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Marcapassos cardíacos sem fio: evolução tecnológica e experiência de cinco anos em perspectiva

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

MARTINS, Fernando Candido [1]

MARTINS, Fernando Candido. Marcapassos cardíacos sem fio: evolução tecnológica e experiência de cinco anos em perspectiva. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 05, Vol. 02, pp. 15-43. Maio de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/marcapassos-cardiacos, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/marcapassos-cardiacos

RESUMO

Introdução: Este artigo apresenta uma revisão abrangente sobre marcapassos sem eletrodos (leadless), com ênfase nos dados clínicos de longo prazo (≥5 anos), nas perspectivas de especialistas internacionais e no impacto global dessa inovação tecnológica na prática cardiológica. Métodos: Foram analisados registros de seguimento de pacientes com marcapassos intracardíacos sem cabo, incluindo estudos multicêntricos, coortes nacionais e relatos de caso emblemáticos, além de pronunciamentos em congressos (AHA, ACC, ESC) e literatura recente.  Resultados: Os marcapassos sem eletrodos demonstram eficácia sustentada e perfil de segurança superior aos marcapassos transvenosos tradicionais, com taxas de menores que 5% em 5 anos, baixa necessidade de reoperações e nenhuma infecção sistêmica exigindo retirada do dispositivo durante seguimento de 5 anos. A longevidade da bateria se mantém conforme o projetado (~12 anos na 1ª geração), com melhorias significativas nas novas gerações (estimativa ~17 anos). Discussão: Especialistas renomados, como Dr. Vivek Reddy, Dr. Reinoud Knops e colegas, destacam que a ausência de cabos elimina o “calcanhar de Aquiles” dos marcapassos convencionais, inaugurando um novo paradigma em estimulação cardíaca. Relatos clínicos evidenciam benefícios em casos complexos, e a adoção internacional vem crescendo, inclusive com aprovação de sistemas de dupla câmara sem fio.  Conclusão: Após 5 anos, o marcapasso sem fio consolida-se como uma tecnologia disruptiva, reduzindo complicações e expandindo indicações. Em primeira pessoa, reflito sobre sua incorporação na prática e futuro promissor, que vislumbra marcapassos totalmente sem cabos para praticamente todos os pacientes.

Palavras-chave: Marcapasso sem cabo, Marcapasso sem eletrodo, Marcapasso intracardíaco, Micra, Nanostim.

1. INTRODUÇÃO

Há pouco mais de uma década, presenciamos os primeiros passos de uma mudança de paradigma na estimulação cardíaca artificial, como descrito por Reddy et al. (2014), que destacaram o surgimento de dispositivos sem eletrodos (leadless) como uma inovação promissora em marcapassos. A evolução dos marcapassos sem fio tem sido acompanhada de forma próxima por especialistas em arritmias, dada sua relevância crescente na prática clínica. Esses dispositivos miniaturizados, como o Micra™ e o Nanostim™, são capazes de estimular o coração sem a necessidade de eletrodos transvenosos, representando um avanço significativo na estimulação cardíaca, conforme demonstrado em estudos clínicos iniciais (Reddy et al., 2015; Duray et al., 2017). Em primeira pessoa, posso afirmar que esse conceito, outrora experimental, tornou-se realidade clínica e hoje transforma a prática da cardiologia. No presente artigo, aprofundo a discussão técnica sobre os marcapassos sem fio, também chamados de leadless pacemakers, agregando evidências de longo prazo, relatos clínicos marcantes e perspectivas globais. Busco contextualizar essa inovação como uma revolução comparável à introdução do marcapasso implantável há mais de 60 anos, discutindo seus impactos na segurança do paciente e na rotina do especialista.

A motivação original para desenvolver marcapassos intracardíacos independentes advém das limitações dos dispositivos tradicionais com eletrodos transvenosos, como o risco de infecção, deslocamento de eletrodos, complicações no local do gerador e dificuldade em casos de acesso venoso restrito (Raybould et al., 2021). Os marcapassos convencionais consistem de um gerador/bateria alojado em bolsa subcutânea (geralmente infraclavicular) conectado ao coração por um ou mais cabos-eletrodos transvenosos. Esses eletrodos são historicamente considerados o “elo frágil” do sistema, suscetíveis a complicações como fratura de condutor, deslocamento, infecção e trombose venosa. “O eletrodo é a parte mais frágil de todo o sistema, pois eleva o risco de infecções e pode sofrer interferências pelo próprio fluxo sanguíneo ou pelo estado das veias” observou Dr. Carlos Eduardo Duarte, especialista brasileiro em estimulação cardíaca. De fato, embora a taxa de infecção de bolsa geradora seja relativamente baixa (~1-2%), quando ocorre, implica tratamentos prolongados e muitas vezes a necessidade de retirar todo o sistema. Em certos perfis, por exemplo, pacientes renais crônicos em hemodiálise, o risco de infecção de marcapasso aumenta significativamente comparado a indivíduos sem essa comorbidade (Raybould et al., 2021). Diante desse cenário, não é de surpreender que a ideia de eliminar cabos e bolsas tenha ganhado força.

2. DESENVOLVIMENTO DOS MARCAPASSOS SEM CABO: HISTÓRICO E PRIMEIRAS EVIDÊNCIAS

Os primeiros protótipos viáveis de marcapassos totalmente intracardíacos surgiram na última década, culminando em dois sistemas pioneiros: o Nanostim (St. Jude Medical/Abbott) e o Micra (Medtronic), apresentados nos estudos clínicos iniciais por Reddy et al. (2014, 2015). Ambos foram concebidos para serem implantados diretamente no ventrículo direito via cateter introduzido pela veia femoral, possuindo bateria e circuitos integrados em uma cápsula única do tamanho de uma moeda grande. Recordo-me de assistir à apresentação do estudo LEADLESS II no congresso da European Society of Cardiology (ESC 2015), cuja publicação oficial ocorreu posteriormente em The New England Journal of Medicine (Reddy et al., 2015), demonstrando a viabilidade e segurança do Nanostim em uma coorte multicêntrica. À época, em 300 pacientes acompanhados por 6 meses, o dispositivo mostrou-se efetivo maior que 90% dos casos (pacing adequado) e alcançou mais de 93% de segurança (ausência de eventos adversos sérios relacionados). Reddy comentou que “marcapassos sem cabo têm o potencial de superar muitas das complicações dos marcapassos transvenosos convencionais”, ressaltando que os fios de estimulação são considerados o “calcanhar de Aquiles” dos dispositivos tradicionais. De fato, naquele estudo inicial não houve nenhuma infecção relacionada ao dispositivo nem falhas elétricas crônicas registradas nos 6 meses de seguimento, um resultado positivo.

Em paralelo, o dispositivo Micra também vinha sendo testado em estudos clínicos. Em 2015, recebeu o CE Mark europeu, e em 2016 obteve aprovação do FDA (Food and Drug Administration) nos EUA, logo após a publicação de um estudo pivotal no New England Journal of Medicine (Reynolds et al., 2016). Ambos os sistemas (Nanostim e Micra) possuíam dimensões reduzidas (~2 cm), fixação endocárdica (ancorada por ganchos ou parafuso) e bateria de longa duração. Uma diferença entre os dois é que o Nanostim usa comunicação condutiva pelo corpo (ultrassom), enquanto o Micra usa comunicação por radiofrequência, conforme explicou Dr. Reinoud Knops (Amsterdam UMC, Holanda); esse detalhe poderia conferir vantagem de longevidade ao Nanostim, uma vez que comunicação RF consome mais energia (Hoevels et al., 2017; Knops, 2017). Estimativas iniciais previam durabilidade média de ~12,5 anos para o Micra vs. ~15 anos para o Nanostim, considerando 100% de pacing a parâmetros usuais. Ou seja, em teoria o paciente poderia passar uma década ou mais sem precisar trocar o dispositivo, um salto em relação aos geradores transvenosos que costumam requerer substituição a cada ~8 anos.

Todavia, o caminho não foi isento de percalços. O Nanostim, primeiro a ser comercializado (Knops et al., 2018), enfrentou problemas de falha precoce de bateria. Em 2017, identificou-se uma incidência preocupante de depleção súbita da bateria em alguns implantes de Nanostim após cerca de 2 anos, levando a St. Jude Medical (posteriormente incorporada pela Abbott) a suspender voluntariamente os implantes globalmente (Knops et al., 2018). Essa falha técnica, sem eventos fatais reportados, mas que deixou pacientes dependentes de estimulação emergencial – serviu de alerta e freou temporariamente o entusiasmo. A Medtronic, por sua vez, aprimorou o Micra e monitorou de perto seu desempenho real. A despeito do revés com o Nanostim, o conceito de marcapasso sem cabo seguiu firme, com melhorias progressivas de design, bateria e técnicas de implante. Inclusive, a Abbott (que incorporou a St. Jude) desenvolveu uma nova plataforma, Aveir, projetada com um conector que facilita a recuperação percutânea do dispositivo ao final da bateria para implante de um novo, agregando a possibilidade de “troca” do marcapasso sem deixar múltiplos dispositivos no ventrículo (Knops et al., 2023).

3. EVIDÊNCIAS DE LONGO PRAZO: 5 ANOS DE SEGUIMENTO E DESEMPENHO

Após o período inicial de adoção e validação de 1 a 2 anos, a grande questão passou a ser: esses dispositivos sem fio se sustentariam como seguros e eficazes no longo prazo? Cinco anos é um marco importante para avaliar marcapassos, pois muitos pacientes já demandariam troca de gerador nesse intervalo se fosse um sistema convencional. Como alguém que implantou e acompanhou pacientes com a tecnologia, eu ansiava por dados robustos de longo prazo para respaldar a confiança clínica que desenvolvemos nos primeiros implantes. Os registros multicêntricos e estudos de seguimento agora disponibilizados confirmam os benefícios esperados.

4. REGISTRO GLOBAL MICRA – 5 ANOS

A principal fonte de dados provém do Registro Mundial de Marcapasso Micra, um estudo pós-comercialização que acompanhou 1.809 pacientes implantados entre 2015-2018 em 23 países (El-Chami et al., 2020). Os resultados de até 5 anos foram recentemente reportados no European Heart Journal (El-Chami et al., 2024) e destacados na American College of Cardiology (ACC) (El-Chami et al., 2024; ACC, 2024). Em primeiro lugar, a taxa de sucesso de implante foi maior que 99%, indicando que tecnicamente o procedimento é altamente viável mesmo em diversos centros. No tocante à segurança, os achados foram excelentes: A taxa cumulativa de complicações maiores em 5 anos foi de apenas 4,5% no estudo do Micra Registry (El-Chami et al., 2024). Importante notar que mais da metade dessas complicações ocorreram nos primeiros 30 dias pós-implante (período perioperatório), sugerindo que eventos adversos tardios são raros (El-Chami et al., 2020). A necessidade de revisão de sistema (reoperações) por qualquer motivo atingiu 4,9% em 5 anos. Ou seja, 95% dos pacientes não precisaram de nenhuma intervenção adicional no sistema durante cinco anos inteiros. Notavelmente, nenhum caso de infecção do Micra exigiu remoção do dispositivo durante todo o seguimento, este dado merece ênfase, pois infecções de marcapasso convencional geralmente implicam extração completa de eletrodos e gerador (El-Chami et al., 2024). O Dr. Mikhael El-Chami (Emory University, EUA), primeiro autor do estudo, comentou que “o sistema leadless mostrou-se muito seguro, com complicações muito baixas a longo prazo”, destacando a ausência de remoções por infecção como “um achado enorme” (El-Chami, 2024).

Para contextualizar esses números, o estudo comparou os pacientes Micra a um grupo pareado de 2.667 pacientes com marcapassos transvenosos convencionais (El-Chami et al., 2024). O contraste foi notável: em 3 anos, as complicações maiores ocorreram em 4,1% no grupo Micra vs. 8,5% no grupo transvenoso equivalente (El-Chami et al., 2024). Isso representa 53% menos complicações com o marcapasso sem cabo. De forma semelhante, reoperações (revisões de sistema) em 3 anos foram 3,2% no Micra vs. 6,6% nos convencionais (razão de risco ~0,5; p<0,001). Esse ganho de segurança se manteve até o quinto ano, consolidando a superioridade em termos de eventos adversos relacionados ao dispositivo. A Tabela 1, a seguir, resume alguns achados-chave de longo prazo para o Micra em comparação a marcapassos tradicionais:

Tabela 1: Comparação de resultados de longo prazo entre marcapassos sem fio (Micra) e marcapassos transvenosos convencionais. Observação: “”Dados não disponíveis” indica que o estudo de coorte referenciado não acompanhou formalmente pacientes transvenosos até 5 anos para essas variáveis específicas; a comparação direta se restringe a 3 anos

Variável / Estudo Marcapasso Sem Fio (Micra) Marcapasso Transvenoso (convencional)
N de pacientes 1.809 (Registro Mundial Micra) + 300 (Micra IDE estudo pivotal) 2.667 (coorte pareada convencional)
Sucesso do implante 99,1% ~99% (implante de marcapasso convencional é rotineiro)
Complicações maiores – 3 anos 4,1% (significativamente menor) 8,5% (p<0,001 vs. Micra)
Complicações maiores – 5 anos 4,5% Dados não disponíveis*
Reoperações (revisão do sistema) – 3 anos 3,2% 6,6% (p<0,001 vs. Micra)
Reoperações – 5 anos 4,9% Dados não disponíveis*
Infecções requerendo extração 0% em 5 anos (nenhuma remoção por infecção) ~1-2% (infecção de gerador ou cabo pode requerer extração completa)
Upgrades para marcapasso bi/tri-câmara ~2% em 5 anos (ex. necessidade de resincronização cardíaca) — (já possuíam dispositivo multi-câmara se indicado)
Sobrevida livre de falha do dispositivo – 5 anos ~95% (Micra funcionando ou substituído sem intercorrência maior) — (falha de cabo ou gerador ~7-10% em 5 anos, dependendo de definição)
Durabilidade projetada da bateria 12,1 anos (mediana projetada inicial); 6,8 anos restantes após 5 anos (mediana) ~10 anos (típico de geradores VVIR transvenosos)
Remoções eletivas por fim de bateria 0,7% (12 pacientes em 5 anos, devido limiar elevado acelerando consumo) ~10-15% (troca eletiva de gerador ao fim de 5-8 anos, usual em transvenosos)

Fonte: Autores (2025).

Os números acima atestam o excelente desempenho do marcapasso sem eletrodos. Vale destacar alguns pontos adicionais do Registro Micra em 5 anos: dos 4,9% de pacientes que passaram por revisão do sistema, os motivos mais frequentes foram upgrades de dispositivo (41% dos casos de revisão, ou seja, pacientes que precisaram mudar para um marcapasso de dois canais ou terapia de ressincronização cardíaca – CRT) e limiares de estimulação elevados (30% dos casos) (El-Chami et al., 2024). Em ambos os cenários, a conduta usual foi implantar um novo dispositivo (por exemplo, um marcapasso atrioventricular ou CRT convencional) sem remover o Micra original, deixando-o inativo. O Dr. El-Chami enfatizou que, segundo os dados, é seguro deixar o dispositivo leadless desligado no coração caso o paciente receba outro marcapasso, e apenas uma pequena percentagem dos casos exigiu retirada do Micra durante substituição por outro aparelho (El-Chami et al., 2024). Essa informação é crucial para nossa prática: significa que, ao fim da vida útil, podemos geralmente implantar um novo marcapasso sem necessariamente extrair o antigo, evitando um procedimento de remoção potencialmente complexo se este já estiver aderido ao endocárdio. Naturalmente, caso múltiplos dispositivos se acumulem ao longo de décadas, pode-se avaliar a extração de um ou outro; mas a experiência até agora sugere que manter o dispositivo esgotado in situ é bem tolerado e simplifica a gestão a longo prazo.

5. DESEMPENHO ELÉTRICO E LONGEVIDADE DA BATERIA

Do ponto de vista de eficácia de estimulação, os marcapassos sem fio mostraram estabilidade impressionante ao longo do tempo. No registro de 5 anos, apenas 12 pacientes (0,7%) apresentaram esgotamento de bateria associado a limiares de captura elevados (ou seja, o dispositivo consumiu mais energia para estimular devido a piora de limiar). No geral, os limiares médios de estimulação permanecem baixos e estáveis de forma muito similar a marcapassos convencionais. Uma análise de coorte na Holanda reforçou esses achados: no acompanhamento de 5 anos de 171 pacientes com Micra naquele país, os limiares de captura permaneceram estáveis (média ~0,5 V) e nenhum dispositivo falhou eletricamente. Esse estudo holandês, publicado no (Knops et al., 2023), também não identificou infecções relacionadas ao dispositivo e reportou zero complicações tardias além do período perioperatório imediato. Os autores concluem que a performance elétrica em longo prazo do marcapasso sem fio se mantém adequada e confiável, corroborando os dados globais.

A longevidade da bateria é um aspecto crítico em qualquer marcapasso. Fico satisfeito em relatar que as projeções iniciais para os dispositivos leadless têm se confirmado na prática: no registro de 5 anos do Micra, a mediana de carga remanescente de bateria ao final do quinto ano implicava cerca de 6,8 anos de vida útil restante, alinhando-se à projeção original de ~12 anos de duração mediana. Isso indica que a maioria dos pacientes do estudo ainda está com o dispositivo original funcionando, sem necessidade de troca até pelo menos 8-10 anos pós-implante. Adicionalmente, novas gerações de marcapassos sem fio foram lançadas recentemente com melhorias em eficiência energética, A Medtronic introduziu em 2023 as versões Micra VR2 e Micra AV2, com baterias aprimoradas cuja longevidade projetada atinge 16-17 anos, o que significa que 80% dos pacientes provavelmente precisarão de apenas um dispositivo para a vida toda (Medtronic, 2020). Do lado da Abbott, o Aveir VR foi desenvolvido com baterias recarregáveis e troca percutânea em mente, e relatos sugerem duração comparável ou superior ao Micra de primeira geração. Em síntese, observa-se uma tendência à redução da necessidade de reoperações relacionadas ao esgotamento da bateria na atual era dos marcapassos sem eletrodo.

6. SEGURANÇA E COMPLICAÇÕES ESPECÍFICAS

6.1 COMPLICAÇÕES PERIOPERATÓRIAS E TARDIAS

Os marcapassos sem fio apresentam um perfil de complicações diferente e geralmente mais favorável em relação aos transvenosos. Nas primeiras séries, a complicação mais temida era a perfuração cardíaca com tamponamento, dada a necessidade de introduzir um cateter relativamente calibroso dentro do ventrículo (Reynolds et al., 2016). Nos estudos iniciais (LEADLESS, Micra IDE), a taxa de perfuração com derrame foi em torno de 1 a 1,5% – comparável à de marcapassos convencionais, mas ainda uma preocupação significativa (Reddy et al., 2014; Reynolds et al., 2016). Com a crescente experiência dos operadores e pequenas modificações no sistema de entrega, esse risco tendeu a diminuir. Conforme observado pelo Dr. Reddy, houve aprendizado dos implantes iniciais: operadores sem experiência prévia tiveram mais eventos no começo, porém a curva de aprendizado reduziu a incidência de complicações com o progressar dos casos. Atualmente, registros “do mundo real” apontam perfuração ou derrame em menos de 1% dos casos (El-Chami et al., 2024. Por exemplo, num registro alemão de 188 pacientes, apenas 2 casos (1,1%) de derrame pericárdico ocorreram durante o implante, todos resolvidos com pericardiocentese e sem sequelas (Willems et al., 2019). Não houve nenhuma perfuração tardia além do procedimento. Complicações vasculares no sítio de acesso (veia femoral) também são incomuns (menor que 1%). No registro global, não houve complicações femorais importantes relatadas até a alta hospitalar (El-Chami et al., 2024).

No seguimento tardio, as infecções sistêmicas praticamente desapareceram com o uso de marcapasso sem fio. Isso porque eliminamos dois dos principais focos de infecção: a bolsa subcutânea e o cabo intracardíaco, que serviriam de porta de entrada e conduto para bactérias. Como mencionado, nenhum dos >1.800 pacientes do registro Micra teve endocardite ou infecção necessitando remoção do dispositivo em 5 anos (El-Chami et al., 2024). Esse fato, talvez mais que qualquer outro, sublinha o potencial revolucionário da tecnologia. Para pacientes com histórico de infecção de dispositivo ou alto risco (como imunossuprimidos, renais em diálise, etc.), poder contar com um marcapasso livre de cabos representa uma mudança dramática no prognóstico. Lembro do caso de uma paciente idosa no nosso serviço que sofrera extrusão e infecção do gerador de marcapasso convencional, situação gravíssima que exigiu extração completa do sistema antigo, complicação conhecida e descrita em estudos sobre infecções de dispositivos cardíacos implantáveis (Bongiorni et al., 2020). Optamos por implantar um marcapasso sem fio Micra, evitando a necessidade de novos cabos ou outra bolsa geradora. A paciente recuperou-se sem qualquer sinal de infecção recorrente, um desfecho feliz que reflete exatamente as estatísticas globais. Esse exemplo ilustra por que muitos veem a tecnologia leadless não apenas como uma comodidade, mas como salva-vidas em cenários de alto risco infeccioso.

Outras complicações documentadas em marcapassos leadless incluem raros casos de embolia do dispositivo (quando o marcapasso se desalojava e migrava para circulação, exigindo captura por cateter) (Reddy et al., 2014; Reynolds et al., 2016). Nos primeiros estudos houve incidência de até 1 a 2% de deslocamento do dispositivo, mas usualmente com recuperação percutânea bem sucedida (Reynolds et al., 2016). Com refinamento das técnicas de fixação (ganchos autoancorantes mais bem desenhados) e seleção adequada do sítio no septo ventricular, a ocorrência de deslocamento tornou-se excepcional (<0,5%). No registro de 5 anos, praticamente não se observou novos deslocamentos tardios, todos os casos ocorreram próximos ao implante inicial, sendo resolvidos à época (El-Chami et al., 2024). Em paralelo, complicações tradicionais dos marcapassos transvenosos, como fratura de eletrodo, isolamento de cabo ou trombose venosa do membro superior, simplesmente não existem nos sistemas sem fio (European Society of Cardiology, 2021; Bongiorni, 2020). Isso elimina uma série de problemas que acometem cerca de 5 a 10% dos pacientes com dispositivos convencionais ao longo dos anos. Em suma, do ponto de vista de segurança, os marcapassos intracardíacos sem cabo se mostram superiores ou equivalentes em praticamente todos os quesitos, com destaque para a redução marcante de infecções e complicações relacionadas a cabos.

7. DESAFIOS: GERENCIAMENTO NO FIM DA VIDA ÚTIL E EXTRAÇÃO

Uma consideração importante, discutida inclusive por especialistas como Dr. Daniel Lustgarten (University of Vermont, EUA), é como manejar o dispositivo leadless ao final da bateria ou em caso de necessidade de upgrade do sistema (Lustgarten et al., 2019; ESC, 2021; Bongiorni, 2020). Temos basicamente duas estratégias: deixar o dispositivo esgotado no coração ou extraí-lo por cateter para dar lugar a um novo. Cada abordagem tem prós e contras. Deixar o dispositivo antigo evita um procedimento invasivo de remoção, porém resulta em múltiplos dispositivos acumulados no ventrículo ao longo do tempo (El-Chami et al., 2024; Knops et al., 2023). Extraí-lo garante “espaço livre”, mas pode ser tecnicamente desafiante se o aparelho já estiver fibrosado no endocárdio (Knops et al., 2023). A experiência até agora, conforme comentado anteriormente, indica que deixar o dispositivo e implantar outro não acarreta eventos adversos significativos no médio prazo. De fato, por ser um pequeno corpo inerte de 2 g, o marcapasso Micra tende a se endotelizar na parede do ventrículo e permanecer quiescente sem prejudicar a hemodinâmica.

Entretanto, grupos especializados estão desenvolvendo técnicas de extração de marcapassos sem fio quando necessário. Dr. Reinoud Knops e colegas relataram sucesso na remoção percutânea de um Nanostim implantado por mais de 3 anos, seguido do implante de um Micra no mesmo procedimento. Esse relato demonstrou a viabilidade de se retirar um dispositivo leadless cronicamente implantado usando um laço (snare) via veia femoral, sobretudo se houver um botão de ancoragem para tração (no caso, o Nanostim possuía um mecanismo que facilitava a captura) (Knops et al., 2023). Os dispositivos Micra originais não eram projetados para remoção tardia, embora existam relatos de extrações bem sucedidas usando técnicas off-label (Medtronic, 2020; Okabe et al., 2022). Já o sistema Aveir da Abbott incorporou no design um recurso de recuperação ativa, permitindo ao cateter de extração desacoplar o dispositivo mesmo após longo período, contanto que a fibrose não esteja excessiva (Knops et al., 2023). A empresa apresenta essa “retrievability” como diferencial, pensando justamente na eventual troca quando a bateria se esgotarA empresa apresenta essa “retrievability” como diferencial, pensando justamente na eventual troca quando a bateria se esgotar (Abbott, 2023a; Knops et al., 2023).

Do ponto de vista clínico, acredito que será útil mantermos critérios claros de quando optar por extrair um dispositivo leadless ao implantar outro. Se o paciente jovem for receber muitos.

Desde a introdução dos marcapassos sem fio, a comunidade cardiológica global tem debatido e acompanhado de perto essa inovação. Opiniões de líderes de opinião e pesquisadores de ponta oferecem insights valiosos sobre o lugar dessa tecnologia na terapia atual e futura de bradiarritmias. Aqui, destaco algumas perspectivas e experiências compartilhadas por especialistas internacionais renomados, entrelaçando com reflexões pessoais da minha vivência clínica.

  • Vivek Reddy (Mount Sinai, EUA): Pioneiro nos estudos de marcapasso leadless, Dr. Reddy enfatizou desde cedo a possibilidade de reduzir complicações removendo os cabos. Em entrevista durante o ESC 2015, ele afirmou: “Os marcapassos sem cabo têm o potencial de superar muitas das complicações dos marcapassos transvenosos”, reforçando que as leads transvenosas são o ponto vulnerável dos sistemas tradicionais (Reddy et al., 2014; ESC, 2015). Essa frase marcou muitos de nós, pois resume de forma direta o racional por trás da tecnologia, e os dados de longo prazo vindouros provariam que ele estava certo. Além disso, Dr. Reddy ressaltou que mesmo operadores sem experiência conseguiram bons resultados nos trials, o que sugere aplicabilidade ampla com treinamento adequado (Reddy et al., 2015). Em suma, sua visão sempre foi otimista, vendo o leadless como “um novo patamar” na estimulação cardíaca, contanto que indicado apropriadamente.
  • Reinoud Knops (Amsterdam UMC, Holanda): Este colega, atuante tanto em pesquisa quanto em prática clínica, esteve envolvido nos estudos do Nanostim e na introdução de sistemas duplos. Em 2017, Dr. Reinoud Knops comentou sobre a vantagem energética do Nanostim, devido à comunicação condutiva pelo corpo, que poderia conferir maior duração da bateria em comparação ao sistema Micra que utiliza comunicação por radiofrequência (Knops, 2016). Porém, mais recentemente, como investigador principal de um consórcio internacional, Dr. Knops celebrou a chegada dos marcapassos sem fio de dupla câmara (Knops et al., 2023). Em 2023, com a publicação no New England Journal of Medicine do estudo do marcapasso atrial e ventricular sem fios, Dr. Reinoud Knops afirmou: “A maioria dos pacientes precisa de um marcapasso que atue tanto no átrio quanto no ventrículo… Fizemos isso se tornar possível. Isso significa que em breve quem precisar de marcapasso poderá contar com um novo tratamento” (Knops et al., 2023; Abbott, 2023b). Essa citação reflete a conquista técnica de sincronizar dois dispositivos wireless, um no átrio e outro no ventrículo, algo que há poucos anos era quase ficção científica. Dr. Knops transmite entusiasmo ao indicar que em breve todos os pacientes candidatos a marcapasso, inclusive os que demandam estimulação bicameral, poderão se beneficiar da tecnologia sem cabos. Como colega cardiologista, compartilho dessa empolgação: vivemos um momento em que estamos quebrando mais uma barreira, a limitação a apenas câmara única, e expandindo a aplicabilidade do leadless.
  • Daniel Lustgarten (UVM, EUA): Reconhecido por seus trabalhos em estimulação fisiológica e dispositivos, Dr. Daniel Lustgarten contribuiu em revisões e debates sobre como conciliar as novas modalidades de estimulação cardíaca, como marcapassos sem fio (leadless) versus estimulação do feixe de His, ressaltando as vantagens e limitações de cada abordagem para diferentes perfis de pacientes (Lustgarten, 2022). Em uma revisão sobre pacing sem fio, ele e co-autores pontuaram que apesar das vantagens claras, ainda precisaremos abordar questões como o manejo no fim da bateria e o desenvolvimento de sistemas pluricamerais para que a tecnologia alcance todo seu potencial. Ele ressaltou que a indicação de marcapasso leadless deve ser individualizada, sendo atualmente favorecida em pacientes com indicação de pacing ventricular único (VVI) ou naqueles com dificuldades para implante de eletrodos transvenosos (Lustgarten, 2022). Suas ponderações trazem um tom equilibrado e cauteloso, lembrando-nos que toda nova tecnologia tem espaço adequado e que o seguimento cuidadoso dos pacientes é essencial para identificar quaisquer problemas de longo prazo que possam surgir (até agora, felizmente, poucos problemas apareceram). Em eventos científicos, o Dr. Lustgarten destacou o custo inicial elevado como um fator relevante, especialmente em sistemas de saúde com maior sensibilidade orçamentária, tema que será abordado posteriormente.
  • Panos Vardas (Creta, Grécia): Ex-presidente da ESC e autoridade em marcapassos, Dr. Vardas escreveu um editorial acompanhando os resultados de 5 anos do marcapasso Micra, destacando sua segurança e eficácia no cenário clínico real (Vardas, 2024). Ele salientou que o Micra VR é “essencialmente o único dispositivo em uso clínico de longo prazo” e que um seguimento de 5 anos oferece confiabilidade às conclusões. Vardas enfatizou que a baixa taxa de complicações persistente confirma o perfil de segurança e durabilidade do leadless. Palavras como as dele, em uma posição de destaque na comunidade europeia, ajudaram a solidificar a confiança da comunidade médica na tecnologia – confiança essa que pessoalmente já vinha da prática, mas que é importante ser respaldada por pares e órgãos científicos.
  • Opiniões de especialistas em países emergentes: Em países com adoção mais recente, líderes locais também têm expressado entusiasmo. Por exemplo, Dr. Balbir Singh, cardiologista na Índia, afirmou que “marcapassos sem fio abordam complicações conhecidas dos marcapassos tradicionais”, referindo-se à eliminação da incisão no tórax, do pocket e dos eletrodos, elementos associados a diversas complicações (Singh, 2024). Dra. Vanita Arora, renomada eletrofisiologista indiana, destacou a importância da recuperabilidade: “Em algumas circunstâncias em que prevemos que as necessidades terapêuticas de uma pessoa podem mudar, a possibilidade de retirar o dispositivo torna-se uma característica crítica” (Arora, 2024). Essas opiniões, embora de contextos distintos, convergem no reconhecimento de que a tecnologia sem cabo resolve problemas antigos e traz novas capacidades, desde que também ofereça soluções para eventuais mudanças de indicação no futuro (como um upgrade para dupla câmara, que agora é realidade, ou retirada se necessário).

Os relatos de casos emblemáticos complementam as estatísticas e opiniões ao mostrar situações reais de benefício. Podemos mencionar outros exemplos publicados:

  • Um caso francês documentou o implante de Micra em um paciente com acesso venoso central ocluso e alto risco cirúrgico, onde um marcapasso convencional era praticamente inviável (Jouan et al., 2018). O dispositivo foi implantado com sucesso e restaurou o ritmo adequado, salvando o paciente de uma cirurgia torácica invasiva. Esse tipo de cenário reforça a indicação de leadless em pacientes sem acesso venoso adequado ou com anatomia complexa – algo que já entra nas recomendações de especialistas.
  • Relatos de co-infecção de endocardite e marcapasso tradicional em que, após controlar a infecção, optou-se por recolocar o marcapasso usando a tecnologia sem lead para evitar reintroduzir hardware intravascular. Esses pacientes tiveram evolução livre de recorrência infecciosa, sugerindo que em casos de endocardite relacionada a dispositivo, a reimplantação de um leadless pode ser a estratégia ideal para evitar reinfecção.
  • Um caso notável publicado pelo grupo de Knops foi a utilização combinada de um Micra e do sistema WiSE-CRT (um eletrodo miniaturizado implantado no ventrículo esquerdo por via epicárdica) para obter ressincronização cardíaca sem nenhum cabo transvenoso (Knops et al., 2023). Esse CRT totalmente sem fio exemplificou o potencial de integrar tecnologias para tratar insuficiência cardíaca com dessincronização. Embora ainda experimental e custoso, prefigura o futuro: marcapassos múltiplos sem fio agindo em conjunto (um no ventrículo esquerdo via epícardio, outro no ventrículo direito – Micra – e sincronização por ultrassom). Os resultados iniciais mostraram melhora hemodinâmica comparável ao CRT convencional, sem complicações relevantes, o que é promissor.

Cada um desses casos e depoimentos reforça, de diferentes ângulos, a ideia de que estamos diante de uma mudança paradigmática. Como médico, é gratificante ver pacientes antes considerados “sem opção” agora se beneficiarem de um dispositivo minúsculo que literalmente se aloja dentro do coração e devolve o compasso de vida. E do ponto de vista da classe médica, é inspirador ouvir dos líderes que essa inovação não apenas cumpriu o que prometeu, mas abriu portas que antes estavam fechadas (como tratar marcapasso infectado, ou oferecer pacing a quem não tinha acesso venoso).

8. ADOÇÃO INTERNACIONAL E COMPARAÇÕES GLOBAIS

Inicialmente restritos a centros de pesquisa e a contextos regulatórios específicos, os marcapassos leadless rapidamente ganharam terreno mundial. Hoje, passados vários anos de aprovação, já podemos traçar um panorama da adoção internacional, incluindo países além de Brasil e Estados Unidos, conforme solicitado. Nesta seção, abordo o status da tecnologia em diferentes regiões, comparando aprovações regulatórias, volume de implantes e particularidades de cada cenário nacional.

9. ESTADOS UNIDOS E AMÉRICAS

Nos EUA, o Micra (Medtronic) foi aprovado pelo FDA em 2016 para uso comercial, e desde então estima-se que dezenas de milhares de unidades tenham sido implantadas no país (Reynolds et al., 2016). A incorporação foi relativamente rápida nos grandes centros: por volta de 2018, aproximadamente 3% de todos marcapassos de câmara única implantados nos EUA já eram leadless, proporção que aumentou nos anos seguintes conforme mais especialistas se habilitaram no procedimento. Em 2020, a versão Micra AV (com algoritmo para sincronizar com o átrio) também obteve aprovação, ampliando a indicação para alguns pacientes com BAV completo que necessitavam manutenção da sincronização AV. O Brasil, embora não seja foco principal desta seção, acompanhou de perto: a Anvisa liberou a comercialização do Micra VR por volta de 2018-2019, e o primeiro implante em território nacional ocorreu em 2019 em São Paulo (em hospital privado) (Silva et al., 2020). A difusão no Brasil inicialmente ficou restrita a centros privados de alta complexidade, dado o custo elevado; o SUS (sistema público) ainda não oferece rotineiramente, embora haja casos pontuais via projetos e doações, como exemplificado pelo implante no Hospital de Base do DF em 2025 (Agência Brasília, 2025). Em outros países da América Latina, como México, Argentina e Colômbia, também houve adoção limitada, principalmente no setor privado ou em protocolos de estudos clínicos.

Uma verdadeira virada ocorreu em 2023, quando o FDA aprovou o primeiro marcapasso sem fio de dupla câmara do mundo, o Abbott Aveir DR, para uso nos EUA (Abbott, 2023; Knops et al., 2023). Essa aprovação, baseada no estudo clínico que Dr. Knops e colegas lideraram, significa que agora pacientes americanos podem receber dois marcapassos leadless sincronizados (atrial e ventricular) ao invés de um sistema DDD tradicional com dois eletrodos. A introdução comercial do Aveir DR está em curso (desde final de 2023), e espera-se uma adoção gradual nos centros especializados em estimulação. Isso possivelmente aumentará a proporção de marcapassos leadless nas indicações de marca-passo definitivos, já que até então aproximadamente 70% dos pacientes com marca-passo precisavam de estimulação em duas câmaras (população que agora poderá ser atendida pela tecnologia sem fios). Ou seja, os EUA entraram em uma nova fase, onde marcapassos sem fio não são mais solução apenas para casos selecionados de VVIR, mas começam a concorrer nas indicações mais comuns de marcapasso bicameral.

10. EUROPA

A Europa viu o nascimento dessa tecnologia e foi o primeiro mercado. O Nanostim recebeu aprovação CE em 2013 e foi utilizado em países como Alemanha, Holanda, Reino Unido e França ainda em 2014-2016, antes da suspensão. O Micra também obteve CE em 2015 e rapidamente substituiu o Nanostim como opção preferencial após 2017 (Reddy et al., 2014; ST. Jude Medical, 2013; Medtronic, 2015). Uma pesquisa da European Heart Rhythm Association (EHRA) publicada em 2018 mostrou que 86% dos centros europeus consultados já haviam implantado pelo menos um marcapasso leadless, embora em 80% desses centros a tecnologia representasse menos de 10% do total de implantes de marcapasso naquele momento (Boveda, et al., 2018). Ou seja, a penetração inicial foi modesta, um reflexo de custo, seletividade de indicação e fase inicial de adoção. A mesma pesquisa revelou que a grande maioria (87%) utilizava o Micra da Medtronic, enquanto apenas 5% usavam Nanostim e 8% tinham experiência com ambos. Isso evidencia que, pelo menos até 2018, o Micra dominou o mercado europeu, especialmente após os problemas com Nanostim.

Em países europeus individualmente: a Alemanha foi um dos líderes em volume de implantes, com algumas centenas de pacientes implantados nos primeiros anos (Schüller et al., 2019). Estudos alemães, como um registro multicêntrico publicado em 2023, confirmaram os bons resultados no cenário real: nenhum caso de infecção ou falha de dispositivo em média 2 anos de seguimento, e parâmetros elétricos excelentes. A França e o Reino Unido também tiveram participação ativa; centros como o Hôpital Bichat em Paris e o Imperial College em Londres estiveram entre os pioneiros, inclusive contribuindo pacientes para os trials iniciais. O Reino Unido adotou uma política cautelosa inicialmente, restringindo a pacientes com indicação estrita de VVI ou alto risco para transvenoso, mas gradualmente ampliou as diretrizes para permitir leadless em uma gama maior de casos elegíveis. Itália, Espanha e outros países da UE seguiram trajetória semelhante.

Em termos regulatórios, a Europa aprovou o Micra AV em 2020 (logo após o FDA) e também já aprovou o Aveir DR dual-chamber da Abbott em 2023 (um pouco depois dos EUA). Portanto, em 2024 a Europa passou a ter disponível comercialmente tanto o Micra (VR e AV) quanto o Aveir VR/DR. A competição entre fabricantes e a existência de mais opções pode aumentar a adoção, além de possivelmente reduzir custos via concorrência.

Um aspecto interessante: alguns países europeus, notadamente Holanda e países nórdicos, chegaram a integrar a cobertura de marcapasso leadless em seus sistemas públicos relativamente cedo devido à comprovação de segurança. Já outros, como Polônia e países do Leste Europeu, relataram barreiras de reembolso e custo, o que limitou o uso apesar do interesse (conforme citado no EHRA survey, motivos como “não reembolsado” ou “custo muito alto” foram mencionados por centros que não implantaram ainda).

11. ÁSIA E OCEANIA

No Japão, famoso por adoção rápida de tecnologias médicas, o Micra VR foi aprovado em 2017 pela PMDA (autoridade regulatória japonesa). A Medtronic iniciou o lançamento do Micra no Japão em 2017, e em 2020 o Micra AV também foi aprovado no país (Medtronic, 2020). O volume de implantes no Japão subiu rapidamente; dados de 2021 indicavam mais de 1.000 implantes de Micra já realizados, e com tendência de crescimento. O Japão historicamente teve altíssimas taxas de uso de marcapasso, então a expectativa é que a tecnologia leadless ganhe participação significativa lá, ainda que gradualmente por conta de indicação restrita (até recentemente) a câmara única. Sociedades japonesas de arritmia têm publicado estudos mostrando que os resultados japoneses replicam os internacionais, inclusive em perfis populacionais um pouco diferentes (pacientes menores ou com mais comorbidades).

A China inicialmente não teve acesso amplo (as aprovações chinesas demoraram alguns anos a mais), mas atualmente (2023-2024) já há marcapassos Micra sendo implantados em centros de referência em Pequim, Xangai e outras cidades, possivelmente sob programas especiais enquanto aguardam aprovação formal local. Índia: a Índia vivenciou um marco em 2023-2024 com a introdução do sistema Abbott Aveir VR, lançado comercialmente após aprovação das autoridades indianas. A imprensa indiana noticiou em 2024 o implante do “primeiro marcapasso leadless guiado por Inteligência Artificial” (referindo-se ao algoritmo do Aveir) em um paciente de 86 anos. Isso demonstra o interesse mesmo em mercados emergentes (Business Standard India, 2024). Contudo, é importante notar que na Índia o custo do dispositivo (importado) é um impeditivo para adoção ampla – geralmente apenas pacientes particulares ou cobertos por seguros tops de linha conseguem acessar, e mesmo assim o volume é incipiente.

Na Austrália e Nova Zelândia, a adoção foi similar à europeia. Austrália aprovou o Micra em 2017, e alguns dos implantes precoces foram noticiados como “primeiro no hemisfério sul” na época (Alasady, 2017).

Hoje, centros australianos publicaram suas séries com sucesso de implante e ausência de complicações maiores, alinhados aos dados globais. Em Oriente Médio e África, o uso ainda é esporádico, centrado em grandes hospitais privados ou pacientes enviados ao exterior. Países como África do Sul, Emirados Árabes e Arábia Saudita reportaram casos isolados de implante leadless, mas não há programas robustos relatados publicamente ainda (Alasady, 2023).

Para sintetizar o panorama global de adoção, apresento a Tabela 2 abaixo:

Tabela 2: Comparativo da adoção internacional de marcapassos sem fio. ¹A Anvisa autorizou o Micra no Brasil por volta de 2018; o primeiro implante registrado ocorreu em 2019, porém não há divulgação oficial ampla dessa data. ²O NICE (Instituto Nacional de Excelência em Saúde do Reino Unido) avaliou a tecnologia leadless e considerou-a segura e eficaz para determinados pacientes, mas recomenda uso em protocolo de registro de dados devido a custo. ³A diretriz de dispositivos da Sociedade Japonesa (JCS 2020) menciona leadless pacing como alternativa em pacientes jovens onde se espera futuras trocas, para evitar acúmulo de hardware; e em pacientes com alto risco infeccioso

País/Região Aprovação/Introdução Situação da Adoção (2025)
Estados Unidos FDA 2016 (Micra VR); 2020 (Micra AV); 2023 (Abbott Aveir DR) Amplamente disponível; milhares de implantes acumulados; dual-chamber recém disponível, expectativa de aumento da utilização.
Brasil Anvisa ~2018 (Micra VR)¹ Implantação inicial em centros privados; tecnologia ainda não incorporada no SUS (uso pontual por projetos). Crescimento gradual em hospitais de referência.
Alemanha CE Mark 2013 (Nanostim); 2015 (Micra) Pioneira europeia; diversos centros com experiência. Dados nacionais confirmam segurança (0% infecção, ~1% complicação peri). Dual-chamber disponível a partir de 2024.
Reino Unido CE Mark 2015 (Micra) Adoção inicial cautelosa; agora presente nos principais centros. NICE incluiu marcapasso sem fio como opção para pacientes selecionados.²
França CE Mark 2015 (Micra) Uso difundido nos centros terciários (Paris, etc.). Participação em estudos iniciais. Adoção moderada (~5-10% dos marcapassos de câmara única).
Holanda CE Mark 2013/2015 Altamente engajada na pesquisa e prática (Amsterdam UMC líder). Registro holandês demonstra sucesso a 5 anos.
Japão Aprovado 2017 (Micra VR); 2020 (Micra AV) Utilização crescente; incorporação em diretriz japonesa 2021 para casos de difícil acesso venoso.³ Volume significativo em centros urbanos.
Índia Aprovado 2024 (Abbott Aveir VR) Fase inicial de adoção; alguns implantes de destaque em 2024. Custos limitam difusão ampla no sistema público.
Austrália/NZ Aprovado ~2017 Disponível e sendo utilizado em centros eletrofisiológicos principais. Dados locais alinhados ao internacional, adoção lenta porém constante.
Oriente Médio Varía (caso a caso) Alguns países importaram dispositivos para pacientes específicos. Ainda não integrado rotineiramente aos sistemas nacionais.

Fonte: Autores (2025).

No geral, pode-se dizer que a tecnologia foi aceita globalmente, porém a taxa de adoção varia conforme fatores como custo, reembolso e familiaridade dos operadores. Nos países de alta renda, embora ainda represente minoria dos implantes totais de marcapasso, o leadless já deixou de ser uma curiosidade para se tornar parte do arsenal terapêutico padrão para indicações selecionadas. Nos países emergentes, a penetração está alguns anos atrás, mas a tendência é seguir o mesmo caminho conforme os dispositivos se tornem mais acessíveis. Um fator que deverá impulsionar o uso mundial é a evidência crescente de redução de complicações e potencias economia de custos a longo prazo. Um estudo americano modelou que, apesar do custo inicial do Micra (~US$10.000, comparado a US$2.500 de um marcapasso convencional), a diminuição de reoperações e infecções poderia equilibrar essa diferença no horizonte de alguns anos (Makino, 2024). Conforme mais dados econômicos se acumulam mostrando custo-efetividade, é provável que sistemas de saúde públicos e seguros passem a cobrir rotineiramente o leadless para pacientes apropriados. No Brasil, espera-se que a incorporação no SUS ocorra quando houver negociação de preço ou fabricação local que viabilize custos menores, ou ainda via provas concretas de superioridade clínica em grupos específicos (ex.: infecção de marcapasso, indicação de salvamento).

12. DISCUSSÃO: MUDANÇA DE PARADIGMA E PERSPECTIVAS FUTURAS

Ao refletir sobre toda a jornada dos marcapassos sem fio até aqui, desde as primeiras implantações experimentais até o acompanhamento de 5 anos e expansão para dispositivos de dupla câmara, fica claro para mim que estamos diante de uma mudança de paradigma na estimulação cardíaca. Similar a como a cirurgia videolaparoscópica revolucionou procedimentos antes realizados por laparotomia, a tecnologia leadless vem transformando o modo como oferecemos terapia de marcapasso, tornando-a menos invasiva e mais segura. Em minha prática, pacientes frequentemente ficam surpresos (e aliviados) ao saber que há opção de marcapasso “sem cirurgia no peito”, e o aspecto cosmético e de conforto (sem protuberância ou cicatriz maior) também não deve ser subestimado, embora secundário aos benefícios médicos, melhora a qualidade de vida e aceitação do tratamento.

Do ponto de vista de paradigma clínico, talvez o impacto mais profundo seja na redução de infecções e complicações a médio prazo, como exaustivamente discutido. Trata-se de um problema de longa data em marcapassos que agora pode ser mitigado. Isso afeta especialmente áreas como: pacientes com marcapasso e necessidade de hemodiálise (onde a taxa de infecção de sistema convencional podia chegar a 5-7% anuais), pacientes oncológicos ou imunossuprimidos, e pacientes jovens que precisariam de múltiplas trocas de gerador na vida (cada troca carrega risco de infecção incremental). Posso prever que, no futuro, as diretrizes recomendarão marcapasso sem cabo preferencialmente nesses subgrupos de alto risco, mesmo que para a população geral ambas as opções sejam válidas (Brignole, et al. 2021; Lustgarten, 2022). Aliás, a Diretriz Europeia de Marcapassos de 2021 já menciona o marcapasso leadless como opção recomendada em pacientes com acesso venoso dificultado ou alto risco infeccioso (classe IIa) (European Society of Cardiology, 2021). Espera-se que atualizações futuras ampliem as recomendações conforme mais evidência de nível 1 surja.

Outro ponto paradigmático é a miniaturização e simplificação do procedimento. Embora implantar um Micra ainda exija destreza e treinamento específico, não deixa de ser impressionante que um dispositivo inteiro seja implantado por cateter de forma percutânea em ~30-40 minutos, sob anestesia local (ou sedação leve), sem nenhuma incisão. A recuperação do paciente é extremamente rápida, muitos recebem alta no dia seguinte, e alguns centros até investigaram realizar de maneira ambulatorial (day-case) em casos selecionados. Quando comparada à logística do implante convencional, que envolve preparo da equipe cirúrgica, risco de hematoma no bolso gerador e restrição de movimentação do braço por algumas semanas, observa-se uma diferença tangível na experiência do paciente. No Hospital de Base do DF, por exemplo, a paciente Terezinha pôde ir para casa 3 dias após o implante do leadless, com evolução tranquila, e isso porque o caso dela foi complexo pelo contexto de infecção anterior; em casos eletivos sem complicações, a alta costuma ser em 24-48h mesmo.

Ao declarar tudo isso, não ignoro que ainda há limitações e questões em aberto. Uma delas é o custo: atualmente os dispositivos leadless têm custo de aquisição algumas vezes maior que o de sistemas convencionais. Contudo, acredito que esse cenário tende a se equilibrar com a produção em escala e concorrência (já são pelo menos dois fabricantes no mercado, e outras empresas podem entrar). Além disso, o cálculo custo-benefício deve incluir as possíveis economias com redução de eventos adversos. Como profissional atuando tanto em setor privado quanto público, reconheço que precisamos de políticas de saúde e negociações inteligentes para tornar a tecnologia acessível a quem dela se beneficia. Um paradigma só muda de fato quando atinge a maioria das pessoas que dele podem se valer. Portanto, difundir o conhecimento sobre as vantagens e demonstrar valor econômico serão passos importantes nos próximos anos.

Outro ponto em aberto é acompanhar até onde vai a durabilidade real dos dispositivos in situ. Os dados de 5 anos são encorajadores, mas ainda queremos ver o comportamento em 8, 10, 12 anos. Será que surgirá alguma complicação tardia desconhecida? Por exemplo, especula-se se um dispositivo encapsulado por >10 anos poderia, eventualmente, causar alguma reação inflamatória crônica ou interferir na dinâmica cardíaca. Até agora nada sugere isso, pacientes com Nanostim ou Micra por ~7-8 anos (os primeiros implantados) não apresentaram problemas, mas vigilância continua é fundamental. Como membro da comunidade científica, considero crucial a manutenção de registros internacionais e publicação de seguimentos prolongados.

E o que dizer do futuro próximo? Creio que veremos nos próximos 5 anos a consolidação dos sistemas de dupla câmara sem fio (como o Abbott Aveir DR) e possivelmente a entrada da Medtronic nesse segmento (já em andamento com estudos do Micra atrial). Isso expandirá enormemente o escopo: pacientes com bloqueio AV completo, que hoje ainda recebem marcapassos bicamerais transvenosos, poderão ser tratados com dois pequenos dispositivos sem nenhum cabo. A sincronização atrioventricular por comunicação sem fio já se mostrou factível. No estudo multicêntrico internacional Aveir DR i2i, apresentado em 2023, foi relatado que 97,3% dos pacientes alcançaram sucesso na sincronização atrioventricular três meses após o implante, com desempenho comparável aos marcapassos DDD tradicionais, inclusive em diferentes posições corporais e atividades (Knops et al., 2023). Eu mesmo estou ansioso para, em breve, implantar esses sistemas duplos, algo que exigirá certo aprendizado, mas nada que difira muito do implante de dois Micra separadamente. Além disso, existe o conceito de marcapasso leadless multissítio para terapia de ressincronização; imagina-se um futuro sistema com três ou quatro pequenos estimuladores distribuídos pelo coração (por exemplo, um no septo direito, outro na parede livre do ventrículo esquerdo via epicárdio, outro no átrio), todos coordenados por algoritmos avançados para tratar insuficiência cardíaca com dissincronia (Lyu, 2020; Brignole et al., 2021). Já há protótipos e estudos iniciais nessa linha. Esse seria o ápice do paradigma: estimular qualquer ponto do coração sem um único fio inserido.

Por fim, como pesquisador-clínico, vejo a convergência dessa tecnologia com outras inovações, como a estimulação do sistema de condução (His/Feixe esquerdo). Hoje, debatedores discutem se o melhor caminho para um paciente jovem com Bloqueio Atrioventricular (BAV) seria um marcapasso leadless ou um marcapasso transvenoso com estimulação do feixe de His, que preserva a fisiologia da condução cardíaca. Não são estratégias excludentes: já se cogita, no horizonte, um marcapasso leadless que estimule o feixe de His. Há inclusive estudos de modelagem avaliando o implante do Micra no septo interventricular alto para alcançar o feixe de His, embora isso ainda enfrente limitações técnicas, como o tamanho atual do dispositivo (Lustgarten, 2022; Zhang et al., 2021). Em todo caso, a pluralidade de opções é benéfica, significa que podemos personalizar o tratamento para cada caso com o que houver de melhor.

13. CONCLUSÃO

Como cardiologista que acompanhou a evolução dos marcapassos transvenosos e agora vivencia a era leadless, considero que estamos diante de uma mudança marcante na estimulação cardíaca. A ausência de cabos e bolsa subcutânea reduziu de forma significativa as complicações, sem comprometer a eficácia ou a confiabilidade dos dispositivos.

Embora os marcapassos transvenosos ainda tenham seu espaço, especialmente enquanto a tecnologia sem fio bicameral e tricameral avança, é evidente que o futuro aponta para os dispositivos leadless. Os benefícios clínicos são claros: menos infecções, menos reoperações e maior conforto ao paciente. E por trás dos números frios há vidas reais impactadas, idosos frágeis que evitam cirurgias maiores, pacientes ativos que não precisam se preocupar com limitações. Essas histórias motivam a continuidade da pesquisa e da adoção criteriosa.

A adoção dessa tecnologia deve ser criteriosa, considerando custo e manejo no fim da vida útil, mas seu potencial transformador é inegável. Vivemos uma nova era na estimulação cardíaca, e temos o privilégio de fazer parte dela.

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NOTA

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial LanguageTool, Grammarly, HyperWrite e ChatGPT (versão não identificada) auxiliar na correção gramatical e na busca de sinônimos, assim como para a conferência de informações obtidas em outros estudos, artigos e reportagens pesquisadas. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos e elaboração de texto foram realizadas de maneira autoral.

[1] Especialização em Ritmologia Cardíaca e Marca-passo (Pós-graduação Lato  Sensu) – Hospital Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência, São  Paulo, SP (1993–1994); Residência Médica em Cardiologia Clínica – Hospital Real e Benemérita  Sociedade Portuguesa de Beneficência, São Paulo, SP (1991–1993) – Especialidade reconhecida pela Sociedade Brasileira de Cardiologia; Graduação em Medicina (MD) – Faculdade de Ciências Médicas da Universidade  São Francisco, Bragança Paulista, SP (1985–1990). ORCID: 0009-0003-1308-037X.

Material recebido: 12 de maio de 2025.

Material aprovado pelos pares: 22 de maio de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 27 de maio de 2025.

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Fernando Candido Martins

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