Ayahuasca: Um Caminho para o Equilíbrio

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2020
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Ayahuasca: Um Caminho para o Equilíbrio
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OLIVEIRA, Rita Barreto de Sales [1] AMARAL, Renilda Gonçalves do [2]

OLIVEIRA, Rita Barreto de Sales; AMARAL, Renilda Gonçalves do. Ayahuasca: Um Caminho para o Equilíbrio. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 01, Vol. 09, pp 724-738, Outubro / Novembro de 2016. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo tem como propósito investigar as relações existentes entre o consumo sistemático do chá ayahuasca em contexto religioso e o bem-estar dos indivíduos que o consomem. Por meio de pesquisa bibliográfica, explicou-se o que é ayahuasca; verificou-se seu uso entre os povos indígenas e os grupos religiosos mais expressivos – a Barquinha, a União do Vegetal e o Santo Daime; e, enfim, enumerou-se um rol de benefícios proporcionado pela bebida, ou seja, autoconhecimento, tratamento da dependência, domínio de si e do ambiente, e melhoramento nas relações sociais. Dessa forma, compreendeu-se que o uso da ayahuasca em contexto religioso pode levar o indivíduo a uma qualidade de vida melhor e a uma interação mais equilibrada com o planeta.

Palavras-chave: Ayahuasca, Religião, A Barquinha, A União do Vegetal, O Santo Daime.

INTRODUÇÃO

Desde os primórdios da humanidade, o homem tem buscado a sua religação com o Criador. Rituais têm sido realizados desde as mais remotas eras na tentativa de obter resultados nessa busca incansável pela aproximação com o divino, o sagrado, a espiritualidade.

Nessa linha de pensamento, Felipe (2015) declara que a utilização de substâncias psicotrópicas sempre seguiu a humanidade e que o conhecimento acerca de plantas enteógenas[3] vem crescendo e que estas, até então restritas ao uso milenar e tradicional, afastam-se da floresta e ganham espaço na sociedade contemporânea, tendo sua utilização associada ao aprimoramento do indivíduo como um todo e no tratamento de doenças.

Nesse sentido, Mundim (2016) afirma que nas entranhas da floresta tropical Amazônica na América do Sul há um segredo, o qual permaneceu escondido do mundo por milhares de anos. Só há pouco tempo, tal segredo escapou da selva e começou a impactar de modo significativo a vida de um crescente número de pessoas por toda a Terra. Esse mistério tem transformado profundamente a vida da maioria das pessoas que o experimentam e algumas delas creem que têm potencial para mudar o mundo.

Esse autor assevera que o nome desse segredo é Ayahuasca, o qual se pronuncia aya-uaska, que é a denominação dada a uma sagrada planta medicinal que se origina na floresta Amazônica, local onde tem sido usada por milhares de anos pela população indígena local. A palavra Ayahuasca deriva-se de duas palavras Quechua[4]: Aya, que significa espírito ancestral da pessoa morta, e Huasca, que significa vinho ou corda. Assim, Ayahuasca é muitas vezes conhecida como “vinho da alma” ou “vinho da morte”.

O autor supracitado assegura que a história da Ayahuasca é relativamente desconhecida uma vez que não há registros escritos da região Amazônica depois da invasão espanhola. Tudo o que há são vários mitos e tradições boca-a-boca passados pelas gerações. Todavia, um cálice foi encontrado no Equador e se acredita que este tem mais de 2.500 anos e contém traços de Ayahuasca. É sabido que essa bebida é usada em muitos países da América do Sul inclusive Brasil, Equador, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, e por, no mínimo, 70 diferentes tribos indígenas das Américas.

Este artigo tem como objetivo geral: Investigar as relações existentes entre o consumo sistemático do chá ayahuasca em contexto religioso e o bem-estar dos indivíduos que o consomem.

1 O QUE É AYAHUASCA

Pereira Júnior (2014) afirma que a ayahuasca é um chá cuja composição é obtida a partir da junção de dois vegetais amazônicos, sendo um da espécie, Banisteriopsis caapi, mais conhecido como cipó mariri ou jagube e o outro componente, a folha de um arbusto, psicotria viridis, chamada chacrona, que ao passar por um processo de decocção, resulta em uma bebida qualificada como um psicoativo rico em dimetiltriptamina[5] e beta-carbolinas; e que possui ação direta sobre o sistema serotonérgico[6].

Neurotransmissores (2010) afirmam que o DMT (dimetiltriptamina) é um forte alucinógeno, tendo ação agonista aos receptores de serotonina. Contudo, quando existe ingestão via oral, o DMT é inativado pela enzima MAO (monoaminaoxidase). Mas, as beta-carbolinas contidas no Ayahuasca são potentes inibidoras da MAO, deixando que haja alta na atividade do DMT. Ademais, as beta-carbolinas ampliam os níveis de serotonina, dopamina, norepinefrina e epinefrina no cérebro.

Para os autores acima citados, dessa forma, a beta-carbolina atua como inibidor da recaptação do receptor de serotonina e inibidora da MAO. Deste modo, “a beta-carbolina prolonga a vida do DMT por bloquear sua recaptação. Por outro lado, a beta-carbolina pode bloquear a recaptação neural da serotonina, resultando em altos níveis desse neurotransmissor na fenda sináptica” (s/p).

Pereira Júnior (2014) ressalta que a preparação desse chá não ocorre simplesmente com a junção das plantas mariri e chacrona, uma vez que existe todo um ritual que antecede o momento do cozimento do mesmo e, na maioria das vezes, para a realização de todo o processo são gastos vários dias. Isso acontece desde a colheita dessas plantas acompanhada de um cuidado especial, até chegar o momento da decocção (fervura), para que, desse modo, o trabalho inteiro seja concluído.

Para Fabiano (2012), o uso da ayahuasca nas sessões religiosas é muito eficaz no que se refere ao esclarecimento da realidade espiritual, pois trabalha com o sentimento e a memória das pessoas, possibilitando que gravem e compreendam os ensinos e as revelações que lhes são passados. A razão não é bastante para a percepção da realidade espiritual; o sentimento é fundamental. “Unidos, intelecto e coração clareiam a consciência. O vegetal promove essa unidade” (p.146).

2 USOS DA AYAHUASCA

Oliveira (2010) afirma que muitos grupos indígenas e alguns movimentos religiosos utilizam a bebida ayahuasca em alguns de seus rituais.

2.1 Povos Indígenas

Oliveira (2010) destaca três grupos linguísticos que ingerem ayahuasca entre os povos indígenas: Pano, Aruák e Tukano.

2.1.1 Pano

Entre os Kaxinawá, a bebida é reconhecida como nixi pae. Sua ingestão possibilita o contato com a realidade mais sutil, que não aparece no cotidiano. Para esses indígenas, dessa forma é possível compreender o espírito que permeia toda a natureza, assim como a equidade entre todos os seres e os humanos. Tal visão confirma a concepção de que o homem faz parte da natureza, e de que a espiritualidade a permeia por completo. O nixi pae ainda é responsável pela preparação para a morte, além de dar força para a luta espiritual. O uso é feito de forma ritual, e as mulheres não ingerem a bebida.

Para os Maburo, a bebida é reconhecida como oni. Eles a relacionam com as origens do mundo e dos seres. Tal bebida é conhecida como o elo entre o mundo dos vivos e dos mortos ou mundo dos espíritos.

Os Yaminawá imaginam a pessoa em três partes: o corpo, a consciência e o espírito. O shori, nome dado à bebida, possibilita o acesso ao mundo espiritual. Por meio dele, “são presenciados os mitos e adquiridos os poderes que criaram as coisas” (p. 6). O canto xamânico está inteiramente ligado ao shori, o qual possibilita aos espíritos cantar através do xamã.

Os Sharanawa, que reconhecem a ayahuasca pelo termo ondi, notam uma ligação entre sonhos e as visões geradas pela bebida. Igualmente como é feito um contato com o mundo espiritual por meio dos sonhos, isso também é possível em estado de vigília.

2.1.2 Aruák

Entre os Ashaninka, o nome dado à ayahuasca é kamarampi, sendo ligado à noção de imortalidade. Os mitos descrevem as formas de utilizá-lo, e através deles indicam as restrições que devem ser observadas para o uso correto. No entendimento dos Ashaninka,

Os espíritos nascem no mundo ordinário disfarçados de animais e vegetais, e de fenômenos naturais. Com o uso da bebida, é possível ver a sua forma verdadeira. A bebida é a fonte de poder do xamã, e é ela o que possibilita ver os espíritos como realmente são: humanos (OLIVEIRA, 2010, p. 7).

Para os Piro, o kamarampi apresenta o mundo real que os seres poderosos ocultam atrás do mundo ordinário. Sua utilização está ligada à prevenção de mortes, ao conhecimento alcançado através dos espíritos, à eternidade ou vida eterna e a limpeza do corpo e prevenção de doenças.

Para os Machinguenga, o uso do kamarampi induz à separação da alma e do corpo. Os bons espíritos são observados como pássaros na realidade ordinária, mas aparecem como pequenos homens quando se toma o kamarampi.

2.1.3 Tukano

Entre os Airo-pai, a ayahuasca se chama yagé. Seu uso é tido como indispensável para o contato com os espíritos. Para eles, há dois lados da realidade: o mundo ordinário e o mundo dos espíritos e monstros. Para contatar o mundo dos espíritos, é necessário um tipo de visão especial. Tal visão é dada pelo yagé. O canto tem neste grupo um papel crucial, sendo a maneira de orquestrar e estruturar visões culturalmente exclusivas para cada um dos participantes da sessão.

Para os Airo-pai, o mênstruo e o yagé devem ser mantidos sempre distantes, e as mulheres menstruadas não podem pegar em nada que será usado ou engolido pelos homens, especialmente os que tomaram yagé. Este tem, para eles, também, grande relação com o crescimento das plantas e com os ciclos agrícolas, sendo as canções do yagé tomadas como palavras das próprias plantas.

Já para os Makuna, o kahi ide, nome dado à ayahuasca está ligado à origem da sociedade e, unido a outros bens culturais, é o que imputa a própria humanidade ao homem. Sua utilização está conexa à cura e à prevenção de doenças, e, ainda tem papel no contato com os ancestrais. Ademais, oferece as visões que guiarão o espírito depois da morte.

Entre os Cubeo, o canto e as visões ligam o mundo humano e o não humano. Eles apreciam o aspecto físico do mihi, a bebida, sobre o corpo.

Os Barasana, que comparam os efeitos da bebida aos da morte, veem o he okekoa, a ayahuasca, como “o leite dos ancestrais”:

Já entre os Desana, a ayahuasca, reconhecida como gahpi, supre o transporte dos homens, que são os únicos a tomá-la, a um lugar em que entram em contato com seres espirituais e heróis de sua mitologia. O mito de criação e vários outros mitos extraordinários têm o gahpi como um dos elementos centrais.

Os Siona, tal como os Airo-pai, dividem a realidade em duas: o mundo que se vê e o mundo invisível. Em seu entendimento, a realidade ordinária é afetada pelas forças invisíveis, tanto para o bem como para o mal. Faz-se necessário acostumar-se com estas forças, e tentar influenciá-las. Tal trabalho é realizado pelo xamã, e a habilidade é pega com o uso contínuo do iko, a ayahuasca. A bebida não é de uso exclusivo do xamã, podendo ser tomada por toda a comunidade. Os xamãs, entretanto, possuem a liderança nos caminhos xamânicos e os novatos se expõem a vários perigos. Eles acompanham o xamã no conhecimento que advém do contato com os seres espirituais, os quais são acessados através da bebida. Dessa forma, vão aprendendo sobre o mundo invisível.

Os Tatuyo acreditam que o capi, nome dado à ayahuasca, leva o indivíduo às origens do mundo. Tal mundo, em que o Sol residia anteriormente, faz contraste com o mundo da realidade ordinária.

2.2 Grupos Religiosos

Segundo Goulart (1996), foi a partir de 1920 e 1930 que nasceram as chamadas religiões ayahuasqueiras, como a Barquinha, a União do Vegetal – UDV e o Santo Daime. Estas estão alastradas por todo o território nacional, não se limitando somente aos locais de origem, estando presentes em outros países como a Holanda, a Espanha, a França, o Japão, a Itália e os Estados Unidos.

2.2.1 A Barquinha

Segundo Mercante (2015), a Barquinha foi fundada em 1945 pelo negro maranhense, Daniel Pereira de Matos, que nasceu em 1888 e foi grumete da Marinha. Ao sair da corporação como sargento, fixou-se em Rio Branco como barbeiro. Em meados da década de 1930, Daniel ficou doente do fígado e foi auxiliado por seu amigo e também maranhense Raimundo Irineu Serra, fundador do Santo Daime.

Esse autor afirma que Daniel começou a seguir os trabalhos espirituais de Irineu. Depois de algum tempo teve uma visão revelatória de anjos que desciam do céu trazendo-lhe um livro. Tal visão é a recomendação utilizada por Irineu para incentivar Daniel a dar início ao próprio trabalho espiritual. Em 1945 Daniel recebeu um terreno dentro de um antigo seringal, no que atualmente é o bairro da Vila Ivonete, e Irineu lhe forneceu o Daime, que é o nome da ayahuasca nestas tradições. Assim, se iniciou a Barquinha.

O autor acima assevera que, em 1957, Francisca Campos do Nascimento, pouco depois do nascimento de sua terceira filha, procurou o auxílio de Daniel para tentar resolver um problema de saúde. Ela tinha o corpo coberto de feridas, e os médicos não conseguiam diagnosticar e nem tratar o problema. Daniel passou a tratar dona Francisca, que prometeu que, se ficasse curada, consagraria sua vida à doutrina de Daniel.

Em 1958 Daniel morreu, mas Francisca, cumprindo sua promessa, segue até os dias de hoje dentro da Barquinha. Em 1991 ela saiu do centro original da Barquinha e abriu sua própria igreja, o “Centro Espírita Obras de Caridade Príncipe Espadarte”. Tal príncipe é o espírito de um encanto, um ser espiritual que possui mais de uma forma: no mar ele é um peixe-espada, o “Príncipe Espadarte”; na terra, o “Soldado Guerreiro Dom Simeão”. Os encantos ou encantados são cultuados em todo o Norte e Nordeste do Brasil, em várias religiões que têm influência afro e indígena (mercante, 2015).

2.2.2 A União do Vegetal

Seraguza e Gimenez Filho (2008) afirmam que a União do Vegetal é na atualidade a maior, no que se refere ao número de adeptos, e mais organizada das instituições religiosas que usam a ayahuasca. Esta foi constituída em 22 de julho de 1961 por José Gabriel da Costa.

Esses autores afirmam que o extrativismo da borracha, após seu período de boom, entre 1890 e 1912, e de sua época de declínio devido à concorrência no mercado internacional da borracha extraída na Ásia, passou por uma nova época de ascensão no período de 1943 a 1947, por causa da Segunda Guerra Mundial e da natural demanda por matérias-primas supridoras da produção bélica dos países aliados. Com a assinatura de acordos com os Estados Unidos, o governo brasileiro começou uma grande campanha de recrutamento de trabalhadores, especialmente nordestinos, para a extração de látex no Norte. Junto a outras medidas governamentais com o objetivo de atender essa demanda de látex por parte dos países aliados, criou-se o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia – SEMTA, que apenas no ano de 1943 conduziu 13 mil pessoas ao norte do país, conforme dados oficiais. Estima-se que aproximadamente 55 mil nordestinos pegaram um navio para o Norte e transformaram, de um dia para o outro, suas vidas.

Depois de trabalhar um período no seringal, José Gabriel mudou-se para Porto Velho onde trabalhou como servidor público na função de enfermeiro no Hospital São José, em Porto Velho – RO. Seu Gabriel atendia pessoas em seu lar, onde jogava búzios. Posteriormente, tornou-se Ogã[7] e Pai de Terreiro no Centro de Umbanda de São Benedito – RO, de Mãe Chica Macaxeira (SERAGUZA E GIMENEZ FILHO, 2008).

Os autores supracitados asseveram que até 1950 José Gabriel viveu com sua família em Porto Velho, onde além de trabalhar como enfermeiro, possuía uma taberna. Ele também gostava de política. E, porque seu candidato tinha perdido as eleições do Território de Guaporé – RO, foi perseguido em seu emprego público no hospital, sendo obrigado a se afastar do trabalho. Naquele momento José Gabriel voltou para o seringal, indo para a região de Vila Plácido de Castro, próxima a Rio Branco no estado do Acre. Foi nessa situação que José Gabriel da Costa ouviu falar de um chá misterioso que era consumido por curandeiros da região. Tempos após, no dia 1° de abril de 1959 no seringal Guarapari, região fronteiriça da Bolívia com o Acre, ele bebeu pela primeira vez a ayahuasca fornecida por um seringueiro chamado Chico Lourenço (SERAGUZA E GIMENEZ FILHO, 2008).

No campo dessa religião, o nome União do Vegetal se refere tanto à religião em si, como à união dos dois vegetais ingredientes da ayahuasca, sendo tal bebida apreciada como Oasca (Hoasca), ou ainda Vegetal. De modo semelhante ao que ocorreu na religião do Santo Daime, depois da morte do líder e fundador da União do Vegetal, Senhor José Gabriel Costa, sucederam cisões no tronco da religião, outros dois grupos apareceram se autodenominando como União do Vegetal, sendo eles: A União do Vegetal, cujo chefe é o Senhor Augusto Queixada e cuja sede fica em Porto Velho – RO; e o Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal, com sede em Campinas – SP, cujo chefe e fundador é o Senhor Joaquim José de Andrade Neto (SERAGUZA E GIMENEZ FILHO, 2008).

2.2.3 O Santo Daime

Albuquerque (2011) comenta que a fundação da religião do Santo Daime remonta à história do negro Raimundo Irineu Serra (1892-1971), o qual emigrou do Maranhão para a Amazônia no contexto da extração da borracha, consumindo a bebida das mãos de um curandeiro peruano na região fronteiriça entre o Brasil e Bolívia, nos idos de 1920.

Essa autora afirma que a história da religião[8] revela que, no decorrer de suas experiências com a ayahuasca, Raimundo Irineu teve revelações espirituais acerca dos poderes curativos da bebida, assim como os ensinamentos que o levariam a obter o título de curador e Mestre de uma missão espiritual na conjuntura de uma Amazônia em crise, dado o regresso da economia da borracha e o consequente declínio dos seringais.

Dessa forma, como acontece nos procedimentos xamânicos, a iniciação de Raimundo Irineu nos segredos da ayahuasca implicou um período de isolamento na mata e alguns tabus alimentares e sexuais, como maneira de preparo para o recebimento de sua missão espiritual (ALBUQUERQUE, 2011).

Assim, na década de 1930, na periferia da cidade de Rio Branco, Estado do Acre, Brasil, Raimundo Irineu, ao reunir um pequeno grupo de pessoas, cuja maioria era negra, iniciou o trabalho com a ayahuasca operando, nesse processo, uma cristianização do uso da bebida que começou a obter o status de sacramento religioso, além de outro nome: daime. Tal vocábulo, além de ser mais fácil de ser pronunciado do que ayahuasca remete ao verbo dar, sugerindo a invocação que deve ser feita ao espírito da bebida quando ocorrer sua ingestão (ALBUQUERQUE, 2011).

3 RELAÇÃO ENTRE O CONSUMO SISTEMÁTICO DE AYAHUASCA EM CONTEXTO RELIGIOSO E O BEM-ESTAR DOS INDIVÍDUOS QUE O CONSOMEM

No entendimento de Giacomoni (2004), existem diferentes enfoques que se diferenciam no que diz respeito à definição e avaliação do que se entende por qualidade de vida das pessoas no decorrer do tempo: a economia considera a qualidade de vida da população pela quantia de bens e mercadorias por ela produzidos; já os cientistas sociais sobrepõem a esta última teoria, importantes e consideráveis indicadores sociais como expectativa de vida, distribuição justa dos recursos materiais, entre outros; um terceiro enfoque é o do Bem-Estar Subjetivo – BES, o qual considera a avaliação subjetiva da qualidade de vida.

Segundo Passareli e Silva (2007), é de suprema importância buscar o conhecimento cada vez mais profundo sobre o BES, pois ele beneficia o modo como enxergamos a nós mesmos e aos outros, propiciando um maior contentamento nas experiências cotidianas e nos relacionamentos sociais.

Para De Assis, Faria e Lins (2014), de maneira geral, os estudos sobre o BES e a felicidade são compreendidos sob três aspectos: a) estar no controle da vida (felicidade aprendida por meio de um desenvolvimento psicológico); b) estado (estar feliz), ou seja, perceber a felicidade através de uma série de necessidades humanas fundamentais e universais e c) traço (ser feliz), cuja abordagem garante que os indivíduos possuem uma predisposição para entender situações cotidianas de modo tanto positivo como negativo, e essa predisposição é o que influencia a avaliação da vida.

Na pesquisa bibliográfica realizada por esses autores, ao definir categorias que relacionassem o bem-estar subjetivo, a qualidade de vida e o uso da ayahuasca, constatou-se que:

1. Em relação à categoria “Autoconhecimento”

Durante o efeito do chá, o sujeito consegue se ver fora do próprio corpo e também entra em contato com o que é mais próprio e profundo de si. Com isso, ele se percebe no mundo e define quem é e quem não é. Quando desenvolvido o autoconhecimento, o sujeito se percebe e compreende tudo à sua volta com mais clareza e honestidade. Isso facilita as atividades diárias, bem como as relações interpessoais. Ele passa a conhecer melhor as próprias emoções e comportamentos (p. 229).

Isso significa que o consumo do chá faz com que o sujeito reflita sobre alguns aspectos, o que o leva a modificar comportamentos, ou seja, comunicar-se de modo mais afetuoso com o ambiente, participar da comunidade, repensar valores estudados, limpar-se de coisas negativas e aprender novas maneiras de afrontar as situações cotidianas são alguns elementos que suscitam, no indivíduo, a compreensão de quem ele é e como ele reage no mundo.

2. Em relação à categoria “Tratamento da dependência

Há relatos de grupos terapêuticos, de antropólogos, psicólogos e psiquiatras sobre a eficácia terapêutica da ayahuasca no tratamento da dependência de psicoativos. No entanto, deve-se registrar a existência de falhas de pesquisas realizadas sem bases sólidas ou fundamento em estudos com desenhos metodológicos rigorosos. Assim, o sucesso do tratamento não depende somente da farmacologia da ayahuasca, mas também das normas do contexto ritual, do zelo religioso, da influência do líder e da dinâmica social do grupo.

Ademais, não pode existir dissociação entre a ingestão do chá, o processo psicossocial e o contexto ritual em que esta bebida é consumida. A religiosidade é enfatizada nesses rituais, e é um fator respeitável para que um sujeito pare de consumir substâncias psicoativas. Além dos efeitos psicológicos e comportamentais do chá, assuntos como recomendações, normas e punições dentro do grupo religioso são os fatores que, em conjunto, possibilitam que uma pessoa abandone o uso de substâncias psicoativas.

3. Em relação à categoria “Domínio de si e do ambiente”

Durante o transe induzido pelo chá, o indivíduo afirma uma liberdade individual de pôr em prática tudo o que viu na miração, adequando ao seu modo de ser. Isso se dá por meio do aprendizado com a ayahuasca, que fornece ferramentas para controle do ambiente. Por meio das imagens percebidas durante as mirações, o indivíduo percorre mundos (físico e espiritual) e questiona a sua existência, desenvolve uma espiritualidade que busca equilíbrio, aprendendo, assim, a se transformar manejando sua vida.

Em razão dessas mirações, o indivíduo começa a analisar seus conhecimentos a priori com a razão levantada a partir de então. O aprendizado com a ayahuasca possibilita que o indivíduo adquira conhecimentos sobre exercícios de práticas de bem-estar, como cuidados com o corpo e desenvolvimento de autocontrole. O domínio de si ainda pode ser visto na categoria autoconhecimento, e o cuidado com o corpo na categoria tratamento da dependência.

4. Em relação à categoria “Relações sociais”

Após as mirações, os sujeitos trocam e compartilham as visões, sensações e percepções dentro do grupo. Dessa forma, eles interpretam aspectos das mirações uns dos outros, fortalecendo o vínculo do grupo. Também, com a ajuda do grupo ou de um membro mais próximo, o sujeito desvenda verdades que sozinho não conseguiria contemplar. Toda essa vivência dentro do grupo religioso é aplicada também na vida social fora da instituição.

O aprendizado trazido pelas mirações e pela comunicação gera mudanças positivas nos comportamentos com familiares e amigos. As relações tornam-se mais pacientes e amorosas por parte do sujeito ayahuasqueiro. Tais práticas sociais dentro do grupo religioso igualmente influenciam a tomada de decisão de parar de consumir substâncias psicoativas e diminuir ou abandonar hábitos alimentares analisados como pouco saudáveis. Essas decisões podem ser observadas nas dietas e abstinências dentro da categoria tratamento da dependência.

CONCLUSÃO

A busca pela interação com Deus ou por um poder maior sempre fez parte da vida do ser humano. Nossa existência sempre suscitou questionamentos como: Por que estamos aqui? Quem nos criou? Há outros planetas com seres inteligentes? Para onde vamos depois da morte? Será que existe algo além do que nossos sentidos permitem captar?

A resposta para essas perguntas variam de pessoa para pessoa. Mas uma coisa é certa: existem diferentes caminhos, assim como existem diferentes pessoas. Uma das respostas para as perguntas acima pode estar no uso desta planta professora chamada de ayahuasca. Estudos apontam que seu uso sistemático pode levar a uma qualidade de vida melhor e a uma interação mais equilibrada com o planeta. Tal qualidade de vida pode se expressar no autoconhecimento, no tratamento de dependências químicas, no domínio de si e do meio ambiente, assim como em melhores relações com os semelhantes.

REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, Maria Betânia Barbosa. Religião e educação: os saberes da ayahuasca no Santo Daime. In: Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, nº 10, maio 2011.

De Assis, Cleber Lizardo, Faria, Deyse Ferraciolli, Lins, Laís Fernanda Tenório, Bem-estar subjetivo e qualidade de vida em adeptos de ayahuasca. In: Psicologia & Sociedade, 2014. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=309330671024>. Acesso em 18/10/2016.

FABIANO, R. Mestre Gabriel, O Mensageiro de Deus, 2012. Brasília/DF: Pedra Nova.

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Giacomoni, C. H. Bem-estar subjetivo: em busca da qualidade de vida. In: Temas em Psicologia da SBP, 12 (1), 2004.

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[1] Cursando Pós-doutorado pela Universidad Iberoamericana (2016). Doutora em Ciências da Educação pela Universidad Americana (2014). Mestre em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (2008).  Licenciada em Letras Plena pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1984).

[2] Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (2013). Mestre em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (2008). Especialista em Moderna Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1990). Licenciada em Letras pela Universidade de Brasília (1979).

[3] Termo referente ao estado de expansão da consciência causado pelo uso de plantas que possuem algum princípio ativo (FELIPE, 2015).

[4] Quechua é uma língua indígena da América do Sul (MUNDIM, 2016).

[5] N, N-dimetiltriptamina, ou DMT, é um composto psicodélico ilegal de triptaminas encontrado no corpo humano e em mais ou menos 60 espécies de plantas no mundo. O médico Rick Strassman descreveu isso como “o primeiro psicodélico endógeno humano” em DMT: The Spirit Molecule (2000) e, numa entrevista há três anos, disse que o DMT “aparentemente era um componente necessário às funções normais do cérebro”. Terence McKenna – que, “mais que ninguém”, escreveu Strassman em 2000, “conscientizou sobre o DMT através de palestras, livros, entrevistas e gravações” – chamou o composto de “o mais potente alucinógeno conhecido pelo homem e pela ciência” e o “mais comum em toda a natureza” na palestra “Rap Dancing Into the Third Millennium”, de 1994 (LIN, 2016).

[6] Relacionado à serotonina.

[7] Ogã (do iorubá – ga: “pessoa superior, chefe”, com possível influência do jeje ogã: “chefe, dirigente”) é o nome genérico para diversas funções masculinas dentro de uma casa de candomblé. É o sacerdote escolhido pelo orixá para estar lúcido durante todos os trabalhos. Ele não entra em transe, mas, mesmo assim, não deixa de ter a intuição espiritual. Os atabaques do candomblé só podem ser tocados pelo Alagbê (nação Ketu), Kambondo (nações Angola e Congo) e Runtó (nação Jeje), que é o responsável pelo Rum (o atabaque maior), e pelos ogãs nos atabaques menores sob o seu comando. É o Alagbê que começa o toque e é através do seu desempenho no Rum que o orixá vai executar sua coreografia, de caça, de guerra, sempre acompanhando o floreio do Rum. O Rum é que comanda o Rumpi e o Lê (WIKIPEDIA, 2016).

[8] Os relatos sobre seu encontro com a ayahuasca informam que, certo dia, ao ingerir a bebida, Raimundo Irineu teve a visão de uma entidade feminina a quem chamou Clara, identificada com a Rainha da Floresta ou Nossa Senhora da Conceição quem lhe teria repassado os fundamentos essenciais da doutrina e lhe concedido, posteriormente, o título de “Chefe-Império Juramidam”, que o identificaria a entidades espirituais incaicas, precursoras na utilização da ayahuasca, como o rei Huascar (MACRAE, 1992; COUTO, 2002 APUD ALBUQUERQUE, 2011).

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