Impacto do BIM na construção civil: Estudo bibliográfico

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

FERREIRA, Leonardo Santos Souza [1], MENDES, Yuri Matos [2], ALVES, José Humberto Gomes [3]

FERREIRA, Leonardo Santos Souza. MENDES, Yuri Matos. ALVES, José Humberto Gomes. Impacto do BIM na construção civil: Estudo bibliográfico. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 12, Vol. 09, pp. 05-23. Dezembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-civil/bim-na-construcao

RESUMO

Nesta pesquisa, encontra-se um estudo bibliográfico à respeito das dificuldades enfrentadas por empresas da área de construção civil em aderir ao conceito de Modelagem da Informação da Construção ou Building Information Modelling (BIM). Sabe-se que o seu uso ainda não está bem difundido no território brasileiro, pois poucos fazem uso e não usufruem toda a sua funcionalidade. Foram verificadas diferentes pesquisas, com diferentes respostas de profissionais da área, dados estes coletados por meio de entrevistas. Foi visto que as empresas ainda possuem dificuldade em aderir a este novo método de trabalho, principalmente em relação ao custo de aquisição e de treinamento dos profissionais.

Palavras-chave: BIM, construção civil, dificuldade.

1. INTRODUÇÃO

Nascimento e Schoeler (1998) reiteram que os empreendimentos, como obras, têm a necessidade de se basearem em informações, tais como o projeto, levantamento quantitativo, relatórios, custos, dentre outros. Além disso, é importante saber o percurso da informação por meio de um estudo do fluxo informativo, para que não ocorra nenhum atraso na sua função a que se destina. De acordo com Woodbury (2010), nos anos 80, houve a primeira experiência com sistema de desenho paramétrico por computador, que substituiu as pranchetas. Atualmente, o mais comum é o AutoCad, que ainda é muito usado. Novos softwares caminham com a evolução para projetos feitos em 3D, com capacidade de parametrizar elementos estruturais com suas as reais características. De acordo com Monteiro (2011), o sistema BIM abrange softwares com capacidade de gerar objetos paramétricos em desenho tridimensional, representando pilares, vigas, janelas, escadas, portas, etc. Cada objeto pode interagir entre si, a depender do seu contexto.

Isto torna a execução do projeto mais dinâmica e fácil de executar. O termo BIM nada mais é que uma representação digital das características físicas e funcionais de uma ou mais edificações. Sperling (2002) disserta que a geração das informações por esta tecnologia possui um impacto mais visível em relação às demais, devido a sua capacidade de agrupamento de informações dentre os projetos realizados, já que, com o BIM, é possível acompanhar em paralelo todas as fases projetadas. Para Dantas Filho et al (2015) há muita dificuldade no Brasil em encontrar profissionais especializados na utilização da plataforma BIM, pelo fato de a mesma ainda ser um novo parâmetro de trabalho no país. Dantas Filho et al (2015) afirmam que muitas empresas que buscaram implantar o conceito BIM foram mal sucedidas, já que demanda tempo, recurso e, principalmente, alto nível de aprendizagem dos subordinados à sua aquisição. Então acabam tendo um retrocesso ao método tradicional de uso, sem contar o volume de trabalho e o tempo limitado, que são fatores que influenciam no insucesso das empresas.

Com intuito de tornar mais acessível e ampla esta tecnologia, institutos privados passaram a ensinar a alunos de nível superior a usarem alguns softwares que compõem este conceito. Assim, facilita-se a própria formação como profissional, já que será suprida a carência no processo de mudança, que é cada vez mais rápido (DANTAS FILHO et al, 2015). Esta pesquisa pretende investigar o impacto da tecnologia BIM no cenário de trabalho de engenheiros e arquitetos. Considera-se os resultados de pesquisas coletadas por escritórios de arquitetura e engenharia que apontam críticas à compatibilização de informações com o uso ou não da plataforma BIM. Leva-se em consideração o Decreto Federal[4], assinado em 2020, que relata que, a partir de 2021, será obrigatório o uso do BIM no desenvolvimento de projetos da área da construção civil. Na tentativa de se adaptar a este conceito, muitos profissionais podem sair prejudicados por atrasar a fluidez de futuros projetos ou, até mesmo, podem não conseguir bancar os custos de adesão e treinamento.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 BUILDING INFORMATION MODELING (BIM)

Eastman (2006, p. 2) diz que:

Ao longo da história da Arquitetura, a representação essencial dos edifícios tem sido feita através de desenhos. A leitura de muitos livros mostra como os desenhos e os croquis são parte integrante do pensamento e do trabalho criativo do Arquiteto. […] A substituição de desenhos por uma nova base de representação para o projeto, comunicação e construção dos edifícios é uma mudança revolucionária e que marca época, tanto na Arquitetura como na Indústria da Construção em geral. Estas mudanças alteram as ferramentas, os meios de comunicação, e os processos de trabalho.

Eastman et al (2014) definem que para se ter melhor precisão em um modelo virtual, é preciso construir de forma digital, ou seja, fazendo uso da tecnologia BIM, já que, computacionalmente, o projeto gerado possibilita melhores dados relevantes, o que propicia uma melhor execução do empreendimento. Para Ayres Filho; Azuma e Cheer (2008), o BIM é um conceito que melhor organiza e gerência a informação utilizada durante o ciclo de vida de uma construção, desde a fase do projeto até a sua demolição. Tem-se a possibilidade de fazer alterações no modelo de criação, executar cortes e elevações a partir da própria planta, dentre outras. Ademais, facilita a produção de planilhas orçamentária e as especificações de materiais. De acordo com Chien; Wu e Huang (2014), ao implantar a plataforma BIM, a empresa deve estar ciente que há riscos que podem vir a lhe prejudicar como, por exemplo, a confecção de novos projetos relacionados a técnica, gestão e pessoal.

Pode-se destacar, ainda, que a pequena quantidade de bons profissionais disponíveis, a falta de normas BIM, ausência de comunicação entre dados, que é ineficiente e a dificuldade no processo da gestão de mudança são alguns problemas recorrentes. Atualmente, o BIM aponta para uma nova modernização no que toca à representação visual de edificações. Por ser feito a partir de modelações daquilo que é real, de forma virtual e tridimensional, para que possa demonstrar e representar os elementos que compõe toda a edificação, possui alguns benefícios (CRESPO; RUSCHEL 2007). A visualização em 3D é uma das grandes vantagens do BIM, pois os softwares apontam, com facilidade, as incompatibilidades que o projeto apresenta. Assim, permite que os profissionais busquem respostas e soluções com maior velocidade e corrija os problemas. Contudo, as ferramentas aliadas ao BIM exigem certo grau de conhecimento em projetos e sobre a usabilidade da própria tecnologia (KYMMEL, 2008).

Kymmel (2008), ainda, reitera que muitas empresas têm grandes dificuldades em encontrar profissionais que saibam manusear os softwares do BIM com competência, e, para isso, necessitam treinar os seus projetistas, demandando tempo e recursos, sem contar o fato de que muitos profissionais relutam em trocar o sistema computacional já existente pelos softwares com plataforma BIM, o que prejudica a própria equipe, pois a falta de concordância pode dificultar a chegada aos resultados favoráveis, no fim das contas.

2.2 SOFTWARES DO BIM

Eastman et al (2014) ressaltam que os softwares com a tecnologia BIM cada qual tem sua funcionalidade e ferramentas específicas voltadas ao projeto. Durante a escolha de um deles, pode haver interferência nas práticas de produção, interoperabilidade e nas capacidades funcionais da organização de diferentes tipos de projetos, já que não existe uma plataforma ideal para cada empreendimento. Os softwares BIM mais comercialmente utilizados são Autodesk Revit, Autodesk  Navisworks, Bentley Arquitecture e ArchiCAD. Entretanto, há outros que, no mercado, são gratuitos e mais leves, em termos de espaço no disco rígido, como Blender 3D e o VisualPV3D. Cardoso (2012) ainda define resumidamente alguns desses softwares:

  • Autodesk Revit: É um software desenvolvido especificamente para BIM, em que contribui no auxílio aos projetistas durante a modelação do projeto. Disponível como um aplicativo que possibilita a combinação das capacidades do Revit architecture, Revit MEP e Revit Structure;
  • ArchiCAD: É um software de arquitetura BIM CAD que possibilita juntar arquitetura com engenharia durante todo o seu processo. É reconhecidamente o primeiro CAD desenvolvido e pertencia à Apple Macintosh;
  • Autodesk Navisworks: É mais um software BIM que possui semelhanças com os anteriores, mas há um foco maior na gestão e simulação da obra, atuando como gerenciador de obra virtual.

2.3 AS VANTAGENS DO BIM

A visualização que os softwares com a plataforma BIM oferecem ao usuário apontam para uma melhor compreensão espacial da obra. Florido (2007) e Laubmeyer; Magalhães e Leusin (2009) afirmam que, em qualquer momento, é possível visualizar a obra de forma tridimensional. Laubmeyer; Magalhães e Leusin (2009) acrescentam que, ao utilizar softwares baseados em BIM, os desenhos apresentaram maiores detalhes com mais facilidade, e, consequentemente, reduz-se o tempo que os engenheiros e arquitetos perdem ao fazer em papel ou softwares em 2D, já que, com os softwares do BIM, o projeto ganha melhor foco e preocupa-se com as formas de representação gráfica. Todo o projeto é salvo automaticamente após realizar alterações, ou seja, quando se altera alguma dimensão ou muda-se algum dado da planta, é atualizado automaticamente para o restante do projeto. Quando se trata de custos, essas alterações não surtem efeito na maquete eletrônica (FLORIO, 2007).

Manzione (2013) diz que o BIM atua no procedimento relacionado à interação entre as fases de uma obra e o gerenciamento de atividades da mesma, o que, para ele, contribui para com a moderação de preços, qualidade e tempo. O BIM também favorece a comunicação entre os diferentes agentes envolvidos com a edificação durante todo o seu ciclo de vida.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este artigo enseja-se com a proposta de uma pesquisa bibliográfica, e, assim, buscou-se por dados e análises que fundamentam o desenvolvimento do trabalho. Como estratégia de pesquisa, foi realizado um estudo que teve como objetivo a aplicação de questionários em uma pesquisa de campo, coletando-se amostragens, com escopo de auferir estes dados e compara-los. Foram selecionados, ao acaso, três artigos acadêmicos, com o mesmo caráter de pesquisa e o BIM como protagonista. São pesquisas quantitativas que ofereceram parâmetros para as análises à respeito do uso do BIM em escritórios de arquitetura ou engenharia. Assim, foi possível apontar quais as principais dificuldades destes profissionais em adotar o BIM. A primeira pesquisa ou Pesquisa 1, realizada por Barreto; Sanches e Almeida (2016), teve, como objetivo, aplicar um questionário para empresas de arquitetura e engenharia, auferindo-se o uso do BIM. A pesquisa constou cerca de cem respostas, das quais trinta e nove usam a modelagem BIM e sessenta não fazem o seu uso.

Para a segunda pesquisa por Moreira e Ribeiro (2015), que será chamada de Pesquisa 2, foram feitos questionários para profissionais da construção civil que usam a plataforma BIM a um certo período, bem como outro questionário para aqueles que não fazem uso. As empresas selecionadas partiram de indicações de centros de treinamento de programas com o conceito BIM, localizadas em Belo Horizonte e Goiânia. Enquanto na terceira pesquisa ou Pesquisa 3, cujo autores são Souza; Amorim e Lyrio (2009), objetivou-se estudar os processos de trabalho dos arquitetos brasileiros a partir do uso do BIM, buscando-se identificar as mudanças que a plataforma provocou no dia a dia de trabalho. Para isso, aplicou-se questionários com cerca de trinta escritórios de arquitetura, com questões de múltipla escolha, em que permitiu-se mais de uma resposta. Com os dados obtidos, foi possível realizar uma comparação das pesquisas, e, assim, realizar uma discussão com foco nas dificuldades que os profissionais passaram com uso da plataforma BIM.

Por fim, apresenta-se as sugestões que favorecem benefícios aos projetistas que possuem escritório e àqueles que pretendem montar o seu próprio local de trabalho.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1 PESQUISA 1

Barreto; Sanches e Almeida (2016) aplicaram um questionário aos profissionais da engenharia e arquitetura, no intuito de obter um parâmetro quantitativo acerca do uso da tecnologia BIM. Avaliou os motivos que os levaram a adquirir a plataforma BIM, o quanto pode ser viável e o porquê de certos profissionais não aderirem ao BIM. Os dados coletados forma organizados em gráficos, que estão representados da Figura 1 até a Figura 5. De acordo com as respostas demonstradas na Figura 1, referentes à opinião dos entrevistados em saber o quanto acham que o BIM está presente no mercado de trabalho, a maioria acredita que de dez projetos executados, no mínimo dois foram feitos com o BIM, o que equivale a 51% dos entrevistados, um valor que reduz à medida que aumenta a quantidade de projetos, pois, apenas 1% afirma que a cada dez projetos, seis foram feitos com a tecnologia BIM, enquanto 3% dizem que a plataforma não é utilizada no Brasil, o que mostra que o cenário do mercado brasileiro tem baixo índice de uso.

Figura 1 –  Em sua opinião, o quanto você acha que o BIM está presente no mercado brasileiro?

Fonte: Gráfico elaborado pelos autores (2020)

Toda e qualquer mudança pode gerar dificuldades, até que se habitue às novas rotinas. Como aconteceu com os profissionais entrevistados da pesquisa de Barreto; Sanches e Almeida (2016), em que tiveram dificuldades na adaptação de sua rotina de trabalho ao se depararem com a tecnologia BIM. Muitos alegaram que, no início, gerou-se desconforto, mas, com a prática, acostumou-se com o uso, principalmente quando se trata de empresas com profissionais especializados em AutoCAD, uma vez que esses profissionais entregam o seu projeto com muita qualidade e competência. Ao ter que aderir às modelações tridimensionais, muitos carecem da necessidade de se adaptar, para que possam entregar o seu produto com o mesmo nível de qualidade que faziam ao utilizarem as ferramentas passadas. Na pesquisa de Barreto; Sanches e Almeida (2016), 80% dos entrevistados alegaram que o uso do CAD ainda se mantém, seja por dificuldades pessoais, seja por falta de interesse em aderir a um novo conceito. Os restantes afirmam que apenas utilizou a plataforma BIM como teste, já que não se disponham aos custos de treinamento, custo de adesão dos softwares e a falta de extensas bibliotecas para modelação.

Com base nas empresas estudadas na Figura 2, 24 escritórios de projeto civil responderam que os motivos os que levaram a aderir à plataforma BIM foi devido aos softwares gerarem mais detalhes e informações em seus projetos, o que contribui muito para correção de possíveis erros no projeto. Em seguida, houve vinte e dois relatos das empresas que optaram em utilizar devido às facilidades de uso, seja para criar ou alterar dados no projeto e/ou porque reduz a carga horária de serviço, conforme é visto na Figura 2. Os softwares que compõe o BIM são bastante intuitivos e auto informativos, induzindo, aos usuários, as melhores opções de uso que favorecem a demanda e bons resultados no produto final.

Figura 2 –  Por qual motivo a sua empresa optou por utilizar o BIM?

Fonte: Gráfico elaborado pelos autores (2020)

Cerca de 26% dos entrevistados disseram, na Figura 3, que houve diferença na satisfação de boa parte dos clientes quanto aos projetos realizados pela plataforma BIM. Pode-se concluir, com este dado de pequeno valor, que a plataforma não está bem empregada ou utilizada, já que a visualização tridimensional permite que clientes, mesmo aqueles que não possuem conhecimentos técnicos em projeto, consigam enxergar como será o decorrer de seu empreendimento.

Figura 3 – A partir da utilização do BIM nos projetos da empresa, notou-se alguma mudança quanto à satisfação do cliente?

Fonte: Gráfico elaborado pelos autores (2020)

Sabendo que o BIM traz, consigo, ferramentas completas e de fácil manuseio, o que permite modificações com pouca dificuldade, alguns profissionais da construção civil atentam-se à sua adesão, já que muitos estão cientes que será inevitável o uso da plataforma e que o mercado logo irá cobrar. Na pesquisa de Barreto; Sanches e Almeida (2016), foi verificado o custo que as empresas sujeitam ao aderir à plataforma BIM e constatou-se que mais de 70% tiveram a maior parte dos gastos ao implantar os softwares. Os investimentos com treino dos profissionais, atualização e manutenção de seus aparelhos de trabalho e o tempo que levou para realizar todas as demandas e capacitações foram fatores evidentes, citados tanto pelas empresas de engenharia civil quanto de arquitetura. Em relação aos entrevistados na Figura 4, cerca de 55% deles afirmam que obtiveram lucro ao implantarem o BIM em sua empresa. O que corresponde à maioria deles, mas que ainda é pouco.

Dentre esses dados, 47% conseguiram lucro em apenas seis a dose meses de uso. Por outro lado, outros 23% tiveram prejuízo ao implantar a plataforma. Os autores Barreto; Sanches e Almeida (2016)  justificam, em seu estudo, que muitos desses prejuízos estavam correlacionados ao tamanho da empresa e à quantidade de pessoas envolvidas, que necessitaram de treinamento para o uso, sem contar os equipamentos que deveriam ser adquiridos e/ou atualizados.

Figura 4: Quanto tempo foi preciso para se ter retorno financeiro do investimento?

Fonte: Gráfico elaborado pelos autores (2020)

Entre todas as empresas consideradas pela pesquisa, 69 delas não aderiram ao uso da plataforma BIM e apenas oito utilizaram como teste. Os principais motivos daqueles que recusaram ao uso foi devido à falta de capacitação dos profissionais envolvidos, ao elevado preço de aquisição dos softwares e à falta de uso no mercado como é visto na Figura 5. A falta de investimento do governo no ensino superior, que faz com que jovens formem já com conhecimento suficiente para aplicarem e utilizarem os softwares que compõem o BIM, como ferramenta de trabalho, é reflexo da atual situação, uma vez que os profissionais que já atuam no mercado têm a necessidade de realizarem treinamentos, e, dessa forma, precisam de tempo e recurso para tal.

Figura 5 – Porque a sua empresa optou por não utilizar o BIM?

Fonte: Gráfico elaborado pelos autores (2020)

4.2 PESQUISA 2

Nesta pesquisa, aplicou-se um questionário com vinte e uma empresas brasileiras pelos autores Moreira e Ribeiro (2015), sendo que nove delas não fazem uso da plataforma BIM e doze utilizam. A necessidade dos dois tipos de questionário ocorreu devido à diferença de experiência com o uso do BIM, de profissional para profissional. A pesquisa de Moreira e Ribeiro (2015) foi realizada e respondida a partir do correio eletrônico. Suas respectivas respostas foram agrupadas em gráficos. Os dados foram transcritos da Figura 6 até a Figura 8. De acordo com a pesquisa, a maioria concorda que o BIM é o futuro dos projetos, apesar de afirmarem que o mercado, de forma geral, ainda não conhece bem esta tecnologia. Moreira e Ribeiro (2015) ainda interpretam essa informação dizendo que muitos conhecem esta tecnologia, porém não fazem bom uso, com todos os seus proveitos.

Percebe-se, na Figura 6, apesar de ser um valor baixo, cerca de 10% dos entrevistados desejam não ter adotado o BIM como plataforma de trabalho. Isso pode ser reflexo das dificuldades enfrentadas pela empresa, como, por exemplo, com os custos em treinamento e equipamentos adequados ao serviço. Em contrapartida, 80% discordaram desta afirmação, o que demonstra notoriedade para o BIM, já que a tendência no mercado é passar a usar a tecnologia BIM em seus projetos com o decorrer do tempo.

Figura 6 – Percepções sobre o BIM

Concordo Não concordo e nem discordo Discordo
BIM é o futuro em projetos 82% 18% 0
BIM é colaboração em tempo real 61% 39% 0
O mercado brasileiro ainda não sabe direito o que é o BIM 61% 17% 22%
O mercado ainda não sabe direito o que é o BIM 61% 16% 23%
Os empreiteiros irão cada vez mais insistir para que adotemos BIM 41% 40% 19%
Os clientes irão cada vez mais insistir para que adotemos BIM 41% 54% 5%
Se não estiver ligado ao modelo CAD, não é BIM 18% 27% 55%
Informação modulada só funciona no programa que ela foi desenvolvida 11% 32% 57%
Eu prefiria não ter adotado BIM 5% 14% 81%
BIM não facilita projeto ou métodos de construção sob medida 0 20% 80%
BIM é sinônimo de CAD 3D 0 5% 95%
BIM é só para novos projetos, não para reformas/ remodelações 0 8% 92%

Fonte: Tabela criada pelos autores (2020)

Também foram verificados, na Figura 7, os benefícios que o BIM trouxe para o cotidiano dos usuários da ferramenta. Percebeu-se uma facilidade em alterar dados do projeto e a visualização tridimensional que lhe é proporcionada. Esses foram os principais requisitos da aquisição, já que a plataforma traz, consigo, sistemas avançados, com comandos intuitivos e de fácil manuseio. Nota-se, também, que os custos com o projeto e sua a rentabilidade, foram benefícios para 33% dos usuários. Contudo, demonstra-se uma certa dificuldade para a maioria, pois infere-se que poucos obtiveram sucesso com o tempo de uso. De acordo a Figura 7:

Figura 7 – Benefícios obtidos com o BIM

Facilidade de se modificar o projeto 92%
Melhor visualização / entendimento do projeto 92%
Compatibilização de projetos 83%
Aumentar a produtividade 83%
Diminuir os erros do projeto 83%
Levantamento de quantitativos 67%
Obter um orçamento mais real 67%
Melhorar a qualidade do produto final 67%
Melhorar a qualidade do processo de produção 67%
Melhorar a qualidade do projeto 67%
Diminuir o tempo de projeto 67%
Melhorar a coordenação entre os agentes do empreendimento 58%
Melhorar a comunicação entre os agentes do empreendimento 58%
Melhor experiência para o cliente 50%
Obter um cronograma mais real 42%
Aumentar a rentabilidade 33%
Diminuir o custo de projetos 33%

Fonte: Tabela criada pelos autores (2020)

Como a pesquisa abrange em usuário e não usuário do BIM, houve diferentes respostas quanto às principais dificuldades que tiveram ao implantarem a plataforma, como indica a Figura 8. Para aqueles que fazem uso da plataforma, a incompatibilidade com parceiros e o gasto com programas foram as principais dificuldades. Já aqueles que não fazem uso da plataforma, apontam a falta de tempo para implantarem e treinarem a equipe. Esses foram os motivos mais pertinentes. No geral, nota-se que as empresas que não utilizam o BIM demonstram menos dificuldades em relação as que já fazem uso. Moreira e Ribeiro (2015) justificam que tais empresas preferem manter da forma em que se encontram ao invés de migrarem de um sistema para outro. É muito comum que as empresas optem por manter o sistema atual de trabalho, já que se encontram numa zona de conforto por conseguirem atender às expectativas dos clientes. Contudo, o próprio mercado pode vir a cobra-los com o tempo, e, assim, podem precisar aderir à plataforma.

Figura 8 – Dificuldades em implantar o BIM

USUÁRIOS DO BIM NÃO USUÁRIOS DO BIM
Incompatibilidade com parceiros 58% Falta de tempo de se realizar a implementação 56%
O custo dos programas 50% O tempo de se treinar a equipe 56%
Resistência da equipe 42% Mudar o fluxo de trabalho 33%
Encontrar pessoas com conhecimento técnico 42% Encontrar pessoas com conhecimento técnico 33%
O tempo de se treinar a equipe 42% O custo de se treinar a equipe 33%
O custo de se treinar equipe 42% Incompatibilidade com parceiros 22%
Mudar o fluxo de trabalho 33% Necessidade de criar uma nova biblioteca 22%
O custo dos equipamentos 25% O custo dos programas 22%
Necessidade de criar uma nova biblioteca 17% Resistência da equipe 11%
Incompatibilidade com os trabalhos desenvolvidos 8% Incompatibilidade com os trabalhos desenvolvidos 11%
Falta de tempo de se realizar a implementação 8% O custo dos equipamentos 0%

Fonte: Tabela criada pelos autores (2020)

4.3 PESQUISA 3

Kymmel (2008) realizou uma pesquisa de campo, em que foram selecionadas cerca de trinta empresas brasileiras para responderem à um questionário via e-mail, entre os meses de agosto e setembro de 2008. Além disso, foi feita uma reunião com algumas das empresas, em outubro de 2008, tendo-se, como finalidade, uma melhor apuração acerca das questões envolvidas no estudo. Os dados obtidos na pesquisa de Kymmel (2008) foram organizados em gráficos. Seus dados são encontrados da Figura 9 à Figura 11. A pesquisa abrangeu treze escritórios de arquitetura localizados no Brasil. Dentre eles, cerca de 46% fazem uso da plataforma BIM como teste, enquanto 23% utilizam em todos os projetos e outros 23% na maioria dos seus projetos. Em contrapartida, cerca de 8% não fazem uso, o que aparenta ser um bom indício estatístico do uso do BIM, já que representa a minoria dos utilitários da plataforma, como se vê na Figura 9.

Figura 9 – Estágio de implantação de uso do BIM

Fonte: Gráfico criado pelos autores (2020)

Os projetistas apontam, como principal motivo para a aquisição da plataforma BIM, na Figura 10, o fato de o projeto possuir melhor qualidade e facilidade ao realizar modificações, o que garante melhor prazo de entrega. Como o sistema oferece ferramentas que, automaticamente, geram cortes em diferentes pontos e há a possibilidade de visualização em diferentes perspectivas, os projetos tendem a ser finalizados mais rapidamente, em relação à forma tradicional de uso. Outro fato interessante é que a pesquisa de Kymmel (2008) reitera que cerca de 2% dos clientes exigiram o uso do BIM nos projetos, o que mostra que os clientes notaram as vantagens que o BIM oferece, pois, até mesmo aqueles que são leigos em projetos, conseguem identificar melhor os elementos de uma determinada obra por meio de um sistema tridimensional.

Figura 10 – Por que buscou a tecnologia?

Fonte: Gráfico criado pelos autores (2020)

Cerca de 25% dos escritórios de arquitetura responderam que houve resistência da equipe à mudança do novo software, bem como falta de tempo para implantarem o uso da tecnologia BIM. Essas foram as principais dificuldades enfrentadas por eles ao aderirem a este novo conceito, como mostra a Figura 11. Muitos escritórios de projetos para construção civil sofrem com divergência de opinião da equipe, ainda mais quando se trata em implantar a plataforma BIM, já que os profissionais necessitam do treinamento, enquanto o mercado continua a funcionar. A depender da demanda de cada empresa, esse fator pode ser ou não decisivo no final da entrega do produto aos clientes.

Figura 11 – Dificuldades para implantação da tecnologia BIM

Incompatibilidade com parceiros de projeto 16,67%
O software não se adequa ao trabalho desenvolvido 8,33%
Carência de profissionais especializados 8,33%
Resistência à mudança de software pela equipe 25%
Custo elevado com treinamento de pessoal 0%
Custo elevado do programa 8,33%
Falta de infraestrutura de TI 8,33%
Falta de tempo para implantação 25%

Fonte: Tabelo feita pelos autores (2020)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo principal deste trabalho foi demonstrar e avaliar como diferentes empresas se portam diante da adoção de um novo sistema de trabalho, que, no caso em questão, é a plataforma BIM. Ao decorrer da pesquisa, pôde-se afirmar que, para efetivar a implantação do BIM e para que seja bem utilizado, faz-se necessário que as empresas invistam em treinamento e na aquisição dos softwares. De acordo com a revisão bibliográfica, realizada com diferentes pesquisas documentadas, percebeu-se que boa parte das empresas ainda possuem dificuldades ao aderirem ao uso da plataforma BIM. Muitas delas apenas fizeram como teste, por falta de tempo, capital para aquisição dos softwares e treinamento dos funcionários. A Pesquisa 1, de Barreto; Sanches e Almeida (2016), demonstra que as empresas que participaram do questionário obtiveram mais benefícios em relação às dificuldades enfrentadas com o uso do BIM. Isso mostra que elas são bem preparadas e visam ter melhores quantidades de detalhes e informações a serem adquiridas.

Ademais, a ferramenta facilita o processo de criação de novos projetos, pois conta-se com menores taxas de erro, entre outros fatores. Na Pesquisa 2, feita por Moreira e Ribeiro (2015), demonstrou-se que muitos dos entrevistados não utilizam o BIM como ferramenta principal. Preferem manter o método tradicional, apesar de acreditarem que o BIM seja o futuro no mercado brasileiro. A própria pesquisa consta que o BIM traz benefícios ao adotá-lo, mas que deve haver iniciativas para que, assim, possa-se transpor quaisquer que sejam as dificuldades.  Por fim, na Pesquisa 3, de Kymmel (2008), nota-se que há uma boa quantia de empresas que fazem uso da plataforma, apesar da maior parte utilizarem apenas para teste. Foi verificado que suas maiores dificuldades se dão em razão dos custos elevados dos softwares e que a equipe que prefere manter-se na zona de conforto, apoiando-se nos métodos tradicionais para realizar projetos. O que pode não ser um bom sinal, em decorrência do mercado, visto que, cada vez mais, o BIM cresce e se populariza nacionalmente.

Com relação às três pesquisas, foi possível notar como o BIM é pouco utilizado. Muitos preferem apenas usar como testes, outros preferem se abster, enquanto poucos aderem ao uso. Contudo, foi notório o quanto a plataforma traz benefícios aos profissionais de arquitetura e engenharia. O mais comum é a possibilidade de parametrizar os projetos realizados. Dentre todas as dificuldades que ocorrem nas três pesquisas estudadas, a mais comum delas é o custo de aquisição da plataforma e treinamento de pessoal, por ser uma plataforma com muitas variedades de ferramentas, com alta tecnologia e pouca demanda de adesão, o preço de aquisição tende a elevar e a vida profissional de muitos projetistas tende a passar por dificuldades ao aderirem à este novo conceito. No Brasil, não há muitos incentivos por parte do governo para adesão do BIM em empresas de engenharia e arquitetura. Apesar do Decreto Federal sancionar o uso obrigatório da plataforma a partir do ano de 2021, não estabelece nenhuma verba que reduz os custos para a aquisição do mesmo.

Com a dificuldade em aderirem à este novo conceito, torna-se um problema recorrente à estes profissionais da construção civil. Como proposta de solução, dever-se-ia exigir, do Governo, investimento no aprendizado do uso do BIM para os estudantes que estão no ensino superior, para que, futuramente, já tenham como base curricular este conceito e não venham a necessitar de treinamentos e gastos excessivos, podendo, também, adaptar-se desde cedo às demandas do mercado de trabalho.

REFERÊNCIAS

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CHIEN, K-F.; WU, Z-H.; HUANG, S-C. Identifying and assessing critical risk factors for BIM projects: Empirical study. Automation in construction, v. 45, p. 1-15, 2014.

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EASTMAN, C. et al. Manual de BIM – Um guia de modelagem da informação da construção para arquitetos, engenheiros, gerentes, construtores e incorporadores. Porto Alegre: Bookman Editora, 2014.

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APÊNDICE – REFERÊNCIA DE NOTA DE RODAPÉ

4. Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/D10306.htm

[1] Bacharelando em Engenharia Civil pela Faculdade Independente do Nordeste – FAINOR.

[2] Bacharelando em Engenharia Civil pela Faculdade Independente do Nordeste – FAINOR.

[3] Orientador.

Enviado: Outubro, 2020.

Aprovado: Dezembro, 2020.

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