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Evolução da profilaxia da raiva humana em Macapá entre 2019 e 2023

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

FILGUEIRAS, Carlos Marcelo [1], FILGUEIRAS, Heloísa Oliveira [2], CARDOSO, Rosilene Ferreira [3], ARAÚJO, Maria Helena Mendonça de [4], MARQUES, Thaís Batista [5]

FILGUEIRAS, Carlos Marcelo et al. Evolução da profilaxia da raiva humana em Macapá entre 2019 e 2023. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 04, Vol. 01, pp. 132-154. Abril de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/evolucao-da-profilaxia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/evolucao-da-profilaxia

RESUMO

A raiva humana continua sendo uma preocupação de saúde pública, principalmente em regiões com grande circulação de animais potencialmente transmissores, como cães e morcegos. No município de Macapá, capital do estado do Amapá, as estratégias de profilaxia contra a raiva humana têm sido fundamentais na prevenção de surtos e na redução da mortalidade. A análise do manejo realizado entre 2019 e 2023 revela um conjunto de ações coordenadas entre a Secretaria Municipal de Saúde e outras entidades de saúde pública, com ênfase na vacinação de animais domésticos e a profilaxia pós-exposição. O acompanhamento e o controle rigoroso dos casos suspeitos e a promoção de campanhas educativas sobre o comportamento adequado diante de animais com suspeita de raiva têm sido medidas chave para mitigar os riscos. Ao longo do período analisado, as ações de conscientização e vacinação, juntamente com a agilidade no fornecimento de soro antirrábico e vacinas, foram determinantes na contenção da doença. No entanto, o estudo também revela desafios, como a cobertura insuficiente em áreas rurais e a resistência de alguns setores da população à imunização dos animais. Dessa forma, o fortalecimento das estratégias de prevenção, a melhoria da educação comunitária e o aumento da cobertura vacinal são essenciais para manter o controle da raiva humana no município.

Palavras-chave: Raiva humana, Profilaxia, Macapá, Saúde pública, Epidemiologia.

1. INTRODUÇÃO

A raiva é uma zoonose viral neurotrófica grave, causada por vírus do gênero Lyssavirus e caracterizada por sua alta taxa de letalidade, e costuma ser transmitida principalmente por mordidas de mamíferos infectados como cães, gatos e morcegos. No Brasil, a transmissão da raiva humana foi significativamente reduzida, mas sua prevenção ainda representa um desafio epidemiológico, especialmente em regiões onde há circulação do vírus entre animais domésticos e silvestres. A profilaxia antirrábica humana é a principal estratégia de prevenção da doença, tanto na imunização pré-exposição para grupos de risco quanto na profilaxia pós-exposição. (Frias; Nunes; Carvalho, 2016).

O município de Macapá, no estado do Amapá, enfrenta desafios específicos no controle da raiva devido à interação frequente entre humanos, animais domésticos e fauna silvestre. Fatores socioeconômicos e geográficos também impactam a efetividade das ações de vigilância epidemiológica e da oferta de profilaxia. A análise das estratégias de prevenção da raiva humana na região é fundamental para identificar lacunas no atendimento e aprimorar as políticas de saúde pública.

A profilaxia antirrábica humana pós-exposição inclui medidas como a lavagem imediata da ferida, administração da vacina antirrábica e, em casos indicados, do soro antirrábico. A rapidez no atendimento e a correta aplicação dos protocolos são essenciais para evitar a progressão da infecção. No entanto, há falhas no seguimento dessas diretrizes, comprometendo a proteção dos indivíduos expostos ao vírus.

A vigilância epidemiológica desempenha um papel fundamental na prevenção e controle da raiva humana. A notificação de casos suspeitos, o monitoramento da circulação viral em animais e a adoção de estratégias eficazes de imunização são essenciais para reduzir a incidência da doença (Evangelista et al., 2022).

O atendimento imediato após exposição ao vírus é crucial para evitar o desenvolvimento da doença. A profilaxia pós-exposição inclui a higienização rigorosa do ferimento, a administração de imunoglobulina antirrábica e a aplicação da vacina conforme o protocolo indicado. Segundo Rigo e Honer (2005), a efetividade da profilaxia depende da rapidez na busca por atendimento e da adesão ao esquema vacinal completo.

Estudos indicam que a profilaxia antirrábica humana é amplamente utilizada em municípios brasileiros, especialmente em regiões onde há circulação do vírus em animais domésticos e silvestres. Um levantamento realizado em Fortaleza-CE revelou desafios no diagnóstico de risco e no desperdício de doses de vacina, ressaltando a necessidade de melhor gerenciamento dos recursos disponíveis (Evangelista et al., 2022).

Além do aspecto preventivo, a análise dos atendimentos pós-exposição também revela desafios na gestão da profilaxia antirrábica. Estudos realizados em Salgueiro-PE apontam que muitos pacientes não completam o esquema vacinal, comprometendo a eficácia da imunização e elevando o risco de letalidade da doença (Filgueira; Cardoso; Ferreira, 2011). 2: A profilaxia antirrábica humana inclui duas abordagens principais: a vacinação pré-exposição, indicada para grupos de risco, e a pós-exposição, destinada a indivíduos que sofreram agressões por animais potencialmente transmissores da raiva (Mota et al., 2016).

A implementação de campanhas educativas é uma estratégia essencial para conscientizar a população sobre os riscos da raiva e a importância da profilaxia. Em Salgueiro-PE, uma análise dos atendimentos revelou que muitos indivíduos desconheciam os procedimentos de prevenção e a necessidade de completar o esquema vacinal (Filgueira; Cardoso; Ferreira, 2011).

A profilaxia antirrábica é uma estratégia essencial para o controle da raiva humana, especialmente após exposições ao vírus. No município de Macapá, diversas estratégias têm sido sugeridas para otimizar a eficácia da profilaxia antirrábica, com o objetivo de melhorar a cobertura vacinal, a capacitação dos profissionais de saúde e a gestão de insumos. A capacitação contínua dos profissionais de saúde é uma das principais propostas, pois garante que os atendimentos sejam realizados de forma eficaz, além de aprimorar a precisão na indicação de tratamento (Azevedo et al., 2018).

Além dos desafios no manejo clínico, há dificuldades na notificação de casos e no acompanhamento dos indivíduos expostos. A subnotificação pode levar à subestimação do risco epidemiológico, prejudicando a formulação de políticas públicas adequadas. Em Macapá, compreender a dinâmica dos atendimentos de profilaxia entre 2019 e 2023 permite avaliar déficits no acesso à vacinação, no monitoramento de pacientes e na adoção de medidas preventivas eficazes.

Estudos indicam que estratégias educativas para a população e profissionais de saúde podem melhorar a adesão à profilaxia e reduzir o risco de desfechos fatais. A conscientização sobre o reconhecimento de animais suspeitos, a importância da vacinação e a necessidade de buscar atendimento imediato após exposições são fundamentais para o sucesso das ações de controle da raiva.

O objetivo do artigo é analisar o manejo da profilaxia contra a raiva humana em Macapá entre 2019 e 2023, identificando dificuldades no atendimento pós-exposição e discutindo estratégias para aprimorar a prevenção da doença. A análise é baseada em dados epidemiológicos e na literatura científica, visando contribuir para o aperfeiçoamento das práticas de profilaxia e controle da raiva na região.

Assim, esse artigo visa avaliar, por meio das fichas de investigação de atendimento antirrábico do SINAN, se o uso da profilaxia antirrábica foi realizado adequadamente aos pacientes, durante o período de 2019 a 2023, no Município de Macapá, no Amapá.

2. MATERIAL E MÉTODOS

Esse artigo se trata de um estudo documental, retrospectivo, descritivo e transversal, caracterizado como pesquisa de levantamento a partir de análise de dados e subsequente discussão sobre o que foi coletado (Hulley et al., 2008).

Os dados foram baseados no município de Macapá, capital do estado do Amapá, na região Norte do Brasil. De acordo com o IBGE (2020), a cidade de Macapá tinha uma densidade demográfica de 78,14 hab/km², com uma população estimada de 512.902 habitantes distribuída em um território de 6.563,849 km². A população selecionada para o estudo consistiu nas pessoas que receberam atendimento antirrábico humano em qualquer um dos serviços ambulatoriais (atenção básica e especializada, prontos socorros e hospitais do Sistema Único de Saúde – SUS, além dos hospitais privados) no município de Macapá, estado do Amapá, conforme identificados pelas fichas de atendimento disponibilizadas no SINAN. Não houve seleção amostral, sendo contemplado o universo dos sujeitos que foram selecionados dentro dos critérios de inclusão e exclusão.

O instrumento de pesquisa utilizado foi a ficha de investigação (ANEXO A) do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) referente ao atendimento antirrábico humano. A ficha continha 60 perguntas subdivididas em seis grupos: dados gerais (1 a 7), notificação individual (8 a 16), dados de residência (17 a 30), antecedentes epidemiológicos (31 a 42), tratamento atual (43 a 60). O enfoque da pesquisa esteve nos dois últimos grupos, que se referem ao contexto da exposição ao vírus rábico do paciente.

Os antecedentes epidemiológicos diziam respeito à ocupação do indivíduo, tipo e data de exposição ao vírus rábico, localização do contato, número e tipo de ferimento, antecedentes de tratamento antirrábico, e espécie e condição do animal agressor. Já o grupo de perguntas do “tratamento atual” abordava o tratamento indicado ao indivíduo, indicação de soro antirrábico, peso do paciente e quantidade de soro aplicada, infiltração de soro no ferimento, laboratório fabricante do soro antirrábico e número da partida, fabricante, lote e vencimento da vacina e datas de sua aplicação, evento adverso à vacina, contexto da interrupção do tratamento, condição final do animal que realizou o ferimento após o período de observação e data do encerramento do caso.

Entre 2019 e 2023, o estado do Amapá registrou um total de 11.135 fichas de notificação. Deste total, 7.426 fichas referem-se ao município de Macapá, caracterizando o critério de inclusão adotado na análise. No entanto, algumas fichas foram excluídas por não atenderem aos critérios estabelecidos. Entre os principais motivos de exclusão, destacam-se a dispensa de tratamento profilático, que resultou na exclusão de 80 fichas, e a ausência de indicação de tratamento, que levou à exclusão de 19 fichas.

Os dados foram coletados na unidade de Vigilância Epidemiológica de Macapá, Amapá, e armazenados em uma planilha utilizando o programa Microsoft Excel, do pacote Office da Microsoft Corporation 2013. Posteriormente, foi realizada uma análise descritiva dos dados transcritos, seguida de uma discussão que relacionou a profilaxia preconizada pelo Ministério da Saúde e o manejo do tratamento antirrábico realizado no município entre 2019 e 2023.

Este estudo seguiu a resolução N°466/2012 para pesquisas com seres humanos, conforme as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa do Brasil (Brasil, 2012).

 3. RESULTADOS

Antes de quantificar os casos de profilaxia inadequada, deve-se identificar qual deve ser a correta indicação de tratamento, para isso é necessário evidenciar a gravidade do acidente. Para essa graduação leva-se em conta as características do ferimento e as do animal.

Quadro 1- Localização e etiologia viral

        Critério Classificação    Detalhes
Características do Ferimento Localização Cabeça, face, pescoço, mãos, polpas digitais, plantas dos pés, mucosas
  Profundidade Superficiais (sem sangramento), profundas (com sangramento e puntiformes)
  Extensão e Número de Lesões Abertura de portas de entrada, facilidade de contaminação
Características do Animal Doméstico Caninos, felinos, outros animais
  Silvestres Morcegos (qualquer espécie), micos, macacos, raposas, guaxinins, quatis, gambás, roedores silvestres (mesmo quando domesticados)
  Produção/Interesse Econômico Bovinos, equinos, suínos, caprinos, ovinos, entre outros
  Baixo/Nenhum Risco Animais não mamíferos (aves, répteis), roedores (ratazana de esgoto, rato de telhado, camundongo, cobaia, porquinho-da-índia, hamster, coelho)

Fonte: Autoral (2025).

Nas fichas foram localizados 99 acidentes com espécies de alto risco, destes foram excluídos 2 pois o tipo de contato foi indireto, sendo dispensado o tratamento profilático para este tipo de evento.

Gráfico 1. Total de Ocorrências por Animais de Alto Risco

Fonte: Autoral (2025).

Dentre estes acidentes, destaca-se os que envolvem morcegos, pois pelas normas atuais devem ser considerados como graves, independente da qualidade do ferimento, desde que não se trate de contato indireto.

Morcegos

Quantidade Total de Ocorrências: 28 casos, sendo 1 contato indireto e 27 com mordedura e/ou arranhadura. Nenhuma das ocorrências consta relato de exposição ou tratamento profilático pré-exposição anterior ao acidente.

Quadro 2- Ocorrências de Acidentes com Quirópteros (Morcegos)

Categoria Descrição Número de Casos
Total de ocorrências com morcegos Inclui todos os casos registrados 28
Contato indireto Sem indicação de profilaxia 1
Mordedura e/ou arranhadura Necessidade de profilaxia 27
Histórico de profilaxia prévia Casos com registro de profilaxia pré-exposição 0
Tratamento indicado Vacina (isoladamente) 10
  4 doses (sem soro, conduta inadequada) 7
  3 doses 1
  2 doses 1
  1 dose 1
Tratamento indicado Soro + Vacina 17
  4 doses (conduta adequada) 10
  3 doses 2
  2 doses 3
  1 dose 2

Fonte: Autoral (2025).

Acidentes com primatas

Total de ocorrências: 44 fichas

Quadro 3- Ocorrências de acidentes com primatas

Categoria Subcategoria Total de Casos 4 Doses < 4 Doses Motivo da Insuficiência Vacinal
Indicações Adequadas Soro + Vacina 28 23 5 2 abandonos (1 com busca ativa sem sucesso, 1 sem busca ativa), 1 transferência, 2 sem informação
Indicações Inadequadas Somente Vacina 7 6 1 Sem informação
  Observação + Vacina 7 1 6 3 abandonos com busca ativa sem retorno, 3 sem informação
  Pré-exposição (pós-evento) 2 1 1 1 abandono com busca ativa
Fichas Excluídas Dispensa inadequada 3 Espécie de alto risco + mordedura

Fonte: Autoral (2025).

Outros animais silvestres, mesmo domesticados

Total de ocorrências: 12 acidentes.

Animais domésticos de interesse econômico ou de produção

Os animais domésticos de interesse econômico ou de produção tem uma indicação de tratamento intermediária, alinhando-se ao que se preconiza para caninos e felinos raivosos, desaparecidos ou mortos.

Quadro 4- Ocorrências de Acidentes com Outros Animais Silvestres, Mesmo Domesticados, e Animais Domésticos de Interesse Econômico

Categoria Subcategoria Total de Casos 4 Doses < 4 Doses Motivo da Insuficiência Vacinal
Outros Animais Silvestres Soro + Vacina 8 6 2 2 abandonos com busca ativa
  Somente Vacina 3 1 2 1 com menos de 3 doses, 1 sequer iniciou o esquema
  Observação + Vacina 1 0 1 Fez somente 2 doses
Animais Domésticos de Interesse Econômico Soro + Vacina 7 6 1 Sem informação do motivo da falha
  Somente Vacina/Observação + Vacina 8 3 3 1 por transferência, 1 por abandono (busca ativa sem sucesso), 1 sem informação
  Indicação inadequada (contato indireto) 2 0 2 Sem informação do motivo da falha

Fonte: Autoral (2025).

Acidentes com Caninos e Felinos

Os acidentes com caninos e felinos totalizaram 7271 ocorrências, conforme os quadros 5, 6 e 7:

Quadro 5- Distribuição dos Tratamentos em Acidentes com Caninos e Felinos

Tipo de Tratamento Número de Casos
Dispensa do tratamento 63
Observação + Vacina 3.405
Observação do animal 736
Esquema de reexposição 1
Profilaxia pré-exposição 170
Soro + Vacina 905
Apenas Vacina 1.976
Total 7.271

Fonte: Autoral (2025).

Tratamento profilático pós exposição dispensado

Quadro 6- Distribuição dos “status” do animal e profilaxia anterior ao acidente, nos casos de dispensa de tratamento profilático

Status do animal / Tratamento profilático Número de Casos
Animal vacinado 1
Diagnóstico negativo para raiva

Clínica

Por Exame laboratorial

 

11

1

Morto/desaparecido

Diagnóstico negativo laboratório

Sem diagnóstico

Sem informação de diagnóstico

 

1

1

2

Raivoso – felino (Condição final ignorada) 1
Sadio

Felino

Canino

 

7

42

Suspeito 9
Profilaxia pré-exposição anterior 3
Profilaxia pós-exposição anterior

Concluído a menos de 90 dias

Concluído a mais que 90 dias

Sem a informação de tempo de conclusão

 

3

1

8

Total 91

Fonte: Autoral (2025).

Esquema de reexposição

Foi indicado o esquema de reexposição para um caso analisado, tendo sido aplicado corretamente.

Quadro 7- Distribuição dos acidentes, pela gravidade e tratamento indicado

Gravidade Tratamento no Atendimento Condição do Animal* Tratamento Preconizado Status
Contato Indireto Vacina Qualquer 39 Não tratar Exced.
Observação + vacina 43 Exced.
Observação 11 Adeq.
Pré-exposição 2 Exced.
Soro mais vacina 9 Exced.
Sub total 104
 

Leve

Vacina Suspeito 379 Observação + vacina Adeq.
Sadio 338 Observação Exced.
N/I 12 N/I N/A
Observação + vacina Suspeito 305 Observação + vacina Adeq.
Sadio 1.631 Observação Exced.
N/I 8 N/I N/A
Observação Suspeito 33 Observação + vacina Insuf.
Sadio 244 Observação Adeq.
N/I 1 N/I N/A
Profilaxia pré-exposição Suspeito 75 Observação + vacina N/A
Sadio 39 Observação N/A
N/I N/I N/A
Soro mais vacina Suspeito 204 Observação + vacina Exced.
Sadio 114 Observação Exced.
N/I N/I N/A
Sub total 3.383
Sub total suspeitos 792  
 

Grave

Vacina Suspeito 672 Soro + vacina Insuf.
Sadio 353 Observação + vacina Adeq.
N/I 6 N/I N/A
Observação + vacina Suspeito 457 Soro + vacina Insuf.
Sadio 941 Observação + vacina Adeq.
N/I 4 N/I N/A
Observação Suspeito 77 Soro + vacina Insuf.
Sadio 361 Observação + vacina Insuf.
N/I 4 N/I N/A
Profilaxia pré-exposição Suspeito 8 Soro + vacina N/A
Sadio 46 Observação + vacina N/A
N/I N/I N/A
Soro mais vacina Suspeito 419 Soro + vacina Adeq.
Sadio 150 Observação + vacina Exced.
N/I N/I N/A
Sub total 3.498 Tratamento Indicado Total
   Sub total suspeitos 1.633 Adequado 2.652
      Insuficiente 1.600
      Excedente 2.530
Total   6.985 Não avaliável 203

(*) Agrupados os status que demonstrem suspeita clínica de raiva: raivosos, suspeitos, mortos/desaparecidos

Fonte: Autoral (2025).

4. DISCUSSÃO

Apesar da existência de protocolos, o estudo revela falhas significativas na aplicação das diretrizes de tratamento. A profilaxia antirrábica humana pós-exposição é um dos principais mecanismos de prevenção da raiva, e sua adequada indicação depende da avaliação da gravidade do acidente, considerando as características do ferimento e do animal envolvido. Os dados analisados evidenciam que todos os casos envolvendo morcegos devem ser classificados como graves, conforme preconizado por Bandeira et al. (2018), que destacam a alta taxa de letalidade da raiva transmitida por morcegos e a necessidade de intervenção profilática rigorosa.

Gráfico 2 – Indicações de Tratamento e Cumprimento do Esquema Indicado em Acidentes com Animais de Alto Risco

Fonte: Autoral (2025).

Em relação à adequação do tratamento, observou-se que, dos 27 casos de exposição direta a morcegos, 17 foram tratados com soro associado à vacina, sendo que apenas 10 seguiram corretamente o protocolo de 4 doses da vacina, enquanto os demais receberam um número reduzido de doses, o que pode comprometer a eficácia da profilaxia. Esses achados são semelhantes aos de Evangelista et al. (2022), que relataram falhas na aplicação do esquema vacinal, resultando em exposição prolongada ao risco da infecção. Macedo e Vidal (2019) enfatizam que o subtratamento ou a administração inadequada das doses pode levar a falhas na imunização, sendo necessário reforçar a capacitação dos profissionais de saúde para garantir a correta aplicação dos protocolos.

Gráfico 3 – Distribuição dos Casos de Exposição a Morcegos e Indicação de Tratamento

Fonte: Autoral (2025).

Por outro lado, os 10 casos que receberam apenas a vacina, sem a administração do soro, demonstram falhas na conduta profilática, uma vez que o protocolo atual preconiza o uso combinado em exposições graves. Marques et al. (2020) evidenciaram que a omissão do soro antirrábico em casos de alta gravidade aumenta significativamente o risco de desenvolvimento da doença, tornando necessário um maior controle sobre o cumprimento das diretrizes de tratamento. Além disso, Frias, Nunes e Carvalho (2016) sugerem que a indicação racional da profilaxia pode ser aprimorada por meio de metodologias mais rigorosas na triagem dos casos.

A análise epidemiológica realizada por Moriwaki et al. (2013) também destaca que a falha na profilaxia adequada não se restringe apenas à ausência do soro, mas também à administração incompleta das doses recomendadas. No presente estudo, 3 casos receberam apenas 2 doses e 2 casos apenas 1 dose, o que reforça a necessidade de reforçar a adesão ao esquema completo. Esse cenário é corroborado por Araújo et al. (2020), que verificaram condutas inadequadas semelhantes no atendimento de acidentes envolvendo gatos, apontando a necessidade de revisão e padronização dos protocolos clínicos.

Em termos de comparação regional, Rigo e Honer (2005) já haviam identificado, em sua análise da profilaxia em Campo Grande-MS, que erros na conduta pós-exposição ocorrem com frequência, seja por desconhecimento dos profissionais ou por falhas no acompanhamento dos pacientes. Azevedo et al. (2018) e Cavalcante, Florêncio e Alencar (2017) também relataram que a variabilidade na administração da profilaxia ocorre em diversas regiões do país, indicando a necessidade de programas de capacitação e monitoramento mais eficazes.

A análise dos casos de profilaxia antirrábica humana relacionados a morcegos evidencia a predominância de exposições de alto risco, com 27 dos 28 registros envolvendo mordeduras e/ou arranhaduras, o que justifica a necessidade de profilaxia pós-exposição. Esse padrão de exposição é semelhante ao identificado por Rigo e Honer (2005), que analisaram a profilaxia da raiva humana em Campo Grande e apontaram a elevada frequência de atendimentos relacionados a acidentes com animais silvestres, especialmente morcegos, reforçando a importância da vigilância epidemiológica nesses casos.

Nos casos de acidentes com caninos e felinos a tendência se mantém. Dos 6.985 casos com indicação de tratamento, somente cerca de 40% foi adequada. Além disso, grande parte desses tratamentos não foi aplicado corretamente. Dos acidentes leves, cerca de 23% ocorreram com animais suspeitos, a indicação adequada foi de cerca de 16%, porém nesse grupo teve destaque a sobreprescrição, com cerca de 58%. Já no caso dos acidentes graves, 23% se deram com animais suspeitos, indicação adequada atingiu 49%; e o destaque foi a prescrição insuficiente, com cerca de 45%.

Gráfico 4 – Distribuição dos Atendimentos quanto à Adequação de Tratamento

Fonte: Autoral (2025).

Gráfico 5 – Quantidade de doses de vacina aplicada, pelo tipo de tratamento indicado

Fonte: Autoral (2025).

Apesar da clara necessidade de profilaxia, verificou-se que as condutas adotadas nem sempre foram adequadas, especialmente na administração das doses de vacina e do soro antirrábico. Dos casos envolvendo morcegos, 27 necessitavam de tratamento, 17 foram tratados com soro e vacina, enquanto 10 receberam apenas a vacina. Dentre aqueles tratados exclusivamente com vacina, sete receberam quatro doses sem soro, o que é uma conduta inadequada. Já nas ocorrências com caninos e felinos, os acidentes graves com animais suspeitos que demandavam a mesma estratégia de tratamento, verificou-se que cerca de 60% não atingiram a quantidade mínima adequada de doses da vacina, sendo que cerca de 16% fizeram somente uma ou nenhuma.

Evangelista et al. (2022) destacam que erros na aplicação da profilaxia são recorrentes em diversos municípios brasileiros, resultando em riscos desnecessários para os pacientes expostos. A inadequação das condutas profiláticas também foi observada no estudo de Macedo e Vidal (2019), que questionam a aplicação de esquemas profiláticos sem a devida avaliação da gravidade do caso e do risco de transmissão do vírus da raiva.

Assim, os dados apresentados reforçam a importância da correta avaliação do risco de exposição e da adesão ao esquema de profilaxia adequado. O estudo evidencia que, apesar da existência de protocolos bem estabelecidos, ainda há uma margem significativa de erros na conduta terapêutica, o que pode colocar em risco a vida dos indivíduos expostos. Para mitigar esses problemas, é essencial investir na educação continuada dos profissionais de saúde, além de estratégias de monitoramento que garantam o cumprimento das diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde.

Outro ponto relevante é a baixa incidência de casos com histórico de profilaxia pré-exposição, indicando que estratégias preventivas não estavam sendo aplicadas ao público de maior risco. Mota et al. (2016) já haviam apontado essa deficiência no estado do Rio Grande do Sul, ressaltando que a profilaxia pré-exposição ainda é subutilizada, mesmo em populações com alto risco de contato com animais potencialmente transmissores da raiva. Esse cenário reforça a necessidade de campanhas educativas e da ampliação do acesso à profilaxia pré-exposição, conforme proposto por Frias, Nunes e Carvalho (2016), que sugerem a implementação de novas metodologias para a indicação racional da profilaxia antirrábica humana pós-exposição.

A distribuição dos tratamentos indica que, nos casos em que foi administrado soro e vacina, a maioria dos pacientes, cerca de 64%, recebeu quatro doses, o que é considerado uma conduta adequada segundo os protocolos nacionais e internacionais. Frias, Lages e Carvalho (2011) destacam que a correta aplicação da profilaxia reduz significativamente o risco de desenvolvimento da raiva, mas alertam para a necessidade de capacitação contínua dos profissionais de saúde para evitar falhas no atendimento inicial. Estudos como os de Marques et al. (2020) e Azevedo et al. (2018) reforçam essa preocupação ao apontarem que a administração inadequada da profilaxia é uma realidade em diversas regiões do Brasil, evidenciando a importância da padronização das condutas conforme as diretrizes vigentes.

Além disso, a análise dos esquemas de tratamento evidencia a variabilidade na administração das doses da vacina. Entre os pacientes que receberam soro e vacina, 10 receberam quatro doses, dois receberam três doses, três receberam duas doses e dois receberam apenas uma dose. Pequeno et al. (2020) relatam que esse tipo de variação pode estar associado à indisponibilidade de insumos, falhas na comunicação entre os serviços de saúde e a falta de adesão dos pacientes ao esquema completo. Essa situação compromete a eficácia da profilaxia, uma vez que a interrupção precoce do esquema vacinal pode resultar em proteção insuficiente contra a infecção.

Dessa forma, os dados apresentados reforçam a necessidade de aprimoramento das estratégias de profilaxia antirrábica, incluindo a correta aplicação dos esquemas de vacinação e o fortalecimento da profilaxia pré-exposição para grupos de risco. Estudos como os de Cavalcante, Florêncio e Alencar (2017) e Araújo et al. (2020) destacam que a vigilância epidemiológica deve ser continuamente aprimorada para garantir que a profilaxia seja realizada de maneira eficaz e segura, minimizando falhas na abordagem dos casos e garantindo maior proteção à população exposta ao vírus da raiva.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do manejo da profilaxia contra a raiva em Macapá, entre 2019 e 2023, revela avanços e desafios na aplicação dos protocolos de atendimento pós-exposição. Embora a profilaxia esteja disponível, há inconsistências que podem levar ao desperdício de insumos e riscos para os pacientes, como a administração desnecessária de vacinas e soro antirrábico, que indica falhas na avaliação inicial e na observação dos animais suspeitos. Além disso, a predominância de mordeduras por cães e gatos destaca a necessidade de campanhas educativas e controle populacional desses animais. Portanto, a capacitação contínua dos profissionais e a adoção de protocolos mais rigorosos são essenciais para garantir a eficiência do tratamento e a cobertura adequada para os casos necessários, além da atualização das diretrizes locais e o fortalecimento da vigilância epidemiológica são fundamentais para otimizar a resposta à exposição ao vírus da raiva.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, I. L. et al. Análise epidemiológica dos atendimentos da profilaxia antirrábica humana associados a acidentes com gatos. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 72, p. 814-822, 2020.

AZEVEDO, Joyce Pereira de et al. Avaliação dos atendimentos da profilaxia antirrábica humana em um município da Paraíba. Cadernos Saúde Coletiva, v. 26, p. 7-14, 2018.

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CAVALCANTE, Kellyn Kessiene; FLORÊNCIO, Caroline Mary; ALENCAR, Carlos Henrique. Profilaxia antirrábica humana pós-exposição: características dos atendimentos no estado do Ceará, 2007-2015. 2017.

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NOTA

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial “Microsoft Word Copilot”, de versão não identificada na Plataforma, para fins de revisão gramatical e revisão do estilo de linguagem (a fim de manter linguagem adequada ao caráter acadêmico-científico do manuscrito), além de adequação ao número de palavras e estrutura do artigo de acordo as orientações de submissão da revista. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos, planejamento e escrita original do manuscrito, aprovação de sugestões de gramática e estilo, tabelas e gráficos, e revisão textual, foram realizadas de maneira autoral.

[1] Graduação em Medicina (em andamento). Graduação em Ciências Contábeis (1998). ORCID: 0009-0009-9373-3265. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5060954838206219.

[2] Graduação em Medicina (em andamento). ORCID: 0009-0004-7979-5172. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6329984831237733.

[3] Orientadora. Docente de Curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Doutorado em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2014). Mestrado em Epidemiologia pela Universidade Federal de São Paulo (2005). Pediatria (UFPA – 2017). Especialização em Vigilância em Saúde Ambiental (UFRJ – 2007). Especialização em Educação em Saúde pela Escola Paulista de Medicina – UNIFESP – (1999). Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Pará (1993). ORCID: 0000-0002-5834-8443. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5110046249387145.

[4] Co-Orientadora. Docente de Curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Doutora pelo Programa Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado Profissional em Ensino em Ciências da Saúde, pela Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP. Especialização em Saúde da Família. Especialista em Medicina do Trabalho. Especialização em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana. Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Pará. ORCID: 0000-0002-7742-144X. Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/8427706088023830.

[5] Co-Orientadora. Mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde, na Universidade Federal do Amapá. Graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural da Amazônia (2011). ORCID: 0000-0003-0474-9855. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1007127595508275.

Material recebido: 02 de abril de 2025.

Material aprovado pelos pares: 08 de abril de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 30 de abril de 2025.

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Carlos Marcelo Filgueiras

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