ARTIGO DE REVISÃO
PAVAN, Juliana Maria [1], SOARES, Gislene Lacerda [2], TONIZA, Fernanda Loureiro [3]
PAVAN, Juliana Maria. SOARES, Gislene Lacerda. TONIZA, Fernanda Loureiro. Uma abordagem triangular no ensino da arte na educação infantil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 04, Vol. 02, pp. 60-75. Abril de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/abordagem-triangular, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/abordagem-triangular
O objetivo deste estudo é abordar a Educação Infantil, mencionando a proposta pedagógica para esse período, destacando as particularidades dessa faixa etária, visando atender as condições necessária para o aprendizado, trazendo ludicidade, interações, trocas e socialização, fazendo com que os objetivos traçados tenham mais chances de serem alcançados. Nessa linha de raciocínio, o presente estudo aborda uma linha bastante interessante de trabalho através da arte, que vem a ser a Abordagem Triangular, mostrando que a arte tem conteúdo, e é preciso valorizar a arte e toda sua contribuição em sala de aula, desmistificando o conceito de belo, mas valorizando a construção do estudante fazendo-o construir seus próprios conhecimentos como principal autor da sua obra. Tudo o que é feito pela criança, tem um significado especial. É preciso valorizar, fazê-la apreciar todas as representações artísticas, respeitando suas diversidades. A pesquisa conta com contribuições significativas de autores que corroboram com a temática, como por exemplo, Vigotsky (2007) e Relvas (2012) falando sobre esse universo da mente humana, ajudando a compreender o processo de aprendizagem. Depois, com Almeida (2013) e Arantes e Aquino (2010) interligando esse processo à afetividade, tão significativa nesse processo, principalmente na Educação Infantil, quando a criança demonstra mais fragilidade e precisa se sentir segura nesse novo espaço e, então, Barbosa e Cunha (2010), falando da teoria em questão, embasando a pesquisa. Assim, será possível observar como a arte contribui para o desenvolvimento das habilidades na Educação Infantil, agregando conhecimento e valores tão importantes nessa fase inicial de estudos da criança. Uma proposta atrativa, que apresenta amplas possibilidades de trabalho, contribuindo na formação acadêmica e social do aluno.
Palavras-chave: Educação Infantil, Ensino da Arte, Abordagem Triangular.
Pensar no universo da Educação Infantil é pensar num universo lúdico, alegre, que precisa ter movimento, dinâmica, trocas, cores, atrativos e, junto a isso, um ambiente acolhedor, que inspire segurança. Isso porque as crianças que ali estão possuem características que inspiram esse olhar mais atento no que tange a proposta de trabalho desse período. Deve-se levar em conta, que algumas crianças são ativas e tem limitações de concentração, precisando de um certo dinamismo, além de uma rotina que passe segurança para ela, já que é um ambiente novo, com pessoas que não faziam, até o momento, parte da rotina delas.
Nessa fase, a criança precisa desenvolver suas habilidades motoras, sua oralidade, sua socialização, além de adquirir novos conhecimentos pertinentes à faixa etária. Aliando essas características às necessidades desse coletivo, uma forma de se trabalhar inovando, instigando a curiosidade e a criatividade dos estudantes, seria fazer da arte uma rotina ao se pensar no desenvolvimento das atividades. A arte abre uma gama de possibilidades, perpassando por vários caminhos que levarão a novas descobertas, a novas experiências que certamente contribuirão na formação acadêmica e social da criança.
É importante pensar na arte como uma possibilidade de diálogo, construindo, experimentando, fazendo releituras, enfim, sendo o autor principal das suas produções, ainda que mediado pelo docente, aprendendo assim, com esse novo olhar, a respeitar a diversidade, sem padrões para julgamentos, mas servindo antes de mais nada como inspiração que levará pra vida, ampliando também seus conhecimentos culturais.
Corroborando com essas ideias, esse estudo tem como suporte teórico autores como Vigotsky (2007) e Relvas (2012) e (2014) que trazem discussões sobre o desenvolvimento humano, Almeida (2013) e Arantes e Aquino (2010) mostrando a importância da afetividade no processo de aprendizagem, e que a arte também é capaz de despertar essa ligação nos estudantes, e Barbosa e Cunha (2010), dissertando sobre a Abordagem Triangular.
Como metodologia aplicada, esse estudo contou com uma pesquisa bibliográfica a fim de esclarecer sobre o modo pelo qual a arte se desenvolve em sala de aula, numa visão da teoria para atuar na construção social, cultural e de aprendizagem do indivíduo, explorando esse rico universo da Educação Infantil.
Este estudo será dividido em dois capítulos, nos quais serão discutidas questões relevantes sobre as particularidades do processo de construção do conhecimento nesse período, com a arte como referência e fonte de inspiração.
O primeiro capítulo traz questões específicas da Educação Infantil e suas peculiaridades, mostrando as necessidades dos estudantes e as possibilidades de realizar um trabalho significativo em sala através da arte.
O segundo capítulo destina-se ao estudo da Abordagem Triangular de Ana Mae Barbosa, mostrando à importância da criança experimentar, criar, explorando suas possibilidades e ampliando seus horizontes, tendo a arte como motivação.
A intenção desse estudo é ampliar as possibilidades de trabalho em sala de aula, tendo a arte como locus da pesquisa na Educação Infantil, considerando os objetivos a serem alcançados e todas as características desse grupamento tão importante na vida da criança.
O ser humano, como ser social que é, antes mesmo de chegar à escola, já começa a ter contato com diversas possibilidades facilitadoras do processo de ensino-aprendizado, em função das interações que estabelece com os diferentes contextos nos quais se constitui como sujeito, por exemplo, em interação com familiares onde participa de momentos de contação de história, brincadeiras, jogos e outras ações. Além do contato com a família, algumas crianças estabelecem relações em outros espaços sociais, tais como no grupo religioso, grupo de convivência entre a vizinhança, que começam a oportunizar o contato entre as crianças em pracinhas, festas de aniversário, até que chegam à escola, ampliando ainda mais esse convívio social.
Na educação infantil, a presença da mediação pedagógica desempenha um papel crucial, uma vez que as crianças podem progredir significativamente em seu aprendizado através da orientação ativa do professor atuando como mediador. Ressaltamos as trocas de informações, experiências e conhecimentos, que desde cedo, começam a se constituírem, uma vez que pela interação formamos e somos formados, construímos e descontruímos conceitos, valores, regras, enfim, tudo o que nos consolida como cidadãos que somos. É então, de suma importância, considerar a aprendizagem através da afetividade e das interações na educação de crianças pequenas, promovendo uma base sólida e concreta no início dessa inserção da criança ao universo acadêmico.
É através dessa troca com o meio ao qual está inserido que a criança não só adquire, como também amplia seus conhecimentos. Existe aquilo que eu sei e aquilo que o outro sabe. A escola, com a função social que tem, é capaz de conectar esses saberes com a prática cotidiana do estudante, tornando o aprendizado mais lúdico e mais significativo.
O ser humano é organicamente social. Isso porque está nessa força da emotividade humana e em seu caráter contagioso e epidêmico as condições para que seja mediada pela cultura, interpretada pelo adulto e promotora, a partir de então, do desenvolvimento cognitivo da criança. (Wallon, 2010, p.37)
Assim sendo, interligando o social com o cognitivo, o professor deve incluir em suas práticas atividades que facilitem o processo do desenvolvimento da área motora da criança. Práticas lúdicas, atrativas, que contemplem as áreas aqui explicitadas, já que estão conectadas entre si. Por essa razão, o brincar se faz tão presente nesse grupamento. Não um brincar por brincar, mas com objetivos traçados a fim de atender as crianças e seus interesses, facilitando esse processo.
Essa ludicidade na prática estimula a criança, torna a aula mais prazerosa até mesmo para o professor, e consequentemente facilita a assimilação do conteúdo trabalhado. O estudante aprende sem perceber que está aprendendo, pois, as informações são passadas de forma agradável, com alegria, desfocando de certo modo, a responsabilidade que exige o ato de estudar, garantindo mais significado no aprendizado, que certamente será mais bem absorvido pelo aprendiz.
Para desenvolver essas habilidades motoras, se faz necessário disponibilizar recursos que podem ir desde uma simples massinha, desenvolvendo a coordenação motora fina, até brinquedos ou outros materiais que permitam, através da exploração, desenvolver as habilidades próprias da Educação Infantil. A criança nessa fase precisa desenvolver suas habilidades motoras, sua oralidade, seu raciocínio lógico, seu convívio social que implica o respeito ao próximo e às regras para os espaços coletivos, suas expressões corporais e artísticas, enfim, é o início do seu desenvolvimento cognitivo e social, nesse ambiente escolar.
A maturação das necessidades é um tópico predominante nessa discussão, pois é impossível ignorar que a criança satisfaz certas necessidades no brinquedo. Se não entendemos o caráter especial dessas necessidades, não podemos entender a singularidade do brinquedo como uma forma de atividade. (Vigotski, 2007, p.108)
Para que essas questões sejam trabalhadas de forma significativa para a criança, o professor deve trazer para a sala de aula variados recursos que estejam diretamente ligados ao universo da criança, considerando sua faixa etária. Nessa linha de pensamento, serão bastante atrativos materiais coloridos, alegres, com imagens que despertem seu interesse. Com itens atrativos pensados nesse universo, as crianças se sentirão motivadas e participarão da aula com mais entusiasmo, alegria, interesse, tirando o máximo de proveito de tudo que for explorado, atingindo de forma plenamente satisfatória os objetivos traçados para o grupamento.
Esse interesse despertado na criança trará então emoção e encantamento pelo desenvolvimento das aulas, que a criança demonstrará a partir dessa motivação. Para que essas práticas estejam de acordo com a teoria em questão, a relação estudante-professor deve ser desenvolvida a cada dia, em cada atividade. Seja através de demonstrações de carinho, seja através de estímulo e incentivo para que os estudantes consigam atingir os objetivos propostos e se sentir cada vez mais seguros. E só a afetividade ligada diretamente ao trabalho desenvolvido será capaz de tornar essas ideias concretas.
O professor deve procurar utilizar as emoções como fonte de energia e, quando possível, as expressões emocionais dos alunos como facilitadores do conhecimento. É necessário encarar o afetivo como parte do processo de conhecimento, já que ambos são inseparáveis. (Almeida, 2013, p.103)
Nessa perspectiva, o professor se torna um incentivador, motivando seu estudante a construir seus conhecimentos, se sentindo capaz de realizar as atividades propostas com mais segurança, pois sabe que tem alguém ali interagindo e sanando suas dúvidas, diminuindo assim as dificuldades. É importante ressaltar que não se deve criar um padrão para o resultado que se pretende obter. O fundamental é deixar o estudante criar, recriar, experimentar, realizar suas atividades com autonomia, sofrendo a intervenção direta somente quando necessário, experimentando a emoção de observar o resultado, analisar juntamente com o grupo. Assim, é contemplado também o ato de observar o que foi feito, aprendendo com isso a avaliar o resultado, para que busque melhorar no que acredita ser preciso, a partir das referências ali apresentadas, sejam através dos trabalhos desenvolvidos ou de um referencial trazido pelo docente como fonte de inspiração para o que deseja alcançar, mas como dito anteriormente, não como um padrão a ser seguido.
Quando adequada, a mediação pedagógica – conjunto de decisões concretamente assumidas e desenvolvidas pelos educadores no ambiente escolar – possibilita que o aluno tenha sucesso no processo de apropriação do objeto do conhecimento, ou seja, sucesso no processo de aprendizagem, e isso tem repercussões afetivas positivas. (Arantes e Aquino, 2010, p.48)
Na Educação Infantil, aliado aos objetivos próprios do período como a convivência, as brincadeiras lúdicas, a expressão corporal, o brincar, o explorar o mundo à sua volta, descobrindo seus encantos, uma questão também de grande importância é a socialização. Nesse universo, a criança aprende a conviver com outras crianças, aprende a respeitar as regras para uma boa convivência e ampliando os horizontes, aprende que faz parte desse universo tão amplo, com tantas novidades a serem descobertas. Passar valores como respeito, amor ao próximo dentre outros, são objetivos que não podem ficar de forra. A humanização deve, desde cedo, ser trabalhada com as crianças, corroborando para o seu desenvolvimento social.
Introduzir a noção de humanização nos estudos, no ensino, que envolve a vida humana, particularmente a educação, significa reconhecer a adequação dos sentimentos e emoções que fazem brilhar a presença do ser no mundo. (Relvas, 2012, p.78)
Depois de se pensar no que se pretende trabalhar na Educação Infantil, o docente deve buscar um caminho que melhor contemple seus objetivos, considerando que a criança deve ser a autora de suas criações, construindo na prática seus conhecimentos e seu desenvolvimento nas diversas áreas do conhecimento.
Assim, podem se definir as possibilidades de aprendizagem de várias maneiras. Porém, fundamentalmente, como sendo ela a resultante da prática, da experiência, que produz mudanças internas relativamente estáveis no organismo. O que se aprende não se desaprende mais, a não ser por degeneração, doenças etc. (Relvas, 2014, p.125)
O fundamental é ter como principal autor o estudante, permitindo não só que ele tenha acesso aos diversos conceitos, mas que seja permitido a ele se expressar também através da arte, criando, construindo, observando, trocando, ampliando não só suas habilidades, mas paralelamente às mesmas, ampliar seus conhecimentos culturais, históricos, se conhecendo como parte viva da sua história e da história da sociedade da qual faz parte. E dessa forma, não sendo apenas um mero expectador, mas, se descobrindo um membro ativo do mundo que a cerca.
A arte, conforme refletido, pode e deve estar presente no cotidiano da sala de aula e, a partir dela, vários conteúdos podem ser desenvolvidos. Por isso, é necessário explorar a Arte como uma forma de adquirir conhecimento, priorizando tanto a apreciação das obras de arte quanto o processo de ensino da arte como meio de expressão, e não apenas como uma habilidade técnica.
A Abordagem Triangular é uma teoria desenvolvida pela Profa. Dra. Ana Mae Barbosa, difundida por todo o Brasil e com reconhecimento internacional. Essa teoria une a criação artística, a leitura e a contextualização, superando as abordagens antigas do ensino da arte, pois enxerga a arte com expressividade e cultura sobre um pensamento contemporâneo.
Pode-se dizer que a Abordagem Triangular configurou-se como uma resposta às demandas dos professores de Artes Visuais, no momento em que se assistia a decadência do Tecnicismo na educação brasileira. Ela veio renovar a, então, Educação Artística, inicialmente no campo das artes plásticas e visuais e, a seguir, nas demais artes. A prática docente na escola enfatizava um fazer por fazer, numa mistura de livre-expressão e ensino de técnicas descontextualizadas. (Pillar et al., 2017)
Considerando aqui a primeira triangulação citada pela autora, observa-se que ela compreende três pilares, por isso representada pela figura de um triângulo. Na base dessa figura nós temos a história da arte (ou contextualização) e a leitura da obra (a apreciação). Já no ápice do triângulo, nós temos o fazer artístico como o grande destaque dessa proposta. Para que essa abordagem realmente seja desenvolvida por completo, não adianta somente oferecer recursos para que os estudantes visualizem obras de arte, conheçam artistas famosos e seus trabalhos. É fundamental que juntamente a essas experiências eles tenham a oportunidade de fazer a arte. De acordo com a BNCC, o fazer artístico da criança, primeiro traz seu conhecimento prévio do mundo, depois brinca e interage com seus pares, mediada pelo professor através do campo das experiências: traços, sons, cores e formas.
Conviver com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da instituição escolar, possibilita às crianças, por meio de experiências diversificadas, vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotografia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras (Brasil, 2017, p. 37).
Certamente, o fato de apresentar novos horizontes através da arte, no que tange a sua história e a contextualização, para os alunos tem grande importância, pois além de servir como inspiração, não como um modelo a ser recriado, respeitando a expressão individual de cada discente, serve também para ajudá-los a ler a obra, despertando neles o poder da interpretação, aprendendo a fazer as devidas contextualizações, seja no tempo, no espaço, trazendo esses parâmetros para essa leitura, de maneira que se torne mais rica e mais apropriada. E consequentemente, isso será levado para a vida do estudante como um todo, sendo capaz de analisar as situações do seu dia-a-dia de maneira prática e objetiva.
A metodologia de análise é de escolha do professor, o importante é que as obras de arte sejam analisadas para que se aprenda a ler a imagem e avaliá-la; Essa leitura é enriquecida pela informação histórica e ambas partem ou desembocam no fazer artístico. (Barbosa, 1998, p.37)
Através do raciocínio da autora, pode-se perceber a importância desses dois pilares, a história da arte e sua contextualização, mas tendo por objetivo maior o que vem no ponto mais alto do triângulo, o fazer a arte. O fazer como resultado de todo esse trabalho desenvolvido na base, conforme refletido. A produção da criança precisa vir acompanhada desses conhecimentos, das técnicas e das reflexões para que tenha de fato um significado. Assim a arte está verdadeiramente sendo trabalhada. Não o pintar por pintar, desenhar por desenhar, mas se pensado no estudo da arte propriamente dito, não se pode ignorar esses fatores.
Outro fator que deve ser considerado é que, embora no desenho do triângulo, representando a base como a história da arte e a leitura da obra, e então o pilar como o fazer a arte, a construção, não é necessário que se haja uma ordem precisa a ser seguida. O professor não precisa estabelecer esse padrão, não deixando o ensino se tornar cansativo para as crianças, buscando sempre o novo para manter a motivação.
O erro mais grave é o de restringir o fazer artístico, parte integrante da triangulação, à releitura de obras. Outro é pensar que há uma hierarquia de atividades, isto é, primeiro a leitura da obra de arte, depois a contextualização e finalmente o fazer, a criação. Esta não é uma interpretação correta. (Barbosa, 1998, p.39)
Independente da ordem, o fundamental é que esses três eixos sejam trabalhados ao considerar o estudo da Arte. Essa linha de raciocínio também é trazida pelo Referencial Curricular Nacional Para Educação Infantil (Brasil, 1998, p.89), como podemos ver a seguir:
Barbosa (2003, p.20) ainda incorpora a essa linha de raciocínio, a transformação social, independente do ponto de partida em que se encontram ao escrever que “a mobilidade social depende da inter-relação entre os códigos culturais das diferentes classes sociais e o entendimento do mundo depende de uma ampla visão que integra o erudito e o popular”. Como bem ressaltado pela autora em questão, que corrobora com essa pesquisa, através de suas reflexões, só vai haver essa integração quando for entendido que há possibilidade de se inserir no mundo da arte, independente da condição social. Por isso o incentivo é tão importante ainda que na Educação Infantil, para que eles se habituem, percebam que é um mundo possível e, se integrem, juntamente com a escola, a esse estilo cultural que há de contribuir significativamente no crescimento social de cada um.
A visão de mundo do estudante, formada do diálogo entre sua vivência interior e os códigos exteriores aprendidos de forma crítica e consciente através da arte, é um letramento tão importante quanto à alfabetização dentro da língua pátria, que também tem início na Educação Infantil através dessas leituras, de produções de textos coletivas para que o estudante observe a escrita e sua funcionalidade. Assim, espera-se propiciar ao sujeito condições de (re) transformar seu meio e sua realidade, como verdadeira liberdade de escolha e avaliação das perspectivas disponíveis na comunidade na qual se encontra inserido.
Surge então uma reflexão em relação ao trabalho do professor, que vai trazer essa prática para a sala de aula. Ele precisa ter a consciência da importância de um trabalho que realmente promova o incentivo à cultura da arte, como transformadora na vida da criança. Se ele não for capaz de mensurar a responsabilidade da sua função, por certo não irá desempenhá-la de maneira produtiva, apenas levando a “arte” como atividade meramente ilustrativa, desconectada de sua verdadeira função, sem nada adicionar ou até mesmo prejudicando a formação estética, crítica, social e cultural de seus educandos.
Em relação a essa preocupação com o trabalho desenvolvido em sala de aula pelo docente, na linha de Paulo Freire (1996, p.32) temos: “Reconhecer a importância da nossa tarefa (professor) não significa pensar que ela é a mais importante entre todas. Significa reconhecer que ela é fundamental. Algo mais: indispensável à vida social.” E nessa perspectiva da Abordagem Triangular, onde o fazer a Arte é um dos pilares, tão importante quanto os outros dois, a figura docente deve ter essa consciência e realizar o seu papel de forma compromissada e consciente.
Associando essa capacitação à prática, o que muitas vezes também traz insegurança aos profissionais, principalmente considerando a Educação Infantil, onde eles ainda não tem total autonomia para realizar as atividades e para manusear os materiais oferecidos, é preciso desmistificar esse fantasma e acreditar que, muitas vezes, é possível elaborar aulas de arte com muito pouco sem que se perca a qualidade do aprendizado que, conforme visto nas reflexões anteriores, estarão muito mais conectadas com a prática do professor, oriunda da sua constante formação, do que com o material a ser utilizado. A arte permite criação com materiais simples, que fazem parte do cotidiano do estudante.
Na Educação Infantil, mais especificamente, materiais simples serão mais fáceis de serem trabalhados. É preciso se pensar em obras que atendam à faixa etária do grupamento, que sejam fáceis de serem lidas por eles e, preferencialmente, retratem o cotidiano deles. Pinturas que incluam crianças, animais, natureza certamente despertarão o interesse dos estudantes e farão com que eles se sintam familiarizados com o contexto, ficando mais à vontade e participando melhor da aula.
A experiência ocorre continuamente, porque a interação da criatura viva com as condições que a rodeiam está implicada no próprio processo de vida. Sob condições de resistência e conflito, aspectos e elementos do eu e do mundo implicados nessa interação qualificam a experiência com emoções e ideias. (Dewey, 1980, p. 91).
As experiências culturais e os mecanismos internos, tanto cognitivos quanto afetivos, influenciam os processos de aprendizado e crescimento, favorecendo a formação de identidade e autonomia. A linguagem oferece o amparo necessário para a criação e a representação dessas percepções, formando a prática social e cultural de construção de significados. Uma das características da criação e uso de ferramentas e signos é ser ao mesmo tempo coletiva e individual. Ao utilizarmos símbolos, integramos nossas experiências passadas e os adaptamos com base nas interpretações e relações que estabelecemos, ou seja, conforme nossa absorção da experiência. A criação de ferramentas e símbolos, assim sendo, é influenciada por terceiros e pela linguagem.
Todas essas considerações, além dos autores que demonstram na construção das mesmas, também são reforçadas através dos documentos que norteiam o ensino de arte. A BNCC nessa disciplina traz essa ligação entre os elementos que compõe as experiências e a arte propriamente dita, resultado dos mesmos.
Conviver com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da instituição escolar, possibilita às crianças, por meio de experiências diversificadas, vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotografia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras. Com base nessas experiências, elas se expressam por várias linguagens, criando suas próprias produções artísticas ou culturais, exercitando a autoria (coletiva e individual) com sons, traços, gestos, danças, mímicas, encenações, canções, desenhos, modelagens, manipulação de diversos materiais e de recursos tecnológicos. Essas experiências contribuem para que, desde muito pequenas, as crianças desenvolvam senso estético e crítico, o conhecimento de si mesmas, dos outros e da realidade que as cerca. Portanto, a Educação Infantil precisa promover a participação das crianças em tempos e espaços para a produção, manifestação e apreciação artística, de modo a favorecer o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e da expressão pessoal das crianças, permitindo que se apropriem e reconfigurem, permanentemente, a cultura e potencializem suas singularidades, ao ampliar repertórios e interpretar suas experiências e vivências artísticas. (Brasil, 2018, pg. 36)
Todas essas reflexões só reafirmam quão interessante é essa proposta de Abordagem Triangular, tanto para o estudante, para o professor e para a família. Como visto ao longo desse capítulo, todos acabam se envolvendo no processo, participando de alguma maneira. É indiscutível o ganho ao se pensar nessa aliança. Ganham as partes envolvidas ao ampliarem seus conhecimentos, expandindo a visão de mundo que possuem, tendo ainda a possibilidade de compartilhar todos esses avanços com a sociedade que os cercam.
Ainda que existam dificuldades, alguns obstáculos que precisam ser enfrentados, no que tange o ensino da Arte, o olhar do professor sobre o desenvolvimento do seu trabalho vai ser um divisor de águas no processo. Se ele enxergar somente as dificuldades, talvez não consiga mesmo fazer da sua prática algo motivador e significante para o estudante, já que ele é parte essencial dessa motivação que norteará o seu trabalho. Mas se ele preferir acreditar que vale a pena, apesar das dificuldades, inovar em sala de aula, levando os estudantes a crescerem como alunos e como cidadãos, conseguirá então saborear todo o gosto das suas conquistas, sendo recompensado pelo fruto do seu trabalho refletido no estudante.
As coisas úteis, “sérias”, são aquelas que identificamos como maçantes, trabalhosas; em outros termos: são as obrigações que temos que cumprir, mais ou menos a contragosto, e que nos permitem sobreviver nas selvas de concreto e aço de nossas cidades. Já as agradáveis, prazerosas, são aquelas reservadas às nossas férias e feriados, isto é, as que guardamos para usufruir após terem sido cumpridas as nossas maçantes obrigações. (Duarte Júnior, 2012, p.11)
Discutir a Educação Infantil implica, assim, abordar o modo como os pequenos estão adquirindo habilidades para navegar neste universo de linguagens e representações, que são compreendidas através do contato com diversas práticas culturais. Contudo, é essencial reconhecer que as crianças internalizam essas práticas culturais utilizando as estratégias de pensamento que têm à disposição. Dentro desse quadro, além de analisar como as crianças se relacionam com as práticas culturais, é também crucial compreender que essa fase representa uma transição de uma visão e uma manifestação do mundo que ocorre por meio de ações motoras para uma percepção e uma expressão que se estabelece em um plano mais conceitual. É muito mais que isso, a arte colabora, sendo capaz de mexer com o ser humano. Fazê-lo refletir, repensar conceitos, transformar e transformar-se. Afinal, a vida é uma constante mutação. Quando o ser humano é preparado para buscar essas mudanças em si, ele provavelmente será capaz de provocar mudanças no mundo.
A arte está presente em cada detalhe do mundo à nossa volta. Imagens, cores, arquitetura, artesanatos, enfim, uma diversidade de formas e estilos, mas que sempre trazem uma mensagem em si. Mensagem pronta, mas que permite, através da leitura feita, uma nova possibilidade de enxergar a obra, através da essência, da sensibilidade, do conhecimento, do nível cultural particular, dentre outros fatores, que cada indivíduo traz em sua bagagem. Isso é extremamente fantástico e não pode ser ignorado no ser humano. Para isso, é importante que desde cedo, ele seja apresentado a esse universo e, mais que isso, interaja de forma direta e concreta com esse mundo tão rico.
Na Educação Infantil, as crianças precisam desenvolver algumas habilidades que, como visto ao longo do estudo, estão diretamente ligadas à arte e toda sua diversidade. Dessa forma, foi possível compreender a importância de realizar um trabalho que, além de apresentá-la aos estudantes, o docente deve estimular, apresentar possibilidades diversas de se fazer, apreciar e respeitar a arte sem criar padrões de avaliação. Assim, as crianças são motivadas, com a mais singela pureza, a não só observar essas possibilidades, mas a criar com os mais variados recursos a sua própria arte, desenvolvendo então as habilidades peculiares do período.
Considerando o trabalho com a arte sob o olhar da Abordagem Triangular, o docente vai além dos objetivos pensados para a Educação Infantil, ele contribui com a capacidade de gerar novos horizontes, novas perspectivas, ampliando a visão do estudante, através da possibilidade do diálogo com sua realidade e descontruindo o estereótipo do que vem a ser arte, ou do que vem a ser belo. Quando o educador proporciona uma abordagem triangular considerando as visões de mundo, atuações diretas dos discentes sobre os trabalhos desenvolvidos e histórias de vida que se refletem nos mesmos, isso tudo sem perder uma visão emancipatória, o docente faz com que a arte seja vista como matéria prima na formação do sujeito, que passar a ser capaz de ler o mundo e suas mudanças através da arte.
Não restam dúvidas que há muito o que se desenvolver nesse aspecto, já que nem todas as Unidades Escolares constroem seus projetos com uma perspectiva voltada para essa área, mas é certo que, quanto mais os docentes se conscientizarem do papel de formação pedagógica e social que possuem, ao estarem diante de uma turma, buscando na Arte uma alternativa significativa para um bom resultado do seu trabalho, muito contribuirão de fato para uma nova geração de cidadãos capazes de atuarem na sociedade em que vivem de forma crítica, coerente e capaz de trazer as mudanças que se fizerem necessárias.
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[1] Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University, Especialização em Psicopedagogia com Ênfase em Educação Especial pela UNAR, Especialização em Docência do Ensino Superior pela UNAR, Graduação em Pedagogia pela UNAR, Graduação em Artes Visuais pela UNAR e Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Santa Úrsula. ORCID: 0000-0002-9039-2794. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6004138103540333.
[2] Especialização em Psicopedagogia Institucional pela Faculdade de Educação São Luís e Graduação em Pedagogia pela Faculdade de Direito e Ciências Sociais do Leste de Minas. ORCID: 0000-0002-2229-5933.
[3] Especialização em Educação Infantil pela Uninter. Graduação em Artes Visuais pela UNAR e Graduação em Pedagogia pela UNISEB. ORCID: 0000-0002-3646-833X.
Material recebido: 01 de abril de 2024.
Material aprovado pelos pares: 04 de dezembro de 2024.
Material editado aprovado pelos autores: 25 de abril de 2025.
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