Lutero e seu contexto histórico: apontamentos para o entendimento da relevância da reforma protestante no século XVI

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ENSAIO TEÓRICO 

MARINS, Ezequias Amancio [1]

MARINS, Ezequias Amancio. Lutero e seu contexto histórico: apontamentos para o entendimento da relevância da reforma protestante no século XVI. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 01, Vol. 04, pp. 126 -141 Janeiro de 2019. ISSN:2448-0959

RESUMO

Lutero foi um dos reformadores da Igreja Católica no século XVI. Mas, seu papel é “sui generis” pelo fato de que ele conseguiu fazer com que sua voz chegasse até Roma causando um estardalhaço político por conta de seu alinhamento com a nobreza do Norte da Alemanha que estava fatigada pelo domínio exagerado da Igreja na região. Compreendemos que o movimento reformista liderado por Lutero só aconteceu por conta de alguns elementos de sua biografia, sobretudo caracterizada por sua luta pessoal de pacificação na alma, e também pelo seu entorno histórico. O período denominado de “Renascimento” fez com que ressurgisse valores humanistas suficientes para levar a cabo uma série de inquietações intelectuais que, a partir dos mosteiros começou a chegar na casa das pessoas comuns. O impacto da Reforma Protestante precisa ser redimensionado como sendo algo que alcançou a mente europeia da época com uma mensagem libertária e emancipadora.

Palavras-Chave: Lutero, Reforma, Igreja, Século XVI.

INTRODUÇÃO:

O tema é relevante por ocasião das comemorações dos 500 anos da “Reforma Protestante”. Embora possamos admitir que o marco da Reforma não foi em si o convite ao debate das famosas “95 teses” que Lutero formulou e teria afixado nas portas da igreja do Castelo em Wintenberg (1517), mas sim a experiência mística que o reformador tivera em seu claustro ao fazer a leitura do texto bíblico de Romanos 1.16,17 (1515) temos de partir de uma data limite para analisar o contexto histórico que favorece que esse evento tivesse desdobramentos tão incríveis para a história da humanidade.

Partimos nossa pesquisa desse tema proposto para lançar alguma luz na pessoa de Lutero em seu contexto histórico justamente para tentar entender que esse movimento reformista não foi obra de apenas um homem, mas sim de toda uma aspiração conjuntural por mudanças no sistema religioso de seu tempo, dando destaque obviamente ao segmento dominante na época, o catolicismo romano.

Quando nos lançamos aos estudos tínhamos em mente que um movimento dessa envergadura não poderia ser obra de um homem apenas, por que ninguém, mesmo que reunindo todas as habilidades de retórica e liderança poderia desenvolver elementos tão contundentes de discurso e prática para simplesmente desmoronar um sistema até então monolítico, onde a fé só se mantinha a partir do viés católico, e nada mais diferente do que isso vicejava. É fato que outros homens tentaram ao longo dos tempos passados desafiar a Igreja em suas práticas e doutrinas estranhas ao espírito do cristianismo, mas o fim de todos eles foi a morte e o desterro de suas memórias. Mas, algo acontece no tempo de Lutero que o faz não apenas sobreviver, mas ter a sua voz ainda mais amplificada e suas queixas ouvidas por quem de direito. Além disso tudo, em sua missão de pregador, Lutero em momento algum deixou de ter pessoas debaixo de seu ensino, e de sua influência pastoral.

Logo, tentaremos responder as seguintes questões nesse artigo: Quais aspectos da biografia de Lutero influenciaram para que sua fala reformista se efetivasse? Como era o entorno histórico do século XVI na Europa que fez com que ecoasse os reclamos por uma mudança na mentalidade católica? Como pode ser vista e observada a participação popular nesse processo?

Temos um interesse pessoal nessas respostas, pois entendemos a necessidade de contribuirmos para que mais pessoas tenham acesso às reais intenções da “Reforma Protestante” isso para não ficarem alheias a um processo de mudanças que ainda em nossos dias encontram desdobramentos.

Nosso artigo terá como base resultados de estudos em livros de historiadores diversos (ligados à fé protestante e outros não), bem como observações pessoais quando percebermos que tais posicionamentos fazem coro àquilo que preza as fontes primárias.

Aproveitamos para destacar uma fala de Eric Hobsbawn sobre a importância de se ater a temas históricos fundamentais: A destruição do passado – ou melhor dos mecanismos que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio.[1]

Logo, é de fundamental importância pensar a história como sendo uma libertação da ignorância que nos paralisa a um presente sem perspectivas. Quem não analisa o seu presente com os óculos do passado compromete o seu futuro, pois tenta construir seus valores na areia movediça dos sentimentos desprovidos de reflexão racional.

E a “Reforma Protestante” a partir da análise do homem Lutero em seu contexto histórico irá propor um novo entendimento do que vem a ser a expressão de uma fé seguida por milhões em torno do mundo, mas compreendida apenas pelos que não desprezam o olhar historiográfico proposto nesse ensaio.

DESENVOLVIMENTO

Cabe aqui um relato o mais concatenado possível da biografia de Lutero respeitando elementos que o farão despontar como um dos grandes nomes desse evento icônico na história do cristianismo mundial.

UMA BIOGRAFIA: MARTINHO LUTERO.

Lutero veio de uma estirpe de trabalhadores. Ele nasceu no pequeno vilarejo de Eisleben, Alemanha, em 10 de novembro de 1483. Seu pai, Hans, era um mineiro de cobre que eventualmente ganhou alguma riqueza de participação de lucros das minas, fundidores e outras atividades comerciais. Sua mãe era piedosa, porém religiosamente supersticiosa. Lutero foi criado sob as estritas disciplinas da Igreja Católica e foi preparado por seu industrioso pai para ser um advogado bem-sucedido. Para este fim, buscou educação em Eisenach (1498-1501) e então em filosofia na Universidade de Erfurt. Nesta última, recebeu o grau de bacharelato em artes, em 1502, e o grau de mestre em artes, em 1505.[2]

Mesmo convivendo em um ambiente fortemente acadêmico, Lutero agasalhava em sua alma conflitos espirituais extremados. Chaunu destaca uma fala de Lutero que realça essa luta que ele possuía em ter uma vida que de fato agradasse a Jesus, e lhe trouxesse o perdão de seus pecados, bem como a cura de sua angústia de alma:Lutero, que viveu dentro deste contexto, descreve-o dizendo: “Nunca era possível fazer penitências suficientes, nem cumprir as santas obras necessárias e por que, apesar de tudo, continuamos aterrorizados com a cólera de Deus, aconselhamos a virarmos para os santos que estão no céu e que se situam como mediadores entre Cristo e nós, ensinam-nos a rezar à amada mãe de Cristo, lembrando-nos que ela dera de mamar a seu filho e que ela poderia muito bem pedir-lhe para moderar sua cólera contra nós e assegurar sua graça”. [3]

A alma de Lutero ansiava por uma libertação de suas amarras existenciais. Ele não vivia em paz consigo mesmo, e algo lhe aconteceu em uma certa tarde que mudou para radicalmente o rumo de sua vida. Contrariando o desejo de seu pai que o queria advogado, ele vai entrar em 1505 para a “Ordem dos Eremitas Agostinianos”. Certa tarde ele se viu assustado em meio a uma grande tempestade numa estrada perto de Erfurt e nessa ocasião ele promete a Santa Ana (padroeira dos mineiros, a profissão de seu pai) de que se fosse poupado, se tornaria monge. Seu pai durante muitos anos interpretou essa experiência de Lutero como uma “tramoia do diabo”. Mas o fato é que temos de dois anos (1507), estava Lutero celebrando a sua primeira missa. [4]

Lutero era um homem das letras e dos estudos e com dedicação se pôs a estudar os textos bíblicos nos seus originais, nas fontes primárias, e logo já estava percebendo o quanto a igreja havia fugido dos primeiros ideais divinos. Ainda segundo Earle E. Cairns: Lutero então, passou a ensinar os livros da Bíblia no vernáculo e, para fazê-lo melhor, começou a estudar as línguas originais da Bíblia. Aos poucos desenvolveu de que somente na Bíblia podia encontrar a verdadeira autoridade. De 1513 a 1515, deu aula sobre os Salmos; de 1515 a 1517 sobre os Romanos, e, depois, Gálatas e Hebreus. Entre 1512 e 1516, quando preparava suas aulas, encontrou a paz interior que não conseguia nos ritos, nos atos ascéticos ou na famosa teologia germânica dos místicos, por ele publicada em 1516. A leitura do verso 17 do capítulo 01 de Romanos convenceu-o de que somente pela fé em Cristo era possível a alguém tornar-se justo diante de Deus. A partir daí, a doutrina da justificação pela fé e a sola scriptura, a ideia segundo a qual as Escrituras são a única autoridade para o pecador procurar a salvação, passaram a ser os pontos principais do seu sistema teológico.[5]

Essa “experiência de torre” marcou o início de seu despertamento espiritual para enxergar de que algo em seu entorno não ia bem. Ele era um “homem da igreja”, mas que começa a questionar o quanto essa igreja estava longe dos seu Senhor. A bem da verdade, a despeito desse despertamento epistemológico não houve ainda por parte de Lutero nenhum movimento de distanciamento da igreja, mas apenas uma descoberta do que mais tarde, ele irá dizer que lhe abriu as portas do paraíso.[6]

Sua grande descoberta embora tivesse lhe trazido uma nova compreensão do evangelho, não lhe fazia protestar de imediato ao modo que a igreja entendia a sua fé. Pelo contrário, Lutero continuou dedicado aos seus labores como mestre e pastor, embora com vislumbres de uma nova teologia. E o que é mais notável é que ele não tinha percebido que sua grande descoberta se oponha a toda o sistema de penitências e, consequentemente, à teologia e às doutrinas comuns de sua época. [7]

Mas não demorou para que Lutero se visse confrontado com doutrinas e práticas pagãs dentro da Igreja Católica. E o episódio da “venda das indulgências” veio para marcar esse início da ruptura de Lutero com a Igreja. Em 1515, sob os auspícios do papa Leão X foram permitidas a comercialização de indulgências (“perdão divino”) para financiar a construção da nova igreja de São Pedro, em Roma. O príncipe Alberto, também arcebispo contratou agentes para transitarem por toda a Europa oferecendo o livramento das almas do purgatório, e a quantia era estipulada de acordo com os ganhos do pagante. [8]

Um dos mais competentes agentes (e justamente o que foi incumbido de propagandear seu “produto” na região onde Lutero era líder religioso) foi João Tetzel, um frade dominicano, que é saudado pela população alemã ao som de sinos e grande alvoroço. Lutero por sua vez, insiste em suas críticas e achava um absurdo o mote usado por Tetzel: “sempre que uma moeda no cofre soa, uma alma do purgatório voa”. Gonzalez vai deixar isso mais explicado: Tetzel e seus subalternos proclamavam que a indulgência que vendiam deixava o pecador “mais limpo do que saíra do batismo”, ou “mais limpo do que Adão antes de cair”, ainda que “a cruz do vendedor de indulgências tinha tanto poder como a cruz de Cristo”, e que no caso de alguém comprar uma indulgência para um parente já morto, “tão pronto a moeda caísse no cofre, a alma saia do purgatório”.[9]

Incomodado com essa propaganda enganosa, uma vez que se estava oferecendo um “produto” que não estava sob o governo humano, mas que provinha do próprio Deus, Lutero sentou-se para elaborar sua contrapartida teórica e, como era costume em seu tempo chamou os mestres de sua região para um debate sobre a genuinidade dessa prática através de suas “95 teses”. Lutero esperava provocar uma discussão serena entre o corpo docente, não uma revolução popular. Mas uma cópia caiu nas mãos de um tipógrafo, o qual viu que as noventa e cinco teses impressas seriam “espalhadas pelas asas dos anjos” por toda a Alemanha e Europa em poucas semanas. Lutero se tornou um herói de um dia para o outro. Com isso, essencialmente, a Reforma nasceu. [10]

Cabe aqui um testemunho de um dos historiadores mais clássicos no que tange à Lutero. Trata-se de Lucien Febvre: Em 1º. De novembro de 1517, ninguém se apresentou para debater com o irmão Martinho. Em poucos dias, porém, as 95 teses, reimpressas, traduzidas em língua alemã, difundidas em todos os círculos, traziam até o monge, para sua imensa surpresa, o eco de uma voz cujo tom e vigor perturbaram-no profundamente. A voz de uma Alemanha inquieta, surdamente palpitante de paixões mal contidas, que esperava apenas um sinal, um homem, para revelar em público seus secretos anseios.[11]

Lutero combatia com violência a prática da venda das indulgências, mas achava que quando e se as suas teses chegassem ao conhecimento do Papa o teor delas seria compreendido e algo seria feito para corrigir essa distorção. Mas, não foi isso que aconteceu e, diferentemente de outros escritos de Lutero essas teses foram suficientes para inflamar a ira da elite da Igreja contra os pressupostos dessa critica tão ferina. Lutero se viu duramente atacado e só não sucumbiu porque estava sob a proteção de um grande príncipe de sua região, a Saxônia, conhecido como Frederico, o Sábio. Como diz, Gonzalez:Durante todo esse período, Lutero havia contado com a proteção de Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia e, portanto, senhor de Wittenberg. Frederico, não protegia Lutero por estar convencido de suas doutrinas, mas sim porque lhe pareceu que a justiça exigia um julgamento correto. A principal preocupação de Frederico era ser um governante justo e sábio. Com esse propósito fundou a universidade de Wittenberg, muitos de cujos professores lhe diziam que Lutero tinha razão, e que se enganavam aqueles que o acusavam de heresia. Pelo menos, enquanto Lutero não fosse condenado oficialmente, Frederico estava disposto a evitar que se cometesse com ele uma injustiça semelhante a que havia acontecido no caso de João Huss.[12]

Em 1520, o papa emitiu uma bula ordenando que Lutero se retratassem em 60 dias ou seria excomungado e banido. E como ninguém conseguia combate-lo por argumentos, tentaram cala-lo com esse libero acusatório. Mas, em contra-ataque Lutero chama o papa de “anticristo” e queima sua cópia da bula com as seguintes palavras: “Pelo fato de vocês confundirem a verdade de Deus, o Senhor hoje confunde vocês. Que sejam lançados ao fogo!”. Com a bula foram queimadas obras de teologia e livros da lei canônica, destruindo em sentido simbólico todo o sistema eclesiástico da igreja romana.[13]

Isto posto, Lutero foi convocado para expor seus pensamentos ainda mais uma vez, agora em Worms, e, não obstante não percebendo que era lhe posto uma “cilada”, ele foi raptado por cavaleiros, a mando de Frederico, e abrigado em seu castelo pelos próximos dez meses. Jesse Lyman Hurlbut narra assim esse ocorrido: Enquanto viajava em regresso à sua cidade, Lutero foi cercado e levado por soldados do eleitor Frederico para o castelo de Wartburg, na Turíngia. Ali permaneceu guardado, em segurança e disfarçado, durante um ano, enquanto as tempestades de guerra e revoltas rugiam no império. Entretanto, durante este tempo, Lutero não permaneceu ocioso; nesse período, traduziu o Novo Testamento para a língua alemã, obra que por si só o teria imortalizado, pois essa versão é considerada o fundamento do idioma alemão escrito. Isso aconteceu no ano de 1521. O Antigo Testamento só foi completado alguns anos mais tarde. [14]

Lutero já tinha acendido fogo em um pavio que iria custar terminar em seu fulgor. Foi sem dúvida, um incendiário de uma verdade que ele defendia com ardor: a fé cristã tinha de se libertar do fantasma do catolicismo medieval. Seu trabalho de cunho religioso atingiu mais do que ele mesmo poderia imaginar, mudou toda uma cultura, e permeou as lutas que fizeram com que a Europa no século XVI encontrasse respostas para muitas das suas inquietações.

UM CONTEXTO: EUROPA NO SÉCULO XVI

Durante a Idade Média, a Igreja Católica tinha o seu poder consolidado, em uma estrutura de poder bem rígida, e com seu poder de influência em praticamente todos os estados europeus. Era um verdadeiro monopólio da fé, onde ela mesmo arrogava para si o título de “única igreja de Cristo”. A sociedade medieval era caracterizada pelo poder do rei e sua nobreza, e da igreja e seus sacerdotes, sendo a população a parte excluída de todas as decisões e processos de emancipação social (que praticamente não existiam). Pontuaremos algo interessante para ilustrar ainda mais esse ponto: De fato, a Igreja se tornou poderosíssima nesta época, tanto no âmbito ideológico quanto na ótica política e econômica. Para se ter uma ideia, a própria divisão da sociedade da época era baseada na Santíssima Trindade: Clero, Nobreza e Servos. Com o pretexto da obtenção da salvação, a mentalidade do homem passou a ser totalmente embasada pela religião. A grande quantidade de doações monetárias de fiéis e os tributos cobrados pela Igreja fizeram com que a organização passasse a ter um grande poder econômico, levando-a a possuir cerca de um terço de todas as terras cultiváveis da Europa. Com tanto poder, a instituição passou a exercer certo monopólio intelectual, já que a grande maioria da população era analfabeta e, além disso, não tinha acesso às obras escritas. [15]

Tanto poder absoluto fica fácil discernir que houve nesse tempo abusos incontáveis de poder, além de uma violência religiosa ostensiva que ficou conhecida como “Santa Inquisição”, que nada mais era do que uma força policial tutelada pela Igreja em busca (melhor seria, “caça”) aos hereges, isto é, aqueles que pensavam diferente da interpretação oficial da igreja. E com tudo isso, a igreja convivia com um clero corrupto e com uma fama terrível no que tange ao exercício da moral e dos bons costumes. Por isso, Delameau vai dizer que “os abusos sempre crescentes, ligados à excessiva centralização romana e às preocupações demasiado temporais do clero, provocaram, por uma espécie de descontentamento, a revolta protestante”.[16]

Fazendo uma análise mais próxima do campo da Filosofia, podemos afirmar que com o desenvolvimento das cidades na Europa meridional e ocidental, bem como com o estabelecimento das estacas do movimento renascentista, onde foi resgatada toda a arte, arquitetura e estrutura de pensamento mais próximos ao classicismo grego, era de se esperar que o pessimismo do sistema agostiniano fosse substituído por um arcabouço ideológico mais próximo do humanismo secular. O novo sistema de crença cristalizou-se, por fim, durante os séculos XII e XIII, nas obras de Pedro Lombardo e S. Tomás de Aquino. Sua premissa principal era em relação ao chamado “livre arbítrio”, pensamento em que o homem podia escolher entre o bem e o mal, e ele, através do batismo, penitência e a eucaristia poderia assegurar sua paz com Deus, por meio de um perdão de seu pecado original, uma culpa absolvida e a renovação à cada missa dos efeitos redentores do sacrifico de Cristo. [17]

Fato é que a Reforma Protestante foi um grito contra esses pressupostos do pensamento tomista. Fazendo esse link aqui, bom destacar o que Quentin Skinner vai produzir em sua pesquisa sobre o “absolutismo e a reforma luterana”:O ataque de Lutero aos abusos clericais também ecoava uma série de atitudes que já prevaleciam na Europa de fins da Idade Média . Conforme vimos, ele concentrou sua atenção nas deficiências do papado, insistindo na necessidade de se retornar à autoridade das Escrituras e de restabelecer uma Igreja apostólica, mais simples e menos mundana. Essa linha de ataque já era adotada, com veemência pelo menos igual à sua, por um número crescente de pensadores anticlericais da geração imediatamente anterior à Reforma. [18]

Por isso, cabe muito bem terminarmos essa análise de contexto histórico, salientando um trecho de um dos escritos de Lutero sobre a sua opinião do que alguém na posição de papa deveria fazer. Esse trecho faz parte das suas obras selecionadas e coletadas pela Editora Sinodal, que pertence a um dos ramos luteranos no Brasil. Deixemos o próprio Lutero falar acerca dos papas que ao invés de pastorearem o rebanho de Deus e pregarem a Palavra de Deus eram: Nesse ponto, porém, são omissos e converteram-se em senhores seculares; governam com leis que concernem somente ao corpo e aos bens. Inverteram as coisas maravilhosamente. Deveriam governar exteriormente castelos, cidades, países e pessoas, e torturam as almas com trucidações indizíveis. Existe um vício generalizado e uma desvirtude perniciosa, em todo o mundo e em todos os níveis. Em grego chama-se de “polypragmosyne”- estar muito ocupado com coisas que não nos foram ordenadas e deixar de lado as coisas que nos foram insistentemente ordenadas. Os latinos dizem “foris sapere, domi desipere”- sábio lá fora, tolo em casa. Prefiro chamar esse vício de “intromissão indevida”. Ela é um dos frutinhos do pecado original, inato e inerente. Todos se cansam rapidamente das coisas que lhe são ordenadas e passam a se intrometer em coisas alheias, que simplesmente deveriam deixar de lado. [19]

Fica óbvio que a crise de Lutero era com os excessos de Roma onde ao invés de promover o crescimento das pessoas em acessos ao conhecimento, em todos os níveis, uma vez que a própria imprensa estava sendo dinamizada a partir de 1546, e os principais estados europeus viviam um clima de forte nacionalismo, a Igreja se colocava de costas para o progresso e cerceando a liberdade que as pessoas tinham de se emanciparem como cidadãos do mundo. E esse movimento emancipatório do indivíduo, tendo como consequência o surgimento dos mais diversos nacionalismos europeus foram surgindo na Inglaterra, França e Espanha. Isto porque à medida que as cidades cresciam e o comércio se desenvolvia, surgia a classe média. E ela procurava participar na vida política e religiosa. [20]

Logo podemos situar o movimento reformista do século XVI como sendo amparado na tradição humanista que fincou raízes no pensamento de uma classe média crescente na Europa. Sendo assim fecho questão que O “tempo curto” da Reforma protestante deve então ser recolocado no “tempo longo” da Reforma da Igreja, como defende o historiador francês Pierre Chaunu (1975), na obra “O tempo das Reformas (1250-1550)”. Este sustenta a ausência de uma verdadeira ruptura entre as correntes teológicas anteriores a 1517 e a reprodução desta teologia no período seguinte à Igreja tardo-medieval. [21]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando retornamos às questões levantadas no início desse artigo percebemos mais próximos das respostas. A primeira questão foi: “Quais aspectos da biografia de Lutero influenciaram para que sua fala reformista se efetivasse?”. Salientamos aqui a pessoa de Lutero em seus dados de nascimento, família e chamado sacerdotal. Vemos um homem acostumado às reflexões interiores e com uma forte angústia de alma que o perseguiu durante muitos anos de seu clausuro em Wittenberg. Ele é um homem inquieto, com a alma barulhenta e um discurso inflamado e em alguns momentos deseducado. Suas falas são contundentes, polêmicas e que tinham conteúdo para enfurecer a cúria romana que se viu ameaçada por um rival que pleiteava ter do seu lado a própria Palavra de Deus.

Temos registros aqui de a produção de Lutero era vertiginosa: por exemplo, em 1520, ele escreveu 133 obras; em 1522, 130; em 1523, 183 (uma a cada dois dias!) e a mesma quantidade em 1524. O mesmo historiador que confirmou esses números vai escrever que: “Todos afluíam a ele, cercando sua porta de hora em hora, grupos de cidadãos, doutores, príncipes. Enigmas diplomáticos precisavam ser resolvidos, assuntos teológicos complicados precisavam ser postos em ordem e a ética da vida social necessitava de ser exposta e explicada”. [22]

Uma outra questão foi: “Como era o entorno histórico do século XVI na Europa que fez com que ecoasse os reclamos por uma mudança na mentalidade católica?”. E vimos em nossa pesquisa e arrazoados que o contexto da denominada Baixa Idade Média na Europa era de um catolicismo arcaico e dominador, que acabou ruindo pelo crescimento de uma classe média ruidosa e que queria ocupar um espaço de destaque nas decisões relacionadas ao poder dos homens, e por que não dizer do entendimento do poder que vem de Deus também. Lutero não conseguiria sobreviver politicamente se não fosse o apoio incondicional dessa crescente classe média. E é sabido que o próprio pensamento protestante será considerado como de viés progressista e contribuirá para o soerguimento de uma visão que poderíamos chamar de proto-capitalismo.

Nesta direção é que Max Weber vai desenvolver em sua obra, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”: Em contraste com isso (conduta de vida monástica) o trabalho profissional mundano aparece como expressão exterior do amor ao próximo, o de que resto vem fundamentado de maneira extremamente ingênua e em oposição quase grotesca às conhecidas teses de Adam Smith, em particular quando aponta que a divisão de trabalho coage cada indivíduo a trabalhar para outros. Trata-se, como se vê, de argumento essencialmente escolástico que logo é abandonado, cedendo o passo à referência cada mais enfática ao cumprimento dos deveres intramundanos como a única via de agradar a Deus em todas as situações, que está e somente esta é a vontade de Deus, e por isso toda provisão lícita simplesmente vale muito e vale igual perante Deus”. [23]

Em outras palavras, o mundo muda: e para servir a Deus não é mais preciso se enclausurar. O homem foi emancipado. Ai entra a resposta a última e derradeira questão apontada no início desse artigo: “Como pode ser vista e observada a participação popular nesse processo?”. Podemos encerrar alardeando que o povo se viu representado pelo pensamento de Lutero como alguém que procurou a partir de suas contradições desafiar o espírito totalitário de Roma.

O escopo de nosso trabalho não poderia abarcar todas as questões envolvendo a vida do homem Lutero. Apenas me ative ao seu pensamento transgressor (na melhor acepção da palavra) para provocar um novo tempo de reflexões e pensamentos que culminaram numa emancipação do homem e por conseguinte de todo um povo que ansiava por mudanças reais neste tempo conturbado da história, a mudança de paradigmas filosóficos e sociais no século XVI.

Queremos terminar com a primeira das 95 teses que foram um chamado para um amplo debate que culminou na Reforma que até os nossos dias ainda precipitam discussões e busca por um significado relevante para o entendimento de valores que nos são tão caros como a liberdade, a autonomia e o direito de nos achegarmos a Deus por nós mesmos, e não através de valores puramente monetários: “Quando nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse ‘Arrependei-vos’, ele intentava que a vida inteira dos crentes fosse de arrependimento.” [24]

REFERÊNCIAS

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  1. HOBSBAWN, Eric “Era dos extremos- o breve século XX”. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 13
  2. LAWSON, Steven J. “Pilares da Graça: AD 100-1564: Longa linha de vultos piedosos”, Vol. II, São José dos Campos: Editora Fiel, 2013. p. 498
  3. CHAUNU, Pierre “O tempo da reforma (1250-1550) II. A reforma protestante”. Lisboa: Lugar da História, 1975. p. 78
  4. CAINS, Earle E. “O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã”. São Paulo: Vida Nova, 1988. p. 234
  5. Ibidem
  6. EBELING, Gerhard “O pensamento de Lutero”. São Leopoldo: Sinodal, 1986. p. 31
  7. GONZALEZ, Justo L. “E até os confins da terra: uma história ilustrada do Cristianismo”. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 51
  8. BLAINEY, Geoffrey “Uma breve história do cristianismo”. São Paulo: Editora Fundamento, 2012. p. 166
  9. GONZALEZ, op. cit. p. 53
  10. LAWSON, Steven J. op. cit. p. 501
  11. FEBVRE, Lucien “Martinho Lutero: Um destino”. São Paulo: Três Estrelas, 2012. p. 116
  12. GONZALEZ, op. cit. p. 58
  13. REEVES, Michael “A chama inextinguível: descobrindo o cerne da Reforma”, Brasília: Editora Modernismo, 2016. p. 62
  14. HURLBUT, Jesse Lyman “História da Igreja Cristã”, São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 182
  15. http://www.historiadetudo.com/igreja-na-idade-media Acesso no dia 17/10/2017 às 15:44
  16. DELAMEAU, Jean “Nascimento e Afirmação da Reforma”, São Paulo: Pioneira, 1989. p. 134
  17. BURNS, Edward McNall “História da Civilização Ocidental”, Porto Alegre: Editora Globo, 1973. pp. 454,455
  18. SKINNER, Quentin “As Fundações do Pensamento Político Moderno”, São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 309
  19. LUTERO, Martinho “Martinho Lutero: obras selecionadas” vol. 6. São Leopoldo: Sinodal, Porto Alegre: Concórdia, 1996. p. 166
  20. CAIRNS, Earle op. cit. p. 217
  21. https://gvcult.blogosfera.uol.com.br/2015/05/05/2082/ Acesso em 17/10/2017 às 16:48
  22. MARTYN, W. Carlos. “The Life anda Times of Martin Luther”, New York: American Tract Society, 1866, p. 473 In PIPER, John “O legado da alegria soberana: a graça triunfante de Deus na vida de Agostinho, Lutero e Calvino”. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. p. 93
  23. WEBER, MAX “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 73
  24. SPROUL, R.C & NICHOLS, Stephen (Organizadores) “O legado de Lutero”, São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 441

[1] Licenciado em História – Universidade Estácio de Sá, Mestre em Divindade – Seminário Teológico da Fé Reformada, Bacharel em Teologia – Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.

Enviado: Março, 2018

Aprovado: Janeiro, 2019

 

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