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Compulsão sexual: a AIDS e os danos psicológicos e sociais na vida do homem

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

MONTE, Jaime Bezerra do [1]

MONTE, Jaime Bezerra do. Compulsão sexual: a AIDS e os danos psicológicos e sociais na vida do homem. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 04, Vol. 06, pp. 167-185. Abril de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/danos-psicologicos

RESUMO

O presente trabalho trata de um estudo acerca da saúde e do desenvolvimento biopsicossocial do homem. A investigação procurou responder a seguinte questão: quais os danos da compulsão sexual no cotidiano do sujeito do sexo masculino? Para responder à questão de pesquisa, o estudo teve como objetivo demonstrar os danos causados pela compulsão sexual na vida do homem. O método utilizado para a realização desse estudo foi a pesquisa bibliográfica e documental. Este artigo trouxe as características psicológicas, comportamentais e sociais da compulsão sexual. No percurso do estudo, foi evidenciado o sofrimento psíquico do homem e as perdas sociais ocasionadas pela doença. Dentre as doenças sexualmente transmissíveis, a AIDS tornou-se foco de discussão, neste trabalho, por se tratar de uma doença crônica, cuja terapia apresenta efeitos secundários que afetam todas as esferas da vida do sujeito. O artigo apresenta dados ambulatoriais sobre a AIDS que ilustram o comportamento de risco e os danos que a compulsão sexual poderá causar na vida do sujeito. Ao final, diferencia-se a compulsão sexual do comportamento de interesse sexual comum no cotidiano do sujeito.

Palavras-chave: Compulsão sexual, Danos, Saúde.

1. INTRODUÇÃO

Esse trabalho apresenta estudos preliminares e dados iniciais de uma pesquisa sobre a saúde do homem. A pesquisa contempla aspectos da saúde e da sexualidade masculina no contexto social. Ao longo do presente artigo, discorre-se acerca da compulsão sexual e se detém nas características da AIDS como patologia crônica. Neste trabalho, a AIDS é vista como um dano permanente na vida do sujeito, resultando do comportamento sexual de risco ou da compulsão sexual masculina.

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica e documental. De acordo com Gil (2017), a pesquisa bibliográfica é aquela em que o pesquisador faz uma revisão bibliográfica com vistas a refinar conceitos. Para Mezan (1998), a pesquisa bibliográfica tem como objetivo verificar a coerência e a coesão de uma dada teoria ou fenômeno.

Para Gil (2017), a pesquisa documental caracteriza-se como aquela em que o pesquisador tem acesso a registros escritos e documentos oficiais sobre o tema estudado. Esse tipo de estudo permite a exploração do fenômeno pesquisado e possibilita verificar a origem e o desenvolvimento do objeto pesquisado ao longo de um período histórico.

A partir do método de estudo bibliográfico e documental de pesquisa, o presente estudo buscou-se responder a seguinte questão: quais os danos da compulsão sexual no cotidiano do sujeito do sexo masculino?

O artigo faz uma relação entre a compulsão sexual e os danos na vida do homem relacionado às doenças sexualmente transmissíveis, especialmente a AIDS, que se caracteriza como uma doença crônica cujo tratamento é permanente. O tratamento da AIDS pode acarretar efeitos fisiológicos, psicológicos e sociais ao longo da vida do sujeito, o que justifica o interesse e a realização de estudos acerca do comportamento sexual do homem.

O principal objetivo da pesquisa foi demonstrar os danos causados, pela compulsão sexual na vida do homem. Para alcançar o objetivo de pesquisa, foram apresentados alguns aspectos da saúde do homem e da constituição da masculinidade no contexto histórico. Nesse trabalho, foram descritas as dimensões do diagnóstico da compulsão sexual e se apresentam as perspectivas biopsicológicas dos danos do comportamento sexual compulsivo.

A partir da necessidade de evidenciar dados objetivos, acerca dos danos do comportamento sexual patológico na vida do homem, recorreu-se a dados conceituais e ambulatoriais sobre a AIDS. O foco do trabalho foi direcionado, intencionalmente, para AIDS por se tratar de uma síndrome que causa danos permanentes na vida do sujeito e por se configurar como uma patologia crônica, cujo tratamento apresenta efeitos secundários no organismo da pessoa soropositiva.

Justifica-se a realização desta pesquisa frente à necessidade de ampliar a discussão sobre a saúde do homem, uma vez que o homem, enquanto categoria social, foi esquecido pelas políticas públicas de saúde, como apontam os dados do Ministério da Saúde (2013). Justifica-se, ainda, a realização do presente estudo devido à possibilidade de evidenciar a urgência de ações preventivas de saúde masculina, em todas as esferas sociais, de maneira a promover mudanças no comportamento masculino em relação à saúde integral da categoria.

2. COMPORTAMENTO MASCULINO E SAÚDE

De acordo com Gomes (2011), os estudos sobre masculinidade relacionados à prática profissional na clínica psicológica, junto à clínica médica, revelam a dificuldade do homem em buscar ações preventivas de saúde, como fazer exames clínicos periódicos com vistas ao diagnóstico precoce de patologias que podem ser tratadas, com menos sofrimento, se diagnosticados precocemente. Algumas doenças podem se tornar graves em virtude da falta de hábito do homem em realizar ações de prevenção relacionadas à saúde.

O comportamento masculino de descuido da própria saúde tem sua gênese na história da masculinidade. Ao longo dos séculos, a masculinidade organiza-se no psiquismo a partir dos arquétipos de virilidade, força e poder; construindo a ideia fantasiosa de invulnerabilidade (JUNG, 1986). Por outro lado, o homem, independente da sua orientação sexual, tem sido uma categoria social esquecida no sentido de se olhar para o ele como um sujeito que precisa de cuidado clínico e psicológico. De acordo com o Ministério da Saúde (2013), o Sistema Único de Saúde foi criado para atender inicialmente a criança e a mulher e, somente em 2009, criou-se o primeiro serviço de atendimento a homens. A demora institucional decorreu da crença na invulnerabilidade masculina, o que corrobora com visão de masculinidade no contexto social.

A compreensão social da masculinidade passa pela apropriação dos conceitos de virilidade, força e poder cristalizados na cultura que, ao longo do tempo, adquiriram o valor de verdade. A virilidade é interpretada como apetite sexual, a força adquire o sentido de resistência física e psicológica às adversidades da vida. O poder é entendido com a capacidade do sujeito de ser autossuficiente para prover as condições materiais de sua vida e de sua família, além de manter o status social, saindo vencedor em situações de disputa.

3. A MASCULINIDADE E O CONTEXTO SOCIOCULTURAL

No cotidiano, é possível observar, no meio social masculino, que a gripe se cura com uma bebida alcoólica destilada, crenças como essas e outras contornam o desenho da masculinidade na maioria dos contextos sociais brasileiros. A masculinidade é resultado do processo educativo do sujeito ao longo do seu desenvolvimento biopsicossocial. Do ponto de vista da psicologia de Vigotsky (2007), o psiquismo do homem é resultado das apropriações que ele faz ao longo do seu desenvolvimento, do nascimento à vida adulta e, dessa forma, a autoimagem da sua masculinidade é resultado das aprendizagens sociais e culturais do contexto em que ele se desenvolve.

Segundo Monte (2008), a apropriação é o ato de internalização dos símbolos e significados mediados socialmente. No processo de apropriação, ocorre a mobilização dos processos psicológicos (sensação, percepção, atenção, memória, pensamento e linguagem) que, em uma relação dinâmica e interdependente, configuram a imagem carregada de significados culturais, que é internalizada pelo sujeito.

Os signos e significados sociais apropriados pelo homem configuram uma malha simbólica que forma o seu psiquismo. Os símbolos sociais apropriados adquirem o valor de sentido no psiquismo masculino e configuram a particularidade e singularidade de cada sujeito. A apropriação psicológica dos signos e significados culturais leva o sujeito à objetivação do conteúdo apropriado (MONTE, 2008).

Objetivar significa que o sujeito age no meio social segundo as apropriações realizadas ao longo da sua vida. A apropriação dos padrões sociais de masculinidade perpetua ações equivocadas compreendidas como pertinentes e naturais do universo masculino. A imagem que o homem faz de si coincide com a visão de senso comum, acerca da masculinidade no contexto em que ele vive (MONTE, 2008).

Dito de outra forma, o homem conserva uma imagem de si ligada à ideia de uma masculinidade comum a todos os homens e todas e quaisquer manifestações diferentes do padrão de masculinidade são compreendidas como problema (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2013).  No imaginário social, ser viril e másculo significa ser potente sexualmente o que leva o homem a pensar que várias relações sexuais em um dia são expressões da sua saúde e masculinidade.

Culturalmente, a busca pela saúde preventiva faz parte do universo feminino e não masculino. Essa visão aliada à dificuldade de lidar com o próprio corpo fora do domínio do trabalho, do esporte e do sexo leva a maioria dos homens a resistir à inclusão de um projeto pessoal de saúde preventiva em seu cotidiano. A maioria dos homens tem dificuldade em encarar patologias e psicopatologias ligadas ao corpo e à sexualidade.

Outro fator que contribui para a dificuldade do homem em compreender o processo psicopatológico de doença em curso é que a maioria das psicopatologias que o afeta está ligada, inicialmente, às atividades sociais de lazer como a dependência química do álcool, o tabagismo e as doenças sexuais. Dentre as doenças sexuais, destaca-se a compulsão sexual que, por sua própria natureza e sua relação com o conceito de masculinidade, dificulta o seu diagnóstico e a aceitação da doença por parte da maioria dos homens.

A dificuldade de aceitação da doença ocorre em virtude da ideia de invulnerabilidade cristalizada no psiquismo masculino. Dados do Ministério da Saúde (2009) demonstram que o Sistema Único de Saúde (SUS) realiza ações de saúde voltadas para a mulher e para a criança por considerar essas duas categorias como mais frágeis, reafirmando a visão acerca da invulnerabilidade masculina.

Pesquisas do Ministério da Saúde demonstram que a população masculina entre 20 e 59 anos em 2009 era de 52 milhões de homens em plena vida sexual e profissional. Os dados coletados em 2009 contribuíram para que o olhar da saúde se voltasse para o homem, tendo como consequência a criação de políticas públicas com vistas à prevenção e à redução de custos com doenças em homens. em busca de diminuir os custos e de evitar as doenças masculinas crônicas, foi criado, no SUS, um programa de atenção à saúde do homem.

O desafio do programa de atenção à saúde é desenvolver, no homem, a consciência da necessidade de se fazer atendimentos de saúde com maior frequência; assim, a ideia é desenvolver, no homem, o hábito de cuidar da sua saúde de forma preventiva. Para isso, é preciso vencer a resistência psicológica e comportamental do homem.

Os homens, de forma geral, habituaram-se a evitar o contato com os espaços da saúde, sejam os consultórios médicos, sejam os corredores das unidades de saúde pública, orgulhando-se da própria invulnerabilidade. Avessos à prevenção e ao autocuidado, é comum que protelem a procura de atendimento, permitindo que os casos se agravem e ocasionando, ao final, maiores problemas e despesas para si e para o sistema de saúde, que é obrigado a intervir nas fases mais avançadas das doenças (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009, p. 07).

No cotidiano da clínica psicológica, é possível observar que a procura pelo atendimento psicológico repete o padrão comportamental dos homens em relação à saúde em geral e, assim, há uma maior procura do atendimento psicológico por parte das mulheres e crianças.  A maioria dos homens que procura o atendimento psicológico, excluindo-se os psicólogos e os estudantes de psicologia, são aqueles que se encontram em estado de desorganização afetiva, devido à separação do casamento e a existência de dificuldades profissionais que interferem diretamente nas suas relações sociais.

Santos; Freitas e Rodrigues (2015) demonstram que há uma diferença marcante, em termos de porcentagem, na procura por atendimento psicológico por parte dos homens em relação à procura por parte de mulheres adultas, sendo que 8,2% dos homens estão entre 21 e 30 anos; entre 31 a 40 anos configuram 6,1%; na idade entre 41 a 50 anos, totalizam 5%; e entre 51 a 60 anos chegam também a 5%. As principais queixas por parte dos homens demonstram que 8,2% procuram o atendimento devido à ansiedade; 6,8% devido à depressão; 8,2% procuram o atendimento psicológico por conta de comportamentos agressivos e 5,5% buscam tratamento em quadros de estresse. Observa-se que os dados das pesquisas demonstram a psicopatologia em andamento e não a procura pelo atendimento preventivo por parte dos homens.

4. PARTICULARIDADES DA COMPULSÃO SEXUAL

No contexto social, uma das causas que determinam a separação de um casal é o comportamento sexual do homem. A vida sexual fora do casamento leva o homem a romper o contrato monogâmico de relacionamento e, gradativamente, aumenta a frequência da procura por relações sexuais.

O comportamento de busca sexual contínua não é percebido como doença, tido “como natural” pode esconder a compulsão sexual. É interessante observar que compulsão sexual pode ser mascarada pela tradição cultural que o homem para ser completo precisa ter várias relações sexuais em um curto espaço de tempo. A ideia é a de que o macho é um “predador” sexual de fêmeas e, por isso, precisa ter várias parceiras, acentuando a dificuldade do sujeito em perceber quando seu comportamento sexual é psicopatológico.

O comportamento psicopatológico, caracterizado como compulsão sexual, causa danos à vida do sujeito e gradativamente ele acumula perdas afetivas. A palavra compulsão indica o comportamento de sujeitos que, na busca pelo prazer, perdem o controle dos seus impulsos sexuais (NASCIMENTO, 2007).

A compulsão sexual pode ser conhecida como Hipersexualidade, Comportamento Sexual Compulsivo, Adição Sexual e Impulso Sexual Excessivo. Para Nascimento (2007), o que torna alguém dependente de sexo é a repetição da conduta de procura por prazer sexual em várias fontes como sites pornô, visitas a prostíbulos, sexo por telefone e acrescentam-se os aplicativos de encontros sexuais. A masturbação e a frequência de relações sexuais fazem parte da conduta de repetição infinita na busca pelo prazer sexual. A compulsão sexual se dá num processo evolutivo, a frequência por relações sexuais aumenta gradativamente até chegar no descontrole do impulso sexual.

A experiência de prazer sexual saudável leva o sujeito a procura por relações sexuais associadas ao afeto e a ganhos sociais, como a relação com amigos e com a(s) família do(a)(s) parceiro(a)(s). No caso do compulsivo, ele experimenta o prazer sexual e logo sua satisfação é saciada o que o leva, gradativamente, a procura por relações sexuais mais intensas, sua moral torna-se flexível e seus critérios de escolha de práticas sexuais e de parceiros (as) modificam a ponto de não ter consciência do risco que corre em relação à violência e à possibilidade de contrair doenças sexualmente transmissíveis (NASCIMENTO, 2007).

O sofrimento físico e psicológico evidencia-se quando o compulsivo, ao evitar ou diminuir a procura de sexo, sente mal-estar físico. O compulsivo sexual, ao perceber a possibilidade de parceria sexual, em um ambiente social em que ele se encontra impedido de manter a relação sexual, sente euforia e ansiedade que o desconcentra da atividade que está realizando (NASCIMENTO, 2007).

O compulsivo está sempre em estado de alerta para identificar a possibilidade de manter relações sexuais, independente do lugar que esteja. O estado de alerta o leva ao desconforto físico e psicológico. A compulsão sexual pode ser observada no comportamento do sujeito quanto ao tempo que gasta procurando sexo. O gasto de tempo e energia dedicado à procura e ao sexo aumenta gradativamente e logo o sujeito abandona as atividades sociais como trabalhar, estudar, ficar com os amigos e com a família. O indivíduo não tem controle do impulso sexual apesar de perceber os danos que seu comportamento sexual pode causar em sua vida. O fracasso ao controlar os impulsos sexuais é a maior evidência da dependência de sexo (NASCIMENTO, 2007).

Do ponto de vista da psicanálise, Piéron (1994) afirma que a compulsão é um sintoma do ego que procura aliviar a tensão, afastar-se da angústia e da culpa. É a conversão de carências afetivas, que tem sua origem ao longo do desenvolvimento do sujeito frente à atividade sexual. As carências afetivas levam à baixa autoestima e à sensação de que o sujeito deve praticar o ato sexual para afastar o sentimento de culpa, inconsciente, que o afligiria se deixasse de manter relações sexuais.

Fenichel (1991) afirma que o ego do sujeito não tem controle suficiente para se adaptar e, por isso, usa sua força orientadora de acordo com um comando intrapsicológico superior que desencadeia os impulsos sexuais. Essa ação do ego visa a preservar sua integridade para manter-se adaptado à realidade. O autor afirma que a compulsão é indissociável das ideias obsessivas. A persistência de ideias obsessivas traz consigo a representação da ideia impulsiva. A associação entre obsessão e compulsão faz com que o ego faça a formação reativa[2] em relação aos elementos psicológicos que o põe em perigo, que são expressos na conduta compulsiva do sujeito.

Para a Psicologia do Comportamento, a compulsão é produto de aprendizagens erradas e de crenças distorcidas que se estruturam na cognição ao longo da vida do sujeito. A compulsão sexual pode ter como causas a iniciação sexual precoce entre o período pré-puberal e a conclusão da puberdade; o abuso sexual na infância; problemas familiares relacionados às gratificações obtidas com os atos sexuais. Essas aprendizagens levam o organismo do sujeito a aumentar a resposta sexual em busca da gratificação (WOLPE, 1976).

Os comportamentos compulsivos ou aditivos são hábitos aprendidos e, quando executados várias vezes, são automatizados. Os comportamentos automatizados, seguidos de gratificação emocional, como o alívio da ansiedade e da angústia levam o sujeito a repetição. Dessa forma, o organismo do sujeito passa a responder a qualquer estímulo sexual (WOLPE, 1976).

Masters e Johnson (1979) descreveram a resposta sexual no início da década de 70. Para os autores, a resposta sexual é um ciclo que apresenta quatro fases, que iniciam pela “excitação”, que pode durar minutos ou horas, é o momento em que o organismo se prepara para a relação sexual; o “platô”, que se trata da excitação que se prolonga de 30 segundos a vários minutos; alcançando o “orgasmo”, descarga de imenso prazer; e a “resolução”, conhecida como fase de tumescência, é um estado subjetivo que produz o relaxamento. Desse modo, pode-se inferir que o comportamento sexual do compulsivo não percorre esse ciclo totalmente, levando o sujeito a continuar insatisfeito, de forma a produzir o comportamento de busca da satisfação sexual repetidamente.

A ideia de uma fase anterior à excitação chamada de fase do desejo só foi descrita por Kaplan (1999) no final da década de 70.  A “fase do desejo” é a estimulação biopsicológica que desperta a vontade de manter relações sexuais. Destarte, o despertar do desejo se dá por meio dos estímulos sensoriais como olfato, visão, audição e sensação. Nesse estágio, o sujeito faz o uso de instrumentos eróticos para alívio da tensão sexual. A descrição de Kaplan (1999) corrobora com a percepção cultural que o compulsivo expressa o seu desejo no uso das mídias como fonte de prazer. As mídias são usadas como meio para identificar parceiros sexuais com a finalidade de encontros sexuais.

5. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

Goodman (2008) apresenta indicadores provisórios para diagnóstico da compulsão sexual, baseados no Manual do Diagnóstico Estatístico dos Transtornos Mentais, quarta versão (DSM-4). A dependência de sexo pode ser conceituada como um padrão mal adaptado do comportamento sexual muito frequente e repetitivo por aproximadamente doze meses.

Para o diagnóstico são considerados critérios, a saber: 1) aumento da tolerância que leva às práticas sexuais mais frequentes para obter satisfação; 2) descontrole do comportamento sexual; 3) mais tempo gasto com o interesse e comportamento sexual; 4) sintomas de abstinência ao tentar controlar o comportamento sexual; 5) muito tempo gasto na busca por relações sexuais; 6) interferência nas relações sociais ou profissionais devido à constante procura por sexo; e 7) persistência no comportamento sexual mesmo após consequências negativas.

A compulsão sexual, quando diagnosticada, é tratada de forma multidisciplinar. No tratamento da compulsão sexual, é indicado a psicoterapia individual associada ao atendimento psiquiátrico para o uso de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos.

A psicoterapia tem como objetivo levar o sujeito ao reconhecimento da compulsão sexual como doença com vistas a controlá-la de maneira consciente. A medicalização do paciente tem como objetivo controlar e aliviar os sintomas da abstinência sexual. É recomendada, ao paciente, a frequência a grupos terapêuticos como apoio à construção do autocontrole.  A compulsão sexual afeta a vida do sujeito e tem como consequências negativas a aquisição de doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS, Sífilis e Hepatite Viral (CORDIOLI, 2014).

Cordioli (2014) afirma que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é indicada para o tratamento dos comportamentos compulsivos. A TCC tem como objetivo fazer o indivíduo perceber as aprendizagens errôneas e as crenças distorcidas que adquiriu ao longo da vida. Essa forma de tratamento psicoterápico tem se mostrado como a mais eficaz para lidar com as compulsões. Desse modo, a TCC faz uso de técnicas objetivas para extinguir o comportamento compulsivo.

As técnicas da TCC consistem na apresentação de estímulos que levam o indivíduo a resposta sexual, a finalidade é medir a resposta sexual do sujeito. A estimulação da resposta sexual tem como objetivo compreender a relação entre a resposta sexual e a obsessão, nesse processo, são verificados o aumento da ansiedade. O passo seguinte é verificar e selecionar os comportamentos compulsivos emitidos pelo sujeito para o alívio da ansiedade.

A TCC expõe o indivíduo a repetição de estímulos aversivos associados aos estímulos sexuais e aos comportamentos compulsivos. O objetivo da técnica é evitar que o paciente execute a compulsão. É um processo de novas aprendizagens por meio da habituação, no qual o tratamento busca levar o sujeito a percepção que os rituais e a repetição da conduta sexual não são necessários para reduzir a angústia e ansiedade (CORDIOLI, 2014).

6. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DA PESQUISA

Ao longo da pesquisa bibliográfica, observou-se que a compulsão sexual causa danos em várias esferas da vida do homem no cotidiano. Nascimento (2007) afirma que a busca compulsiva pelo prazer sexual afeta negativamente a vida do sujeito desde as relações sociais, o desempenho profissional e, principalmente, dificulta a formação e a manutenção de vínculos afetivos.

A dificuldade afetiva de formação de vínculos decorre da compreensão de que os parceiros e parceiras sexuais são somente objetos de prazer para a pessoa compulsiva. O compulsivo sexual desumaniza os parceiros sexuais. Para o compulsivo sexual, as pessoas são percebidas como instrumento de alívio das tensões físicas e psicológicas. O compulsivo entende que os vínculos afetivos são impeditivos da liberdade de buscar sexo a qualquer momento e, dessa forma, o compulsivo sexual pode optar por manter-se sozinho sem um relacionamento afetivo para dedicar-se à procura de relações sexuais.

Para Suzin (2016), há casos em que o compulsivo sexual nega sua compulsão e persiste no casamento. Nesse caso, as relações intrafamiliares diminuem ou perdem o valor em relação a sua compulsão. Inicia-se um jogo, em que se alterna a necessidade de esconder a vida sexual e a euforia de procurar sexo em qualquer lugar a qualquer hora em todo e qualquer ambiente social. As consequências dessa alternância de comportamento é o aparecimento de sintomas como ansiedade, irritabilidade que se agravam quando o sujeito não consegue a satisfação sexual.

Cabe lembrar que, de acordo com os dados documentais da presente pesquisa, as doenças sexualmente transmissíveis fatais para vida do sujeito, com alto risco de morte, são AIDS, Sífilis e Hepatite Viral.

Para Messina (2015), o comportamento compulsivo sexual leva à exposição de risco com o aumento da possibilidade de adquirir doenças sexuais, principalmente AIDS. A autora afirma que a contaminação pelo vírus da AIDS é a principal consequência negativa na vida do sujeito. A AIDS é uma doença crônica e o tratamento pode apresentar efeitos colaterais e danos psicológicos ao sujeito a partir do diagnóstico. O sujeito pode sentir vergonha, sentir-se rejeitado e alimentar fantasias de rejeição devido a AIDS com prejuízos em todas as esferas de sua vida.

Os dados documentais da pesquisa evidenciaram que a AIDS apresenta-se como dano permanente à vida do sujeito com comportamentos sexuais de descuido. A compulsão sexual leva o sujeito a diminuir as condutas preventivas. Ao buscar o alívio da tensão e da ansiedade na relação sexual, o sujeito gradativamente abandona os comportamentos de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

Dados do Ministério da Saúde (MS) demonstram que, no ano de 2020, foi oferecido tratamento pós exposição sexual, no Estado de Santa Catarina, para 5.517 pessoas ao longo do ano. Todos os homens que procuraram o programa de prevenção o fizeram por terem se relacionado sexualmente com parceiros e parceiras fora da relação estável como casamento, namoro ou união estável (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021).

Alvarez (2017) informa-nos que, de cada 15 homens que procuram a Profilaxia Pós-exposição Sexual de Risco (PEP), oito se declaram homossexuais, quatro se declaram bissexuais e três afirmam ser heterossexuais. Observa a autora que ocorrem variações nos números apresentados de acordo com o estado.

A contaminação pelo vírus da AIDS no adulto ocorre nas seguintes situações: por transfusão de sangue, quando o sujeito recebe sangue contaminado, quando mantém relações sexuais sem o uso do preservativo (incluem-se as pessoas que sofrem violência sexual) e por acidentes de trabalho como picadas por agulhas contaminadas no serviço de saúde e rompimento do preservativo durante o ato sexual.

Segundo o MS (2020), os ambulatórios que trabalham com a prevenção da AIDS, no território brasileiro, realizam os serviços de Profilaxia Pós-exposição Sexual de risco (PEP). A PEP é utilizada quando o sujeito faz sexo sem o preservativo ou ocorre o rompimento do preservativo durante o ato sexual. A PEP consiste na medicação do paciente após a exposição de risco com vistas a evitar a contaminação pelo vírus HIV.

Os medicamentos utilizados são conhecidos como coquetel, que incluem as substâncias Zidovudina e Lamivudina. Aumenta-se a eficácia do tratamento quando o sujeito é medicado a partir de duas a setenta e duas horas após a exposição de risco. Além disso, há a profilaxia e aconselhamento com pacientes soro discordantes. São considerados soro discordantes as pessoas que estão em um relacionamento (namoro ou casamento) em que um dos parceiros é soropositivo e o outro não foi contaminado com o HIV.

A dinâmica do atendimento ambulatorial ocorre de forma que o paciente chega ao ambulatório após a exposição de risco e passa pelo atendimento clínico. Depois da consulta e da entrevista clínica, é coletado o seu sangue para fazer o teste do HIV. Em seguida, o paciente recebe a primeira dose do coquetel e é orientado quanto ao uso do medicamento. O hospital doa o medicamento que é usado durante trinta dias.

Quando o resultado do primeiro exame chega, o paciente passa por uma entrevista com o profissional da saúde. Após a PEP (trinta dias do uso contínuo dos medicamentos) o paciente é encaminhado para o segundo exame para verificar se o resultado negativo do primeiro exame persiste após o uso do coquetel.  Se no primeiro ou no segundo exame o resultado for positivo o paciente passa a fazer o uso contínuo do coquetel e passa ser orientado em relação à qualidade de vida a partir do uso diário do coquetel.  Quando o resultado é negativo, o sujeito é orientado a usar o preservativo e a fazer exames periódicos com vistas à prevenção da AIDS. A ideia é de que, quanto mais cedo o diagnóstico, maior é a qualidade de vida do sujeito ao conviver com o vírus do HIV (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021).

Os dados da Secretaria de Saúde de Florianópolis (2017) evidenciam que a maioria das pessoas que procura fazer a PEP é do sexo masculino. Totalizando 387 homens que fizeram a PEP de dezembro de 2015 a maio de 2016. Em dezembro de 2015, foram atendidos 53 sujeitos do sexo masculino. No ano de 2016, foram atendidos 79 homens, em janeiro, em fevereiro foram atendidos 71 homens, em março 65 atendimentos, em abril 60 homens passaram pela PEP e, em maio, 59 homens foram atendidos no ambulatório.

A maioria dos homens afirma estar em um relacionamento afetivo fixo, cabendo enfatizar que a faixa etária, que procura pela PEP é variada e aumentou o número de atendimentos a homens entre 40 e 60 anos. Além disso, diminuiu o número de atendimentos a homens na faixa etária entre 25 e 40 e igualmente abrandou o número de homens acima dos 60 anos que procuram a PEP no ambulatório.

Ressalta-se que a maioria das mulheres que procuram a PEP são as profissionais do sexo e, além disso, existe um grupo de mulheres que procura a PEP quando há evidências de doenças sexuais em seus companheiros. O ambulatório oferece a PEP, gratuitamente, até três vezes para a mesma pessoa. O cadastro das pessoas que se submetem à PEP mais de uma vez não está organizado de maneira a não evidenciar a quantidade de pessoas (homem ou mulher) que retornam ao ambulatório para fazer a PEP.

Dados da Secretaria de Saúde de Garopaba (2021) evidenciam que, de primeiro de janeiro de 2018 a setembro de 2019, foram realizados 24 mil atendimentos, com a finalidade de uso da PEP no Estado de Santa Catarina. Em Garopaba, foram 214 atendimentos, sendo que 65% das pessoas atendidas foi por exposição sexual consentida, 30% por acidente ocupacional e 5% por violência sexual. A prefeitura de Garopaba não categorizou a amostra por sexo.

No contexto atual, o sujeito pode viver com o vírus da AIDS, sem desenvolver as doenças oportunistas, com qualidade de vida. O uso contínuo do coquetel torna o sujeito soropositivo não detectável, isto quer dizer que o sujeito não apresenta as doenças oportunistas e diminui acentuadamente as chances de transmissão do vírus.

Os dados da pesquisa disponibilizados pela Secretaria de Saúde de Garopaba (2021) evidenciam que os homens que procuram a PEP têm uma vida sexualmente ativa; entretanto, não se pode afirmar que os atendidos sejam compulsivos sexuais, isto porque os instrumentos de cadastramento e avaliação do ambulatório não têm como objetivo detectar a frequência e os aspectos subjetivos dos sujeitos atendidos no ambulatório.

Para Goodman (2008), a frequência de relações sexuais e as condutas de irritabilidade e abstinência que permitem identificar a compulsão sexual não são evidenciados nos dados publicados pela Secretaria de Saúde de Garopaba. Os dados coletados demonstram que os homens se expõem a mais riscos de maneira consciente e por isso procuram a PEP.

De acordo com Secretaria de Saúde de Garopaba (2021) e com a Secretaria de Saúde de Florianópolis (2017), descartam-se os aspectos subjetivos da orientação sexual do sujeito em virtude da urgência do trabalho preventivo, isto porque a exposição da orientação sexual pode aumentar o preconceito em relação às várias expressões do comportamento sexual.

Dados do Ministério da Saúde (2013), quanto à variação da faixa etária dos homens que procuram a PEP, permite inferir que sujeitos com idade entre 40 e 60 anos foram os mais expostos às propagandas e aos programas de prevenção da Aids. Esses homens foram educados em relação ao uso do preservativo e, por isso, apresentam maior preocupação em adquirir o HIV. O grupo de homens entre 40 e 60 que procuram a PEP é menor em relação às demais faixas etárias devido ao impacto dos programas de prevenção da Aids e a compreensão do momento histórico em que a contaminação do HIV era sentença de morte, principalmente durante a década de 1980. Depreende-se, portanto, que o acesso à informação sobre a AIDS aumenta o comportamento preventivo.

De acordo com Fernandes (1994), durante a década de 80 e início dos anos 90, os programas educacionais de prevenção e as propagandas, acerca do uso do preservativo como forma de evitar a Aids eram frequentes nos principais veículos de comunicação como o rádio e a televisão. Os sujeitos expostos a programas de prevenção, nas referidas décadas, encontram-se na faixa etária entre 40 e 60 anos.

Dessa maneira, as propagandas afirmavam que o uso frequente do preservativo evitava a AIDS e, consequentemente, a morte. O uso do preservativo passou a fazer parte do cotidiano dessa população em virtude das ações de prevenção por meio das mídias mais populares naquele contexto. O que explica a menor procura pela PEP nessa faixa etária, visto que ocorre um aumento na conduta preventiva na população com idade entre 40 e 60 anos.

Os dados da prefeitura de Garopaba, são mais atuais que os dados publicados pela prefeitura de Florianópolis, apontando para um aumento da procura pela PEP e evidenciando a inadequação do uso do preservativo; o que sugere a necessidade de programas de orientação à saúde sexual por parte do Estado. Nesse mote, é necessário observar que os dados numéricos, aqui apresentados, ilustram as consequências do comportamento de risco do sujeito e não evidenciam ou afirmam que as pessoas que procuraram os serviços de saúde sejam compulsivas sexuais.

Goodman (2008) e Nascimento (2007) afirmam que a compulsão sexual mantém o compulsivo em estado de tensão biopsicológico em duas situações: na necessidade de manter relações sexuais e no processo de procura e identificação da oportunidade de manter relações sexuais nos diversos ambientes sociais. Destarte, para diminuir o sofrimento biopsicológico, o sujeito compulsivamente mantém relações sexuais e; ao se comportar compulsivamente, o indivíduo gradativamente negligência nas condutas preventivas. Esse comportamento negligente aumenta a probabilidade de o compulsivo adquirir o HIV. A aquisição do HIV é o dano objetivo, passível de ser observado no comportamento compulsivo emitido pelo sujeito.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A compulsão sexual pode ser pode ser mascarada e não diagnosticada por, muitas vezes, ser confundida com o comportamento sexual do homem no cotidiano. A busca frequente pelo sexo, a motivação para a ações voltadas para o sexo configuram a masculinidade ao longo da história e constituem o psiquismo masculino. A compulsão pode ser ocultada devido à compreensão da masculinidade no contexto social, que banaliza o comportamento sexual masculino e evita a percepção da doença em curso.

A literatura estudada, na presente pesquisa, permite dizer que o significado de masculinidade apropriado no meio social e cultural naturaliza o comportamento masculino de procura frequente pelo sexo e o associa a ideia de virilidade. Dessa forma, o sujeito não se percebe como compulsivo sexual em virtude da ideia de masculinidade constituída socialmente. A negação da compulsão sexual adia o tratamento e perpetua o sofrimento psíquico do compulsivo.

Ao longo da presente pesquisa, buscou-se resposta para a seguinte questão: quais os danos da compulsão sexual no cotidiano do sujeito do sexo masculino? Cabe dizer que, a partir dos dados bibliográficos e dos documentos pesquisados, observou-se que a compulsão sexual é uma psicopatologia que causa danos e prejuízos em todas as esferas da vida do sujeito, especialmente, nas esferas afetivas e sociais. Outro prejuízo, causado pela compulsão sexual, ocorre quando o indivíduo adquire doenças sexualmente transmissíveis.

Os danos da compulsão sexual, na esfera afetiva do sujeito, apresentam-se como estados emocionais de sofrimento psíquico, nos quais estão presentes a ansiedade, a irritabilidade e a tensão biopsicológica quando o sujeito está em alerta. Ressalta-se que esses estados emocionais podem gerar outras doenças, associadas à compulsão sexual, como a insônia, a baixa da imunidade e os distúrbios de humor.

A esfera afetiva compreende a capacidade do sujeito de experimentar emoções e sentimentos como a ansiedade e irritabilidade. Do ponto de vista afetivo, a ansiedade se caracteriza pela sensação de perigo eminente e constante que está por vir; estados de inquietação e sensações desagradáveis advindos de emoções intensas e duradouras; é acompanhada de reações fisiológicas como sudorese, alteração dos batimentos cardíacos, tensão muscular e inquietação. A irritabilidade é uma resposta fisiológica relacionada a ansiedade e a insatisfação, caracterizando-se como intolerância e pode se manifestar no comportamento do sujeito como a baixa tolerância a pessoas e aos estímulos do meio social.

A ansiedade e a irritabilidade geram sofrimento psíquico ao sujeito na vivência da compulsão sexual. Nos estados em que o sujeito está sob estresse da ansiedade e da irritabilidade, ele pode vir a fugir e evitar ambientes sociais com o objetivo de aliviar a tensão. O único caminho que o compulsivo sexual encontra, para se livrar do sofrimento psíquico, é a busca contínua por relações sexuais a qualquer hora.

Da perspectiva social, os danos causados pela compulsão sexual se apresentam na dificuldade que o sujeito encontra em manter vínculos afetivos estáveis. O descontrole do impulso sexual leva o indivíduo a apresentar dificuldades de concentração nas atividades laborais e, muitas vezes, o desligamento do trabalho é inevitável. O compulsivo sexual gradativamente rompe com os vínculos de amizade em razão de dois fatores: a opção pelo sexo em relação ao convívio social e a esquiva de manter laços profundos que possam impedi-lo de obter a satisfação sexual.

A saúde física do compulsivo sexual é comprometida, isto porque, com o aumento da frequência de relações sexuais, o sujeito negligencia na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Nesse viés, as doenças sexualmente transmissíveis são tratadas com drogas que agem no organismo do sujeito de maneira a provocar efeitos colaterais, como é o caso da Aids.

A aquisição do HIV, pelo compulsivo sexual, gera danos permanentes à vida do sujeito devido às consequências da terapia. O tratamento da Aids é realizado com medicamentos de uso contínuo; porém os medicamentos causam efeitos secundários que vão desde desconforto gastrointestinal como náusea, diarreia e chega a infecções renais e infecções cutâneas.

Os efeitos colaterais do tratamento da AIDS são variáveis, podendo ocorrer no processo de adaptação à terapia ou persistir por toda a vida do sujeito. Do ponto de vista do clínico, os instrumentos de diagnóstico são reduzidos e precários; mas a experiência e o conhecimento do profissional que realiza o diagnóstico são fatores determinantes para a compreensão do processo de doença em curso e, muitas vezes, o diagnóstico da compulsão sexual é feito a partir dos danos físicos causados no indivíduo. O sujeito procura o atendimento de saúde devido aos sintomas físicos como a insônia e ansiedade e, ao longo do processo clínico, chega-se à identificação do quadro de compulsão sexual.

Diante do supracitado, observa-se que os trabalhos relacionados à saúde física e mental do homem não foram suficientes para uma mudança de consciência e para a superação dos preconceitos relacionados à invulnerabilidade masculina. Há um longo caminho a ser percorrido para se desconstruir a imagem cristalizada acerca do homem e compreendê-lo como sujeito vulnerável e carente de políticas públicas, que tenham como foco a sua reeducação para a saúde.  É interessante observar que a políticas públicas, com vistas à saúde do homem, devem estar focadas na superação dos estereótipos de masculinidade, que contribuem para o afastamento do homem das ações preventivas de saúde. O objetivo das ações preventivas de saúde é evitar o diagnóstico tardio e o sofrimento biopsíquico do homem.

Para finalizar, é necessário ressaltar que o comportamento de desejo e a procura por relações sexuais e o gostar de sexo são elementos necessários à saúde do homem. O comportamento de interesse e procura por sexo não pode ser confundido com o quadro psicopatológico de compulsão sexual. A distinção entre o comportamento sexual natural e a compulsão sexual exige atenção e cuidado, por parte dos profissionais da saúde, durante o processo de identificação da doença. O profissional que realiza o diagnóstico precisa estar atento para evitar o erro de compressão, comum no imaginário social, que o comportamento compulsivo é um elemento natural do universo masculino. Desse modo, o objetivo de tais distinções é evitar e controlar os danos da compulsão sexual à vida do homem.

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APÊNDICE- REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. A formação reativa é um mecanismo de defesa do ego que transforma o desejo original no seu oposto, é um mecanismo inconsciente que tem função de evitar a desadaptação do ego de forma a manter o indivíduo conectado à realidade.

[1] Doutor em Educação em psicologia da Educação – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.  ORCID:  0000-0002-4195-2900.

Enviado: Agosto, 2021.

Aprovado: Abril, 2022.

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