Alterações Nutricionais após Cirurgia Bariátrica

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Alterações Nutricionais após Cirurgia Bariátrica
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TOLEDO, Fábio Martins Teodoro [1], RUIZ, Sandra Silva Datore [2]

TOLEDO, Fábio Martins Teodoro; RUIZ, Sandra Silva Datore. Alterações Nutricionais após Cirurgia Bariátrica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 05, Vol. 04, pp. 186-199, Maio de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

O presente estudo tem o objetivo demonstrar as principais alterações nos nutrientes no pós-operatório da cirurgia bariátrica na técnica de bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR) uma técnica mista por restringir o tamanho da cavidade gástrica e, consequentemente, a quantidade de alimentos ingerida, e por reduzir a superfície intestinal em contato com o alimento, podendo causar complicações nutricionais importantes após esse tipo de cirurgia, como desidratação, desnutrição proteica e deficiências em vitaminas e minerais. O tratamento das deficiências nutricionais desses pacientes deve considerar megadoses de micronutrientes devido à menor biodisponibilidade em decorrência das alterações fisiológicas proporcionadas pelas técnicas cirúrgicas, portanto a suplementação nutricional torna-se uma alternativa terapêutica necessária, contribuindo para a perda de peso de forma saudável.

Palavras-chave: Obesidade, Cirurgia Bariátrica, Alterações Nutricionais.

1. INTRODUÇÃO

A obesidade é uma doença crônica, de etiologia multifatorial, caracterizada como psicossomática e apresentando fatores de risco para algumas patologias consideradas graves, como: dislipidemias, diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e osteoartrite. É investigada sob enfoques genéticos, neuroendócrinos, metabólicos, nutricionais, ambientais, sociais e familiares e já é considerada um dos graves problemas de saúde pública e atinge 600 milhões de pessoas no mundo, 30 milhões somente no Brasil. Se for incluída a população com sobrepeso, esse número aumenta para 1,9 bilhão de pessoas no mundo e 95 milhões de brasileiros.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica o número de cirurgias bariátricas no Brasil aumentou 7,5% em 2016 em comparação com o ano de 2015 e apontam que cerca de 100.512 pessoas fizeram a cirurgia. O número supera em cerca de 7 mil procedimentos as 93,5 mil cirurgias realizadas em 2015 e está em crescimento. Em 2012, foram feitas 72 mil cirurgias no País, em 2013, 80 mil procedimentos e em 2014, cerca de 88 mil. O Brasil é considerado o segundo país do mundo em número de cirurgias realizadas e as mulheres representam 76% dos pacientes.

Existem vários graus de obesidade e, para classificá-los, é utilizado o Índice de Massa Corpórea (IMC), considerado padrão ouro para a avaliação do peso de um indivíduo. Atualmente, esse é o procedimento mais simples e difundido para a avaliação da obesidade, tanto para fins clínicos como de pesquisa.

De acordo com a OMS, o valor do IMC do indivíduo é calculado dividindo-se o peso (em quilogramas) pela altura (em metros) elevada ao quadrado. A partir desse cálculo estabelece-se a obesidade quando o IMC é maior ou igual a 30 kg/ m². Desse parâmetro resultam os graus, a saber: Grau I, quando o IMC se situa entre 30 e 34,9 kg/ m²; Grau II com IMC entre 35 e 39,9kg/m² e Grau III com IMC acima de 40 kg/m².

Existem três procedimentos básicos da cirurgia bariátrica e metabólica, que podem ser feitos por abordagem aberta ou por videolaparoscopia sendo esta menos invasiva e mais confortável ao paciente.

 Os procedimentos cirúrgicos para o tratamento da obesidade mórbida podem ser classificados como Restritivos, Disabsortivos e Mistos. Os métodos Restritivos que diminuem a quantidade de alimentos que o estômago é capaz de comportar, os Disabsortivos que reduzem a capacidade de absorção do intestino e os Mistos com pequeno grau de restrição e desvio curto do intestino com discreta má absorção de alimentos.

No Brasil são aprovadas quatro modalidades diferentes de cirurgia bariátrica e metabólica além do balão intragástrico, que não é considerado cirúrgico. Sendo estes o Bypass gástrico (gastroplastia com desvio intestinal em “Y de Roux”), Banda gástrica ajustável, Gastrectomia vertical e Duodenal Switch.

Neste estudo será abordada a principal técnica de cirurgia bariátrica realizado atualmente o bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR), uma técnica cirúrgica mista por restringir o tamanho da cavidade gástrica e, consequentemente, a quantidade de alimentos ingerida, e por reduzir a superfície intestinal em contato com o alimento (disabsorção).

A derivação pancreático biliar parcial bypass gástrico com Y de Roux com alça longa e os procedimentos de desvio duodenal tornaram se populares porque eles criam um grau de má absorção que resulta na perda de peso maior que a derivação gástrica em Y de Roux padrão. A abordagem laparoscipica tem reduzido o tempo de hospitalização consideravelmente e com taxas menores de hérnias incisionais em comparação aos procedimentos abertos.

Figura 1 - Técnica Bypass gástrico em Y de Roux (BGYR). Fonte:  https://fizcirurgiabariatrica.wordpress.com/2010/09/22/32%C2%BA-dia-apos-a-cirurgia-bariatrica-ou-gastroplastia
Figura 1 – Técnica Bypass gástrico em Y de Roux (BGYR). Fonte:  https://fizcirurgiabariatrica.wordpress.com/2010/09/22/32%C2%BA-dia-apos-a-cirurgia-bariatrica-ou-gastroplastia

Após a cirurgia, quase toda a perda de peso ocorrerá durante os dois primeiros anos. As taxas de sucesso em longo prazo (mais de cinco anos) são consideráveis nos bons programas.

Muitos dados confirmam o impacto positivo da cirurgia bariátrica sobre as condições mórbidas relacionadas com a obesidade, como diabetes melito, hipertensão, apneia do sono obstrutiva, dislipidemia e doença hepática gordurosa não alcoólica. Acredita- se que a melhora observada na diabetes após o procedimento restritivo pouco absortivo seja devida aos efeitos específicos da cirurgia e independentes do peso sobre a homeostase da glicose causado pela alteração dos hormônios intestinais. (LONGO ,2013).

A mortalidade cirúrgica em decorrência da cirurgia bariátrica em geral é inferior a 1%, mas varia de acordo com o procedimento, a idade do paciente e suas condições comórbidas, bem como com a experiência da equipe cirúrgica.

A má absorção de nutrientes é umas das explicações para a perda de peso alcançada com o uso de técnicas di­sabsortivas, sendo que cerca de 25% de proteína e 72% de gordura deixam de ser absorvidos. Automaticamente, nutrientes que dependem da gordura dietética para serem absorvidos, como as vitaminas lipossolúveis e o zinco, estão mais suscetíveis a uma má absorção nesse tipo de procedimento, assim como a vitamina B12, ferro, folato, cálcio e vitamina D, de modo que os pacientes submetidos a eles requerem suplementação desses micronutrientes pelo resto da vida.

A maioria das deficiências pode ocorrer entre 12 e 15 meses de pós-operatório, mas a deficiência de vitamina D3 ocorre significativamente mais cedo em 9,7 meses sendo necessária sua suplementação, pois esta vitamina associa-se a absorção do cálcio, osteoporose e aumento do risco de mortalidade.

De acordo com Cecil, Russell L. (2014) este acompanhamento de longo prazo destes pacientes é necessário para garantir o aporte proteico, calórico, vitamínico e mineral adequados. As consequências nutricionais são as alterações no metabolismo do cálcio e da vitamina D. Um aumento da fosfatase alcalina óssea pode indicar a deficiência de vitamina D ou de cálcio baixas concentrações plasmáticas de vitamina D e baixa excreção de cálcio na urina deve levar a uma imediata instituição de uma agressiva terapia de reposição. Deficiências de ferro, outras deficiências de vitaminas lipossolúveis, e casos de deficiência de cobre mais de cinco a 10 anos após a cirurgia tem sido descrito.

Foram também relatados casos de hipoglicemia pancreatogênica desenvolvida após os procedimentos cirúrgicos bariátricos. Os sintomas são principalmente pós-prandiais, e pode ser grave o suficiente para indicação de pancreatectomia parcial.

As vitaminas e minerais são fatores e cofatores essenciais em muitos processos biológicos que regulam o peso corporal direta ou indiretamente (Figura 2).

Figura 2 - bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR) e nos quadrados menores as principais alterações nutricionais. Fonte: Lívia A. BORDALO et al. Deficiências nutricionais após cirurgia bariátrica, 2011.
Figura 2 – bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR) e nos quadrados menores as principais alterações nutricionais. Fonte: Lívia A. BORDALO et al. Deficiências nutricionais após cirurgia bariátrica, 2011.

Os benefícios metabólicos desses micronutrientes no controle da perda de peso incluem a regulação do apetite, da fome, da absorção de nutrientes, da taxa metabólica, do metabolismo de lipídios e carboidratos, das funções das glândulas tireoide e suprarrenais, do armazenamento de energia, da home­ostase da glicose, de atividades neurais, entre outros. Assim, a “adequação” de micronutrientes é importante não só para a manutenção da saúde, mas também para obter o máximo sucesso na manutenção e na perda de peso em longo prazo.

2. METODOLOGIA

O objetivo deste trabalho foi demonstrar as principais alterações nos nutrientes no pós-operatório da cirurgia bariátrica na técnica de bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR). O presente estudo constitui em uma revisão literária, sistemática, que se baseia em estudos para identificar, selecionar e avaliar criticamente pesquisas consideradas relevantes e contribuem como suporte teórico-prático para a análise da pesquisa bibliográfica.

Para a coleta de dados foram utilizados como bases de dados a  PubMed (US National Library of Medicine National Institutes of Health), Scielo (Scientific Eletronic Library Online) e Bireme (Biblioteca Virtual em Saúde).

Os descritores usados para a busca foram: cirurgia bariátrica, pós-operatório de cirurgia bariátrica, técnica bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR), obesidade e deficiência de nutrientes.

Os principais critérios de inclusão foram artigos, teses e dissertações científicas e livros, que abordassem as principais alterações e ou deficiências nutricionais após a cirurgia bariátrica.

3. DESENVOLVIMENTO

AS PRINCIPAIS DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS

Podem ocorrer complicações nutricionais importantes após esse tipo de cirurgia, como desidratação, desnutrição proteica e deficiências em vitaminas e minerais. Essas deficiências geralmente resultam da ingestão quantitativamente reduzida, das alterações na qualidade da dieta, ou da menor eficiência de absorção dos nutrientes, e a incidência depende do tipo de procedimento realizado.

A proteína esta entre os principais alimentos afetados pela cirurgia bariátrica. A desnutrição proteica, cujas principais características são hipoalbuminemia, anemia, edema, astenia, alopecia, representa uma complicação após cirurgias mistas.

Geralmente pacientes submetidos à técnica bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR) consomem dietas bastante restritas, justamente nos períodos em que as necessidades proteicas estão aumentadas em decorrência da resposta catabólica à cirurgia. Nestes casos a ingestão reduzida de proteínas pode contribuir para uma perda excessiva de massa magra, outros fatores que também contribuem para um menor consumo de fontes proteicas são a intolerância alimentar, as alterações na percepção do sabor de alimentos específicos e as alterações nas escolhas alimentares.

Neste tipo de operação com maior componente disabsortivo, há uma grande porcentagem de pacientes que apresentam riscos elevados de deficiências em vitamina B12, cálcio, vitaminas lipossolúveis, sódio, potássio, cloreto, fósforo, magnésio e zinco.

As deficiências nas vitaminas e minerais ocorrem principalmente em decorrência do desvio de segmentos do trato gastrintestinal que são imprescindíveis para o processo de absorção.

FERRO

As deficiências do ferro podem ocorrer principalmente em razões de três fatores importantes como a ingestão reduzida de alimentos que são fonte de ferro heme, após a à técnica bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR).

Na BGYR, o estômago fica excluído no trânsito alimentar, consequentemente há menos ácido clorídrico produzido pelas células oxínticas. A secreção reduzida de acido clorídrico prejudica a solubilização dos sais de ferro e a manutenção do ferro na forma ferrosa.

Nesta cirurgia há um desvio do duodeno e das principais porções do intestino delgado que são os principais sítios de absorção do ferro.

Em maior ou menor grau, portanto, todos os pacientes submetidos às cirurgias bariátricas são sujeitos a desenvolver deficiências em ferro. A anemia ferropriva é mais evidente em conjunto com fontes crônicas de sangramento como em mulheres menstruantes e em pacientes com úlceras ou com outros tipos de hemorragias.

Em cirurgias mistas com maiores componentes restritivos como na BGYR, a prevalência de deficiências em ferro é variável e ocorre principalmente em razão da exclusão do sitio de absorção do mineral. Estudos indicam que a prevalência de deficiência em ferro neste tipo de cirurgia aumenta no decorrer do tempo. Skoroubis el al, encontraram uma porcentagem de deficiência de ferro de 26% no período pré-operatório, e após quatro anos essa porcentagem aumentou para aproximadamente 39%.

Já Silvestre et, al. Avaliaram retrospectivamente 125 pacientes submetidos a cirurgia e verificaram que apenas 10% deles apresentavam deficiências em ferro após 2 anos.

Portanto estima- se que, em cirurgias mistas principalmente disabsortivas a prevalências de deficiência em ferro seja maior quando comparada as outras técnicas.

CÁLCIO E VITAMINA D

Indivíduos morbidamente obesos que se submetem a cirurgia bariátrica apresentam risco considerável de desenvolvimento de anormalidade ósseas. Fatores como a restrição na ingestão de cálcio alimentar, o desvio de duodeno e parte o jejuno proximal que são os principais locais de absorção do mineral e uma possível alteração no metabolismo da vitamina D.

Coastes et, al 2004 avaliou a influência da BGYR na saúde óssea em curto prazo, compararam 25 pacientes submetidos à cirurgia (após onze meses em média) com trinta controles obesos. Os níveis de PTH e de 25-hidroxivitamina D séricos, de fosfatasealcalina e de cálcio na urina não apresentaram diferença significativa entre os grupos. Entretanto valores de osteocalcina sérica foram 53% maiores no grupo e os níveis de N- telopeptídeo do colágeno (NTx) urinário – um marcador de reabsorção óssea foram 288% mais altos nesse grupo. Avaliações de densiometria por dupla emissão de raio x (DEXA) revelaram densidade mineral óssea reduzida após 9 meses na região lombar 3,3%, na cabeça do fêmur 5,1%, no fêmur total 7,8%, no trocânter 9.3%, e corporal total 1,6%, o conteúdo mineral ósseo após 9 meses foi reduzido no fêmur total e no trocânter em média 5,6% e corporal total em média 3%.

É importante ressaltar que a ingestão de cálcio e vitamina D esteve adequada ao recomendado. Esses resultados sugerem um aumento precoce no índice de reabsorção óssea, com início após três meses de BGYR, o que resulta em perda mineral óssea significativa no fêmur.

Estes estudos demonstram que a prevalência de deficiência em cálcio e em vitamina D após a cirurgia bariátrica é bastante significativa. Os pacientes devem ser incentivados a consumir fontes bio disponíveis do mineral, fazer exposição diária ao sol, e suplementação de cálcio nos quais devem ser fornecidos na forma de citrato de cálcio que não depende de secreção ácida para ser metabolizado.

ZINCO, SELÊNIO E MAGNÉSIO

Alguns autores citam a alopecia como um sintoma comum e na maioria das vezes atribuem essa característica a um possível estado nutricional alterado em relação ao Zinco. Sendo considerados alguns aspectos como os principais alimentos fontes de zinco são também ricos em proteínas como ostras, carnes, mariscos, fígado entre outros, portanto o consumo de fontes proteicas influenciará também a quantidade de zinco ingerida.

Os principais fatores que predispõe a deficiência de zinco após a cirurgia bariátrica são a ingestão alimentar reduzidas e o desvio do duodeno, que é o principal local de absorção desse mineral.

De acordo com o estudo de Cominetti et al (2006), avaliaram o estado nutricional relativo ao zinco de pacientes submetidos a BGYR no período pré operatório e dois meses após a cirurgia, na primeira fase do estudo , 74% dos pacientes avaliados apresentaram valores de zinco plasmático reduzidos, 61% deles apresentaram valores reduzidos dos eritrócitos  e 73% apresentaram excreção urinária elevada, apenas dois meses após o procedimento esses valores passaram a ser de 68, 23 e 24% para zinco plasmático , eritrocitário e excreção urinária. Os resultados sugerem uma redistribuição corporal do zinco após a redução de peso, a fim de manter a homeostase do mineral, visto que a ingestão de zinco foi menor após a cirurgia.

Quanto ao Selênio e sua relação com a cirurgia bariátrica praticamente é escasso na literatura. Dolan et al, compararam dois tipos de procedimentos disabsortivos   em relação ao estado nutricional dos pacientes e observaram que 14, 5% deles apresentaram deficiência do mineral após trinta meses do pós- cirúrgico. Em casos de alteração ou mau funcionamento do trato digestório pode ocorrer deficiência e m selênio, sendo comuns em casos com alterações gastrintestinais graves.

Em relação ao Magnésio, são ainda mais escassos na literatura, ao que parece esta deficiência é realmente menos prevalente. Segundo estudos de Vázquez et al, apenas 9% dos pacientes apresentaram hipomagnesemia um ano após a cirurgia bariátrica. Esta deficiência deve ser monitorada em pacientes que apresentam muitos episódios de vômitos e naqueles que utilizam medicamentos anti-hipertensivos, principalmente diuréticos.

VITAMINA B1 e VITAMINA B12

A deficiência em Vitamina B1 (Tiamina) pode ocorrer principalmente em razão de três fatores: ingestão alimentar reduzidas, presença frequente de vômitos e má absorção. São frequentes episódios de vômitos durante os primeiros meses após a cirurgia, e geralmente ocorrem da ingestão excessiva ou de mastigação inadequada. Indivíduos que apresentam deficiência desta vitamina no pré-operatório possuem um maior risco para o desenvolvimento de beribéri no pós-operatório, esta patologia caracteriza- se pela ausência de tiamina e pode afetar vários órgãos incluindo coração, trato gastrointestinal e sistema nervoso central e periférico.

Sua deficiência é mais presente após BGYR, a maioria dos pacientes desenvolve a deficiência a tiamina nos primeiros meses de pós-operatório. Pacientes com riscos e deficiência em Tiamina deve ser prevenida e se detectada deve ser tratada precocemente, pois a Síndrome de Wernicke- Korsakoff aguda pode resultar em sequelas permanentes, devido aos efeitos citotóxicos irreversíveis em regiões específicas do cérebro.

Com relação à Vitamina B12, a deficiência pode ocorrer em razão da menor secreção de ácido clorídrico pelo estômago o que prejudica a digestão da vitamina ligada a proteína alimentar. Há uma redução importante na secreção do fator intrínseco pelas células parietais, o que interfere na absorção da vitamina.

A deficiência desta vitamina pode causar anemia megaloblástica e problemas neurológicos.

Esta deficiência pode ser comum em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Estima – se que após a BGYR a prevalência média de níveis séricos reduzidos de vitamina B12 varie entre 12 e 33%, porém com poucos sintomas clínicos, níveis adequados desta vitamina são proporcionais à adesão do paciente à suplementação recomendada.

ÁCIDO FÓLICO

A deficiência em ácido fólico tende a ser menos prevalente que a deficiência em vitamina B12 e decorre da ingestão alimentar reduzida, podendo variar em média, entre 9 e 35%. Brolin et al, avaliaram 85 pacientes submetidos à cirurgia bariátrica por um período superior à três anos, em média 35% dos pacientes apresentaram neveis séricos de acido fólico baixos. Entretanto foi verificada uma taxa de adesão à suplementação de apenas 33% e a incidência de deficiência foi menor entre os pacientes que aderiram à suplementação quando comparados aos que não ingeriram o suplemento (31% x 52%). Considera- se ainda o fato de que a secreção reduzida de ácido clorídrico possa interferir na absorção do ácido fólico, que para o ácido fólico ser efetivamente absorvido, o metiltedraidrofolato precisa ser dimetilado pela ação da enzima metionina sintetase, depende de vitamina B12. Portanto a retenção do ácido fólico nos tecidos também depende do estado nutricional do indivíduo em relação à vitamina B12.

Níveis deficientes de ácido fólico e vitamina B12 têm influência nas concentrações de homocisteína plasmática, sabe-se que concentrações elevadas de homocisteína plasmática total, são fatores de risco independente para doenças vasculares, como doença arterial coronariana e cerebrovascular. Os autores concluíram que a suplementação com ácido fólico é de extrema importância para que os efeitos cardiovasculares benéficos da cirurgia não sejam minimizados pelos altos níveis de homocisteína.

VITAMINAS LIPOSSOLÚVEIS – A, E, K

As deficiências em vitaminas lipossolúveis podem ser muito comuns após a cirurgia bariátrica que é resultada da redução na ingestão de alimentos fonte de vitamina A e de lipídios, bem como a má absorção. É importante destacar que o zinco é um elemento essencial à mobilização e o transporte de vitamina A, pois participa na síntese da proteína ligadora de retinol. Portanto o estado nutricional relativo à vitamina A e zinco devem ser avaliados em conjunto.

Deficiências em Vitaminas E e K, por serem lipossolúveis e dependerem da presença de sais biliares para serem absorvidas, podem ocorrer após a cirurgia bariátrica. Estudos com bases nos relatos existentes percebem- se que a prevalência de deficiência em Vitamina E é baixa em torno de 5% mesmo após vários anos. A ingestão criteriosa de suplementação não deve ser descartada.

Em relação à Vitamina K a prevalência de deficiência é muito maior podendo ultrapassar a 60%, a vitamina K é um cofator na reação enzimática que converte glutamil em resíduos de y-carboxiglutamil, em proteínas dependestes dessa vitamina, a deficiência resulta em subcarboxilação dessas proteínas que pode ser um fator de risco para osteoporose e calcificação arterial.

PROTEÍNAS

A deficiência de proteína é a mais comumente relatada entre os macronutrientes. É observada principalmente após as técnicas cirúrgicas disabsortivas ou mistas (DBP/DS e BGYR). Estima-se que apenas 57% da proteína ingerida é absorvida após o bypass intestinal.

A hipoalbuminemia (albumina < 3,5 g/dL) após o BGYR pode variar de 13% em pacientes após dois anos de cirurgia 63 a 27,9% após dez anos 33%, ou até mesmo não estar presente nos primeiros meses.

Alguns especialistas recomendam 70 g/dia de proteína durante restrições calóricas para a perda de peso. Porém, muitos programas de cirurgia bariátrica recomendam 60 a 80 g/dia de proteína ou 1,0 a 1,5 g/kg de peso ideal, embora as necessidades exatas ainda não estejam definidas. O paciente deve ser orientado a utilizar suplementos proteicos em pó e de alto valor biológico após 48 horas da realização da cirurgia.

Carnes, aves, peixes, ovos, leite e derivados lácteos devem ser incentivados ainda nos primeiros meses de pós-operatório, de acordo com o protocolo de evolução da dieta. A ingestão de proteína deve ser avaliada periodicamente, em cada consulta nutricional.

CONCLUSÃO

Os resultados positivos da cirurgia bariátrica, tanto na redução e manutenção do peso em longo prazo como na melhoria da qualidade de vida dos pacientes são evidentes. Considera – se também que os efeitos positivos superam os possíveis riscos em curto e longo prazo.

É de fundamental importância que a equipe multidisciplinar e o paciente esteja consciente destes riscos e disposto a manter o acompanhamento por toda a vida.

O paciente submetido à cirurgia bariátrica deve ser instruído e orientado em relação à importância da dieta no pós-operatório, inclusive da função que os micronutrientes exercem no organismo.

Muitos fatores estão envolvidos na causa de tais deficiências. Antes mesmo de qualquer intervenção cirúrgica, a obesidade pode estar associada a deficiências nutricionais subclínicas que podem ser agravadas após as alterações anatômicas e fisiológicas provocadas no trato gastrointestinal. Além disso, há limitação e/ou alteração na ingestão dietética. A suplementação nutricional torna-se uma alternativa terapêutica necessária, contribuindo para a perda de peso de forma saudável e, na maioria das vezes, deve ser avaliada de forma individualizada.

A suplementação preventiva torna-se cada vez mais importante nesse contexto, o uso de polivitamínicos e minerais de forma preventiva deve compor o protocolo de atendimento de todos os pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, principalmente daqueles submetidos às técnicas que envolvem algum grau de disabsorção como a bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR).

O tratamento das deficiências nutricionais desses pacientes deve considerar megadoses de micronutrientes devido à menor biodisponibilidade em decorrência das alterações fisiológicas proporcionadas pelas técnicas cirúrgicas. Mais estudos são necessários para estabelecer a dosagem eficaz no tratamento das deficiências nutricionais após cirurgia bariátrica.

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[1] Curso de Medicina – Universidade Brasil – UNIBRASIL – Campus Fernandópolis – SP

[2] Curso de Medicina – Universidade Brasil – UNIBRASIL – Campus Fernandópolis – SP

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