdo de um instrumento voltado para classificação de risco de quedas em idosos. Metodologia: O presente estudo  foi realizado através uma revisão integrativa, do tipo de criação e validação de conteúdo de um instrumento para classificação de risco de queda em idosos. Resultados: Apresentação de  uma nova versão do instrumento, agora denominado “Escala de Classificação de Risco de Quedas em Idosos”. Conclusão: Revelou-se através do resultado o quão importante se fez o referido estudo, já que os questionários válidos e fidedignos podem conduzir a uma construção de diagnósticos situacionais mais precisos.

Palavra Chave: Queda, idosos, tabela, instrumento.

1. INTRODUÇÃO

É sabido que com o passar dos anos o corpo envelhece e devido a tal fator natural o organismo passa por diversas mudanças, como a diminuição da capacidade funcional que pode um dos fatores principais determinantes para o risco de queda em idosos e necessitam de mais atenção visto que podem gerar diversos agravos à saúde do mesmo.

Para que o evento queda venha a acontecer, algumas características individuais dos idosos podem ser previamente “observadas”, tal como: a diminuição de força muscular, alteração do equilíbrio, presença de transtornos cognitivos e/ou comportamentais, entre outros fatores que contribuam para aumentar o risco de queda (ALMEIDA, 2012).

Considerando que a queda em idosos pode levar a incapacidades, diminuindo sua autonomia, torna-se necessário um melhor aprofundamento sobre o real risco no idoso. Esse aprofundamento pode ser realizado através do uso de instrumentos de avaliação (MAIA et al., 2010).

Através da aplicação dos instrumentos, dependendo de qual for utilizado, podem ser obtidos dados relacionados aos fatores preditores de queda em pessoas idosas, contemplando tanto os fatores intrínsecos quanto extrínsecos. Alguns instrumentos, além de predizer o risco de queda, também possibilitam avaliar o equilíbrio estático e dinâmico, por exemplo. Sendo assim, é fundamental o uso de instrumentos já validados, visto que estes contemplam questões específicas, que caracterizam o risco de queda em idosos (STETER et al., 2014).

A proposta de validação de um novo instrumento tem o intuito de demonstrar que este é capaz de mensurar exatamente o que se propõe. Além disso, previamente à validação do instrumento, está a construção e validação de seu conteúdo, processo que resgata o que há de mais recente na literatura, garantindo assim uma avaliação de maneira mais eficaz (ALEXANDRE; COLUCI, 2011).

A validação do conteúdo, ocorre quando o conteúdo que foi construído, passa pelo julgamento de juízes, com uma ampla experiência no tema em questão. Essa etapa é denominada Técnica de Delphi (JÚNIOR; MATSUDA, 2012).

Desta forma, o presente estudo se propõe a realizar a construção de uma tabela que classifique o risco de queda em idosos e posteriormente a validação do conteúdo por juízes.

2. METODOLOGIA

O presente estudo, de caráter metodológico, desenvolveu-se em duas etapas: Construção do instrumento e validação do conteúdo por juízes.

Na primeira etapa determinou-se com base na literatura, os principais fatores preditores de queda em idosos, elegendo os 10 fatores de origem intrínseca mais citados, e posteriormente foi confeccionado o instrumento, estabelecendo, categorizando e ponderando os fatores fundamentais para prenunciar o risco de queda.

A segunda parte do estudo é a validação do conteúdo por juízes. A validação do conteúdo do instrumento por juízes é realizada através de um instrumento próprio, de caráter qualitativo. Na avaliação por especialistas, segundo a literatura, recomenda-se no mínimo cinco e no máximo dez juízes. A análise é realizada nos julgamentos de juízes experientes na área, no qual os mesmos terão o objetivo de averiguar se o conteúdo está ou não adequado para o que está sendo proposto (ALEXANDRE; COLUCI, 2011).

3. RESULTADOS

Para criação da tabela de classificação de risco de queda em idoso, foram selecionados somente os fatores intrínsecos de risco de queda. Tais fatores têm características individuais específicas de cada idoso, fazendo com que o mesmo venha a sofrer o evento queda, definido como um episódio de desequilíbrio que leva o idoso ao chão.

Os fatores extrínsecos não foram incluídos na tabela, considerando que para avaliar esses fatores deve ser realizada uma avaliação ergonômica do ambiente no qual o idoso vive. Entretanto, é importante ressaltar que esses fatores foram levantados no presente estudo para que se tenha uma melhor orientação para o idoso e aqueles que convivem com o mesmo, fazendo com que o ele viva em um ambiente adaptado, proporcionando maior segurança e preservação da sua independência (COUTO, 2016).

3.1 ETAPAS DE CONSTRUÇÃO

A partir de uma revisão na literatura, foram escolhidos 11 artigos para construção da tabela de classificação de risco de queda em idosos.

Entre os fatores intrínsecos os mais citados foram: Alteração do equilíbrio 5/11, fraqueza muscular 5/11, osteomuscular 4/11, doenças neurossensoriais 4/11, alterações auditivas 4/11, idade 3/11, alterações visuais 3/11, uso de medicação 3/11, autopercepção de saúde 2/11, presença de doenças 2/11, alteração do controle postural 2/11, Doenças crônicas 2/11 e transtornos cognitivos 2/11.

Durante a construção do instrumento, considerou-se que de acordo com Perracini (2005), é importante separar os idosos em diferentes grupos, delimitando se sua exposição ao risco de queda é leve (1), moderado (2) ou grave (3). No qual leve – é indicado aplicação de cuidados básicos, moderado – Implementar um plano padronizado de prevenção de quedas e Grave – Implementação de medidas específicas fortemente recomendada.

Para que haja uma melhor eficácia na aplicação da tabela de classificação de risco de queda, é indicado que inicialmente, seja realizada uma anamnese com o idoso para compreender melhor sua história clínica. Durante a anamnese deve-se tomar certos cuidados, tais como: Falar devagar, de forma que o idoso consiga compreender o que está sendo solicitado; conduzir a anamnese oferecendo a liberdade do idoso poder se expressar; dar preferência a aplicação da anamnese com a presença do idoso e um familiar/acompanhante. Algumas informações podem não parecer importantes para o familiar ou até mesmo o próprio idoso, por isso é necessário fazer perguntas específicas, alguns exemplos são: quando foi a última queda; se houve sequelas; história medicamentosa, entre outros (FREITAS et al., 2011).

A partir dos dados que foram revisados na literatura, foi criada a Tabela de classificação de risco de queda em idosos apresentando os seguintes itens: idade, Fraqueza muscular, Velocidade da marcha, Alteração osteomuscular, Déficit sensorial – visão, Déficit sensorial – audição, Uso de medicações contínuas, Autopercepção de saúde, transtornos cognitivos, Presença de duas ou mais “condições de saúde/doenças crônicas”. O instrumento contém frente e verso. Na frente é possível observar a tabela de classificação de risco de queda e no verso, estão presentes orientações essenciais para o processo de aplicação da mesma.

Após construção da tabela de classificação de risco de queda, foi realizada a confecção de uma carta convite, um arquivo denominado “Instrução para o processo de avaliação do conteúdo da tabela de classificação de risco de queda em idosos” e um instrumento para o processo de validação do conteúdo pelos juízes, que foram divididos em Instrumento de Avaliação pelos Juízes_A e Instrumento de Avaliação pelos Juízes_B.

Os Instrumentos de Avaliação pelos Juízes foram criados com base nos modelos fornecidos por Medeiros e colaboradores, 2015. O instrumento A, permite uma avaliação de cada item da Tabela de classificação de risco de queda em idosos a partir dos seguintes padrões de desempenho esperados: relevante, obtenção da informação, prática baseada em evidência, padrão ouro e pertinência.

Já o Instrumento B, teve como proposta avaliar a tabela como um todo, considerando os seguintes quesitos: organização, clareza, simplicidade, facilidade de leitura, adequação do vocabulário, objetividade, precisão, credibilidade, adequação.

3.2 ETAPAS DE VALIDAÇÃO

Para realizar os procedimentos de validação do conteúdo, foram elencadas pessoas que tivessem afinidade com a área de gerontologia e feita uma consulta ao Lattes para confirmar expertise na área e/ou publicações afins. Assim, foram selecionados 12 potenciais juízes para realizar contato por meio de correio eletrônico.

No corpo do e-mail enviado, havia uma solicitação para que o/a juiz/a respondesse caso concordasse em participar do processo de validação do conteúdo. Bastava que o profissional colocasse seu nome/aceite na resposta de confirmação da participação. Em nenhum outro momento foi solicitado qualquer outro dado pessoal, sendo a partir de então denominado “Avaliador”, seguido de um número de 1 a 12.

Em anexo, estava presente a carta convite, abordando os objetivos do estudo, a justificativa do processo de validação, O arquivo de “Instrução para o processo de avaliação do conteúdo da tabela de classificação de risco de queda em idosos” e o arquivo para avaliação dos padrões de desempenho esperados. Foi estabelecido o prazo de 15 dias para a devolução do material (a partir da data de envio do e-mail). Entre as 12 pessoas selecionadas para compor o corpo de juízes, sete fizeram a devolutiva da avaliação do conteúdo.

4. DISCUSSÃO

Durante a construção dos materiais que seriam usados pelos juízes no momento de avaliação do conteúdo, foi preconizada padronização dos instrumentos, principalmente referindo-se ao Instrumento de Avaliação pelos Juízes_A. Dessa forma, observou-se que pelo fato de nem todos os itens atenderem ao quesito padrão ouro, havia a necessidade de inserir uma coluna “não se aplica” (N A), especificando caso o padrão de desempenho não se aplicasse ao item correspondente.

A partir do processo de validação do conteúdo da tabela, através da análise pelos juízes, foram obtidas diversas informações relevantes para o instrumento, tanto para melhora da escrita quanto para uma melhor aplicabilidade do mesmo.

Através dos gráficos é possível verificar o padrão de respostas dos juízes representadas através de cores, no qual a cor azul se relaciona aos itens que os julgadores julgaram como adequados, a cor alaranjada são os itens julgados inadequados, representados por amarelo são os itens julgados como não se aplica e os quesitos verdes foram os itens não respondidos pelos julgadores.

Figura 1: item idade

Fonte: dados fornecidos pelo autor

O julgamento dos avaliadores vai ao encontro do que é citado por Nascimento; Tavares (2016), que diz que há maior prevalência de quedas entre idosos com idade superior a 80 anos, sugerindo assim uma maior atenção ao idoso de acordo com sua idade. Pode-se também observar o risco de queda influenciado pela idade, no estudo de Gaweuszewski (2010), que ao analisar a característica de quedas relacionadas a idade, pode concluir que comparando indivíduos na faixa etária de 60 a 69 anos com indivíduos na faixa de 70 a 79 anos, o atendimento emergencial proveniente de queda aumentou 2,10 vezes e os indivíduos de 80 anos e mais foram 2,26 vezes mais prováveis de serem atendidos por motivo de queda (REMOR; BÓS; WERLANG, 2011).

Figura 2: item Força Muscular

Fonte: dados fornecidos pelo autor

No que se refere ao item força muscular, esses pontos refletem-se na postura e no equilíbrio, alterando assim a marcha e facilitando o risco de quedas (GASPAROTTO; FALSARELLA; COIMBRA, 2014). O Medical Research Council (MRC) foi utilizado como referência para avaliar a força muscular pelas considerações encontradas em Santos, (2015) no qual destaca que é um teste rápido e eficaz para melhor avaliação da força muscular periférica. Tendo como base a análise do avaliador 6, em relação ao instrumento, a aplicabilidade do teste MRC é difícil em serviços de saúde. Porém segundo Santos, (2015) o mesmo é considerado uma das melhores formas de avaliação no quesito força muscular periférica. De acordo com De Jonghe (2002), os pacientes que obtiverem um escore MRC menor que 48, são considerados portadores de fraqueza muscular adquirida, enquanto a pontuação máxima, 60 pontos evidencia uma força muscular normal.

Figura 3: Velocidade da marcha

Fonte: dados fornecidos pelo autor

Fazendo referência ao item velocidade da marcha, o mesmo teve como proposta de avaliação, o Timed up and Go (TUG). Baseado na literatura, o teste também avalia algumas das tarefas motoras mais utilizadas nas atividades de vida diária, como controle postural e de equilíbrio. Sabe-se que alterações do controle postural e o déficit de equilíbrio é bastante comum entre os idosos, principalmente em idosos com idade superior aos 70 anos. Deve-se considerar como uma das causas a diminuição de força muscular ao decorrer dos anos. Esses itens anteriormente mencionados podem ser avaliados durante a marcha, para execução do teste e ao sentar e levantar da cadeira. Neste item somente um dos sete juízes julgaram o item como inadequado, (avaliador 4), justificando que o teste TUG não é um instrumento específico para avaliar o constructo da velocidade de marcha e sim a mobilidade humana. Sugeriu o uso de instrumentos mais específicos, tais como a velocidade de marcha de 3m ou 4, 6m ou de 10m. Este item foi revisto na literatura, considerando a observação do avaliador 4 e observou-se que, apesar do TUG também avaliar a velocidade da marcha, não se pode definir o item somente para esta finalidade, considerando que o mesmo também avalia: potência, agilidade e equilíbrio dinâmico. E que, juntos, avaliam a mobilidade funcional (PEDROSA; HOLANDA, 2009).

Figura 4 Avaliação do item força muscular

Fonte: dados fornecidos pelo autor

No item, alteração osteomuscular, alguns dos juízes questionaram como seria realizada a obtenção da informação e se o resultado seria a partir das “sequelas” decorrentes de queda. Porém no verso da tabela encaminhada, continha a informação de que a tabela deveria ser aplicada posterior à aplicação de uma anamnese, justamente com objetivo de obter dados extras. O item mostra a classificação das alterações, relacionadas à consequência de quedas anteriores. Segundo Perracini (2005), são dados importantes por estarem relacionados respectivamente, às quedas acidentais, quedas recorrentes ou quedas com lesão. Juntamente ao fato mencionado anteriormente, pode-se observar que todos os juízes julgaram ser relevante para classificação do risco de queda em idosos a presença da avaliação osteomuscular, indo de acordo com o que é citado por Rebelatto; Morelli (2007), que destaca que com o envelhecimento ocorre uma desarmonia de produção e absorção óssea, e que somado a alterações geradas por queda prévia pode resultar na perda de massa óssea, tendo como consequência o desequilíbrio no processo de modelagem e remodelagem aumentando o risco de queda entre os idosos.

Figura 5: Déficit sensorial – visão

Fonte: dados fornecidos pelo autor

Observando agora o item déficit sensorial – visão da tabela, a redução gradual e irreversível da capacidade de focalizar objetos próximos (presbiopia), inicia-se por volta do 40-50 anos. Após os 60 anos o declínio visual passa a ser gradual, podendo chegar até a 80% de perda até a nona década (MACEDO et al, 2008). Para compor a tabela, foi indicado o uso do teste de Snellen, devido sua fácil aplicabilidade, detectando a presença de baixa visão. No instrumento de avaliação pelos juízes, o avaliador 1, deu como sugestão a avaliação do item através da contagem de dedos. Que segundo Swartz (2015), é um teste de acuidade visual, utilizado em casos de visão baixa. Por tratar-se de um teste rápido e eficaz, se comparado ao Snellen, a aplicação deste teste é mais indicada, já que no Snellen a presença de idosos analfabetos pode dificultar o processo de avaliação visual. Para diminuir o risco de queda relacionada a visão, pessoas que necessitam de órteses devem ser incentivadas quanto ao uso, para que auxilie na melhora da função visual, diminuindo o risco de acidentes (MACEDO et al., 2008).

Figura 6: Déficit sensorial: audição

Fonte: dados fornecidos pelo autor

No item déficit sensorial – audição, de acordo com a literatura, por volta dos 30 anos, é iniciado o processo de envelhecimento auditivo, que pode resultar na queda da qualidade de vida. A presbiacusia, caracterizada pela perda ou diminuição da audição relacionada à idade, pode ser detectada de maneira simples, através do Teste do Sussurro. Durante avaliação do conteúdo da tabela, o avaliador 1 apontou que acredita que seja difícil localizar evidência científica para o item e que o teste é subjetivo. Porém o teste foi considerado tendo em vista que é de fácil aplicabilidade e por ser um teste já validado. De acordo com Momensohn (2011), apesar da relação de quedas e déficit auditivo não ser clara, é comprovado que a diminuição auditiva dificulta o controle postural e a marcha, limitando tarefas cotidianas e aumentando o risco de quedas.

Figura 7: uso de medicações

Fonte: dados fornecidos pelo autor

No item uso de medicações contínuas, a literatura evidencia que as classes farmacêuticas mais associadas ao evento queda foram psicoativos e diuréticos. Segundo o estudo, o uso de diuréticos pode causar hipotensão ortostática e arritmia, assim como diminuição de volume e hipocalemia, fatores que podem levar a queda. Com relação ao uso de benzodiazepínicos e/ou psicoativos, o aumento do risco de queda com estes fármacos foi relacionado à atividade sedativa e bloqueio a-adrenérgico. Os sedativos de meia vida longa podem provocar sedação residual importante, sobretudo em idoso, em função de mudanças em sua composição corporal residual. Visto que há menor proporção de água corporal e maior de tecidos adiposos, podendo resultar em ocorrências de tonteiras, ataxia, confusão entre outros fatores. Esses medicamentos no geral podem causar hipotensão, arritmia, sedação, tremores, relaxamento muscular ou fraqueza, sendo estas algumas das características que podem levar à queda (REZENDE; GAEDE e SEBASTIÃO, 2012). Sendo assim, a questão medicamentosa deve ser considerada para classificar o risco de quedas em pessoas idosas. Ao avaliar o conteúdo da tabela, todos os avaliadores julgaram ser relevante a presença do item e alguns deles apontaram a importância de considerar a polifarmácia como um fator preditor de queda, associado ao resultado da interação de alguns fármacos.

Figura 8: autopercepção de saúde

Fonte: dados fornecidos pelo autor

A mensuração da autopercepção de saúde entre idosos têm-se mostrado como sendo um método bastante confiável, e referindo-se a presença do item na literatura, pode-se observar que de acordo com Alves; Rodrigues (2005), pessoas que relatam a própria saúde através de aspectos negativos, demonstram maior risco de mortalidade em comparação a quem relata ter uma saúde excelente. A autopercepção está relacionada com o estado real de saúde do indivíduo, devendo assim, ser um quesito considerado durante uma avaliação.

Figura 9: Transtornos cognitivos

Fonte: dados fornecidos pelo autor

No que se refere aos transtornos cognitivos atualmente sabe-se que idosos institucionalizados sofrem queda com maior frequência. Dependendo da gravidade da demência, o idoso pode apresentar alteração na marcha, instabilidade postural, rigidez, e na maioria das vezes o uso de drogas psicotrópicas, sendo esses fortes fatores geradores de queda (NARITA; NITRINI e RADANOVIC, 2011). Na avaliação pelos juízes o avaliador 1, mencionou que os escores do MEEM são para rastreio cognitivo geral indicando se há déficits cognitivos a esclarecer. Não caracterizam demência, o que teria maior indicação de risco de quedas. E ainda segundo ele, é válido verificar quais funções cognitivas estão mais associadas ao risco de queda. Considerando os fatos anteriormente mencionados, para realizar um rastreamento do risco queda com o idoso, a avaliação cognitiva torna-se indispensável. Um dos testes mais utilizados, é o Mini Exame do Estado Mental (MEEM). Segundo Machado e colaboradores, (2011), o teste, de aplicação simples, permite uma avaliação da memória e das funções cognitivas, possibilitando a identificação de quadros demenciais.

Figura 10: Presença de duas ou mais doenças crônicas

Fonte: dados fornecidos pelo autor

No último item da tabela de classificação de risco de queda criada, que diz respeito a presença de duas ou mais “condições de saúde/doenças crônicas” a literatura mostra que com o envelhecimento surgem inúmeras mudanças no organismo, tanto físicas, como sensoriais e cognitivas o que muitas das vezes tornam difícil a adaptação do idoso ao meio em que vive, dificultando assim o envelhecimento biopsicossocial (ESQUENAZI; SILVA e GUIMARÃES, 2014). Na avaliação pelos juízes o avaliador 1, sugeriu uma mudança no item, que seria: 1 para nenhuma doença crônica; 2 apenas uma doença; 3 para mais de duas doenças crônicas, ou seja, ser portador de mais de duas doenças crônicas seria um alto fator de risco de queda. Já o avaliador 4 apontou que não há evidências suficientes para a questão da presença de comorbidades e que mais importante que estas, são as informações sobre a capacidade funcional. O fato mencionado pelo avaliador 4, vai ao encontro com o que é citado por Zaslavsky; Gus (2002), que diz que em 1991 os idosos representavam cerca de 7,3% da população e estima-se que em 2025 o número aumente para 15%. Para melhor aplicação do item, no verso no instrumento encontram-se as informações com os determinantes de Condições de Saúde/Doenças Crônicas, a serem considerados. Perracini (2005) afirma ser essencial verificar se o idoso possui: declínio de Atenção/Memória, AVC prévio, Hipertensão Arterial, Diabetes, Queixa de Tontura, Hipotensão Postural, Anemia, Insônia, Artrite/Osteoartrose, História Prévia de Fraturas. Estas Informações podem ser obtidas através do relato do idoso ou seu acompanhante.

No quadro 2, da avaliação pelos juízes, a maioria marcou sim, no que diz respeito à adequação dos itens que compõem a tabela. Referindo-se a organização, clareza, simplicidade, facilidade de leitura, adequação do vocabulário, objetividade, precisão, credibilidade e adequação.

Frente ao discutido, foi possível apresentar uma nova versão do instrumento, agora denominado Escala de Classificação de Risco de Quedas em Idosos. Foram acatadas boa parte das sugestões fornecidas pelos juízes. O material criado possui duas páginas. Na frente é encontrada a escala e no verso, orientações para o processo de aplicação da mesma.

Fonte: a autora, a partir dos resultados das pesquisas.
GUIA PARA USO DA ESCALA
Para que haja melhor eficácia na aplicação da Escala de classificação de risco de queda, é indicado que inicialmente, seja realizada uma anamnese com o idoso para compreender melhor sua história clínica.

Itens que não podem faltar na Anamnese:

Saber a idade do idoso.

Se já sofreu algum tipo de queda e caso tenha ocorrido, saber se teve consequências. Questionar se o mesmo faz uso de medicações contínuas e se positivo, quais são.

Para compor o item 10, os fatores determinantes de Condições de saúde/Doenças Crônicas, a serem considerados são: Declínio de Atenção/Memória, AVC prévio, Hipertensão Arterial, Diabetes, Queixa de Tontura, Hipotensão Postural, Anemia, Insônia, Artrite/Osteoartrose, História Prévia de Fraturas.

.item 8 é refere-se ao estado de saúde auto percebido. Deve-se perguntar, perguntar ao idoso:

 “Como o sr. (a) classifica a sua saúde? Excelente, regular ou ruim. ”

Durante a anamnese deve-se tomar certos cuidados, tais como:

Falar devagar, de forma que o idoso consiga compreender o que está sendo solicitado; Conduzir a anamnese oferecendo a liberdade do idoso poder se expressar;

Dar preferência a aplicação da anamnese com o idoso próximo a um familiar próximo.

Algumas informações podem não parecer importantes para o familiar ou até mesmo o próprio idoso, por isso é necessário fazer perguntas específicas, alguns exemplos são: quando foi a última queda; se houve sequelas; história medicamentosa, entre outros.
ESCORE FINAL:

LEVE – até 10 PONTOS

MODERADO – de 11 a 20 PONTOS GRAVE – de 21 a 30 PONTOS

Referência: PERRACINI, M.R.; Prevenção e manejo de quedas no idoso. In: GUIAS DE MEDICINA AMBULATORIAL E HOSPITALAR UNIFESP. Escola Paulista de Medicina. Editora Manole, 1ed. p. 193-206 São Paulo, 2005.

5. CONCLUSÃO

O estudo foi desenvolvido por meio de diversas etapas, permitindo a construção de uma Escala de Classificação de Risco de Quedas em Idosos.

A partir deste estudo é reafirmada a importância de programas voltados para a saúde do idoso. Principalmente no que diz respeito à prevenção de quedas. Visto que a mesma pode levar à perda da independência e em alguns casos, a morte.

Os resultados encontrados revelam a importância do estudo, pois questionários válidos e fidedignos podem conduzir a uma construção de diagnósticos situacionais mais precisos, permitindo a tomada de decisões na medida em que permitem, de maneira sistemática, coletar dados que são traduzidos em informações pertinentes sobre determinada realidade, buscando identificar as necessidades de cada contexto.

Sendo assim, uma Escala com seu conteúdo já validado, poderá mensurar de forma segura, o risco de queda em pessoas idosas e ser aplicada pelos profissionais de saúde.

Considera-se, portanto, que os objetivos propostos inicialmente nesse estudo foram alcançados: identificar na literatura os fatores preditores de queda em idosos e os instrumentos validados que predizem este risco; construir um instrumento a partir dos fatores intrínsecos previamente determinados pela literatura como sendo de risco para o evento queda; propor a validação do conteúdo por especialistas.

Entretanto, reconhecemos a ausência de um aporte teórico mais vasto, inclusive em outras línguas. Outras fases de validação e fidedignidade que compõem a construção de um instrumento não foram propostas para este estudo, deixando-se como sugestão o desenvolvimento de outros para a ampliar o escopo do estudo e para a realização dessas fases.

6. REFERÊNCIAS

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[1] Fisioterapeuta graduada pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.

[2] Orientadora. Doutorado em andamento em Saúde Pública. Mestrado em Saúde Pública. Especialização em Formação Integrada Multiprofissional em Educação Permanente. Especialização em Geriatria e Gerontologia Interdisciplinar. Especialização em Fisioterapia Ortopédica. Aperfeiçoamento em Capacitação Em Tutoria À Distância. Graduação em Fisioterapia.

Enviado: Maio, 2020.

Aprovado: Outubro, 2020.

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