A Logística Reversa e sua Importância para a Sustentabilidade Organizacional e Ambiental

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A Logística Reversa e sua Importância para a Sustentabilidade Organizacional e Ambiental
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SANTANA, Marcio Roberto [1]

SANTANA, Marcio Roberto. A Logística Reversa e sua Importância para a Sustentabilidade Organizacional e Ambiental. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 06, Vol. 04, pp. 36-51, Junho de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

Este artigo aborda a temática da logística sobre um aspecto que só agora começa a ter um olhar atencioso por parte das empresas. Enquanto a logística se preocupa com o fluxo da saída dos produtos, a logística reversa ou Supply Chain Management reverso se preocupa com o retorno dos produtos, materiais e peças ao processo de produção da empresa. A conscientização ambiental promovida por legislações ambientais severas e pela tomada de consciência dos consumidores, está forçando as empresas a utilizar um maior número de materiais recicláveis e também levando essas a se preocuparem com o descarte ecologicamente correto de seus produtos no final de seus ciclos de vida, visando a sustentabilidade do nosso planeta. Este trabalho se deu a partir da discussão de teorias existentes em fontes secundárias para a compreensão, como: livros, artigos científicos, dissertações e teses que abordam o tema da logística reversa aplicada sobre as empresas, e seu impacto no meio ambiente a partir dos seus processos. Através da pesquisa qualitativa buscou-se explicitar os aspectos positivos da implantação da logística reversa, de modo que a mesma se transforme em um importante fator, para a sustentabilidade tanto das empresas com também do meio ambiente. Foram analisados os casos descritos na literatura, com o objetivo de destacar o conceito de logística reversa para as atividades de reciclagem de materiais e sua importância para a sustentabilidade ambiental, explicitando os motivos para o uso da Logística Reversa, os custos em Logística Reversa e a preocupação ambiental.

Palavras-chave: Logística Reversa, Reciclagem, Sustentabilidade, Meio Ambiente.

1. Introdução

Desde tempos remotos o homem sempre buscou manter uma relação de domínio sobre a natureza. Sendo que, ao longo da linha do tempo, a partir de sua criatividade, esse mesmo homem, visando garantir sua existência em um ambiente hostil, desenvolveu mecanismos a partir de suas descobertas que propiciaram várias formas de dominação sobre os demais seres vivos. O que desencadeou nos dias de hoje, como consequência a degradação ambiental. A Revolução Industrial acelerou tal processo, por meio do avanço tecnológico produzido desde seu início, aumentando a concorrência entre todos os setores industriais para atender aos mercados consumidores, fortalecendo ao longo dos dias que seguiram a aceleração no tempo de giro na produção, o que aumentou consideravelmente o consumo trazendo como efeito colateral a ideia de um mundo instantâneo e descartável, o que vem se revelando como um fato perverso para o meio ambiente e todos os seus habitantes, colocando em xeque a sustentabilidade de nosso planeta. Isto porque a maioria das industrias consideravam o meio ambiente apenas como um local, a priori, para a aquisição da matéria-prima e, a posteriori, para o seu descarte dos produtos consumidos.

Segundo Fuller et. Al (1995) a humanidade já avançou a faixa dos 20% a mais dos recursos naturais que o nosso planeta é capaz de repor, com isso está avançando nos estoques naturais da terra, sendo que existem recursos que não são renováveis como, por exemplo, o petróleo.

Atualmente, o consumo tem gerado grandes quantidades de lixo, os famosos resíduos orgânicos, químicos…, e a má gestão destes, além de estar provocando gastos exorbitantes, provoca sérios danos ao meio ambiente e as suas populações.

É a partir dos enunciados acima, que este estudo pretende evidenciar como a logística reversa se revela como um tema de suma importância para a sustentabilidade organizacional e ambiental, reverberando também em toda a população do planeta. Pois a logística reversa trata dos canais reversos pós-venda e pós-consumo, favorecendo o equilíbrio entre as quantidades descartadas e as reaproveitadas, conduzindo também aos devidos lugares os resíduos que não podem ser mais reaproveitados trazendo como vamos ver a seguir, sustentabilidade para as organizações que acabam fortalecendo suas marcas a partir de uma atitude ativa em relação ao meio ambiente, criando assim novas oportunidades de negócios lucrativos com a logística reversa, e também para o meio ambiente que se torna menos explorado, no que diz respeito aos seus recursos naturais e também menos agredido, no que diz respeito ao número em menor escala de descartes de resíduos em seu meio. Sem deixar de mencionar as gerações presentes e futuras que aumentam sua qualidade de vida a partir da preservação ambiental.

Através da pesquisa qualitativa buscou-se explicitar os aspectos positivos da implantação da logística reversa, de modo que a mesma se transforme em um importante fator, para a sustentabilidade tanto das empresas com também do meio ambiente. Foram analisados os casos descritos na literatura, com o objetivo de destacar o conceito de logística reversa para as atividades de reciclagem de materiais e sua importância para a sustentabilidade ambiental, explicitando os motivos para o uso da Logística Reversa, os custos em Logística Reversa e a preocupação ambiental.

2. Logística reversa

Até pouco tempo a logística restringia-se apenas a entrega do produto ao cliente, sendo que após isso, os fabricantes não traziam responsabilidade nenhuma em relação aos produtos comercializados. Desta forma não havia nenhuma responsabilidade de coleta por parte do fabricante em relação aos canais de distribuição reversos de pós-venda e pós-consumo. Entretanto, esse horizonte começou a se modificar a partir da abordagem do termo logística reversa.

Para situar o leitor é interessante frisar que o termo logística reversa tem se evoluído ao longo do tempo a partir da abordagem dada por cada autor que tem se debruçado sobre o tema. Na cadeia de evolução do termo logística reversa temos, por exemplo, em C.L.M (1993) falando que a Logística reversa se relaciona às agilidades e trabalhos envolvidos na gestão de minimização, movimentação e alocação de resíduos de produtos e embalagens. Já em Stock (1998) encontra-se a definição de que a Logística reversa, vista através da ótica de uma logística de negócios, refere-se ao papel da logística no retorno de produtos, redução na fonte, reciclagem, substituição de materiais, reuso de materiais, disposição de resíduos, reforma, reparação e remanufatura. Em Rogers e Tibben-Lembke (1999) a logística reversa é assim definida: Como um processo de planejamento, implementação e controle da eficiência, do custo efetivo do fluxo de matérias-primas, estoques de processo, produtos acabados e as respectivas informações, desde o ponto de consumo até o ponto de origem, com o propósito de recapturar valor ou adequar o seu destino. No tema da logística, Dornier et al (2000) traz algo novo, pois ele abrange novas áreas de atuação da logística, somando-se a isso também o gerenciamento dos fluxos reversos. Bowersox e Closs (2001) trazem a ideia de acompanhamento do ciclo de vida, ou seja, de desde o nascimento (produção) do bem de consumo, até o seu adequado descarte.

A figura abaixo nos ajuda a ter uma melhor compreensão sobre a área de atuação e etapas reversas que abrangem a logística reversa, apesar de que existem outros âmbitos abordados pelo tema:

Figura 1 – Área de atuação e etapas reversas. Fonte: http://www.ebah.com.br/content/ABAAAg3eEAL/apostila-logistica-reversa-jds?part=3 – adaptado de Leite (2009).
Figura 1 – Área de atuação e etapas reversas. Fonte: http://www.ebah.com.br/content/ABAAAg3eEAL/apostila-logistica-reversa-jds?part=3 – adaptado de Leite (2009).

Segundo Leite (2002), o objetivo estratégico da logística reversa de pós-venda é o de agregar valor a um produto logística que foi devolvido por razões comerciais, falhas nos processamentos de pedidos, garantia dada pelo fabricante, falhas no funcionamento dos produtos, problemas causados nos produtos devido ao seu transporte, dentre outros motivos.

Ainda segundo Leite (2002), o objetivo estratégico da logística reversa de pós-consumo diz respeito ao agregamento de valor a um produto logístico que já não serve mais para o consumidor, ou que ainda tenham alguma serventia por produtos descartados, por terem atingido o fim de sua vida útil e por resíduos industriais. Estes bens de consumo poderão se originar de bens duráveis ou descartáveis, passando por diversos canais reversos de reuso, desmanche, reciclagem até a destinação final.

Figura 2 – Foco de atuação da Logística Reversa.Fonte: http://www.revistaespacios.com/a13v34n05/13340501.html - adaptado de Leite (2009).
Figura 2 – Foco de atuação da Logística Reversa.Fonte: http://www.revistaespacios.com/a13v34n05/13340501.html – adaptado de Leite (2009).

Na figura 2, adaptada de Leite (2009), o mesmo traz de maneira resumida, porém sem a pretensão de querer esgotar os meandros da logística reversa, os campos de atuação através dos principais fluxos reversos nas áreas de pós-venda e pós-consumo, observando-se as relações de interdependência entre estas.

Até aqui deu para se entender um pouco sobre o funcionamento dos canais de fluxo reverso das principais cadeias logísticas de uma empresa. Gostaríamos agora de falar um pouco sobre os impactos que a logística reversa pode causar no meio ambiente a partir da conscientização ambiental promovida por legislações ambientais severas e pela tomada de consciência dos consumidores, que está forçando as empresas a utilizar um maior número de materiais recicláveis e também levando essas a se preocuparem com o descarte ecologicamente correto de seus produtos no final de seus ciclos de vida, visando a sustentabilidade das empresas que reforçam e fortalecem as suas imagens, e do nosso planeta que ganha com a tomada de tais medidas.

3. Conscientização ambiental e logística reversa

 Para Mentzer et. Al (2001) aquilo que chamamos de progresso está modificando de maneira totalmente negativa o ambiente, ou seja, está destruindo o nosso planeta e seus habitantes de maneira irreversível, se não acordarmos para este cenário. Dentre tantos outros conceitos, o desenvolvimento sustentável apoia-se na ideia de atender as necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras no atendimento de suas próprias necessidades.

Para se alcançar o desenvolvimento sustentável é necessário se ter a consciência de que nossos recursos naturais não são infinitos, mas podem se esgotar, como é por exemplo, o caso do petróleo. Sendo assim, é preciso se aliar o planejamento com a conscientização ambiental para que o nosso planeta e as gerações futuras não fiquem no prejuízo. O desenvolvimento sustentável corrobora com uma nova forma de desenvolvimento econômico trazendo a ideia de equilíbrio dos diversos aspectos ecológicos que nos cercam.

Os canais de distribuição reversos são afetados diretamente por alguns aspectos como, por exemplo, as grandes quantidades de lixo urbano que promovem efeitos nocivos para as pessoas e seus habitats, percentual muito baixo de reciclagem de embalagens descartáveis e produtos que podem ser reciclados ou reutilizados… Conforme Leite (2002), um dos indicadores do crescimento desta “descartabilidade” é o aumento do lixo urbano em diversas partes do mundo. A obsolescência e a descartabilidade crescentes dos produtos observados nesta última década têm-se refletido em alterações estratégicas empresariais, dentro da própria organização e principalmente em todos os elos de sua rede operacional. Estas alterações se traduzem por aumento de “velocidade de resposta” em suas operações desde a concepção do projeto do produto até sua colocação no mercado, pela adoção de sistemas operacionais de alta “flexibilidade operacional” que permitam, além da velocidade do fluxo logística, a capacidade de adaptação constante às exigências do cliente e pela adoção de “responsabilidade ambiental” em relação aos seus produtos após serem vendidos e consumidos, o que costuma ser identificado como “EPR” (Extend Product Responsability) a chamada “Extensão de Responsabilidade ao Produto”.

A estrutura da Figura 3 reforça a idéia de como a crescente descartabilidade dos produtos tende a tornar mais expressiva a atuação da Logística Reversa, tanto no setor de pós-venda como no de pós – consumo. Tecnologia, Marketing, Logística e outras áreas empresariais, através de redução de ciclo de vida de produtos, geram necessidades de aumento de velocidade operacional de um lado e provocam exaustão acelerada dos meios tradicionais de destinos dos produtos de pós consumo.

Figura 3 – O impacto da redução do ciclo de vida útil dos produtos na logistica reversa. Fonte: http://resconsiliaris.blogspot.com.br/2017/02/o-diferencial-competitivo-da-logistica.html
Figura 3 – O impacto da redução do ciclo de vida útil dos produtos na logistica reversa. Fonte: http://resconsiliaris.blogspot.com.br/2017/02/o-diferencial-competitivo-da-logistica.html

Entrementes, a legislação ambiental tem exercido uma forte pressão legal quando ela responsabiliza a sociedade pelos impactos ambientais causados pelos resíduos sólidos, promovendo assim, ações de melhorias no ambiente global, práticas de proteção e consumo sustentável, com a finalidade de diminuir através de tais ações, os impactos negativos causados pelo descarte incorreto dos resíduos pela sociedade. Pois as indústrias de produtos não devem somente se comprometerem com a logística de apenas entregar o produto final ao consumidor, mas também de dar uma destinação final para esse produto (logística reversa), após o seu consumo, como exemplo, através da reciclagem, para evitar a agressão que esses mesmos resíduos possam promover ao meio ambiente.  Desta forma, por meio da reciclagem há o reaproveitamento dos materiais como matéria-prima para o desenvolvimento de um novo produto. Muitos materiais são passíveis de reaproveitamento pelas empresas, como é o caso da reciclagem do papel, vidro, metal e plástico.

Os resultados da reciclagem são bastante expressivos tanto no âmbito ecológico, como econômico e social. No que diz respeito ao aspecto ecológico, sabemos que as matérias-primas não renováveis estão se esgotando rapidamente e que está existindo uma indisposição de lugar para despejo dos resíduos sólidos. No tocante ao fator econômico, a reciclagem contribui para o uso mais racional e planejado dos recursos naturais e a reposição daqueles recursos que são passíveis de reaproveitamento gerando lucro para as empresas. E no aspecto social toda a sociedade se beneficia a partir de práticas que resguardam o desenvolvimento sustentável.

Segundo Prestes, et. Al (2010): Para alcançar o comprometimento das pessoas com a melhoria da qualidade ambiental é importante, que elas se compreendam como parte integrante deste processo, tendo acesso a conhecimentos básicos sobre meio ambiente que as auxiliem na identificação das principais fontes causadoras de impactos ambientais.

É por isso que se faz necessário frisar que a logística reversa tem como enfoque a redução da poluição do meio ambiente e os desperdícios de insumos, assim como a reciclagem e a reutilização de produtos. Na figura abaixo temos de forma bem didática o ciclo de produtos no processo da logística reversa.

Figura 4 – Ciclo dos produtos na logística reversa. Fonte: http://www.rsrecicla.com.br/noticias/
Figura 4 – Ciclo dos produtos na logística reversa. Fonte: http://www.rsrecicla.com.br/noticias/

4. Sustentabilidade organizacional e econômica através da logística reversa

 A implementação do processo de logística reversa, além de condizer com as exigências da ISO 14000, pode também levar a uma redução do custo no produto acabado, principalmente quando existe o reuso do material reciclado, apesar de que para a implantação de tal sistema, os gastos são um tanto altos, mas o retorno para as organizações que aderem ao sistema reverso, segundo os defensores, são expressivos. Um exemplo é a economia com as embalagens retornáveis ou com o reaproveitamento de materiais que tem trazido ganhos para as empresas.

Para evidenciar o enunciado acima, tomemos o caso da reciclagem do papel e seu impacto nos custos de sua fabricante. Na fabricação de uma tonelada de papel, utilizando-se o papel usado o consumo tanto de água, quanto de energia caem para cerca da metade. São economizados 2,5 barris de petróleo, 98 mil litros de água e 2500 Kw/h de energia elétrica com uma tonelada de papel reciclado. Sendo assim, é possível a economia dos seguintes recursos naturais: *Madeira – uma tonelada de aparas pode substituir de 2 a 4 m3 de madeira conforme o tipo de papel a ser fabricado, o que se traduz em uma nova vida útil para 15 a 30 árvores; *Água – na fabricação de uma tonelada de papel reciclado são necessários apenas 2000 litros de água, ao passo que, no modo tradicional, este volume pode chegar a 100.000 litros por tonelada. Com isso é vislumbrada uma economia alta para o exemplo das empresas que reciclam papel usado.

Na figura abaixo temos o exemplo do processo de reciclagem do papel usado:

Figura 5 – ciclo da reciclagem de papel usado. Fonte: http://revistas.ung.br/index.php/3setor/article/view/512/606
Figura 5 – ciclo da reciclagem de papel usado. Fonte: http://revistas.ung.br/index.php/3setor/article/view/512/606

Além do exemplo acima, no caso da reciclagem do papel, podemos ver em Leite (2003, p. 128) no que tange ao seguimento das empresas de processamento de alumínio, como a reciclagem deste, pode reduzir consideravelmente os custos com o gasto da energia elétrica:

“A reciclagem de alumínio economiza 95% da energia elétrica utilizada para a fabricação do alumínio primário. Este custo é expressivo quando se considera que a energia elétrica representa 70% do custo de fabricação de alumínio”.

Ainda nesse interim, Rogers e Tibben-Lembke (1998) apresentaram exemplos da importância da logística reversa, como as empresas varejistas, onde as mesmas obtiveram 25% de seus lucros derivados da melhor gestão da sua logística reversa. Enquanto, Caldwell (1999), cita a empresa Estèe Lauder Companies Inc. conseguiu uma economia de US$ 30 milhões em produtos que ela deixou de descartar (cinqüenta por cento do volume anterior) com a implantação da logística reversa. E quando esta companhia resolveu desenvolver o sistema ao custo de US$ 1,2 milhão, e obteve o payback de doze meses somente com a economia em mão de obra que lidava com as devoluções de produtos por meio da logística reversa de pós venda. O sistema de custeio ABC tem a possibilidade de abranger toda a cadeia de suprimentos e com isto reduzir os custos totais da logística reversa, o que Goldsby e Closs (2000) constataram na pesquisa com a cadeia de suprimentos de cervejas e refrigerantes onde os integrantes da cadeia, terceirizaram o processo de coleta e retorno das embalagens usadas para reciclagem e com isto obteve uma economia anual superior a US$ 11 milhões.

O valor agregado a um produto é aquele valor percebido pelo cliente que está disposto a pagar por ele. Depois de cumprida a função de uso do produto, seu valor em principio se extinguiria, no entanto, para alguns produtos, o conceito de valor residual, como sendo aquele valor ainda possível de ser recuperado, mesmo após a extinção de sua função. Ambas as extremidades da cadeia de suprimento são favorecidas nesse novo cenário, de um lado, o consumidor ao inserir ou facilitar a inserção de materiais descartados no fluxo reverso satisfaz a sua consciência ecológica e possibilita a recuperação de parcela do valor pago pelo produto, enquanto o fabricante será quem terá os maiores benefícios, uma vez que produzirá novos produtos com significativa redução de custos e insumos. E também o meio de toda a cadeia de suprimentos se beneficia com esse fluxo reverso, uma vez que sua

operação institucionalizada possibilita novas oportunidades de negócio e inserção no mercado de trabalho uma parcela marginalizada da sociedade.

Estes são alguns exemplos de ganhos com a implantação da logística reversa nas organizações. Porém, a implantação da L.R. traz somente ganhos econômicos, mas também sustentabilidade organizacional que por sua vez, acaba redundando em ganhos econômicos, pois a empresa que implanta a Logística Reversa ganha e passa a trabalhar com a imagem de empresa ecologicamente correta. Que se torna parte da estratégia de marketing do empreendimento de modo a adquirir maior respeito dos consumidores além da valorização dos seus produtos. Segundo Leite (2003), as empresas têm interesse em posicionar suas imagens corporativas como comprometidas com questões ambientais e ações convenientemente dirigidas à preservação ambiental, certamente serão recompensadas com salutares retornos de imagem diferenciada como vantagem competitiva.

Ao se adotar uma postura economicamente correta, os ganhos financeiros e logísticos são apenas um dos benefícios que a logística reversa é capaz de proporcionar. “Neste enfoque, a melhor solução na destinação dos resíduos é aquela em que o binômio meio-ambiente e lucro estejam combinados de tal forma que tanto as diretrizes do meio-ambiente quanto o resultado financeiro sejam satisfatórios, consolidando esta visão com a visão de reciclagem” (SOUZA; FONSECA, 2008, p. 2). Podem-se também adicionar os ganhos à imagem institucional da companhia atraindo a preferência dos clientes (NETTO, 2004).

5. Custos envolvidos em logística reversa

Os custos envolvidos em logística reversa variam de empresa para empresa, ou seja, do ramo de negócios que se pratica em determinada organização. Sendo assim, não existe um padrão que sirva de referência para todas as outras empresas, no que diz respeito ao quesito gastos com a implantação do processo logístico reverso. Segundo alguns autores os gastos podem ser altos para a implementação da logística reversa, entretanto, os retornos podem ser bem generosos segundo os mesmos autores.

Na verdade, em Logística Reversa, as empresas passam a ter responsabilidade pelo retorno do produto à empresa, quer para reciclagem, quer para descarte. Seu sistema de custeio deverá, portanto, ter uma abordagem bastante ampla, como é o caso o Custeio o Ciclo de Vida Total. Para Atkinson et al (2000, 676), este sistema permite aos gerentes administrar os custos “do berço ao túmulo”. “O ciclo de vida do produto abrange o tempo desde o início da P&D até o término de suporte ao cliente”. (Horngreen et al: 2000, p. 313). Em Logística Reversa, este ciclo se estende, abrangendo também o retorno do produto ao ponto de origem. Horngreen et al (2000, 315) aponta três benefícios proporcionados pela elaboração de um bom relatório de ciclo de vida do produto: a evidenciação de todo o conjunto de receitas e despesas associadas a cada produto, o destaque do percentual de custos totais incorridos nos primeiros estágios e permite que as relações entre as categorias de custo da atividade se sobressaiam. O uso de um sistema de custeio de ciclo de vida total não prescinde os sistemas tradicionais, tais como Custeio Meta, Custeio Kaizen, Custeio Baseado em Atividades (ABC) ou custeio por processo. O que ele proporciona é a visibilidade dos custos por todo o ciclo de vida do produto. O custeio de ciclo de vida total abrange os demais, dependendo da fase em que se encontra o produto, como mostra a figura 6:

Figura 6 – Custeio do ciclo de vida total . Fonte: do autor adaptado de Atkinson et al.(2000)
Figura 6 – Custeio do ciclo de vida total . Fonte: do autor adaptado de Atkinson et al.(2000)

Como podemos observar pela figura 6 acima, em cada fase pode ser utilizado um tipo de custeio, sendo que o Custeio do Ciclo de Vida Total é o que engloba todos eles. O que se deve ter em mente é o ciclo todo desde a fase de P&D para que o produto possa gerar receitas durante seu ciclo de vida que possibilitem o ressarcimento dos custos. Com a inclusão do retorno do produto, temos mais um fator a ser considerado. A importância de se conhecer o ponto em que se encontra o produto em seu ciclo de vida e a diferença de custos incorridos em cada fase é destacada em um gráfico simples que mostra os custos de carregamento de estoques em cada etapa do ciclo de vida de um produto. (Rogers e Tibben-Lembke: 1999). Como a figura acima nos mostra, na fase inicial os custos de estocagem são relativamente baixos, tendendo a crescer bastante à medida que o produto avança em seu ciclo de vida. A não consideração de todas as fases leva ao levantamento incorreto de custos totais. Tibben-Lembke (2000) e De Brito et al (2002), ao falarem sobre o ciclo de vida do produto e a Logística Reversa, relatam da importância de, ainda na fase de desenvolvimento, ser levado em consideração como se dará o descarte ou o reaproveitamento de peças e partes ao final da vida do produto. Empresas automobilísticas ao lado de empresas de alta tecnologia, como IBM e Xerox são citadas como exemplos de empresas que projetam seus produtos já pensando na última etapa do mesmo.

Conclusão

 Diante de todo o exposto este trabalho procurou mostrar de modo sucinto o desenvolvimento da logística reversa e a conceituação dada por alguns autores que refletem sobre esse assunto, enfatizando também a posição estratégica competitiva que as empresas podem lograr com a prática dos fluxos reversos. Podemos, por exemplo, entender o quanto a logística reversa é relevante para a sustentabilidade organizacional e ambiental, no sentido de que o fluxo reverso viabiliza ganhos para as empresas, no tocante a fortificação da marca organizacional diante dos seus stackholders, como uma empresa corretamente ecológica. Destacando-se também que as indústrias ganham economicamente com o reuso de matérias primas secundárias, geradas pelo pós-venda e pós consumo, sem deixar de mencionar o meio ambiente que acaba mantendo sua sustentabilidade, a partir do momento que os resíduos gerados pelas indústrias são, ou reaproveitados pelo processo da reciclagem, ou são encaminhados para receberem o seu fim útil de maneira não agressiva à natureza. Sendo que as gerações presentes e futuras também agradecem pelo uso responsável dos nossos recursos naturais de maneira planejada, causando assim, uma espécie de desaceleração da degradação ambiental.

Abaixo, temos na tabela 1 um quadro baseado em Leite (2003), aqui adaptado, que sintetiza todo o exposto até o momento:

Tabela 1 – Benefícios ambientais e econômicos com a implantação da logística reversa

AMBIENTAL
  • Objetivos:

· Mitigar impacto ambiental dos resíduos e

· Economizar os recursos naturais.

Benefícios:

· Redução do volume de descarte tanto seguras quanto ilegais;

· Antecipação às exigências de regulamentações legais;

· Economia de energia na fabricação de novos produtos;

· Diminuição da poluição pela conteção dos resíduos;

· Restrição dos riscos advindos de aterros;

· Melhoria da imagem corporativa e

· Consciência ecológica.

ECONÔMICA
  • Objetivos:

· Formalizar negócios existentes;

· Aumentar volume de negócios;

· Reduzir custos substituindo matéria primas primárias por secundárias;

· Direcionar produtos recusados para mercados secundários e

· Economizar energia e custos de descarte de resíduos.

  • Benefícios:

· Criação de novos negócios na cadeia produtiva;

· Redução de investimentos em fábricas;

· Economia no custo de energia na fabricação;

· Aumento de fluxo de caixa por meio da comercialização dos produtos secundários e dos resíduos;

· Aproveitamento do canal de distribuição para escoar os produtos secundários nos mercados secundários e

· Melhoria da imagem corporativa para obter financiamentos subsidiados por operar com práticas ecologicamente corretas.

Fonte: do autor com base em Leite (2003)

Portanto, é de extrema importância que haja mais pesquisas e produções que versem sobre a temática da logística reversa, haja vista que quanto mais cresce a população mundial, também cresce a demanda de bens de consumo, que por sua vez, vão ser responsáveis pela geração de resíduos que precisam, através de pesquisa e desenvolvimento, receberem a destinação correta. A logística reversa se revela como uma solução viável para que as empresas possam passar a operar de maneira sustentável, e de grande importância para a sustentabilidade de nosso planeta.

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[1] Bacharel em Administração de empresas e professor de educação profissional: Gestão e empreendedorismo pelo Estado da Bahia

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