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Educação popular feminista: promovendo identidades e engajamento das mulheres na sociedade

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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

NOBRE, Júlia [1]

NOBRE, Júlia. Educação popular feminista: promovendo identidades e engajamento das mulheres na sociedade. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 08, Vol. 02, pp. 106-120. Agosto de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/educacao-popular-feminista, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/educacao-popular-feminista

RESUMO

Este trabalho examina o diálogo entre Educação Popular e Feminismo, enfocando sua convergência para a emancipação e empoderamento das mulheres. A Educação Popular é apresentada como uma abordagem educacional que busca a transformação social ao incentivar a conscientização crítica e a participação ativa das classes populares. Paulo Freire, figura central nesta abordagem, destaca o diálogo crítico e reflexivo como meios de libertação e transformação social. O feminismo é analisado como um movimento político e social que visa eliminar o sexismo, a exploração e a opressão de gênero. O trabalho apresenta as diferentes ‘ondas’ do Feminismo, desde a luta por direitos civis até a atual Quarta Onda, impulsionada pela tecnologia e focada na igualdade de gênero. A Educação Popular Feminista é introduzida como uma abordagem que combina os princípios do Feminismo e da Educação Popular. Seu objetivo é incentivar a conscientização, o empoderamento e a transformação social das mulheres, levando em consideração a interseccionalidade de opressões de gênero, classe, raça e sexualidade. O objetivo deste artigo foi conceitualizar e apresentar os princípios da Educação Popular Feminista, destacando seu potencial transformador na promoção da justiça social e igualdade de gênero. A metodologia adotada consistiu em uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, com base em autores como Paulo Freire, bell hooks e teóricas feministas contemporâneas. Como resultados, identificou-se que a Educação Popular Feminista promove a conscientização crítica e o empoderamento das mulheres, especialmente ao integrar questões de gênero, classe e raça. Conclui-se que essa abordagem é fundamental para a transformação social, ao desafiar estruturas opressoras e promover a justiça de gênero.

Palavras-chave: Educação Popular Feminista, Educação Popular, Feminismos, Conscientização, Transformação Social.

1. INTRODUÇÃO

A educação popular emerge como uma abordagem educativa revolucionária, destinada a fomentar a consciência crítica e a participação ativa na transformação social. De acordo com Brandão (2006), esse modelo configura-se como um processo de engajamento político, especialmente para as classes populares, promovendo mobilização, organização e capacitação técnica e científica (Freire; Nogueira, 1989). O movimento feminista, assim como delineado por bell hooks (2018), luta pela eliminação do sexismo, da exploração sexista e da opressão, desenvolvendo-se em diversas ondas com demandas específicas e discussões sobre interseccionalidade (Silva, 2019).

A interseção entre o movimento de educação popular e o movimento feminista resulta na Educação Popular Feminista, que integra princípios do feminismo e métodos da educação popular para promover conscientização e empoderamento das mulheres. Reconhecendo a opressão de gênero como ligada a outras formas de opressão, essa abordagem visa desenvolver estratégias pedagógicas que permitam às mulheres superar múltiplas formas de discriminação (Libera, Eggert; Moretti, 2021)

Este estudo propõe a educação popular feminista como uma abordagem educacional inovadora, promovendo conscientização, empoderamento e transformação social das mulheres, fundamentando-se nas teorias de Paulo Freire e aprofundando-as com contribuições do feminismo. A metodologia adotada neste estudo consistiu em uma revisão de literatura com enfoque qualitativo, realizada por meio de pesquisa bibliográfica. O principal objetivo foi discutir o conceito e os princípios subjacentes a essa abordagem, proporcionando uma compreensão mais detalhada e crítica.   

2. A EDUCAÇÃO POPULAR

A educação popular é uma abordagem educacional que visa fomentar a conscientização crítica das pessoas, encorajando-as a se tornarem agentes ativos na transformação social. Segundo Brandão (2006), esse enfoque pedagógico emerge como uma forma de engajamento político voltada para as classes populares através da educação. Freire e Nogueira (1989) a definem como um movimento que mobiliza, organiza e capacita essas classes, com o objetivo de melhorar sua competência técnica e científica.

Este modelo educacional busca valorizar os saberes construídos a partir das vivências cotidianas das pessoas, reconhecendo que é o próprio povo quem gera seu conhecimento. Nesse processo, cada indivíduo é encorajado a se perceber como um participante ativo de um coletivo, dotado de poder para influenciar e promover mudanças. Isso implica que cada um é protagonista de seu próprio processo educativo ao refletir sobre sua realidade pessoal.

Na década de 1960, surgiram no Brasil os primeiros esforços de educação voltada para as classes populares, liderados por educadores que aplicavam teorias da cultura popular em suas práticas. A partir dos anos 1970, o termo ‘educação popular’ se popularizou, conforme observado por Brandão e Assumpção (2009). Brandão (2006) destaca que Paulo Freire utilizou outras denominações como “educação libertadora”, “cultura popular” e “educação conscientizadora”, que fundamentaram a educação popular contemporânea. Alguns dos escritos de Freire anteriores a esse período não fazem uso do termo, pois foram produzidos antes de sua ampla adoção e reconhecimento.

Paulo Freire defendia a educação como processo de libertação e transformação social, utilizando diálogo crítico e reflexivo. A educação problematizadora promove a reflexão sobre a realidade, diferindo da educação bancária, que vê estudantes como receptores passivos. Reconhecido por seu método eficiente de alfabetização de adultos, Freire argumentava que superar o analfabetismo não resolveria a falta de experiência democrática sem desenvolver uma consciência crítica. Ele enfatizava o diálogo aberto com as massas populares, criticando abordagens que perpetuam a opressão, e propunha a “pedagogia do oprimido”, valorizando a cultura e experiências dos oprimidos para a construção coletiva de conhecimento e da ação transformadora.

Em suas obras, diversos conceitos importantes são abordados. De acordo com Freire (2018), as “situações-limites” são obstáculos que podem ser superados pelos seres humanos na busca pela liberdade, quando entendidas como empecilhos à emancipação e transformadas em “percebidos destacados”, revelando-se como dimensões reais e históricas de uma determinada realidade. Vieira Pinto (1960), apud Freire (2018), denomina as ações desafiadoras de “atos-limites”, que possibilitam a descoberta do “inédito viável”, uma ideia ainda não concretizada, mas viável, através da ação coletiva e reflexão crítica.

Outra contribuição de Freire é o método do “círculo de cultura” (Freire, 1967), que promove a alfabetização por meio do diálogo e da seleção de palavras geradoras, conectando-as às situações reais dos indivíduos. Para ele, a alfabetização e a conscientização estão associadas, uma vez que todo processo de aprendizagem deve estar relacionado ao desenvolvimento de uma consciência crítica acerca da realidade vivida pelo educando.

3. FEMINISMOS

A definição de feminismo feita pela autora estadunidense bell hooks delineia o movimento como uma iniciativa direcionada à eliminação do sexismo, da exploração sexista e da opressão (Hooks, 2018). O termo “sexismo” denota práticas discriminatórias e desiguais fundamentadas na distinção de gênero, manifestando-se em diversas esferas da sociedade, incluindo desde disparidades no ambiente de trabalho até formas de violência de gênero. A “exploração sexista” envolve a subjugação e exploração de indivíduos, particularmente mulheres, com base em seu sexo. Isso abarca disparidades salariais entre os gêneros, bem como a objetificação e exploração sexual das mulheres na mídia e publicidade.

A “opressão”, por sua vez, refere-se à sistemática imposição de poder e controle sobre um grupo, com o intuito de restringir suas liberdades e oportunidades. No contexto do feminismo, a opressão é compreendida como um conjunto de práticas e estruturas sociais que perpetuam a desigualdade de gênero, impactando diversos aspectos da vida diária, como educação, política, economia e cultura. Nesse sentido, o feminismo busca não somente alcançar a igualdade formal entre os gêneros, mas também promover a transformação das normas, valores e instituições que sustentam a desigualdade e a injustiça baseadas no gênero.

3.1 AS ONDAS DO MOVIMENTO FEMINISTA

Ao longo da história, o movimento feminista desdobrou-se em distintas fases conhecidas como “ondas”, fundamentadas nas demandas emergentes em momentos históricos específicos. Cada onda possui características próprias e mulheres notáveis que lideraram esses períodos, articulando demandas distintas. A Primeira Onda do Feminismo, do fim do século XIX até meados do século XX, originou-se no Reino Unido e nos Estados Unidos, centrando-se na reivindicação de direitos civis, como o direito ao voto e à gestão de propriedades. Esse movimento desafiou padrões de submissão impostos às mulheres, buscando igualdade moral e intelectual com os homens, e foi marcado por líderes predominantemente brancas, enquanto mulheres negras enfrentavam uma situação ainda mais precária, lutando não só pela igualdade de gênero, mas pelo reconhecimento pleno de sua humanidade.

Nesse período, surge o movimento das sufragistas em diversos países, que buscavam o direito ao voto e a participação política, enfrentando chacotas e adotando táticas como desobediência civil e greves de fome para ganhar visibilidade e forçar uma reflexão no pensamento masculino (Pinto, 2010). O movimento feminista da Primeira Onda persistiu até meados do século XX, coincidindo com a Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres provaram ser capazes de atuar na esfera pública (Silva, 2019). No Brasil, o movimento ganhou força na década de 30, culminando na conquista do voto feminino em 1932, inicialmente com restrições, mas logo assegurado sem condições excepcionais graças à intervenção de Getúlio Vargas (Marques, 2018).

A segunda onda do movimento feminista, de 1960 a 1990, trouxe uma nova fase na luta pelos direitos das mulheres, influenciada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e pelo livro “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir. Beauvoir (1980) introduziu a distinção entre sexo (biológico) e gênero (social), desafiando concepções sobre feminilidade e impulsionando o movimento de libertação das mulheres. As feministas dessa época buscaram entender a opressão feminina e introduziram o conceito de sororidade, promovendo a solidariedade entre elas.

O lema “o pessoal é político” destacou a importância das experiências cotidianas das mulheres e trouxe críticas à pornografia, prostituição, maternidade e casamento. A invenção da pílula anticoncepcional em 1962 revolucionou a liberdade sexual das mulheres, permitindo maior controle sobre sua fertilidade e alimentando debates sobre direitos reprodutivos. No Brasil, mudanças legais na década de 1960 permitiram que mulheres se tornassem economicamente ativas sem autorização dos maridos, embora o divórcio só tenha sido permitido em 1977.

Visando corrigir as “deficiências da segunda onda”, a terceira onda do feminismo rejeitou a ideia de uma feminilidade universal e aprofundou discussões sobre os papéis das mulheres em relação a raça e classe. O movimento buscou reconhecimento das diversas identidades femininas, compreendendo que opressões sociais afetam mulheres de maneiras variadas. Caracterizada pelo feminismo da diferença, a terceira onda destacou a interseccionalidade entre raça, classe, gênero e sexualidade, com contribuições de autoras como bell hooks, Patricia Hill Collins e Angela Davis, e a emergência do feminismo negro como uma vertente fortalecida (Silva, 2019).

A expansão da internet impulsionou uma revolução na comunicação global, e o feminismo se fortaleceu nesse cenário. O ciberfeminismo redefine o feminismo na internet, empregando tecnologias de informação para desafiar a misoginia, sexismo, LGBTfobia e diversas formas de desigualdade de gênero. A quarta onda do feminismo, marcada pelo uso das redes sociais, proporciona voz a grupos tradicionalmente não representados, como mulheres de países periféricos. O movimento “Ni Una Menos” (Paixão, 2022) exemplifica essa luta na América Latina, destacando a urgência de combater a violência contra a mulher, enquanto a questão do feminicídio e do direito ao aborto seguro permanecem pautas cruciais.

O feminismo contemporâneo é caracterizado por sua diversidade de perspectivas, refletindo a complexidade do cenário atual com diferentes correntes e teorias que coexistem. Questões de gênero e sexualidade se entrelaçam, abarcando identificações como cis, trans, intersexuais e agêneros. Nesse contexto multifacetado, debates como transativismo e feminismo radical exemplifica a pluralidade de vozes que define este movimento em constante evolução. A luta pelo direito ao aborto seguro e a conscientização sobre novas legislações, como na Colômbia e Argentina, mostram avanços e desafios contínuos na busca por igualdade de gênero.

3.2 BELL HOOKS E PAULO FREIRE

No âmbito da Educação Popular e do movimento feminista, a ligação entre Paulo Freire e bell hooks é notável. Embora Freire não tenha inicialmente adotado uma perspectiva feminista, suas práticas pedagógicas inspiraram muitos na busca por justiça social. Hooks (2017) reconheceu que, mesmo com uma abordagem inicialmente masculina e patriarcal, a pedagogia libertária de Freire oferece ferramentas valiosas para transcender essas limitações (Maso; Mendoza, 2021).

Bell hooks, como jovem negra nos Estados Unidos, sentiu-se mais conectada ao ler ‘Pedagogia do Oprimido’ do que com obras pioneiras do feminismo branco, como “A Mística Feminina” de Betty Friedan (1971). Hooks percebeu que as obras com sensibilidade branca e burguesa não abordavam eficazmente as experiências das mulheres negras, destacando uma afinidade maior com os camponeses mencionados por Freire (2018) do que com a realidade das mulheres presas ao trabalho doméstico (Maso; Mendoza, 2021).

Freire foi criticado por feministas norte-americanas pelo uso exclusivo do masculino em seus escritos. Em “Pedagogia da Esperança”, ele demonstra como sua postura mudou ao entender o papel crucial da mudança de linguagem na transformação do mundo. No livro “Ensinando a Transgredir: a educação como prática de liberdade” (1994), hooks dedica um capítulo a Freire, apresentando críticas feministas e defendendo a importância de seu trabalho para seu próprio processo de conscientização e descolonização (Fleuri; Muraca, 2013).

4. EDUCAÇÃO POPULAR FEMINISTA

A Educação Popular Feminista é uma abordagem educacional que integra princípios do feminismo e da educação popular, visando promover a conscientização, o empoderamento e a transformação social das mulheres. Esta perspectiva educacional emerge do entendimento de que a opressão de gênero está interligada a outras formas de opressão, como classe, raça e

sexualidade. Segundo Libera, Eggert e Moretti (2021), a Educação Popular Feminista é definida como um campo teórico-metodológico-político que envolve a troca de conhecimentos entre mulheres reunidas com o propósito de ensinar e aprender umas com as outras.

Esse enfoque educativo é considerado teórico, pois incorpora pesquisas e estudos acadêmicos realizados por diversas autoras, que buscam compreender e analisar o feminismo popular no contexto brasileiro. Além disso, é um campo metodológico, pois prioriza a adoção de abordagens criativas de intervenção, orientadas pelos princípios da Educação Popular e dos Estudos Feministas. Outro aspecto relevante é seu caráter político, uma vez que sua essência está voltada para a denúncia das desigualdades sociais e para a apresentação de alternativas viáveis que emergem das vivências cotidianas compartilhadas entre essas mulheres.

A reflexão sobre as relações de gênero e educação surgiu no âmbito da Educação Popular, especialmente no final dos anos 60 e início dos anos 70, quando projetos educativos voltados para as mulheres na América Latina começaram a ganhar atenção. Esses projetos se fortaleceram devido à participação ativa das mulheres no movimento de Educação Popular e às necessidades e demandas específicas dos grupos envolvidos. As ideias desenvolvidas nesse contexto foram amplamente influenciadas pelos princípios educacionais propostos por Paulo Freire. Hoje em dia, essas ideias ultrapassam o contexto latino-americano, influenciando educadores e educadoras que buscam compreender a temática de gênero e educação em diferentes contextos educacionais (Silva; Godinho, 2017).

No entanto, a escassa visibilidade das demandas femininas nas diversas atividades educativas promovidas pelo movimento de Educação Popular é um ponto crítico levantado pela Red de Educación Popular Entre Mujeres de Latinoamérica y el Caribe (REPEM, 2019). Segundo Guzmán (2003), a omissão em abordar questões fundamentais relacionadas às mulheres, como a divisão sexual do trabalho, a sexualidade e a participação política, resulta na ausência de um questionamento das hierarquias de gênero existentes na sociedade. Essas desigualdades se manifestam através da disparidade de oportunidades e responsabilidades entre homens e mulheres, da concentração do emprego feminino em áreas restritas, das disparidades salariais, do acesso limitado ao poder e da persistência de diferentes formas de violência doméstica.

A falta de análise das condições específicas das mulheres levou a rede feminista a desenvolver estratégias de formação e abordagens pedagógicas mais adequadas, alinhadas ao pensamento e à política feminista, concretizando a perspectiva da Educação Popular Feminista.

Essa iniciativa é baseada em processos educativos que permitem às mulheres identificar a opressão, subordinação e exclusão que enfrentam, incluindo as múltiplas discriminações vivenciadas pelas mulheres das classes populares, decorrentes de questões de classe, gênero e etnia.

Nas próximas linhas, serão apresentados os princípios da Educação Popular Feminista de acordo com REPEM (2019), juntamente com algumas reflexões complementares. Esse movimento é construído com e a partir de educadoras populares feministas, reconhecendo as mulheres como protagonistas políticas nos processos de formação. A abordagem pode variar entre processos de Educação Popular entre mulheres, com enfoque feminista, e processos de Educação Feminista com foco na Educação Popular, promovendo a reflexão sobre suas perspectivas coletivas.

Essa metodologia tem uma intenção política clara, buscando transformar a vida das mulheres, suas relações e papéis de gênero por meio de uma análise crítica. Articula teoria e prática, utilizando metodologias didáticas lúdicas e ativas para construir conceitos pertinentes, baseando-se no conhecimento prévio de cada indivíduo e no cotidiano. De acordo com Rosero (2019), essa perspectiva valoriza a experiência individual na transformação social e na construção de um novo sujeito coletivo.

Um dos desafios da Educação Popular Feminista é desenvolver uma abordagem pedagógica que promova reflexão e análise, interpretando as vidas das mulheres no contexto social e considerando suas experiências e atitudes. Essa transformação pedagógica demanda uma mudança ideológica, desconstruindo percepções sobre as mulheres e a sociedade, visando um conceito de libertação abrangente. A educação popular feminista fundamenta-se nos conhecimentos prévios individuais e coletivos, enraizando-se no contexto cotidiano.

Nesse contexto, o corpo feminino assume um papel central, revelando as desigualdades impostas pelo patriarcado e servindo como meio de expressão de sentimentos e experiências. Questiona-se a validade de conceitos e metodologias de ensino que negligenciam a vivência feminina, reconhecendo o corpo como o primeiro espaço de apropriação de saberes. Esse enfoque possibilita a compreensão das desigualdades de gênero e promove a autoavaliação das mulheres através do conhecimento de seus papéis e histórias de vida.

A luta pelo direito das mulheres sobre seus próprios corpos é crucial, desafiando a ideia de que os corpos femininos estão sempre disponíveis e tratados como objetos. Abordar a noção de libertação corporal implica estabelecer laços que emancipem homens e mulheres do processo de objetificação, rompendo com as violências e opressões preestabelecidas. A Educação Popular Feminista nos convida a questionar e desaprender crenças e práticas que comprometem a dignidade das mulheres e perpetuam relações de submissão.

Outro princípio importante é questionar a desigualdade de gênero nas tarefas de cuidado, atividades voltadas para o bem-estar e majoritariamente desempenhadas por mulheres. Essas práticas constituem um dos pilares centrais das atividades laborais não remuneradas e são frequentemente invisíveis. A necessidade de reavaliar o trabalho de cuidado de forma abrangente inclui considerar sua dimensão temporal e espacial e reconhecer seu valor e importância para o mercado de trabalho (Molinier; Arango, 2011).

A perspectiva econômica também é abordada, discutindo a divisão sexual do trabalho e o modelo econômico atual, visando o empoderamento e a autossuficiência financeira das mulheres. Isso inclui considerar a economia global e os movimentos indígenas que buscam compartilhar recursos para a resistência dos povos. Contudo, esse aspecto econômico enfrenta desafios complexos. O neoliberalismo intensifica a dependência do mercado para a subsistência familiar, levando muitas mulheres a se tornarem ‘microempresárias’. Isso aumenta sua carga de trabalho, agrava a pobreza de tempo e enfraquece as organizações que as representam.

Essa abordagem identifica e renova diversas formas de enxergar o mundo e espiritualidades, especialmente as sabedorias e vivências de mulheres ancestrais. A relevância dada às mais antigas integrantes das famílias se traduz como apreço por suas jornadas e conhecimentos, e, como resultado, elas emergem como guias inspiradoras para informar as estratégias educacionais e políticas promovidas pelos movimentos sociais. O convívio com figuras matriarcais, como mães e avós, solidifica o elo das comunidades com suas terras, molda seus princípios essenciais e influencia a formação de suas agendas de resistência e enfrentamento perante as inúmeras opressões que permeiam a realidade latino-americana (Lima; Neri; Silva, 2021).

A Educação Popular Feminista conecta questões de gênero, classe social e étnico-raciais, destacando experiências de empoderamento econômico das mulheres. Esta abordagem critica as estruturas econômicas e o patriarcado, interligados ao neoliberalismo das corporações multinacionais, promovendo uma perspectiva antipatriarcal e descolonizadora. As Economias Populares Feministas e Solidárias surgem como estratégias para transformar a vida das mulheres, reconhecendo-as como agentes de mudança. Além disso, utiliza a interseccionalidade para analisar discriminações variadas, oriunda do feminismo negro, compreendendo as opressões complexas baseadas em etnia, classe e outras características, enriquecendo a aprendizagem nas organizações de Educação Popular Feminista.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo se propôs a conceituar e delinear os princípios da Educação Popular Feminista, partindo de uma compreensão aprofundada da Educação Popular e do movimento feminista em suas diversas ondas e vertentes. A análise revelou a complexidade e a riqueza das interseções entre essas duas áreas, evidenciando a necessidade de uma abordagem educativa que integre as especificidades de gênero, classe, raça e outras formas de opressão.

A Educação Popular, conforme discutido, é uma abordagem que visa à conscientização crítica e à transformação social das classes populares, reconhecendo e valorizando os saberes oriundos das vivências cotidianas. Inspirada pelas teorias de Paulo Freire, essa prática educativa se caracteriza por ser um movimento de mobilização e capacitação técnica e científica das classes populares, buscando promover uma emancipação efetiva através do diálogo e da ação coletiva.

Por outro lado, o movimento feminista, em suas diversas ondas, trouxe à tona a luta contra o sexismo, a exploração sexista e a opressão, abordando questões que vão desde os direitos civis e políticos até a crítica às estruturas sociais que perpetuam a desigualdade de gênero. O feminismo contemporâneo, especialmente em suas vertentes interseccionais, destaca a importância de considerar as múltiplas dimensões da identidade e as variadas formas de opressão que se entrelaçam.

A Educação Popular Feminista surge, portanto, como uma síntese dessas duas tradições, propondo uma prática educativa que não apenas aborda as questões de gênero de maneira isolada, mas que também considera as dimensões de classe, raça e outras formas de desigualdade. Este estudo identificou que a Educação Popular Feminista promove a conscientização e o empoderamento das mulheres, por meio de uma metodologia que valoriza o conhecimento prévio das participantes, utilizando abordagens criativas e participativas que fomentam a reflexão crítica e a ação transformadora.

Um dos pontos cruciais identificados foi a centralidade do corpo feminino na Educação Popular Feminista, reconhecendo-o como um espaço de expressão e resistência contra as imposições patriarcais. Este enfoque permite uma compreensão mais profunda das desigualdades de gênero e promove uma autoavaliação crítica das mulheres sobre suas próprias experiências e papéis sociais. Além disso, a luta pelo direito sobre os próprios corpos e a desconstrução das tarefas de cuidado como responsabilidade exclusiva das mulheres foram destacadas como elementos fundamentais dessa abordagem educativa.

A análise também revelou os desafios econômicos enfrentados pelas mulheres e a importância de promover a autossuficiência financeira e o empoderamento econômico através de práticas solidárias e antipatriarcais. A interseccionalidade foi identificada como uma ferramenta crucial para compreender e abordar as múltiplas discriminações vivenciadas pelas mulheres, enriquecendo o processo educativo e fortalecendo as organizações feministas populares.

Em suma, a Educação Popular Feminista representa uma abordagem inovadora e necessária para enfrentar as diversas formas de opressão que afetam as mulheres, especialmente aquelas das classes populares. Ao integrar os princípios da Educação Popular com as demandas e perspectivas feministas, essa prática educativa oferece um caminho promissor para a transformação social, promovendo a justiça de gênero e a emancipação das mulheres em todas as suas dimensões.

REFERÊNCIAS

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NOTA

A autora utilizou a Inteligência Artificial “ChatGPT – versão não identificada na plataforma” para fins de correção gramatical. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.

[1] Graduação em Pedagogia. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-3853-8900. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1485332333534018.

Material recebido: 07 de março de 2025.

Material aprovado pelos pares: 11 de abril de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 31 de maio de 2025.

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Júlia Nobre

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