ARTIGO ORIGINAL
NEVES, Ecillya Paz das [1], MENESES, Carlos Kaiser Ferreira de [2]
NEVES, Ecillya Paz das. MENESES, Carlos Kaiser Ferreira de. Acessibilidade sanitária para pessoas ostomizadas: Desafios arquitetônicos e diretrizes projetuais. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 07, Vol. 01, pp. 142-164. Julho 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/arquitetura/acessibilidade-sanitaria, DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.21795892
O presente estudo analisa os desafios arquitetônicos relacionados ao desenvolvimento de banheiros acessíveis para pessoas ostomizadas, considerando lacunas normativas e necessidades ergonômicas específicas. Fundamentado em pesquisa qualitativa de caráter descritivo e exploratório, o trabalho baseou-se em levantamento bibliográfico, análise documental e entrevistas semiestruturadas. Os resultados evidenciam que a ausência de infraestrutura adequada compromete a autonomia, a dignidade e a participação social dessas pessoas. Concluiu-se que, intervenções arquitetônicas simples, como vaso sanitário elevado, ducha higiênica e bancada de apoio, podem promover inclusão, saúde e bem-estar, reforçando o papel ético da arquitetura.
Palavras-chave: Acessibilidade, Ostomia, Arquitetura Inclusiva, Design Universal, Banheiros Públicos.
A arquitetura, enquanto comprometida com o bem-estar coletivo e a inclusão social, deve considerar a diversidade corporal, funcional e sensorial de todos os usuários dos espaços construídos. Apesar dos avanços nas normas de acessibilidade e do fortalecimento de políticas públicas voltadas à inclusão, determinados grupos ainda permanecem à margem das diretrizes projetuais. Entre eles, destacam-se as pessoas ostomizadas, indivíduos que, em decorrência de intervenções cirúrgicas, dependem de dispositivos externos para a eliminação de excretas e necessitam de ambientes adaptados que assegurem higiene, conforto, privacidade e dignidade. A ostomia, mais do que uma condição clínica, representa uma reconfiguração das rotinas corporais e demanda espaços que atendam às especificidades do manuseio da bolsa coletora, ao acesso facilitado ao vaso sanitário, à pia e à ducha higiênica, bem como à presença de superfícies adequadas para o autocuidado.
No Brasil, conforme o Ministério da Saúde (Brasil, 2022), estima-se que existam mais de 400 mil pessoas ostomizadas no país, e o Sistema Único de Saúde realiza, em média, 13 mil atendimentos mensais para acompanhamento e fornecimento de materiais. A Portaria n° 400/SAS/MS, de 16 de novembro de 2009, estabelece diretrizes para a atenção integral à saúde dessas pessoas, ressaltando a necessidade de estrutura especializada, com área física adequada, recursos materiais específicos e profissionais capacitados (Brasil, 2009). Contudo, observa-se que tais recomendações ainda apresentam baixa efetividade na prática, refletindo-se de forma limitada na produção arquitetônica e no planejamento de espaços públicos e privados. Embora a NBR 9050 constitua referência nacional em acessibilidade, ela não contempla de modo específico as demandas do usuário ostomizado, evidenciando uma lacuna normativa relevante.
Essa ausência impacta o exercício da cidadania, a autonomia e o bem-estar físico e emocional dessas pessoas. Assim, a adaptação de banheiros destinados a usuários ostomizados deve ser compreendida não apenas como adequação funcional, mas como um ato de reconhecimento social e ético, capaz de promover autonomia, conforto e dignidade.
Nesse contexto, o presente artigo objetiva analisar os desafios arquitetônicos no desenvolvimento de sanitários para esse público, identificar lacunas normativas e propor diretrizes projetuais que promovam acessibilidade, saúde emocional e integração social, contribuindo para a consolidação de uma arquitetura verdadeiramente universal.
O desenvolvimento de ambientes sanitários adaptados para pessoas ostomizadas representa um desafio ainda pouco abordado na arquitetura inclusiva brasileira. Embora as normas de acessibilidade, como a NBR 9050 (ABNT, 2020), estabeleçam parâmetros para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, ainda há uma lacuna significativa no que diz respeito às adaptações específicas para pessoas que utilizam bolsas de ostomia. Segundo o presidente da Associação dos Ostomizados do Estado do Piauí (AOSEPI), em entrevista concedida à autora (2026), a falta de banheiros públicos adequados é uma das maiores dificuldades enfrentadas por pessoas ostomizadas, limitando sua autonomia e participação social. Muitas vezes, os espaços sanitários adaptados existentes são projetados apenas para cadeirantes, sem considerar a altura ideal do vaso, a necessidade de duchas higiênicas próximas e superfícies de apoio para o manuseio da bolsa coletora.
A ostomia é um procedimento cirúrgico que estabelece uma comunicação artificial entre um órgão interno e o meio externo, permitindo a eliminação de efluentes corporais por meio de uma abertura denominada estoma. De acordo com a CUF (2022), “uma ostomia consiste na abertura de um orifício (boca ou estoma) que é feito cirurgicamente na zona abdominal […] e que permite que a urina ou as fezes saiam do corpo por vias alternativas às normais.”
Embora o procedimento represente uma alternativa médica essencial à sobrevivência de milhares de pessoas, ele também transforma profundamente a rotina e a relação do indivíduo com o próprio corpo, com impacto direto sobre sua autonomia e qualidade de vida. O cuidado com o estoma exige condições adequadas de higiene, conforto e privacidade, fatores que tornam o espaço sanitário um ambiente de extrema relevância no cotidiano da pessoa ostomizada.
No entanto, a maioria dos banheiros, públicos ou privados, não apresentam configuração espacial compatível com as necessidades desse público. A ausência de lavatórios próximos ao vaso sanitário, a altura inadequada das peças, a falta de superfícies de apoio e escassez de duchas higiênicas bem posicionadas dificultam o manuseio da bolsa coletora e comprometem a dignidade do usuário.
Assim, o desafio arquitetônico vai além da acessibilidade física, abrangendo também dimensões psicológicas e sociais, que envolvem conforto, usabilidade e respeito à intimidade de cada usuário.
A NBR 9050:2020, norma brasileira que estabelece os critérios e parâmetros técnicos de acessibilidade em edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos, define acessibilidade como a possibilidade e condição de alcance, percepção e utilização dos espaços de forma autônoma, segura e confortável por todas as pessoas, independentemente de suas limitações físicas, sensoriais ou cognitivas. Tal conceito constitui o fundamento do Desenho Universal (Design Universal), abordagem projetual que, conforme aponta Tovar (2024), “criar espaços para todos vai além da mera conformidade com padrões”.
No âmbito da referida norma, a Seção 7 dispõe sobre os sanitários, banheiros e vestiários acessíveis, apresentando parâmetros técnicos relativos às áreas de transferência lateral e frontal para usuários de cadeira de rodas, bem como a instalação de barras de apoio, dimensões mínimas de boxes, alturas de acessórios e dispositivos de uso coletivo. Tais prescrições visam assegurar o uso autônomo e seguro dos ambientes sanitários, promovendo a equidade no acesso e na permanência.
Todavia, observa-se que, no caso das pessoas ostomizadas, os parâmetros estabelecidos pela NBR 9050, embora indispensáveis, ainda se revelam insuficientes para atender às suas demandas específicas de uso e conforto. A aplicação dos princípios do Desenho Universal nesse contexto não implica em sobreposição ou conflito com a norma vigente, mas, ao contrário, em seu aperfeiçoamento e complementação, por meio da incorporação de critérios que contemplem a adequação de alturas, a disposição de equipamentos e a adaptação do mobiliário a fim de possibilitar o autocuidado com segurança, autonomia e privacidade.
De acordo com informações apresentadas no site ArchDaily, o Design Universal “promove a criação de espaços que funcionam para todos, minimizando a necessidade de adaptações ou design especializado” (Tovar, 2024). Dessa forma, o projeto arquitetônico de sanitários inclusivos deve extrapolar a mera observância dos parâmetros normativos mínimos, abrangendo também as exigências ergonômicas e de usabilidade inerentes ao atendimento das particularidades das pessoas ostomizadas.
A integração entre acessibilidade, ergonomia e dignidade humana constitui, portanto, não apenas uma obrigação técnica, mas igualmente um imperativo ético do exercício profissional da arquitetura.
O portal Ostomizados.com, administrado pelo engenheiro Spencer Ferreira, apresenta um conjunto de recomendações e instruções técnicas voltadas à promoção da acessibilidade para pessoas ostomizadas. Trata-se de um material de caráter informativo, que reúne orientações práticas para a adaptação de sanitários, com base em experiências e compilações de boas práticas.
Entre as diretrizes apresentadas, destacam-se: o vaso sanitário elevado, com altura aproximada de 80 cm em relação ao piso, equivalente à altura média do abdômen do usuário, de modo a facilitar o esvaziamento da bolsa coletora; a ducha higiênica lateral, preferencialmente instalada ao lado direito do vaso, com ponto de água a cerca de 110 cm de altura; e o lavatório posicionado próximo ao vaso, com o objetivo de minimizar deslocamentos durante o uso.
Além disso, são indicados elementos de apoio e funcionalidade, como prateleira ou bancada lateral ou frontal, espelho localizado acima do vaso para permitir a inspeção visual do estoma e anteparo seco para evitar respingos durante o manuseio da bolsa. Também são recomendados acessórios complementares, como lixeira com tampa, ganchos, suportes e sinalização específica.
Figura 3 – Vista frontal de banheiro público adaptado para pessoas ostomizadas, elaborada por Spencer Ferreira
Ressalta-se ainda a importância de ventilação e iluminação adequadas, seja por meio de aberturas naturais ou por exaustores mecânicos, visando ao conforto térmico e ao controle de odores (Ferreira, 2005). Essas soluções evidenciam que a adequação dos sanitários destinados a pessoas ostomizadas não demanda tecnologias complexas ou investimentos onerosos, mas sim atenção técnica e sensibilidade projetual.
Conforme destaca Ferreira (2005), tais medidas podem ser implementadas inclusive em sanitários preexistentes, mediante ajustes pontuais de layout e reposicionamento de equipamentos, sem prejuízo da estrutura original do ambiente.
As propostas apresentadas por Ferreira (2005) dialogam com experiências internacionais voltadas à adaptação de sanitários para pessoas ostomizadas. No Japão, por exemplo, a implementação desses espaços teve início na década de 1990, a partir de iniciativas da Japan Ostomy Association (JOA). Esses parâmetros incluem a presença de dispositivos específicos, como pias para higienização da bolsa coletora, chuveiros de água morna, espelhos e superfícies de apoio, além de requisitos relacionados à ventilação e organização do espaço.
Dessa forma, propõe-se que as recomendações apresentadas sejam sistematizadas em formato de checklist técnico, configurando um anexo complementar à NBR 9050, sob o título “Requisitos Mínimos para Sanitários de Uso por Pessoas Ostomizadas”. Esse instrumento normativo permitiria orientar profissionais e órgãos de fiscalização quanto aos parâmetros específicos de projeto e execução, favorecendo a padronização de soluções arquitetônicas e consolidando a inclusão das pessoas ostomizadas nas políticas nacionais de acessibilidade.
Figura 1 – Planta esquemática de banheiro adaptado para pessoa ostomizada, com indicação de uso exclusivo (Ferreira, 2005)
Figura 2 – Planta esquemática da primeira versão de banheiro adaptado para pessoas ostomizadas, elaborada por Spencer Ferreira (2005)
Apesar dos avanços conceituais e normativos no campo da acessibilidade, as barreiras sistêmicas ainda constituem um obstáculo à efetividade da arquitetura inclusiva. No caso das pessoas ostomizadas, tais barreiras extrapolam o âmbito físico e se relacionam também às condições de acesso à saúde, uma vez que a atenção a esse público demanda não apenas adaptações espaciais, mas também suporte assistencial adequado. Conforme a Portaria nº 400/2009, “a atenção às pessoas ostomizadas exige estrutura especializada, com área física adequada, recursos materiais específicos e profissionais capacitados” (Brasil, 2009, s.p.), evidenciando a necessidade de integração entre o ambiente construído e os serviços de saúde.
Essa condição revela a interdependência entre o espaço arquitetônico e as políticas públicas, indicando que a inclusão não se concretiza apenas pelo projeto, mas pela articulação de ações intersetoriais que assegurem o acesso contínuo a equipamentos, materiais e assistência especializada. A ausência de uma infraestrutura pública eficiente de fornecimento de insumos, somada à falta de normativas específicas sobre banheiros para ostomizados, contribui para a manutenção de situações de invisibilidade e limitação no uso dos espaços.
Dessa forma, é imprescindível que a arquitetura inclusiva seja compreendida como componente integrante das políticas de saúde, atuando de modo complementar às estratégias de cuidado e reabilitação. A integração entre planejamento arquitetônico e diretrizes institucionais amplia o alcance das ações públicas, promovendo equidade espacial e social. Assim, a arquitetura deixa de ser apenas cenário físico, para tornar-se agente ativo na promoção da saúde, da dignidade e da cidadania.
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, fundamentada em levantamentos bibliográficos, documentais e entrevistas com pessoas diretamente afetadas pela ostomia. A metodologia adotada teve como objetivo compreender as necessidades específicas das pessoas ostomizadas e as soluções arquitetônicas existentes para a adaptação de instalações sanitárias, de acordo com as diretrizes de acessibilidade universal.
A escolha do tema foi motivada pela observação direta das dificuldades enfrentadas por essas pessoas no uso de ambientes sanitários convencionais, o que despertou o interesse da autora em investigar soluções mais humanizadas. O levantamento bibliográfico abrangeu normas técnicas, incluindo a NBR 9050:2020, publicações da SOBEST (Associação Brasileira de Estomaterapia), bem como documentos técnicos do portal Ostomizados.com, incluindo o Projeto de Lei e a Cartilha de Banheiros Adaptados para Ostomizados.
Complementarmente, foram consideradas informações de associações, como a AOSEPI, para contextualizar as práticas nacionais de acessibilidade. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com uma pessoa que viveu temporariamente com ostomia e com o presidente da AOSEPI.
A entrevista com a participante ostomizada buscou compreender experiências cotidianas, dificuldades em sanitários públicos e domésticos, necessidades de adaptação e percepções emocionais e sociais. O depoimento do presidente da AOSEPI forneceu uma perspectiva institucional sobre a demanda por instalações sanitárias acessíveis e a distribuição de bolsas coletoras.
As informações obtidas foram sistematizadas, analisadas e interpretadas sob a ótica arquitetônica, possibilitando a identificação de padrões espaciais, parâmetros ergonômicos e lacunas normativas, contribuindo para a proposição de diretrizes projetuais inclusivas para espaços de higiene adaptados.
A análise das soluções arquitetônicas voltadas para pessoas ostomizadas revela que, apesar da crescente conscientização sobre acessibilidade, ainda existem lacunas significativas na implementação de ambientes adaptados que atendam às reais necessidades desse público. A pesquisa, baseada em levantamento bibliográfico, análise de normas técnicas e entrevistas com pessoas diretamente afetadas, permitiu identificar tanto os desafios práticos quanto as percepções sociais relacionadas à ostomia.
As vivências relatadas pelos participantes da pesquisa revelam que as dificuldades enfrentadas por pessoas ostomizadas ultrapassam as barreiras físicas, envolvendo também aspectos emocionais e sociais. A Participante 1, que permaneceu ostomizada por seis meses, descreveu o processo de adaptação como um período de intenso desconforto e sofrimento emocional, marcado pela falta de infraestrutura adequada. Segundo ela, “era tudo novo, eu não soube lidar muito bem com aquela situação… de início não lidei bem, mas acostumei” (Participante 1, 2025). Essa fala evidencia o impacto psicológico da ostomia, demonstrando que a acessibilidade deve contemplar não apenas soluções funcionais, mas também o acolhimento emocional e o respeito à dignidade do usuário.
Ao compartilhar sua experiência em banheiros públicos, ela destacou a falta de autonomia e a dependência de terceiros: “Eu precisava que alguém entrasse comigo, não conseguia me agachar sozinha, os banheiros não têm como a pessoa se limpar caso a bolsa estivesse cheia” (Participante 1, 2025). Essa dificuldade está diretamente relacionada à carência de elementos ergonômicos, como a altura adequada do vaso sanitário, duchas higiênicas e superfícies de apoio, indispensáveis para o manuseio da bolsa coletora. Nos espaços domésticos, as limitações continuaram presentes. A Participante 1 relatou que “os vasos eram muito baixos, se fossem mais altos seria tranquilo pra eu ir só, mas como eram todos baixos eu precisava de ajuda” (Participante 1, 2025).
Além das barreiras físicas, as dificuldades emocionais e sociais foram recorrentes. A Participante 1 relatou que, em diversas ocasiões, deixou de sair de casa “por medo ou receio, pois sabia que não ia encontrar um banheiro adequado” (Participante 1, 2025). Esse depoimento demonstra que a falta de infraestrutura apropriada restringe o direito à cidade e à convivência social, contrariando o princípio do Design Universal, que defende o uso autônomo e seguro dos ambientes por todas as pessoas (ABNT, 2020). O Participante 2, presidente da Associação dos Ostomizados do Estado do Piauí, complementa essa percepção ao destacar que a escassez de banheiros acessíveis e de políticas públicas adequadas é um obstáculo coletivo: “Seria bom se tivessem mais banheiros acessíveis para pessoas ostomizadas e mais pontos de distribuição das bolsas de colostomia” (Participante 2, 2025). Essa observação reforça que a acessibilidade não se resume ao campo arquitetônico, mas depende também de ações governamentais e de conscientização social, capazes de promover a inclusão e o respeito à diversidade corporal.
As experiências relatadas pelos participantes da pesquisa, uma pessoa ostomizada (Participante 1) e o presidente da Associação dos Ostomizados do Estado do Piauí (Participante 2), evidenciam que as dificuldades enfrentadas por esse público vão além das barreiras físicas: envolvem também aspectos emocionais, culturais e sociais.
A ausência de locais adequados provoca insegurança, dependência e constrangimento, restringindo o direito à convivência social e à mobilidade urbana. De acordo com o relato da Participante 1, o uso de banheiros convencionais gerava um momento de ansiedade e desconforto: “Os vasos eram muito baixos, se fossem mais altos seria tranquilo pra eu ir só, mas como eram todos baixos eu precisava de ajuda” (Participante 1, 2025). Essa fala reforça a importância da ergonomia como elemento central da acessibilidade.
A NBR 9050 (ABNT, 2020) estabelece que a altura dos equipamentos sanitários deve garantir conforto e segurança ao usuário, o que, no caso de pessoas ostomizadas, significa aproximar o vaso sanitário da altura do abdômen, cerca de 80 cm, facilitando o esvaziamento da bolsa coletora (FERREIRA, 2005). O depoimento da Participante 2 complementa essa percepção, destacando que a falta de infraestrutura adequada é também um problema social e institucional: “Seria bom se tivessem mais banheiros acessíveis para pessoas ostomizadas e mais pontos de distribuição das bolsas de colostomia” (Participante 2, 2025).
Essa observação evidencia que o desafio da acessibilidade envolve tanto soluções arquitetônicas quanto políticas públicas integradas, capazes de promover a inclusão e o respeito à diversidade corporal.
A partir das análises realizadas na literatura, das normas de acessibilidade e dos relatos obtidos nas entrevistas, identificou-se a necessidade de soluções arquitetônicas mais específicas para atender às demandas das pessoas ostomizadas em sanitários públicos. Embora existam recomendações pontuais sobre adaptação de banheiros, observa-se a ausência de diretrizes espaciais mais detalhadas que contemplem o processo de higienização e manejo da bolsa coletora.
Diante dessas lacunas, foi desenvolvida, como atribuição desta pesquisa, uma proposta de cabine sanitária adaptada para pessoas ostomizadas, considerando princípios de acessibilidade, ergonomia e funcionalidade. A proposta busca favorecer a autonomia do usuário durante o processo de higienização, incorporando elementos de apoio e superfícies que auxiliem no manuseio da bolsa coletora.
Figura 4 – Proposta de cabine sanitária adaptada para pessoas ostomizadas
Figura 5 – Detalhamento da bancada da cabine sanitária adaptada para pessoas ostomizadas
Figura 6 – Vista frontal da cabine sanitária adaptada para pessoas ostomizadas proposta nesta pesquisa
Figura 7 – Vista lateral da cabine sanitária adaptada para pessoas ostomizadas proposta nesta pesquisa
Além das limitações físicas, as pessoas ostomizadas enfrentam barreiras simbólicas e sociais que afetam profundamente sua autoestima e participação na vida pública. A falta de informação e o preconceito ainda associados à ostomia intensificam o isolamento e a exclusão. Conforme relato da Participante 1, “quando eu falava sobre as pessoas olhavam torto, muitas vezes por não saber do que se tratava ou até mesmo por preconceito” (Participante 1, 2025). Essa fala revela o quanto a desinformação social reforça o estigma e limita a circulação de pessoas ostomizadas em espaços públicos.
A inexistência de banheiros adaptados, além de gerar constrangimentos físicos, provoca sofrimento emocional. Ainda segundo a participante, “sentia vontade de chorar e voltar pra casa, e ficava me perguntando por que não havia algo adaptável para pessoas ostomizadas” (Participante 1, 2025). Esse relato reforça que a falta de infraestrutura adequada impacta não apenas a autonomia funcional, mas também o bem-estar psicológico.
De acordo com a FADERS, muitas pessoas ostomizadas “hesitam em sair de suas casas e em ter uma vida social ativa, pois se preocupam em como esvaziar a sua bolsa coletora fora de suas residências” (Faders, 2012). Assim, a adaptação dos banheiros não deve ser compreendida apenas como uma necessidade técnica, mas como uma medida de saúde mental e inclusão social. Projetos acessíveis reduzem o estigma e ampliam a presença das pessoas ostomizadas nos espaços urbanos.
Ao refletir sobre a importância desses ambientes, a participante declarou: “Significa muito, porque, apesar de eu ter usado somente seis meses, tem gente que usa a vida toda. Eu acho que deveria haver mais cuidado e atenção com essas pessoas” (Participante 1, 2025). Essa fala sintetiza o papel transformador da arquitetura inclusiva: cada banheiro adaptado representa um ato de reconhecimento social, um espaço de pertencimento e dignidade. Mais do que garantir conforto físico, o ambiente projetado com empatia e sensibilidade é capaz de restaurar a autoestima e reafirmar o direito de existir plenamente em sociedade.
O presente estudo evidenciou que, apesar dos avanços normativos e do amadurecimento das práticas projetuais voltadas à acessibilidade, persistem lacunas significativas na adaptação de banheiros destinados a pessoas ostomizadas. A análise bibliográfica, aliada às entrevistas e depoimentos coletados, incluindo as contribuições institucionais da Associação dos Ostomizados do Estado do Piauí (AOSEPI), revelou que barreiras físicas, simbólicas e sociais continuam a restringir a autonomia, a privacidade e o bem-estar desse público.
As evidências apontam que inadequações recorrentes, como a baixa altura dos vasos sanitários, a ausência de duchas higiênicas e lavatórios próximos, a carência de bancadas de apoio e a inexistência de sinalização específica, comprometem diretamente a funcionalidade e a dignidade do ambiente. Tais falhas configuram um problema de saúde pública, uma vez que limitam a participação social, geram constrangimento e afetam o equilíbrio emocional e psicológico dessas pessoas. As entrevistas e observações demonstraram que intervenções simples são capazes de promover melhorias na autonomia e na qualidade de vida do usuário.
Tais soluções, alinhadas à NBR 9050:2020 e fundamentadas em manuais técnicos, representam instrumentos efetivos para a promoção da dignidade e da inclusão social. Assim, a adaptação de banheiros para pessoas ostomizadas deve ser compreendida como uma prioridade ética, social e sanitária. Recomenda-se a participação ativa das pessoas ostomizadas no processo de concepção dos projetos, a capacitação contínua de profissionais e a articulação entre políticas de saúde e planejamento urbano, garantindo a efetividade das ações previstas na Portaria nº 400/SAS/MS (Brasil, 2009).
Somente por meio dessa integração será possível consolidar uma arquitetura verdadeiramente inclusiva, que compreenda o espaço construído como vetor de saúde, cidadania e dignidade humana.
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[1] Graduanda em Arquitetura e Urbanismo. ORCID: 0009-0005-3632-6314.
[2] Especialista em Gerenciamento de Recursos Ambientais, Graduado em Arquitetura e Urbanismo e Graduado em Administração de Empresas. ORCID: 0009-0004-5767-2892. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4304787142795995.
Contribuição dos autores:
Ecillya Paz das Neves: Concepção do estudo, definição do tema, levantamento bibliográfico, desenvolvimento da proposta projetual, redação do manuscrito e organização geral do artigo.
Carlos Kaiser Ferreira de Meneses: Levantamento complementar de referências, revisão crítica do conteúdo, sugestões teóricas e aprimoração da redação final do manuscrito.
Conflito de interesse:
N/A.
Agradecimentos:
Agradeço à Sra. Maria Das Dores Monteiro Paz, cuja trajetória e experiência pessoal foram uma fonte de inspiração fundamental para a escolha do tema desta pesquisa e para o desenvolvimento deste trabalho.
Agradeço também à Sra. Ana Paula de Sousa, que gentilmente compartilhou sua experiência com ostomia temporária, contribuindo de forma significativa para a compreensão das dificuldades enfrentadas no cotidiano.
Agradeço ainda ao Sr. Manoel Antônio de Araújo Soares, presidente da Associação dos Ostomizados do Estado do Piauí (AOSEPI), pela disponibilidade em conceder entrevista e pelas valiosas contribuições que enriqueceram esta pesquisa.
Financiamento:
N/A.
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 06 de março de 2026.
Material aprovado pelos pares: 05 de maio de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 06 de julho de 2026.
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