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Tratamento conservador versus apendicectomia na apendicite aguda não complicada

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CONTEÚDO

REVISÃO BIBLIOMÉTRICA

CARRIJO, João Marcos [1] 

CARRIJO, João Marcos. Tratamento conservador versus apendicectomia na apendicite aguda não complicada. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 10, Vol. 01, pp. 19-34. Outubro de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/medicina/tratamento-conservador

RESUMO

A apendicite aguda não complicada representa uma das principais emergências cirúrgicas abdominais, sendo tradicionalmente tratada por meio da apendicectomia. Entretanto, avanços recentes na compreensão da fisiopatologia da doença e o desenvolvimento de novos estudos clínicos possibilitaram a investigação do tratamento conservador com antibioticoterapia como alternativa terapêutica em pacientes adultos selecionados. O presente estudo teve como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura, elaborada conforme as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), comparando o tratamento conservador com antibioticoterapia e a apendicectomia em pacientes adultos com apendicite aguda não complicada, analisando desfechos relacionados à eficácia terapêutica, recorrência, complicações, necessidade de cirurgia subsequente, tempo de internação hospitalar e implicações para a prática clínica. A busca bibliográfica foi realizada na base PubMed/MEDLINE, considerando estudos publicados entre 2015 e 2026. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, sete estudos foram incluídos na síntese qualitativa, contemplando ensaios clínicos randomizados, seguimentos de longo prazo, diretriz internacional e metanálise de dados individuais. Os resultados demonstraram que a antibioticoterapia apresentou eficácia significativa, permitindo que parcela expressiva dos pacientes evitasse a cirurgia, embora estivesse associada ao risco de recorrência e necessidade de apendicectomia subsequente, especialmente em indivíduos com apendicolito. Concluiu-se que o tratamento conservador constitui uma alternativa segura para pacientes cuidadosamente selecionados, enquanto a apendicectomia permanece como tratamento definitivo, devendo a escolha terapêutica ser individualizada e baseada em evidências clínicas.

Palavras-chave: Apendicite aguda, Antibioticoterapia, Apendicectomia, Tratamento conservador, Revisão sistemática.

1. INTRODUÇÃO

A apendicite aguda constitui uma das emergências cirúrgicas abdominais mais frequentes em todo o mundo, apresentando risco cumulativo ao longo da vida estimado entre 7% e 8% da população. Nos Estados Unidos, permanece como a emergência cirúrgica abdominal mais comum, representando importante demanda nos serviços de cirurgia geral (Bhangu et al., 2015; Huston et al., 2017).

Durante mais de um século, a apendicectomia consolidou-se como o tratamento padrão para a apendicite aguda, fundamentada na prevenção da progressão para perfuração, abscesso intra-abdominal, peritonite difusa e sepse. A incorporação da abordagem laparoscópica proporcionou redução da dor pós-operatória, menor incidência de infecção da ferida operatória, recuperação funcional mais rápida e menor tempo de permanência hospitalar quando comparada à cirurgia aberta, reforçando sua ampla aceitação como tratamento definitivo (Bhangu et al., 2015).

Entretanto, nas últimas duas décadas, a compreensão da história natural da doença sofreu importante transformação. Evidências clínicas e experimentais sugerem que a apendicite aguda não representa uma condição uniforme, mas sim um espectro de apresentações clínicas, no qual parte dos casos classificados como não complicados pode evoluir favoravelmente apenas com antibioticoterapia, sem necessidade de intervenção cirúrgica imediata (Bhangu et al., 2015).

Esse novo paradigma impulsionou a realização de diversos ensaios clínicos randomizados. Entre eles, destaca-se o estudo APPAC, conduzido por Salminen et al. (2015), que demonstrou elevada taxa de sucesso inicial do tratamento conservador em pacientes criteriosamente selecionados, embora uma parcela tenha necessitado de apendicectomia durante o seguimento. Posteriormente, o estudo multicêntrico CODA Trial, publicado por Flum et al. (2020), confirmou que a antibioticoterapia pode constituir alternativa terapêutica viável para determinados pacientes, reforçando a necessidade de individualização da conduta clínica.

Apesar do crescimento exponencial da produção científica sobre o tema, permanecem controvérsias relacionadas às taxas de recorrência, falha terapêutica, necessidade de cirurgia tardia, complicações, qualidade de vida, custos assistenciais e seleção ideal dos pacientes candidatos ao tratamento conservador. Além disso, diferenças metodológicas entre os estudos, incluindo critérios diagnósticos, protocolos de antibioticoterapia, tempo de seguimento e definição dos desfechos, dificultam a comparação direta dos resultados e limitam a elaboração de recomendações universalmente aceitas.

A escolha entre tratamento conservador e apendicectomia envolve análise integrada de desfechos clínicos, recorrência, complicações, qualidade de vida, custos assistenciais, tempo de recuperação, preferências do paciente e disponibilidade de recursos institucionais. Dessa forma, a síntese crítica das evidências disponíveis torna-se fundamental para subsidiar a tomada de decisão baseada em evidências e orientar a prática clínica contemporânea na cirurgia geral.

Assim, o presente estudo tem como objetivo geral realizar uma revisão sistemática da literatura, elaborada conforme as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), comparando o tratamento conservador com antibioticoterapia e a apendicectomia em pacientes adultos com apendicite aguda não complicada, analisando desfechos relacionados à eficácia terapêutica, recorrência, complicações, necessidade de cirurgia subsequente, tempo de internação hospitalar e implicações para a prática clínica.

2. METODOLOGIA

O presente estudo consistiu em uma revisão sistemática da literatura, conduzida conforme as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020), com o objetivo de sintetizar as evidências científicas acerca da eficácia e segurança do tratamento conservador com antibioticoterapia em comparação à apendicectomia em pacientes adultos com apendicite aguda não complicada (Page et al., 2021).

A busca bibliográfica foi realizada na base de dados PubMed/MEDLINE, por reunir as principais publicações internacionais da área médica. Foram considerados estudos publicados entre janeiro de 2015 e junho de 2026, período que contempla os principais ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas, metanálises e diretrizes internacionais relacionadas ao tema.

A estratégia de busca utilizou descritores do Medical Subject Headings (MeSH) e termos livres, combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Os principais termos empregados foram: appendicitis, acute appendicitis, uncomplicated appendicitis, appendectomy, appendicectomy, antibiotic therapy e conservative treatment. Foram incluídos estudos publicados em inglês, português ou espanhol que avaliaram pacientes adultos (≥18 anos) com diagnóstico de apendicite aguda não complicada, comparando diretamente o tratamento conservador baseado em antibioticoterapia com a apendicectomia.

Foram considerados elegíveis ensaios clínicos randomizados, estudos de seguimento, revisões sistemáticas, metanálises e diretrizes clínicas que apresentassem resultados relacionados ao sucesso terapêutico, recorrência, necessidade de cirurgia subsequente, complicações, tempo de internação, qualidade de vida ou custos assistenciais. Foram excluídos estudos envolvendo pacientes pediátricos, gestantes, indivíduos com apendicite complicada, relatos de caso, séries de casos, revisões narrativas, cartas ao editor e publicações sem acesso ao texto completo.

Por se tratar de uma revisão sistemática baseada exclusivamente em dados secundários disponíveis na literatura científica, esta pesquisa não envolveu participação direta de seres humanos, dispensando apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde.

3. RESULTADOS

Foram priorizados estudos de maior nível de evidência científica, incluindo ensaios clínicos randomizados, metanálises e diretrizes internacionais, que compararam diretamente o tratamento conservador com antibioticoterapia à apendicectomia em pacientes adultos com apendicite aguda não complicada. Foram excluídos estudos retrospectivos, séries de casos, relatos de caso, revisões narrativas e publicações que não apresentassem comparação direta entre as estratégias terapêuticas.

Considerando a disponibilidade de evidências de alto nível sobre o tema, optou-se por priorizar estudos com maior robustez metodológica e maior impacto na literatura, capazes de responder de forma consistente ao objetivo desta revisão. Dessa forma, foram incluídos os principais ensaios clínicos randomizados, estudos de seguimento, uma metanálise com dados individuais de pacientes e a diretriz internacional mais recente relacionada ao manejo da apendicite aguda.

Após a definição da estratégia de busca, os estudos recuperados foram submetidos às etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, conforme as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020) (Page et al., 2021).

Inicialmente, foram identificados 72 registros na base de dados PubMed/MEDLINE. Após a remoção de oito registros duplicados, permaneceram 64 estudos para a etapa de triagem, realizada por meio da leitura dos títulos e resumos. Nessa fase, foram excluídos 50 artigos por não atenderem aos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. Os 14 artigos remanescentes foram submetidos à leitura na íntegra. Após avaliação metodológica, sete estudos foram excluídos por apresentarem desenho incompatível, ausência dos desfechos de interesse ou qualidade metodológica insuficiente, resultando em sete estudos incluídos na síntese qualitativa.

Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão sistemática (PRISMA 2020)

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Page et al. (2021).

Tabela 1 – Características dos estudos incluídos na revisão sistemática

Estudo Delineamento Amostra Intervenção Principais resultados
Bhangu et al. (2015) Revisão narrativa Não se aplica Revisão sobre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da apendicite aguda Evidenciou que a apendicite aguda compreende diferentes apresentações clínicas, sugerindo que parte dos casos não complicados pode responder ao tratamento conservador com antibióticos. Ressaltou que a avaliação clínica permanece fundamental para o diagnóstico e destacou a necessidade de individualização do tratamento.
Salminen et al. (2015) – APPAC Trial Ensaio clínico multicêntrico, randomizado, aberto e de não inferioridade 530 pacientes (273 cirurgia; 257 antibioticoterapia) Antibioticoterapia versus apendicectomia A apendicectomia apresentou taxa de sucesso de 99,6%. No grupo tratado com antibióticos, 72,7% dos pacientes não necessitaram de cirurgia durante o primeiro ano, embora a não inferioridade em relação à cirurgia não tenha sido demonstrada. Não foram observadas complicações graves relacionadas à apendicectomia tardia.
Salminen et al. (2018) Seguimento observacional de cinco anos do ensaio APPAC 530 pacientes Seguimento do tratamento cirúrgico e conservador A incidência cumulativa de recorrência foi de 39,1% em cinco anos. Apesar disso, a maioria dos pacientes inicialmente tratados com antibióticos evitou a cirurgia, apresentando menor taxa global de complicações e menor tempo de afastamento do trabalho em comparação com a apendicectomia.
Di Saverio et al. (2020) Diretriz clínica baseada em consenso (WSES) Não se aplica Atualização das recomendações para diagnóstico e tratamento da apendicite aguda As diretrizes recomendaram que a antibioticoterapia pode ser considerada alternativa segura em pacientes cuidadosamente selecionados com apendicite aguda não complicada, enfatizando a tomada de decisão compartilhada e a utilização de evidências baseadas na metodologia GRADE.
Flum et al. (2020) – CODA Trial Ensaio clínico pragmático, randomizado, aberto e de não inferioridade 1.552 pacientes (776 antibioticoterapia; 776 apendicectomia) Antibioticoterapia versus apendicectomia A antibioticoterapia mostrou-se não inferior à apendicectomia quanto ao estado de saúde em 30 dias. Entretanto, 29% dos pacientes tratados com antibióticos foram submetidos à apendicectomia em até 90 dias. Pacientes com apendicolito apresentaram maior risco de complicações e necessidade de cirurgia.
Sippola et al. (2021) – APPAC II Ensaio clínico multicêntrico, randomizado, aberto e de não inferioridade 599 pacientes Moxifloxacina oral versus ertapenem intravenoso seguido de levofloxacina e metronidazol Ambos os esquemas antibióticos apresentaram taxas de sucesso superiores a 65% após um ano de acompanhamento. Contudo, a monoterapia oral não demonstrou não inferioridade em relação ao esquema intravenoso seguido de antibioticoterapia oral.
Scheijmans et al. (2025) Metanálise de dados individuais de pacientes 2.101 pacientes provenientes de 6 ensaios clínicos randomizados Antibioticoterapia versus apendicectomia A antibioticoterapia foi considerada alternativa segura para adultos com apendicite aguda confirmada por imagem, permitindo que aproximadamente dois terços dos pacientes evitassem a cirurgia no primeiro ano. Entretanto, pacientes com apendicolito apresentaram maior risco de complicações e maior necessidade de apendicectomia durante o seguimento.

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Bhangu et al. (2015), Salminen et al. (2015, 2018), Di Saverio et al. (2020), Flum et al. (2020), Sippola et al. (2021) e Scheijmans et al. (2025).

4. DISCUSSÃO

A presente revisão sistemática analisou as evidências disponíveis acerca da comparação entre o tratamento conservador com antibioticoterapia e a apendicectomia em pacientes adultos com apendicite aguda não complicada, considerando desfechos relacionados à eficácia terapêutica, recorrência, complicações, necessidade de cirurgia subsequente, recuperação funcional e implicações para a prática clínica. Os estudos incluídos demonstram que ocorreu uma importante mudança na compreensão contemporânea da doença, deixando de considerar a apendicite aguda como uma condição necessariamente progressiva e obrigatoriamente cirúrgica para reconhecê-la como uma enfermidade heterogênea, composta por diferentes padrões evolutivos.

Historicamente, a apendicectomia consolidou-se como tratamento padrão devido à possibilidade de progressão da inflamação para perfuração, peritonite e sepse. Entretanto, os avanços no diagnóstico por imagem e o maior entendimento da fisiopatologia da doença permitiram identificar que uma parcela dos pacientes apresenta formas não complicadas, com comportamento clínico distinto das apresentações perfuradas ou gangrenosas. Nesse contexto, os achados de Bhangu et al. (2015) foram fundamentais para estabelecer a compreensão de que a apendicite aguda representa um espectro de doenças, no qual determinados pacientes podem apresentar resolução clínica sem necessidade de intervenção cirúrgica imediata.

Essa mudança conceitual foi acompanhada pelo desenvolvimento de ensaios clínicos randomizados que passaram a questionar a necessidade da cirurgia universal para todos os pacientes. Os resultados do estudo APPAC, conduzido por Salminen et al. (2015), demonstraram que uma parcela expressiva dos pacientes tratados com antibióticos permaneceu sem necessidade de apendicectomia durante o acompanhamento inicial. Embora o estudo não tenha confirmado a não inferioridade da antibioticoterapia em relação à cirurgia segundo o critério estatístico previamente estabelecido, seus resultados foram fundamentais ao demonstrar que o tratamento conservador poderia ser uma estratégia segura em pacientes selecionados.

A interpretação desses achados evidencia que a comparação entre antibioticoterapia e apendicectomia não deve ser limitada à avaliação de qual método apresenta maior capacidade de eliminar imediatamente o processo inflamatório. A cirurgia possui como principal vantagem a resolução definitiva da doença, reduzindo praticamente a possibilidade de recorrência, enquanto a antibioticoterapia apresenta como benefício a possibilidade de evitar um procedimento invasivo em pacientes que poderiam evoluir satisfatoriamente sem intervenção cirúrgica. Dessa forma, os resultados sugerem que a escolha terapêutica deve considerar diferentes dimensões clínicas, incluindo riscos, benefícios, preferências individuais e possibilidade de acompanhamento adequado.

O seguimento de cinco anos do estudo APPAC, apresentado por Salminen et al. (2018), acrescentou informações relevantes para essa discussão ao demonstrar que a principal limitação do tratamento conservador está relacionada à recorrência da apendicite. A ocorrência cumulativa de recorrência ao longo do período analisado evidencia que a antibioticoterapia não representa uma cura definitiva em todos os pacientes. Entretanto, o fato de a maioria dos indivíduos inicialmente tratados com antibióticos permanecer sem necessidade de cirurgia demonstra que a recorrência, embora clinicamente relevante, não invalida a estratégia conservadora como alternativa terapêutica.

A análise dos resultados do estudo CODA ampliou ainda mais essa discussão ao incorporar uma amostra maior e avaliar desfechos relacionados à qualidade de vida. Flum et al. (2020) demonstraram que a antibioticoterapia apresentou resultados semelhantes à apendicectomia quanto ao estado de saúde avaliado em 30 dias, indicando que a recuperação percebida pelo paciente pode ser comparável entre as duas estratégias. Esse achado é particularmente importante porque modifica o foco tradicional da avaliação terapêutica, anteriormente concentrado apenas no controle da doença, incorporando também aspectos relacionados à experiência do paciente e ao impacto do tratamento em sua vida cotidiana.

Entretanto, os resultados do CODA também reforçam a necessidade de critérios rigorosos para indicação do tratamento conservador. A presença de apendicolito destacou-se como um dos principais fatores associados à pior evolução entre os pacientes tratados com antibióticos, apresentando maior necessidade de apendicectomia e maior frequência de complicações. Esse resultado foi posteriormente confirmado pela metanálise de Scheijmans et al. (2025), que identificou maior risco de complicações entre pacientes com apendicolito submetidos inicialmente à antibioticoterapia. Assim, a identificação de características clínicas e radiológicas associadas ao maior risco de falha terapêutica representa um dos principais avanços proporcionados pelas pesquisas recentes.

A metanálise de dados individuais conduzida por Scheijmans et al. (2025) fortalece a interpretação de que o tratamento conservador não deve ser entendido como substituto universal da apendicectomia, mas como uma alternativa terapêutica aplicável a determinados grupos de pacientes. Ao reunir dados de diferentes ensaios clínicos randomizados e padronizar a avaliação dos desfechos, o estudo proporcionou maior robustez às evidências disponíveis, demonstrando que aproximadamente dois terços dos pacientes tratados com antibióticos evitaram a cirurgia durante o primeiro ano de acompanhamento.

Apesar dos avanços apresentados, algumas limitações devem ser consideradas. Primeiramente, os estudos incluídos apresentam diferenças metodológicas relacionadas aos protocolos de antibioticoterapia, critérios de inclusão, períodos de acompanhamento e definição dos desfechos avaliados. Essas diferenças podem influenciar a comparação direta entre os resultados. Além disso, os ensaios clínicos analisados apresentaram ausência de cegamento, característica esperada em estudos que comparam procedimentos cirúrgicos e tratamentos medicamentosos, mas que pode introduzir influência na percepção dos resultados.

Outro aspecto limitante refere-se à seleção dos pacientes. A maior parte dos estudos concentrou-se em adultos com apendicite aguda não complicada confirmada por exames de imagem, o que restringe a generalização dos resultados para outras populações, como pacientes pediátricos, idosos, gestantes ou indivíduos com condições clínicas específicas. Portanto, embora as evidências atuais sustentem a utilização da antibioticoterapia em determinados pacientes, ainda são necessários estudos direcionados a grupos específicos para ampliar a compreensão sobre segurança e eficácia nessas populações.

Além disso, permanece uma importante discussão relacionada aos efeitos em longo prazo do tratamento conservador. Embora o seguimento de cinco anos do APPAC tenha fornecido informações relevantes sobre recorrência, ainda existem questões relacionadas ao impacto econômico, à qualidade de vida prolongada, aos custos associados a eventuais episódios recorrentes e à definição dos melhores protocolos antibióticos. Estudos futuros com períodos de acompanhamento mais extensos poderão contribuir para estabelecer critérios ainda mais precisos de seleção dos pacientes candidatos ao tratamento não operatório.

As diretrizes da WSES elaboradas por Di Saverio et al. (2020) refletem essa evolução do conhecimento científico ao reconhecerem a antibioticoterapia como uma possibilidade terapêutica para pacientes selecionados com apendicite aguda não complicada. Entretanto, as recomendações reforçam que a decisão deve ser individualizada e baseada em evidências clínicas, exames complementares e decisão compartilhada. Essa abordagem representa uma mudança importante na prática cirúrgica, na qual o objetivo deixa de ser apenas eliminar a doença por meio de procedimento invasivo e passa a considerar a melhor estratégia terapêutica para cada paciente.

Dessa forma, os dados analisados indicam que a antibioticoterapia constitui uma alternativa segura e eficaz para parte dos adultos com apendicite aguda não complicada, especialmente quando há adequada seleção dos pacientes e ausência de fatores associados à maior probabilidade de falha, como o apendicolito. Entretanto, a apendicectomia permanece como tratamento definitivo e continua apresentando papel fundamental, principalmente nos pacientes que apresentam maior risco de complicações, recorrência ou ausência de resposta ao tratamento conservador.

5. CONCLUSÃO

A presente revisão sistemática permitiu analisar as evidências científicas disponíveis sobre a comparação entre o tratamento conservador com antibioticoterapia e a apendicectomia em pacientes adultos com apendicite aguda não complicada. A análise dos estudos selecionados demonstrou que a antibioticoterapia representa uma alternativa terapêutica segura e eficaz para pacientes criteriosamente selecionados, possibilitando evitar a intervenção cirúrgica em parcela significativa dos casos, sem comprometimento dos principais desfechos clínicos avaliados.

Os achados evidenciaram que a apendicectomia permanece como tratamento definitivo, apresentando elevada taxa de resolução do quadro e menor risco de recorrência. Entretanto, os estudos mais recentes demonstram que a cirurgia imediata não necessariamente precisa ser aplicada a todos os pacientes com apendicite aguda não complicada, uma vez que o tratamento conservador apresentou resultados favoráveis relacionados à recuperação clínica, qualidade de vida, menor afastamento das atividades habituais e redução da exposição aos riscos associados ao procedimento cirúrgico.

Apesar dos resultados positivos, a antibioticoterapia apresenta limitações, principalmente relacionadas à possibilidade de recorrência da apendicite e à necessidade de apendicectomia subsequente em parte dos pacientes. A presença de apendicolito destacou-se como um importante fator associado à maior probabilidade de falha terapêutica e ocorrência de complicações, reforçando a necessidade de adequada seleção dos candidatos ao tratamento não operatório. 

Dessa forma, as evidências analisadas indicam que não existe uma única estratégia terapêutica ideal para todos os pacientes com apendicite aguda não complicada. A escolha entre antibioticoterapia e apendicectomia deve ser individualizada, considerando características clínicas, achados de imagem, riscos associados, possibilidade de acompanhamento adequado e preferências do paciente.

Conclui-se que o tratamento conservador com antibioticoterapia constitui uma alternativa válida à apendicectomia em pacientes adultos selecionados com apendicite aguda não complicada, enquanto a abordagem cirúrgica permanece como opção definitiva, especialmente nos casos com maior risco de evolução desfavorável. Assim, a prática clínica contemporânea deve priorizar uma tomada de decisão compartilhada e baseada em evidências, integrando segurança terapêutica, prognóstico e qualidade de vida dos pacientes.

REFERÊNCIAS

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FLUM, D. R. et al. A randomized trial comparing antibiotics with appendectomy for appendicitis. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 383, n. 20, p. 1907-1919, 2020. DOI: 10.1056/NEJMoa2014320. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2014320. Acesso em: 20 jun. 2026.

HUSTON, J. M. et al. Antibiotics vs. Appendectomy for Acute Uncomplicated Appendicitis in Adults: Review of the Evidence and Future Directions. Surgical Infections, New Rochelle, v. 18, n. 5, p. 527-534, 2017. DOI: 10.1089/sur.2017.073. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1089/sur.2017.073. Acesso em: 20 jun. 2026.

PAGE, M. J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, London, v. 372, n. 71, p. 1-9, 2021. DOI: 10.1136/bmj.n71. Disponível em: https://www.bmj.com/content/372/bmj.n71. Acesso em: 20 jun. 2026.

SALMINEN, P. et al. Antibiotic therapy vs appendectomy for treatment of uncomplicated acute appendicitis: the APPAC randomized clinical trial. JAMA, Chicago, v. 313, n. 23, p. 2340-2348, 2015. DOI: 10.1001/jama.2015.6154. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26080338/. Acesso em: 20 jun. 2026.

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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES 

[1] Bacharel em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO); Residência Médica em Cirurgia Geral em andamento pelo Hospital Centro Norte Goiano (HCN), com previsão de conclusão em março de 2027. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4715-7147.

Contribuição dos autores:

João Marcos Carrijo: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse: 

N/A.

Agradecimentos:

N/A.

Financiamento:

N/A.

Nota de presença de IA:

N/A.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

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  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 27 de julho de 2026.

Material aprovado pelos pares: 07 de agosto de 2026.

Material editado aprovado pelos autores: 06 de outubro de 2026.

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João Marcos Carrijo

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