A inserção da LIBRAS no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química da Universidade Federal do Amazonas e a capacitação desses profissionais em formação para o ensino do aluno surdo

0
158
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/libras-biologia-e-quimica
A inserção da LIBRAS no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química da Universidade Federal do Amazonas e a capacitação desses profissionais em formação para o ensino do aluno surdo
4.4 (88%) 5 vote[s]
ARTIGO EM PDF

ARTIGO ORIGINAL

BARBOSA, Naiana Sheron de Souza [1], LIMA, Erivan de Souza [2], MALOSSO, Milena Gaion [3]

BARBOSA, Naiana Sheron de Souza. LIMA, Erivan de Souza. MALOSSO, Milena Gaion. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. A inserção da LIBRAS no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química da Universidade Federal do Amazonas e a capacitação desses profissionais em formação para o ensino do aluno surdo. Ano 04, Ed. 04, Vol. 05, pp. 47-60 Abril de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

De acordo com o Decreto 5.626/2005, que regulamenta a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) deve ser inserida como disciplina obrigatória no currículo dos cursos de Licenciatura de todo o país. Para cumprir esta legislação, no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química do Instituto de Saúde e Biotecnologia (ISB) de Coari da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), foi inserida na grade curricular a disciplina ISC005-LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS. Após a ministração desta disciplina, foi aplicado um questionário semi-estruturado para averiguar a real capacidade dos futuro docente para se comunicar em LIBRAS e, como resultado deste trabalho, averiguou-se que estes futuros profissionais conseguem suficientemente bem, se comunicar nesta língua após a realização da disciplina em questão.

Palavra-chave: Língua, licenciatura, libras.

INTRODUÇÃO

De acordo com o Decreto 5.626/2005, que regulamenta a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) deve ser inserida como disciplina obrigatória no currículo dos cursos de Licenciatura de todo o país. Para cumprir esta legislação, no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química do Instituto de Saúde e Biotecnologia (ISB) de Coari da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), foi inserida na grade curricular a disciplina ISC005-LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS.

A partir do próximo semestre letivo, devido ao recebimento neste instituto do primeiro aluno surdo e este fato suscitou diversos debates entre os docentes deste Instituto, tendo em vista que apenas 3 dos quase 100 professores que trabalham no ISB conhecem a LIBRAS e que a maioria maçante destes professores não tem qualquer conhecimento nesta área. Em um destes debates, foi sugerida a ideia de que um curso de LIBRAS para os docentes do ISB, que foi de pronto aceita por todos os professores e providenciado pelo diretor junto reitoria, visando sanar este problema. No entanto, também durante estas discussões, surgiu a dúvida se, de fato, um curso de 60 horas, como o ofertado no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química seria suficiente para ensinar os futuros docentes a interagir da maneira correta com este aluno. Assim, visando averiguar se a disciplina de LIBRAS ofertada neste curso é suficiente para capacitar seu aluno para interagir adequadamente com um surdo que esteja cursando os Ensino Fundamental ou Médio, de modo a conseguir, realmente, passar-lhe os conteúdos das disciplinas Ciências, Biologia e Química, este trabalho teve como objetivo realizar uma análise da ementa da Disciplina LIBRAS ministrada neste curso, bem como verificar através de um questionário semi-estruturado e através da conversação utilizando a LIBRAS, se os discentes que foram aprovados nesta disciplina eram realmente capazes de se comunicar e também entender a visão deste aluno sobre a LIBRAS e a inclusão escolar. Deste modo, pretende-se contribuir para a melhoria da qualidade do ensino da disciplina LIBRAS ofertada não apenas para este curso, mas também para todos os cursos de nível superior tanto públicas como particulares, através da sugestão de novas ementas, aumento de carga horária da disciplina em questão, utilização de novas metodologias de ensino inclusivo, caso esta necessidade seja observada, no intuito de evitar a exclusão escolar dos discentes surdos, que pode acarretar em sérios problemas emocionais e psicológicos nestes alunos e, consequente, em problemas sociais, uma vez que a escola – e o professor – pode deixar de ser um atrativo por não conseguir encontrar maneiras de se comunicar e, efetivamente ensinar à todos que a procuram igualitariamente, embora se tenha conhecimento que as disciplinas serão interpretadas pelo profissional intérprete de LIBRAS e não pelo professor da disciplina, conforme versa a Lei Nº 12.319/10, que regulamenta a profissionalização do intérprete de LIBRAS.

A ementa e a carga horária da disciplina ISC005-LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS oferta no curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química são suficientes para ensinar um futuro professor sobre a importância da educação inclusiva e, principalmente, a se comunicar com um surdo de forma suficientemente clara para que este último compreenda os conteúdos específicos das disciplinas Ciências, Biologia e/ou Química?

A grande maioria das pessoas não é capaz de aprender uma nova língua em apenas 60 horas. Por que este fato deveria ser diferente com os alunos dos cursos de licenciatura de todo o Brasil? É necessário alterar a ementa do curso de Licenciatura em Ciências: Biologia e Química, bem como aumentar sua carga horária para que o Instituto de Saúde e Biotecnologia consiga formar professores capazes e suficientemente competentes para conseguir se comunicar e transmitir os conteúdos específicos das áreas de Ciências, Biologia e Química aos alunos do Ensino Fundamental e/ou Médio.

Assim, o objetivo geral deste trabalho foi realizar uma análise da disciplina LIBRAS ofertada pelo ISB aos discentes do curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química para verificar se esta está proporcionando a formação e capacitação adequada de professores de Ensino Fundamental e Médio para que consigam trabalhar satisfatoriamente nos casos de educação inclusiva de surdos.

A educação especial foi organizada para atender especifica e exclusivamente a alunos excepcionais. é essencial Reconhecer as diferenças no caminho da integração e, principalmente, de inclusão onde se espera que o professor não entenda que a turma é homogênea de modo a trabalhar como se todos os alunos tivessem a mesma capacidade na sua construção do conhecimento.

A história da educação especial nos revela quatro fases distintas, na qual a primeira etapa, denominada fase de exclusão ocorreu antes do século XX, quando as pessoas com deficiência eram tidas como indignas de obter uma educação escolar. A partir do século XX, quando algumas grandes instituições que dentre outros aspectos buscavam oferecer classes de alfabetização para pessoas deficientes começaram a atender este tipo de aluno, dando início, assim, à segunda fase denominada de segregação. Já entre as décadas de 1950 a 1960 surgiram classes destinadas a crianças com deficiência, a quem antes eram negadas atendimentos em classes comuns, mas tarde surgiram classes especiais em escolas comuns (SASSAZAKI, 1991, p. 9).

No final do século XX, mais precisamente na década de 1990 teve inicio a terceira fase denominada de fase de integração, onde ocorreu a inserção de crianças e adolescentes surdos em classes comuns, devido à mudança filosófica em direção a ideia de educação integrada visando colocar esses alunos em um ambiente o menos restritivo possível. No entanto, só se considera integrados apenas aqueles estudantes com deficiência que conseguissem adaptar-se à classe comum como esta se apresentava, portanto sem modificação no sistema e as leis sempre tinham o cuidado de ressaltar a condição preferencialmente na rede regular de ensino, o que possibilitava manter crianças e adolescentes com deficiência nas escolas especiais. Já no início da década de 1990 e adentrando o século XXI, a quarta fase, é a mais atual e fundamenta-se na ideia da adaptação do sistema escolar às necessidades dos educandos. Também conhecida como a fase da inclusão, propõe um sistema educacional único e de qualidade ao qual venha atender os alunos com ou sem deficiência sem distinções (GOLDFELD, 2002, p. 18).

Em 2005, foi promulgado o Decreto Nº 5.626, que em versa:

Art. 3o  A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Assim, existe a necessidade de averiguar a qualidade de ensino nos diversos níveis de ensino quanto, principalmente no tangente aos cursos de Licenciatura, objetivando verificar se todos os aspectos necessários ao convívio adequado com os alunos surdos estão sendo contemplados nas ementas destes cursos de nível superior. Neste sentido, é importante analisar a ementa do curso de LIBRAS na licenciatura, os conteúdos, trabalhos, o acesso do discente à gramática de libras e a performance comunicativa desse futuro professor, para interagir com seu aluno surdo.

Neste trabalho, será feita a análise da Ementa vigente da disciplina ISC005 – Língua Brasileira de Sinais do Curso de Licenciatura Dupla em Ciências: Biologia e Química do Instituto de Saúde e Biotecnologia de Coaria, da Universidade Federal do Amazonas, abaixo transcrita na íntegra do Projeto Político de Curso de 2014, através da visão dos alunos já aprovados nesta disciplina.

LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS – SIGLA ISC005

OBJETIVO:

Estudar a estrutura da língua de sinais nos níveis fonológicos e morfossintáticos. Adquirir a prática da língua de sinais em situações de comunicação.

EMENTA:

História da educação do surdo. Abordagens metodológicas. Introdução à língua de sinais. Estrutura gramatical. Expressão corporal. Dramatização e música e o seu papel para a comunidade surda. Legislação. Política de educação inclusiva.

BIBLIOGRAFIA:

FERREIRA BRITO, I. Por uma gramática das línguas de siais. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1995.

GOES, M. C. R. Linguagem, surdez e educação. Campinas, autores associados., 1996.

QUADROS, R. M. O tradutor e intérprete na língua brasileira de sinais Brasília, SESP/MEC, 2004.

Através do Decreto Nº 5.626/2005, pode-se verificar que a escola regular está amparada legalmente para receber os alunos surdos em suas classes, pois a legislação brasileira já reconhece a importância da LIBRAS na educação dos sujeitos surdos, como um elemento que abre portas para o desenvolvimento global dos alunos que não ouvem, mas que são iguais àqueles que têm a audição (MENEZES, 2006, p. 67).

O surdo não é pior que o ouvinte, é cognitivamente igual, tem as mesmas capacidades e inteligência, porém é um sujeito que tem uma forma única, peculiar de aprender, pois compartilha duas culturas – a surda e a ouvinte – e precisa apropriar-se de ambas. A língua de sinais constitui esta ponte, portanto, importante na educação dos surdos nas classes regulares.

Atualmente o Brasil depara-se com um novo paradigma o da Inclusão Social dos portadores de necessidades especiais na busca de uma escola para todos, sem separações de sexo, raça, classe social para uma abordagem de educação inclusiva que está aberta para colher as diferenças. Isso significa atentar para as mudanças e diferenças dessa forma a inclusão social torna-se um direito adquirido no o cenário brasileiro. (MENEZES, 2006, p. 84)

SOARES (1999, p. 218) fala sobre a falta de conhecimento acerca desta língua ao dizer que “a LIBRAS é vista como uma metodologia oral e por ser considerada apenas como mímica, motivaram a cultura hegemônica ouvinte a estigmatizarem a condenarem o uso desta língua considerando-a imprópria”. E muitas vezes também foi vista na educação do surdo como algo prejudicial à aquisição da linguagem oral, bem como a sua integração na sociedade. Estes motivos perderam força com o tempo e o avanço nas pesquisas linguísticas acerca dessa língua trouxe como consequência o seu reconhecimento linguístico e atualmente já tem  status linguístico, ou seja, já é reconhecida como língua. A língua de sinais é a língua natural dos surdos, mas para entender esta língua com suas características e peculiaridades faz-se necessário entender o conceito de língua e a sua importância na comunicação.

SOARES (1999, p. 219) afirma que “a língua de sinais é uma linguagem autêntica, com uma estrutura gramatical própria e com possibilidades de expressão em qualquer nível de abstração”. Por ser tão completa quanto à língua oral é adequada, pode e deve ser utilizada no processo ensino e aprendizagem, exercendo o desenvolvimento, a comunicação e a educação dos alunos marcados por uma falta, a audição.

Conhecer a base histórica sobre a educação de surdos e a língua de sinais é um passo necessário para iniciar um estudo que tem por objetivo destacar a importância da língua de sinais na educação desse sujeito. Muitas mudanças foram alcançadas, novos conceitos surgiram e, a partir de um novo contexto, iniciam-se pesquisas e estudos sobre desenvolvimento do deficiente auditivo. (SOARES, 1999, p. 219)

Atualmente utiliza-se uma pedagogia de inclusão baseada na inclusão que mostra-se ser benéfica para a educação de todos os alunos independente de suas habilidades ou dificuldades. A inclusão é possível e aumenta as possibilidades dos indivíduos identificados com necessidades especiais de estabelecer significativos laços de amizade, de desenvolverem-se físico e cognitivamente e de serem membros ativos na construção de conhecimentos. Esses são muitos dos benefícios trazidos por um ambiente de inclusão social. A introdução do intérprete em sala de aula é um avanço importante, o esforço de professores em aprender a língua dos sinais na busca do dever de todo professor de escolas inclusivas, aprender a LIBRAS para conseguir se comunicar com seus alunos não ouvinte sem a presença de um intérprete. (BOTELHO, 2002, p.37).

Cada país possui sua própria língua de sinais, uma vez que esta não é universal. No Brasil não é diferente. A LIBRAS tem sua origem na Língua de Sinais Francesa, sendo reconhecida como uma língua com estrutura própria por meio da Lei Nº 10.436/02, em seu artigo primeiro, que versa:

Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e outros recursos de expressão a ela associados.

Parágrafo Único: Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico e natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

A LIBRAS é uma língua gestual visual, visto que é associada aos sinais que representa. Todavia, os significados não são os mesmo em todos os países. A mesma configuração de mão pode ter significados diferentes dependendo do movimento que a pessoa realize. Seu aprendizado requer a utilização das mãos para trabalhar os sinais. A partir dos movimentos das mãos, a combinação dos sinais acontece naturalmente e é possível uma comunicação com as pessoas surdas (ROSA, 2005, p. 19).

A Língua Brasileira de sinais permite a interação entre as pessoas surdas e as ouvintes, fazendo com que o surdo obtenha informações de mundo no qual ele vive, tornando-o um cidadão com direitos, deveres e responsabilidades (ALMEIDA et al., 2012, p. 57).

Ainda de acordo com Rosa (2005, p. 02), na Língua Brasileira de sinais o nosso corpo também fala, em determinados contextos, a expressão corporal, como também o contato visual, a expressão social e afluência adquire um valor que facilita e/ou constrói relações entre os indivíduos. Na expressão corporal temos como exemplo o contato visual que transmite intensidade, direcionamento, embaraço, pânico, etc; a expressão facial, que expressa ódio, dor, tristeza, desprezo, orgulho, alegria, preocupação, dúvida, ansiedade, momento de prazer e bem-estar, como também o ritmo ou a intensidade.

METODOLÓGICOS

Visando averiguar se os discentes do Curso de Licenciatura Ciências: Biologia e Química do Instituto de Saúde e Biotecnologia de Coari da Universidade Federal do Amazonas conseguiriam trabalhar satisfatoriamente nos casos de educação inclusiva de surdos, foi realizada uma análise da disciplina LIBRAS ofertada a estes discentes para verificar se esta está proporcionando a formação e capacitação adequada de professores de Ensino Fundamental e Médio, tendo em vista que a ementa desta disciplina é pública e facilmente adquirida via internet. Para isso, o Formulário abaixo foi entregue aos trinta alunos que aceitarem participar desta entrevista a partir do seguinte Termo Livre-Esclarecido:

Fonte: autor

FORMULÁRIO

Nome: ________________________________________________________________

CPF: _________________ Idade: _____ Telefone: ______________ Data: ___/___/___

Endereço: ______________________________________________________________

1. Você já ouviu falar sobre Educação Inclusiva? ( )Sim ( )Não

2. Qual sua visão sobre a inclusão de alunos com algum tipo de deficiência física nas salas de aulas das escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio?

3. Qual a sua opinião sobre a inclusão de alunos surdos em escolas públicas de Ensino

4. Qual a importância da disciplina ISC005 – Língua Brasileira de Sinais para você?

5. Qual a importância da disciplina ISC005 – Língua Brasileira de Sinais para sua vida profissional?

6. Você já tinha ou adquiriu mais algum conhecimento em LIBRAS além dos obtidos com a disciplina ISC005-Língua Brasileira de Sinais? Em caso positivo, qual e quando e por quê?

7. Você se considera capaz de se comunicar em LIBRAS? Sim ( ) Não ( )

8. Por favor, traduza para a Língua Portuguesa a expressão desenhada abaixo:

__________________________________________

09. Você conhece os termos técnicos da área de Ciências Biológicas em LIBRAS?

( )Sim ( )Não

10. Por favor, traduza para a Língua Portuguesa os termos abaixo:

Fonte: autor

11. A ementa da disciplina ISC005-LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS englobou temas suficientes para que você aprendesse a se comunicar em LIBRAS com seus futuros alunos? ( )Sim ( )Não

12. Em caso de negativa na resposta anterior, diga o que poderia ser modificado na Ementa da disciplina ISC005 para sanar este problema.

As entrevistas foram realizadas com um indivíduo por vez, em sala de aula fechada e se deram de maneira informal, realizadas unicamente pela pesquisadora, visando evitar qualquer constrangimento ao entrevistado perante sua falta de conhecimento em LIBRAS.

Os critérios de inclusão para a participação neste projeto foram ter cursado a disciplina ISC005-LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS do curso de Licenciatura em Ciências: Biologia e Química do Instituto de Saúde e Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas e ter sido aprovado na mesma. E o único critério de exclusão foi o fato de o discente não querer participar do projeto. Foram avaliados 100% dos indivíduos que se enquadraram nos critérios de inclusão, uma vez que todos os desejaram participar.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Agora, será uma análise da disciplina ISC005 – Língua Brasileira de Sinais através do estudo e interpretação dos questionários respondidos pelos alunos aprovados nesta disciplina.

A primeira parte deste estudo, representada pelas questões de 1 a 5, visam avaliar a inclusão escolar e a importância da LIBRAS para o aluno e para a vida profissional do mesmo. Com relação à questão nº 01, 90% dos alunos afirmaram que já tinham ouvido falar em educação inclusiva antes de realizarem a disciplina de LIBRAS e na questão 02, verificou-se que apenas 50% dos entrevistados possuem uma visão positiva sobre a inclusão de alunos com deficiência física nas salas de aula de escolas públicas de ensino fundamental e médio uma vez que a inclusão desses alunos em escolas públicas é um direito adquirido por lei e que tal situação levará a população ouvinte a aceitar mais prontamente os portadores de deficiência na sociedade e que estes terão maiores possibilidades de se comunicar e conviver com pessoas ouvintes, o afetaria positivamente seu desenvolvimento emocional, psicológico, pessoal e social. Tal rejeição deve-se, principalmente, ao fato de os professores destas escolas – incluindo eles próprios – não estarem adequadamente capacitados para lidar com alunos portadores de deficiência, inclusive surdez, bem que como ao fato de as escolas, de maneira geral, não estarem minimamente adaptadas para recebê-los, não possuindo, sequer livros diferenciados de conteúdos programáticos em Braile ou computadores com programas específicos para portadores de surdez ou sequer um intérprete de LIBRAS para oferecer um serviço educacional adequado. Vale ressaltar aqui de 100% dos entrevistados não se sentem ainda aptos a trabalhar com alunos portadores de surdez. Já 13,33% dos entrevistados se demonstraram bastante preocupados com exclusão destes alunos por parte dos alunos ouvintes que poderiam, em tese, realizar bulling, ter preconceito, menosprezar e até mesmo agredir estes alunos portadores de deficiência. Já na questão 3, 90% afirmaram que não veem problemas em ensinar alunos surdos ou mesmo mantê-los em salas com alunos ouvintes, e a maioria destes afirmaram que existe a necessidade de maior qualificação dos professores na área de LIBRAS para poder oferecer uma educação de qualidade aos alunos surdos e 6,66% mencionaram a importância do intérprete de LIBRAS em sala de aula para a inclusão do aluno surdo. Já outros 6,66% são de opinião contrária à inclusão de surdo em salas de aula regulares. Na questão 4, 100% reconheceram que a disciplina LIBRAS nos cursos de licenciatura é de suma importância, uma vez que esta ensina o futuro docente a comunicar-se com os surdos, 20% sugeriram que esta disciplina deveria ser ministrada nos períodos iniciais do curso, antes dos estágios supervisionados e não no 10º período, pois durante suas atividades de estágio conviveram com alunos surdos e não souberam lidar com tal situação, prejudicando o aprendizado do aluno com surde e 10% apontaram para a necessidade de aumentar a carga horária da disciplina, pois só tiveram tempo para aprender o básico da língua de sinais. Na questão 5, 100% afirmaram que a LIBRAS será de grande importância em sua vida profissional, pois possibilitará a comunicação com os futuros alunos surdos, bem como a inclusão destes junto aos demais alunos e da sociedade como um todos.

Com este resultado, é óbvio que os alunos da disciplina ISC005-Língua Brasileira de Sinais apreenderam os conteúdos de inclusão educacional e se mostram bastante preocupados e interessados em adquirir maiores conhecimentos desta área. Fica evidente a necessidade de alterar o período de oferta desta disciplina para o início do curso, tanto para oportunizar a prática da LIBRAS durante os estágios, como para estes consigam se comunicar com seus alunos surdos, conseguindo proporcionar-lhes uma educação de qualidade.

A segunda etapa da pesquisa, representada pelas questões de 6 a 12, objetivam avaliar a ocorrência de conhecimento prévio de LIBRAS e a análise da disciplina ISB005-Língua de Sinais, propriamente dita, em termos capacitação ou não do aluno que a cursou para o mercado de trabalho. Na questão 6, 73,33% afirmaram nunca ter tido contato com a LIBRAS antes de cursarem a disciplina ISC005, 10% aprenderam alguns sinais com vizinhos, parentes e amigos, 3% com vídeos e livros da área, 9,9% realizaram cursos rápidos anteriormente, sendo que 6,6% Associação Pestalozzi de Coari, e 3,3% com um grupo de jovens religiosos denominados Desbravadores, ambos sem certificação. E 3,3% já haviam estudado LIBRAS em um curso de Licenciatura anterior. Na pergunta 7, ao término da disciplina em questão, 83,33% consideram-se capazes desse comunicar em LIBRAS. Na questão 8, em que foi solicitado para que os alunos traduzissem a sequência de figuras de sinalização para a frase “eu não escuto”, apenas 66,6% foram fazer a tradução adequadamente, 10% não traduziram e 23,33% traduziram a frase errado. Já na questão 9, foi solicitado que os entrevistados traduzissem para a língua portuguesa as figuras dos sinais dos termos árvore, pai e 50% dos entrevistados traduziram corretamente a palavra pai, 23,33 traduziram erroneamente e 26,67% deixaram a questão em branco. Quanto a palavra pai, 3,33% deixaram em branco, 6,67% traduziram errado e 90% traduziram corretamente. Com relação ao termo luz, apenas 3,33% realizaram a tradução correta, 46,67% traduziram erroneamente e 50% deixaram este termo em branco. Ao considerar a tradução dos três termos, pode-se afirmar que nenhum dos entrevistados acertou a tradução dos três termos, de modo que 3,33% deixaram a questão em branco, outros 3,33% erraram todas as traduções, 43,33% acertaram apenas um dos termos, 50% acertaram dois termos. Estes dados indicam que existe a necessidade de disponibilizar uma quantidade de tempo maior para o estudo e prática dos sinais, uma vez que, embora a maioria dos entrevistados afirme que se sente capaz de se comunicar em LIBRAS, metade eles não conseguiu traduzir para a Língua Portuguesa termos simples e corriqueiros e que também são técnicos para a área de Biologia. Na questão 13, foi questionado se a disciplina supracitada englobou temas suficientes para que aprendesse a se comunicar em LIBRAS com seus futuros alunos e 66,7% afirmaram que sim Com isso, recomenda-se o aumento da carga horária da disciplina ISC005-Língua Brasileira de Sinais, para que os alunos que a cursem possam, efetivamente, conseguir se comunicar nesta língua de maneira adequada e coerente.

A terceira etapa deste trabalha visa analisar a avaliação que o aluno da disciplina ISC005-Língua Brasileira de Sinais faz da ementa deste curso. Assim, foi solicitado na questão 14 o que poderia ser modificado na ementa da disciplina em questão para melhorá-la e apenas 50,0% responderam esta pergunta, dando as seguintes sugestões: convidar uma pessoa surda para uma das aulas, de modo que os alunos pudessem se comunicar com este indivíduo e conhecer um pouco mais sobre a cultura surda e seus anseios, a carga horária da disciplina deve ser aumentada para que se tenha tempo suficiente para aprender o vocabulário básico e treinar diálogos com os colegas, capacitar os professores do curso de Licenciatura em Ciências: Biologia e Química, para que estes repassem conhecimentos (entendido aqui como vocabulário) em LIBRAS para seus alunos no decorrer do curso de graduação, ensinar a elaborar e utilizar materiais adequados em LIBRAS e também a utilizar programas de computadores para melhor atender a clientela surda e, por fim, a grande maioria solicitou que seja inserido na ementa o ensino e a utilização de termos técnicos da área específica. Com estes resultados, fica claro, que existe a necessidade lógica de se inserir o uso de termos técnicos específicos da área de conhecimento para que o futuro professor tenha condições mínimas de ensinar um aluno surdo, tendo em vista que, embora impetrado por lei, nem sempre existe intérprete de língua de sinais nas escolas, ou ainda, que nem sempre este intérprete conhece os termos técnicos de biologia, química, matemática, física, enfim, de todas as áreas do saber.

Mercado et al., (2012, p. 57) chegaram às mesmas conclusões obtidas com este trabalho ao analisar os planos de ensino das disciplinas LIBRAS ofertadas em 05 (cinco) instituições de ensino superior da rede privada de São Paulo, para que se possa propiciar aos futuros professores do Ensino Fundamental e Médio, as condições mínimas necessárias para este conheçam e sejam capazes de lidar com as especificidades do aluno surdo no seu processo de aprendizagem.

CONCLUSÃO

Com este trabalho conclui-se que a ementa da disciplina ISC005-Língua Brasileira de Sinais precisa de alguns reajustes para que os discentes que a cursem sejam capazes de se comunicar em LIBRAS, tais como o aumento da carga horária, a reformulação dos conteúdos para a inclusão de vocábulos técnicos específicos de área e a inclusão de práticas dialógicas para o treino da sinalização.

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, Angela Canedo de; CONCEIÇÃO, Keilla Guzzo da; MEDEIROS, Mailana Dantas; DELGADO, Oscar, OMAR Carrasco. Educação Inclusiva: refletindo alguns anos de discussão frente às demandas das políticas públicas Revista Espaço Acadêmico. v. 3, n. 5, p. 56 – 69, 2012.

BOTELHO, Paula. Linguagem e Letramento na Educação dos Surdos: ideologias e práticas pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

BRASIL, Casa Civil, Subchefia para assuntos jurídicos. Decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, que Regulamenta a Lei Nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, e art. 18 da Lei Nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000.

BRASIL, Casa Civil, subchefia para assuntos jurídicos. Lei Nº 10.436 de 24 de abril 2002, que Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e dá outras providências. Brasília, 2002, 1 p. 139 – 152, 2006.

BRASIL, Casa Civil, subchefia para assuntos jurídicos. Lei Nº 12.319 de 1º de setembo 2010, que regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Brasília, 2002, 1 p, 2010.

GOLDFELD, M. A criança surda: linguagem, cognição, numa perspectiva interacionista. São Paulo: Plexus, 2002.

MENEZES, Ebenezer Takuno de. SANTOS, Thais Helena dos. “LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais)” (Verbete). Dicionário Interativo da Educação Brasileira.
Educa Brasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2006, 118 p.

MERCADO, Edna Aparecida. O significado e implicações da inserção de IBRAS na matriz curricular do curso de pedagogia. São Paulo : Feneis, 2012, p. 57 – 78.

ROSA, Andréa da Silva. Entre a visibilidade da tradução de sinais e a invisibilidade da tarefa do intérprete. Campinas, SP: Editora Arara Azul, 2005. 201 p.

SASSAZAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1991.

SOARES, Maria Aparecida Leite. Educação do Surdo no Brasil. Campinas: Autores associados, 1999, 398 p.

[1] Graduanda em biotecnologia.

[2] Graduado em biotecnologia.

[3] Doutora em Biotecnologia.

Enviado: Março, 2019

Aprovado: Abril, 2019

Doutora em Biotecnologia. Docente do curso de Bacharelado em Biotecnologia do Instituto de Saúde e Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas. Coordenadora do Laboratório de Cultura de Tecidos Vegetais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here