Saúde

“Espere sua vez”:  o autista frente a esta demanda

ARTIGO ORIGINAL

CARMO, Roseli Cristina Campos do [1], GOUVEIA, Letícia Batista [2], PALADINO, Ruth Ramalho Ruivo [3]

CARMO, Roseli Cristina Campos do. GOUVEIA, Letícia Batista. PALADINO, Ruth Ramalho Ruivo. Espere sua vez”:  o autista frente a esta demanda. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 02, pp. 80-95. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/espere-sua-vez, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/espere-sua-vez

RESUMO

Pacientes diagnosticados no quadro dos Transtornos do Espectro do Autismo (TEA) apresentam dificuldade na iniciação e manutenção de situações comunicativas, o que compõe impedimento para as experiências sociais, familiares e educacionais. Objetivo: O estudo propõe uma análise destas dificuldades sob a ótica das relações intersubjetivas, enquanto acontecimento da ordem da linguagem. Método: Estudo exploratório, descritivo, desenvolvido por meio de estudo de caso de sujeito único. Toda certificação ética foi atendida. Os dados foram coletados para o estudo por meio da filmagem de doze situações consecutivas, semanais, em atividade terapêutica de Oficina de Cozinha. A análise empreendida foi sustentada por aportes da Aquisição de Linguagem da linha interacionista e da Psicanálise sobretudo de inspiração lacaniana. Resultados e Conclusão: O estudo mostra o paciente podendo, pouco a pouco, a sustentar uma relação intersubjetiva, operando jogos subjetivos, resultando em desempenhos comunicativos mais efetivos.  A análise permitiu esclarecer essa dificuldade como tropeços intersubjetivos e a mostrar como a palavra levanta o sujeito nestes tropeços, que podem, eventualmente, redundar na queda da relação interacional.

Palavras-chave: Autismo, Intersubjetividade, Linguagem.

1. INTRODUÇÃO

Pacientes com distúrbios de linguagem podem apresentar dificuldade em responder à demanda de aguardar a vez para atuar em situações interacionais, uma dificuldade em acompanhar a alternância nos jogos sociais, sustentados por ciclos comunicativos. Eles resistem em deixar seguir a situação e ficar na espera, acabando por apresentar condutas disruptivas, impactando as experiências sociais, provocando, muitas vezes, seu isolamento e, até mesmo a desistência da interação por parte de seus parceiros (Kohman, 2019).

Em pacientes acometidos por diferentes patologias, este sintoma está presente, mas sua natureza e repercussão se distinguem nos diferentes quadros (Almeida de Souza, 2015; Lobato; Teles da Hora, 2020). O TEA é um dos quadros em que essa dificuldade é frequente (Lagus; Fernandes, 2021).  e abala explicitamente as situações interacionais (Campos do Carmo, 2018; Campos do Carmo; Raymondi; Palladino, 2020; Mazzega; Tamanaha; Perissinoto, 2023).

Note-se que a revisão operada no DSM-V, alterou os critérios diagnósticos do autismo, unindo as esferas de interação social e de comunicação sob um só aspecto, compondo um estrato denominado “comunicação social”, destacando-se da ordem da linguagem que fica identificada com a instância da língua, com aquisição e uso decorrentes dos ajustes comunicativos, esses (pre)dominantes.

Acompanhando o DSM-V, variados estudos sobre alterações na “comunicação social” por parte dos pacientes com TEA são apresentados e se destacam os da neurociência cognitivista, com grande repercussão a partir dos anos 80, e comportamental, o foco de discussão mais recente, que, muitas vezes, surgem como abordagens do tipo cognitivo-comportamental.

Em um modelo muito adotado pela perspectiva cognitivista, a Teoria da Mente, a alteração na comunicação seria uma falha na capacidade de metarrepresentação, ou seja, a incapacidade de compreender e prever os estados mentais alheios, a partir da decodificação de sinais verbais e não verbais. Porque o autista não é um “leitor da mente”, ele não consegue operar adequadamente os atos comunicativos e, assim, não “enxerga” as intenções de seu interlocutor (Leslie, 1987) Essa dificuldade compromete as tarefas que supõem reflexão consciente, flexibilidade e imaginação, abrindo espaço para as ações rotineiras e repetitivas. Há estudos críticos a essa explicação, como o de Gallagher (2004/2005) que, sob a ótica fenomenológica, propõe uma alternativa supondo as situações interacionais como intersubjetivas, alegando que para a intersubjetividade primária, de natureza sensório-motora de matiz emocional, permite à criança interpretar precocemente condutas alheias, sem precisar acionar conteúdos mentais. Haveria uma disposição corporal de agir intencionalmente.

As abordagens comportamentais, em sua vez, se apoiam na ideia de que o comportamento comunicativo é aprendido por repetidas imitações e por técnicas de reforço. No caso das falhas na comunicação, seria um comportamento comunicativo, não aprendido ou aprendido inadequadamente, fruto de uma incapacidade imitativa e sua articulação aos estímulos externos. Em situações de modelagem apropriada e sistemática, a repetição do comportamento esperado é considerada critério suficiente (Fingerhut; Moeyaert, 2022), o que constitui a crítica que se faz à abordagem, na medida em que a origem da dificuldade não é aventada.

Diferentemente, abordagens que consideram a comunicação estritamente no âmbito da linguagem, oferecem interpretações variadas, sendo as mais importantes, a que submete esta problemática a uma perspectiva pragmática, e a que toma por base as relações intersubjetivas, iluminadas por conceitos psicanalíticos.

Nos estudos da vertente pragmática é possível depreender um assentamento na ideia de comunicação implicada e decorrente da noção de linguagem: habilidades pragmáticas envolvem a habilidade de usar a linguagem de modo apropriado nos diferentes contextos sociais, compreender e responder adequadamente a sociais e manter interações sociais efetivas (Borges et al., 2025).

Estudos apontam que dentre as alterações de linguagem que o autista pode apresentar, o principal comprometimento é no nível pragmático (Simms; Jin, 2015; Baird; Norbury, 2015) e nos aspectos paralinguísticos, com dificuldade em iniciar e manter diálogos; interpretar palavras e frases; compreender ironia, sarcasmo, variação na entonação, assim como outras formas de linguagem (Pereira et al., 2022), por exemplo, a demanda de suspender temporariamente sua participação no jogo social, algo que escapa das situações interacionais corriqueiras.

É interessante destacar um aspecto trazido pela perspectiva pragmática que se refere à dificuldade do autista em compreender e responder adequadamente às demandas, exatamente o que está em pauta na problemática trazida à discussão pelo estudo ora apresentado.

O ciclo interacional é operado por dois tipos de participação do falante, iniciativa e responsividade, representantes dos dois momentos das trocas comunicativas que compõem um circuito, e implicam, por parte dos falantes, o desejo de se comunicar, o anseio de se fazer entender e a compreensão dos mecanismos sociais necessários a efetivar tal plano. Esta troca mostra a interação como um lugar privilegiado da união entre o indivíduo e o outro.  Uma iniciativa sem resposta é encarada como um fracasso pelo comunicador inicial, rompendo a manutenção do núcleo comunicativo (Miilher; Fernandes, 2013).

A performance do autista frente à demanda de espera poderia seria considerada uma não resposta, denotando uma desorganização no esquema comunicativo. Considerando-se a interação como um lugar privilegiado da união entre o indivíduo e o outro, a não resposta é um rompimento da união entre os participantes da troca comunicativa (Miilher; Fernandes, 2013).

Importa aqui, a ideia de “união” porque essa adjacência postulada pode esclarecer a natureza da situação interacional, ou seja, a de que ela é uma condição de intersubjetividade e a dificuldade em esperar sua vez para falar ou agir, pode ser dita um tropeço na intersubjetividade, com o autista precipitando-se, dispersando-se ou mesmo reagindo agressivamente, numa aparente angústia (Wunder da Silva, 2021; Cunha do Nascimento, 2021). Este estudo pretende discutir a desunião ou a ruptura do ciclo comunicativo, mas, a partir de uma ideia de que se trata de rupturas nas relações intersubjetivas. Neste sentido, comunicação é uma noção implicada e derivada de uma outra, a linguagem, dado que cada ato de fala corresponde à assunção de uma posição enunciativa, quer dizer, os participantes se implicam e se comprometem com o processo (Benveniste, 1988). O dizer de um, por ser uma demanda, convoca o outro a se apresentar no circuito discursivo, um jogo de alteridade, e todos passam a ter importância para a fluidez desta circulação. Assim, a constituição subjetiva emerge no entrelaçamento de duas posições: ser demandado e demandar, sempre no campo da palavra, pela fala (Pommier, 2004).

Quando a fala de um participante propõe a suspensão provisória da/na circulação comunicativa do outro, tal como espere sua vez, em certo sentido, essa demanda se põe na contramão da proposta estruturante da circulação no espaço discursivo que sustenta os ciclos enunciativos (Benveniste, 1988). A proposta espere sua vez, acaba sendo uma intervenção que pode provocar um gesto disruptivo pelo autista. Note-se, contudo, que a proposta não é de ruptura, mas de espera para uma ocupação efetiva na circulação enunciativa e parece que a dificuldade se instala neste ponto, a espera para circular, ela é incompreendida e se torna insuportável.

Quando se anuncia que alguém deve se ausentar momentaneamente do circuito discursivo, mas com vistas a uma presença nesta ausência, ou seja, alguém vai ficar em tempo de espera, uma operação simbólica e um movimento discursivo são convocados, compondo uma posição enunciativa estranha ao autista, qual seja, a presença em expectativa, temporalidade constituída na e pela palavra, ponto central da dificuldade do autista.

Dependendo do que implica a demanda apresentada ao paciente, as palavras podem cair num mar disfásico como aponta Jerusalinsky (1999, p.111) e não cumprem sua função de recorte, o alinhavo se desfaz. Quando se fala ao autista espere sua vez, ele fica à margem da interação, em uma suspensão temporária, e isso pode causar uma perturbação, um desassossego, ele não prevê a continuidade temporal da cena. Ademais, essa demanda por ser transitiva, inscreve o autista em uma angústia perturbadora, e, por vezes, frente a essa transitividade, ele ataca, agride: sai da cena, grita, se morde, abala o sistema de interação.

O estudo ora apresentado, realizado com um autista adolescente e desenvolvido em cenas de alimentação, permitiu lançar um olhar à questão dos tempos de espera e seus possíveis desacertos enquanto tropeços na intersubjetividade, acontecimentos da ordem da linguagem.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

Pesquisa de natureza qualitativa que, assim, se propõe a identificar, analisar e interpretar percepções e entendimentos diversos sobre questão relevante, a dificuldade do autista em ter sua participação em um ciclo enunciativo suspensa, que necessita para sua melhor compreensão, procedimentos alternativos à análise estatística, descritiva, dos dados coletados durante o processo de investigação (Oliveira et al., 2020). A pesquisa foi realizada e está apresentada na metodologia estudo de caso único, objetivando a construção de uma discussão a partir do estudo empírico de um caso clínico. Esse design metodológico parece atender aos objetivos da pesquisa que coloca questões sobre havidos humanos em contexto da vida real (YIN, 2001).

A pesquisa tem Parecer de Ética favorável, processo n. 69035817.0.0000.5482, sendo todos os quesitos éticos atendidos: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) dos participantes, por se tratar de pesquisa envolvendo seres humanos, e Termo de Assentimento (TA) da Instituição em que a coleta foi realizada[4].

Este é o caso de um rapaz (C.) de 19 anos, filho único, diagnosticado no Transtorno do Espectro do Autismo apenas aos 13 anos de idade, quando, então, passou a frequentar uma instituição especializada. A demora na execução do diagnóstico se deveu a problemas familiares e a buscas especializadas não exitosas, aliadas a encaminhamentos inadequados. C. não apresentava comorbidades. Ele já estava inserido nesta instituição há seis anos quando o estudo foi iniciado.

3. PROCEDIMENTO

Coletas de dados realizadas por 12 (doze) semanas consecutivas, compondo um conjunto de 12 encontros, em cenas da Oficina de Cozinha (OC), operadas em um grupo terapêutico e constituídas por 9 (nove) participantes, a saber: a pesquisadora, o sujeito em causa e mais sete participantes. A OC é cena, por excelência, de momentos de espera pela sua própria estrutura e, assim, oportunidades para o enfrentamento da questão em discussão. As cenas foram filmadas e digitalizadas, com apontamentos dos contextos não verbais. A filmagem foi realizada com celular modelo Iphone 13 Pro Max, colocado em tripé a uma distância suficiente para o enquadramento do grupo, sobretudo do sujeito do estudo.

A análise do material resultante se sustentou em aportes da Aquisição de Linguagem de linha Interacionista e em apontamentos da Psicanálise.

4. RESULTADOS: DESCRIÇÃO DO QUE SE DEU A VER NAS FILMAGENS

Inicialmente, C. não mantinha contato visual: não olhava para o outro, não sustentava nem buscava o olhar do outro, não oferecia nem compartilhava a atenção. Não atendia a chamados e, frente a demandas insistentes, C. apresentava motilidade exagerada, acompanhada de ecolalias, produções rápidas e em alto volume, comprometendo a inteligibilidade da fala.

No início, ele não participava da construção e desenvolvimento da cena de alimentação, mantendo-se afastado, infiltrando seu corpo de angústia, contorcendo os dedos das mãos, fazendo balanceios, emitindo sons agudos e altos. Mas, aos poucos, ele foi aderindo à cena, aproximando-se da mesa, quando todos começavam a comer, ainda que sem olhar ou falar e se agitando quando convocado, por exemplo quando perguntado se aceitava o prato com a comida, voltando, então, a se afastar.

Algum tempo depois, ele se acalma e começa a responder a algumas demandas que lhe são dirigidas, por exemplo, quando a pesquisadora pedia que ele colocasse a jarra de suco na mesa. Porém, se fosse apresentado outro pedido, por exemplo, o de pegar, na sequência, os copos, ele reagia negativamente, voltando a se afastar, se agitar.

C. passa, vez por outra, a se sentar à mesa e, neste momento, uma outra dificuldade surge: aguardar sua vez de dizer se aceita ou não os alimentos oferecidos, aguardar sua vez de receber algo para beber, aguardar o término da refeição para se levantar. Demorou muito para C. se acomodar na cena alimentar, conseguindo ficar à mesa, mas saindo e se agitando, rompendo a partilha, a cada vez que era anunciado que ele deveria aguardar sua vez.

C. se mostra, cada vez mais, sensível a demandas que lhe são feitas ao longo da construção da cena, inclusive suportando demandas sequentes, como pegar a água e colocar na mesa. Também, aos poucos, começa a indicar com gestos de cabeça se aceitava ou não um alimento, ainda indicando ansiedade insuportável em aguardar para completar o prato e poder comer. Sempre sem falar e sem olhar. Finalmente, C. consegue participar de toda a coreografia da cena, aguardando sua participação a cada momento e, em certa sessão, acaba de comer e responde à pergunta “você quer mais?”, dizendo “não”, sem abandonar, contudo, a mesa, esperando a finalização da refeição. Importa, aqui, discutir sobre o que deu sentido à espera, situação condicional para o andamento da cena de alimentação.

Note-se que a pesquisadora, utilizou a palavra como sustentação da circulação discursiva, sustento do andamento interacional, frente às reações disruptivas de C.

5. ANÁLISE E DISCUSSÃO

A Oficia de Cozinha (OC) é um dispositivo terapêutico, sustentado pela ideia de que a alimentação é cena que ritualiza uma atividade humana (Pedro Bom et al., 2009).E por ser um ritual, segue um ordenamento, implicando tempos de espera, instanciações que interrompem uma diacronia que, em sua vez, pode ser reconfigurada sobretudo, pela palavra, potente via de sustentação da intersubjetividade na tentativa de se evitar efeitos disruptivos (Lajonquière, 2010). Mas, o autista é aquele que está exilado da fala, como pontua Jerusalinsky (2015a), caindo no silêncio e na imobilidade de uma espera, porque é excessivo para ele e a isso seu corpo responde imediatamente, com tremores, mordidas, gritos (Maleval, 2020).

C. teve grande dificuldade em se incluir na cena alimentar, ficando, geralmente, do lado de fora, não da sala, mas do lugar na sala em que o grupo se acomodava, infiltrando seu corpo de angústia, olhando para o teto, contorcendo os dedos das mãos, fazendo balanceios, emitindo sons agudos e altos, ecológicos (Moraes; Carvalho, 2022), estava de fora, mas afetado pelo que ali se passava (Schneider; TafurI, 2017), ainda que fosse um excesso. Parece que C. não estava “de fora”, mas, exilado, refém do real perceptivo (Jerusalinsky, 2015b), no sentido de que as falas que circulavam pelas cenas de alimentação se mantinham um mistério para ele, contingência que isola e afeta ao mesmo tempo.

A fala cria um impacto no organismo, já que o subverte, as palavras são marcas deixadas pela fala do outro, impressas pela voz, que atravessa o organismo e ali se encarna (Catão, 2015, p.22), mas parece haver uma dificuldade por parte do autista, o impacto fica perdido no corpo e não se desloca e, assim, a posição do outro como agente franqueador da inserção do organismo no campo da linguagem (p.22) fica vazia. O que também chama a atenção é o fato de que, em raras situações em que C se aquieta, ainda fora do grupo, se convocado, volta a abusar de seu corpo, num balanceio forte, como se em uma clara recusa.

O autista não suporta e o laço com o outro, sustentado principalmente pela palavra, perde vigor, se perde. Se a linguagem é um mistério que não se revela, como aponta Catão (2015), o que leva o sujeito a responder à invocação que o outro lhe faz, considerando a posição do autista na linguagem, a suspensão de seu lugar pela fala “espere sua vez”, reafirma o mistério.  E parece que pela palavra, o jogo pode retornar.

Importa notar que mudanças se expressam a partir do momento em que C. passa a marcar na palavra o tempo da oficina, dizendo bom dia/tchau. A oficina é incessantemente pautada pelas e com palavras, inserindo qualquer ação em um campo de significação, tracejando o ritual da alimentação com um discurso sempre de natureza dialógica, quer dizer, trazendo a cada um, inclusive C., para a conversa, supondo a todos sujeitos falantes, fazendo com que as manifestações de C. sofressem certa elaboração. É possível que a fala de C. seja, a princípio, o que se denomina estereotipia, em uma posição em que o sujeito fica congelado, submetido ao significante (Binevicius; Lourenço, 2020), mas a fala não se dá de forma estruturada e nominativa, mas, sim, no jogo de leituras e interpretações entre sujeitos dispostos ao enlaçamento produzido pelo encontro entre a língua e a linguagem (Parlato-Oliveira, 2015). Insiste-se neste enlaçamento e assim, aos poucos, as palavras, linhas dos laços, se desalojam da pura repetição, descongelam e ganham algum valor. As palavras levantam o sujeito em seus tropeços intersubjetivos.

Em certo momento, C. senta-se à mesa, quando surge claramente a dificuldade na espera, reagindo fortemente a cada vez que se pede que ele aguarde sua vez para escolher o alimento, começar o consumo, repetir, acabar a refeição e se levantar, voltando a sair da mesa, a se balançar, por vezes a gritar. Mas, há insistência na sustentação da interação pelas e com palavras, sempre buscando emoldurar simbolicamente a situação. Um recurso usado  é o de ir falando ao longo do tempo sobre o que estava se dando na cena, alimentando o tempo de espera de cada um, sobretudo de C., com dizeres sobre a cena: espera sua vez/estou dando arroz para X, agora arroz para Y e vou pegar o suco… É importante verificar que a posição da pesquisadora em pautar a interação com e pelas palavras, supondo um vai-e-vem, ainda que da parte dele a recusa se mantenha insistente, é fundamental para a sua sustentação subjetiva. Vai sendo alicerçado um caminho em redes de significação que podem capturar C. (Bialer, 2014). Isto pode clarear o que se dá em seguida, o uso de gestos por C., ou seja, um efeito deste caminho.

C. vai se aquietando, mas sem olhar nem falar. Começa a participar da construção da cena, montar a mesa por exemplo, e, finalmente, começa a indicar com gestos de cabeça se quer ou não quer um alimento ou suco e vai acompanhando as manifestações da pesquisadora enquanto ela relata suas ações, inseminando de significação os tempos de espera que constituem a cena alimentar. Isto se dá aos poucos e num vai-e-vem, em uma instabilidade que se nota nas interações com os autistas, mas rumo ao outro.

Parece que a aversão ao outro insiste, no caso do autismo, determinando essa instabilidade nas suas relações. Bruner (2015) comenta que o fenômeno clínico, [qual seja] a posição do autista é a elisão do Outro sempre no campo visual e a elisão do Outro de maneira frequente do campo auditivo, assim como a fuga defensiva frente ao perigo que representa o ingresso possível da diferença significante em seu campo perceptivo/sensorial (Folha 214). Essa instabilidade é observada na relação com o autista e, quando ela acontece, é fugaz, episódica, descontextualizada, mínima, espasmódica, de nenhuma ou escassa extensão imaginária e de nula extensão simbólica (Jerusalinsky, 2015a, folha 30).

Finalmente, C. participa de grande parte do desenvolvimento da cena alimentar, esperando sua vez e, em uma condição inédita, falando: ao ser questionado se queria mais de um certo tipo de alimento, C. responde: Não!

Jerusalinsky (2015a folha 256) pondera sobre as falas imprevisíveis e surpreendentes dos autistas e lembra que, algumas vezes, trata-se de uma espécie de celebração, no sentido de haver, neste caso, algo vinculado à função de reconhecimento que o outro estava operando em suas intervenções, alinhavando cada parte da cena alimentar com e pelas palavras. Reconhecimento de um sujeito, coreografado pela atividade discursiva.

O diálogo, estrutura discursiva de construção do laço entre os humanos, a começar pela interação mãe-criança, é um jogo de alteridade em que cada um se anuncia, a cada vez, ao outro (De Lemos, 2011). Não é jogo adaptativo social, o diálogo é a estrutura que sustenta o reconhecimento das subjetividades e seu entrelaçamento é a dificuldade básica do autista e por isso as interações que se dão com ele são intermitentes, desarranjadas, espasmódica (Jerusalinsky, 2015b). Quando, na interação, se diz ao autista “espere sua vez”, ou seja, quando há uma ruptura mais do que uma alternância do diálogo, há uma espécie de ruptura no próprio jogo de subjetividades por ele encenado, e que é bastante frágil. Como já destacado, essa demanda pode ser transitiva e, assim, inscreve o autista em uma angústia perturbadora, e, por vezes, à essa transitividade, ele ataca, agride: sai da cena, grita, se morde, abala o sistema de interação.

O autista parece não suportar o laço com o outro, sustentado principalmente pela palavra e, se a linguagem é um mistério que não se revela, como aponta Catão (2015) considerando sobre a posição do autista na linguagem, a suspensão de seu lugar pela fala “espere sua vez”, reafirma o mistério e, aparentemente, o imobiliza. Mas, parece que pela palavra, o jogo pode retornar.

6. CONCLUSÃO

A análise empreendida por este estudo em relação a um sintoma do autista que tem importância na ruptura dos ciclos interacionais mostrou-se efetiva no sentido de poder esclarecer esse fato enquanto um tropeço intersubjetivo e, consequentemente, que as palavras podem levantar o sujeito destas quedas ou desequilíbrios.

Os tempos de espera constituintes das cenas de alimentação são exemplares para se refletir sobre o fato de que tempos de espera instituem um episódio que o autista se mostra incapaz de vivenciar, acontecimentos interessantes para se refletir, não sobre um jogo objetivo de adaptação comunicativa, mas um jogo subjetivo que instaura e sustenta as interações. São importantes para compreender reações frente a demandas do outro, que podem ser transitivas, quer dizer, demandas de uma conduta adaptada e a isso o autista se defende. Discussões sobre a questão são importantes espaços que se refletem sobretudo em providências terapêuticas, por exemplo no manejo discursivo implicado no caso dos autistas.

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APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ

4. Este estudo foi realizado a partir de material coletado em pesquisa de intervenção, anteriormente desenvolvida, e que constituiu material de construção de dissertação de mestrado (CAMPOS DO CARMO, 2018). A pesquisa original foi feita com a filmagem de cenas terapêuticas de um grupo de pacientes diagnosticados em TEA, cuja terapeuta era a própria pesquisadora. Do material coletado foi extraída uma questão para o desenvolvimento do presente estudo, a saber: a desarticulação discursiva do autista frente a demandas de suspensão de sua participação em um ciclo interacional.

NOTA

Os autores utilizaram a implementação do uso da Inteligência Artificial, enfatizando que ao longo do processo de elaboração, algumas ferramentas de correção ortográfica e de edição do texto foram utilizadas, como os próprios recursos do Microsoft Word, versão não identificada na plataforma. O texto é produto de escrita autêntica, orientada e autenticada pela Universidade, com processos sucessivos de verificação: análise de mérito, análise de ética em pesquisa, análise de interesse social, inscrição de dados na Plataforma Brasil – sendo fornecido em texto número do processo que rege todos estes aspectos. Não foi utilizado qualquer instrumento de geração automática de conteúdo, como o ChatGPT ou similares.

[1] Mestre em Comunicação Humana e Saúde/ doutoranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação Humana e Saúde da PUC-SP. ORCID: https://orcid.org/OOOO-0002-1768-0423. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/7105059130198777.

[2] Mestre em Comunicação Humana e Saúde pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Humana e Saúde da PUC-SP. ORCID: https://orcid.org/OOOO-0002-7223-9294. Currículo Lattes: hftp://laftes.cnpq.br/8723126702068145.

[3] Orientadora. Doutora em Psicologia Clínica pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP. ORCID: https://orcid.org/OOOO-0001-8466-838X. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8344256632592667.

Material recebido: 15 de julho de 2025.

Material aprovado pelos pares: 31 de julho de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 22 de setembro de 2025.

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Roseli Cristina Campos do Carmo

Mestre em Comunicação Humana e Saúde/ doutoranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação Humana e Saúde da PUC-SP. ORCID: https://orcid.org/OOOO-0002-1768-0423. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/7105059130198777.

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