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Estresse ocupacional e estratégias para seu enfrentamento em profissionais de enfermagem que atuam em unidade de internação oncológica

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

COSTA, Susana Rocha [1], BONAMIGO, Andréa Wander [2], MICHIELIN, Fabiano da Costa [3], WACHTER, DjuliaAndriele [4], SILVEIRA, Luiza Maria de Oliveira Braga [5]

COSTA, Susana Rocha et al.  Estresse ocupacional e estratégias para seu enfrentamento em profissionais de enfermagem que atuam em unidade de internação oncológica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 09, Ed. 08, Vol. 01, pp. 05-20. Agosto de 2024. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/estresse-ocupacional-e-estrategias, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/estresse-ocupacional-e-estrategias

RESUMO

Introdução: O cuidado em oncologia tende a ser estressante devido a elevada sobrecarga emocional relacionada ao cuidado de pacientes gravemente doentes ou em estado terminal. Este estudo aborda o estresse em profissionais de enfermagem oncológica, sujeitos a diversos fatores estressores relacionados aos cuidados de pacientes gravemente doentes e/ou terminais. Objetivo: Avaliar o estresse no trabalho e as estratégias utilizadas para o seu enfrentamento na perspectiva dos(as) enfermeiros(as) que atuam em uma unidade de internação oncológica. Método: Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo com seis enfermeiros que trabalham na unidade de internação oncológica do Hospital Moinhos de Vento. Como instrumentos desse estudo utilizou-se um questionário sociodemográfico semiestruturado; a escala Health Safety Executive – Indicator Toll (HSE-IT) e uma entrevista semiestruturada para investigação de estressores no trabalho de enfermagem. Resultados: Os dados desta pesquisa demonstraram o seguinte perfil de participantes: idade média 37 anos, sexo feminino, casadas, com Pós Graduação em Oncologia, atuando há mais de um ano na instituição, com carga horária de trabalho de mais de 6 horas diárias, com renda mensal superior a quatro salários mínimos, que moram com algum familiar e todas têm alguma prática espiritual. Os resultados indicam a presença de estresse para os trabalhadores da enfermagem que atuam na oncologia, segundo o HSE-IT evidenciou-se nas dimensões de Controle, Apoio da Chefia, Apoio dos Colegas e Relacionamentos. As principais estratégias utilizadas pelas participantes foram: espiritualidade; cuidados com o corpo; saúde mental; lazer; família e apoio em equipe. Conclusão: Concluiu-se que, muitas enfermeiras, principalmente aquelas mais jovens e com menos experiência, apresentam maiores níveis de estresse, podendo dificultar o enfrentamento aos fatores estressores diários no ambiente de trabalho. Para tanto, sugere-se que para minimizar os estressores no ambiente de trabalho de enfermagem oncológica, promover estratégias de enfrentamento ao estresse cientificamente eficientes e, assim, auxiliar na melhora da qualidade de vida desses trabalhadores, foi elaborado um Guia prático de Qualidade de Vida.

Palavras-Chave: Estresse, Enfermagem, Oncologia, Estratégias de enfrentamento.

1. INTRODUÇÃO

O tema deste estudo é o estresse ocupacional em profissionais de enfermagem que atuam em unidade de internação oncológica. O estresse relacionado ao trabalho em enfermagem tem sido relatado em estudos internacionais (Duarte; Gouveia, 2017; Wazqar, 2018; Solana et al., 2019) e nacionais (Silva et al., 2015; Meneguin; Ribeiro, 2016; Ribeiro et al., 2018) como fator associado ao aumento da carga de trabalho e aos riscos ocupacionais, comprometendo a saúde mental e física do trabalhador.

Muitos profissionais da saúde possuem em seu cotidiano atividades que lidam com a dor, o sofrimento, a morte, o ritmo intenso de trabalho, as jornadas prolongadas, os baixos salários, a complexidade das relações humanas, a falta de materiais e de recursos humanos, podendo agravar o estresse desse trabalhador (Duarte; Gouveia, 2017; Wazqar, 2018). Na profissão de enfermagem o nível de estresse no trabalho tende a aumentar quando se lida com pacientes terminais ou gravemente doentes em unidade de internação oncológica, no atendimento de pacientes com câncer (Waqgar, 2018; Solana et al., 2019; Sant’ana, Maldonado, Gontijo, 2019).

O estresse é um estado de corte no equilíbrio emocional, que em baixos níveis é necessário para as ações do indivíduo. Esse fenômeno pode ser dividido em três fases: primária ou alerta (fase de atenção, por vezes necessária, positiva); secundária ou de resistência (seria o acúmulo da fase anterior) e a terciária ou fase de exaustão é a mais negativa, onde há um grande desequilíbrio, esta fase propicia o aparecimento de doenças, como por exemplo a depressão (Silva; Goulart; Guido, 2018).

O ambiente hospitalar é caracterizado por numerosos estressores psicossociais e laborais, relacionados aos cuidados com os pacientes, aos relacionamentos interpessoais no trabalho, ao trabalho por turnos (diurno e noturno) e aos riscos químicos e biológicos, como radiação e doenças infecciosas, a letalidade da doença, pacientes que passam por tratamentos longos e muito debilitantes, com necessidade constante de familiares e cuidadores, que também podem estar em estado de estresse (Fuente et al., 2019). Fatores esses que influenciam a qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem e, especialmente, daqueles que atuam na área de oncologia.

Os fatores associados ao estresse na atenção em enfermagem são inúmeros, podendo referir-se àqueles relativos ao contexto de trabalho oncológico e o sexo feminino, como foi abordado no estudo de Duarte; Gouveia (2017) realizado em cinco hospitais públicos das regiões Norte e Centro de Portugal com 390 enfermeiros. Nesse estudo evidenciou-se que as profissionais do sexo feminino, casadas e que trabalhavam na oncologia eram as que apresentavam os maiores escores de fadiga por compaixão. Desse modo, essas profissionais apresentavam maior sobrecarga física e emocional relacionada ao trabalho. Já em outro estudo realizado por Granek et al. (2016) com médicos obteve-se um desfecho muito parecido, onde relataram sentimentos de solidão, sensibilidade, mau humor, perda/falta de sentido na vida, demonstrando esgotamento a ponto de desejarem abandonar a profissão e, em alguns casos, até relatos de perderem a paciência com os pacientes e familiares, devido ao elevado nível de Burnout (Duarte; Gouveia, 2017; Granek et al., 2016; Monte; Viottib; Conversor, 2017).

Ao investigar as estratégias para lidarem com tais variáveis e situações, observa-se que existe um corpo de estudos acerca do enfrentamento do estresse na prática da enfermagem. No entanto, poucas dessas evidências referem-se ao contexto do cuidar em oncologia, com suas especificidades, que podem acarretar problemas psicológicos, além de sobrecarga física e emocional dessas equipes de enfermagem.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo. De acordo Minayo e Gomes (2013) esse tipo de pesquisa “responde a questões muito particulares […], com um nível de realidade que não pode ou não deveria ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (p.22).

Participaram do estudo seis (6) enfermeiros que trabalham na unidade de internação oncológica, que aceitaram responder aos instrumentos com agendamento prévio pela pesquisadora, fora de seu turno de trabalho.

Foram considerados como critérios de inclusão: trabalhar, exclusivamente, na unidade de internação oncológica; atuar na instituição há mais de um ano; e manifestar o aceite para participar do estudo por meio da aquiescência ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os instrumentos utilizados foram: 1) um questionário sociodemográfico semiestruturado; 2) a escala Health Safety Executive – Indicator Toll (HSE-IT) (Lucca et al., 2017); e 3) uma entrevista semiestruturada para investigação de estressores no trabalho de enfermagem.

O perfil sociodemográfico dos participantes foi identificado por meio do questionário semiestruturado com investigação a respeito das seguintes variáveis: sexo; estado conjugal; idade; formação profissional; cargo; tempo de serviço na enfermagem, na instituição e na oncologia; carga horária de trabalho; remuneração; número de pessoas no domicílio e o parentesco; fé e prática espiritual.

Após o preenchimento do questionário e da escala HSE-IT foram realizadas entrevistas individuais, em salas reservadas, com os enfermeiros da unidade de internação oncológica com as seguintes questões: a) Em relação ao seu trabalho na enfermagem oncológica, o que você julga ser fator(es) de estresse laboral?; e b) Quais as estratégias que você utiliza para enfrentar os fatores estressores? As respostas foram gravadas, transcritas e posteriormente analisadas com a técnica de análise de conteúdo de Minayo, separando por temáticas (Minayo; Gomes, 2013). De acordo Bauer e Gaskell (2017), essa modalidade procura “sentido e compreensão” nas falas, onde foram categorizadas por temática.

A escala “Health Safety Executive – Indicator Tool” (HSE-IT), utilizada para investigar o estresse no trabalho, foi adaptada para o Português do Brasil em 2013. A escala original foi desenvolvida em 2004 a pedido da divisão de saúde e segurança do governo Inglês para avaliação e gerenciamento de risco de estresse de maneira adequada, assim resultando o instrumento HSE Indicator Tool. Os resultados da escala, portanto, podem indicar a prevalência ou a influência dos fatores de risco de estresse, com potencial de causar adoecimento nos trabalhadores de uma determinada organização ou de grupos ocupacionais específicos (Lucca et al., 2017).

O instrumento contém 35 questões distribuídas nas seguintes dimensões: Demandas; Controle; Apoio da chefia; Apoio dos colegas; Relacionamentos; Cargo e Comunicação e Mudanças. Essas sete dimensões avaliam fatores psicossociais e identificam aqueles que podem desencadear estresse, segundo a percepção dos trabalhadores. São elas:

a) Demandas: composto de 8 itens (questões 3, 6, 9, 12, 16, 18, 20 e 22) que versam a respeito de: exigências; prazos inatingíveis; intensidade do trabalho; pausas na rotina de trabalho?; pressão para trabalhar em outro horário; rapidez na entrega de tarefas.

b) Controle: envolve 6 itens (questões 2, 10, 15, 19, 25 e 30), que dizem respeito à: decisão sobre as pausas; velocidade das entregas; liberdade de escolha; dar sugestões e autonomia para definir próprios horários;

c) Apoio da chefia: engloba 5 itens (questões 8, 23, 29, 33 e 35) referentes às informações necessárias para exercer o trabalho; confiança da chefia; poder falar sobre algo que perturba; exigências e a existência de incentivo da chefia;

d) Apoio dos colegas: contempla 4 itens (questões 7, 24, 27 e 31) que avaliam: poder contar com ajuda; ser respeitado e a escuta dos problemas de trabalho;

e) Relacionamentos: composto por 4 itens (5, 14, 21, e 34) sobre a fala dura; a existência de conflitos; a perseguição e a tensão;

f) Cargo: envolve 5 itens (1, 4, 11 13 e 17) que investigam a clareza do que se espera do trabalho exercido, das tarefas, das responsabilidades, os objetivos e as metas a cumprir; a equivalência dos objetivos pessoais com os da empresa;

g) Comunicação e Mudanças: são 3 itens (26, 28 e 32) que versam sobre as oportunidades de pedir explicação sobre mudanças; consultar os trabalhadores sobre mudanças; a influência das mudanças no amor em que se exerce o trabalho.

Na escala HSE-IT (Lucca et al., 2017), as afirmativas são avaliadas em uma escala likert de cinco pontos, sendo: (0) nunca; (1) raramente; (2) às vezes; (3) frequentemente; e (4) sempre. O fator de estresse é considerado nas médias que ficarem abaixo de 2, sendo que as dimensões “demandas” e “relacionamentos” possuem pontuação invertida, ou seja, o estresse é identificado nos níveis abaixo de 2.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Seis enfermeiras foram participantes desse estudo, com idade entre 18 e 50 anos, a maioria delas são casadas, com nível de escolaridade de Pós Graduação Lato Sensu (Especialização em Oncologia); atuam na enfermagem há mais de 1 ano e em cargo assistencial; trabalham na instituição há 2 anos ou mais; trabalham na Oncologia há 2 anos ou mais; têm carga horária diária de 6 horas ou mais; com remuneração superior a 4 salários mínimos; residem com pelo menos mais uma pessoa na moradia; a maioria com o esposo e todas têm alguma crença espiritual.

Esses dados corroboram os achados no estudo realizado por Cruz e Abellan (2015), a respeito do perfil do profissional de enfermagem, destacando o fato da maioria dos participantes serem do sexo feminino e casadas.

Estudos que exploram as relações entre fatores de estresse e perfil sociodemográfico de enfermeiras, evidenciaram que pessoas com idades entre 18 e 25 anos, do sexo feminino, têm maiores níveis de estresse na enfermagem. Esse dado pode estar relacionado com questões relativas à própria história da mulher e da profissão (Teixeira; Gorini, 2008; Brito; Rodrigues, 2011; Cruz; Abellan, 2015; Cestari et al., 2017; Wazqar et al., 2017; Granero; Blanch; Ochoa, 2018; Wazqar, 2018). As enfermeiras estão presentes na história das Guerras e do mundo com o cuidado ao enfermo, práticas sanitárias, e educação para saúde. A palavra enfermeira vem de duas palavras do latim: “nutrix” que significa mãe, e do verbo “nutrire” que significa criar e nutrir, adaptado para o inglês como “Nurse” que no português significa Enfermeira. Profissão marcada pelo protagonismo feminino e sua essência maternal (COFEN, 2014). Com isso, a enfermagem se aproxima muito de ações de cunho maternal, do cuidado, como as práticas assistenciais. Por isso, pode-se associar o nível de estresse maior em enfermeiras jovens; apesar da própria profissão ainda ser caracteristicamente feminina, sendo um total de 84,6% mulheres e 15% homens (COFEN, 2014).

Ferreira (2019), associou o aumento da produção hormonal nas mulheres (cortisol e adrenalina) ao aumento das responsabilidades relacionadas à família, aos cônjuges e aos filhos, concluindo que essa alteração hormonal pode aumentar os níveis de exaustão, bem como a quadros de ansiedade, pânico e depressão. Esses dados corroboram os resultados do presente estudo, uma vez que são todas mulheres, na maioria jovens e com presença de estresse no trabalho.

Entretanto, observou-se, no presente estudo, que a dimensão “demandas” não foi identificada como fonte de estresse pelas participantes, indo de encontro aos resultados dos demais estudos citados na discussão e resultados. Pode-se pensar que, no local da pesquisa, a carga horária de trabalho e a remuneração sejam compatíveis para manutenção da jornada adequada de trabalho do enfermeiro. Ainda assim, reflete-se sobre um menor distanciamento entre a expectativa e a real carga de trabalho do enfermeiro nesse contexto, proporcionando a essas enfermeiras um cotidiano profissional mais previsível e estável para conciliar com as demais demandas da vida (pessoal e familiar, por exemplo).

Todos os domínios da escala HSE-IT, exceto “Demandas”, foram negativos neste estudo, demonstrando que são múltiplos os geradores de estresse no ambiente de trabalho das participantes. Se pensarmos no trabalho do enfermeiro, podemos identificar que se trata de uma atividade rotineira, que segue protocolos institucionais e baseia-se em evidências científicas. É uma profissão de multitarefas, onde se desenvolvem atividades gerenciais e assistenciais. Nesse sentido, pode-se pensar que esse misto de funções pode causar uma sobrecarga no profissional se não for possível desempenhar as atividades levando em consideração que a principal função é a humana/afetiva. Não há como dissociar um indivíduo, compartimentar as pessoas. Para desempenhar suas atividades, ainda que mecânicas, da melhor forma possível, é preciso que goze de um bom estado mental.

Os domínios avaliados através da escala HSE-IT abordam situações cotidianas sobre poder decidir o momento de dar uma pausa no trabalho, poder opinar sobre atividades que serão exercidas, sobre ter metas que possam ser atingidas no próprio tempo sem pressões, sobre receber informações suficientes para realizar o trabalho e poder contar com o apoio dos colegas e da chefia, sobre ser informado a respeito de mudanças, sobre não ser tratado com dureza e sentir-se perseguido. Situações tão cotidianas nas profissões e quando se trata de uma profissão da saúde, que lida com os extremos da vida, é essencial que sejam levadas tais atitudes em consideração para que o profissional possa exercer o seu trabalho da melhor forma possível. Sendo assim, os resultados levam a pensar que essas situações não estão sendo desenvolvidas no cotidiano das participantes e que, talvez por isso, evidenciam mais estresse no trabalho. Em relação ao salário, ter menos de dois salários mínimos e residir em áreas urbanas é considerado fator de estresse (Cruz; Abellan, 2015; Wazqar, 2018). No presente estudo os salários podem ser considerados satisfatórios com base na média salarial da profissão (Cruz; Abellan, 2015), mas o fato da residência ser na conturbada capital e do trabalho dar-se num hospital privado e acreditado (que busca constantes melhorias e exigências profissionais) pode aumentar a competição por cargos e melhores salários. Estudos apontam sobre o impacto do trânsito intenso em centros urbanos relacionado ao sofrimento no trabalho, sendo que o estresse pode aumentar devido o trajeto diário ao trabalho, onde perpassa os turbulentos horários de pico (Cruz; Abellan, 2015; Ko; Larson, 2016; Wazqar et al., 2017; Wazqar, 2018).

Estudos atuais de Ko; Larson (2016); Wazqar et al (2017) e Wazqar (2018) mostram que o estresse está mais presente nos adultos jovens, com menos experiência profissional e menos expertise nas áreas em que desenvolve o trabalho, o que leva a insegurança, excesso de cobranças por resultados e desmotivação por falta de compreensão dos gestores em entender o processo de aprendizagem e aquisição de experiência, que o ocorre baseado nas vivências cotidianas. Os enfermeiros mais jovens e/ou com menos experiência profissional são mais suscetíveis aos fatores estressores, sobretudo, aqueles relacionados com a carga de trabalho e a morte dos pacientes (Ko; Larson, 2016). Fato evidenciado no presente estudo, onde temos uma população jovem, com pouca experiência, que pode afetar-se mais por não ter estratégias psicológicas eficientes já estabelecidas e o controle consciente das emoções em relação às adversidades e situações vulneráveis no trabalho.

O estresse evidenciado em todas as dimensões da escala HSE pode ser interpretado como um sintoma de deficiências nas políticas e práticas institucionais voltadas para o bem-estar dos trabalhadores. As experiências compartilhadas pelas participantes destacam os desafios enfrentados ao lidar com jovens em estágio terminal, o impacto emocional coletivo na equipe e a vulnerabilidade psicológica enfrentada. A pesquisa de Soratto et al. (2017) corrobora essas observações, identificando atividades burocráticas excessivas, escassez de pessoal e sobrecarga de trabalho como fatores contribuintes. Essas demandas excessivas tendem a afastar os profissionais do contato direto com os pacientes, minando as atividades de assistência. Esses padrões, conforme constatado no estudo em questão, apontam para uma desconexão entre as responsabilidades administrativas e o cerne da prática de cuidados.

Outro fator relatado foi a dificuldade de comunicação, onde informações importantes se perdem e o objetivo do trabalho fica pouco claro para quem o exerce. Esses dados corroboram os achados no estudo realizado por Schorr et al. (2020), em que os autores destacam a situação relacionada ao diálogo com os profissionais de outras áreas, o que mostra um desafio frente à inter e multidisciplinaridade. A demanda de trabalho nem sempre está relacionada ao excesso de tarefas, ou ao trabalho do profissional da enfermagem, mas na maioria das vezes pela falta de entendimento do que deve ser realizado, evidenciado pela falta de diálogo e retorno sobre o entendimento.

A respeito das estratégias de enfrentamento ao estresse, as participantes relataram que realizam atividades espirituais ao iniciarem a jornada de trabalho; cuidam do corpo e da mente com auxílio de profissionais das respectivas áreas; buscam o lazer com a família e amigos nos momentos vagos; procuram ter uma boa relação com seus colegas de equipe. Esses resultados também foram observados em outros estudos (Gomes et al., 2013; Umann et al., 2014; Lu et al., 2015; Ko; Larson, 2016; Moraes et al. 2016; Wazqar et al., 2017; Wazqar, 2018; DIAW et al., 2019) corroborando os achados desta pesquisa e evidenciando a importância da espiritualidade e da saúde mental.

As estratégias de enfrentamento são denominadas em estudos internacionais como ‘estratégias de coping’ (Gomes et al., 2013; Lu et al., 2015; Ko; Larson, 2016) e são elementos importantes do funcionamento psicológico do sujeito, servindo como fator de proteção aos diferentes estressores ao longo da vida. Portanto, são igualmente importantes para melhorar a qualidade de vida dos enfermeiros que atuam na área de oncologia (Gomes et al., 2013; Umann et al., 2014), já que há tantas demandas a cuidar e se deparar nessa área de atuação do enfermeiro.

Segundo o estudo realizado por Moraes et al. (2016), o enfrentamento do estresse (coping) pode ser dividido em duas categorias: 1) focalizado no problema (estratégias nas quais os indivíduos buscam controlar os estressores e as ações são dirigidas para diminuir ou eliminar essas situações); ou 2) focalizado na emoção (estratégias que derivam de processos defensivos, em que os trabalhadores evitam o confronto com a ameaça) (Moraes et al., 2016).

As estratégias focadas na emoção possibilitam ao indivíduo modular a emoção frente às situações estressoras e, assim, reduzir as sensações desagradáveis provocadas pelo estresse, nesse contexto as enfermeiras utilizaram a espiritualidade, o lazer, o apoio da família e dos colegas. No entanto, as estratégias focadas nos problemas são consideradas as mais resolutivas, pois compreendem esforços para identificar o problema, definir soluções, alternativas, avaliar custos e benefícios das ações, adotar posturas para mudar o que é possível e aprender novas habilidades em relação aos resultados desejados ou esperados (Gomes et al., 2013). As participantes utilizam estratégias como o apoio psicológico, consulta ao psiquiatra e uso de medicamentos ansiolíticos.

Estudos indicam que a enfermagem oncológica é frequentemente fonte de estresse laboral substancial e destacam a importância das estratégias de enfrentamento para melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores (Gomes et al., 2013; Umann et al., 2014; Lu et al., 2015; Ko; Larson, 2016; Moraes et al. 2016; Wazqar et al., 2017; Wazqar, 2018; Diaw et al., 2019).

Os resultados desta pesquisa, a partir dos três instrumentos utilizados (questionário sociodemográfico, escala HSE-IT e os dois questionamentos), indicam que a enfermagem oncológica é frequentemente fonte de estresse substancial para os trabalhadores e destacam a importância das estratégias de enfrentamento para melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores. Esses resultados corroboram os achados em outros estudos (Gomes et al., 2013; Umann et al., 2014; Lu et al., 2015; Ko; Moraes et al. 2016; Wazqar et al., 2017; Wazqar, 2018; Diaw et al., 2019). Assim, é importante buscar soluções de enfrentamento para minimizar o estresse e melhorar a qualidade de vida dos profissionais de enfermagem oncológica.

4. CONCLUSÃO

Esse estudo teve como objetivo avaliar o estresse no trabalho e as estratégias utilizadas para o seu enfrentamento na perspectiva dos(as) enfermeiros(as) que atuam em uma unidade de internação oncológica. Com base nos resultados desta pesquisa é possível afirmar que, em relação à escala HSE-IT, os principais estressores estão relacionados às seguintes dimensões: apoio da chefia, apoio dos colegas, cargo e comunicação e mudanças.

Por meio deste estudo muitas enfermeiras, principalmente aquelas mais jovens e com menos experiência, podem desenvolver maior estresse em cuidar de pacientes terminais e de seus familiares. Isso pode ser um fator dificultador no emprego de estratégias para lidar com os estressores diários no ambiente de trabalho, prejudicando a qualidade de vida desses trabalhadores.

O perfil sociodemográfico dos participantes da pesquisa demonstrou que, a maioria, pertence ao sexo feminino, casada, na faixa etária entre 29-39 anos, com Pós-Graduação em Oncologia, atuante em cargo assistencial, trabalha em enfermagem há mais de um ano, e na instituição há dois anos ou mais, assim como na área de oncologia há dois anos ou mais. Quanto à carga horária, as participantes trabalham de seis a doze horas diárias, com remuneração superior a quatro salários mínimos, residem com familiares, a maioria com o cônjuge, e todas elas têm alguma espiritualidade.

Já nos dados qualitativos, oriundos das entrevistas, os principais estressores, conforme as enfermeiras, estão relacionados aos seguintes temas: cuidados ao paciente; atividades privativas do enfermeiro; exigências da chefia; relacionamento interpessoal entre a equipe e outros setores do hospital; relacionamento interpessoal com a equipe médica; relacionamento com a família; relacionamento com a saúde do trabalhador; e relacionamento com os colegas de trabalho.

Pode-se evidenciar que os dados apontados na entrevista e os índices evidenciados no inventário de estresse (HSE-IT) se retroalimentam, uma vez que os fatores descritos como estressores foram categorizados e subdivididos conforme os itens da escala, apresentando as reais necessidades de melhores relações, comunicação e apoio mútuo nas relações de trabalho. Para isso foi então apresentado um Guia Prático de Qualidade de Vida, onde sugere-se formas de enfrentamento ao estresse no trabalho a partir das respostas das participantes.

Concluiu-se que os enfermeiros que atuam na área de enfermagem oncológica estão sujeitos a diversos fatores estressores, que podem prejudicar a sua saúde física e mental e a sua qualidade de vida. Tais fatores podem levar ao absenteísmo por motivo de estresse relacionado à falta de apoio da chefia, aos cuidados com os pacientes terminais ou gravemente doentes, e à elevada sobrecarga física e emocional relacionadas ao trabalho. É importante que os enfermeiros da área oncológica previnam ou gerenciem o estresse relacionado ao trabalho usando estratégias eficazes de enfrentamento, visando melhorar sua qualidade de vida e diminuir os níveis de estresse no ambiente de trabalho.

Para minimizar os estressores no ambiente de trabalho de enfermagem oncológica, promover estratégias de enfrentamento ao estresse cientificamente eficientes e, assim, auxiliar na melhora da qualidade de vida desses trabalhadores, foi elaborado um Guia prático de Qualidade de Vida (como produto desse estudo).

Quanto às limitações deste estudo, é possível observar que ele foi realizado com uma população de um único hospital/setor, assim, não foi possível comparar dados com profissionais de enfermagem que atuam em outras áreas. No entanto, os dados encontrados nesta pesquisa corroboram os achados na literatura relacionada ao tema.

Para trabalhos futuros, sugere-se a utilização da metodologia empregada neste estudo em outras áreas da enfermagem além da oncologia. Além disso, investigar equipes em um maior número de hospitais / setores para que seja possível comparar as realidades vivenciadas pelos enfermeiros em diversos ambientes de trabalho evidenciando as necessidades de cuidado às equipes, como cuidadores que são.

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NOTA

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial LanguageTool “versão não identificada na plataforma” utilizada para correção ortográfica. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos e análises e discussões foram realizadas de maneira autoral.

[1] Mestre em Ensino na Saúde; Especialista em Saúde da Família; Especialista de Docência no Ensino Superior; Especialista em Psicologia Positiva e Coaching; Graduação em Enfermagem. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2504-6676. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7807652621098986.

[2] Doutora em Saúde Pública; Mestrado em Distúrbios da Comunicação; Especialização em Saude Publica; Graduação em Fonoaudiologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6435-704X. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6794571499071511.

[3] Possui graduação em Enfermagem pelo Centro Universitário Metodista (2009). Especialização em Terapia Intensiva Urgência e Trauma no Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital Moinhos de Vento (2011) Mestrado Profissional na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Atualmente é enfermeiro do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, experiência na área de Enfermagem, Preceptor da Residência Multiprofissional no programa Adulto Crítico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. ORCID: 0000-0003-17310008. Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/3889051621998429.

[4] Enfermeira, graduada pela Universidade Regional de Blumenau em 2013, especialista em Urgência e Emergência pela Universidade Regional de Blumenau e Gestão em Saúde pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestre em Ensino na Saúde pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Experiência em área assistencial em emergência, controle de infecção hospitalar e docência em nível médio. Atualmente atua no setor de emergência do hospital de Clínicas de Porto Alegre-RS. ORCID: 0000-0002-9127-3164. Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/6501924255746949.

[5] Doutora em Psicologia; Mestre em Psicologia e Graduada e Psicologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9531-8251. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7833107862856697.

Material recebido: 29 de janeiro de 2024.

Material aprovado pelos pares: 28 de maio de 2024.

Material editado aprovado pelos autores: 25 de  julho de 2024.

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Susana Rocha Costa

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