Percepção ambiental na cidade de Rio Preto Da Eva

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ARTIGO ORIGINAL

PINTO, Wagner Cabral [1], GOMES, Valcimeiri De Sousa [2], BRITO, Zenobia Menezes [3]

PINTO, Wagner Cabral. GOMES, Valcimeiri De Sousa. BRITO, Zenobia Menezes. Percepção ambiental na cidade de Rio Preto Da Eva. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 08, Vol. 02, pp. 80-106. Agosto de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

As cidades sofrem constantes transformações em seus design urbano e lidam com processos de adaptação frente aos insurrectos cenários econômicos, políticos e ambientais. Diante deste contexto, realizou-se pesquisa sobre percepção ambiental na cidade de Rio Preto da Eva, utilizando-se do modelo de análise de elementos citadinos de Kevin Lynch, a saber: pontos nodais, marcos, limites, bairros e ruas. Complementou-se a análise com os pressupostos do paradigma da complexidade sistêmica de Edgar Morin, para entendermos como essas modificações acontecem. Aplicou-se ainda questionário, entrevista semi-estruturada e observação direta. Na revisão de literatura foram abordadas as seguintes categorias de análise: percepção, legibilidade e imaginabilidade. Após análise dos dados, averiguou-se a imprescindibilidade de um paradigma legível para a cidade de Rio Preto da Eva. E, ainda, o fato de vivenciar três momentos paradigmáticos como impetuosos influenciadores da assimilação [percepção] do ambiente: o paradigma histórico-ecológico, da revitalização e o de inclusão sistêmica.

Palavras-Chave: cognição, cidade, sistema, ambiente.

INTRODUÇÃO

A sociedade moderna, influenciada pelo capitalismo presencia um grande dilema: explorar recursos naturais com o propósito de aumentar a produtividade, e por outro lado, diminuir os impactos ambientais. Sabemos que é inegável a necessidade do homem quanto à sua dependência pela natureza. O problema ambiental, embora possa apresentar diferenças nacionais e regionais, é antes de tudo, planetário.

O capitalismo se estabelece nas cidades como o sistema que promoverá o desenvolvimento e progresso econômico. Daí, temos mudanças inevitáveis no design da cidade de modo a alterar o conhecimento topológico de mundo por parte dos indivíduos que nela residem.

A percepção por parte dos indivíduos em decorrência do ambiente modificado pode ser diferente de um ambiente com elementos naturais com poucas modificações em sua paisagem. Podemos presumir que uma cidade pouco modificada proporcionaria uma maior percepção de sua arquitetura, enquanto que uma cidade com modificações estruturais em grande escala proporcionaria uma menor percepção.

Dentre várias mudanças ocorridas nas cidades, talvez nos ambientes naturais marcados pela presença de algum elemento/recurso sejam as menos percebidas. E mais, é atribuído pouco valor quanto a sua existência e importância para uma melhor relação de qualidade ambiental. O crescimento urbano e as propostas políticas de desenvolvimento das cidades estão entre as bruscas mudanças mais recorrentes, as mesmas modificam os cenários das cidades, por ora não são percebidas pela população, nem muito menos pelos agentes interessados em lhes imprimir um melhor design.

Como obra arquitetônica a cidade é uma construção em grande escala no espaço, só percebida no decorrer de longos períodos de tempo sendo seu design uma arte temporal. Nada é vivenciado em si mesmo, mas sempre em relação aos seus arredores, às sequências de elementos, à lembrança de experiências passadas. Cada cidadão tem vastas associações com alguma parte de sua cidade e o cidadão faz parte desse cenário. (LYNCH, 1997)

Para Del Rio (1991) a cidade é o símbolo maior de uma sociedade, e através da percepção o homem transcende seu imaginário podendo adquirir melhor compreensão do real. É mediante redundância que o ser que nela habita fixa uma imagem a seu respeito, cada pessoa tem em mente uma cidade exclusivamente feita de diferenças que vão sendo substituídas por outras realidades.

Evidencia-se, pois, a premissa de que a cidade não é estática, nem muito mesmo como argumenta Lynch (1997) um objeto qualquer percebido. Cada cidadão tem diversas associações com partes de uma cidade. Os modelos mentais vão adaptando-se às realidades e a experiência, e as cidades no real vão sendo construídas.

1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1 HISTÓRIA DA CIDADE

A cidade de Rio Preto da Eva foi fundada em 31 de março de 1982, pelo Exmo. Sr. Governador do Estado do Amazonas, Professor José Lindoso. O nome Rio Preto da Eva, lhe é devido porque é banhado pelo rio de águas pretas desembocando no Paraná da Eva. O estabelecimento do Município deve-se ao fato de ter sido implantado a colônia agrícola por imigrantes japoneses e alguns colonos brasileiros se instalaram em fins de 1967, três anos após chegada a estrada do Rio Preto, tornando-se Distrito de Manaus. (AMAZONAS,1994)

As origens do município se prendem a Manaus. Sede da capitania em 1791, perdendo este título em 1799 e recuperando definitivamente em 1808, atual capital do estado foi elevada a cidade em 1856, quando contava com cerca de 4.000 habitantes. (AGUIAR, 2001)

Também foi construída próxima à futura Colônia, no Km 74, por volta de 1966, o Instituto Adventista Agroindustrial – IAAI, e tinha como prioridade a técnica agrícola especializada, além da doutrina religiosa “adventista”, tendo como seu primeiro Diretor, um Pastor Norte Americano. No dia 04 de outubro de 1969, foi celebrada a 1ª missa, com a presença do Arcebispo Metropolitano de Manaus, Dom João de Souza Lima, acompanhado do Exmo. Sr. Governador do Estado do Amazonas, Danilo de Matos Areosa. (AMAZONAS, 1994)

A lei nº 1 de 12.4.1961, eleva à categoria de município pela primeira vez, sob o governo do Sr.Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, com o nome de Eva, com sede do mesmo nome localizado em um sítio aquém do Rio Preto da Eva, às margens do rio Grande. O município Rio Preto da Eva é um dos mais recentes municípios criados no Estado do Amazonas, cuja instalação deu-se pela segunda vez em 1981. (BELTRÃO & BELTRÃO, s.d.)

A Colônia Agrícola de Rio Preto, foi projetada, implantada e inaugurada na gestão do Exmo. Sr. Governador do Estado do Amazonas, Sr. Danilo Duarte de Matos Areosa, em outubro do ano de 1969, tendo como órgão administrador a Secretaria de Produção Rural – SEPROR. Amazonas (1994)

Como reflexo dessa fase de desenvolvimento, a área periférica da capital passou a ostentar maior envergadura econômica e social. Dando expressão política a essa realidade emergente, a emenda constitucional n° 12, de 10.12.1981, desmembrou-se de Manaus a então colônia do Rio Preto da Eva, com territórios adjacentes de Itacoatiara e Silves. (AGUIAR, 2001)

A Formação Administrativa do município deu-se quando o mesmo foi elevado à categoria de município e distrito com a denominação de Rio Preto da Eva, pela emenda constitucional nº 12, de 10-02-1981 (Art. 2º – disposições gerais transitórias), delimitado pelo decreto estadual nº 6158, 22-02-1982, desmembrado dos municípios de Itacoatiara, Manaus e Silves. Sede no atual distrito de Rio Preto da Eva. Instalado em 01-02-1983. Em divisão territorial datada de 1988, o município é constituído do distrito sede. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2009 (Site da Prefeitura de Rio Preto, 2015).

O município de Rio Preto da Eva é um dos mais novos do Amazonas, emancipado de Manaus no ano de 1981. Ocupa uma área total de seis mil quilômetros quadrados e uma população em torno de 22 mil habitantes. A cidade desponta como opção de lazer para os manauaras, devido a sua proximidade, cerca de 80 quilômetros. A origem do nome da cidade não deixa dúvida.

O Rio Preto da Eva, que banha o município, possui águas escuras e é acessível e navegável apenas para as pequenas embarcações. As águas do Rio Preto da Eva desembocam no Paraná da Eva. Daí o nome Rio Preto da Eva. Amazonas (1994)

1.2 PERCEPÇÃO, IMAGINABILIDADE E LEGIBILIDADE

O termo percepção, derivado do latim “perception’, é conceituado na maioria dos dicionários da língua portuguesa como: ato ou efeito de perceber; combinação dos sentidos no reconhecimento de um objeto; recepção de um estímulo; faculdade de conhecer independentemente dos sentidos; sensação; intuição; ideia; imagem. (MARIN, 2008).

Segundo Tuan (1980) a percepção é a resposta dos sentidos aos estímulos ambientais (percepção sensorial) e a atividade mental resultante da relação com o ambiente (percepção cognitiva), traduz o espaço vivido e o espaço construído sob a ótica de quem o vivencia.

Não é difícil identificar uma amplitude considerável de possíveis significados a partir dessas conceituações, que vão desde a recepção de estímulos até a intuição, a ideia e a imagem, como categorias perfeitamente distintas no discurso filosófico (MARIN, 2008).

Por possuírem órgãos de sentido similares, todos os seres humanos compartilham percepções comuns, tendo então, um mundo em comum, do ponto de vista fisiológico. Porém, ao olhar para uma determinada paisagem, dificilmente duas pessoas terão a mesma visão ou compreensão sobre a mesma. Isto porque, o que cada pessoa seleciona para ver depende muito de sua história de vida e bagagem cultural (LUDKE e ANDRÉ, [1986] apud DÁCIO, 2011).

Cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente às ações sobre o ambiente em que vive. As respostas ou manifestações daí decorrentes são resultados das percepções (individuais e coletivas), dos processos cognitivos, julgamentos e expectativas de cada pessoa. (FERNANDES, 2003)

A ênfase dada por Lynch (1997) é a consideração do ambiente físico como a variável independente, com destaque na definição das qualidades físicas relacionadas aos atributos de identidade e estrutura da imagem mental. O que a isto o autor chama de Imaginabilidade, a saber:

O ambiente físico como a variável independente, com fins a definir as qualidades físicas relacionadas aos atributos de identidade e estrutura na imagem mental. […] a característica, num objeto físico, que lhe confere uma alta probabilidade de evocar uma imagem forte em qualquer observador dado. É aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais claramente identificadas, poderosamente estruturadas e extremamente úteis do ambiente. IDEM (1997, p. 11)

O autor ainda acrescenta a importância de examinar a qualidade visual da cidade centrando-se na clareza, ou seja, na legibilidade, considerando os ambientes na escala urbana de dimensão, tempo e complexidade, para explicitar em consideração a cidade o modo como percebem seus habitantes. IBIDEM (1997)

Para Tuan (1980) “a percepção é tanto a resposta dos sentidos aos estímulos externos, como a atividade proposital, na qual certos fenômenos são claramente registrados, enquanto outros retrocedem para a sombra ou são bloqueados”. As percepções que um indivíduo tem sobre o ambiente em que se encontra são frutos de sua experiência de vida, portanto, a forma de ver o mundo é bastante pessoal, mesmo que entremeada pelas experiências do grupo em que o mesmo se acha inserido.

Lynch (1997) acrescenta ainda que é conveniente abstrair para a análise [de um estudo de percepção na cidade], três componentes: identidade, estrutura e significado. São eles que comporão uma imagem ambiental, de forma indissociável.

O autor apresenta como conteúdo das imagens das cidades os elementos que remetem às formas físicas, adequadamente, classificados: vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos. (1997).

1.3 PERCEPÇÃO AMBIENTAL

A percepção ambiental segundo Fernandes (2003), pode ser conceituada como sendo uma tomada de consciência do ambiente pelo ser humano, ou seja, o ato de perceber o ambiente que se está inserido, aprendendo a proteger e a cuidar do mesmo.

O conceito de percepção ambiental apresentado por Del Rio e Oliveira (1999), é o entendimento de que constitui um processo mental de interação do indivíduo com o ambiente por meio de mecanismos perceptivos propriamente ditos e, principalmente cognitivos.

Silva (2008), fundamenta a base conceitual de percepção ambiental na Geografia Humanística que desde o final da década de 60 e início dos anos 70 realizou um resgate e uma nova maneira de valorizar as percepções dos indivíduos e considerá-las nas diversas formas de exploração dos espaços e das paisagens. A Geografia Humanística reflete de forma crítica sobre os fenômenos geográficos com o propósito de alcançar o melhor entendimento sobre os seres humanos e suas condições de vida […]. Nesse bojo estão inevitavelmente os sentimentos e ideias sobre o espaço e lugar, cuja busca do entendimento do mundo humano se dá por meio do estudo das relações das pessoas com a natureza.

Para Ferrara (1993), a percepção ambiental é compreendida como sendo a operação exposta da lógica da linguagem que organiza os signos expressivos dos usos e hábitos de um lugar.

Compreender e contextualizar o homem dentro de seu ambiente físico, de sua história e de sua percepção sobre o ambiente (Morán apud, 1990), possibilita informações fundamentais sobre uso de recursos ambientais, principalmente em se tratando de melhoramento de técnicas de manejo, conservação e aprimoramentos científicos.(GARCEZ, 2010)

O lugar onde está cada pessoa no mundo é percebido como o lugar da vida e é o símbolo daquele tipo de vida situado em relação a outras possibilidades, vale dizer então que como se mantêm sempre vivas aquelas escaramuças entre as abstrações idealizadas e as práticas do vale-tudo, é preciso conviver com muita coisa fora dos trilhos. (SANTOS, 1988)

1.4 CIDADE E PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA CIDADE

Vejamos um episódio da vida do teólogo Paul Tillich, […] que nasceu e cresceu em uma pequena cidade da Alemanha Oriental em fins do século passado. A cidade tinha características medievais. Circundada por uma muralha e administrada do edifício da prefeitura municipal construído na Idade Média, dava a impressão de um pequeno mundo, protegido e autossuficiente. TUAN (1983)

As cidades constituem os mais característicos ecossistemas do Planeta, sendo palco das atividades humanas nas mais distintas regiões desde tempos bem remotos. Em sua maioria, tanto as metrópoles como as pequenas cidades configuram seus desenvolvimentos baseados no sistema capitalista, que após a revolução industrial, direcionou a produção do espaço urbano em que a dicotomia homem-natureza foi sendo imposta contínua e gradativamente. BATISTA (2000)

Segundo Filho (2003), o processo de urbanização das cidades e a complexidade de seus problemas e questão são apontados como os principais desafios na busca de um desenvolvimento mais sustentável, principalmente quando se constata o impacto causado pelos centros urbanos, devido à apropriação inadequada dos recursos naturais, causando a degradação e contaminação do meio ambiente. A busca da sustentabilidade ambiental urbana, […] é considerado imprescindível para reverter os impactos ambientais associados à urbanização.

Ao analisarmos as cidades em um contexto mundial, observamos, pois, que apesar das peculiaridades de cada uma, a maioria reflete em seu espaço urbano a ação antrópica no espaço natural, revelando um contraste quase sempre culminando com a degradação ambiental. Essa situação é percebida com maior facilidade nos países periféricos onde se constata a queda assustadora da qualidade de vida dos moradores citadinos em detrimento de uma acelerada urbanização, resultado de um processo desvinculado de ações mínimas do planejamento.

As sociedades ao longo de sua história vão imprimindo suas marcas por meio do modo de apropriação do espaço, isto é, no uso do espaço, onde este por sua vez é a materialização concreta de relações sociais que se realizam, sendo reproduzidas paulatinamente.

Lynch (1997) apresenta um conceito direcionado de cidade no âmbito da perspectiva da percepção ambiental. Para ele olhar para as cidades pode dar um prazer especial, por mais comum que possa ser o panorama. Como obra arquitetônica, a cidade é uma construção no espaço, mas uma construção em grande escala; uma coisa só é percebida no decorrer de longos períodos de tempo. O design de uma cidade é, portanto, uma arte temporal, mas raramente pode usar as sequências controladas e limitadas de outras artes temporais, como a música, por exemplo.

Para Carlos (1994), a cidade é essencialmente o locus da concentração de meios de produção e de concentração de pessoas; é o lugar da divisão econômica do trabalho, é o lugar da divisão social do trabalho dentro do processo produtivo e na sociedade é também um elo na divisão espacial do trabalho na totalidade do espaço.

A questão da percepção ambiental na cidade envolve variados aspectos: sociais, econômico, culturais, ambientais e legais. Há que se destacar a necessidade de entes governamentais fazerem uso de instrumentos legais para o efetivo desenvolvimento das cidades de modo sustentável tornando-as cidades saudáveis. Por ora, partes da cidade recebem essa atenção, no entanto, cabe focar um estudo mais conjuntural, no todo. O desenvolvimento sustentável é aquele que ocorre obedecendo a todos os princípios a respeito da satisfação dos seres humanos respeitando o meio ambiente e buscando, antes de tudo, integrá-lo a esse meio ambiente do qual ele faz e do qual não pode ficar desassociado. FONSECA (2002)

É a partir da delimitação de espaço público, que a cidade figura-se como um contexto onde se dar as relações dos indivíduos, das famílias e de trabalho. Pinheiro (2008) expressa claramente essa situação: “Uma das vertentes que justificam a consolidação desta conjuntura seria o fato da cidade ser, na maioria das vezes, analisada e estudada a partir do macro espaço, ou seja, do espaço público, pondo em segundo plano o espaço privado, da família, da casa e das relações que neste se dão”.

Assim, analisar a cidade, sua complexidade a partir da captação de aspectos do cotidiano das famílias […] e as mudanças ocorridas neste cotidiano […] vincula-se a perspectiva da utilização da categoria espaço tendo como parâmetro as várias singularidades que compõem a cidade. Frente à problemática ambiental, o espaço também se apresenta como categoria fundamental de análise no auxílio à compreensão das formas pelas quais as relações societárias produzem e reproduzem o ambiente, ou seja, produzem e reproduzem o espaço social (RODRIGUES, 1996).

2. ESTRATÉGIA METODOLÓGICA

A primeira etapa da pesquisa consistiu num levantamento teórico quanto às categorias de percepção (legibilidade e imaginabilidade), cidade e percepção ambiental na cidade para conceptualização de um modelo de fundamento estratégico para a revisão bibliográfica. O autor teve como grande respaldo sua vivência profissional na cidade de Rio Preto da Eva. A estratégia utilizada foi o uso da concepção paradigmática sistêmica.

O campo de estudo foi a Região Metropolitana de Manaus, delimitado para a cidade de Rio Preto da Eva. Outras duas cidades, como Manaus e Manacapuru foram estudadas para posterior comparação no âmbito da Região Metropolitana de Manaus. O múltiplo design existente nas referidas cidades ao longo de uma escala temporal decorre de interesses e forças intervenientes, em que, ao mesmo tempo sortida, é também complexa, logo difícil de ser gerida.

O construto proposto visou desvelar quais mudanças aconteceram, ao longo de uma escala temporal, em termos de evidenciar as historicidades ecológicas da cidade, e a forma como elas estão conectadas, e mais, como seus habitantes enxergavam essas relações.

Para o delineamento do constructo sobre a legibilidade ambiental foi utilizado o procedimento de pesquisa bibliográfica, que em seguida foi submetido à análise de caso [cidade] selecionado para o estudo.

Esse constructo consistiu na idealização das inter-relações conceituais de forma a entender e caracterizar o processo de percepção por parte dos habitantes das cidades estudadas. Selecionou-se as ideias centrais de Del Rio (1999), Lynch (1997), Calvino (1990), Tuan (1980), Ferrara (1993), Gorsz (2000), bem como o conceito central do paradigma sistêmico de Morin (2000, 2001).

Foram observadas as seguintes etapas:

a) Com base na questão problema e objetivos, reviu-se a teoria e feita pesquisa sobre os temas relativos à percepção, cidade e paradigma sistêmico;

b) O estudo contemplou duas partes: uma teórica e outra de campo. Na pesquisa de campo, fez-se o uso dos seguintes instrumentos de coletas de dados: entrevista, questionário e observação direta.

c) Adotou-se como critérios centrais as ideias de Lynch (1997) para estruturar os instrumentos de coleta de dados acerca do modelo de identificação de elementos essenciais nas cidades: bairros, limites, pontos nodais, marcos e vias.

d) Estabeleceu-se indicativos de qualidade visual da cidade, quanto a: qualidade visual de forma específica, qualidade visual da cidade de forma geral, indicadores de visibilidade e, preferências e expectativas;

e) Para subsidiar os instrumentos de coleta de dados finais, foi realizado um pré-teste a fim de alinhar possíveis adequações dos instrumentos de coleta de dados.

f) Para complementar a entrevista, confeccionou-se um questionário contendo as seguintes variáveis: visibilidade, percepção de mudanças estruturais e capitalistas, desenho das ruas, e qualidades das cidades quanto à forma. Este último abrangeu questões relativas à consciência do movimento, séries temporais, singularidade, simplicidade da forma e continuidade.

g) Na entrevista com roteiro prévio (estruturada) foi proposto aos respondentes desenhar sua cidade e/ou o trajeto de moradia ao seu trabalho e, também, indicar no mapa o que percebiam.

3. ANÁLISE E RESULTADOS

3.1 COGNIÇÃO DA CIDADE DE RIO PRETO DA EVA

O estudo sobre a cognição da Cidade de Rio Preto da Eva ocorreu a partir da rodovia AM 010 até o marco de início do percurso na estrada da mencionada cidade. Os dados emanaram da aplicação da entrevista semiestruturada e do questionário cuja estrutura dividiu-se em: visibilidade, mudanças estruturais e capitalistas, desenho das ruas e forma citadina.

A cognição dos moradores da cidade de Rio Preto da Eva parece estar atrelada a um parcial entendimento do conceito em questão – problema ambiental na cidade, e não de fato em perceber elementos de força e destaque para a existência de uma cidade legivelmente mais sustentável.

3.1.1 INDICATIVOS DE VISIBILIDADE DA CIDADE DE RIO PRETO DA EVA

O lugar construído para se viver e relacionar. A cidade de Rio Preto da Eva destacou-se dentre outras cidades estudadas como aquela com menos “cara” de cidade. A percepção “in lócus” é de um bairro, ou no máximo de um vilarejo. Independente da observação direta do turista ou do pesquisador, os próprios moradores da cidade demonstram um sentimento de exclusão, mesmo ocorrendo o reconhecimento de que ela faz parte da Região Metropolitana de Manaus.

As características da cidade não são ocorrentes do meio urbano, mas sim de um cenário totalmente ambiental, com forte distinção de uma práxis rural, bem mais próxima entre os seres humanos e o ambiente. No Gráfico 01, constata-se tal fato, onde 95% dos entrevistados concordaram com a assertiva em seu sentido positivo ao referir-se a cidade como um recurso ambiental. Na sua totalidade, os entrevistados percebem a Amazônia como um recurso ambiental em potencial (100%).

Nossa cidade parece um interior, um pequeno vilarejo, nossas casas tem quintais com árvores frutíferas, e bem próximo de nós temos igarapés onde pescamos. Tudo que plantamos em nossas casas, consumimos , as vezes trocamos com os vizinhos, ou quando não, doamos para não estragar. Se for o caso, vendemos para o comércio, como acontece com as casas que possuem mangueiras, goiabeiras, laranjeiras e pupunha. Entrevistado (a) A. da C. S., 30 anos, (2015).

As mudanças estruturais (90%) e ambientais (95%) não são percebidas por conta da influência direta da mídia. A mídia, talvez por ainda não ter tanto interesse, ou pelo fato da cidade não ter conquistado a atratividade do capitalismo, não tem ação interventiva. E, as mudanças ambientais (95%) são perceptíveis, pois a práxis do cidadão de Rio Preto da Eva ainda traz momentos típicos de um ambiente natural, onde pesca, caça e planta. Já as mudanças estruturais (20%) pouco são percebidas pelo fato das transformações em seu design acontecerem principalmente na avenida principal. Numa extensão mais ampla, essas mudanças estruturais ocorrem pelas poucas invasões, e surgimento de lotes para futuras instalações de residências e prédios, seja de interesse privado, seja de interesse do governo na implantação do programa minha casa minha vida.

A cidade quase não muda. Ela parece parada no tempo. O tempo parece que não passa aqui. As coisas mudam somente na Rodovia AM 010. Quem mais altera nossas paisagens florestais são os clandestinos nos ramais próximo a cidade, querendo desmatar e queimar nossa floresta por muito pouco. Acredito que o governo esteja controlando tudo isso. Pois, se ficarmos sem mata, sem floresta nosso clima muda, nossa vida também.  Entrevistado (a) W.C.B, 55 anos, (2015).

Gráfico 01 – Representação gráfica dos dados sobre a Visibilidade Citadina em Rio Preto da Eva, AM. 2015.

Fonte: Wagner Pinto (2015)

3.1.2 MUDANÇAS ESTRUTURAIS E CAPITALISTAS NA CIDADE DE RIO PRETO DA EVA

A cidade do “Paraná da Eva” apresenta características de procrastinação quanto ao processo de urbanização, a cidade tem uma estrutura interiorizada, cercada pela mata e cortada pelo igarapé de Rio Preto, o Paraná da Eva. Ela foi criada na década de 80 como um ponto de parada entre Manaus e Itacoatiara, e parece ainda nem ter chegado a um nível de transição geográfica. Há um forte respeito em preservar os córregos e ribeirões, em perdurar as atividades de criação de animais e plantio doméstico. Isto projeta de alguma forma um design cuja estrutura dificulta acelerar as transformações na estrutura da cidade.

O capitalismo gira em torno de reforçar uma política da agroindústria, ou algo pouco modificante para o seu conjunto urbano. Tanto é que Rio Preto da Eva constitui-se na “Cidade da Laranja”,louvada e lembrada pelo festival da referida fruta na época em que a safra apresenta superávit de produção, justificando assim a realização do festejo – a Festa da Laranja.

A grande avenida da cidade é o trecho da AM 010 cortante no sentido norte-sul da Cidade, onde se desenvolve a área comercial, e se projeta as intenções capitalistas na tímida e pacata cidade de passagem Rio Preto da Eva. O centro capitalista de Rio Preto da Eva gira em torno da feira municipal, onde os feirantes barganham preços iguais aos da capital (Manaus) com os turistas. Na sua expressão mais tradicional, estão as agencias bancárias, lojas comerciais, bares e restaurantes. O comércio é favorecido pela circulação de veículos e de ônibus intermunicipais.

A estrutura da cidade ao longo da AM 010 é repleta de ramais e vias vicinais com acessos sinuosos. Os quarteirões da cidade apresentam problemas morfológicos dificultando estacionamento, com calçadas estreitas e sem possibilidade de ter um transporte público adequado e ciclovias.

A ligação direta com a cidade de Manaus é percebida como positiva pelos entrevistados em se tratando do momento em que a cidade faz parte da Região Metropolitana, e isto ajudou a aumentar as relações econômicas (95%), facilitou o desenvolvimento (95%) e propiciou o crescimento territorial (95%) (Gráfico 02).

A cidade, mesmo com poucos anos de existência, tem sofrido algumas transformações, e os moradores confirmam a assertiva cujo conteúdo defende em primazia a atividade econômica (75%) como a mesma (produção da laranja e hortifrutigranjeiros). Evitando contrariedade, 80% dos entrevistados concordam em mencionar a não instalação de muitas indústrias em território da cidade. Eles também, confirmam (85%) ter havido o crescimento populacional, no entanto, este indicativo não acompanhou o desenvolvimento (85% discordam) desde a fundação da cidade.

Um dado proferido foi quando os entrevistados (95%) afirmaram considerar ou terem a impressão da cidade de Rio Preto da Eva ser mero bairro. Mesmo mencionando (70%) ciência de sua integração ao conjunto de cidades da recém-criada Região Metropolitana de Manaus.

As mudanças em seu contexto urbano são poucas, e os entrevistados (80%) só as percebem depois de finalizadas. Desta feita, a cidade de Rio Preto da Eva demonstra ter menos influência capitalista de uma forma geral, mas o pouco que se faz concentra e monopoliza o suficiente para gerar insatisfação com a vida mais próxima do ambiente e gerar valor agregado ao lugar que se vive, ainda que seja de modo sustentável.

Eu mandei meus dois filhos para a cidade de Manaus, pois não quero ver meus filhos trabalhando na roça, nem mesmo vivendo da agricultura. Eles estão finalizando o ensino médio, vão prestar vestibular, e se Deus quiser vão se dar bem na grande cidade, e em breve nos tirar dessa vida pouco valorizada pelo poder publico. Os governantes só valorizam as cidades que tem dinheiro, Manaus é rica, por isso é superior a todas, a vida deve ser bem melhor lá, pois lá tem tudo. Entrevistado (a) H.S.P., 59 anos, (2015).

Gráfico 02– Representação gráfica sobre os dados de Percepção de mudanças estruturais e capitalista na cidade de Rio Preto da Eva, AM. 2015.

Fonte: Wagner Pinto (2015)

3.1.3 PERCEPÇÃO QUANTO AO DESENHO DAS RUAS DA CIDADE DE RIO PRETO DA EVA

A cidade de Rio Preto da Eva fica na passagem entre Manaus e Itacoatiara, possui uma atividade central não muito intensiva, e, é cruzada pela Rodovia AM 010. A citada Pólis é vista como um lugar de passagem. Tem um sistema desconexo de ruas, pois, há uma expectativa forte de ser uma grande cidade, mas na realidade as suas referências são as ruas de acesso a alguns banhos e cafés regionais.

Adicionalmente a isto, destaca-se a deformidade do espaço onde as ruas subalternas são cheias de buracos, algumas não pavimentadas ainda, e outras inacessíveis pelas péssimas condições.

A parte cruzante da Rodovia AM 010 é bem arborizada e sinalizada. Há uma sensação de uma cidade bem ventilada, talvez pelo fato de estar posicionada em uma localidade alta, do ponto de vista topográfico. No entanto, ao adentrarmos em ruas adjacentes é perceptível a monotonia ao longo de suas vias de circulação.

Há escassez de bairros, se comparada às duas outras cidades estudadas (Manacapuru e Manaus), os entrevistados não conseguiram expressar algo mais concreto quanto a subdivisão geográfica da cidade. A área considerada citadina é bem pequena, e já com problemas estruturais significantes, com ruas esburacadas e não asfaltadas.

De acordo com o Gráfico 03 os entrevistados confirmam o fato da cidade de Rio Preto da Eva (somente 10%) possuir ruas arborizadas. Na assertiva se menciona ser ótima a pavimentação. Todos (100%) os entrevistados foram unânimes em discordarem da pavimentação ser adequada. Juntamente a este dado, reforçam a precariedade da pavimentação das ruas em refletir em um péssimo fluxo para a cidade.

A cidade é vista como abençoada e iluminada por possuir o Cristo Redentor de braços abertos sobre seu território, no entanto, os entrevistados discordaram (100%) do sistema de iluminação e direção no sentido de favorecer o bom transito.

Houve concordância unânime (100%) dos entrevistados indicando a avenida principal (Rodovia AM 010) como a grande protagonista de uma boa imagem para a cidade, não existindo poluição ou qualquer outro indicativo de péssima qualidade ambiental no trajeto em que se atravessa a “Cidade da Laranja”.

Os entrevistados argumentaram como inaplicável o uso de plantas típicas para arborização. Tal resultado foi justificado por indicarem a inexistência de uma política específica e do governo local não atuar nesse sentido. A imagem da existência de árvores e plantas nativas é proveniente da iniciativa dos próprios moradores ao longo de seus terrenos, constituindo uma imagem paisagística independente da intervenção estatal.

As palmeiras e as árvores frutíferas são plantadas por nós moradores. O governo faz muito pouco quanto a criar uma cidade arborizada. Rio Preto da Eva consiste para eles [governantes] resume-se a Avenida AM 010, nossa avenida principal. Entrevistado (a) J. da S. A., 24 anos, (2015).

Gráfico 03 – Representação gráfica dos dados sobre o desenho das ruas da cidade de Rio Preto da Eva, AM. 2015.

Fonte: Wagner Pinto (2015)

3.1.4 PERCEPÇÃO QUANTO À FORMA DA CIDADE DE RIO PRETO DA EVA

A forma da cidade de Rio Preto da Eva foi aduzida pela grande maioria dos entrevistados como uma forma retangular (60%). Outra parte dos entrevistados considerou a forma da cidade mediante um mosaico de vários quadrados (40%). A imagem resultante da forma circundou da ideia de paraíso, sítio, ou interior. A cidade foi referida pelos entrevistados como uma área de muita mata, circundada pela floresta, e o Paraná da Eva (rio) atravessando a cidade como o elemento propiciador de lazer e diversão para os seus moradores.

O formato direto e perceptível são as duas áreas de subidas: a do Cristo Redentor com os seus braços abertos, possibilitando uma visão geral sobre a cidade, onde o seu background da imagem é a floresta e o céu. A outra área, também geradoras de um desenho com as mesmas características da subida do Cristo Redentor, é a da Casa da Farinha, onde há dois bonecos gigantes simulando um garoto e uma garota mexendo em um grande barril de farinha.

Apesar da intenção imagística possibilitada por essas duas áreas, a cidade tem sua imagem comprometida, pois para quem a visita, ela resume-se a imagem descrita nos parágrafos anteriores. Fica parecendo não haver continuidade no sentido norte da cidade.

Independente de sua continuidade, as pessoas desenvolveram ligações fortes com essas formas claras e diferenciadas. Sendo a cena imediatamente identificável aquela decorrente da subida onde fica o Cristo Redentor. Acrescenta-se ainda a praça existente no alto onde se encontra o Cristo, lugar onde há a sensação de um prazer simples e automático, e, conseqüentemente, de satisfação em poder contemplar a cidade e enxergar ser possível caminhar pelas suas ruas.

O design no que diz respeito à qualidade da forma fundou-se nas variáveis de continuidade, singularidade, séries temporais e consciência do movimento. O Gráfico 04, a seguir, demonstra o resultado de cada uma dessas variáveis.

Analisando os resultados (Gráfico 04) os entrevistados (95%) reconhecem a continuidade da cidade pelas pontes ali existentes, onde citaram aquelas existentes ao longo da Rodovia AM 010, mais os poucos bairros e alguns novos loteamentos em áreas próximas a constituída área citadina urbana de Rio Preto da Eva.

Não há praticamente expressão de contradição na cidade. É fato a existência de uma elite dominante no Município, nada obstante a percepção direta é a de uma cidade igual, tanto no contexto ambiental quanto social (5%).

A singularidade em expressão parece contradizer a variável anterior, entretanto esclarece-se o sentido pelo qual os entrevistados indicam existir oposição do ponto vista ambiental. Isto está no fato deles serem bem esclarecidos da ocorrência de um ambiente (construído) com característica timidamente urbana, e um ambiente típico e essencialmente rural. E, isto foi um aspecto bem singular para os entrevistados.

A vida na cidade de Rio Preto da Eva não é muito diferente do nosso sítio. Em ambos locais temos o que plantar e também podemos sair pra pescar. O ambiente de cidade é mais diferente por ter escola, hospital e os serviços do governo. Entrevistado (a) D. C de L, 27 anos, (2015).

Os entrevistados foram unânimes em considerar a percepção de mudanças desde o momento em que vivem na cidade. Já quanto aos indicativos de sinais e de acesso aos bairros, os entrevistados (95% para ambos os itens) confirmaram a inexistência de um senso de direção desqualificando a forma da cidade. Desta feita, há um comprometimento sinestésico do movimento real, pois isto dificulta a clareza das ladeiras, curvas e penetração em vias.

Pode não ser a princípio, tão importante, mas tais indicativos seriam estratégicos para possibilitar uma melhor visibilidade, estabelecer ligações com pontos importantes e imprimir mais qualidade na estrutura da cidade, e assim gerar uma percepção mais satisfatória e compreensível.

Rio Preto da Eva poderia ser melhor, temos tudo para ser uma cidade exemplo, por sermos ainda pequenos, mas há um esquecimento do governo estadual e local em investir em infraestrutura na cidade. Apesar de sermos pouco atrativos, recebemos visita de turistas, e aqui acolá, eles se perdem em bairros e ruas próximos, pois a cidade é falha em indicar seus locais. Ainda bem, que somos um povo prestativo e colaboramos para não termos uma péssima imagem por parte de nossos visitantes. Entrevistado (a) M. B., 39 anos, (2015).

Gráfico 04– Representação gráfica dos dados sobre Qualidade citadina quanto à forma em Rio Preto da Eva, AM. 2015.

Fonte: Wagner Pinto (2015)

4. CONCLUSÃO

A legibilidade ambiental dos moradores da cidade de Rio Preto da Eva pareceu estar atrelada a um parcial entendimento do conceito em questão – problema ambiental na cidade, e não de fato em perceber elementos de força e destaque para a existência de uma cidade legivelmente mais sustentável.

Um grande marco paradigmático para Rio preto da Eva foi a constituição da Região Metropolitana de Manaus, criada pela Lei Complementar Estadual nº 52 de 30 de maio de 2007. Versa a lei: a região é composta por oito municípios: Manaus, Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Novo Airão, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva. A referida lei destaca a extensão da Capital Amazonense com municípios próximos, ainda que distantes, e com baixa densidade demográfica, 21,44 hab./km².

A cidade de Rio Preto da Eva não se vê ainda o fenômeno de verticalização da cidade, no entanto, tendo como ponto de partida a cidade de Manaus, observa-se no início da estrada um tímido movimento imprimindo um design citadino marcado por condomínios fechados, quando estamos indo em direção a elas.

Do ponto de vista paradigmático, Rio Preto da Eva ainda não sofreu modificações econômicas desde a sua fundação, o vínculo da cidade com a capital do Amazonas está no fato de ser a maior no abastecimento de frutas, e até mesmo da política do Estado do Amazonas em fomentar este incentivo tem reforçado o paradigma da perdurabilidade por parte das famílias de Rio Preto em dedicar-se a agricultura. A cidade nas suas áreas centrais não sofreu modificações. E o paradigma, ainda perdura pelos dados de vulnerabilidade social da cidade.

A extensão territorial da referida Pólis é equivalente a de um bairro da cidade de Manaus, mas ainda assim, ela não tem características específicas de um bairro. Sua entrada é marcada pela barreira policial local, há uma estação elétrica e uma rodoviária bem logo no início da área delimitada como urbana, ao passar da barreira policial local.

Apesar do comércio ser marcante logo na entrada da cidade, com uma feira municipal, a mesma tem mais a aparência de um lugar de passagem do que um lugar para se viver. A cidade tem dois marcos importantes: o Cristo Redentor, a primeira vista traz a lembrança, sob a visão do pesquisador, uma réplica da Estátua do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. É notório, mediante a Praça do Cristo Redentor de Rio Preto da Eva, obter uma visão espacial de toda a cidade. Paralelo a Praça do Cristo Redentor, possibilitando praticamente a mesma visão, temos uma área com bonecos gigantes, reproduzindo via arte, o fazer farinha. A primeira vista, pressupõe-se um marco interessante para o turismo, no entanto, a praça dos bonecos gigantes parece perder a identidade pelo abandono, e acabando sufocada pela sua criação artificial, restando apenas uma torre de televisão.

O comércio não tem expressão forte, porém a prestação de serviços constitui uma diversificação turística para as cidades vizinhas, pois é referenciada pelos seus cafés regionais, constituindo quase numa parada obrigatória por quem passa por ela.

Desta feita, ao passar pela cidade do “Paraná da Eva”, só resta à monotonia, na via principal há uma impressão de cidade bem cuidada e arborizada, porém, deixando dúvidas de que haja uma continuidade quando se acessa outras localidades nela referenciada, como por exemplo, os banhos naturais e artificiais. Considerou-se importante o fato de os habitantes que já viviam em Rio Preto da Eva imaginarem esses atributos da cidade.

O Cristo Redentor constitui um marco para a cidade, a via AM 010 Manaus-Itacoatiara é considerada um vetor propulsor para o desenvolvimento das relações comerciais, tanto com a cidade de Manaus, como para a cidade de Itacoatiara. Ela divide a cidade em distritos, e a lógica de crescimento dos distritos dá-se por meio desta via, a leste, e a oeste. O limite de referência da cidade é o Igarapé, sendo também um ponto nodal. Além deste, outros pontos nodais foram constatados: os balneários, a feira do produtor, a igreja católica existente desde a fundação da cidade e os cafés regionais.

A partir do reconhecimento de campo, elaborou-se a estrutura visual de Rio Preto da Eva, traçando uma escala de diagrama com símbolos de elementos citadinos. Para os visitantes, ela tem um pouco mais de forma, sendo isto imprescindível para uma cidade habitável, mas tem poucos elementos reconhecíveis dentre os encontrados, por exemplo, na cidade de Manaus.

Há uma escassez de bairros e marcos reconhecíveis, e uma falta de centros ou pontos nodais conhecidos. Ainda assim, a cidade é caracterizada pela presença marcante de vários limites: a rodovia Municipal e paisagem florestal ao longo da AM 010.

Ao analisarmos os resultados expressos nos instrumentos de coleta de dados, foi notável a ausência de expressão de algo a ser considerado visão abrangente. Os mapas desenhados da cidade foram fragmentados, e centrados em pequenos territórios, já conhecidos. Ou somente o desenho das ruas.

No que diz respeito aos símbolos, o Cristo Redentor foi a principal referência, e a produção agrícola como uma marca de boa relação com a natureza. Houve expressão de sentir-se numa colônia de Manaus, um aspecto por vezes se viam como um bairro. A menção de falta de apoio político e atenção de entes federais mais influentes incentivarem o crescimento da cidade faziam sentir-se um anexo ou um bairro manauara. Ainda não fosse ao momento, mas, em breve isso estaria por acontecer.

A desintegração com a cidade de Manaus é legível quando lhes foi tratado se sabiam se faziam parte da Região Metropolitana de Manaus, pois a cidade na concepção deles em nada mudou. Continua a mesma.

Houve observações sobre a indistinção do cenário físico:

“É quase tudo igual… para mim, no momento em que me desloco de uma parte da cidade a outra, ando pelas ruas, não há diferenças constatadas. As ruas são as mesmas, as casas, e a floresta. O que muda, mas muito pouco, é a AM 010, e por sofrer mudanças lentas fica praticamente impossível visualizar mudanças físicas na cidade”. Entrevistado (a) I.G. do S.S., 33 anos, (2015).

Manaus foi citada como uma alternativa de bom futuro para seus filhos estudarem, cheia de oportunidades, pois a citaram como uma metrópole rica, exemplo para todas as outras cidades do Amazonas seguirem-na como modelo de economia bem sucedida e desenvolvida.

A evidente baixa imaginabilidade desse ambiente citadino dá-se pelas poucas imagens resultantes de seus antigos moradores, indicando insatisfação, falta de orientação e dificuldades em destacar diferenças de suas partes. Mesmo em meio a um entorno babélico, podemos afirmar a existência de um modelo. E, sendo assim, os moradores entrevistados centravam-se para aspectos nos festejos, desvalorizando o aspecto físico e natural que cércea a cidade.

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[1] Bacharel em Administração Pública. MBA em Gestão Pública Municipal. Doutorado em Ciências do Ambiente, linha: Dinâmicas Socioambientais.

[2] Bacharel em Contabilidade. Mestre em Contabilidade e Controladoria.

[3] Bacharel em Contabilidade. Mestre em Engenharia da Produção.

Enviado: Julho, 2019.

Aprovado: Agosto, 2019.

 

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