Escute, zé-ninguém: um convite à reflexão

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RESENHA

JÚNIOR, Jurandir De Sousa Corrêa [1]

JÚNIOR, Jurandir De Sousa Corrêa. Escute, zé-ninguém: um convite à reflexão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 09, Vol. 06, pp. 51-59. Setembro 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/escute-ze-ninguem

RESUMO

Esta resenha se propõe a tecer uma crítica à obra, “Escute Zé-Ninguém!” (1946), de Wilhelm Reich, cientista, médico e psicanalista de origem judia germanizada, que viveu entre os idos de 1897 e 1957. Com o intuito de fazer um convite à reflexão, esta apreciação evidencia o amargor de Reich frente às incongruências do homem de seu tempo, um tipo humano, quiçá desumanizado, por ele chamado de Zé-Ninguém. Este carrega em si o peso das couraças alienantes das tradições superegóicas que, não raro, dificultam o sujeito de escrever sua própria história, ou ainda, de ser um espírito livre. Ademais, conforme o contexto, o homem comum é aquele que se deixa massificar pelos poderes dominadores, anuindo os açoites de discursos dogmáticos que traçam o destino das massas. Para contrastar com tal conjuntura, são apresentadas algumas ideias dos filósofos Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) e Michel Foucault (1926 – 1984), que corroboram o pensamento Reichiano. Além disso, outras literaturas também são utilizadas para embasar as reflexões. Portanto, o eixo gravitacional da obra analisada, trata de evidenciar a importância de refletirmos sobre nossa própria existência, a fim de não possibilitar ao germe do intitulado Zé-Ninguém, habitação em cada um de nós.

Palavras-Chave: Zé-Ninguém, Incongruências, Couraças alienantes, Tradições superegóicas, Destino das massas.

1. INTRODUÇÃO

Escute, Zé-Ninguém! Assim, começa sua obra, Wilhelm Reich (1946, 2007), ao ecoar aos ouvidos do homem de sua época, seu lúcido brado de frustração. Neste documento humano, Reich (1946, 2007) revela as mágoas de um coração partido por uma criatura massificada que se deixa dominar pelos medíocres condutores de massas. O homem comum, segundo ele, vive a alienar-se com os dogmatismos que tolhem os potenciais humanos. (REICH, 1946, 2007)

Por conseguinte, Wilhelm Reich então, aqui expressa algumas de suas lástimas:

[…] Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. É só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara, sem opção, sem voto, sem aquilo que fez de ti “membro do povo”. […] Tens medo de olhar para ti próprio, tens medo da crítica, tal como tens medo do poder que te prometem e que não saberias usar. Nem te atreves a pensar que poderias ser diferente: livre em vez de deprimido, direto em vez de cauteloso, amando às claras e não mais como um ladrão da noite. Tu mesmo te desprezas, Zé-Ninguém. Dizes: “quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?” […] (REICH, 2007, p. 5 – 6).

Isto posto, a obra em questão é um convite à meditação. Haja vista, as possibilidades de evolução do humano. Afinal, oportunidade de leitura fascinante, no sentido de promover um possível autoexame como forma de diagnosticar o quanto de Zé-Ninguém pode haver em cada um de nós. Portanto, esta análise crítica busca refletir sobre o formidável e revolucionário pensamento do inconformista Wilhelm Reich (1897 – 1957), objetivando perceber sua proficuidade, também em nossos dias.

2. ESCUTE, ZÉ-NINGUÉM: UM CONVITE À REFELEXÃO

Sabes, quando alguém está em grande descontentamento com a vida que o cerca (a ordem das coisas) e, não tem ninguém com quem possa desabafar, compartilhar suas queixas? Aliás, esta pessoa decide, então, abrir um buraco bem fundo na terra e, ao direcionar sua boca para o tal buraco, nele despeja todas suas ânsias, mágoas, mazelas que acompanham sua íngreme existência. Logo após, fecha o buraco, esperando que no futuro alguém o abra para investigar o que nele tem. Pois, bem. Esta breve analogia chama para a cena a obra literária de Wilhelm Reich (1897 – 1957), médico, cientista e psicanalista, intitulada “Escute, Zé-Ninguém!”, escrita nos idos de 1946 para os arquivos do Instituto Orgone, por ele fundado.

A obra, “Escute, Zé-Ninguém!”, com efeito, é uma produção literária tempestiva de Reich (1946, 2007) que evidencia seu intenso desagrado com a sociedade superegóica de sua época, marcada por um modus vivendi e operandi capitaneado pelos dogmatismos que alienam os potenciais humanos, transformando o demasiadamente humano[2] (ótica nietzschiana) em homo normalis (homem comum). Criatura esta que, em detrimento de sua própria existência, pauta sua vida em imitar uma cultura geral, regida pelos ditames e interesses dos medíocres condutores de massas. Dessa forma, transfigurando a preciosidade do potencial humano numa espécie involutiva chamada de Zé-Ninguém.

Wilhelm Reich escreveu a referida obra onze anos antes de sua morte. Morte esta, que foi o pináculo de seu desgosto com o Zé-Ninguém, o tipo desumano de sua época. Reich terminou seus dias numa prisão. Ao longo de sua trajetória procurou dar a vida ao Zé- Ninguém, acreditando na sua evolução. No entanto, dele recebeu o troco: calúnias, difamações, injúrias, perseguição e desprezo. Na verdade, injúrias infundadas que, para o vilipendiado, não passavam de sofrimentos internos dos difamadores por não conseguirem galgar os caminhos da evolução orgônica. Mesmo assim, partiu para o cosmo mantendo a esperança de que, na posteridade, o buraco de seu trabalho seria inevitavelmente aberto e, com isto, a caixa de pandora exalaria definitivamente as suas lições.

Mas, qual o segredo de toda a tragédia?

Wilhelm Reich, pesquisador e cientista do século XX, nasceu em berço judeu germanizado, ancorado pelas antigas tradições de se fazer política, religião, sociedade que regiam com varas de ferro os destinos do homo normalis. Sendo assim, o pensar, o questionar, o inventar, o empreender, o existir não poderiam ocorrer fora da ordem do discurso[3] das verdades convencionadas pelo espírito societário da época (ótica foucaltiana), sob pena de penalizações e exclusão. Todavia, a persona de Reich, naturalmente ideogóica, pensadora, sonhadora, questionadora, inventora para além da ordem do discurso, singrou em águas nunca dantes navegadas, revelando para a sociedade de seu tempo, uma terra, uma utopia, um modo de se viver, fazer política, religião, sociedade, ciência, amor, do outro lado do mar oceano existencial. Não obstante, foi rechaçado pelas esferas políticas e científicas de sua conjuntura[4].

O fato é que, Reich abriu sua caixa de pandora antes do tempo[5] e deixou exalar o proibido, aquilo que denotava o maior tabu da história das civilizações ocidentais: a sexualidade. A bem da verdade, em linhas gerais, mexeu no imponderável, trazendo um saber no âmbito da sexualidade humana muito além de seu tempo, despertando o ódio dos patriotas dogmatistas, a elite pensante. Lidou com a sexualidade sob uma perspectiva holística e transcendente para o cenário da época, sendo como uma espécie de messias de uma boa nova, porém, proibida. Ademais, sua psicoterapia corporal (organoterapia/vegetoterapia), procurando devolver aos homens a inocência de um princípio do prazer pré-adâmico, se assim podemos dizer, balizado no anseio de um pináculo orgásmico em sintonia com o orgônio (energia vital cósmica), veio a sucumbir ante os ímpetos repressivos de uma sociedade regida pelo chicote superegóico das tradições.

Aliás, é fato acrescentar que o homem da civilização, comedor do fruto do conhecimento do bem do e do mal (pós-adâmico), herdeiro de leis repressivas, mas também, da vulgarização de uma prática sexual bacanizada pelo mundo greco-romano; ainda nos idos do final do século XIX e início do século XX, permanecia um homem analogamente ao cão em uma coleira, a fim de ser domado devido suas ânsias de desejo e poder, desse modo, sob a égide dos dogmas e tabus mantidos pelas instituições. Portanto, ao que tudo indica, Wilhelm Reich ao tentar soltar o cão da coleira (o homo normalis – Zé-Ninguém), foi por ele mortalmente mordido, revelando uma preciosa lição: nunca abras uma caixa de pandora fora de seu tempo e de seu espaço. Como ainda nos informa a filosofia divina facultada a Salomão: “tudo fez [Deus] formoso em seu tempo; […]” (Ecl, 3, 11).

Quanto a isso, resta dizer que a referida obra de Wilhelm Reich evidencia os gritos de seu autor a se defender dos uivos vilipendiosos do homo animalis (se podemos assim dizer) presente no Zé-Ninguém, procurando demonstrar sua limpeza de mão e coração frente às acusações que lhe são impressas. Todavia, o interior de cada homem só ele mesmo conhece, assim como seu próprio Criador. Afinal, não é possível a nós, meros mortais, realmente atestarmos a sinceridade ou a insinceridade de Wilhelm Reich que, com efeito, legou à posteridade uma mente revolucionária, muito à frente de seu tempo.

Quanto ao Zé-Ninguém, na hipermodernidade[6], parece ter piorado. Frívolo, banal, alienado, marcado como se fosse um gado, com as insígnias da indústria cultural[7], o novo superego das sociedades. Preso aos jogos, ao Netflix (a nova faceta hollywoodiana do capitalismo de monopólios), ao consumismo tecnológico, preso ao culto de personalidades religiosas e políticas corruptas, preso aos desejos insanos e incontroláveis do próprio corpo como outdoor das massas, alienado e subjugado por velhas teorias e ideologias universitárias que, não raro, impedem os alunos de superarem os mestres. Como assim dizia Cristo, aos fariseus: “pois que fechais aos homens o reino dos céus [da sabedoria, da sapiência perfeita]; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando” (Mt, 23, 13). Ou ainda, “o indivíduo é tratado por seus educadores como se, na verdade, fosse algo novo, mas devesse tornar-se uma réplica. Se o homem aparece primeiramente como algo desconhecido, algo que nunca existiu, deve ser transformado em algo conhecido, algo já existente” (NIETZSCHE, [2010], p. 194, destaque do autor). Enfim, criaturas escopofílicas (seres amantes da superfície, das bordas, do trivial) que perdem seu tempo com aquilo que nada acrescenta à vida, somente destrói. Criaturas rasas, que não voam alto, que não estudam (ou, se fazem que estudam), mas são superficiais em tudo, em nada se aprofundam, mas se fundamentam somente no que os outros dizem, afirmam, teorizam, mandam e desmandam, triste realidade.

Enquanto isso, os novos Reichs da atualidade, se existem, porque são raros, epistemofílicos, amantes do saber, da divindade, da transcendência, da nobreza de espírito, novamente sendo presos, rechaçados, silenciados, amordaçados, tachados de subversores de uma nova ordem do discurso que se agiganta como o novo medíocre regedor de massas; vivem longe dos holofotes, fadados ao ostracismo, à extinção.

É assim mesmo, novos Reichs. Vivam a vida. Não deem satisfação a ninguém. Fiquem longe dos holofotes, pois, os mesmos te glorificam, os mesmos te caluniam, apedrejam. Cultivem o amor, a sabedoria, o trabalho. Valorizem o simples. Sejam amigos dos animais. Cultivem verdadeiros amigos. Não deem os teus anos a cruéis, pensamento sagrado. Cultivem a divindade suprema a qual muitos negam, pois não percebem que são ingratos e inexoráveis. Voem alto. Façam seus ninhos na transcendência celestial. Porquanto, “crescerás como o cedro e florescerás como a palmeira […]” (Sl, 92, 12) e, ninguém impedirá vossas veredas; pois, o que ajuntais de tesouro não o guarda aqui, mas o entrega nas mãos do sumo lapidador.

Ao Zé-Ninguém da atualidade, fica uma mensagem: “lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: não tenho neles contentamento” (Ecl, 12, 1). Pois, “[…] ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Cor, 4, 16). Porquanto, o super-humano revela não se importar com o ter, mas com o ser. Atributo este, que somente é conseguido através de luta perene, rumo ao píncaro de ser um espírito livre. Assim, uma vez humanos, vençamos a obsessão de sermos bichos.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra de Wilhelm Reich, “Escute, Zé-Ninguém!” (1946, 2007), com efeito, é uma produção humana que, para além das barreiras do tempo cronológico se mantém viva como repositório de sapiências estruturantes, necessárias ao livre desenvolvimento do super-humano. Na verdade, um profundo convite à reflexão que desafia o legente a se debruçar sobre as letras reichianas e, delas, retirar proveito para própria introspecção. Deveras, reverberações filosóficas que tratam de tirar o entusiasta leitor de sua zona de conforto e, fazê-lo lamentar póstuma e conjuntamente, às lástimas de Reich, ante às incongruências do ainda existente e famigerado Zé-Ninguém.

Ademais, a presente crítica buscou empreender um olhar sobre o autor em análise sem, contudo, ter pretensão de esgotar as reflexões. Haja vista, as muitas possibilidades de perspectivas analíticas sobre a referida produção. Assim sendo, lacunas ainda estão abertas, à espera de olhares audaciosos que perscrutem a obra de Reich com o intuito de extrair novos entendimentos e, que contribuam, paulatinamente, para munir o humano, demasiadamente humano de valor próprio a fim de frustrar a sina dessa espécie involutiva, intitulada Zé-Ninguém.

Em suma, ser humano, demasiadamente humano, implica em escrever ousadamente a própria história, empreender a própria existência, desenvolver a própria essência, rumo à glória de ser um espírito livre.

REFERÊNCIAS

BÍBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida. 86.ed. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1996.

CABRAL, João Francisco Pereira. Conceito de Indústria Cultural em Adorno e Horkheimer; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/cultura/industria-cultural.htm>. Acesso em 15 de agosto de 2021.

CAVALCANTE. Márcio Balbino. O conceito de pós-modernidade na sociedade atual; Meu Artigo – Brasil Escola. Disponível em <http://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/geografia/o-conceito-posmodernidade-na-sociedade-atual.htm>. Acesso em 15 de agosto de 2021.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Tradução de Antônio Carlos Braga. 2. ed. São Paulo: Editora Escala, ([2010]).

REICH, Wilhelm. Escute, Zé-Ninguém! 2. ed. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2007 – 1946.

SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. Tradução de Cintia Naomi Uemura. 10. ed. norte-americana. São Paulo: Cengage Learning, 2014.

APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. A obra de um dos grandes filósofos do século XIX, Friedrich Nietzsche, intitulada “Humano, demasiado humano”, publicada primeiramente em 1878, procura evidenciar a importância do cultivo do super humano que deve existir e se desenvolver em cada um de nós. Isto é, uma espécie de super homem que busca viver sem as muletas superegóicas das tradições conservadoras e dogmáticas, aspirando uma forma de vida com espírito livre. Portanto, “comparado com aquele que tem a tradição de seu lado e não precisa de razões para fundamentar sua conduta, o espírito livre é sempre fraco, notadamente na ação; de fato, conhece demasiados motivos e pontos de vista e tem por isso uma mão insegura, mal exercitada. Ora, que meios há para o tornar, no entanto, relativamente forte, para que possa pelo menos se impor e não perecer sem produzir efeito? Como surge o espírito forte? Esta é, num único caso, a questão da produção do gênio. De onde vêm a energia, a força inexorável, a persistência com a qual o indivíduo, opondo-se à tradição, tenta obter um conhecimento inteiramente individual do mundo?” (NIETZSCHE, [2010], p. 195).

3. A lógica de Foucault em sua obra, “A ordem do discurso” (1970), revela que verdades aceitas são provenientes de discursos que estão na ordem do discurso, ou seja, reverberações de ideias que se coadunam com as tradições dominantes. Do contrário, reverberações discursivas conflitantes, estariam fadadas à dimensão da loucura. Por conseguinte, “desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato ou contrato, […] ; pode ocorrer também, em contrapartida, que se lhe atribua, por oposição a todas as outras [verdades], estranhos poderes, o de dizer uma verdade escondida, o de pronunciar o futuro, o de enxergar com toda ingenuidade aquilo que a sabedoria dos outros não pode perceber” (FOUCAULT, 1996, p. 10 – 11). Sob esta perspectiva, seria Wilhelm Reich um novo arquétipo da loucura na transição para a pós-modernidade? Aquele louco que, ingenuamente, revelou reverberações discursivas que traziam em seu escopo um homem de espírito livre, portador de verdades escondidas, prenunciadoras de uma posteridade promissora para o ser do futuro? Portanto, um humano, demasiadamente humano, livre das mediocridades das massas e, de suas teias dominantes e alienantes? Eis, a questão.

4. Vale ressaltar, que “[…] a aceitação e a aplicação da descoberta ou da ideia de uma grande personalidade podem ser restringidas pelo pensamento predominante, mas uma ideia heterodoxa demais para uma época e um determinado lugar pode prontamente ser recebida e apoiada por uma geração ou um século mais tarde” (D. P. SCHULTZ; S. E. SCHULTZ, 2014, p. 15).

5. É pertinente acrescentar que “quando os cientistas propõem ideias distantes demais do contexto da época, formado pelo pensamento cultural e intelectual vigente, seus conceitos provavelmente cairão na obscuridade. A criação individual é como um prisma que se propaga, elabora e amplia o pensamento corrente, e não como um foco de luz concentrado. Entretanto, lembre-se de que ambas as visões iluminam o caminho a seguir” (D. P. SCHULTZ; S. E. SCHULTZ, 2014, p. 17).

6. “As características da pós-modernidade podem ser resumidas em alguns pontos: propensão a se deixar dominar pela imaginação das mídias eletrônicas; colonização do seu universo pelos mercados (econômico, político, cultural e social); celebração do consumo como expressão pessoal; pluralidade cultural; polarização social devido aos distanciamentos acrescidos pelos rendimentos; falências das metanarrativas emancipadoras como aquelas propostas pela Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. A pós-modernidade recobre todos esses fenômenos, conduzindo, em um único e mesmo movimento, a uma lógica cultural que valoriza o relativismo e a (in) diferença, a um conjunto de processos intelectuais flutuantes e indeterminados, a uma configuração de traços sociais que significaria a erupção de um movimento de descontinuidade da condição moderna: mudanças dos sistemas produtivos e crise do trabalho, eclipse da historicidade, crise do individualismo e onipresença da cultura narcisista de massa. […] Mudam-se valores: é o novo, o fugidio, o efêmero, o fugaz, o individualismo, que valem. A aceleração transforma o consumo numa rapidez nunca vivenciada: tudo é descartável (desde copos a maridos/ou esposas), [até a própria história]. A publicidade manipula desejos, promove a sedução, cria novas imagens e signos, eventos como espetáculos, valorizando o que a mídia dá ao transitório da vida” (CAVALCANTE, 2016, p. 1).

7. “A indústria cultural, segundo Adorno e Horkheimer, possui padrões que se repetem com a intenção de formar uma estética ou percepção comum voltada ao consumismo. […] A indústria cultural apresenta-se como único poder de dominação e difusão de uma cultura de subserviência. Ela torna-se o guia que orienta os indivíduos em um mundo caótico e que por isso o desativa, desarticula qualquer revolta contra seu sistema. […] Ela transforma os indivíduos em seu objeto e não permite a formação de uma autonomia consciente” (CABRAL, 2016, p. 1).

[1] Pós-graduação lato senso em antropologia e música. Graduação em história e música. Graduação em andamento em psicologia.

Enviado: Agosto, 2021.

Aprovado: Setembro, 2021.

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