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Deficiência visual adquirida e transtorno depressivo: a depressão como um aspecto psicológico do indivíduo que perde a visão

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SANTOS, Thamires da Costa [1]

SANTOS, Thamires da Costa. Deficiência visual adquirida e transtorno depressivo: a depressão como um aspecto psicológico do indivíduo que perde a visão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 03, Vol. 03, pp. 101-114. Março de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/aspecto-psicologico

RESUMO

No contexto da atual sociedade, onde as discussões acerca de temas como a acessibilidade para pessoas com deficiência e a importância da saúde mental de forma geral se fazem presentes, este artigo traz a seguinte pergunta norteadora/problema: A depressão é um aspecto psicológico do indivíduo que perde a visão por meio da deficiência visual adquirida? O objetivo geral deste artigo é responder a tal pergunta por meio da sequência de construções e contribuições teóricas. Nesse sentido, a metodologia utilizada para a confecção desse trabalho fora a pesquisa de cunho bibliográfico. O principal resultado do presente artigo é a resposta positiva à pergunta tema, onde verificou-se que o indivíduo que perde a visão devido a alguma doença ou acidente no decorrer da sua vida apresenta sintomas e comportamentos característicos do transtorno depressivo, como reação à cegueira e todo o processo de adaptação a sua nova realidade. Desse modo, seria de grande importância para a comunidade científica, aprofundar e desenvolver mais pesquisas sobre o referido objeto de estudo.

Palavras-chave: Deficiência visual congênita; Deficiência visual adquirida; Depressão.

1. INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como questão norteadora: A depressão é um aspecto psicológico do indivíduo que perde a visão por meio da deficiência visual adquirida? Nesse contexto, o objetivo geral deste artigo é responder a tal pergunta por meio da sequência de contribuições e construções teóricas acerca do assunto. Além disso, a pesquisa apresenta como objetivos específicos o aprofundamento dos seguintes conceitos: a deficiência visual congênita, a deficiência visual adquirida e a depressão. Essa, por sua vez, como um impacto psicológico no indivíduo que perde a visão. Assim sendo, é estabelecida uma correlação entre ambos os objetos de estudo citados, e fundamentados teoricamente, a fim de que se torne possível a compreensão sobre os efeitos da perda da visão e os seus impactos no dia a dia e na saúde mental do indivíduo.

A motivação para realizar essa pesquisa justifica-se pela curiosidade por conhecer melhor o processo de perda de visão adquirida, e a adaptação à nova realidade por que o indivíduo precisará passar. Além disso, não se pode deixar de levar em consideração o atual contexto, o qual a acessibilidade ainda é um assunto em pauta no Brasil, e a discriminação, bem como a exclusão por parte da sociedade ainda fazem parte do comportamento de alguns homens e mulheres.

Cabe citar aqui, a relevância desse trabalho e tema para a área da Psicologia, uma vez que, ela tem o indivíduo como seu objeto de estudo. Nesse caso, o sujeito que perde a visão, e precisa enfrentar a deficiência visual, além de todo o processo de adaptação à nova situação de vida. Dessa maneira, faz todo o sentido estudar sobre os aspectos psicológicos, e a temática da depressão e seus sintomas como uma possível resposta desse indivíduo a essa nova realidade por vezes difícil.

A pesquisa realizada possui cunho bibliográfico que, por meio da leitura e destaque dos principais conceitos e ideias, constitui-se o desenvolvimento acerca do tema apresentado. Destaca-se também, a linguagem clara e precisa como facilitadora do entendimento do leitor sobre a questão levantada: “A depressão é um aspecto psicológico do indivíduo que perde a visão por meio da deficiência visual adquirida?”. Trata-se da tentativa de respondê-la descrevendo, através do referencial teórico, a perda da visão e como essa afeta o psicológico da pessoa que se torna cega, podendo apresentar variados sintomas do transtorno depressivo.

2. DA VISÃO, DEFICIÊNCIA VISUAL CONGÊNITA E DEFICIÊNCIA VISUAL ADQUIRIDA

A visão é interpretada no senso comum como o órgão do sentido que proporciona o primeiro contato do homem com o mundo. Portanto, a importância da qualidade do seu funcionamento. Nessa perspectiva, compreende- se a visão como o meio de comunicação de mais importância na relação indivíduo-mundo. Da mesma maneira que a audição, ela recebe registros próximos ou distantes permitindo ordenar, no que diz respeito ao nível cerebral, as informações advindas por meio dos outros órgãos sensoriais (GIL, 2000).

Assim como a linguagem, a visão é um meio de comunicação com aquilo que é externo. Da mesma forma que os outros órgãos do sentido, ela recebe estímulos dos outros órgãos sensoriais, e os emite. Por isso, a eficácia da sua funcionalidade é de vital importância para a relação do indivíduo com o mundo em todos os aspectos. Vale ressaltar que, atualmente, as pessoas que nascem cegas ou que por algum motivo (doenças, acidentes etc.) perdem a visão, podem contar com o fator positivo do avanço da medicina para um melhor diagnóstico do caso, realização dos exames visuais e tratamentos. São nos primeiros anos de vida que acontece a evolução das funções visuais. Foram os testes de acuidade visual criados atualmente, os quais tornaram possível a realização da avaliação funcional da visão de um bebê ainda no berçário (GIL, 2000).

No que diz respeito à deficiência visual, ela possui os seus mais diversificados conceitos, e cabe apresentá-los em uma linguagem de fácil compreensão do leitor, e diferenciação das suas nomenclaturas. Segue o conceito de deficiência visual segundo Gil (2000, p. 6):

Os graus de visão abrangem um amplo espectro de possibilidades: desde a cegueira total, até a visão perfeita, também total. A expressão ‘deficiência visual’ se refere ao espectro que vai da cegueira até a visão subnormal. Chama-se visão subnormal (ou baixa visão, como preferem alguns especialistas) à alteração da capacidade funcional decorrente de fatores como rebaixamento significativo da acuidade visual, redução importante do campo visual e da sensibilidade aos contrastes e limitação de outras capacidades.

Sobre essa classificação e diferenciação de “cegueira” e “baixa visão”, no sentido lógico da palavra, entende-se por cegueira quando o indivíduo é cego (a), e baixa visão quando o indivíduo possui baixa visão, necessitando de recursos que vão além do uso de óculos, como por exemplo, aumento do tamanho da fonte dos textos, lupa, entre outros. Dentro dos dois extremos da capacidade visual, existem algumas patologias (miopia, estrabismo, astigmatismo, ambliopia, hipermetropia) que não significam a existência de uma deficiência visual necessariamente, no entanto, precisam ser identificadas e tratadas ainda na infância ou o mais rápido possível, visto que, têm a capacidade de interferirem no desenvolvimento e na aprendizagem (GIL, 2000).

Nessa mesma linha de raciocínio, a visão subnormal – baixa visão – pode ser definida como a incapacidade de enxergar com clareza eficiente para contar os dedos da mão a uma distância de 3 metros, no período diurno. Trata- se de um indivíduo que consegue manter resíduos de visão. A pessoa pode ter uma deficiência visual congênita ou adquiri-la ao longo da sua vida. Nesse último caso, ela pode perder a visão em decorrência de alguma doença (atrofia óptica, catarata congênita, coriorretinite macular, fibroplasia retrolental, glaucoma e retinose pigmentar) que afetem diretamente a retina, por causa de algum acidente (doméstico, automobilístico e outros), ou ainda, pelo próprio desgaste natural da retina óptica (GIL, 2000).

Dando prosseguimento à conceituação de deficiência visual, de acordo com a portaria n° 3.128, de 24 de dezembro de 2008 (2008, p. 1):

§ 1º Considera-se pessoa com deficiência visual aquela que apresenta baixa visão ou cegueira.

§ 2º Considera-se baixa visão ou visão subnormal, quando o valor da acuidade visual corrigida no melhor olho é menor do que 0,3 e maior ou igual a 0,05 ou seu campo visual é menor do que 20º no melhor olho com a melhor correção óptica (categorias 1 e 2 de graus de comprometimento visual do CID[2]10) e considera-se cegueira quando esses valores se encontram abaixo de 0,05 ou o campo visual menor do que 10º (categorias 3, 4 e 5 do CID 10).

A tabela abaixo apresenta a distribuição de pessoas com deficiência visual no Brasil por região:

Tabela 1: Pessoas com deficiência por região

Pessoas com deficiência por região
Fonte: https://www.fundacaodorina.org.br/a-fundacao/deficiencia-visual/estatisticas-da-deficiencia-visual/

Não se tem dados suficientes para fazer uma análise dos resultados apresentados na tabela acima, como, por exemplo, saber dentre os números apresentados o tipo de deficiência visual (cegueira ou baixa visão), ou ainda, a etiologia da deficiência (congênita ou adquirida). Sabendo- se que, a deficiência visual pode ser congênita ou adquirida, atribui- se alguns significados para essa perda da visão. Gil (2000): “O indivíduo que nasce com o sentido da visão, perdendo-o mais tarde, guarda memórias visuais, consegue se lembrar das imagens, luzes e cores que conheceu, e isso é muito útil para sua readaptação”.

Ainda segundo Gil (2000, p. 9):

O impacto da deficiência visual (congênita ou adquirida) sobre o desenvolvimento individual e psicológico varia muito entre os indivíduos. Depende da idade em que ocorre, do grau da deficiência, da dinâmica geral da família, das intervenções que forem tentadas, da personalidade da pessoa – enfim, de uma infinidade de fatores. Além da perda do sentido da visão, a cegueira adquirida acarreta também outras perdas: emocionais; das habilidades básicas (mobilidade, execução das atividades diárias); da atividade profissional; da comunicação; e da personalidade como um todo. Trata-se de uma experiência traumática, que exige acompanhamento terapêutico cuidadoso para a pessoa e para sua família.

Compreende- se, pois, que, quando ocorre a perda do funcionamento saudável da visão, perde- se também todo o entendimento, compreensão e interpretação de mundo construído ao longo da vida, sendo necessários o enfrentamento, e a adaptação do indivíduo a sua nova realidade. É comprovado que com a perda do sentido da visão os outros sentidos sensoriais tornam- se mais estimulados, como o sentido tátil, por exemplo. Em vista disso, é essencial entender que é doloroso para a pessoa que antes era vidente, ou seja, que tinha a visão preservada, perder a visão por meio de doenças, acidente ou através do avanço da idade. Seja criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso, isso é, independente da faixa etária, esse processo de adaptação no dia a dia à nova situação não é fácil. E isso sem deixar de levar em consideração o contexto de exclusão que a atual sociedade ainda apresenta.

Dourado; Costa afirma que (2006, p. 9):

A diferença se configura na sociedade atingindo a todos e ao passar de um extremo para o outro, de um “normal” para um sujeito “fora da normalidade”, este sujeito deverá ressignificar os seus pré-conceitos internos sobre as suas crenças pessoais para melhor aceitar esta nova condição. Assim, a estratégia social mais adequada seria já de cedo, nas escolas, difundir ideias de que os indivíduos com deficiência são partes integrantes da sociedade e que as tradições que atuam segregando ainda mais estas pessoas devem ser inutilizadas e substituídas por outras onde o indivíduo com deficiência e os “normais” possam se aceitar com as suas limitações que são próprias de nossa condição humana.

Leva-se em consideração que, a perda da visão acarreta também outras perdas, como as perdas emocionais, perdas de habilidades básicas, perdas no trabalho, na comunicação, ou seja, da subjetividade do sujeito como um todo. Além desses fatores, o indivíduo que perde a visão pode apresentar sintomas depressivos. Dessa forma, cada pessoa vai enfrentar a deficiência visual de forma singular, dado que, depende do contexto no qual esse indivíduo se encontra (idade, grau da deficiência, dinâmica geral da família, das intervenções que forem tentadas e outros diversos fatores) (GIL, 2000).

3. DEPRESSÃO: CONCEITOS E SINTOMAS

 Sobre os sintomas da depressão, Teodoro (2010, p. 23) traz a seguinte contribuição:

Os sintomas que compõem o quadro depressivo afetam diversas áreas da vida do paciente, comprometendo suas atividades pessoais e sociais. Podemos agrupar esses sintomas em 5 áreas distintas: humor, cognição ou pensamento, aspectos somáticos, expressão corporal e vida social.

São sintomas do humor: angústia, ansiedade, tristeza, emotividade, irritabilidade, desmotivação e anedonia; sintomas cognitivos: baixo rendimento intelectual, sentimentos de abandono ou rejeição, falta de fé (em si, em Deus, na vida, nas pessoas e nos tratamentos), sentimento de inferioridade, assuntos constantes sobre morte, baixa autoestima, falta de sentido na vida, autoimagem negativa, sentimento de culpa, pessimismo, desvalorização da vida, ideias de suicídio; sintomas somáticos: insônia, hipersonia, aumento de apetite, perda de apetite, redução do interesse sexual, diminuição da libido, baixa no sistema imunológico; expressão corporal: peito embutido, cabeça baixa, dificuldade em olhar as pessoas nos olhos, coluna curvada, despreocupação com a higiene pessoal e aparência, olhar desvitalizado, movimentos lentos e contidos, respiração superficial; vida social: desinteresse pelo trabalho e pelos estudos, isolamento (TEODORO, 2010).

Do ponto de vista psicopatológico, as síndromes depressivas têm como elementos mais salientes o humor triste e o desânimo (DALGALARRONDO, 2008, apud DEL PINO, 2003). Sobre as síndromes depressivas, e com base na psicopatologia, Dalgalarrondo (2008, p. 307) traz a seguinte contribuição:

Entretanto, elas caracterizam-se por uma multiplicidade de sintomas afetivos, instintivos e neurovegetativos, ideativos e cognitivos, relativos à autovaloração, à vontade e à psicomotricidade. Também podem estar presentes, em formas graves de depressão, sintomas psicóticos (delírios e/ou alucinações), marcante alteração psicomotora (geralmente lentificação ou estupor) e fenômenos biológicos (neuronais ou neuro-endócrinos) associados.

Dalgalarrondo (2008, p. 307):

Tristeza, sentimento de melancolia; choro fácil e/ou frequente; apatia (indiferença afetiva; “Tanto faz como tanto fez”.); sentimento de falta de sentimento (“É terrível: não consigo sentir mais nada!”); sentimento de tédio, de aborrecimento crônico; irritabilidade aumentada (a ruídos, pessoas, vozes, etc.); angústia ou ansiedade, desespero e desesperança.

Compreende- se então, a síndrome depressiva como um conjunto de sintomas do organismo do indivíduo como um todo em relação com o seu meio. O humor deprimido é geralmente o primeiro sintoma identificado de forma mais clara. Nessa lógica, a tristeza ou melancolia aparecem como um dos primeiros sintomas da depressão dentro do campo afetivo. Diante das diversas situações que a vida apresenta, o indivíduo chora com frequência, e se coloca como indiferente diante da realidade vivida. Apresenta-se entediado, com um sentimento de falta, incomodado com tudo e todos ao seu redor, angustiado, ansioso e sem esperanças.

A depressão possui alterações da esfera instintiva e neurovegetativa. Dalgalarrondo (2008, p. 308) acrescenta:

Anedonia (incapacidade de sentir prazer em várias esferas da vida); Fadiga, cansaço fácil e constante (sente o corpo pesado); Desânimo, diminuição da vontade (hipobulia; “Não tenho pique para mais nada”); Insônia ou hipersonia; Perda ou aumento do apetite; Constipação, palidez, pele fria com diminuição do turgor; Diminuição da libido (do desejo sexual); Diminuição da resposta sexual (disfunção erétil, orgasmo retardado ou anorgasmia).

Além do indivíduo perder o interesse, ele perde também o prazer em diferentes áreas da sua vida. Atividades que gostava de fazer antes, e que após a depressão perdeu o prazer, como por exemplo, a perda do interesse e prazer em estudar ou trabalhar. Esse sintoma diz respeito a um cansaço físico e mental frequente. A falta de vontade e desânimo para realizar qualquer tipo de atividade são sintomas clássicos do indivíduo depressivo. O indivíduo não consegue simplesmente descansar ou dormir, porquanto, apresenta uma insônia recorrente. Essa dificuldade de dormir/relaxar está completamente ligada ao quadro depressivo.

Os sintomas depressivos envolvem também a alimentação, no sentido de perda ou aumento de apetite. O deprimido pode passar horas ou até mesmo dias sem se alimentar. Já em relação ao desejo sexual ou libido do indivíduo, ele apresenta uma diminuição na vontade de desejar ou ter relações sexuais, e essa diminuição do desejo implica diretamente na diminuição da resposta sexual desse, podendo ocorrer a disfunção erétil, orgasmo retardado ou anorgasmia. A depressão também apresenta alterações ideativas. (DALGALARRONDO, 2008)

Dalgalarrondo (2008, p. 308) destaca:

Ideação negativa, pessimismo em relação a tudo; Idéias de arrependimento e de culpa; Ruminações com mágoas antigas; Visão de mundo marcada pelo tédio (“A vida é vazia, sem sentido; nada vale a pena”.); Idéias de morte, desejo de desaparecer, dormir para sempre; Ideação, planos ou atos suicidas.

Por esse lado, o depressivo se torna um indivíduo negativo diante dos acontecimentos da vida. Apresenta sempre um pessimismo em relação a todas as coisas. É como se perdesse a positividade de que as coisas podem dar certo. O arrependimento e o sentimento de culpa são muito comuns em quadros depressivos. O indivíduo carrega consigo mágoas do passado. Dessa forma, assim como nos sintomas afetivos, ele enxerga o mundo marcado pelo sentimento de tédio. Existe um vazio existencial, uma falta de algo que não pode ser preenchido, onde nada faz sentido e vale a pena ser vivido. Alguns indivíduos têm vontade de morrer, sumir ou dormir para sempre. Em casos mais graves de depressão, há também, indivíduos que idealizam, planejam, e até mesmo colocam o plano de suicídio em ação.

De acordo com Dalgalarrondo (2008), são alterações cognitivas: “déficit de atenção e concentração; déficit secundário de memória; dificuldade de tomar decisões; pseudodemência depressiva”. No transtorno depressivo, o indivíduo tem o seu cognitivo comprometido, de modo que perca a concentração e a atenção. Além desse déficit, há também a perda de memória de alguns acontecimentos. O depressivo tem dificuldade para decidir sobre qualquer coisa.

Dalgalarrondo (2008), também apresenta as alterações de autovaloração: “sentimento de autoestima diminuída; sentimento de insuficiência, de incapacidade; sentimento de vergonha e autodepreciação”. Outro fator afetado pela depressão no indivíduo é a autoestima. Essa se apresenta baixa, fazendo com que o indivíduo não se valorize, e não se sinta feliz com o seu próprio modo de ser, ou seja, não se sinta bem com ele mesmo. Esse indivíduo nunca se sente bom o suficiente com relação às outras pessoas, e sente-se incapaz de realizar qualquer coisa. Há também a não valorização da sua imagem, e das suas capacidades. Ele só consegue enxergar coisas negativas em si mesmo.

À vista disso, é muito comum que o indivíduo depressivo apresente como sintoma uma vontade de ficar deitado na cama, trancado em seu quarto, sem desejar a presença de ninguém durante todo o dia. Além disso, o indivíduo pode apresentar um aumento no tempo de reação entre as perguntas e as respostas. No entanto, ao mesmo tempo que esse indivíduo pode apresentar um aumento no tempo de reação entre as perguntas e as respostas, ele também pode apresentar a diminuição na fala, a redução da voz, ou seja, ele pode falar de maneira mais lenta. E, quando for falar, apresentar uma negatividade em tudo o que fala. (DALGALARRONDO, 2008)

4. A PERDA DA VISÃO E REAÇÕES DEPRESSIVAS

Além das situações de perdas significativas nas quais as síndromes e as reações depressivas surgem com muita frequência, como por exemplo, a perda de pessoa muito querida, emprego, moradia, status socioeconômico, ou de algo puramente simbólico, a depressão também pode surgir devido a algumas enfermidades que aparecem no decorrer da vida do indivíduo. Para além desses fatores, cabe citar a perda da visão como um acontecimento que afeta tanto os aspectos fisiológicos quanto os aspectos psicológicos do indivíduo. No que diz respeito à perda da visão em decorrência de alguma doença, entende- se que essa perda implica na perda de uma parte de si mesmo, na perda de um dos órgãos do sentido mais importantes do indivíduo.

A importância da visão para o indivíduo se dá, uma vez que, os olhos são os órgãos do sentido que recebem muitas informações externas. Tais estímulos visuais contribuem para o entendimento, a compreensão e a interpretação do indivíduo em relação ao mundo no qual ele vive. Logo, quando ocorre a perda da visão, essa perda não diz respeito a uma perda meramente fisiológica, todavia, trata- se da perda de visão de homem, e de mundo que antes foram construídas e armazenadas em forma de memórias visuais de tudo o que já fora vivido.

Para Barczinski (2008, p. 2):

Apesar dos recursos com que se pode contar atualmente para evitar a perda da visão, a cada dia muitas pessoas ficam cegas por doença, acidente ou velhice. Para uma pessoa com visão normal, a perda repentina de seu mais precioso sentido é muito difícil. Principalmente se considerarmos que em nosso mundo cada vez mais orientado visualmente, ninguém conta com a possibilidade de ficar cego

Não se pode deixar de realçar que, sob a ótica psicológica, ainda que, o indivíduo se apresente o mais saudável possível mentalmente, ele irá usar de recursos significativos para se adaptar à sua nova realidade, que é a cegueira. Assim sendo, a reorganização psicológica desse indivíduo passa pela necessidade de um amparo imediato para enfrentar essa perda que intervém em todas as áreas de sua vida (BARCZINSKI, 2008).

A deficiência visual (congênita ou adquirida) impacta o desenvolvimento individual e psicológico de cada indivíduo de modo variado. Dependendo, dessa maneira, de fatores como: a personalidade do indivíduo, a idade em que ocorre, a dinâmica geral da família, o grau da deficiência, as intervenções que são tentadas, e outros fatores extremamente significativos (GIL, 2000).

Gil (2000, p. 10) traz ainda:

Quando a deficiência visual acontece na infância, pode trazer prejuízos ao desenvolvimento neuropsicomotor, com repercussões educacionais, emocionais e sociais, que podem perdurar ao longo de toda a vida, se não houver um tratamento adequado, o mais cedo possível.

Não se pode deixar de citar que, no caso de uma criança ficar cega, todo o cuidado deverá ser dobrado. Se a família da criança não iniciar o tratamento certo o mais rápido o possível, todo o desenvolvimento neuropsicomotor, psicológico e social pode ser comprometido durante toda a vida da criança, podendo, também, ocasionar impactos na aprendizagem.

De acordo com Barczinski (2008, p. 3, apud ADAMS, 1980):

Adams mostra que Luiz Cholden também contribuiu com considerações sobre os problemas psiquiátricos observados em seu atendimento em reabilitação de cegos na Menninger Clinic. Segundo o autor, a primeira fase que aparece com o choque da cegueira é o estado de imobilidade psicológica, descrito como “proteção emocional anestésica”. Seria impossível colocar um limite de tempo nesta fase, mas ele sentiu que quanto mais longa fosse a fase do choque, mais prolongado e difícil seria o processo de reabilitação.

Nessa sequência, com a perda da visão, o indivíduo entra em choque por causa da cegueira, e apresenta- se paralisado emocionalmente. Determinado estado de paralização psicológica, pode ser interpretado como uma maneira que esse indivíduo encontra de se proteger emocionalmente. Tal fase de início, de imobilidade psicológica, não possui um limite de duração. Contudo, quanto mais tempo o indivíduo permanece em choque, mais demorado e dificultoso se dará o processo de reabilitação. É como se o indivíduo se utiliza desse mecanismo como um meio de negar o ocorrido. Trata- se de um episódio marcante, no qual exige a aceitação, enfrentamento e adaptação do indivíduo.

Seguindo-se à fase do choque, surge a depressão reativa envolvendo sentimentos e desejos de autopiedade, necessidade de confidências, pensamentos suicidas e retardamento psicomotor (BARCZINSKI, 2008).

Nessa fase, o indivíduo apresenta sintomas e reações depressivas. Alguns comportamentos como a piedade de si mesmo, a necessidade de contar seus segredos aos outros e o atraso psicomotor podem aparecer. Além dessas reações e sintomas, em casos mais graves, há indivíduos que cogitam a ideia de tirarem a própria vida.

Ainda para Barczinski (2008, p. 4, apud ADAMS, 1980), sobre os estudos de Adams:

Em 1970 Fitzgerald estudou as reações à cegueira de forma moderna, sistemática e científica e descreve quatro fases distintas de reações. Primeiro a descrença, quando os pacientes tendem a negar sua cegueira. Depois, a fase de protesto, quando eles vão procurar uma segunda opinião ou recusam-se a usar a bengala branca. Em terceiro lugar ocorre a depressão, com os sintomas clássicos de perda de peso, mudança de apetite, idéias suicidas e ansiedades paranóides. E por fim acontece a recuperação, quando os pacientes aceitam a cegueira num estágio em que não se percebe qualquer distúrbio psiquiátrico. Fitzgerald estimava um período de dez meses para que o paciente percorresse essas quatro etapas.

Ressalta-se a importância e pertinência desses estudos, os quais apesar de terem sido realizados há muito tempo, trazem grandes contribuições acerca das reações à perda da visão, sendo essas, ainda percebidas na atualidade.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo trouxe contribuições não só para a comunidade acadêmica, mas também para uma melhor compreensão sobre os processos de deficiência visual, da perda da visão e da depressão ocasionada. Dessa forma, a questão de pesquisa “A depressão é um aspecto psicológico do indivíduo que perde a visão por meio da deficiência visual adquirida?” Pôde ser respondida ao longo do desenvolvimento do estudo. Sendo possível concluir que o indivíduo, que perde a visão devido a alguma doença ou acidente no decorrer da sua vida, apresenta sintomas e comportamentos característicos do transtorno depressivo como reação à cegueira e todo o processo de adaptação à nova realidade.

A confirmação da questão/tema foi possível à medida que os tópicos específicos da pesquisa bibliográfica (os conceitos de deficiência visual congênita e deficiência visual adquirida; a depressão e seus sintomas; a perda da visão e a depressão como um aspecto psicológico no indivíduo que adquiriu a cegueira), foram apresentados e fundamentados teoricamente pelos autores escolhidos e suas contribuições significativas. Nessa direção, a pesquisa acadêmica realizada possui caráter singularmente bibliográfico. Foram utilizados recursos como leituras de livros, artigos, trabalho de conclusão de curso, textos em sites, portaria, estatutos, além de recursos em imagem (tabela no capítulo 1).

Torna-se evidente, portanto que, embora a pesquisa bibliográfica por meio de materiais os quais proporcionaram o seu avanço, aprofundamento e a compreensão do tema por meio de uma linguagem precisa tenha sido satisfatória para responder à questão do tema, propõe-se aprofundar e aprimorar as próximas pesquisas relacionadas, utilizando métodos como: estudo de campo, entrevistas com pessoas que perderam a visão, visita a instituições, projetos sociais, a fim de que a narrativa do sujeito que vive determinada realidade estabeleça uma correlação inteira com a teoria apresentada, e atribua um significado complementar mais amplo.

REFERÊNCIAS

BARCZINSKI, Maria Cristina de Castro. Reações Psicológicas à Perda da Visão, ed. 18. Revista Benjamin Constant, abril, 2001, p. 1-15, v. 6, n. 2.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, ed. 2. Porto Alegre: Artmed, 2008.

GIL, Marta. Deficiência visual (org.). – Brasília: MEC. Secretaria de Educação a Distância, 2000. 80 p.: il. – (Cadernos da TV Escola. 1. ISSN 1518-4692). Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/deficienciavisual.pdf. Acesso em: 17/11/2021.

DOURADO, J; COSTA, L. Perda da visão e enfrentamento: um estudo sobre os aspectos psicológicos da deficiência visual adquirida. 2006. TCC (Bacharelado em Psicologia) – FBBC-EBMSP, Salvador, 2006. Disponível em: http://newpsi.bvs-psi.org.br/tcc/232.pdf. Acesso em: 17/11/2021.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portaria n° 3.128, de 24 de dezembro de 2008. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2008/prt3128_24_12_2008.html. Acesso em: 17/11/2021.

TEODORO, Wagner Luiz Garcia. Depressão: corpo, mente e alma, ed.  3. Uberlândia: Próprio, 2010.

APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. CID: Código Internacional de Doenças.

[1] Bacharel em Psicologia pela Universidade Veiga de Almeida – UVA. Pós-graduada em Autismo pela Faculdade IBRA de Tecnologia – FITEC. Pós-graduada em Psicologia Organizacional pela Faculdade IBRA de Brasília – FABRAS. ORCID: 0000-0001-7773-3366.

Enviado: Fevereiro, 2022.

Aprovado: Março, 2022.

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Uma resposta

  1. Meu irmão e referente visual e eu estou tentando ajudá-lo mais ele e bem teimoso só tem 3 anos que perdeu a visão e ai8 não aceito bem está dormindo o dia todo ,ac8 que está em depressão,

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