Epidemiologia da Síndrome Metabólica e as Consequências na Obesidade Infantil no T.O.I do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul

DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI
SOLICITAR AGORA!
5/5 - (3 votes)
Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
WhatsApp
Email

CONTEÚDO

MANNA, Augusto Araboni Mendes Barcelos [1], OLIVEIRA, Glauco Fonseca de [2], BUZZO, Mariana Camilo [3], SALEM, Pâmela Taluza Londero [4], Augusto, Rodrigo Souza [5], PEREIRA, Ana Cláudia Alves [6], MARCOS, Lílian Bianca Muller Martelo de [7]

MANNA, Augusto Araboni Mendes Barcelos; et. al. Epidemiologia da Síndrome Metabólica e as consequências na obesidade infantil do T.O.I do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 01, Vol. 01, pp. 03-19, Janeiro 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Introdução: O presente trabalho foi desenvolvido com o propósito de aprofundar o conhecimento com relação à epidemiologia da obesidade infantil e suas consequências na síndrome metabólica no Hospital Regional do Mato Grosso do Sul (HRMS). Objetivos: Verificar através de um estudo epidemiológico retrospectivo quais os pacientes com obesidade infantil que podem evoluir para a Síndrome Metabólica. Metodologia: Trata-se de um estudo epidemiológico retrospectivo, de base populacional quantitativa, no qual os dados da população foram obtidos do Programa Terapia da Obesidade Infanto-Juvenil (TOI) regulamentado no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) por meio de preenchimento de um questionário aplicado. Sobretudo, foram realizadas pesquisas em livros, revistas científicas, artigos de revisão e originais visando o enriquecimento do presente trabalho. Considerações Finais: A Obesidade Infantil é uma enfermidade que apresenta índices de crescimento anuais no seu percentil, e consequentemente evolui para as Síndromes Metabólicas, as quais prejudicam de forma geral o bom crescimento e desenvolvimento dos pacientes infantes. Tendo em vista esta grande variação dos dados para essa problemática, os profissionais de saúde devem estar atentos à possibilidade dessa nova ameaça mundial. A pesquisa no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, objetivou uma visão ampla desse problema em nossa região.

Palavras-chave: Obesidade, Síndrome Metabólica, Resistencia Insulínica, Metabolismo.

INTRODUÇÃO

A Obesidade Infantil caracteriza-se como um problema crescente no ocidente e o controle da Síndrome Metabólica é de grande importância para o seguimento dos pacientes infantes acometidos por tal moléstia. Um estudo epidemiológico pode ilustrar melhor e dar mais clareza à relação da Obesidade Infantil e os sintomas produzidos pela Síndrome Metabólica. Em especial na população infantil, de crianças entre 2 – 16 anos e 11 meses, o IMC elevado – igual ou acima do percentil 85, circunferência abdominal aumentada ( > 94 cm em meninos ou > 80 cm em meninas), alta glicemia capilar (acima de 99) e dislipidemia (triglicérides ≥150 mg/dL; HDL <40 mg/dL em meninos ou <50 mg/dL em meninas),podem implicar em risco elevado dessa população em configurar-se com ou desenvolver o quadro de Síndrome Metabólica.

A Síndrome Metabólica pode ser definida como um conjunto de várias co-morbidades; das quais, destacam-se: resistência insulínica, hipertensão arterial, dislipidemia aterogênica, obesidade central, marcadores de inflamação vascular, e homeostasia da glicose alterada.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e Associação Americana de Diabetes (ADA), definem a SM a partir da intolerância à glicose, resistência à insulina ou diabetes, juntamente com duas ou mais alterações, sendo, hipertensão, triglicérides elevados, HDL baixo, obesidade central e microalbuminúria.

Em relação à prevalência da síndrome metabólica, no Brasil, há uma elevada prevalência de síndrome metabólica, inclusive nos mais jovens, evidenciando 29,8% na prevalência geral.

No que se refere às crianças e adolescentes, Manna et al. (2006), indicam que evidências sobre a existência da SM entre crianças e adolescentes são limitadas. Os mesmos autores apresentaram dados de uma pesquisa realizada pela National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) 1999-2000, na qual, indicaram que o recente aumento nos índices de obesidade nos jovens estadunidenses foi acompanhado pela elevação da prevalência da síndrome metabólica. Em relação ao Brasil, identificaram 6% de prevalência da síndrome metabólica em crianças e adolescentes de 10 a 19 anos de idade. Foi observada pouca concordância entre as diversas definições propostas para a SM nessa população, podendo assim, variar sua prevalência de 0,4% a 26,3%, dependendo do grupo estudado e dos critérios diagnósticos utilizados.

Em nosso estudo, esperamos encontrar a combinação de duas ou mais componentes da Síndrome Metabólica (resistência insulínica, calculada pelo índice HOMA + hipertrigliceridemia + baixos níveis de HDL + obesidade abdominal + IMC elevado), avaliando também qual o fator de maior associação relativa à resistência insulínica (componente obrigatório).

MÉTODOS

Tipo de pesquisa: Foi realizado um estudo analítico, prospectivo e seu desenho atendeu aos pré – requisitos de um estudo transversal de cunho quantitativo, no qual os dados da população foram obtidos do Programa Terapia da Obesidade Infanto-Juvenil (TOI) regulamentado no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) por meio de coleta de dados dos prontuários das crianças e adolescentes (de 2 a 16 anos e 11 meses).

Aspectos Éticos: O consentimento informado para fins de pesquisa foi composto por itens básicos regulamentados. A pesquisa envolveu coleta de dados de dos pacientes cadastrados, autorizada através do preenchimento do termo de consentimento livre esclarecido por parte dos mesmos, além do termo de autorização assinado pelos responsáveis. Os principais riscos, desconfortos ou constrangimentos; relaciona-se ao pudor de familiares quanto à utilização de dados, porém não foram realizadas computação de dados sem autorização prévia e conscientização da importância da pesquisa para a abertura de novos horizontes no ramo, sendo este o objetivo mais otimista. Os dados foram mantidos na mais absoluta confidencialidade.

Local da pesquisa: Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS).

Sujeitos da Pesquisa: Pacientes cadastrados no programa T.O.I.

Período: Os dados foram coletados, computados, tabelados e analisados no período de julho a setembro de 2014.

Critérios de inclusão: Crianças e adolescentes, de 2 a 16 anos e 11 meses, cadastrados, pertencentes e com considerável regularidade em consultas e acompanhamentos de rotina – acima de uma vez por mês – no Programa Terapia da Obesidade Infanto-Juvenil (TOI) do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS); com um ou mais destes sub-critérios: índice percentil acima de 85 configurando-se assim em Sobrepeso e Obesidade; ou com cintura abdominal acima de 71 cm em ambos os sexos (segundo corte proposto pelas Diretrizes Brasileira de Obesidade), configurando-se como gordura abdominal aumentada; ou com resistência à insulina comprovada pelo índice HOMA (IR) de intervalos maior que 2,71 (como ponto de corte proposto pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, 2009).

Critérios de exclusão: Crianças e adolescentes cadastrados no Programa Terapia da Obesidade Infanto-Juvenil (TOI), mas com baixas frequências em consultas – menor que uma vez por mês; apresentando todos estes sub-critérios; índice percentil abaixo de 85, configurando-se assim em Baixo Peso e Normal; com cintura abdominal abaixo de 61 cm (risco mínimo, proposto pelas Diretrizes Brasileira de Obesidade) em ambos os sexos, configurando-se como gordura distribuída; sem critérios de resistência à insulina comprovada pelo índice HOMA de intervalos menor que 2,70.

Procedimento de coleta de dados: Os dados foram selecionados randomicamente de prontuários coletados ao acaso da amostra total do universo de pacientes cadastrados.

Metodologia de coleta: A partir do “Termo de autorização institucional para uso de documentos dos pacientes” – em anexo – assinado pelo coordenador do Programa Terapia da Obesidade Infanto-Juvenil (TOI) e pela coordenadora do curso de Medicina da Universidade Anhanguera-UNIDERP, concedeu-se o direito ao acesso e participação no TOI do Hospital acima referido para coleta de dados dos prontuarios e contato com os pacientes cadastrados.  Após a autorização e coleta, os dados foram devidamente armazenados e posteriormente computados, tabulados e analisados, sempre respeitando a privacidade da identidade dos pacientes, assim como de seus familiares, acompanhantes ou responsáveis legais.

Variáveis analisadas: Utilizamos dados avaliados e tabulados com os seguintes critérios: idade, sexo, IMC (através das técnicas propostas pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia baseado nas curvas de IMC do índice percentil para sexo e idade), cintura abdominal, altura, peso, glicemia capilar, insulina, índice HOMA-IR, HDL, triglicerídeos, medicamento em uso.

Para o diagnóstico da Síndrome Metabólica, como já enfatizado, foram utilizados os parâmetros de presença de resistência insulínica (HOMA >2,7) + duas variáveis (glicemia>99mg/dl, HDL<40mg/dl, triglicerídeos> 150mg/dl, IMC elevado e CA elevada, segundo critérios da OMS).

As fórmulas utilizadas foram: Índice de massa corpórea (IMC) = Peso (kg) / estatura (m)²;

HOMA-IR = Insulina (mU/L) x glicose (mmol/L) / 22,5.

Base amostral: Obtivemos uma base amostral de 186 pacientes, com uma margem de erro de 5% e com 97% de fidelidade, aplicando a formula:

Base amostral: Obtivemos uma base amostral de 186 pacientes, com uma margem de erro de 5% e com 97% de fidelidade, aplicando a formula

Onde:
n – amostra calculada
N – população
Z – variável normal padronizada associada ao nível de confiança
p – verdadeira probabilidade do evento
e – erro amostral

Tabulação e Análise: Foram utilizados os programas: Microsoft Office Excel 2010® e o Epiinfo v. 3.5.2®, com variáveis distintas por símbolos próprios e legendados. Geraram-se dados conclusivos, como Média, Variância e Desvio Padrão. Foram analisados os dados dos pacientes infantis a partir de critérios diagnósticos base para a Síndrome Metabólica, com o intuito de enquadrá-los em possível afecção da síndrome ou apenas portadores de características da mesma.

RESULTADOS

Dos 309 pacientes cadastrados no grupo TOI (Tratamento de Obesidade Infantil) do município de Campo Grande – MS foram avaliadas 186 crianças em faixa etária de 2 a 16 anos, resultando em uma média de 10 anos e 5 meses e mediana de 11 anos, sendo 93 (50%) do sexo masculino e 93 (50%) do sexo feminino.

Dos pacientes avaliados, 1 (0,5%) apresentou IMC normal,  5 (2,6%) pacientes apresentaram sobrepeso e os 180 restantes (96,7%)  foram classificados como pacientes obesos. Dentre os 5 com sobrepeso, 2 eram do sexo masculino (2,1% do total para o sexo) e 3 do sexo feminino (3,2% do total para o sexo). Já os pacientes obesos, 91 eram do sexo masculino (97,8% do total do sexo) e 89 do sexo feminino (95,7% do total do sexo).

O grupo de meninos demonstrou em relação ao grupo de meninas ligeiro aumento na circunferência abdominal, totalizando 93 meninos com medida maior que 71 cm, média de  96,8 cm para meninos vs. 91 meninas com CA maior que 71 cm, no intervalo e  média; 90,7cm para as meninas;

Ao analisar o índice de massa corporal por sexo para meninos, encontramos o uma média de 31,96kg/m² e em meninas média de 31,21kg/m²

Quanto aos níveis séricos de HDL, foram encontrados no sexo masculino valores médios de 45,24 mg/dL e no sexo feminino média de 50 mg/dL.

Baseando-se no grupo masculino, notamos níveis de triglicérides médios de 135,24 md/dL, enquanto no grupo feminino foi com média de 141,22 mg/dL.

Analisando os níveis de insulina sérica, no grupo masculino encontramos uma média de 25,4 UI/dL, enquanto no grupo feminino foi de 25,59 UI/dL a média. Já o índice HOMA-IR (critério de resistência insulínica), encontramos valores para o sexo masculino em média de 5,75 e, no sexo feminino, de média de 5,82. Todos esses dados estão explicitados na Tabela 1.

Tabela 1 – Características clínicas, antropométricas e laboratoriais dos grupos masculino e feminino, do TOI, no Hospital Regional de Campo Grande, desde 2011.

Variáveis Meninos n=93 Meninas n=93 Referência
Idade (anos) Média; 11,3 Média: 10,68 2 – 16 anos
IMC (kg/m²)  Média; 31,96 Media: 31,21 Índice percentil
CA (cm) Média 96,86cm Media: 90,7cm Meninas < 61
Meninos < 61
Glicemia de jejum  Média: 94,2 Media; 94,70 60-99 mg/dl
Insulina (mU/L) Media; 25,4 Media; 25,59 1 – 20 mUi/ml
HOMA-IR Média: 5,75 Media; 5,82 < 2.7
Triglicerídeos  Media: 135,24 Média: 141,22 < 150 mg/dl
HDL  Média: 45,24 Média: 50,04 > 40 mg/dl
CA = circunferência abdominal;; HOMA-IR = homeostasis model assessment of insulin resistance: IMC = Índice de massa corpórea: HDL = colesterol high density lipoprotein

Fonte: TOI (terapia de Obesidade Infantil), Hospital Regional – MS

 

Correlacionando as variáveis apresentadas, encontramos 65 (69,8%) meninos e 60 (64,5%) meninas, que apresentaram resistência insulínica (critérios obrigatório para Síndrome metabólica) pelo índice HOMA-IR, totalizando 125 (67,2%) da amostra total de 186 pacientes avaliados.

Número de pacientes que apresentaram resistência insulínica em relação ao sexo, atendidos no TOI-HRMS/Campo Grande-MS de 2011 à 2014.
GRÁFICO 1 – Número de pacientes que apresentaram resistência insulínica em relação ao sexo, atendidos no TOI-HRMS/Campo Grande-MS de 2011 à 2014.

Já em relação a estratificação por peso (sobrepeso e obesidade), no sobrepeso apenas 2 pacientes do sexo feminino (2,1%) e nenhum do sexo masculino apresentaram resistência insulínica e, dos pacientes obesos, 123 (66,4%) demonstraram a resistência. Dos 136 (73,1%) pacientes com RCQ alterada, 95 possuiam resistência insulínica, sendo 57 (41,9%) meninas e 38 (27,9%) meninos.

Além disso, no grupo dos pacientes masculinos com resistência insulínica, 29 (44,6%) apresentaram níveis séricos de HDL reduzido (<40mg/dl), do total de 65 pacientes do mesmo sexo que apresentaram resistência insulínica. Enquanto que no sexo feminino, apenas 20 (33,3%) pacientes apresentaram níveis reduzidos, do total de 62 pacientes com resistência insulínica. Estando a síndrome metabólica então, na população masculina, em maior associação com resistência insulínica – obesidade – níveis reduzidos de HDL.

Utilizando as unidades de triglicerídeos como estratificação, 57 (45,6%) pacientes apresentaram elevação dos níveis normais (> 130 mg/dl) associado a resistência insulínica. Com maior em meninas, 141,22 mg/dl  e média de 135,24 mg/dl em meninos. Assim o maior risco de síndrome metabólica em meninas ocorre por associação; resistência insulínica – obesidade – hipertrigliceridêmia.

Na tabela 2, podemos avaliar a classificação das alterações clínico-laboratoriais que mais se associam à resistência insulínica comprovada pelo HOMA-IR>2.7, caracterizando-as com um percentual de potencial risco para o diagnostico da SM.

Tabela 2 – Variável diagnostica relacionada ao HOMA-IR > 2.7 de resistência insulínica, nas crianças do TOI, desde o ano de 2011

Variável Incidência
IMC elevado 67,5%
CA elevada 63,4%
Triglicerídeos elevado 45,6%
HDL-c reduzido 39,2%
CA= Circunferência abdominal. IMC= Índice de massa corpórea. HDL-c = fração de alta densidade do colesterol.

Fonte: TOI (terapia de Obesidade Infantil), Hospital Regional – MS

Quanto ao desenvolvimento do Diabetes Mellitus tipo 2 nos pacientes com Resistência Insulínica, 22 (23,40%) apresentaram glicemia superior a 99 mg/dl, sendo igualmente 11 (11,7%) meninos e 11 (11,7%) meninas. Não foi detectada incidência de diabetes mellitus dentre os pacientes sem resistência insulínica.

Nos pacientes femininos, do total de 60 que caracterizaram resistência insulínica, foram encontrados 51 (85%) com histórico familiar de HAS, 43 (71,6%) de diabetes mellitus, 31 (51,6%) de dislipidemia e 41 (95%) de obesidade.

Já nos pacientes do sexo masculino, do total de 65 que caracterizaram resistência insulínica, foram encontrados 61 (93,8%) com histórico familiar de HAS, 44 (67,7%) de diabetes mellitus, 33 (50,7%) de dislipidemia e 56 (86,1%) de obesidade. Apenas 2 (1,6%) pacientes caracterizaram resistência insulínica e não apresentou correlação com nenhuma das variáveis hereditárias estudadas.

Analisando os 185 (99,4%) pacientes com obesidade e sobrepeso, pode-se fazer uma correlação clinico-metabólico-nutricional comparando diversas variáveis. Quanto ao uso de medicamentos, dos 125 (69,4% da amostra) que caracterizaram a resistência insulínica, 37 (29,6%) fazem uso de algum medicamento, entre eles os mais comuns são: Metformina (83,7%), Lipblock® (40,54%), Fluoxetina (24,3%), Sibutramina (13,5%), e outros (5,4%).

Assim, chegamos ao resultado de que 76 pacientes (41%) apresentaram a Síndrome Metabólica (caracterizada pela resistência insulínica somada a duas alterações clínicas, sendo a obesidade outra variável presente em todos os indivíduos, mais hipertrigliceridêmia em meninas e HDL reduzido em meninos na maior parte das associações). Relacionando com o sexo dos pacientes, 39 meninos (41,9% da população) e 37 meninas manifestaram a síndrome metabólica (39,7% da população).

Porcentagem de indivíduos que caracterizaram a Síndrome Metabólica atendidos no TOI-HRMS/Campo Grande MS de 2011 à 2014
GRÁFICO 2 – Porcentagem de indivíduos que caracterizaram a Síndrome Metabólica atendidos no TOI-HRMS/Campo Grande MS de 2011 à 2014

Se compararmos em relação aos pacientes que apresentam resistência insulínica (127 pacientes), a incidência da síndrome metabólica é de 59,84%.

Com relação ao sexo dos pacientes, manifestaram-se com síndrome metabólica 39 meninos (41,93% da população), e 37 meninas com síndrome metabólica (39,78% da população), notamos a incidência da SM na população total sem estratificação enquanto que podemos notar o quanto prevalece a SM quando estratificada pela resistência insulínica.

Olhando para a população feminina, notamos a incidência da SM na população total sem estratificação enquanto que podemos notar o quanto prevalece a SM quando estratificada pela resistência insulínica que apresenta-se como principal fator de risco

DISCUSSÃO

A SM é a combinação de fatores genéticos e ambientais, ingestão excessiva de calorias com ganho ponderal progressivo e redução de atividade física. Seu aumento em crianças e adolescentes pode causar doenças cardiovasculares em adultos, acelerando sua evolução, o que eleva a morbimortalidade e os custos de saúde pública. Contudo, três entidades sugeriram definições diagnósticas para SM em adultos: a OMS, o NCEP- ATP III e o IDF. Nenhum deles é utilizado como consenso.

Em nosso estudo, foi identificada pelo critério da OMS prevalência de SM de 41% (excluindo medidas de pressão arterial), enquanto que pelo NCEP não puderam ser avaliada todas as variáveis. Como em crianças ainda não existem pesquisas conclusivas a respeito do diagnóstico da SM, utilizando-se de adaptações das definições já estabelecidas para adultos. A principal variável para a síndrome metabólica é a resistência insulínica (segundo a OMS). Segundo essa variável, buscamos realizar uma correlação sistemática sobre sua incidência na população geral e por sexo, onde encontramos na população local uma incidência de 68,64%, igualmente em meninos e meninas.

É importante frisar o papel fundamental da RI na síndrome metabólica, onde é critério obrigatório, sendo primariamente importante o seu controle. Com base nesse fundamento, dos 127 pacientes que manifestaram RI, 76 apresentaram SM numa proporção de 1,67 – 1 na população estudada.

Por outro lado, contatou-se que dos pacientes que receberam este tipo de nutrição adequada nos primeiros meses de vida, poucos desenvolveram a síndrome metabólica, comprovando a implicação dos hábitos alimentares no desenvolvimento da obesidade e síndrome metabólica. O acompanhamento nutricional é de fundamental importância para indivíduos obesos, já que está evidenciada a redução de portadores da síndrome metabólica dentre os pacientes obesos que realizam este tipo de acompanhamento.

Em relação ao histórico familiar, Brambill aet al. sugere que os estudos evidenciam que a avaliação dos distúrbios metabólicos nas crianças utilize uma abordagem em etapas, incorporando o histórico da criança (faixa e adequação do peso, tempo de amamentação), histórico familiar (casos precoces de doença cardiovascular – HAS, DM, Dislipidemias e Obesidade). Essa abordagem pode ser apropriada para se definir melhor o risco e indicar intervenções futuras.

No presente estudo foi observado que 85% do sexo feminino e 93,8% do sexo masculino, com histórico familiar de HAS manifestaram o quadro clinico de resistência insulínica, denotando maior risco de SM em associação a hipertensão familiar. O indicie de SM na população feminina associado a HAS familiar também se apresentou elevado porem não maior que o risco apresentado na obesidade, que se representou em 95%, Sendo este índice de 85,1% na população masculina. A grande prevalência destes indicadores clínicos pode trazer comorbidades importantes na população especifica, além da chance aumentada para SM. Zieske et al., 2002, traz que todos estes aspectos estiveram associados a um maior desenvolvimento de aterosclerose nas crianças e adolescentes, nos estudos anatomopatológicos relatados.

Porém os estudos prévios do histórico familiar de DM em crianças que cursaram com resistência insulínica, contrastam 71,6% da incidência em meninas e 67,7% entre os meninos. Outro dado alarmante encontrado foi a correlação dentro do total de pacientes obesos que desenvolveram RI onde 22 (23,4 %) apresentaram diabetes ou pré-diabetes, onde 21 foram associados com histórico familiar de DM, representando 11 meninas e 10 meninos. Por isso a importância do acompanhamento clínico e diagnóstico precoce em pacientes pediátricos com histórico familiar, a fim de prevenir tal comorbidade.

As variáveis evolutivas; alimentação balanceada, amamentação exclusiva e atividade física regular não encontraram valor clinico satisfatório relevante devido a viés de pesquisa e viés de confiabilidade de coleta de dados, portanto foram excluídas da analise estatística do estudo.

No Brasil, para o nosso conhecimento, ate o momento, ainda ha poucos estudos investigando a prevalência de SM em amostras representativas de crianças e adolescentes. Em nossa pesquisa, representativamente, encontramos uma prevalência similar entre sexo, com discreto aumento na população masculina, acompanhando a mesma relação com o aumento da resistência insulínica.

Grande parte dos estudos conduzidos neste trabalho concentraram-se na avaliação da SM na população estratificada pelo estado nutricional (IMC≥ 85), por questões isoladas, como perfil lipídico de Triglicerídeos e níveis séricos reduzidos  de HDL-c ou obesidade, considerando os fatores risco familiares e comportamentais,  separadamente. Recentemente, Moraes e cols. publicaram uma revisão sistemática sobre a prevalência de SM em adolescentes e, de acordo com o levantamento realizado, os autores identificaram que o Brasil carece de estudos que estimem a prevalência de SM em adolescentes, uma vez que nenhum estudo foi encontrado.

Estudo transversal realizado por Strufaldiet al., 2008, em escolares obesos, na cidade de São Paulo (SP), registrou prevalência de 25,8% pelo critério NCEP ATP III e 5,2% pelo critério da OMS. Os resultados obtidos na pesquisa alcançaram diferentes prevalências, evidenciando-se a dificuldade de diagnóstico da SM na população infantil.

Já um estudo mais recente, do ano de 2012, Neto et al., 2012, demonstraram que a prevalência geral de SM em adolescentes paranaenses foi de 6,7%, nos adolescentes com excesso de peso, essa prevalência aumentou para 17,2% nos indivíduos com sobrepeso e 37,1% nos obesos. Como não ha estudos representativos com crianças e adolescentes brasileiros sobre SM, nossos achados constituem referencia importante para que outros estudos sejam conduzidos, especialmente nas crianças obesas, evidenciando-se um fator de risco isolado somado a resistência insulinica.

Dados publicados previamente na literatura internacional reportaram taxas de prevalência de SM entre 2% e 9% em adolescentes. Cook et al., 2003, encontraram prevalência global da SM em 4,2% dos adolescentes. Quando os autores avaliaram a prevalência da SM estratificados pelo estado nutricional, esses valores subiram para 28,7% nos adolescentes obesos (IMC ≥ percentil 95o). Da mesma forma, Cruz, et al. – 2004, revelaram prevalência de SM em 38,1% dos jovens latino-americanos obesos participantes da pesquisa. Um resultado congruente com os obtidos em nossa pesquisa.

No estudo de Ferranti et al., 2004, a prevalência de SM foi de 31,2% nos obesos. Weiss, et al. encontraram prevalência de SM em 38,7% dos adolescentes moderadamente obesos e 49,7% nos severamente obesos.

Recentemente, Cook et al., 2003, avaliaram as taxas de prevalência da SM e verificaram que a síndrome acometeu 44% dos adolescentes obesos, acima dos 41% encontrados no presente estudo.

Essa associação direta do excesso de peso com o diagnostico de SM demonstrada nos estudos prévios causa grande preocupação, uma vez que dados da ultima pesquisa de orçamento familiar realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2008/09 evidenciaram aumento da obesidade e redução dos índices de desnutrição em brasileiros.

Além disso, estudos longitudinais demonstram que múltiplos fatores de risco cardiovascular persistem da infância ate a idade adulta em 25% a 60% dos casos.

Pesquisas que acompanharam adolescentes ate a idade adulta observaram que mais de 50% dos indivíduos que apresentavam excesso de peso, quando adolescentes, permaneceram nesse estado quando adultos.

Assim, estratégias de intervenção devem ser pensadas já precocemente objetivando a saúde a longo prazo. O TOI (terapia de Obesidade Infantil), busca trabalhar nesse sentido a fim de reduzir o índice de obesidade infantil entre as crianças do programa, através de mudanças nos hábitos alimentares e adoção de um estilo de vida fisicamente mais ativo são ferramentas utilizadas. Pesquisas que avaliaram a associação da SM com os níveis de atividade física observaram que a atividade física esta inversamente associada ao risco metabólico em adultos e crianças, representado pela obtenção da menor porcentagem de desenvolvimento de resistência insulina, representado em nossa pesquisa, 67,1%, o índice que o sedentarismo é outro fator que aumenta a chance de seu desenvolvimento.

Em resumo, nossos resultados demonstram que a prevalência de SM entre crianças e adolescentes e preocupante, principalmente nos indivíduos que apresentam excesso de peso. Novos estudos devem ser conduzidos para elevar o conhecimento sobre as características associadas ao desenvolvimento da SM em crianças e adolescentes, para que, num futuro próximo, estratégias de prevenção possam ser desenvolvidas com foco no controle do peso já no inicio da vida.

CONCLUSÕES

A partir deste estudo concluímos que a Síndrome metabólica é altamente expressiva quando associada à obesidade infantil e demais critérios nas crianças do programa T.O.I. Contudo estes pacientes não apresentaram um perfil demográfico específico sugestivo de pré disposição para SM, pois a porcentagem de diferença entre os perfis é um número insignificante à ser considerado.

Quanto ao uso contínuo de medicamentos pelos pacientes analisados, pudemos notar uma significante predominância da Metformina, Lipiblock ®, Fluoxetina e Sibutramina, os quais justificam-se como forma de controlar as causas e as conseqüênciasda Síndrome, como a Diabetes Mellitus tipo 2 que apresentou extrema incidência na população estudada demonstrando íntima correlação entre a SM, Diabetes e o consequente aumento do risco cardiovascular crônico e irreversível.

A mudança do padrão de vida da sociedade moderna culminou em um aumento da ingesta calórica somada ao sedentarismo, que justificam a crescente epidemia da obesidade, que aumentou vertiginosamente nas últimas décadas. Tal fato, aliado aos resultados obtidos ao longo deste estudo expõe a necessidade de vigilância da obesidade infantil como modo de prevenção da Síndrome Metabólica e suas complicações sistêmicas, melhorando a qualidade e expectativa de vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. ABRANTES, M. M., LAMOUNIER, J. A., & COLOSIMO, E. A. (2003). Prevalência de sobrepeso e obesidade nas regiões Centro-oeste e Sudeste do Brasil. Revista da Associação Médica Brasileira,São Paulo; V57; N 1; pp. 162-166 – 2011
  1. BARBOSA, P.J.B. et al. Critério de obesidade central em população brasileira: impacto sobre a síndrome metabólica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Salvador, v. 87, n. 4, p. 407-414, – 2006.
  1. BERTOLAMI, M. C. Alterações no metabolismo lipídico no paciente com síndrome metabólica. Revista da Sociedade de Cardiologia, São Paulo, v. 14, n. 4, p. 551- 556, – 2004.
  1. BUFF, C.G. et al. Freqüência de síndrome metabólica em crianças e adolescentescom sobrepeso e obesidade. Revista Paulista de Pediatria, São Paulo, v. 25, n. 3,p. 221-226, – 2007.
  1. BRAMBILLA, P. ET AL. Metabolic risk-factor clustering estimation in children: to draw a line across pediatric metabolic syndrome. International Journal of Obesity, v. 31, n. 4, p. 591-600, 2007
  1. F, D,. SANTOS, D, S,. REZENDE, E, T,. PEDERCINI, G, B,. Critérios para definição diagnósticada síndrome metabólica em crianças e adolescentes. RevMed Minas Gerais. Vespasiano – MG; 20(3): 335-340 – 2010
  1. CHEN, W.; BERENSON, G.S. Metabolic syndrome: definition and prevalence in children. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 83, n. 1, p. 1-3, 2007.
  1. COOK, S. et al. Dietz WH. Prevalence of a metabolic syndrome phenotype in adolescents. Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, 157, p. 821-827, 2003.
  1. CORONELLI C .L. S, MOURA E. C. Hipercolesterolemia em escolares e seus fatores de risco. RevSaude Pub. 2003;37(1):24-31.
  1. DESPRES, J. P., LEMIEUX. I,.Abdominal obesity and metabolic syndrome. Nature. 2006;444(7121):881-7.
  1. FERRANTI, S.D. et al. Prevalence of the metabolic syndrome in americanadolescents. Circulation, 110, n. 16, p. 2494-2497, 2004.
  1. FERREIRA, A.P.; NÓBREGA, O.T.; FRANÇA, N.M. Associação do índice de massa corporal e da resistência à insulina com síndrome metabólica em crianças brasileiras. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 93, n. 2, p. 147-153, 2009.
  1. FERREIRA, A.P.; OLIVEIRA, C.E.R.; FRANÇA, N.M. Síndrome metabólica em crianças obesas e fatores de risco para doenças cardiovasculares de acordo com a resistência à insulina (HOMA-IR). Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v. 83, n. 1, p.21-26, 2007.
  1. INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION – IDF. The IDF consensus worldwide definition of the metabolic syndrome. IDF, 2006, 16 p.
  1. KUMAR, V.; ET. AL. Robbins e Cotran patologia: bases patológicas das doenças; 8. Ed, Rio de Janeiro: Elsevier; p85-86 e 121-122; 2010.
  1. LEMOS, M, et al. (2007). Obesidade na infância e adolescência: critérios de diagnóstico clínico e laboratorial, Revista de Pediatria, 8(1), pp. 8-16.
  1. LOPES, S. J. M. Prevalencia da síndrome metabólica no Brasil: Um estudo de revisão. Maringá 2009.
  1. MANNA, T.D.; DAMIANI, D.; SETIAN, N. Síndrome metabólica: revisão. Pediatria, São Paulo, v. 28, n. 4, p. 272-277, 2006.
  1. MARQUEZINE, G.F. et al. Metabolic syndrome determinants in a urban population from Brazil: social class and gender-specific interaction. International Journal of Cardiology, 129, p. 259-265, 2008.
  1. MATOS, L.N. et al. Perfil clínico, metabólico e antropométrico de indivíduos obesos em hospital terciário da cidade de São Paulo. RevBrasClin Med. São Paulo, 2011 mai-jun;9(3):179-84
  1. MENDES M.J.F.L; et al. Associação de fatores de risco para doenças cardiovasculares em adolescentes e seus pais. RevBrasSaudeMat Inf. 2006;6(supl.1):49-54.
  1. MENDONÇA, S. J., ANJOS, L. A. Aspectos das práticas alimentares e da atividade física como determinantes do crescimento do sobrepeso/obesidade no Brasil. CadSaude Pub. 2004;20(3):698-709.
  1. NETO, G.B. et al. Avaliação laboratorial e diagnostico da resistência insulínica. Atheros. São Paulo – SP, 2002; 13 (2): 42-49
  1. OMS, Organização Mundial da Saúde. WHO consultation: Definition, diagnosis andclassification of diabetes mellitus and complications. WHO/NCD/NCS, v. 2, p. 31-33,1999.
  1. SANTIAGO, L. M., SÁ, O., DE CARVALHO, I. M., PALMEIRO, M. G. R. L., MESQUITA, E. P. Hipercolesterolemia e Factores de Risco Cardiovascular Associados, em Crianças e Adolescentes. RevPortCardiol 2002;21 (3):301-313
  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 84,suplemento I, 2005.
  1. STRUFALDI MW, SILVA EM, PUCCINI RF. Metabolic syndrome amongprepubertal Brazilian schoolchildren. Diabetes Vasc Dis Res 2008; 5:291-7
  1. TURNER R, et al. Insulin deficiency and insulin resistance interaction in diabetes: estimation of their relative contribution by feedback analysis from basal plasma insulin and glucose concentration in man. Metabolism, 1979; 28: 1086.96.
  1. CERIELLO A, MOTZ E. Is oxdativestress the patogenic mechanism underlying insulin resistance, diabetes, and cardiovascular disease? The common soilhypothesisrevised. ArteriosclerThrombVasc Biol. 2004; 24(5):816-23.
  2. Portal do IBGE na Internet em – ibge.gov.br

[1] Medicina pela universidade UNIDERP, atua como médico generalista

[2] Medicina pela universidade UNIDERP, atua como médico generalista

[3] Medicina pela universidade UNIDERP, atua como médico generalista.

[4] Medicina pela universidade UNIDERP, atua como médico generalista.

[5] Medicina pela universidade UNIDERP, atua como médico generalista.

[6] Medicina e oftalmologia, atua como oftalmologista.

[7] Medicina, clínica média e endocrinologia pediátrica, atua como endocrinologista pediátrica.

5/5 - (3 votes)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

DOWNLOAD PDF
RC: 13155
POXA QUE TRISTE!😥

Este Artigo ainda não possui registro DOI, sem ele não podemos calcular as Citações!

Solicitar Registro DOI
Pesquisar por categoria…
Este anúncio ajuda a manter a Educação gratuita
WeCreativez WhatsApp Support
Temos uma equipe de suporte avançado. Entre em contato conosco!
👋 Olá, Precisa de ajuda para enviar um Artigo Científico?