RELATO DE CASO
JANNOTTI, Brenda Silveira [1], JANNOTTI, Túlio Saraiva [2], GUSMÃO, Pricila da Silva [3], NUNES, Luiz Marcelo Amaral Galvão [4], SILVEIRA, Álvaro Luiz da [5], CHAVES NETTO, Henrique Duque de Miranda [6]
JANNOTTI, Brenda Silveira et al. Carcinoma de células escamosas em lábio inferior. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 05, Vol. 02, pp. 05-14. Maio de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/carcinoma-de-celulas, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/carcinoma-de-celulas
RESUMO
Introdução: O carcinoma de células escamosas é a neoplasia maligna mais incidente na cavidade bucal, afetando principalmente homens com idade acima dos 60 anos. O tratamento do tumor inclui a radioterapia, a quimioterapia, isoladamente ou combinadas e cirurgia. Objetivo: O objetivo desse trabalho foi relatar um caso clínico de carcinoma de células escamosas, em que optou-se por realizar exclusivamente uma excisão cirúrgica da lesão, já que a mesma se encontrava bem delimitada. Relato de caso: Paciente do sexo feminino, 81 anos, sem hábitos nocivos, leucoderma, procurou atendimento com relato de dor aguda, queimação em região de lábio inferior há aproximadamente um ano, associado a disfagia. Durante o exame clínico, observou-se uma lesão hiperplásica eritematosa, com 2 centímetros de extensão, bordas bem definidas, ausência de tecido necrótico central envolvendo a pele, margem vermelha do lábio e túnica mucosa do lábio. Foi realizado um procedimento de biópsia incisional, que revelou carcinoma de células escamosas ulcerado bem diferenciado. O tratamento envolveu excisão cirúrgica sob sedação profunda, em que foi feita uma ressecção, com margens de segurança de aproximadamente 5 milímetros. Atualmente, a paciente não apresenta queixas álgicas ou sinais clínicos de recidiva. Conclusão: Obervou-se que uma lesão de trauma recorrente pode evoluir para carcinoma de células escamosas, e a ressecção do tumor com margens de segurança foi eficaz no tratamento da paciente.
Palavras-chave: Carcinoma de células escamosas, Lábio inferior, Ressecção, Tratamento.
1. INTRODUÇÃO
O Carcinoma de células escamosas (CCE) é a neoplasia maligna mais incidente na cavidade bucal, o qual representa cerca de 90% dos casos de câncer de boca, afetando principalmente homens com idade acima dos 60 anos.1,2,3 Segundo a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), podem ocorrer 15.210 novos casos da doença em 2020.4
O CCE se manifesta comumente na língua (40,5%), mas pode acometer também o assoalho de boca (20,6%); lábio inferior (11,9%); palato duro (2,4%); rebordo alveolar (10,3%); região retromolar (7,2%) e mucosa jugal (7,1%) (Andrade et al., 2015), sendo mais prevalente no lábio inferior do que no superior.1,5,6
Alguns fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento do CCE, como: tabagismo, alcoolismo (ou ambos agindo sinergicamente), infecções pelo Papilomavírus Humano (HPV), exposição excessiva a radiação ultravioleta, higiene oral deficiente e também uma dieta pobre em proteínas, vitaminas e minerais.1,3 Estes fatores propiciam modificações na mucosa do epitélio escamoso associados a alterações genéticas, que afetam o desempenho dos oncogenes e dos genes supressores de tumor, os quais desregulam o ciclo celular e aumentam a proliferação de células tumorais.7 Após a formação da hiperplasia, ocorre a transição para lesões displásicas cada vez mais graves, identificadas como distúrbios potencialmente maligno, tornando-se um CCE invasivo.6,7 Algumas lesões pré-malignas tais como, leucoplasia, eritroplasia, fibrose submucosa oral, úlceras traumáticas crônicas e líquen plano podem resultar em CCE.8
Em geral, as lesões cancerígenas apresentam-se clinicamente nas formas exofítica (verrucosa ou papilar), endofítica, ulcerada, leucoplásica (mancha branca), eritroplásica (mancha vermelha) ou eritroleucoplásica (combina áreas vermelhas e brancas). Podem ser sintomáticas ou não, e dependendo da sua localização pode causar reabsorção do osso adjacente, mostrando no exame radiográfico aspecto “roído de traça”.9
O tratamento do CCE inclui a radioterapia, a quimioterapia, isoladamente ou combinadas e cirurgia.2,3,5 A escolha do tratamento depende do estágio da doença, da localização do tumor, da profundidade da lesão, da proximidade do tecido ósseo, da idade e condição sistêmica do paciente. A cirurgia por ressecção é o mais utilizado, visto que a taxa de recorrência do tumor é de apenas 8% e a sobrevida em 5 anos de 95 a 100%. O tratamento por quimioterapia e radioterapia são mais utilizados em casos de tumores inoperáveis e como tratamentos adjuvantes. Esses tratamentos também fornecem vantagem sinérgica, quando combinados, na cura do carcinoma de células escamosas.5
O presente trabalho relata um caso clínico de carcinoma de célula escamosa, onde se optou por realizar exclusivamente uma excisão cirúrgica da lesão, já que a mesma se encontrava bem delimitada.
2. RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 81 anos, sem hábitos nocivos, leucoderma, hipertensa, asmática, obesa mórbida, procurou atendimento odontológico com relato de dor aguda, queimação em região de lábio inferior há aproximadamente um ano, associado a disfagia.
Durante o exame clínico, observou-se uma lesão hiperplásica eritematosa, com 2 centímetros de extensão, bordas bem definidas, ausência de tecido necrótico central envolvendo a pele, margem vermelha do lábio e túnica mucosa do lábio (Figura 1). Quando a paciente foi solicitada para ocluir observou-se uma relação da lesão com os dentes localizados em pré-maxila.
Figura 1 – Imagem pré-operatória da lesão, onde se observa a marcação realizada para orientar a incisão

Após o atendimento inicial, foi realizado um procedimento de biópsia incisional da lesão para posterior análise histopatológica a fim de estabelecer um diagnóstico. O resultado foi carcinoma de células escamosas ulcerado bem diferenciado.
Desse modo, a paciente foi submetida ao procedimento cirúrgico de excisão sob sedação profunda, devido ao risco cardiopulmonar, quadro asmático, idade avançada e obesidade mórbida que a mesma apresentava.
Figura 2 – Imagem do trans operatório, onde se observa a incisão em “v” realizada com as margens de segurança de 5 milímetros

O procedimento consistiu em uma ressecção, com margens de segurança de aproximadamente 5 milímetros (Figura 2). Após demarcação cirúrgica, foi utilizada uma técnica de infiltração anestésica, associada ao vaso constritor (adrenalina diluída 1:100000) em torno da lesão com o objetivo de promover uma anestesia do local assim como uma hemostasia durante o procedimento, já que o mesmo consistia inclusive incisão em região muscular.
A incisão em “v” foi realizada com uma margem de segurança de 5mm da lesão seccionando o epitélio, conjuntivo, musculo orbicular da boca, músculo depressor do lábio inferior e mucosa interna da boca (Figura 2). Após o término do procedimento, o material foi coletado e enviado para exame histopatológico para fins de verificação das margens. Posteriormente, o resultado mostrou que a margem da região direita não estava adequada. Apesar disto, como ainda no mesmo ato cirúrgico previamente relatado, já havia sido realizado uma ampliação da margem naquela região de aproximadamente 4mm, não foi indicado um novo procedimento para ampliar a margem cirúrgica. O material excedente removido previamente não foi encaminhado para estudo histopatológico, pois foi aspirado no transoperatório.
Figura 3 – Imagem do pós operatório imediato, onde é possivel observar a sutura realizada

A sutura foi realizada por planos, iniciando pela junção do lábio para o correto posicionamento do mesmo, sutura intradérmica dos músculos e por fim a sutura da pele e mucosa (Figura 3).
Durante o período de 7 dias do pós operatório, a paciente relatou o desaparecimento do quadro de dor e retorno das funções mastigatórias. Apesar disso, durante a alimentação foi possível observar extravasamento de alimento para fora da boca, possivelmente devido a disestesia na região.
Após melhora do quadro álgico da paciente, foi realizada a substituição das próteses provisórias, a fim de remover o possível trauma na região. Em seguida, a paciente foi encaminhada ao oncologista, que após exames de possíveis metástases, não se evidenciou lesões em outras partes.
Atualmente, a paciente se encontra em período pós-operatório (aproximadamente 7 meses), sem queixas álgicas ou sinais clínicos de recidiva. O quadro de disestesia obteve uma regressão, não se observando o extravasamento de alimentos. Desse modo, foi indicado um acompanhamento da paciente por um período de 3 em 3 meses.
3. DISCUSSÃO
O carcinoma de células escamosas (CCE) possui uma predileção pela língua, tendo em vista que este é um local de aderência de biofilme bacteriano, susceptível a traumatismos e de maior concentração de carcinógenos na saliva,5 apesar disso, no caso descrito no presente trabalho o tumor foi encontrado em região de lábio inferior, o que pode ser justificado pela prótese mal adaptada.
O CCE pode ter seu risco aumentado pelo consumo de tabaco, álcool, a exposição solar excessiva, higiene bucal deficiente, infecções pelo papilomavírus humano (HPV) e deficiência em proteínas, vitaminas e minerais.1,3 No caso apresentado, a paciente não era etilista, tabagista e não apresentou nenhum outro hábito nocivo, mas pode ser que a exposição solar tenha influenciado no aparecimento da lesão, por se apresentar no lábio inferior, apesar da mesma relatar uso de protetores solares labiais. Concomitantemente, o trauma causado pela prótese no lábio inferior pode ter colaborado para o aparecimento do tumor.
Estes tumores são mais comuns em homens com idade acima de 60 anos.1,2,3 No caso clínico apresentado, apesar de ter idade acima de 60 anos, a paciente é do sexo feminino. Pode ser que a idade avançada tenha influenciado dificultando a procura pelo atendimento médico necessário para diagnosticar a lesão, o que favoreceu a evolução do quadro para um tumor maligno.
O diagnóstico do CCE é realizado por exame clínico da cabeça, pescoço e tecidos moles orais com sua inspeção e palpação nas regiões extra-oral e intra-oral. Após a identificação das áreas suspeitas é feita a biópsia incisional para análise histológica. Assim, o cirurgião-dentista deve estar ciente das diversas apresentações clínicas do carcinoma e incluir no diagnóstico diferencial desse tumor, lesões pré-malignas, devido a predisposição de se transformarem em CCE.
No caso clínico apresentado neste trabalho, após identificada a lesão, foi realizado o procedimento cirúrgico de biópsia incisional e o material foi enviado para análise, obtendo-se o resultado de carcinoma de células escamosas. Esse tipo de exame é importante para diagnóstico, pois ao saber que se trata de uma lesão maligna, é necessário realizar o planejamento da cirurgia com a margem de segurança necessária. Assim, o procedimento escolhido foi a excisão cirúrgica por ressecção com margens de segurança, tratamento sugerido para esse tipo de tumor.10
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No presente trabalho foi observado um caso em que uma lesão de trauma recorrente evoluiu para um carcinoma de células escamosas, apesar disso a ressecção deste tumor com margens de segurança constituiu um procedimento eficaz no tratamento da paciente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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10. Almangush A, MÃkitie AA, Triantafyllou A, de Bree R, Strojan P, Rinaldo A, et al. Staging and grading of oral squamous cell carcinoma: An update. Oral Oncology. 2020;107:104799.
NOTA
Este artigo é uma versão adaptada da monografia intitulada Carcinoma de células escamosas em lábio inferior, originalmente apresentada em 03 de Marco de 2021, como parte dos requisitos para obtenção do título de cirurgião dentista. Com o objetivo de ampliar a disseminação dos resultados e contribuir para a área de estudo, o conteúdo foi revisado, atualizado e reestruturado para o formato de artigo científico.
[1] Cirurgiã-Dentista. ORCID: 0000-0002-9178-1265. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/1349554481363183.
[2] Cirurgião-Dentista. ORCID: 0000-0001-5501-4344. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/1172431418086639.
[3] Doutora em Odontologia. ORCID: 0000-0002-2389-6570. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2200606105708395.
[4] Mestre em Clínica Odontológica. ORCID: 0000-0002-1503-6757. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6989743751979699.
[5] Mestre em Clínica Odontológica. ORCID: 0000-0001-5167-3916. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4317443046671523.
[6] Orientador. Pós-Doutorado em Cirurgia Maxilofacial – UNICAMP. ORCID: 0000-0002-9133-2347. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0043492004785642.
Material recebido: 28 de fevereiro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 03 de março de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 14 de maio de 2025.



