ARTIGO ORIGINAL
BEZERRA, Cynara Carmo [1]
BEZERRA, Cynara Carmo. O uso do extrato do Fungo Ganoderma Lucidum contra térmitas. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 01, pp. 167-176. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/biologia/extrato-do-fungo, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/biologia/extrato-do-fungo
RESUMO
Esta pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de avaliar o potencial do extrato bruto do fungo Ganoderma lucidum sobre cupins Nasutitermes, buscando conhecer seu potencial como termiticida ou repelente, podendo com isso, vir a servir como insumo na produção de bio-produtos. Térmitas são insetos que degradam a celulose encontrada em madeira das mais distintas formas, causando muitos prejuízos. Tradicionalmente, essas pragas são controladas com inseticidas sintéticos que, apesar de eficazes, apresentam sérias consequências ambientais e contribuem para o desenvolvimento de resistência nos insetos. Diante disso, este trabalho propõe um método de controle natural de cupins, através do uso de Extratos Fúngicos, por se tratar de uma alternativa mais sustentável e menos agressiva ao meio ambiente. Os extratos testados são oriundos do fungo Ganoderma lucidum, um cogumelo com várias propriedades funcionais comprovadas e que possui excelente qualidade nutricional, além de ser possível fonte para novos fármacos, potencial para produtos nutracêuticos e aditivos naturais para a indústria alimentícia. Os extratos foram obtidos utilizando-se a técnica à frio com solventes aquoso, etanólico e hidroalcoólico (1:1) nas concentrações de 1% e 2%. Foram realizados testes de mortalidade e alimentação forçada. Resultados mostraram que todos os extratos testados tiveram ação satisfatória sobre os cupins, embora o extrato etanólico tenha sido o que apresentou o melhor resultado em todos os ensaios. Para mortalidade, em todas as concentrações testadas, o extrato etanólico, na concentração 2%, eliminou 100% de indivíduos em menos tempo, 24h, embora o resultado tenha sido satisfatório nos outros extratos. Diante dos resultados do estudo realizado, pode-se dizer que os extratos do fungo Ganoderma lucidum são indicados para o controle de cupins Nasutitermes sp. contribuindo para a redução do uso de inseticidas químicos e seus impactos negativos.
Palavras-chave: Cupins, Extratos, Controle de Pragas, Fungos.
1. INTRODUÇÃO
Térmitas, geralmente chamados de cupins, são muito abundantes principalmente em regiões tropicais. Pertencem à ordem Isoptera, sendo catalogadas, em média, 2900 espécies. Que apesar de serem conhecidos por trazer sérios prejuízos ao homem, a grande maioria não habitam áreas urbanas. (Constantino, 2002).
O gênero Nasutitermes, tem entre seus representantes os cupins arbóreos, que apresentam uma maior distribuição em áreas urbanas, tornando-os pragas comuns. Martins (2022) costuma se referir a esses cupins como “nasutos”, fazendo referência ao seu grande nariz de formato tubular (Figura 01). Esses cupins alimentam-se principalmente de madeira, causando prejuízos em obras, forros, pontes e móveis. (Araújo, 1970; Berti Filho, 1998; Menezes, Aguiar, Bicalho, 2000).
Figura 01: cupins nasutos

Berti Filho (1998) afirma que “o controle de cupins é realizado através da aplicação de produtos químicos, usando-se o auxílio de iscas atrativas. Estas como estratégias de controle de cupins, baseiam-se no princípio da transmissão de agentes químicos ou microbianos diretamente para insetos atraídos, visando atingir toda a colônia”.
No Brasil, vem se tornando cada vez mais frequente o uso de inseticidas naturais, como os extratos fvegetais e úngicos, no combate a pragas agrícolas, por se tratar de uma opção que não causa prejuízos ao ambiente e que pode substituir, de forma eficiente, o controle químico. Castro e Silva (2002) afirma que “para a degradação dos componentes da parede celular os fungos degradadores de madeira utilizam-se de enzimas e cada componente químico pode ser metabolizado por diferentes enzimas, daí que, podemos classificar a podridão da madeira em função do tipo de componente químico que é atacado”.
Os inseticidas químicos pertencem à classe de substâncias consideradas não biodegradáveis. Quando acumulados no corpo humano, mesmo em doses relativamente pequenas, inseticidas causam sérios danos à saúde como câncer, desordens neurológicas, cirrose, mutações genéticas e malformações congênitas (Carraro, 1997).
Os extratos orgânicos quando comparados aos inseticidas sintéticos mostram vantagens no que diz respeito a menor toxicidade, rápida biodegradação, além de possuir compostos que as pragas não podem inativar (Quales, 1992). A utilização de extratos orgânicos como inseticidas além de oferecer um método mais barato de controle, é uma opção buscada atualmente pelas empresas devido ao encarecimento de produtos químicos e o impacto ambiental que proporcionam no setor agrícola.
O fungo Ganoderma lucidum é tido como agente promissor para a biotecnologia, por apresentar substâncias bioativas e indutores bióticos de resistência. Corroborando com esta afirmação de Cao et al. (2017) cita-se Lindequist, Jülich, Witt (2005) que afirma que “além de sintetizar antibióticos, substâncias ativadoras do sistema imunológico, antivirais, antialérgicos e muitos outros compostos de interesse medicinal”.
Pesquisas com G. lucidum em térmitas ainda não foram publicadas, tendo apenas trabalhos, mínimos, aplicados em plantas. Além disso, na literatura a ausência de trabalhos relacionados ao uso de extratos deste fungo contra cupins arbóreos, seja apenas como repelente ou como termiticida, justifica a importância do presente estudo.
Desta forma, este trabalho objetiva avaliar os efeitos causados pelo extrato do fungo Ganoderma lucidum sobre cupins Nasutitermes, visando conhecer seu potencial como termiticida ou repelente, podendo com isso, servir como insumo para a produção de substâncias de natureza orgânica, que poderão ser utilizadas como termiticida.
2. METODOLOGIA
Macrofungos: utilizou-se neste trabalho o fungo Ganoderma lucidum coletados em um fragmento de mata secundária, no Município de Parintins/AM.
Cupins: os cupins foram coletados em ninhos arbóreos, presentes no entorno do CESP/UEA, levados ao laboratório apenas no momento do bioensaio, sendo utilizado para cada bioensaio/tratamento 30 cupins por placa.
Extratos: foram preparados três extratos do fungo (etanólico, aquoso e hidroalcoólico) obtidos a partir de um processo de extração a frio, utilizando solventes com diferentes gradientes de polaridade. Os extratos foram obtidos utilizando-se a técnica de extração a frio com solvente etanólico a 96%, para obter o extrato etanólico, e solução hidroalcoólica na razão de 1:1 (água: etanol) para obtenção de extrato hidroalcoólico. Para a obtenção do extrato aquoso, foi utilizada água destilada previamente fervida. Os solventes foram evaporados em estufa elétrica na temperatura de 35±2 ºC e o extrato bruto seco devidamente armazenado (Figura 02). Os fungos foram desidratados em estufa a 40°C e depois triturados em moinho de facas e passados em peneira de 60 mesh. Para cada 100 gramas do material triturado foi acrescido 250 mL do solvente: etanol; água (extrato aquoso) e hidroalcoólico e deixado em repouso por um período de 72h em um recipiente âmbar para evitar as possíveis reações químicas com a luz e armazenados em câmara refrigerada a temperatura de 4 ºC. Foram preparados extratos nas concentrações de 1% e 2%.
Figura 02: extratos sendo evaporados na estufa

2.1 BIOENSAIOS
Mortalidade: os cupins foram colocados no número de 30 indivíduos por recipiente de polietileno (placa de Petri descartável), esses recipientes continham em seu interior um papel de filtro cobrindo sua base. Foi acrescentado nas placas, 1g de amostra retirada do cupinzeiro, para simular um ninho natural. A parte superior das placas receberam pequenos furos, para entrada de ar e estas foram tampadas e envolvidas em plástico preto, para impedir a entrada de luz. Esta metodologia corrobora com Abbott (1925) que a recomenda para que os cupins, que são sensíveis a mudanças, não sintam a mudança de ambiente, podendo vir a morrer naturalmente.
Os dados de mortalidade (%) dos tratamentos e da testemunha foram efetuados por meio da fórmula de Abbott:
P = [(P – C) / (100 – C)] x 100*.
Onde:
P = mortalidade corrigida;
C = mortalidade no grupo controle.
Teste de Alimentação Forçada: consiste em recortar papéis-filtro de forma circular e colocá-los na base das Placas de Petri. Estes foram impregnados com os diferentes extratos (aquoso, hidroalcoólico e etanólico), exceto o controle. Após a aplicação dos extratos, os papeis-filtro foram expostos para secar naturalmente por 30 minutos. Foram utilizados 30 cupins em cada placa e feita a observação a cada 12 horas por um período de 42h. As placas foram cobertas com plástico preto, para evitar a claridade e, mantidas em temperatura ambiente. As observações se deram de forma visual, contando os insetos mortos em cada placa e retirando com pinça. O papel-filtro foi pesado antes e depois do tratamento.
Análise de dados: o delineamento experimental foi inteiramente casualizado. Os resultados foram submetidos a análise estatística.
3. RESULTADOS
Os resultados obtidos a partir da aplicação dos extratos do fungo Ganoderma lucidum, sobre cupins Nasutitermes, demonstraram efeitos promissores, tanto na alteração comportamental quanto na mortalidade tardia dos indivíduos expostos. Os dados foram analisados a partir de observações sistemáticas realizadas ao longo de 3 dias consecutivos, após a aplicação das concentrações de 1% e 2% dos extratos hidroalcoólico, aquoso e etanólico.
3.1 MORTALIDADE
Na tabela 1, estão expostos os números de insetos vivos e a porcentagem de mortalidade dos cupins após a exposição aos extratos utilizados no bioensaio.
TABELA 1: Número de mortalidade de cupins Nasutitermes sp. com a utilização dos extratos aquoso, etanólico e hidroalcoólico de Ganoderma lucidum, nas concentrações de 1% e 2%, ensaiados no período de 3 dias

Após as avaliações e as análises dos dados obtidos pode-se notar que os extratos que obtiveram melhor eficiência no controle dos cupins foram o etanólico e o aquoso, em ambas as concentrações testadas, embora os resultados para o hidroalcoólico sejam satisfatórios.
Após o período de 24 horas, foi realizada a leitura do número de vivos e mortos. O extrato Etanólico nas concentrações de 1% e 2% se mostrou o mais eficiente, pois eliminou 100% dos indivíduos nas promeiras 24h. Mesmo resultado obtido para o extrato aquoso a 1%, demonstrando o melhor potencial de letalidade destas concentrações.
No Teste de Alimentação Forçada, calculou-se a Taxa de Alimentação Diária (TAD) pela equação TAD= peso do papel após a alimentação/ número de cupins vivos/ número de dias de teste. Após um período de 24 horas observou- se que houve consumo dos extratos aquosos e etanólicos, porém no tratamento hidroalcoólico não houve consumo o que indica que houve deterrência alimentar (efeito deterrente), pois, não ocorreu perda de substrato como mostra a Tabela 2
TABELA 2: Índice de Preferência Alimentar, nas concentrações de 1% e 2% dos extratos aquoso, etanólico e hidrocoólico do fungo Ganoderma lucidum

Ressalta-se que houve maior índice de preferência alimentar na concentração de 2 %, nos extratos aquoso e etanólico, indicando a presença de compostos mais palatáveis aos cupins nessas concentrações. Contudo, na taxa de consumo observou-se que houve maior perda em gramas na concentração de 2% do extrato aquoso, diferente do extrato etanólico que ocorreu na concentração de 1% demonstrando que possivelmente há mais material que pode ser digerido pelos cupins no extrato aquoso em 2%.
4. CONCLUSÃO
De acordo com os resultados obtidos, os extratos etanólico e aquoso produzidos a partir dos carpóforos de Ganoderma lucidum apresentam excelente índice de mortalidade frente a cupins Nasutitermes sp, sendo o extrato etanólico mais eficientes que os extratos aquoso e hidroalcoólico. Entretanto, o tratamento etanólico na concentração 2% apresentou maior eficiência na mortalidade dos cupins.
Entre os três extratos, o hidroalcoólico foi o que menos demonstrou eficácia na mortalidade de cupins. Por outro lado, o extrato aquoso foi o que apresentou maior mortalidade de cupins nas primeiras 24 horas de teste para todas as concentrações testadas.
Desta forma, conclui-se que os extratos dos carpóforos de Ganoderma lucidum apresentam compostos bioativos eficientes na atuação do metabolismo celular dos cupins, embora esse não tenha sido o foco deste trabalho. Entretanto, esse fungo produz compostos que podem atuar no metabolismo celular causando a morte dos cupins.
Recomenda-se aprofundar as pesquisas para identificar os compostos bioativos presentes nos extratos e o tipo de atuação que eles exercem sobre os cupins.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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[1] Doutorado em Biotecnologia – PPGBIOTEC/UFAM. Mestrado em Biotecnologia e Recursos Naturais – MBT/UEA. Graduada em Ciências Biológicas – UFAM. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6278-2851. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/0411021735315988.
Material recebido: 22 de agosto de 2025.
Material aprovado pelos pares: 27 de agosto de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 18 de setembro de 2025.







