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Depressão em crianças e adolescentes: uma revisão de literatura

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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

BRAGA, Rodrigo de Santana Geraldo [1]

BRAGA, Rodrigo de Santana Geraldo. Depressão em crianças e adolescentes: uma revisão de literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 09, Vol. 04, pp. 43-64. Setembro de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/depressao-em-criancas

RESUMO

Considerando a depressão entre crianças e adolescentes como uma questão de saúde pública, com relevância econômica e social, bem como a existência de poucos estudos e/ou pesquisas de caráter epidemiológico, feitos com o público infantil que busca atendimento em serviços de saúde mental, o presente artigo visou responder sobre os aspectos epidemiológicos, as questões de prevenção e cuidado clínico relacionados a este transtorno. Desta forma, o objetivo deste estudo foi realizar uma revisão de literatura a respeito do tema, discutindo a epidemiologia e as questões de prevenção e cuidado clínico relativas a este fenômeno com a finalidade de proporcionar o acesso a dados de publicações, expandindo, assim, a compreensão dos aspectos envolvidos com o transtorno. Para isso, realizou-se uma análise dos dados através da discussão crítica de artigos que foram publicados no período de 2000 a 2016. Como resultados, verificou-se a importância da realização de mais estudos acerca da depressão na infância e adolescência. Visto que esses estudos possuem a capacidade de ampliação dos conhecimentos científicos relevantes para a promoção do raciocínio clínico, criação de equipamentos e instrumentos de apoio para as crianças e adolescentes que convivem com o transtorno, qualificando, por consequência, o cuidado na atuação prática dos profissionais de saúde e favorecendo a qualidade de vida dessas pessoas. Por fim, conclui-se que esse transtorno acomete uma parcela significativa de crianças e adolescentes e é comórbido com outros transtornos. Sendo assim, os profissionais de saúde devem utilizar de uma abordagem ampla, para que o indivíduo seja abordado em sua totalidade, buscando compreender as peculiaridades de cada pessoa atendida.

Palavras-chave: Depressão, Crianças, Adolescentes, Infantil, Adolescência.

1. INTRODUÇÃO

Os transtornos depressivos podem se apresentar em qualquer fase da vida, no entanto, a sintomatologia varia, mediante a idade da pessoa que está passando pelo transtorno. Verifica-se, na atualidade, um grande acometimento de crianças e adolescentes com o quadro depressivo. Porém, tais evidências são bastante recentes, já que somente há poucas décadas os estudos mais específicos para tal transtorno relacionado ao público infanto-juvenil foram iniciados e, a partir disso, percebeu-se a importância clínica da doença e a possibilidade da realização do diagnóstico ainda em períodos mais incipientes do desenvolvimento humano (CALDERARO e CARVALHO, 2005).

Os sintomas mais presentes da depressão são: alterações no humor, redução da autoestima, falta de energia para realizar atividades habituais, alterações no sono e falta de concentração, sendo que outros sintomas podem surgir e se apresentarem em intensidades diferentes de indivíduo para indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2002).

Conforme Cruvinel e Boruchovitch (2003), o número de estudos nacionais que abordam a depressão na criança e na adolescência ainda é escasso. E isso, também, se repete na literatura internacional. Ademais, estudos já foram realizados e demonstraram a necessidade de melhorias na Rede de cuidados em Saúde Mental para este público, porém são poucos os estudos e/ou pesquisas de caráter epidemiológico (AMSTALDEN et al., 2010).

Diante desse cenário, o presente artigo visou responder sobre os aspectos epidemiológicos, as questões de prevenção e cuidado clínico relacionados a este transtorno. Tendo como objetivo realizar uma revisão de literatura a respeito do tema, discutindo a epidemiologia e as questões de prevenção e cuidado clínico relativas a este fenômeno com a finalidade de proporcionar o acesso a dados de publicações, expandindo, assim, a compreensão dos aspectos envolvidos com o transtorno.

Considerou-se importante, através desse trabalho, desenvolver uma revisão de literatura onde fosse possível identificar artigos que abordassem os aspectos que influenciam ou podem influenciar na terapêutica adequada de crianças e adolescentes com depressão. Além de identificar os elementos que estão imbuídos no diagnóstico, tanto para as crianças, adolescentes e seus familiares, quanto para os profissionais envolvidos no diagnóstico e na terapêutica; abordando as dificuldades do diagnóstico, os equipamentos sociais que são utilizados para qualificar o tratamento e o apoio para essas faixas etárias, para além do tratamento farmacológico. Partindo do pressuposto de que se faz necessário o apoio psicossocial para promover a qualidade de vida dessas crianças, enxergando o contexto em que elas estão inseridas.

A noção de infância pode-se apresentar de formas variadas conforme a referência que estamos utilizando para descrevê-la. Segundo o Dicionário Aurélio, a criança é um ser humano com pouca idade e a infância é o período de desenvolvimento humano que compreende do seu nascimento até a puberdade (FERREIRA, 2010). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), define a criança como a pessoa até os 12 anos de idade incompletos (BRASIL, 1990). Posto isto, podemos entender que o significado comum de criança está associado ao contexto sociocultural da sociedade a qual se refere.

Os diversos conceitos acerca da adolescência, também, surgem de variados modos de pensar determinada fase da vida. Nesse contexto, a Sociologia entende que a adolescência se apresenta de acordo com o contexto cultural que o homem está inserido. Para a Antropologia, é uma fase que está entre a infância e a idade adulta, incluindo ritos de passagem. Já o Direito enxerga essa fase se baseando nos aspectos relacionados a maioridade e menoridade, que irão variar em detrimento da legislação local. Por outro lado, a medicina define a fase da adolescência como o período em que irá ocorrer a evolução do crescimento. É nessa fase que grandes mudanças biopsicossociais irão acontecer, tendo início na puberdade e final aos vinte anos, aproximadamente (BRASIL, 2005).

Amstalden et al. (2010), indicam que a saúde mental não se resume à ausência de doença. Mas constitui-se de fatores psicossociais e orgânicos e, dessa forma, para que ela seja exercida, é necessário que a sua construção ocorra desde o contexto social, isto é, englobando a comunidade e a sociedade em geral. No que tange ao público infanto-juvenil, isso se faz particularmente relevante, já que é notado um crescente processo de psicopatologização ou psiquiatrização de fenômenos que são comuns a estas etapas do desenvolvimento e de problemas da ordem social e existencial. É possível observar, também, esse processo de aumento, quando verificamos o acréscimo no número de diagnósticos psiquiátricos na infância, como por exemplo, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Entretanto, a despeito dos grandes avanços que foram conquistados com a implementação de serviços e espaços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico psiquiátrico, em especial para pessoas adultas, verifica-se que para o público infanto-juvenil, os avanços não tiveram a mesma expressão e ainda caminham a passos mais curtos, necessitando de medidas que ampliem os serviços, espaços e equipamentos destinados para as crianças e adolescentes (AMSTALDEN et al., 2010).

O autor supracitado, ainda, relata que a Política de Saúde Mental Infanto-juvenil que foi implementada no Brasil constituiu um esforço do Estado para suprir uma necessidade de assistência dentro desse contexto social, uma vez que o Estado transferiu a responsabilidade do cuidado de crianças com transtornos mentais e deficiências para às instituições filantrópicas ou às associações de pais e familiares. Portanto, a atual Política de Saúde Mental pretende vencer a prática de institucionalização também histórica, pautada em um modelo higienista e em um ideário de proteção (AMSTALDEN et al., 2010).

Amstalden et al. (2010) afirmam que a construção de uma direção pública voltada para a política e o atendimento em saúde mental aos sofrimentos que afetam as crianças e adolescentes não é um trabalho simples; exige determinados delineamentos: éticos, clínico-assistenciais, políticos, de produção de conhecimento, formação de recursos humanos e planejamento.

É nesse cenário, que a política de saúde mental para crianças e adolescentes merece receber destaque. Todavia, em sua concepção, ela já surge com uma deficiência, que é agrupar crianças e adolescentes para a aplicação da política, sendo que os dois estratos etários apresentam demandas distintas e atenções diferenciadas, o que se apresenta como um obstáculo às estratégias e ações voltadas para a saúde mental nessas fases da vida humana (BRASIL, 2005).

Dessa forma, as instituições, geralmente privadas ou filantrópicas, foram as responsáveis por preencher a lacuna existente na atenção pública voltada para as crianças e adolescentes acometidos de sofrimento psíquico. Além disso, foram, por vários anos, as únicas alternativas para o atendimento dos indivíduos e suas famílias (BRASIL, 2005).

Atualmente, já contamos com ações que seguem rumo à implementação de uma política de saúde mental específica. Essas ações permanecem integradas à política de saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS), tendo como objetivo construir uma rede de atenção suficiente para suprir as demandas dos usuários do serviço, contando, desta forma, com um olhar mais direcionado para crianças e adolescentes (COUTO; DUARTE e DELGADO, 2008).

Dentro desse cenário de cuidados mais específicos para a população infanto-juvenil, surgem os Centros de Atenção Psicossocial infanto-juvenil – CAPSi para atender a demanda de expansão ao acesso desses indivíduos ao serviço de atendimento psicossocial. Os CAPSi foram apresentados em 2002, com as mesmas diretrizes que regulamentam os demais CAPS do país (BRASIL, 2002; VICENTIN, 2006).

Alguns estudos tiveram por objetivo identificar as situações de sofrimento se baseando nos prontuários dos usuários deste serviço, relataram haver maior prevalência de transtornos de comportamento e emocionais (HOFFMANN; SANTOS; MOTA, 2008; MONTEIRO; RIBEIRO; BASTOS, 2007). Nos indivíduos do sexo masculino, foi observado um maior número de diagnósticos de síndromes comportamentais, esquizofrenia, transtornos do desenvolvimento psicológico e transtornos do comportamento. No sexo feminino, foi identificado grande prevalência de diagnósticos de transtornos de humor e neuróticos (HOFFMANN; SANTOS; MOTA, 2008).

É mediante esse cenário, que o estudo da saúde mental da criança e do adolescente se mostra importante, porque será durante essa fase da vida humana que o indivíduo assumirá comportamentos que são influenciados diretamente pelo modo que ele se relaciona com o meio em que está inserido. Sendo essa etapa, portanto, de profundas transformações em vários aspectos, como físicos e emocionais (COUTO; DUARTE; DELGADO, 2008)

2. TRANSTORNOS AFETIVOS NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

Dumas (2011), considera que os transtornos afetivos se caracterizam por expressivas ou prolongadas mudanças das emoções da criança e do adolescente. Essas mudanças podem ser marcadas por um humor onde a depressão e o desespero prevalecem, juntamente com a falta de interesse acentuada, queda geral do desempenho nas atividades ou, ao contrário, agitação maníaca. Essas alterações implicam diretamente na dinâmica que a criança ou o adolescente estabelece com o meio. Nesse cenário, sintomas como: irritabilidade, desvalorização ou culpabilidade, agitação ou desaceleração psicomotora, bem como a falta de energia são responsáveis pelos prejuízos no rendimento escolar e nas interações sociais.

Os transtornos afetivos em crianças e adolescentes se apresentam por episódios recidivos que podem gerar alterações graves em várias fases do desenvolvimento e podem acompanhar o indivíduo até a idade adulta ou até o suicídio, em situações mais graves (DUMAS, 2011).

O mesmo autor destaca que existem vários métodos para fazer a avaliação dos diversos aspectos da depressão, sendo um deles identificar pessoas próximas à criança e ao adolescente para fazer a avaliação dos transtornos de humor, realizando, posteriormente, a comparação com as informações obtidas para se garantir que, em caso de realização do diagnóstico, ele venha a ser válido e confiável.

Além da depressão, Dumas (2011), cita que o transtorno distímico basicamente se apresenta como uma depressão crônica e constante do humor, comumente se inicia mais cedo que o transtorno depressivo maior e se caracteriza por períodos depressivos mais extensos. Este se caracteriza pela existência de sintomas depressivos que duram, ao menos, um ano. São menos acentuados, no entanto, são mais crônicos do que o transtorno depressivo maior, podendo se manifestar por semanas ou meses sem evidenciar sinais de melhoras expressivas do humor. Se houverem períodos de remissão, estes devem ser de menos de dois meses.

As variações entre períodos depressivos e de remissão são menos exacerbadas do que no transtorno depressivo recorrente, o tornando difícil de ser estabelecido clinicamente. Há uma prevalência das crianças que são acometidas e se restabelecem, no entanto, existe um grande risco de recidiva ou do desenvolvimento de outro transtorno (LEWIS, 1995).

Outros sintomas, além da falta de interesse quase sempre generalizada, são: perda de energia, perturbações do sono ou do apetite, falta de autoestima e de autoconfiança, dificuldades de se concentrar, de tomar decisões ou de enfrentar responsabilidade e sentimentos de pessimismo e desespero. Dumas (2011), também, elenca que o humor e as reflexões depressivas como os sentimentos de não ser amado e de não ter amigos, são mais comuns, além da desobediência, a irritabilidade, as crises de cólera, a falta de autoestima e as dificuldades de concentração. Em contrapartida, manifestações como de retraimento social, ausência de interesse, de prazer e sintomas vegetativos, são mais incomuns.

Aproximadamente 21% dos adolescentes com depressão evoluem para transtorno bipolar e, os casos de início precoce, geralmente, sugerem herança genética (LEWIS, 1995).

O transtorno bipolar é caracterizado pela presença de episódios de mania, que é marcado por um humor atipicamente elevado e que vem seguido de sintomas como: intensa elevação da energia; diminuição da carência de sono; fala incessante, dentre outros. Em casos mais graves, os episódios maníacos interferem nas obrigações escolares da criança ou do adolescente (DUMAS, 2011).

Dumas (2011), aponta que o discurso de pessoas que apresentam episódios de mania não apresenta organização e riqueza de detalhes, porque seus pensamentos se constroem de forma desconexa. Através desse aspecto, é possível fazer uma distinção de uma pessoa que está experienciando um episódio de transtorno maníaco de outra que está apenas feliz e com vontade de expressar sua alegria. Outra característica do transtorno é que, devido a esse frenesi de ideias que não cessa, os jovens não conseguem realizar grandes coisas. As suas ações são mais voltadas para atividades que lhes sejam concomitantemente prazerosas e arriscadas, no entanto negam tais perigos.

Em geral, os casos de mania vêm acompanhados de um comportamento de enorme autoestima ou de ideias de grandeza. Essa autoestima é marcada por um excesso de confiança e, às vezes, é possível perceber através dos seus exagerados projetos. Pode estar associada, também, a alucinações ou ideias delirantes, do mesmo modo que no transtorno depressivo maior (DUMAS, 2011).

Devido às peculiaridades do desenvolvimento da criança e do adolescente, fechar um diagnóstico de transtorno bipolar antes da metade da adolescência é complexo. Apesar da mania se manifestar de forma relativamente igual nas crianças e nos adolescentes, ela pode ser muito diferente no modo e com que frequência vários sintomas se expressarão (DUMAS, 2011).

3. MÉTODO

Considerando a depressão entre crianças e adolescentes como uma questão de saúde pública, com relevância econômica e social, o objetivo deste estudo bibliográfico foi discutir a epidemiologia e as questões de prevenção e cuidado clínico relativas a este fenômeno. Para tanto, foram consultadas as bases de dados da Biblioteca Virtual: Scielo, Pubmed, PsycINFO e Google acadêmico. No processo de busca utilizou-se o operador booleano and, na associação dos seguintes descri­tores: depressão em crianças, depressão em adolescentes e depressão infantil.

Foram encontrados 284 artigos no período de 2000 a 2016. Em seguida, foi realizada a leitura dos textos, avaliando-os para inclusão ou exclusão. Os critérios de inclusão foram: 1) estudos em português; 2) estudos que estivessem dentro do período de pesquisa estipulado; 3) estudos que abordassem o tema do presente estudo.

Foram excluídos os artigos com pelo menos uma das se­guintes características: 1) relatos de experiências, estudos avaliando propriedades psicométricas de instrumentos, teses, disserta­ções e/ou pesquisas relativas à depressão na infância e adolescência; 2) estudos que estivessem em inglês e espanhol.

Após a leitura dos resumos e aplicação dos cri­térios de inclusão e exclusão, bem como descarte dos re­sumos duplicados, restaram 7 trabalhos para serem lidos na íntegra. Por fim, embora alguns estudos abordem no mesmo trabalho a interlocução entre várias temáticas, buscou-se classificar os artigos em eixos temáticos conforme o objetivo principal desta pesquisa.

Os textos selecionados foram organizados, inicialmente, conforme: o título, o nome do(s) autor(es), o periódico, o ano de publicação, a descrição do tema de pesquisa e os principais resultados. Em seguida, as contribuições do artigo no debate sobre depressão infanto-juvenil foram identificadas e classificadas em eixos temáticos, a partir da leitura das publicações. Por apresentarem intersecções entre de temas de pesquisa, os artigos foram classificados e discutidos em mais de um eixo temático.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 APRESENTAÇÃO GRÁFICA DOS RESULTADOS

Foram identificados 7 estudos, a partir do ano 2000. Organizou-se os trabalhos conforme: o título, o nome do(s) autor(es), o periódico, o ano de publicação, a descrição do tema de pesquisa e os principais resultados (vide tabela 1). A partir da leitura dessas publicações selecionadas, três eixos temáticos foram construídos: (1) 1. Caracterização dos transtornos afetivos na infância e adolescência, (2) 2. Quadro Clínico e Diagnóstico, (3) Fatores de risco e comportamento suicida (vide tabela 2).

Tabela 1: Trabalhos tabulados conforme o ano de publicação, o (os) autor (es), o título e o tipo de publicação

Artigo Autores Periódico Ano Descrição do tema Principais resultados encontrados
Tentativa de suicídio na adolescência: avaliação do efeito de género na depressão e personalidade. LOPES, Paula; BARREIRA, David Pires e PIRES, Ana Matos. Psicologia, Saúde e Doenças 2001 O artigo aborda sobre aspectos clínicos relativos à tentativa de suicídio na adolescência. Os resultados indicam a existência de um efeito de género quer na expressão clínica do quadro depressivo, quer na presença de traços patológicos da personalidade.
Associação entre trauma por perda na infância e depressão na vida adulta. ZAVASCHI, Maria Lucrécia Scherer; SATLER, Fabíola; POESTER, Daniela; VARGAS, Cláudia Ferrão; PIAZENSKI, Rafael; ROHDE, Luís Augusto Paim e EIZIRIK, Cláudio Laks. Revista Brasileira de Psiquiatria 2002 O artigo faz uma revisão da literatura dos últimos dez anos, considerando os fatores associados à depressão, em especial aos relacionados a traumas na infância. Foi possível perceber que na maioria dos estudos analisados encontrou-se uma associação expressiva entre trauma por perdas na infância e depressão na vida adulta.
Aspectos clínicos da depressão em crianças e adolescentes. BAHLS, Saint-Clair. Jornal de Pediatria. 2002 O artigo apresenta uma revisão sobre o quadro clínico, a evolução, a comorbidade e o comportamento suicida na depressão em crianças e adolescentes. A depressão maior em crianças e adolescentes representa atualmente um grave problema de saúde pública, devido ao seu alto grau de morbidade e mortalidade, representando um sério problema de saúde pública.
Depressão infantil: uma contribuição para a prática educacional. CRUVINEL, Miriam e BORUCHOVITCH, Evely. Psicologia Escolar Educacional 2003 O artigo propõe realizar uma revisão da literatura acerca da depressão infantil e sua relação com o desempenho escolar de crianças. A necessidade da realização de pesquisas para proporcionar o aumento no conhecimento acerca da incidência da depressão infantil no Brasil e principalmente que dados provenientes de estudos mais sistemáticos sejam traduzidos em informações úteis para a prática educacional e abordagem do transtorno.
Depressão e doença bipolar na infância e adolescência. LIMA, Dênio Jornal de Pediatria 2004 Este artigo aborda a história, conceitos, categorias diagnósticas, epidemiologia, fatores genéticos e neurobiológicos, assim como fatores predisponentes e modalidades de tratamento da depressão e doença bipolar na infância e adolescência. A depressão e a doença bipolar são transtornos de quadro clínico expressivo, de difícil diagnóstico, que, uma vez reconhecidos e tratados, irão aliviar o sofrimento de crianças e adolescentes.
Depressão na infância: um estudo exploratório. CALDERARO, Rosana Simão dos Santos; CARVALHO, Cristina Vilela de. Psicologia Estudo Maringá 2005 O artigo procura estudar as manifestações depressivas em crianças. Todas as crianças da amostra apresentavam quadros depressivos significativos, com intenso sofrimento psíquico e necessidade de encaminhamento. Demonstrando a importância de que os cuidadores e familiares estejam alertas para os sintomas, para se obter o diagnóstico precoce.
Prevalência de transtornos mentais entre crianças e adolescentes e fatores associados: uma revisão sistemática. THIENGO, Daianna Lima; CAVALCANTE, Maria Tavares e LOVISI, Giovanni Marcos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria 2014 O artigo realiza uma revisão sistemática da literatura para identificar os transtornos mais prevalentes na infância e adolescência e possíveis fatores associados. Conhecer os transtornos mentais e seus potenciais fatores de risco para as crianças e adolescentes trazem a possibilidade de desenvolvimento de programas de intervenção focados em prevenir ou atenuar os efeitos destes.

Fonte: autor.

Tabela 2: Eixos temáticos Depressão em crianças e adolescentes

Eixos temáticos Número de publicações Autoria e ano
1. Caracterização da depressão na infância e adolescência 4 Bahls (2002); Lima (2004); Cruvinel e Boruchovitch (2003); Calderaro e Carvalho (2005);
2. Quadro Clínico e Diagnóstico

 

3 Bahls (2002); Lima (2004); Calderaro e Carvalho (2005);
3. Fatores de risco e comportamento suicida 5 Bahls (2002); Lima (2004); Calderaro e Carvalho (2005); Thiengo; Cavalcante e Lovisi (2014); Lopes; Barreira e Pires (2001).

Fonte: autor. 

4.2 DISCUSSÃO DOS EIXOS TEMÁTICOS

Nesta parte da pesquisa, discute-se as principais contribuições dos artigos encontrados. A discussão foi organizada conforme os eixos temáticos construídos a partir da análise dos principais resultados apresentados nos artigos selecionados. Vale ressaltar, também, que alguns estudos foram discutidos em mais de um eixo temático por apresentarem intersecções e multiplicidade em seus caminhos de pesquisa. 

4.2.1 CARACTERIZAÇÃO DA DEPRESSÃO NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA 

Para Calderaro e Carvalho (2005), existe uma sobreposição da psicopatologia do adulto sobre as questões infanto-juvenis e isto faz com que o processo de desenvolvimento e diagnóstico dos transtornos em crianças e adolescentes, muitas vezes, seja visto como um reflexo das questões apresentadas em adultos. Para os autores, deve-se observar que crianças e adolescentes também passam por momentos de angústias, pois também estão sujeitas a fatores que podem abalar o estado emocional e psicológico, como: frustrações e pressões. Entretanto, deve-se levar em consideração que elas apresentam uma menor bagagem para lidarem com esses fatores.

Entendendo esses conceitos, salienta-se que as crianças e adolescentes com sintomas sugestivos deste transtorno não podem ser negligenciadas observando apenas a idade ou serem interpretadas como eventos que não possuem gravidade. Já que este pode afetar o processo de desenvolvimento geral dos indivíduos, sendo necessário, portanto, um olhar clínico preparado por parte dos profissionais de saúde, em especial os que são atuantes no campo da saúde mental (CRUVINEL e BORUCHOVITCH, 2003).

Bahls (2002) aponta que a depressão maior em crianças e adolescentes representa, atualmente, um grave problema de saúde pública, devido ao seu alto grau de morbidade e mortalidade, representando um sério problema de saúde pública. Para a autora, ocorre a subnotificação desses casos nos serviços de saúde, uma vez que o quadro de depressão na criança, na maioria das vezes, é expresso por sintomas não-depressivos.

Lima (2004) acredita que, dentre os transtornos da infância e adolescência, a depressão e o transtorno bipolar são síndromes de quadro clínico expressivo e de difícil diagnóstico. No entanto, uma vez reconhecidos e tratados, irão aliviar o sofrimento dos jovens acometidos. 

4.2.2 QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO

Calderaro e Carvalho (2005), considera que a depressão infantil tem recebido destaque por muitos profissionais que trabalham com o público infantil na clínica. Apesar disso, ainda é um desafio reconhecer tal enfermidade, haja vista que a sintomatologia do transtorno tem peculiaridades em relação ao que se apresenta em indivíduos adultos, o que resulta em dificuldade de fechar o diagnóstico.

Segundo Lima (2004), é necessário haver uma distinção do que é tristeza e do que é depressão, pois uma pessoa depressiva pode apresentar a infelicidade como um componente comum, porém o contrário não é verdadeiro. Um indivíduo que está vivenciando uma situação de infelicidade ou tristeza não é necessariamente um indivíduo depressivo.

Segundo o mesmo autor, a depressão pode, também, ser distinguida como um sintoma, como uma síndrome ou transtorno. No caso da síndrome ou transtorno, é apresentado um quadro onde vários sintomas surgem juntos, sendo a tristeza um desses elementos. Além dela, pode haver desinteresse nas atividades, sentimento de não ter valor, alterações no sono, anorexia ou hiperfagia, dentre outros.

O diagnóstico é atravessado por dificuldades substanciais, porque o quadro depressivo é acompanhado por comorbidades e os sintomas da depressão podem se manifestar de forma disfarçada, o que complica a identificação. Nesse cenário, os sintomas mais frequentes são: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, baixa autoestima, tristeza, medo, distúrbios do sono e baixo rendimento escolar. Para além disso, existe um fator que atrapalha o diagnóstico que é a dificuldade das crianças e adolescentes em se expressar, identificando e nomeando o que sente de forma ampla e clara (CALDERARO e CARVALHO, 2005).

Comumente, quando os pais recorrem ao auxílio do médico pediatra, são por problemas que ainda não tiveram a identificação de relação com o quadro depressivo. São queixas de natureza orgânica, como: cefaléia, abdominalgia, diarreia. Aparecem, também, quadros de polifagia, inapetência, insônia, irritabilidade, agressividade ou passividade exagerada, choro sem razão aparente, dificuldades da cognição, comportamento antissocial, indisciplina, ideias ou comportamento suicidas (CALDERARO e CARVALHO, 2005).

É possível evidenciar a depressão em crianças quando notamos que o conteúdo das brincadeiras, desejos, sonhos, fantasias e jogos são, em sua grande maioria, associados a conteúdos negativos, como: “fracasso, frustração, ferimentos, perdas ou abandonos, culpa, excesso de autocríticas e morte” (BAHLS, 2002, p. 361).

Bahls (2002), afirma que os sintomas que são mais identificados na clínica são o humor deprimido, alterações do sono e dificuldades no pensamento (problemas em se concentrar e pensamentos negativistas), sendo os mais persistentes de humor deprimido e anedonia.

A mesma autora reitera ainda a orientação aos clínicos, de que não devem ser enxergados como normal:

[…] estados de humor irritável ou depressivo duradouro e/ou excessivos, os períodos prolongados de isolamento ou hostilidade com família e amigos, o afastamento da escola ou queda importante no rendimento escolar, o afastamento de atividades grupais e comportamentos como abuso de substâncias (álcool e drogas), violência física, atividade sexual imprudente e fugas de casas (BAHLS, 2002, p. 362).

O próprio adolescente, de maneira geral, costuma ser o melhor meio de obter as informações adequadas em relação ao seu sofrimento depressivo. Já os amigos e colegas, que são as pessoas mais próximas do seu círculo social, são os que, com maior facilidade, irão reparar nas modificações ocasionadas pela enfermidade. Vários autores salientaram que pais e professores em vários casos não tinham percebido alterações do quadro depressivo em seus filhos e alunos adolescentes (BAHLS, 2002). 

4.2.3 FATORES DE RISCO E COMPORTAMENTO SUICIDA 

Um ambiente familiar propício é importante e imprescindível para que a criança tenha condições de desenvolver suas faculdades emocionais de forma saudável. Esse ambiente deve ser capaz de prover, de forma adequada, às suas mínimas demandas, dentre elas: as de acolhimento e cuidado. Quando essas condições não são disponibilizadas, a criança utiliza-se de instrumentos de defesa, o que pode comprometer o desenvolvimento ideal da criança (CALDERARO e CARVALHO, 2005).

Segundo um estudo sistematizado realizado por Thiengo; Cavalcante e Lovisi (2014), os fatores de risco que demonstraram maior recorrência, associados aos transtornos mentais nessa população, foram: fatores biológicos, relacionados ao sexo; fatores genéticos, relacionados ao histórico familiar com transtorno mental; fatores psicossociais, como: baixa autoestima e/ou resiliência (associados apenas em dois estudos); fatores ambientais, como: presenciar violência familiar e/ou na comunidade; e configuração familiar, ou seja, se mora somente com um dos pais ou sozinho.

Os mesmos autores apontam que, atualmente, quatro a cinco crianças e adolescentes no mundo terão algum tipo de transtorno mental. A literatura demonstra, também, que possíveis causas de transtornos psiquiátricos nessa faixa etária estão agrupadas em fatores biológicos, em decorrência de disfunções do sistema nervoso central.

Thiengo; Cavalcante e Lovisi (2014) elucidam que o transtorno mental está associado a manifestações genéticas, isto é, para que o transtorno se expresse, é necessária a interação de um conjunto de genes. Além disso, a influência do meio é de fundamental importância na expressão gênica, podendo apresentar-se como desencadeador ou como fator de proteção.

Segundo Calderaro e Carvalho (2005) é importante observar a vulnerabilidade genética na etiologia da depressão. Manifestações clínicas da enfermidade podem ser observadas nos meses iniciais de vida da criança. E filhos de pais que sofrem com a depressão tem tendência a desenvolver a enfermidade, bem como outros transtornos mentais. Sendo assim, evidencia-se o componente genético como um fator de risco para o surgimento da depressão em crianças e adolescentes. O autor, também, afirma que para a melhoria da saúde mental dos filhos, é necessário que os pais estejam sendo acompanhados e se esforcem para que haja uma mudança no padrão familiar.

Thiengo; Cavalcante e Lovisi (2014) apresentam que crianças e adolescentes que estão expostas à violência doméstica possuem 94% de chance de desenvolver depressão. Outros fatores que aumentam a chance de ocorrência da depressão na infância e adolescência são: pai ou mãe deprimidos; crianças e adolescentes que sofrem violência familiar (as meninas têm 3,07 vezes mais chance de desenvolver depressão, enquanto os meninos têm 3,8 vezes mais chances); crianças e adolescentes com baixa autoestima; baixo peso ao nascer; mãe menor de 18 anos no momento do parto; morar em bairro violento; e não morar com os pais.

Segundo Abramovitch; Aragão (2011), na infância, as taxas de depressão são um pouco maiores no sexo masculino, já na fase da adolescência, as meninas têm maior predomínio. Uma possível explicação para este fenômeno, são a mudança e desenvolvimento dos hormônios sexuais.

Segundo Zavaschi et al. (2002) estudos afirmam que traumas que aconteceram no período da infância, como: falecimento de entes queridos, divórcios dos pais, entre outros fatores, podem se caracterizar como preponderantes para o desenvolvimento da depressão.

Bahls (2002), refere que, de forma geral, as manifestações clínicas da depressão no adolescente costumam ser semelhantes às do adulto. Todavia, existe um aspecto que os diferencia, os adolescentes não passam pelo processo de tristeza, geralmente, o aspecto mais marcante é de irritabilidade. Apresentando: perda de energia, apatia, desinteresse, sentimento de culpa e alterações no sono.

Se tratando do comportamento suicida, Bahls (2002), afirma que este, também, requer atenção dos profissionais de saúde, uma vez que distintas psicopatologias possuem associação com a tentativa suicida.

O suicídio ocorre, em maior frequência, no público adolescente. A sua tentativa está associada a um período de depressão que pode durar anos, além dos problemas gerados pelo transtorno como sintomas psicóticos ou aspectos sociofamiliares, como: depressão ou demais psicopatologias em parentes de primeiro grau (DUMAS, 2011).

O índice de suicídios se apresenta maior em jovens depressivos do que em adultos depressivos. Esse dado corrobora para o entendimento de que a fase da adolescência é considerada como um fator de risco, principalmente se o jovem estiver em um quadro depressivo (BAHLS, 2002).

De acordo com Lopes; Barreira e Pires (2001), grande número dos adolescentes que tenta suicídio, é do sexo feminino, na faixa etária média de 17 anos, reside com os familiares e estuda. A preferência principal do método suicida é por intoxicação via medicamentosa e, na maior parte dos episódios, um evento, como conflitos com a família, frustração escolar, entre outros, disparou o comportamento autodestrutivo.

Os autores, ainda, afirmam que estes adolescentes podem ser classificados em 3 tipos: o primeiro, com imaginação suicida; o segundo, com tentativa de suicídio; e o terceiro, com múltiplas tentativas de suicídio. Essas tentativas acontecem, na maioria das vezes, no período em que a enfermidade se conservou sem tratamento, pois um indivíduo com histórico de tentativa de suicídio prévia, bem como com problemas na solução de dificuldades e déficit nos mecanismos, pode vir a ser um jovem com múltiplas tentativas de suicídio ou um suicida, caso não sobrevenha as intervenções apropriadas (LOPES; BARREIRA e PIRES, 2001).

Bahls (2002) afirma que na fase infantil não é comum que ocorram ideações e tentativas de suicídio. No entanto, segundo a autora, alguns estudos referenciam que o comportamento autodestrutivo, como: bater a cabeça severa e repetidamente, morder-se, engolir objetos perigosos e a tendência a se envolver em acidentes, pode ser interpretado como uma tendência suicida em crianças que ainda não expressam suas emoções de forma verbal. Todavia, a ideação suicida na fase infantil é classificada de raros episódios, podendo acontecer em situações atípicas.

A autora destaca, também, a existência de um grande risco de reincidência do transtorno depressivo por crianças e adolescentes que vivenciaram este quadro. Essa reincidência pode se dar até a fase adulta, o que representa uma grande vulnerabilidade para o surgimento de outros transtornos depressivos.

Crianças e adolescentes com depressão em geral apresentam altas taxas de comorbidade relacionadas a outros transtornos psiquiátricos quando comparadas a adultos deprimidos. Os transtornos que mais aparecem em comorbidade nas crianças são: os transtornos de ansiedade, o transtorno de conduta, o transtorno desafiador opositivo e o transtorno de déficit de atenção. Em adolescentes, comumente, aparecem: os transtornos supracitados com o acréscimo associados a substâncias e os transtornos alimentares (BAHLS, 2002).

Dumas (2011) afirma que, em geral, os transtornos de ansiedade estão associados ao transtorno de humor. Alguns estudos indicam que adolescentes deprimidos apresentam também “os sintomas do transtorno de ansiedade, como a ansiedade de separação, a ansiedade generalizada, o transtorno de pânico, as fobias específicas, a fobia social e o transtorno de personalidade obsessivo compulsiva” (DUMAS, 2011, p. 357).

Dumas (2011) elucida que os transtornos de humor também possuem associação com uma série de dificuldades comportamentais, como: de agressividade, de hiperatividade e impulsividade em níveis elevados. Salienta-se que, os transtornos de comportamento, não aparentam ser uma manifestação secundária e transitória da depressão em certos jovens. Não se sabe, portanto, o quanto tais transtornos de comportamento podem interferir no desenvolvimento do episódio depressivo, no entanto, há a possibilidade de que o transtorno de comportamento seja acompanhado do transtorno de humor, consequência dos sintomas depressivos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através do presente estudo, foi possível identificar a escassez de informações na literatura acerca da depressão no período da infância e da adolescência, bem como o número incipiente de artigos e pesquisas. Nesse contexto, o presente artigo visou responder sobre os aspectos epidemiológicos, as questões de prevenção e cuidado clínico relacionados a este transtorno. Tendo como objetivo realizar uma revisão de literatura a respeito do tema, discutindo a epidemiologia e as questões de prevenção e cuidado clínico relativas a este fenômeno com a finalidade de proporcionar o acesso a dados de publicações, expandindo, assim, a compreensão dos aspectos envolvidos com o transtorno.

Por meio dos estudos, constatou-se que a depressão é um grave transtorno, capaz de gerar danos de diversas características para a criança e o adolescente, como: baixa autoestima, tristeza, medo, distúrbios do sono e baixo rendimento escolar. No que diz respeito aos adolescentes, é imprescindível que a família, cuidadores e professores observem os comportamentos e expressões, buscando identificar possíveis indícios de comportamento.

Por se tratar de uma fase importante para o desenvolvimento do ser humano, a depressão no período infantil poderá trazer prejuízos expressivos para o indivíduo, deixando sequelas até a idade adulta.

Destaca-se, também, a necessidade de observação constante dos familiares e a não negligencia dos sintomas, pois os pais, movidos pelo ideário de que o período infantil é desprovido de preocupações, frustrações e traumas, tendem, por vezes, involuntariamente, a negligenciar os sintomas do transtorno depressivo, acreditando que estes fazem parte da “birra de criança”, de uma tristeza passageira, ou até mesmo da personalidade. Em relação ao adolescente, existem as mudanças hormonais intensas que estão acontecendo no seu corpo, o que implica, muitas vezes, em alterações no seu humor. Além das pressões sociais que começam a sobreviver. Essas circunstâncias, em geral, causam certo tipo de sofrimento no adolescente. No entanto, essa aflição advinda de todas essas mudanças deve ser diferenciada do quadro depressivo, que possuem sintomas mais específicos, conforme evidenciado no presente artigo.

Verificamos o papel fundamental de uma equipe de saúde mental capacitada para a compreensão dos aspectos clínicos e psicossociais do transtorno, além de um olhar abrangente, de empatia e preparo para realizar a escuta qualificada a fim de ouvir as demandas da criança e do adolescente, pois entendê-las é essencial para que a terapêutica seja traçada de maneira eficaz, buscando a melhoria da qualidade de vida e bem-estar do indivíduo.

Examinar para além do indivíduo em si, é tentar compreender as contingências sociais com as quais ele se relaciona. Essa diligência, por parte do profissional de saúde que acompanha a criança ou ao adolescente na experiência do transtorno depressivo, poderá exibir ferramentas mais compatíveis para cada indivíduo, visto que ele não pode ser dissociado do meio, faz parte e interage com ele. A partir disso, é possível identificar possíveis fatores que funcionam como “gatilhos” para o surgimento da depressão e de que modo ela se sente diante deles, bem como a gravidade do transtorno e a sua duração, de forma a estabelecer a terapêutica apropriada.

Em razão de existir uma carência em serviços de saúde mental especializados para o público infantil e adolescente, é importante ponderar formas de suprir essa deficiência, criando equipamentos sociais de amparo para esses públicos.

Considerando o exposto acima, observa-se a relevância de trabalhos que tenham por objetivo investigar temas que foram discutidos no presente artigo, dado que tais discussões contribuem para a ampliação do conhecimento acerca da depressão infância e adolescência, ao passo que favorece a promoção da clínica.

Por fim, destaca-se que é relevante a elaboração de mais estudos acerca de instrumentos e equipamentos sociais voltados para o amparo de crianças e adolescentes com transtornos afetivos, bem como sejam realizadas pesquisas que indiquem a situação atual da política de atenção em saúde mental para esse público e norteiam as ações do Estado e da sociedade.

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[1] Bacharel em Saúde, Graduando em Medicina. ORCID: 0000-0001-8127-3761.

Enviado: Julho, 2021.

Aprovado: Setembro, 2022.

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Rodrigo de Santana Geraldo Braga

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