Exame de atenção computadorizado (EAC) como estratégia diferenciada na gestão da qualidade de vida e na prevenção de acidentes na aviação civil

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Exame de atenção computadorizado (EAC) como estratégia diferenciada na gestão da qualidade de vida e na prevenção de acidentes na aviação civil
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ARTIGO ORIGINAL

COUTINHO, Thalles Francisco [1]

COUTINHO, Thalles Francisco. Exame de atenção computadorizado (EAC) como estratégia diferenciada na gestão da qualidade de vida e na prevenção de acidentes na aviação civil . Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 10, pp. 74-90. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar um sistema inovador para o contexto organizacional aeronáutico, que visa à gestão da qualidade de vida e à prevenção de acidentes, com o intuito de identificar os colaboradores mais vulneráveis a cometer erros no decorrer das suas atividades laborais. Neste sentido, a literatura apresentará o sistema FOCOS e o Exame de Atenção Computadorizado (EAC) em versões diárias e periódicas, descrevendo de forma sucinta o procedimento de implantação do sistema. Em seguida, serão enfatizados os principais benefícios dessa metodologia inovadora, com foco na gestão da qualidade de vida e na prevenção de acidentes na aviação civil. Posteriormente, será utilizada como referência a experiência de sucesso da implantação do EAC no Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (NOTAer), ressaltando os principais benefícios adquiridos com o uso dessa ferramenta. E, por fim, a conclusão de que o baixo nível de atenção é um fator assíduo e normalmente responsável pela maioria dos acidentes, constatando que através do uso de uma ferramenta simples tornou-se possível encontrar o declínio atencional no ambiente organizacional e ainda propiciar a evolução das organizações em segurança e qualidade de vida.

Palavras-chave: Fator Humano, Atenção. Gestão, Qualidade, Prevenção, Segurança.

1. INTRODUÇÃO

Diante do cenário contemporâneo, a tecnologia tem tornado a aviação cada vez mais segura. As aeronaves são fabricadas com sistemas redundantes e com diversos alarmes para auxiliar em caso de falha. Contudo, a indústria do transporte aéreo é escassa em tecnologias que visam à melhora da qualidade de vida e à prevenção do erro humano. Em decorrência disso, o fator humano se caracteriza como a parte mais frágil e instável dos fatores contribuintes. Apesar dessa caracterização desfavorável, a evolução dos estudos na área constatou que para a falha humana acontecer, diversos outros aspectos contribuíram para o erro, atestando que o acidente não possui uma causa única, mas sim uma sequência de falhas que influenciaram consideravelmente para a ocorrência do acidente ou incidente.

Além disso, para os acidentes e incidentes aeronáuticos, em sua maioria, as causas apontam pontos cruciais que afetam a capacidade cognitiva dos tripulantes. Dentre esses pontos, é importante ressaltar a responsabilidade direta da redução radical da habilidade de focar em tarefas, bem como o declínio em funções como a memória, linguagem, assim sendo, vigorosamente responsáveis pela debilitação dos processos cognitivos. A alteração da atenção implica também em dificuldades nas funções psicomotoras, executivas e tomadas de decisão, reafirmando a ideia de que as falhas nos aspectos cognitivos são determinantes nos acidentes aéreos (MARTÍNEZ-ARÁN, 2002).

Embora o baixo nível de atenção seja um assunto pouco discutido, esse perigo precisa ser identificado, pois aproximadamente 40% dos acidentes de trabalho decorrem de declínios da atenção (CABRAL, 2010), que pode ser afetada por diversos fatores, como ansiedade, depressão, distúrbios no sono, uso de álcool, substâncias psicoativas, entre outros. Corroborando com esses fatores, a regulamentação arcaica dos aeronautas compromete a segurança da atividade aérea, colocando em pauta a fadiga, gerada pelas excessivas cargas de trabalho, debilitando a qualidade de vida e afetando diretamente a capacidade atencional dos tripulantes.

Devido à diversidade de aspectos que influem na função atencional dos tripulantes e dos colaboradores de um modo geral, que são parte das organizações na aviação e responsáveis para esta atividade transcorrer, notou-se a importância do auxílio de ferramentas de gestão da qualidade de vida e, mesmo existindo avaliações psicológicas realizadas frequentemente nas organizações da aviação civil, a literatura nos referencia que se faz necessário o uso de ferramentas que auxiliem na identificação de possíveis colaboradores mais vulneráveis a cometer erros no decorrer das suas atividades diárias.

Com o objetivo de avaliar a capacidade atencional, o Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (NOTAer), implementou na sua unidade uma das modalidades de avalição atencional do sistema conhecido como Ferramentas Ocupacionais Computadorizadas em Saúde e Segurança (FOCOS) desenvolvido por Cabral, H.W.S & Cabral R.W.S., 2006, assumindo o pioneirismo em inovação de saúde e segurança na aviação brasileira.

Assim, o propósito do presente artigo é apresentar a metodologia do sistema FOCOS, visando à sinergia da mudança de comportamento com a melhora da qualidade de vida, bem como proporcionar um sistema diferenciado da gestão da qualidade de vida e prevenção de acidentes para aviação civil. E, como referência de sucesso, utilizará a experiência da implantação do Exame de Atenção Computadorizado (EAC) do NOTAer.

2. SISTEMA FOCOS

Sistema idealizado e desenvolvido por Cabral, H.W.S. & Cabral R.W.S., 2006, a metodologia do sistema FOCOS possui um conjunto de exames computadorizados que avalia a capacidade atencional do colaborador, visando à melhora da qualidade de vida e, consequentemente, à prevenção de acidentes de trabalho (CABRAL, 2010).

A princípio, as pesquisas tinham como foco, portadores de Alzheimer e em crianças com transtornos de atenção e, devido à simplicidade e praticidade do sistema, os estudos começaram a se voltar para o setor organizacional, através da utilização do rastreio atencional nos colaboradores com a intenção de avaliá-los. Posteriormente, o foco do sistema tornou-se a segurança de trabalho, a qual desde então, visa à mudança do comportamento e a melhora da qualidade de vida no ambiente organizacional.

As qualidades do sistema FOCOS são instigantes para as empresas, uma vez que o sistema identifica o nível de atenção dos colaboradores com o objetivo de encontrar o indivíduo mais propenso a cometer um erro durante a sua atividade laboral. Por esse motivo, a metodologia FOCOS se ajusta de acordo com o perfil do contratante, possibilitando uma análise apurada em diferentes segmentos industriais.

As análises em segmentos diferenciados são obtidas por meio das versões de rastreio atencional existentes no sistema FOCOS, dentre as quais podemos destacar a versão EAC.

2.1  EXAME DE ATENÇÃO COMPUTADORIZADO – EAC

O EAC (Cabral, H.W.S. & Cabral R.W.S., 2006) se destaca como uma das versões do sistema FOCOS, e é um exame que avalia o desempenho atencional para estímulos visuais, de forma objetiva, independente da escolaridade, através de uma sistemática simples, em que são mostradas três figuras padronizadas, uma delas sendo considerada a correta. Ao iniciar o teste, as figuras aparecem alternadamente e, assim que a figura correta se apresenta, o colaborador emite uma resposta motora, executando esse procedimento até encerrar o tempo. Em seguida, é exposto um questionário rápido com dez perguntas sigilosas de caráter pessoal, adquirindo as informações necessárias para uma análise mais detalhada (CABRAL, 2010).

A partir do perfil de resposta do avaliado, os resultados são analisados através de um suporte online, sempre atendendo aos princípios de ética, sigilo e confidencialidade, obtendo dados referentes à desatenção, impulsividade, velocidade de reação e descontração. Os resultados são cruzados com uma base populacional, e classificados em quatro níveis:

1 – Nível Alterado Significativo (VERMELHO): Apresenta alterações importantes e significativas em alguns dos parâmetros avaliados;

2 – Nível Alterado Inferior (CINZA): Apresenta alterações consideráveis em alguns dos parâmetros avaliados;

3 – Nível Limítrofe (AMARELO): Apresenta alterações sutis em alguns dos parâmetros avaliados;

4 – Nível Normal (AZUL): Não apresenta alterações nos parâmetros avaliados (CABRAL, 2010).

Por fim, os colaboradores que apresentam algum desvio são encaminhados para avaliações clínicas, sociais e psicológicas, para identificar e corrigir as principais causas do declínio atencional. O principal favorecido é o colaborador, dado que em casos nos quais a sua atenção esteja afetada por motivos de saúde, o sistema disponibiliza meios para corrigir esse declínio, possibilitando ações reativas e preventivas de como proceder nessas situações, promovendo uma mudança comportamental tanto na vida pessoal, quanto na vida corporativa do mesmo, de modo que o EAC se perpetue na cultura organizacional, proporcionando estratégias preditivas em sistema diário ou periódico, na incessante busca por colaboradores mais vulneráveis a cometer erros e ocasionar os acidentes.

2.1.1 EXAMES DIÁRIOS

O exame diário é uma versão do EAC que possui um tempo de aplicação de aproximadamente 1 minuto e 26 segundos, normalmente realizado antes do início das atividades ou de procedimentos que envolvam grande periculosidade, visando tornar mais seguro o ambiente organizacional e fortalecer as boas práticas de cuidado com a saúde.

As principais características existentes na versão diária do EAC são:

– Os tempos de realização com o questionário respondido variam de 1 a 2 minutos;

– Não requer um aplicador para acompanhar o exame;

– É necessário um treinamento aos usuários para habituação da ferramenta;

– Para o correto funcionamento, são necessárias máquinas distribuídas em locais de aplicação, de preferência lugares isolados ou que tenham maior ergonomia aos usuários, de modo que não ocorram alterações nos parâmetros avaliados;

– Para fornecer o suporte online, as máquinas são ligadas a um servidor central, e outras infraestruturas de TI;

– O sistema fornece relatórios técnicos individuais e em grupo “online”, de forma que o supervisor responsável consiga efetuar um gerenciamento adequado dos usuários (CABRAL, 2010).

2.1.2 EXAMES PERIÓDICOS

O exame periódico é uma versão do exame com maior tempo de aplicação (aproximadamente 16 minutos) e é feita para uma análise mais detalhada das capacidades atencionais individuais ou em grupo.

Os exames periódicos emitem relatórios de duas formas:

Relatórios Individuais: após o exame do avaliado, os dados são analisados pelo supervisor responsável, abrangendo análises da desatenção, impulsividade, velocidade de reação, descontração e os possíveis fatores responsáveis pelo rebaixamento atencional. Após a análise individual, o colaborador avaliado recebe o retorno dos resultados técnicos e as medidas que deverão ser tomadas, portando como base os resultados alcançados no exame realizado (CABRAL, 2010).

Relatórios em Grupos: após o exame dos avaliados, os dados são analisados pelo supervisor responsável, abrangendo todas as análises anteriores e encontrando os efeitos em grupo. Após a análise, os relatórios são enviados aos gestores responsáveis com as principais causas encontradas e as medidas que deverão ser tomadas, portando como base os resultados alcançados nos exames realizados (CABRAL, 2010).

2.1  PROCEDIMENTOS PARA IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA

O procedimento de instalação do sistema FOCOS e as fases de implantação do EAC, no que tange à versão diária ou periódica, são simples, e o intermédio é feito por Serviços Médicos Especializados (SME), empresa de consultoria comprometida com a medicina e psicologia, tendo como foco a melhora da qualidade de vida e o desenvolvimento de metodologias avançadas em saúde e segurança em diferentes segmentos industriais, oferecendo o suporte necessário desde as fases básicas do projeto, até desenvolvimento contínuo do sistema. As fases de implantação segundo SME (2009) são:

1 – Estruturação/Construção;

2 – Treinamentos;

3 – Habituação;

4 – Fase de aprendizagem;

5 – Fase de formação do banco de dados;

6 – Fase de análise e acompanhamento técnico científico.

Vale ressaltar que as fases possuem uma documentação com as políticas de atenção que contemplam todas as informações sobre os procedimentos, obrigações e normatizações, atendendo sempre aos princípios éticos do sistema FOCOS.

Por se tratar de um sistema multidisciplinar, é necessária a interação contínua de diferentes profissionais da organização para o pleno funcionamento do sistema, como gerentes, supervisores, profissionais da saúde e os colaboradores que realizam os testes. A metodologia é apresentada de forma transparente visando à interação de todos os envolvidos, de modo que os resultados sejam precisos e confiáveis, portando como referência a base de dados do sistema com mais de 1.500.000 de exames aplicados (CABRAL, 2010).

3. GESTÃO DA QUALIDADE DE VIDA NA AVIAÇÃO CIVIL

Nos tempos atuais, a preocupação com a qualidade de vida no trabalho é de extrema importância e, nas organizações é um componente indispensável, pois possui um elo intrínseco e contínuo com a segurança, preservando a integridade de todos os envolvidos em determinada atividade.

A gestão da qualidade de vida no trabalho é um tema ainda em expansão, e quando se perpetua na cultura organizacional, poderá propiciar feitos inéditos na qualidade de vida de todos os envolvidos. Na aviação civil, não é diferente: ainda é um componente em crescimento e, no que se refere ao aeronauta, é de conhecimento público que a regulamentação que rege esta profissão é antiquada e desatualizada para o contexto mercadológico atual. Algumas empresas do setor aéreo se esforçam ao máximo para não fadigar os seus tripulantes, enquanto outras utilizam da falha regulamentar que a profissão possui, para extrair o limite dos seus tripulantes.

Nesse sentido, as falhas nas regulamentações se enquadram em um contexto extremamente perigoso, pois a fadiga se apresenta como um dos principais fatores que declinam a atenção, uma vez que a exaustão compromete a capacidade de resposta cognitiva dos indivíduos, se firmando como um fator assíduo para ocasionar acidentes. No mesmo sentido, a fadiga não é o único fator que implica na qualidade de vida dos tripulantes, existem diversos ofícios da profissão que são responsáveis pela qualidade de vida deficitária do mesmo.

Conforme abordado, a qualidade está diretamente ligada à segurança, e deve existir uma sinergia por completo em ambas as situações, para tornar o ambiente organizacional seguro. Entretanto, para existir essa coesão é necessário um dinamismo autônomo do colaborador para efetuar mudanças comportamentais fora do ambiente organizacional, bem como o empenho da organização em se comprometer a oferecer o suporte necessário aos colaboradores, de modo que exista segurança no ambiente de trabalho, existindo um desempenho de ambos os lados, para que a qualidade de vida seja alcançada.

É notória a complexidade dessa analogia e, para uma melhor compreensão, serão abordados dois conceitos: o conceito básico de qualidade de vida e o conceito básico de qualidade de vida no trabalho.

Existem diversas definições para qualidade de vida e cada uma delas possui sentido em seu contexto de atuação. Por exemplo, o Arellano (2008, p. 6) aponta que qualidade de vida “é o bem estar, no domínio social; na saúde, no domínio da medicina; e nível de satisfação, no domínio psicológico”.

Albuquerque e Limonge-França (1998, p. 41) definem qualidade de vida no trabalho como um:

Um conjunto de ações de uma empresa que envolve diagnóstico e implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais dentro e fora do ambiente de trabalho, visando propiciar condições plenas de desenvolvimento humano para, e durante a realização do trabalho.

Neste contexto, para que se possa analisar a qualidade de vida detalhadamente, Limonge-França (2009, p. 258) apresenta quatro competências, denominadas de “domínios”:

Biológico: domínio que se refere às características físicas herdadas ou adquiridas ao nascer e durante toda a vida;

Psicológico: domínio que se refere aos processos afetivos, emocionais e de raciocínio, conscientes ou inconscientes, que formam a personalidade de cada pessoa e o seu modo de perceber e posicionar-se diante das pessoas e das circunstâncias que vivencia;

Social: domínio que incorpora valores, crenças, papel na família, no trabalho e em todos os grupos e comunidades que cada pessoa pertence e participa;

Organizacional: domínio integrado visando incluir os elementos do trabalho em organizações, parte da cultura organizacional, o porte da empresa, as tecnologias do segmento e os padrões de competividade.

Os domínios biológicos, psicológicos e sociais são os que mais carecem de uma gestão aprimorada, em razão do caráter particular existente nos mesmos, tais como fadiga adquirida fora do ambiente organizacional, estresse, depressão, problemas de saúde, uso de álcool, substâncias psicoativas, relacionamento com a família e outros fatores que debilitam esses domínios e, consequentemente, declinam a atenção.

De acordo com Athayde e Ribeiro (2011), o gerenciamento da própria vida cabe a cada um, tendo como foco a mudança do estilo de vida, que prioriza as boas práticas e cuidados com a saúde, e que resultará em mudanças relativamente significativas para o bom desempenho na organização.

No domínio organizacional, compete à organização saber quais são as suas deficiências e até que ponto está interferindo no desempenho dos colaboradores, tais como fadiga gerada pelas jornadas de trabalho, relacionamento interpessoal em razão da hierarquia da organização, infraestrutura, e todos os elementos que influenciam diretamente nas atividades laborais.

Esta abordagem descreve exatamente a gênese do declínio atencional, e normalmente as limitações presentes nesses domínios são responsáveis pela qualidade de vida deficitária do colaborador, que posteriormente podem gerar os acidentes de trabalho.

O ser humano, em estudos mais recentes de qualidade de vida e qualidade de vida no trabalho, é considerado como um ser biopsicossocial e deve receber uma atenção integral para que o seu equilíbrio biológico, psicológico, social e organizacional seja alcançado e ele possa desempenhar as suas atividades laborais com a maior proficiência possível (ATHAYDE; RIBEIRO, 2011, p. 2).

A atenção integral aos colaboradores poderá ser fornecida de diversas maneiras e, através do “avanço tecnológico das neurociências, tornou-se possível efetuar avaliações neuropsicofisiológicas computadorizadas para as mais variadas condições clínicas encontradas na prática” (QUINTINO, 2015, p. 42). O EAC na versão periódica tem se mostrado eficiente na estratégia de gestão da qualidade de vida, de modo que o colaborador ao tomar conhecimento do seu declínio atencional, consegue identificar os motivos do rebaixamento da atenção e efetuar as mudanças comportamentais necessárias, priorizando as boas práticas e o cuidado com a saúde, conquistando uma estratégia diferenciada na gestão da qualidade de vida, efetuando a promoção da saúde e segurança dos colaboradores.

O auxílio de ferramentas gerenciais estratégicas para melhora da qualidade de vida trará benefícios nas organizações que, até o momento, se desconhece na aviação civil. Os tripulantes e os demais colaboradores conseguirão ter outra perspectiva da sua função, executando sua atividade laboral com mais prazer e dedicação (SILVA; DE MARCHI, 1997).

Nesse sentido, entende-se que a qualidade de vida do colaborador fora do ambiente organizacional impacta no desempenho das suas atividades laborais, do mesmo modo que uma organização sem qualidade de vida no trabalho pode atingir vigorosamente os seus colaboradores. O sistema de gestão FOCOS concede uma estratégia na gestão da qualidade de vida no trabalho, a qual as organizações na aviação civil poderão adotar por meio do EAC, em sua versão diária ou periódica, utilizando uma metodologia inovadora para identificar os principais motivos que ocasionam o declínio atencional, possibilitando o gerenciamento adequado da qualidade de vida dos seus colaboradores, visando à sinergia da mudança de comportamento com a melhora da qualidade de vida. Assim, as organizações na aviação poderão evoluir em qualidade organizacional e, consequentemente, obter êxito na prevenção de acidentes, em razão da efetiva gestão da qualidade de vida dos seus colaboradores.

4. METODOLOGIA PREDITIVA NA PREVENÇÃO DE ACIDENTES

A segurança operacional na aviação, nos últimos anos, vem alçando uma evolução cultural, que em um passado próximo não se presenciava nas organizações. Evolução caracterizada por contínuos estudos na área, bem como a incisiva regulamentação imposta pelo órgão regulador que doutrinou e doutrina, exigindo processos bem estruturados de segurança por parte dos regulados. Regulamentações que permeiam processos efetivos e viáveis na identificação dos perigos, sendo base para o pleno desenvolvimento dos Sistemas de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO).

A identificação dos perigos é o primeiro passo para que a organização comece a desenvolver o gerenciamento da segurança. Após essa etapa é possível efetuar o gerenciamento dos riscos e, posteriormente, programar e colocar em prática as mitigações necessárias, reduzindo a probabilidade e, em algumas situações, a severidade dos acidentes, executando um trabalho de prevenção na aviação civil.

Existem métodos variados para identificar os perigos, e cada organização adota a sua metodologia dependendo do seu tamanho e da complexidade de suas operações. As organizações na aviação civil, quando ainda não possuem um sistema sazonado de SGSO, derivam-se a portar uma cultura voltada para o sistema reativo de identificar os seus perigos, ou seja, analisam os acontecimentos já ocorridos como, por exemplo, extrair informações dos relatórios de acidentes e incidentes, e por eles orientam-se para desenvolver medidas que as distanciem destes perigos. É de conhecimento que essa forma é funcional e obtém resultados. Porém, é uma metodologia que identifica tardiamente alguma situação que por ventura venha causar prejuízo às pessoas e danos às organizações.

Já os métodos preventivos são funcionais e extremamente utilizados nas organizações aeronáuticas, pois têm como premissa identificar previamente os perigos potenciais, através da análise das atividades desse setor, que se enquadra em um contexto intensamente perigoso.

Nessa perspectiva, o avanço tecnológico proporcionou o desenvolvimento de ferramentas preditivas para auxiliar na identificação dos perigos que ameaçam a atividade aérea, permitindo verificar o desempenho dos colaboradores e analisar o que realmente acontece na rotina organizacional, de maneira que os pontos frágeis sejam encontrados e, posteriormente, eliminados. Essa metodologia é extremamente desejada pelas organizações que possuem um SGSO em evolução, arriscando-se dizer que as metodologias preditivas permitirão transformar o futuro da segurança operacional.

As ferramentas preditivas auxiliam na identificação de perigos que atuam de forma latente nas organizações, situações nas quais são difíceis de identificar e até mesmo mensurar e que, quando não identificadas, poderão se manifestar e desempenhar funções de agentes motivadores nos acidentes aéreos.

Os fatores que elucidam um acidente são inúmeros, e é importante ressaltar que os acidentes não acontecem por um único fator, mas sim por uma sequência de falhas que resultam no erro final. Dentre essas falhas, são prevalentes as falhas humanas, que obviamente passaram despercebidos nas organizações. A partir disso, diversos estudos evidenciaram que essa atividade complexa e altamente dinâmica necessita de um monitoramento dos colaboradores, com o objetivo de identificar as condições latentes existentes, visando deter os possíveis responsáveis pelos acidentes aeronáuticos (PERROW, 1999).

Conforme abordado no presente artigo, o sistema FOCOS fornece, por meio do EAC, especificamente em sua versão diária, a possibilidade de monitorar os colaboradores que estão mais propensos a ocasionar um acidente de trabalho, identificando as falhas latentes que se encontram na rotina organizacional. Nessa lógica, as metodologias avançadas como a do sistema FOCOS, estão conquistando cada vez mais as organizações, por atuarem de forma simples e prática, apresentando um caráter preditivo na identificação dos perigos, como uma estratégia diferenciada na prevenção de acidentes na aviação civil.

5. EXPERIÊNCIA DE IMPLANTAÇÃO DO EXAME DE ATENÇÃO COMPUTADORIZADO NO NOTAER

O Núcleo de Operações e Transporte Aéreo da Secretaria da Casa Militar do Estado do Espírito Santo (NOTAer) iniciou suas atividades na década de 80 e, desde então, a sua frota aumentou e a complexidade das suas operações também. É sabido que os tripulantes e todos os colaboradores que fazem parte desse núcleo necessitam estar sempre atentos e preparados para desempenhar suas funções com a melhor proficiência possível.

Partindo dessa premissa, o NOTAer verificou a necessidade do gerenciamento dos seus colaboradores que seria compatível com a complexidade das suas operações, dispondo de um sistema que oferecesse um controle maior dos seus tripulantes e todos os envolvidos, com o objetivo de adotar uma metodologia diferenciada para aumentar o seu nível de segurança.

Nesse sentido, foi estabelecida a constante busca por alguma ferramenta que auxiliasse tal gerenciamento. E devido ao sucesso do sistema FOCOS na mineradora multinacional Vale, os oficiais do NOTAer verificaram a ferramenta utilizada nas áreas de risco e, após analisar os diversos benefícios, houve um diálogo entre NOTAer e Serviços Médicos Especializados (SME), para desenvolver o projeto piloto para aviação brasileira, iniciando-se a parceria entre NOTAer, SME e Vale, com o objetivo de introduzir o EAC na base do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo.

Após a aprovação e inauguração do projeto em 2015, todas as fases de implantação descritas no presente artigo foram seguidas e, no mesmo ano, o sistema estava em pleno funcionamento, obtendo, dessa forma, o pioneirismo em inovação de saúde e segurança na aviação brasileira (QUINTINO, 2015).

Logo em seguida, as experiências do EAC no NOTAer se mostraram bastante positivas para a atividade aérea, revelando “mudanças comportamentais dos tripulantes com maior autocuidado, conscientização com a saúde própria e de terceiros e as boas práticas de vida” (QUINTINO, 2015, p. 45), entendendo como uma evolução da cultura organizacional.

A mudança de comportamento dos colaboradores do NOTAer revela uma experiência de sucesso do sistema, conduzindo o indivíduo a mudar os seus hábitos e evitar a fadiga durante as suas as atividades laborais. Essa experiência intervém na fadiga, que é um dos problemas mais relevantes da segurança operacional na atividade aérea. E que por meio de uma ferramenta como o EAC, as organizações na aviação poderão identificar previamente os tripulantes fadigados.

Essa reflexão se fundamenta no que, segundo Quintino (2015, p. 45) justifica a escolha pelo EAC.

O interesse pelo exame de atenção computadorizado nasceu em virtude da busca por ferramentas objetivas para avaliação da fadiga dos tripulantes, a fim de facilitar e aperfeiçoar as ações de cuidado junto à equipe.

Dessa forma, o NOTAer expõe para a aviação que hoje é possível avaliar a fadiga de forma objetiva, por meio dos declínios atencionais encontrados no  ambiente organizacional. E com isso, realizar as medidas necessárias para mitigar essa adversidade da organização.

Observa-se que a implantação do EAC no NOTAer tem um futuro promissor, deixando evidente que esse sistema é uma nova opção para a evolução da saúde e da segurança da aviação brasileira, consolidando o NOTAer como pioneiro no uso de uma metodologia desse porte, servindo de exemplo para todas as organizações do setor aéreo.

6. CONCLUSÃO

No decorrer da literatura, observa-se que foi apresentada uma nova metodologia de identificação do declínio atencional em organizações da aviação civil, pois é sabido que na segurança de voo, diversos assuntos são debatidos, como a fadiga que, em razão das variadas pesquisas na área, alçou uma evolução considerável no setor. Porém, nem todos os assuntos possuem a mesma repercussão e, é notório, que as pesquisas cientificas geralmente possuem o foco voltado para os estopins dos acidentes e não para condições latentes que originaram as ocorrências

Nesse sentido, nota-se que o presente artigo permeou assuntos que são raramente abordados no âmbito aeronáutico, desenvolvendo um material que auxiliasse as organizações e os órgãos reguladores a refletirem sobre a identificação do declínio atencional, a qualidade no ambiente organizacional e a utilização das metodologias preditivas que não são exploradas na aviação civil.

Sendo assim, essas novas metodologias também poderão ser usadas como uma forma de alertar as organizações da aviação civil que o baixo nível de atenção pode estar presente nos acidentes e incidentes, de maneira a compreender que, a performance atencional do colaborador é um fator vulnerável e que atua de forma latente na rotina laboral das organizações.

Diante dessa analogia, conclui-se que na atualidade é possível inovar com segurança, utilizando as metodologias preditivas para identificar as condições latentes no ambiente organizacional. E, além disso, nota-se que a melhora da qualidade de vida poderá ser uma consequência positiva, sendo o colaborador o principal favorecido, que ao identificar qualquer condição que afete a sua atividade laboral, poderá tratar essa disfunção e posteriormente realizar a sua função com qualidade e segurança.

Portanto, metodologias inovadoras como o EAC são essenciais às organizações da aviação civil, pois podem atuar na qualidade e na segurança simultaneamente, fazendo com que as falhas latentes sejam mitigadas ou até eliminadas.

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[1] Bacharel em Ciências Aeronáuticas (2016) pelo Centro Universitário de Bauru, mantido pela Instituição Toledo de Ensino. Gestor de Segurança Operacional (2016) credenciado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Elemento Certificado de Prevenção (EC-PREV) (2017) e Agente de Segurança de Voo (ASV) (2018) credenciado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA). Piloto de Avião, Piloto de Planador, Professor, Instrutor e Facilitador de Segurança de Voo. Membro do Grupo de Pesquisa Aviation Industry Research (AIR) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Discente da Turma XIV de Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).Especialista em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada.

Enviado: Março, 2018.

Aprovado: Março, 2019.

Bacharel em Ciências Aeronáuticas (2016) pelo Centro Universitário de Bauru, mantido pela Instituição Toledo de Ensino. Gestor de Segurança Operacional (2016) credenciado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Elemento Certificado de Prevenção (EC-PREV) (2017) e Agente de Segurança de Voo (ASV) (2018) credenciado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA). Piloto de Avião, Piloto de Planador, Professor, Instrutor e Facilitador de Segurança de Voo. Membro do Grupo de Pesquisa Aviation Industry Research (AIR) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Discente da Turma XIV de Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).Especialista em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada.

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