A Enfermagem Quântica e o Paradigma das Evidências Científicas

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A Enfermagem Quântica e o Paradigma das Evidências Científicas
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BRASILEIRO, Marislei Espíndula [1]

BRASILEIRO, Marislei Espíndula. A Enfermagem Quântica e o Paradigma das Evidências Científicas. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 9. Ano 02, Vol. 06. pp 135-145, Dezembro de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

O presente estudo tem como propósito discorrer a respeito da enfermagem quântica e sua relação com as evidências científicas. Para isso elaborou-se uma reflexão teórica, utilizando-se de estudos sobre evidências científicas. O resultado é uma teorização que busca explicar a aproximação da enfermagem quântica com as evidências científicas atuais. Infere-se que, embora o enfermeiro execute diversos procedimentos junto à pessoa, família e coletividade, o resultado é indeterminado. Mesmo que siga com rigor as evidências científicas e os protocolos, não é possível controlar, com 100% de acerto, se o resultado será ou não bem sucedido. Isso ocorre, provavelmente, devido à enfermagem quântica.

Palavras-Chave: Enfermagem, Quântico, Evidências Científicas, Assistência.

INTRODUÇÃO

A escassez quase completa de estudos nacionais e internacionais, relacionados à Enfermagem Quântica, motivou o desenvolvimento e aprofundamento deste estudo. Isto porque a Enfermagem é uma ciência e o Enfermeiro é o profissional com rigoroso preparo técnico, científico, ético, psicológico e emocional para assistir e cuidar de forma autônoma e integral. Sua atuação na promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde, de forma holística e humanizada, ocorre em comunicação com a família e visa preservar o bem estar. Isso ocorre em parceria com a equipe multiprofissional, em ambientes quase sempre estressantes. (NIGHTINGALE, 1870; ROGERS, 1970; HORTA, 1989; COFEN, 1987).

Importante lembrar que o termo quântico não é recente. Foi utilizado pelo físico alemão Max Planck no ano de 1900 e popularizado por Klein em 1966, ao se referir ao quantum em sua teoria da descontinuidade da energia. (KLEIN, 1966). Os quanta, mais tarde, foram utilizados por Einstein em 1905 para explicar os átomos de luz, afirma Brasileiro6. (2013). Desde então, tanto a física quântica, quanto a mecânica quântica e, agora a enfermagem quântica, tem sido utilizadas para compreender fenômenos que vão para além da lâmina microscópica.

As ações dos enfermeiros são embasadas em evidências científicas, ou seja, cada movimento seu foi estudado, testado e validado por outros enfermeiros cientistas. Desde um simples aperto de mão, a posição exata do bisel ao penetrar a pele e alcançar perfeitamente o vaso sanguíneo até a técnica perfeita de um curativo infectado, seus atos não são impensados. Ao contrário, trata-se de um processo secular que envolve diversas ciências, construídas com base em evidências.

Com o avanço das tecnologias e os desafios impostos pela evolução das técnicas e o surgimento de superbactérias, as decisões dos enfermeiros sobre determinados procedimentos utilizam como suporte a evidência científica, ou seja, um conjunto de informações utilizadas para confirmar ou negar uma teoria ou hipótese científica.

Não busca por uma teoria que dê certeza a respeito dos níveis de evidências, estes podem ser sintetizados no quadro:

QUADRO 1 – Síntese dos níveis de evidências:

FORÇA NÍVEL Oxman, Cook e Guyatt (1994)15 Evans (2003)16 Di Domênico, Ide (2001)17 Cook et al (1992)18 Prática baseada em evidências19
Forte 1 1 Revisões sistemáticas, metanálises, Estudos randomizados 1 Ensaios clínicos e revisões sistemáticas de ensaios clínicos, experimentais, coorte. 1 Revisões sistemáticas 1 Revisões sistemáticas e metanálise 1 Metanálise de múltiplos estudos controlados
Forte /
Moderada
2 2 Estudos de coorte, estudos de casos e controles, estudos transversais 2 Ensaios clínicos, experimentais, coorte. 2 Ensaios clínicos randomizados. 2 Ensaio clínico randomizado 2 Estudo experimental individual
Forte /
Moderada
3 3 Estudos ecológicos, estudos de séries de casos. 3 Estudos de casos. 3 Estudos de coorte/Caso-controle. 3 Ensaio clínico não randomizado 3 Estudo quase-experimental como grupo único, não randomizados, controlados, com pré e pós-testes, ou estudo tipo caso controle
Moderada/
Fraca
4 4 Opiniões de especialistas, pesquisas em animais ou in vitro. 4 Série de casos. 4 Coorte controlado 4 Estudo não experimental, descritivo correlacional, qualitativos ou estudo de caso.
Moderada/
Fraca
5 5 Opiniões de especialistas 5 Caso-controle 5 Relatório de casos ou dados obtidos sistematicamente, de qualidade verificável, ou dados de programas de avaliação.
Moderada/
Fraca
6 6 Relato de casos e experiência clínica. 6 Opinião de autoridades, comitês, órgãos legais.

 

Dependendo do teórico, os níveis de evidência variam entre 3, 4, 5 ou 6 escalas. Tais estudos são relevantes para se estabelecer o nexo causal e para a utilização de evidências seguras antes de tomar decisões.

Isso significa que estabelecer a relação entre causa e efeito é uma forma respeitável para se lidar com vidas, isto é, se tal substância ou procedimento passou por todas as etapas de testes necessários e seguiu o rigor exigido para tal experimento, existe a probabilidade de que o mesmo efeito seja positivo no indivíduo.

O problema se instala quando não se conhece o limite de segurança entre o que se conhece pelas evidências e os diversos resultados que surgem após um procedimento. Da mesma forma que o adoecimento e o processo de morrer são multifatoriais, a recuperação da saúde também o é. Em se tratando de recuperação, há a dependência de diversos fatores que podem contribuir ou atrapalhar no resgate do estado de saúde. O Enfermeiro não pode controlar esse fenômeno.

Para que o enfermeiro, profissional cientificamente preparado, se sinta seguro perante o paciente ele se utiliza de evidências. Por outro lado, para além das evidências, a incerteza diante dos resultados, é o que chamamos de Enfermagem Quântica.

A distância entre a certeza obtida pelos experimentos científicos e a improbabilidade distanciada pelo fato da enfermagem não ser uma atividade estanque, conduz à metaenfermagem, embora não decodifique ou nomeie esse lapso de certeza. Diante disso, o questionamento que move essa análise é: a enfermagem quântica explica a incerteza que o enfermeiro possui diante dos procedimentos? Ainda que se utilize de níveis aceitáveis de evidências científicas, não é possível ter certeza a respeito do resultado de sua ação? Apesar das evidências científicas, cada indivíduo reagirá à sua maneira ao processo de enfermagem?

Faz-se necessário compreender as nuances da física e mecânica quântica, antes de se prosseguir com a enfermagem quântica. Para tanto, é preciso lançar mão da Terceira Lei de Newton inicia um processo de estudos a respeito de fenômenos físicos que se repetem com características exatas e, portanto, previsíveis, com ações e reações correlacionadas. No entanto, inevitavelmente, esse Princípio da ação e reação tão próprio a determinados corpos, nem sempre é visualizado após um procedimento de enfermagem.

A simples execução de uma prescrição não é suficientemente assistência de enfermagem. O enfermo espera dos profissionais, a reversibilidade de seu quadro, passando do processo de adoecimento ao de saúde.

As ações do enfermeiro, apesar de permeadas por profundos conhecimentos de anatomia, fisiologia, bioquímica, farmacologia, semiotécnica, microbiologia e diversas outras logias, no entanto, não correspondem às reações exatas.

Na física clássica, a Terceira Lei do Movimento é conhecida como Princípio da Ação e Reação ou, ainda, Terceira Lei de Newton, é assim enunciada por Newton: A uma ação sempre se opõe uma reação igual, ou seja, as ações de dois corpos um sobre o outro sempre são iguais e se dirigem a partes contrárias. (NEWTON, 1996).

Isso significa que toda vez que um corpo A exerce uma força (Fa) em um corpo B, esse também exerce em A uma força (Fb) tal que essas forças: têm mesma intensidade, direção e natureza, porém têm sentidos opostos.

Fica evidente que, conforme a física clássica as ações e reações das forças dos corpos são previsíveis. Na Enfermagem clássica, igualmente. Já enfermagem quântica, nem sempre. Executar, por executar, não é enfermagem.

Frequentemente é possível observar pacientes que desenvolvem úlceras por pressão mesmo sendo submetidos à mudança protocolar de decúbito. Porque enfermagem é tornar o outro firme, embora essa firmeza dependa de diversos outros fatores.

No ato de administrar uma vacina, não há como saber se o organismo reagirá da forma como se espera. Se a temperatura do ambiente interferiu na temperatura do recipiente, certamente a vacina não terá o mesmo efeito.

Apesar dos rigores com os testes de biodisponibilidade, das repetidas correlações in vitro, dos ensaios em camundongos e, posteriormente, em humanos, as reações de cada paciente são individuais, variadas e inesperadas, assim como na mecânica quântica. Inúmeros fatores agem, sinergicamente, para a vida ou para a morte. É natural, portanto, que os enfermeiros se sintam frustrados e impotentes.

Os físicos também ficam perplexos diante dos movimentos inesperados dos elétrons. Brasileiro (2013, p. 134) alerta que, ao se considerar que a Mecânica Clássica é positiva e previsível em seus postulados, verifica-se o contrário com a Mecânica Quântica, a qual trabalha com probabilidades e incertezas. Quando se estuda os movimentos das partículas atômicas verifica-se, por exemplo, a incerteza da localização exata do elétron em volta do núcleo do átomo. Também não se conhece o destino do elétron durante o tempo do salto quântico. Ele desaparece até alcançar a próxima camada que o abrigará.

Na enfermagem não é diferente. É comum o retorno frequente de pacientes às unidades básicas de saúde, mesmo após terem recebido todas as instruções sobre como cuidarem da própria recuperação. Pacientes refratários, a não adesão aos tratamentos por parte de hipertensos ou diabéticos, também intriga os enfermeiros. Além disso, eleva os gastos com a saúde pública. O enfermo também não tem certeza que tal terapêutica lhe trará sucesso para sua saúde.

As incertezas da Mecânica Quântica levaram Einstein a buscar uma explicação racional, lógica, certa e previsível aos fenômenos da Física, tal qual fez Newton.

A Teoria Quântica explica o comportamento das partículas subatômicas e das menores quantidades de energia. Devido à Teoria Quântica, é possível construir máquinas como lasers e calculadoras movidas a energia solar. É a Teoria segundo a qual a energia é formada de pequenas unidades chamadas quanta. Uma unidade é um quantum. Como não existem frações de quantum, uma quantidade de energia corresponde sempre a um número inteiro de quanta. Na radiação eletromagnética, a forma de energia que inclui a luz, a quantidade de energia em cada quantum depende da frequência da radiação. É por isso que, quando se aquece uma barra de metal, ela fica vermelha, depois amarela e finalmente branca. Enquanto a temperatura sobe, os quanta dos raios de luz ganham mais energia. Isso aumenta as frequências dos raios e a luz muda de cor, afirma Brasileiro (2013).

Para compreender essa mudança de cor é preciso estudar os fenômenos que ocorrem nas camadas atômicas e subatômicas, ou seja, os eventos que ocorrem nas moléculas e nos átomos. A pele do paciente acamado também muda de cor à medida que permanece sob uma superfície por muito tempo. O diagnóstico de enfermagem “Perfusão tissular ineficaz”. (NANDA, 2015) indica essa baixa oxigenação dos tecidos, mas não a explica.

A sedação, isto é, a manutenção estática do enfermo, mantendo-o quimicamente restrito no leito, é um dos diversos elementos que contribuem para a formação de úlceras por pressão. Isso porque o paciente torna-se restrito ao leito por maior tempo, ignorando a dor que o indivíduo saudável sentiria ao manter um membro na mesma posição. Nesses processos, o laser de baixa intensidade acelera cicatrização, o laser azul ajuda na limpeza de ferimentos infeccionados, enquanto uma luz vermelha age na circulação.

A Mecânica Quântica explica, por exemplo, o comportamento dinâmico dos elétrons nos átomos, assevera. Gilmore (1998). Cada elétron pode orbitar o núcleo de um átomo em diferentes níveis de energia. Os elétrons podem saltar de um nível a outro quando o átomo recebe energia. A energia fornecida pode ser eletricidade, luz ou calor. Quando os elétrons voltam a seu nível original, a energia é liberada. Quando um elétron sobe ou desce de nível, o átomo ganha ou perde um quantum de energia. A quantidade de energia do quantum sempre depende da diferença de energia entre os dois níveis.

O fóton, por exemplo, é uma partícula de radiação eletromagnética, ou seja, é um quantum de radiação eletromagnética, que inclui ondas de rádio, luz e raios X. Cada onda ou raio consiste em um feixe de fótons. Em síntese, fóton é um quantum de luz.

A Mecânica Quântica iniciada por Max Planck, desenvolvida especialmente por  Werner Heisenberg (1999), Max Born (1882-1970) e Albert Einstein, por meio de sua Teoria da Relatividade.

Nesse mesmo caminho, a enfermagem clássica subjugada aos domínios microscópicos vem se inspirando na física e mecânica quântica para que alguns enfermeiros busquem aperfeiçoar o pensamento metodológico para além da enfermaria.

Importante lembrar que Planck pesquisou determinada cavidade capaz de reter uma quantidade de luz e calculou a energia concentrada em seu interior. Planck ficou surpreso porque os seus cálculos só davam certo quando se cogitava que a cavidade tinha infinitos “pacotes” de luz, os quais ele denominou quanta. Em 1905, Einstein afirmou que os quanta são os átomos de luz.

Planck estudou o espectro de emissão de irradiação de corpos aquecidos, os quais são denominados de corpos negros. Estudou a energia da irradiação eletromagnética em função da sua frequência. Planck verificou que se pegar uma barra de ferro e esquentar no fogo vai perceber que depois do tempo ela vai emitir luz, ou seja, irradiação eletromagnética. Ele verificou a irradiação dos corpos aquecidos, ou seja, a origem da luz da irradiação eletromagnética. Ele percebeu que essa irradiação ou a quantidade de energia somente era emitida, não de forma contínua, mas em pulsos, em saltos, em pacotes, em quantidades.

Esses pacotes de energia foram batizados de quanta.

Quando ocorre a emissão de um pacote de energia, diz-se que há emissão de um quantum de energia eletromagnética. Quando se emite mais de um pacote diz-se: dois quanta, três quanta, quatro quanta, cinco quanto e sucessivamente. Daí vem o termo Física Quântica.

Para melhor compreensão de como a enfermagem quântica é possível, resta-nos analisar as sete faces que interferem no resultado da ação do enfermeiro e que explicam a enfermagem quântica: o profissional, o procedimento, os instrumentais, as substâncias, o paciente, o ambiente, o microcosmo.

Fatores tais como o estado do paciente, as precauções utilizadas na prevenção de infecções, a temperatura ambiental, agem de maneira sinérgica, como disse, para o sucesso ou não da recuperação do paciente.

Nesse sentido, os elementos ou a fusão deles, nem sempre são eventos controlados ou passíveis de controle. Da mesma forma, nem todos esses elementos estão sob controle da enfermagem ou de qualquer outro profissional, o qual, igualmente, se embasa em evidências científicas.

A Enfermagem é uma profissão comprometida com a saúde da pessoa, família e coletividade. No entanto, o que o enfermeiro pode fazer, depois de cada procedimento é esperar e, após alguns minutos retornar para avaliar se sua ação obteve o resultado esperado. Se antes do procedimento o enfermeiro tinha relativa certeza que o analgésico faria o efeito na redução da dor, horas após, a queixa repetida do paciente põe em cheque sua certeza.

Aproximar-se dessa certeza é tarefa de todo enfermeiro. Por outro lado, há elementos que vão além das moléculas de água. Mais ainda, vão além dos átomos. Um exemplo clássico e bastante utilizado em casos de Dengue é a Dipirona.

Sem querer entediar o leitor com informações técnicas, ao se estudar suas propriedades Farmacodinâmicas, vê-se que a dipirona sódica é um derivado pirazolônico não-narcótico, com efeitos analgésico e antipirético. O seu mecanismo de ação não se encontra completamente investigado. Alguns dados indicam que a dipirona sódica e seu principal metabólito (4-N-metilaminoantipirina) possuem mecanismo de ação central e periférico combinados. Isso significa que nem mesmo o mecanismo de ação é bem compreendido e, por isso, não controlável.

Da mesma forma, as propriedades farmacocinéticas da dipirona sódica e de seus metabólitos não estão completamente investigadas, porém as seguintes informações podem ser fornecidas: Após administração oral, a dipirona sódica é completamente hidrolisada em sua porção ativa, 4-N-metilaminoantipirina (MAA). (TEUTO, 2013). A biodisponibilidade absoluta do MAA é de aproximadamente 90%, sendo um pouco maior após administração oral quando comparada à administração intravenosa.

Percebe-se que, um simples analgésico, de uso popular, não está sob controle do enfermeiro, muito menos do médico que o prescreve, nem mesmo do farmacêutico que o produz.

O problema da enfermagem quântica torna-se mais evidente uma vez que é o enfermeiro quem permanece maior parte do tempo com o paciente e, não raras vezes é este profissional que o paciente chama quando o medo da morte o ronda.

O que está além dos átomos, das moléculas e das substâncias é o que chamamos de enfermagem quântica. Não é possível ter certeza, senão por meio de testes que, para uns darão certo e para outros não.

Heisenberg, em 1926, também se incomodou com sua incerteza e reelaborou a teoria quântica. Ele formulou o Princípio da incerteza: não é possível medir, simultaneamente e com precisão, o posicionamento e a velocidade das unidades subatômicas porque, ora se comporta como partícula, ora como onda.

No que tange essa dualidade revelada pela Mecânica Quântica, Hamburger assevera: Como conciliar, em nossas cabeças, os aspectos de partícula e de onda exibidos por elétrons, prótons e outras chamadas “partículas” atômicas? Um exemplo da dificuldade de juntar essas propriedades está no princípio da incerteza, que é uma lei científica que afirma que é impossível saber, com precisão absoluta e ao mesmo tempo, a posição e a velocidade de uma dessas partículas: se determinarmos com grande precisão a posição, a velocidade fica indeterminada, e se, por outro lado, determinarmos a velocidade exatamente, é a posição que fica desconhecida. (HAMBURGER, 1984, P. 5).

Para reforçar essa incerteza, Bohr revelou que os instrumentos de medida desestabilizam a partícula, o que impossibilita a sua localização e a sua velocidade originais, o que determina o Princípio da Subjetividade: Em particular, qualquer procedimento imaginável que vise localizar os elétrons de um átomo no espaço e no tempo implicará, inevitavelmente, uma troca essencialmente incontrolável de momento e energia entre o átomo e os aparelhos de medida, aniquilando por completo as notáveis regularidades da estabilidade atômica pelas quais o quantum de ação é responsável.

Indubitavelmente, essa incerteza da Mecânica Quântica foi o que mais gerou tensão entre os físicos. Com fazer para determinar o comportamento de uma partícula, se não é possível calcular, com precisão a sua posição e a sua velocidade? No entanto, no mundo científico onde há incerteza deve-se dar lugar, pelo menos, à certeza da probabilidade, conforme assinala Hamburger: A conciliação se deu por meio do conceito de probabilidade. Há uma onda que se propaga, mas o significado desta onda é a probabilidade de se encontrar a partícula puntiforme em cada ponto. Em outras palavras, nos locais onde a onda é intensa, é muito provável encontrar-se a partícula, e onde ela é fraca, é pouco provável encontrar-se a partícula. Esta interpretação da mecânica quântica levantou muitas objeções filosóficas, pois a teoria deixava de ser determinista.

O físico e filósofo argentino Mário Augusto Bunge (1919-), no entanto, discorda do indeterminismo da Mecânica Quântica. Ele não concorda com o termo “incerteza”, mas com o termo “indeterminação” embora não considere esses termos suficientemente corretos para a Mecânica Quântica: “(…) o indeterminismo ontológico requer uma interpretação física (objetiva) da probabilidade. Mas logo que as probabilidades são objetivas e legais, o indeterminismo evapora-se e o determinismo estocástico permanece”. Ao considerar que a Mecânica Quântica é determinista, Bunge defende que a probabilidade elimina a incerteza ou o indeterminismo da Mecânica Quântica. Também o físico inglês Robert Gilmore demonstra preocupação ao tratar da temática do indeterminismo da Mecânica Quântica: Torna-se conveniente falar das relações da incerteza de Heisenberg ao se descrever a estranha mescla de energia e tempo, de posição e momentum, que ocorre nos sistemas quânticos. O problema de tal descrição é que ela promove a crença de que a Natureza é, no fundo, incerta, que nada pode ser confiavelmente previsto e que, de fato, vale qualquer coisa. Isto não é verdade!

Que dizer da Enfermagem quântica? É tão complexa e indeterminada quanto a física quântica?

Ao utilizar o termo Enfermagem quântica o faço devido a falta de um termo mais adequado. Ao se vislumbrar que a saúde é como um elétron que oscila em diferentes níveis de energia, salta de um nível a outro quando o átomo recebe energia, a Enfermagem quântica deve levar em consideração que é preciso compreender a instabilidade da natureza humana.

É preciso, portanto, valorizar os cuidados objetivos e subjetivos, individuais e coletivos, pois o todo é dependente de cada partícula.

Ambiente, corpo e mente podem interagir indefinidamente e, por que não dizer, indeterminadamente. Nesse sentido, o quantum de cada indivíduo deve ser levado em consideração. A partir do momento que não é possível prever com exatidão as reações do organismo humano, nem mesmo sua estrutura emocional e psicológica, resta trabalhar com a probabilidade. Ainda assim, tal probabilidade é dependente da equipe multiprofissional, multidisciplinar e de uma miríade de fatores que se combinam e recombinam ao infinito.

Ressalta-se a necessidade de se verificar todas as variáveis, a probabilidade diante das incertezas e da subjetividade, em busca da complementaridade que possibilitará um critério ideal de assistência, que leve em consideração a segurança do paciente. Desse modo, a Enfermagem Quântica abre novas vertentes de estudos para os diversos ramos da Enfermagem.

REFERÊNCIAS

1.NIGHTINGALE, F. Una and the Lion. Riverside Press; 1871.

2.ROGERS, M. A teoria do ser unitário. Estados Unidos; 1970.

3.HORTA, W. Processo de Enfermagem. São Paulo: EPU; 1979.

4.Conselho Federal de Enfermagem – COFEN. Lei nº 7498 de 1986. Brasília: COFEN; 1987.

5.KLEIN, M.J. Thermodynamics and quanta in Planck’s work Physics Today. Physics, v. 19, n. 11, p. 23-32, 1966.

6.BRASILEIRO, E.S.F. O Direito Natural visto à luz da Lei da Ação e Reação de Isaac Newton: uma proposta de reflexão [Tese de Doutorado em Direito]. Lisboa – Portugal: Universidade Autônoma de Lisboa, 2013.

7.NEWTON, I. Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

8.NORTH AMERICAN NURSING DIAGNOSIS ASSOCIATION – Diagnóstico de Enfermagem da NANDA: definições e classificação, 2015-2017. Porto Alegre: Artmed, 2015.

9.GILMORE, Robert. Alice no País do Quantum: a Física Quântica ao alcance de todos. Tradução de André Penido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

10.HEISENBERG, W. Física e Filosofia. Série Métis. 4. ed. Tradução de Jorge Leal Ferreira. Brasília: Universidade de Brasília, 1999.

11.BOHR, N. Física atômica e conhecimento humano: ensaios 1932-1957. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

12.TEUTO. Laboratório. Dipirona. 2010 Set Disponível em: < http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=9436362013&pIdAnexo=1857552>. [capturado 2016 Jan].

13.HAMBURGER, E.W. O que é Física. 1984. Disponível em: http://www.ebah.com.br/content/ABAAAf_S8AE/que-fisica-ernst-w-hamburger?part=5. [capturado 2016 Jan].

14.BUNGE, M. Filosofia da Física. Tradução de Rui Pacheco. Lisboa: Edições 70, 1973.

15.OXMAN, A.D, COOK, D.J, GUYATT, G.H. Users’ guides to the medical literature VI How to use an overview. Journal of American Medical Association, v. 272, p. 1367–1371, 1994.

16.HAWKING, S.W. Uma breve história do tempo: do big bang aos buracos negros. Tradução de Maria Helena Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

17.DI DOMENICO, E.B.L. Enfermagem baseada em evidências: a reconstrução da prática clínica. In: Ide CAC, Di Domenico EBL. Ensinando e aprendendo um novo estilo de cuidar. São Paulo: Atheneu; 2001, p. 165-71.

18. COOK, A. et al. Hierarquia das evidências. In: Correr Cassiano. Farmacoterapia baseada em evidências: Uma abordagem sobre os processos da farmacoterapia.  Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2012.

19.GALVÃO, C.M., SAWADA, N.O, MENDES, I.A.C. A busca das melhores evidências. Rev Esc Enferm USP, v. 37, n. 4, p. 43-50, 2003,

[1] Graduada em Enfermagem pela UFG, Mestre em Enfermagem pela UFMG, Doutora em Ciências da Saúde pela UFG, Doutora em Ciências da Religião pela PUC-Go.

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