ARTIGO ORIGINAL
PEREIRA, Olavo de Carvalho [1]
PEREIRA, Olavo de Carvalho. Cálculo de limite de uma função sem a utilização de
A bibliografia consultada não apresenta, em nenhum dos casos analisados, cálculo de limite de uma função, mas apenas “mostra” que os valores apresentados como sendo o “limite” satisfazem a definição de limite de uma função expressa através de desigualdades envolvendo
Palavras-Chave: limite de uma função, cálculo de limite, limites laterais, limites infinitos, limites no infinito.
Esse artigo apresenta o “cálculo de limite de uma função” no intuito de preencher uma lacuna existente nesse assunto.
A apresentação do cálculo mencionado na solução de diversos limites é o objetivo principal do artigo.
De forma suplementar, intencionamos esclarecer sobre a real necessidade de se calcular, ou não, o limite de uma função.
Também discorreremos, de uma maneira bem singela, sobre o caso em que uma função simples, definida em certo número, é contínua nesse número.
Embora a interpretação geométrica seja sempre importante, faremos aqui uma abordagem apenas algébrica do “cálculo de limite” apresentado.
A definição de limite de uma função é apresentada nos livros de matemática através de uma estimativa.
Por exemplo: Leithold (1994) apresenta a definição de limite de uma função da seguinte forma:
Seja
Dado
A definição acima afirma que os valores de
Já Lezzi, Murakami e Machado (1991) assim se expressam sobre a mesma definição:
Seja
Munem e Foulis (1982) usam a seguinte definição:
Se
Como se depreende das definições acima, é apresentado um limite
Não se apresenta em nenhum momento o cálculo de tal limite.
O presente artigo apresenta o “cálculo de limite” de uma função que pode ser utilizado em todos os casos em que seja necessário efetuar-se tal operação.
Vamos, então, ao argumento.
Para algumas funções, não definidas em certo número, no intuito de saber, com a máxima precisão possível, qual seria seu valor naquele número, costuma-se fazer a avaliação das mesmas em valores próximos daquele número para o qual não estão definidas.
Exemplo:
Se substituirmos o
Como a função não está definida, isto é, não existe para o valor 1, avaliamos, então, seu valor próximo de 1, pois nosso objetivo é conhecer o valor da função, pelo menos, próximo de 1, uma vez que ela não existe para
Para valores de
Vamos atribuir a
Agora vamos atribuir a
Como se observa, em ambos os casos, à medida que
Entretanto, não foi feito aqui nenhum “cálculo” de limite, mas apenas uma avaliação de
De forma que o valor 5 é “candidato” a ser o limite que, ainda, precisamos calcular.
Os autores consultados estruturam a definição de limite em termos de desigualdades a partir de exemplos como esse e assumem o valor estimado, no caso o 5, como realmente o limite da função.
A esse propósito, afirmam que
A definição de limite dada no início, que não possui nenhum cálculo de limite, é utilizada para “provar” que números fornecidos, sem nenhuma indicação de onde foram tirados, são limites de funções.
Evidenciaremos que a definição de limite não prova, não demonstra, que dado número é o limite de uma função, mas apenas “mostra” que o número fornecido é o limite.
Vamos usar um exemplo para tornar clara a diferença entre uma “mostração” e uma “demonstração”.
Isto significa que, se substituirmos o
Vejamos
Esse foi exemplo de “mostração”, isto é, apenas se mostrou alguma coisa, não se demonstrou nada, não se calculou nada, apenas se substituiu o valor fornecido.
Diferente é quando se diz: demonstre que 2 é raiz, é solução da equação
Nesse caso, temos que calcular, resolver a equação, e ver se obtemos
Bem, resolvendo, temos:
Logo um dos valores de
Com isto, ficou “demonstrado” que realmente 2 é raiz da equação
Veremos, nos exemplos dados a seguir, que não existe uma demonstração, mas apenas uma “mostração” de que o número fornecido é limite da função dada.
Exemplo. Use a definição de limite para “provar” que
Aqui não se fala como se chegou à conclusão de que o limite é 5, nem se diz de onde esse número foi tirado.
Abordaremos, em linhas gerais, a solução apresentada nos livros consultados:
A primeira exigência da definição é que
, logo
Temos, então,
Essa afirmativa indica que
Com essa escolha de
Isso apenas “mostra”, a partir da definição de limite, que
Como vimos, não houve uma demonstração, mas apenas uma “mostração”, uma vez que, fornecido o número 5, fizemos simplesmente a substituição dele e da função dada, na definição de limite de uma função.
Vamos a mais um exemplo: use a definição para “provar” que
Novamente é fornecido um número, no caso o 4, como sendo o limite, mas não se diz de onde esse número foi tirado.
Vamos à solução apresentada, em linhas gerais:
Como
Precisamos mostrar que para todo
Se
Logo
Precisamos colocar uma restrição sobre
Agora temos
Usando esse
Como vimos acima, novamente não se provou nada, mas apenas se mostrou que o número fornecido como sendo o limite, no caso o 4, satisfaz à definição de limite.
Não houve nenhum cálculo para evidenciar que o número 4 é realmente o limite.
Faremos, a partir deste ponto, a apresentação do cálculo de limite de uma função.
Antes de apresentar o “cálculo” propriamente dito, vamos avaliar
Isto mostrará, em linhas gerais, o raciocínio utilizado para fazer o cálculo de limite da função.
A função é
Para
Para
Para
Para
Para
Para
Para
Testamos alguns valores de
Agora faremos a avaliação de
Para
Para
Para
Para
Para
Para
Para
Para
Para
Pelo exposto acima, percebemos que, quanto mais
Observamos nos cálculos acima, em todos os valores atribuídos a
Essa constante é, portanto, “candidata” a ser o “limite” mencionado acima, isto é, há um indicativo de que poderemos ter
Expressaremos agora, a situação acima, de uma forma semi genérica para apresentar o “cálculo do limite” propriamente dito.
A expressão “
Com isto, a expressão
A partir da igualdade acima, é possível “calcular” o valor do limite de
Faremos, agora, utilizando a mesma função anterior, o cálculo para
Dessa forma, ficamos com:
O cálculo para
Vejamos:
Calcularemos, agora, uma série de limites de funções, para exemplificar a aplicação do “cálculo” mencionado.
Como
Ficamos com
Logo o resultado será
Como
Ficamos com
Como vimos acima, no final ficaremos com
Devemos calcular
Como
Ficamos com
Seja
Consideremos
Então
Agora consideremos o seguinte exemplo:
Para
Como
Concluindo, ficamos com:
Observação.
Poderíamos ter aplicado o “cálculo” diretamente sobre a função, sem antes dividir o fator comum ao numerador e ao denominador.
Vejamos
Aliás, podemos aplicar o “cálculo” diretamente sobre a função, sem antes fazer uma “preparação” sobre ela.
Daremos agora alguns exemplos de cálculo de limite envolvendo função trigonométrica e exponencial no intuito de exemplificar o consolidado acima.
Consideremos a função
Recordando:
Substituindo esse valor de x na equação original acima, temos:
Pois,
, enquanto o
Outro exemplo: consideremos a função
Agora vamos calcular o limite das funções dadas no início para confirmar os valores dos limites fornecidos.
Como
Como
Como se depreende dos “cálculos” acima, os limites fornecidos nos exemplos anteriores estavam corretos.
Vamos demonstrar apenas um teorema sobre limites para exemplificar o cálculo aqui exposto.
Teorema. Se
Basta calcular o limite fazendo, por exemplo,
Ficamos com:
Nota-se uma simplicidade imensa no “cálculo” apresentado.
Nesse caso não resta dúvida de que o limite é
Agora utilizaremos o “cálculo de limite” apresentado para calcular limites de funções em diversas circunstâncias.
Como
Ficamos com
Como x → 5, então podemos fazer, por exemplo,
Ficamos com
Observa-se que não foi necessário “preparar” a função para aplicar o “cálculo”, isto é, não foi necessário escrever a função como
Nos casos envolvendo radicais, ao qual estão somados ou subtraídos um número real, quando a substituição direta do valor de
O que ocorre nesse caso é que existe um fator comum ao numerador e ao denominador, mas que só é expresso quando efetuamos a divisão, seja do numerador pelo denominador, seja do denominador pelo numerador.
Isso se traduz atualmente em matemática como racionalização.
Vejamos no exemplo acima: se dividirmos o denominador pelo numerador, uma vez que o expoente de
Conseguimos, com isso, expressar o fator comum ao numerador e ao denominador.
A outra maneira é dividirmos o numerador pelo denominador, mas, nesse caso, devemos fazer mesmo é a racionalização, uma vez que o expoente de
Essa é a famosa racionalização que fazemos.
Faremos primeiro o cálculo, sem preparação.
Como
Ficamos com
Multiplicaremos e dividiremos, então, por
Agora faremos o cálculo, preparando a função antes de aplicá-lo.
Como a substituição direta de 4 conduz à indeterminação
Nesse caso, como se trata de um radical menos um número real, a maneira utilizada para “liberar” o fator comum é através de racionalização.
Antes de calcular o limite, multiplicaremos e dividiremos o numerador o denominador da função por
Ficamos com
Como
Ficamos com
Nos casos em que uma função está definida para todo número real, exceto um número real
E é claro, não se tratando de uma função sentença.
Quando uma função não está definida à esquerda ou à direta de um número
Quando
O cálculo feito com
É, por isso, o limite lateral direito.
Utilizamos
Sabemos que o limite existe somente quando os limites laterais existem e são iguais.
Sabemos que a função existe somente para
Logo, não existe o limite lateral esquerdo e, com isto, não existe o limite em questão.
Mas existe o limite lateral direito que pode ser calculado substituindo
Como são iguais,
No cálculo acima, fizemos
Calculemos o limite de
Devemos calcular, então,
Faremos, então,
Devemos calcular, então,
Faremos, então,
Ficamos com
Como
Devemos calcular, então,
Faremos, então,
Ficamos com
Devemos calcular, então,
Faremos, então,
Ficamos com
Como
Aqueles cujos valores funcionais aumentam ou diminuem sem limitação, quando a variável independente se aproxima cada vez mais de um número fixo, podem ser resolvidos igualmente pelo “cálculo” de limite aqui apresentado, com a vantagem de não precisar se preocupar com teoremas.
Antes de aplicar o “cálculo”, relembremos as seguintes situações:
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Neste caso o denominador é
Como
Ficamos como
Como
Ficamos com
Nesses dois casos pudemos passar o
Como
Ficamos com
Obs. Poderíamos ter substituído diretamente o valor de
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Da mesma forma que para os limites mencionados até aqui, a literatura consultada também não apresenta cálculo de limites no infinito, mas apenas faz uma avaliação da função quando a variável independente cresce ou decresce indefinidamente.
O resultado da avaliação é utilizado como sendo o limite.
Vejamos.
Dada a função
Observamos que, quando
Quando uma variável independente
Conforme visto acima, do exemplo dado, não foi apresentado nenhum cálculo de limite da função, mas apenas se observou que, à medida que
Esse valor 2 foi, então, utilizado como sendo o limite da função.
Apresentaremos, abaixo, o “cálculo” de limite de funções quando a variável independente tende a
Nos casos em que
Nos casos em que
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Como
Ficamos com
Observação.
Cálculo de limites no infinito não pode ser aplicado, por exemplo, às funções trigonométricas, uma vez que algumas delas variam em certo intervalo, e outras crescem ou decrescem indefinidamente, dependendo do valor considerado.
Por exemplo, se tentássemos calcular o
Realmente as funções polinomiais, ou funções expressas por razões entre polinômios, são as mais adequadas à aplicação de limites.
1) O cálculo de limite apresentado surgiu da identificação da expressão
No caso de limites no infinito, a substituição para a expressão
A substituição faz o maior sentido, pois, realmente, quando
Se substituíssemos, no caso em que
Um exemplo.
Faremos
Ficamos com
2. Como visto nos diversos exemplos, o “cálculo de limite” apresentado é bastante “fluente” e de aplicação direta, sem a necessidade de consultar teoremas ou de “organizar” a função antes de efetuar o cálculo, exceto quando temos que racionalizar.
Esse fato traz bastante tranquilidade na hora de calcularmos o limite de uma função, pois o “cálculo” apresentado constitui uma verdadeira síntese desse assunto.
Por exemplo, o “cálculo” pode ser utilizado diretamente sobre a função
Vejamos.
Como
Ficamos com
Isso traz uma enorme vantagem em relação à atual apresentação desse assunto que, além de não apresentar nenhum cálculo de limite, se mostra bastante “engessada” pela quantidade imensa de teoremas que devem ser considerados nas “avaliações” dos limites, bem como das “organizações” que devem ser feitas sobre as funções antes de “estimar” o seu limite.
3) Gostaria de acrescentar, ao “cálculo de limite” apresentado, umas avaliações de natureza prática.
a) Só tem sentido calcular o limite de uma função próximo de um valor para o qual ela não esteja definida.
Se a função está definida para certo valor, isto é, se a função existe para certo valor, não tem nenhum sentido calcular o limite próximo desse valor, uma vez que conhecemos quanto vale a função naquele valor.
Por exemplo, seja
Esta função é definida para todo
Logo, seria fora de propósito calcularmos, por exemplo,
Com isto, centenas de exercícios deixam de ter razão de existir.
Obviamente as funções consideradas nesse artigo são de
b) Por se utilizar do conceito de limite, faremos aqui uma observação sobre continuidade de uma função.
Conforme livro de cálculo de Lethold (1994), a definição de função contínua num ponto assim se traduz:
Dizemos que a função
(i)
(ii)
(iii)
Se uma ou mais de uma dessas condições não forem verificadas em
Assim Lima (1978) define continuidade de uma função:
Uma função
Em termos precisos, diremos que
Sabemos que, se uma função está definida num certo intervalo, isto é, se ela existe para todo número contido num certo intervalo, então não há sentido algum em calcularmos o limite dessa função para algum número desse intervalo, uma vez que podemos simplesmente avaliar a função em todo número desse intervalo.
Em termos mais simples: se uma função, representada por apenas uma expressão, por apenas uma sentença, existe para certo número
É claro que, se calculássemos esse limite, como fizemos acima, ele seria
Como foi dito acima, só tem sentido calcular o limite de uma função em torno de um número para o qual ela não esteja definida.
Sendo assim, se estamos analisando funções representadas por apenas uma expressão, dizer que uma função existe para um certo número
Aplicando isso à definição acima, de função contínua, os itens (ii) e (iii) da definição se tornarão desnecessários, uma vez que no item (i) se afirmar que
Logo, para funções representadas por “apenas uma expressão”, a simples afirmação de que ela, a função
Da mesma forma, com essa observação sobre funções contínuas, centenas de exercícios perdem a razão de existir.
Exemplo: seja a função
Com isto, não há necessidade de se calcular o limite de
Logo a função
No exposto, mostramos que, realmente, a teoria de limites é deficitária em relação a um cálculo de limite e, por isso, se cerca de uma série de argumentos baseados na definição de limite no intuito de preencher tal lacuna.
Apresentamos, então, o “cálculo de limite de uma função” e mostramos que ele sintetiza todo o assunto mencionado, tendo, por isso, aplicação direta.
Esperamos estar contribuindo para uma melhor compreensão de um assunto tão fundamental em matemática.
IEZZI, Gelson; MURAKAMI, Carlos et all. Fundamentos de Matemática Elementar, vol. 8, 1991.
LEITHOLD, Louis. O Cálculo com Geometria Analítica, vol. 1, 1994.
LIMA, Elon Lages. Curso de Análise, vol. 1, 1978.
MUNEM, Mustafa A. e FOULIS, David J. Cálculo, vol. 1, 1982.
[1] Graduação, bacharelado em matemática, pela Universidade de Brasília.
Enviado: Junho, 2021.
Aprovado: Agosto, 2021.
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