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Flexibilidade na Psicanálise: A importância da adaptabilidade do profissional no contexto clínico contemporâneo

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CONTEÚDO

REVISÃO INTEGRATIVA

SILVA, Bruno Burin [1]

SILVA, Bruno Burin. Flexibilidade na Psicanálise: A importância da adaptabilidade do profissional no contexto clínico contemporâneo. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 12, Vol. 03, pp. 05-29. Dezembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/flexibilidade-na-psicanalise, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/flexibilidade-na-psicanalise

RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo analisar de que maneira a psicanálise, enquanto prática clínica, tem contribuído e se adaptado às exigências do contexto contemporâneo. Para isso, foi realizada uma revisão integrativa da literatura, investigando como os profissionais têm articulado conceitos clássicos da psicanálise com uma época marcada pelo enfraquecimento das estruturas simbólicas, pelo imperativo ao gozo, e a crescente medicalização do sofrimento. O estudo também explora discussões sobre o desejo, a angústia, a padronização diagnóstica, as sessões de curta duração e a prática clínica online, propondo uma reflexão crítica sobre os desafios da atualidade. Conclui-se que a psicanálise precisa se manter flexível e inovadora, respondendo aos desafios contemporâneos sem perder de vista seus fundamentos teóricos, mantendo-se uma prática indispensável para lidar com a subjetividade no mundo moderno.

Palavras-chave: Psicanálise, Clínica, Contemporaneidade.

1.  INTRODUÇÃO

A psicanálise, desde sua criação por Sigmund Freud (1856-1939) no final do século XIX, se mostrou uma ferramenta eficaz no modo de compreender e lidar com o sofrimento humano. Sua abordagem foca na singularidade do sujeito, nas “livres-associações” e na “atenção flutuante”. Embasada em um tripé fundamental: teoria, clínica e análise pessoal, a formação em psicanálise não garante uma prática linear ou estratégias previsíveis. Mesmo assim, ela possui bases teóricas e segue uma rigidez em sua práxis clínica, muitas vezes não dialogando com outras abordagens e áreas da psicologia – limitando-se ao seu próprio saber.

Ao longo do século XX, a psicanálise passou por diversas reformulações, mantendo-se viva por meio de releituras e aprofundamentos realizados por autores como Lacan, Winnicott, Klein, entre outros. No entanto, apesar do seu legado histórico, há uma necessidade de compreender as adversidades que a mesma encontra na contemporaneidade. Almeida (2016) realiza uma crítica ao que considera uma abordagem cartesiana e objetiva da psicanálise, argumentando que a prática deve ser entendida como um campo que exige adaptação e reavaliação constantes, sendo que essa visão se conecta diretamente com possíveis desafios da clínica e de sua época. Este entendimento do autor se dá por meio da discussão freudiana sobre a natureza “interminável da análise”, especialmente no texto “Análise terminável e interminável” ([1937] 1996), em que Freud argumenta que a psicanálise nunca é um processo finalizado. Essa condição implica que a psicanálise, enquanto método e prática, deve estar aberta a novas compreensões.

É a essa compreensão de Freud, que se faz necessário um trabalho para avaliar como e onde se encontra a psicanálise. Segundo o próprio Freud, a escuta clínica não pode se apoiar em uma aplicação rígida, mas sim em uma postura aberta ao inesperado, ao deslocamento e à reinvenção. Esse olhar adaptativo não descaracteriza o compromisso ético da psicanálise com a singularidade do sujeito e com o inconsciente, mas propõe que tais compromissos só podem ser sustentados quando a prática clínica se atualiza para acolher os novos modos de sofrimento que emergem no laço social. Desse modo, a psicanálise requer um enquadramento clínico adaptativo, permitindo que o profissional navegue pelo processo, mantendo seu compromisso com a singularidade de cada indivíduo. Algo que também foi criticado por Lacan em seu seminário “os escritos técnicos de Freud” (1953-1954), onde ao propor um retorno às obras de Freud, criticou o rumo que a psicanálise estava tomando na época. Porém, se na época se fez necessário bases sólidas para a clínica, na contemporaneidade, se faz necessário uma flexibilização ou diálogo com outros saberes.

Diante disso, este trabalho propõe-se a investigar as maneiras pelas quais a psicanálise vem sendo aplicada e reinterpretada por profissionais da psicologia nas práticas clínicas contemporâneas. A pergunta norteadora é: “Que contribuições e conceitos da psicanálise são integrados e aplicados pelos profissionais da área da psicologia nas práticas clínicas contemporâneas?”. Objetiva-se examinar as contribuições do pensamento psicanalítico para as práticas clínicas da atualidade. Dessa forma, pretende-se analisar a maneira pela qual os profissionais atuam, através da psicanálise, bem como as práticas dela originadas. Além disso, busca-se compreender as transformações nas formas de escuta, as variações na aplicação dos conceitos psicanalíticos e as estratégias desenvolvidas pelos profissionais. Ao problematizar essas questões, este trabalho busca compreender os caminhos possíveis para uma prática psicanalítica que, mesmo confrontada por novas exigências, mantenha sua vitalidade, seu compromisso ético e sua potência transformadora.

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, do tipo revisão integrativa, que visa sintetizar e analisar estudos existentes sobre um tema específico. As revisões integrativas, em contraste com as revisões sistemáticas, permitem maior flexibilidade e incluem a análise crítica do autor sobre os dados. Suas etapas incluem a formulação da pergunta de pesquisa, busca na literatura, seleção e avaliação dos estudos, análise dos dados e apresentação dos resultados, oferecendo uma compreensão mais ampla e contextualizada do tema (Galvão; Pereira, 2014).

Para a elaboração deste trabalho percorreu-se as seguintes etapas: formulação da pergunta norteadora e objetivos, estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão de artigos, definição das informações a serem extraídas dos artigos selecionados, análise dos resultados obtidos, discussão e apresentação dos resultados.

Para a seleção dos artigos que compõem o corpus documental desta pesquisa, foram

elencados quatro bancos de dados, a saber: Scielo (Scientific Electronic Library Online), PubMed (National Institutes of Health), CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde). A opção por utilizar um número expressivo de bases de dados visou ampliar o escopo da pesquisa e garantir uma coleta mais abrangente e representativa de estudos relevantes.

Foram utilizadas as ferramentas de busca das próprias plataformas, a partir das palavras-chaves e conectores: “Clínica” and “contemporaneidade” and “psicanálise”. Para delimitação do corpus documental, foram considerados: trabalhos publicados online e em português, incluindo artigos, dissertações e teses, documentos oficiais, capítulos de livros, além de normativas e diretrizes clínicas, com os resumos disponíveis nas bases de dados selecionadas, no período entre 2014 a 2024. Foram selecionados os trabalhos que, a partir da leitura dos resumos, apresentaram elementos pertinentes à pesquisa.

Como critérios de exclusão, foram considerados artigos duplicados e trabalhos que, a partir da leitura dos resumos, não contemplavam o tema e/ou não respondiam à pergunta norteadora desta revisão.

A busca inicial resultou em um total de 47 (quarenta e sete) artigos, sendo as quantidades referentes a cada banco de dados conforme segue: CAPES = 09 (nove), BVS = 33 (trinta e três), Pubmed = 0 (zero) e SciELO = 05 (cinco). Foram excluídos 08 (oito) artigos duplicados, resultando em 39 (trinta e nove) trabalhos para a leitura dos resumos. Após a referida leitura, foram excluídos 14 (quatorze) artigos que não contemplavam o tema e/ou não respondiam à pergunta norteadora, sendo o corpus documental composto por um total de 19 (dezenove) artigos.

Fluxograma 1 – Fluxograma Prisma de Identificação, seleção e inclusão das publicações na amostra da revisão integrativa. São Carlos, SP. Brasil, 2025

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

Para a análise e posterior síntese dos artigos que atenderam aos critérios de inclusão foi utilizado um quadro sinóptico contemplando os seguintes aspectos: número de identificação do trabalho nesta pesquisa (Id.), título do trabalho, nome do(s) autor(es), ano de publicação, tema(s) abordado(s) e resultados/conclusões.

A apresentação dos resultados e a discussão dos dados foram realizadas de maneira descritiva, enfatizando a comparação entre os dados obtidos. Os resultados foram confrontados com os objetivos da pesquisa, proporcionando uma análise crítica das similaridades e divergências encontradas. Dessa forma, buscou-se identificar as principais contribuições e limitações dos conceitos psicanalíticos na prática clínica contemporânea, com destaque para a aplicação prática dos conceitos teóricos no cotidiano dos profissionais.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na presente revisão integrativa, analisou-se quarenta e sete publicações que, após o processo de delimitação do corpus documental já descrito, resultaram em um total de dezenove publicações. A se͏g͏uir, é apresentado um panorama geral das publicações selecionadas, organizadas de forma a facilitar a compreensão dos temas recorrentes e das contribuições de cada estudo. Os dados ͏são organizados em uma͏ tabel͏a que agrupa os artigos em ordem alfabética segundo seus títulos. Seguido do título do trabalho, os respetivos autores com͏ ano͏ de publicação, os ͏principais temas abordados, e os resulta͏dos e conclusões.

Quadro 1 – Panorama das características dos estudos. São Carlos, SP. Brasil, 2025

Caracterização dos estudos e síntese das análises
Id Título Autor(es) e ano de publicação Tema(s) abordado(s) Resultados e conclusões
01 Adolescente na contemporaneidade: uma crise dentro da crise. Humberto Moacir de Oliveira; Bruno Curcino Hanke (2017) Fragilidade da figura paterna, o imperativo de gozo, puberdade e a crise da adolescência. Adolescer na contemporaneidade remete a uma crise da figura paterna e um Outro falho, exigindo uma adaptação da psicanálise para lidar com jovens que se isolam em eletrônicos e buscam gozo separado do Outro.
02 A alienação da criança: clínica e contemporaneidade

 

Thaíssa Yumi Matsuo; Alessandra Fernandes Carreira (2015) Alienação e separação na infância, objetalização promovida pelos discursos capitalista e científico. É destacado uma perda do desejo do sujeito na contemporaneidade. Também é apontada tecnicização e medicalização da infância, que padroniza e patologiza o sujeito, desconsiderando a singularidade e substituindo o desejo parental por um tecnicismo impessoal.
03 A angústia como pathos fundamental: uma questão freudiana

 

Thais Klein de Angelis; Regina Herzog de Oliveira (2017) Angústia na obra de Freud, em sua manifestação como afeto sem representação, comparado com a visão de Heidegger.. A angústia, para Freud, é uma energia defensiva ligada ao recalque, enquanto Heidegger a vê como uma disposição afetiva fundamental que revela a essência do ser, desafiando a visão funcionalista de Freud.
04 A psicanálise como possibilidade de escuta do mal-estar na contemporaneidade Gloria Sadala; Kleber Barbosa dos Santos (2022) Manifestações de mal-estar e adoecimento psíquico na contemporaneidade e a relevância das ideias de Freud e Lacan na articulação entre a teoria do inconsciente e a prática clínica. A psicanálise, ao integrar a cultura na compreensão do mal-estar contemporâneo, ainda se fundamenta nos textos freudianos, adaptando-se às complexidades do sofrimento psíquico atual e mantendo-se dinâmica e prática na escuta e no trabalho clínico.
05 As patologias narcísicas e os estados depressivos na pós-modernidade Tania Coelho dos Santos; Flavia Lana Garcia de Oliveira (2022)  Como a ausência de um Outro que transmita a castração pode intensificar estados melancoliformes e patologias narcísicas na pós-modernidade. A melancolia e a mania na pós-modernidade resultam da crise na função do Outro e na desilusão com ideais coletivos, destacando o impacto das narrativas identitárias e da sobreidentificação como respostas a uma falta de referências simbólicas estáveis.
06 Clube da luta e a sociedade do espetáculo  Carina Assmann; Mário Francis Petry Londero (2017) Subjetivação na era capitalista e a clínica psicanalítica, através do filme “Clube da Luta”. O filme “Clube da Luta” traz uma reflexão sobre a crise existencial e a manipulação psíquica pela sociedade de consumo, destacando a necessidade de resistir ao controle biopolítico e buscar alternativas existenciais fora da mercantilização da vida.
07 Desafios ao psicanalista contemporâneo: empreendedorismo e produção de conhecimento em psicanálise

 

 

 

Silvio Augusto Lopes Iensen (2014) Relevância, desafios e transformações da psicanálise contemporânea. Ressalta a relevância de uma Psicanálise contemporânea capaz de enfrentar as transformações culturais atuais, valorizando a postura empreendedora do analista em manter viva a essência investigativa do pensamento freudiano.
08 Em defesa de uma certa heterodoxia: sobre a frequência de sessões em psicanálise

 

 

Bernard Miodownik (2014) A prática de tratamentos psicanalíticos de baixa frequência e como a psicanálise pode se adaptar a essas condições. O debate entre o tratamento psicanalítico em baixa frequência e o modelo clássico destaca a importância da formação rigorosa e da eficácia do método clássico em alcançar níveis profundos de regressão, essencial para formar analistas preparados para os desafios contemporâneos.
09 Ferenczi e a clínica psicanalítica contemporânea: uma revisão sobre suas contribuições ao papel do analista

 

Bárbara Simões; Thassia Souza Emidio (2024) Papel do analista centrado na ética do cuidado e elaboração de experiências traumáticas. Conclui-se a importância da elasticidade técnica e da qualidade afetiva do encontro, que refletem uma nova ética do cuidado centrada na sensibilidade e empatia do analista..
10 Ficção e memória na clínica psicanalítica contemporânea: uma leitura a partir de Black Mirrore Vitor Hugo Couto Triska; Gustavo Caetano de Mattos Mano (2018) Como o ideal maquínico da memória perfeita, em obras como “Funes, o memorioso” e “The Entire History of You”, reduz a dimensão ficcional da narrativa e afeta a singularidade do sujeito. Em “The Entire History of You” e no conto de Borges, a busca por uma memória perfeita e objetiva revela a impossibilidade de registrar a experiência verdadeira, que se constrói pela reconstrução narrativa e não pela mera reprodução, destacando a importância da ficção na construção da identidade e na superação do sofrimento.
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Freud com Lacan: a psicanálise hoje
 

 

Marco Antonio Coutinho Jorge (2017)
Como a psicanálise contemporânea se fundamenta na renovação radical promovida pela leitura de Freud realizada por Jacques Lacan. Freud desafiou a ideia de livre arbítrio com a sobredeterminação inconsciente e a repetição traumática, enquanto Lacan, ao reformular os conceitos, destacou a importância da linguagem na sexualidade e na psicanálise.
12 Função e disfunção analíticas quando o objeto interno é a própria psicanálise: algumas reflexões sobre instituições psicanalíticas

 

Ana Clara Duarte Gavião (2014) Psicanálise como um objeto a ser desidealizado na análise didática e aspectos dos três modelos de formação da IPA. A análise didática, com sua estrutura e frequência rigorosas, proporciona uma base sólida para o desenvolvimento clínico, mas pode revelar tensões entre idealizações institucionais e a flexibilidade necessária para a prática clínica real.
13 Notas sobre a Psicanálise em tempos de algoritmos  Enrique Mandelbaum (2015) Como a psicanálise de Klein reflete a interconexão entre conflitos internos e contextos sociohistóricos. A psicanálise de Klein ilustra como os conflitos internos são espelhados nas realidades sociais e culturais, mostrando a conexão entre o psíquico e o contexto histórico, e como isso se reflete nas dinâmicas contemporâneas.
14 O outro que não existe: verdade verídica, verdades mentirosas e desmentidos veementes

 

 TTania Coelho dos Santos (2016)   Como       o      par

sinthoma-pedestal

substitui     o     par

castração-inconsciente na regulação psíquica.

A busca pelo gozo singular e a aversão à autoridade tradicional revelam uma “ordem de ferro” onde a norma simbólica é substituída pelo imperativo do gozo, levantando questões sobre a função da psicanálise e o impacto da mídia na formação de comunidades de gozo.
15 O sintoma da criança na história da psicanálise e na contemporaneidade: contribuições para uma prática despatologizante

 

Maíra Lopes Almeida; Joyce Gonçalves Freire; Caio César Souza Camargo Próchno et al. (2016) Sintoma na psicanálise infantil, desde Freud até as perspectivas contemporâneas. Enfatiza a necessidade de reavaliar a visão contemporânea a respeito do sintoma infantil, frequentemente reduzida a aspectos biológicos e medicinais, em favor de uma perspectiva psicanalítica que valoriza a subjetividade e o inconsciente.
16 Respondências: análises (online) em confinamento Monalisa Pontes Xavier; Ana Carolina B. Leão Martins (2022) Impacto das análises online na escuta clínica, e como as tecnologias da informação e comunicação afetam o inconsciente. O texto explora a escrita epistolar como ferramenta para reinventar a clínica contemporânea, adaptando-se às mudanças trazidas pela pandemia e tecnologia, enquanto mantém o compromisso com a escuta das singularidades.
17 Sofrimento humano e medicalização: considerações para a clínica psicológica

 

Ellen Fernanda Gomes da Silva (2017) Medicalização do sofrimento na “Era da técnica” de Heidegger, eficácia científica insuficiente e uma abordagem clínica mais humanizada. A predominância da visão técnica e a medicalização do sofrimento reduzem a experiência humana a questões patológicas e controláveis; a clínica psicológica deve resistir a isso, acolhendo a complexidade e a singularidade da existência.
18 O tempo eróptico – Algumas notas sobre o mal-estar do silêncio e as respostas na contemporaneidade

 

José Luiz Cordeiro Dias Tavares (2020) Evolução da psicopatologia desde Freud até a contemporaneidade, e como o mal-estar do silêncio atual articula diversos sofrimentos psíquicos, como vícios e transtornos. A transformação social e cultural pós-Segunda Guerra Mundial desafiou estruturas tradicionais e fomentou novas formas de identidade; a contemporaneidade, marcada pela era digital, complexifica a experiência subjetiva com uma identidade fragmentada e narcisista.
19 Uma ética a serviço do sujeito  Mirella Hipólito Moreira de Anchieta; Leonardo José Barreira Danziato (2014) Fundamentos da clínica do desejo na psicanálise e a formação do sujeito, baseado em Freud e Lacan. Propõe que o sujeito assuma a responsabilidade por seu desejo e sintoma, contrária ao imperativo de satisfação dominante, exigindo um trabalho ético de enfrentamento e cura própria.

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

A partir das análises foi possível identificar 04 (quatro) diferentes aspectos nas

pesquisas, considerando as contribuições do pensamento psicanalítico para as práticas clínicas da atualidade, a saber, “panorama atual e contextualização”, “modelo de padronização de diagnóstico e medicação”, “sessões de curta duração e setting” e “rigidez e flexibilidade na psicanálise”.

3.1 PANORAMA ATUAL E CONTEXTUALIZAÇÃO

A contemporaneidade, para alguns autores, caracteriza-se pelo enfraquecimento das estruturas simbólicas tradicionais que outrora orientavam o modo de vida e a cultura da sociedade. O que antes funcionava como um norteador – seja para ser seguido, desafiado ou transgredido – perde agora a sua relevância, deixando os sujeitos sem direções claras para a elaboração de suas experiências e desejos.

Santos (2016) é uma das autoras que defende essa perspectiva. Ela argumenta que o século XXI está marcado pela negação das impossibilidades impostas pelo meio, havendo uma baixa tolerância à frustração. Segundo a autora, está havendo um desmantelamento das estruturas simbólicas tradicionais, como o “Nome-do-Pai” (lei simbólica), postulado por Lacan, substituídas pelo “empuxo ao gozo” (busca do prazer), onde a “castração” (frustração) é constantemente confrontada e “desmentida” (negada).

[…] Os corpos falantes já não respondem aos significantes mestres tradicionais. Observa-se o declínio do poder de normalização — no sentido de sublimação — da metáfora paterna, do Nome-do-Pai, enquanto único significante da lei simbólica. Os corpos falantes, sem serem psicóticos, dedicam-se a encarnar o lugar da exceção que falta à ordem simbólica. O que me parece que explica o excesso de exposição do corpo, da imagem e do fantasma sexual com que goza cada um […] (Santos, 2016, p.582).

Oliveira e Hanke (2017) ressaltam que o sujeito está profundamente imerso na cultura e nas relações sociais que o cercam. Eles enfatizam que as mudanças culturais alteram as formas de subjetivação do indivíduo, influenciando diretamente a experiência do sujeito em relação ao próprio desejo e à angústia. A relação entre o sujeito e o “Outro” (simbólico), afeta a maneira como o sujeito se posiciona diante das questões de sua própria subjetividade.

Com o avanço da ciência e das transformações sociais, os autores apontam o surgimento de novos modos de produção. O foco passou da acumulação de capital para o consumo imediato de bens e serviços. Esse processo trouxe mudanças significativas na estrutura do “supereu” que, segundo Safatle (2005 apud Oliveira; Hanke, 2017), se manifesta agora não mais como um agente de repressão, mas como um imperativo para o gozo. Contudo, essa exigência de gozo, é marcada pela impossibilidade de ser plenamente satisfeita.

Matsuo e Carreira (2015) também fazem um apontamento para a articulação entre

ciência e capitalismo como um fator central na objetalização do sujeito, levando à falta de responsabilização individual em relação ao modo de gozo e, consequentemente, havendo a alienação dos sujeitos, em novos discursos da contemporaneidade. Para eles, a psicanálise é importante  pois defende a responsabilização do sujeito na escolha de sua neurose.

Oliveira e Hanke (2017) exploram a complexidade que os jovens enfrentam na contemporaneidade ao se depararem com a queda da função paterna e com um “supereu” que, ao invés de impor limites, demanda um gozo ininterrupto. Sugerem que a sociedade atual, assim como o adolescente que busca se desligar dos pais, está em uma crise contínua de ideais e valores, refletindo uma adolescência prolongada em seu próprio desenvolvimento.

Paralelo a isso, Assmann e Londero (2017) analisam como o fenômeno da exigência de consumo e da construção de uma imagem bem-sucedida impactam o indivíduo. Segundo eles, essa dinâmica é um mal-estar contemporâneo, que está profundamente ligada à cultura da imagem, onde o valor do sujeito passa a ser medido pelo seu desempenho visível e pela admiração que conquistam das pessoas ao redor. Há uma constante necessidade de performance, o que pode levar a um estado de exaustão e alienação de si.

É difícil problematizar o mal-estar contemporâneo. A mensagem de que se deve ter uma vida espetaculosa é aprisionante, pois parece que, se não seguirmos tal proposta, estaremos fora do mundo. Estar no compasso capitalístico de consumo de imagens brilhantes é um desafio cansativo, mas ficar de fora, resistir, é um ato arriscado, de negação de si mesmo, pois nossa constituição está alicerçada nessa subjetivação […] essa angústia frente ao vazio do consumo de imagens é a própria expressão da humanidade na atualidade […] (Assmann e Londero, 2017, p.58).

Segundo Sadala e Santos (2022) a subjetividade é, portanto, atravessada pelas questões culturais, que contribui para novos cenários de sofrimento contemporâneos. Os autores sinalizam que o mal-estar resultante desse cenário é a busca incessante de preencher um vazio, ignorando que o desejo, em sua essência e na visão da psicanálise, não é preenchível. O sujeito atual é influenciado por um discurso social e uma cultura da imagem que promove uma experiência mais narcisista e, por conseguinte, contribui para a alienação.

Santos e Oliveira (2022) argumentam que o conflito dos adoecimentos narcísicos

ocorre justamente por conta de um “supereu” paterno. Quando o indivíduo se enxerga incapaz de interagir com esse Outro, e superar uma fantasia idealizada, através de um luto ou amadurecimento, este acaba por investir a “libido” no seu próprio eu. Trata-se de uma tentativa de proteção contra o vazio e a angústia.

3.2 MODELO DE PADRONIZAÇÃO DE DIAGNÓSTICO E MEDICAÇÃO

Segundo Angelis e Oliveira (2017), para Freud a angústia estava vinculada ao medo da castração simbólica. Já para Heidegger, ela funciona como um estado fundamental da existência, expondo a própria finitude humana. Na clínica contemporânea, entretanto, surgem novas dimensões da angústia e sofrimento, o que antes era importante para a subjetividade, passou a ser tratado de modo padronizado, com cada vez mais classificações diagnósticas e de medicalização, reduzindo o sofrimento e a angústia apenas a sintomas.

Silva (2017) discute como a criação de instrumentos diagnósticos – o DSM

(Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) e o CID (Classificação Internacional de Doenças) – por exemplo, buscou integrar a psiquiatria aos métodos da medicina. Através dessa mudança, o foco na singularidade do indivíduo mudou para tratamentos cada vez mais padronizados, consequentemente, categorizando os sintomas e culpabilizando cada vez mais o próprio indivíduo – levando a uma psiquiatrização da vida cotidiana.

Assistimos assim, a desvalorização do sofrimento humano, a categorização dos sintomas, a culpabilização do homem pelas vicissitudes da vida e, em última instância, a medicalização de todo e qualquer mal-estar que destitui o humano da sua busca diária de contentamento. Trata-se então, de uma possível psiquiatrização da vida tal como ela se apresenta – difusa, intensa, errante e inesperada (Silva, 2017, p.83-84).

Almeida et al. (2016) discutem a mudança paradigmática que surgiu com o DSM-III na década de 1980, marcada por uma abordagem objetivável. Segundo os autores, esse manual procurou minimizar a influência de teorias psicodinâmicas, oferecendo critérios explícitos e operacionalmente. Ortega (2008 apud Almeida et al., 2016) aponta que a visão predominante foi a de que o cérebro responde cada vez mais pelo que era atribuído ao sujeito.

Para Silva (2017), citando Aguiar (2004), a partir da década de 1940, com a introdução dos psicofármacos, a indústria farmacêutica passou a dominar a intervenção médica, promovendo a ideia de que existe um medicamento para cada situação. A partir das ideias de Birman (1999 apud Silva et al., 2017), a autora argumenta que a ênfase no discurso biológico e farmacológico acabou resultando em um abandono gradual de abordagens psicológicas e filosóficas.

A pesquisadora complementa destacando as reflexões de Heidegger (1979, 2012a) sobre o perigo das ciências naturais se tornarem o único critério de verdade. Defende, ainda, a necessidade de superar a categorização diagnóstica e a visão do sofrimento como mera patologia. Também argumenta, através de Heidegger, que o sofrimento é uma condição intrínseca à experiência humana – não podendo ser simplesmente superado pelo uso de medicamentos. É papel da clínica valorizar a singularidade do indivíduo e de seu sofrimento (Silva, 2017).

Frente ao desafio de acolher e sustentar o sofrimento na contemporaneidade, surge a necessidade de uma prática que se aproxime da existência mesma e compreenda o sofrimento humano em seu caráter singular, ambíguo, mobilizador e transformador […] Nesta direção, propõe-se fazer da clínica psicológica um modo de resistência à medicalização, sem, contudo, relegar a importância da intervenção dos psicotrópicos em diversas situações. Não se trata de ressuscitar uma antipsiquiatria, mas sim de deixar-se atravessar por outros saberes que também se aproximam do humano, sem cair nas malhas da medicalização e no aprisionamento pelo diagnóstico (Silva, 2017, p.93).

Seguindo a mesma perspectiva, Tavares (2020) defende que, um dos objetivos da psicanálise, deve ser o de se aproximar e privilegiar a singularidade do sujeito, trazendo o sofrimento como uma experiência a ser vivida. Para ele, essa abordagem é um convite para os pacientes explorarem um caminho que desafia os padrões estabelecidos que buscam uniformizar e normalizar os costumes.

Também observa que, no setting analítico, o processo caminha desde a nomeação da dor psíquica pelo paciente até a tentativa de minimizar o sofrimento, e esse caminho é descrito como longo, impreciso e com um desfecho imprevisível – algo que foge à uma padronização. Conclui dizendo que a psicanálise não busca enquadrar o sujeito em molduras preestabelecidas, desse modo, evita uma normalização que aliena o sujeito (Tavares, 2020).

3.3 SESSÕES DE CURTA DURAÇÃO E SETTING

De acordo com Miodownik (2014), no início do século XX, a psicanálise foi um dos principais motores de transformações culturais. Contudo, ao longo dos anos, ela passou a ser vista de maneira diferente do que era no início. A dedicação intensa e o número elevado de sessões, que eram fundamentais para o manejo das angústias, agora se ajustam às novas demandas de gerenciamento de tempo – afastando-se dos modelos tradicionais.

Miodownik (2014) argumenta que o atendimento em baixa frequência, muitas vezes, é visto como uma adaptação conformista, por conta de diversas abordagens que possuem esse modelo. Em outros casos, a baixa frequência geralmente surge quando o paciente enfrenta limitações financeiras, em seus horários, ou não possui incentivos para valorizar um maior número de sessões. Porém, defende que, mesmo em poucas sessões, é possível haver eficácia nesse formato, dependendo do rigor na formação do profissional e em sua análise pessoal.

Dentro da minha concepção de trabalho psicanalítico em baixa frequência, uma questão se torna evidente. Por que, em certos casos e sob certas condições, a análise de um analista não poderia se processar em duas ou até em uma sessão semanal? […] Para Stern, um analista com formação rigorosa em alta frequência sempre levaria o tratamento a ser psicanalítico, mesmo em frequência baixa. Outro debatedor, Aron, contesta a ideia de Stern e entende que deveríamos renunciar a esse tipo de diferença. Se o candidato a psicanalista tem um análise consistente em baixa frequência não há por que impor regras institucionais. […] (Miodownik, 2014, p.26).

Xavier e Martins (2022) apresentam uma outra preocupação, à difusão das análises online. Eles destacam a necessidade de uma abordagem mais crítica em relação à integração dessas práticas – que visam a maximização da produtividade, tanto dos pacientes quanto dos profissionais. Também levantam o questionamento sobre a duplicação da imagem dos corpos na tela. A presença da própria imagem virtual, pode alterar a percepção do sujeito sobre si próprio e sobre o outro, afetando a dinâmica transferencial.

Mandelbaum (2015) argumenta que, enquanto um setting psicanalítico tradicional transmite sua própria essência, um setting psicanalítico transferido para um meio eletrônico pode acabar transmitindo apenas a natureza do aparelho eletrônico, comprometendo a profundidade e a qualidade do processo terapêutico. Ele conclui dizendo que a adaptação da psicanálise a esses meios de comunicação, como o atendimento psicanalítico via plataformas, precisa ser cuidadosamente considerada.

3.4 RIGIDEZ E FLEXIBILIDADE NA PSICANÁLISE

Embora a psicanálise tenha sua relevância para a subjetivação do sujeito, ela tem se deparado com desafios que afetam tanto sua base teórica, quanto a prática clínica. A questão do significado de trabalhar com a psicanálise, torna-se relevante. Um psicanalista pode optar por seguir caminhos rígidos, já estabelecidos pela área, ou pode se arriscar em se comprometer com ferramentas mais atualizadas, em diálogo com o seu tempo.

Um dos autores que sinalizam essa questão é Iensen (2014), que ressalta a necessidade de uma prática sólida e embasada, enfatizando a importância de uma psicanálise que denuncie o mal-estar social e se adapte. Afirma, a partir de Bleichmar (2009), que a psicanálise atual não está ameaçada apenas por abordagens externas a ela, mas também por sua própria rigidez – que não dialoga com a contemporaneidade (Iensen, 2014).

Como bem afirma Bleichmar, a psicanálise não será derrubada pelos ataques externos que sofre, mas pode implodir por suas próprias contradições. A autora é clara na convocatória em relação à Psicanálise, “nossa proposta é defender – fazendo um exercício de rigor –, a proposta mais forte que a humanidade gerou para analisar o sofrimento individual e para regular os modos pelos quais o mal-estar social não encaixa os sujeitos nesse mal-estar, e sim o denuncia a partir de sua própria prática” (Iensen, 2014, p.19).

Desde o seu surgimento, a psicanálise passou por mudanças conceituais. Destacado por Anchieta e Danziato (2014), Freud precisou rever suas teorias, abandonando algumas de suas ideias para desenvolver a clínica psicanalítica. Após ele se afastar da prática médica tradicional, inaugurou uma nova maneira de entender e tratar as doenças psíquicas, conferindo ao paciente o status de “sujeito”. Entretanto, Anchieta e Danziato (2014) aponta que, embora Freud tenha revisto suas teorias, ele estabeleceu algumas bases para que a psicanálise pudesse funcionar.

Iensen (2014) apontou que muitos profissionais da psicanálise produziram diversos materiais teóricos, em um esforço para manter a prática vigente. Porém, esse desenvolvimento acabou resultando em isolamento dentro de suas respectivas escolas teóricas. A ausência do diálogo entre muitos profissionais quase levou a psicanálise a um encerramento dogmático. Portanto, Iensen (2014) defende que os profissionais da área, na contemporaneidade, resgatem o espírito freudiano de abertura e contribuição para o diálogo entre os saberes.

O desafio contemporâneo toma outra configuração. A psicanálise é interrogada desde outros saberes – neurociências, ciências cognitivas, psiquiatria biológica, etc. – e, assim, tem sido desafiada a contribuir desde sua especificidade no debate entre os diferentes saberes. O que a psicanálise tem a contribuir? Essa parece ser a questão central em relação à sua vigência e ao seu reconhecimento não apenas quanto ao intracampo analítico, mas também desde o externo. Quando um analista precisa distorcer e criar um “misto” que deforma a psicanálise para fazer frente ao que lhe é interrogado, perde nitidez o espírito que marca o valor dessa disciplina. Por isso, está no compromisso em resgatar a abertura do legado freudiano e de construir efetiva possibilidade de contribuir com o debate entre saberes a convocatória a cada analista contemporâneo (Iensen, 2014, p.16).

A argumentação de Gavião (2014) corrobora com essa visão, pois afirma que essa rigidez poderia estar ligada à falta de flexibilidade dos profissionais. Segue fazendo um apontamento para o crescimento no interesse entre os profissionais de abordagem lacaniana, por conhecimentos de autores como Klein, Bion e Winnicott. Também nota que, na clínica contemporânea, há uma necessidade de uma integração de saberes, adaptando-se às necessidades dos pacientes, sem perder de vista a essência do método psicanalítico.

Simões e Emidio (2024) ressaltam a importância do pensamento de Ferenczi, para pensar a psicanálise contemporânea. Diferente da psicanálise tradicional, que tinha a neurose como elemento central de análise, é possível notar que os sofrimentos estão ligados a um enfraquecimento do simbólico. Nesse cenário, os autores argumentam que a contribuição de Ferenczi leva a psicanálise para uma nova configuração baseada em uma ética do cuidado, onde a presença sensível, o acolhimento, a empatia, são elementos centrais.

Para a adaptação da psicanálise, é fundamental o conhecimento de sua história, e um comparativo com as suas raízes. Jorge (2017) discute como Lacan, através do seu movimento “retorno a Freud”, realizou uma “psicanálise da própria psicanálise”. Segundo o autor, Lacan criticou os desvios ideológicos pós-freudianos, resgatando muitos dos conceitos freudianos – embora a complexidade dos escritos de Lacan acabou afastando muitos profissionais.

Através de um movimento por ele próprio intitulado de “retorno a Freud”, Lacan efetivou na verdade um rebatimento da teoria psicanalítica sobre si mesma ou, se quisermos, uma espécie de psicanálise da própria psicanálise. Evidenciando que, após a morte de Freud, a psicanálise passará a trilhar desvios ideológicos incompatíveis com aquilo que o mestre vienense avançará, Lacan promove a incidência sobre a teoria psicanalítica dos elementos mesmos que ela adianta (Jorge. 2017, p.21).

Triska e Mano (2018) trazem uma reflexão sobre o choque cultural que a psicanálise enfrenta ao lidar com uma época diferente daquela em que foi concebida. A cultura moderna, na qual Freud operava, estava organizada pela lei paterna, enquanto a contemporaneidade é marcada pelo enfraquecimento dessa lei. Mas, ao investigar as narrativas que permitam articular esses sofrimentos, os autores defendem a hipótese de que é possível proporcionar novos insights e abordagens, ampliando a compreensão e o acolhimento dos indivíduos.

Os autores defendem, ainda, que a psicanálise contemporânea, não deve se tornar dogmática ou positivista, mas sim, continuar a explorar e adaptar o trabalho iniciado por Freud. Na perspectiva desses autores, é essencial que os analistas mantenham uma perspectiva aberta e revisional, reconhecendo a complexidade e a riqueza das relações entre o processo de construção psíquica e a produção de subjetividade. Através disso, a clínica psicanalítica, além de honrar suas raízes teóricas, poderá se manter relevante e inovadora (Triska; Mano, 2018).  

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisar os dados, conclui-se que a psicanálise se mantém relevante para a clínica contemporânea e, através de sua conceituação teórica, é possível notar uma série de desafios que a contemporaneidade traz para a condição do sujeito em sua subjetivação. Embora o foco das análises tenha sido a clínica, os estudos apontaram mais para problemas socioculturais, do que para processos individualizados. Por meio dos conceitos como “Nome-do-pai”, “Outro” e “estruturas simbólicas” – que, geralmente, carregam significados específicos – foi possível fazer uma síntese, e compreender que todos estavam relacionados à cultura ou normas sociais.

Algumas das características mais presentes na contemporaneidade, é a baixa tolerância à frustração e a busca por gratificação imediata. Trata-se de um movimento que não apenas fragiliza os processos de elaboração psíquica, mas também promove um esvaziamento simbólico. Essa ausência contribui para a alienação, pois rompe com a função reguladora, e a uma busca de prazer desprovida de significado, o que intensifica o sofrimento e dificulta a construção de uma subjetividade consistente. Nessa perspectiva, a psicanálise tem o papel de reintegrar o desejo do sujeito à sua dimensão simbólica, permitindo que ele reavalie a frustração como um elemento produtivo no amadurecimento emocional.

Contrária à direção da psicanálise, está a crescente medicalização e padronização diagnóstica, como uma tentativa de eliminar a dor psíquica de maneira rápida e eficaz. Nessa perspectiva, é desconsiderada a complexidade da subjetividade e a potência transformadora da escuta. O sofrimento é tratado apenas como uma disfunção, deixando de lado a possibilidade de uma elaboração e simbolização – pois, assim como a frustração, ele também é parte da experiência humana. Desse modo, é papel da psicanálise resistir a essa padronização, promovendo uma escuta reflexiva que acolha a experiência do sofrimento humano.

Essa resistência à padronização exige do profissional não apenas conhecimento técnico, mas uma postura empática que enriqueça a prática clínica e resgate a essência do encontro humano na terapia. A psicanálise, como foi desde sua criação, também deve se envolver nas discussões sociais, e para isso, é importante que esteja em contato com outras áreas do conhecimento, integrando a sociologia e antropologia, para que a psicanálise se torne eficaz na compreensão das nuances da vida.  É através do diálogo multidisciplinar que a psicanálise se faz vigente como uma ferramenta capaz de compreender e tratar as novas demandas.

Embora as bases da psicanálise e sua história devam ser mantidas para o seu funcionamento, o próprio Freud deixou lacunas a serem preenchidas, nada está posto como dogma. Portanto, os profissionais podem buscar se adaptar e se reinventar, acolhendo as nuances da condição humana contemporânea – desde que com rigor à sua práxis. É justamente nesse cruzamento entre dor e elaboração simbólica que a psicanálise reafirma sua potência como um saber e um instrumento de subjetivação. Ela pode atuar como um farol em tempos de incerteza, guiando indivíduos em sua própria confrontação com as circunstâncias da vida.

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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

[1] Graduação em Psicologia e Pós-graduação em Neuropsicologia. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-5630-7718. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/4306879464743070.

Contribuição dos autores:

Bruno Burin Silva: Autor único responsável por todas as etapas do estudo, desde a concepção do tema e definição dos objetivos até a redação, revisão e organização final do texto.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

Não há conflito de interesse.

Agradecimentos e Financiamento:

Não há financiamento.

Nota:

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial (ChatGPT “versão 3.5” e Microsoft 365 Copilot “versão não identificado na plataforma” – ambos em versões gratuitas) para corrigir algumas sentenças ao longo de todo o trabalho, estruturar o modelo solicitado – incluindo espaçamentos, tamanho de parágrafos e sugestões que fornecidas pelas IA’s para que pudesse adequar o texto –, organizar tabelas e fluxograma, além de colocar itens da tabela em ordem alfabética.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.

  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 25 de março de 2025.

Material aprovado pelos pares: 27 de maio de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 04 de novembro de 2025.

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Bruno Burin Silva

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