ARTIGO ORIGINAL
SEVERO, Josefa Vieira de Oliveira [1]
SEVERO, Josefa Vieira de Oliveira. A igreja como instituição de intervenção direta na conscientização e no suporte a mulheres em situação de violência doméstica: Um estudo quantitativo e comparativo sobre acolhimento, proteção da mulher e protagonismo da liderança feminina. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 08, Vol. 01, pp. 59-84. Agosto de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/situacao-de-violencia-domestica, DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.21925488
A violência doméstica contra a mulher constitui uma das mais persistentes violações de direitos humanos do mundo contemporâneo, atingindo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma em cada três mulheres ao longo da vida. Este artigo investiga, por meio de abordagem quantitativa e comparativa, o papel da instituição Igreja como agente de intervenção direta na conscientização e no suporte às vítimas, com foco na defesa e na proteção da mulher. A partir de dados de organismos internacionais (OMS, UNFPA, ONU Mulheres) e nacionais (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Ministério das Mulheres, DataSenado), o estudo descreve a magnitude do fenômeno, examina por que apenas uma minoria das vítimas busca ajuda e analisa por que o espaço religioso é, simultaneamente, um dos primeiros lugares procurados e um potencial reprodutor de silenciamento. São apresentados casos internacionais de intervenção eclesial bem-sucedida, FaithTrust Institute (EUA), programa MATE (Austrália), Domestic Violence Outreach da Arquidiocese de Chicago e iniciativas brasileiras e propõe-se um modelo de atuação direta liderado por mulheres, estruturado em escuta qualificada, letramento jurídico, articulação com a rede de proteção e formação continuada de lideranças. Conclui-se que a Igreja, quando deixa o modelo de barreira e assume o modelo de ponte, pode reduzir o tempo entre a agressão e a busca de ajuda, ampliar a denúncia e salvar vidas.
Palavras-chave: Violência doméstica, Igreja. Acolhimento, Proteção da mulher, Liderança feminina, Psicologia comunitária.
A casa, idealizada como espaço de refúgio e afeto, é paradoxalmente o lugar mais perigoso para milhões de mulheres. Os dados reunidos por organismos internacionais e nacionais ao longo das últimas duas décadas convergem para um diagnóstico inquietante: a violência doméstica e familiar[2] não é um conjunto de episódios isolados, mas um fenômeno estrutural, transgeracional e de escala global, que a literatura tem descrito, com propriedade, como uma verdadeira pandemia silenciosa.
Diante de um problema dessa magnitude, nenhuma instituição isolada; Estado, Judiciário, sistema de saúde ou sociedade civil dá conta sozinha da tarefa de prevenir, acolher e proteger. É nesse ponto que a Igreja, enquanto instituição de enorme capilaridade social, vínculo comunitário e presença cotidiana na vida das famílias, emerge como ator estratégico, ainda que historicamente ambíguo. De um lado, a comunidade de fé pode ser o primeiro e mais acessível ponto de escuta de uma mulher em sofrimento; de outro, determinadas leituras religiosas sobre matrimônio, submissão e perdão têm contribuído, ao longo da história, para silenciar vítimas e legitimar agressores.
Este artigo parte de uma convicção e de uma constatação. A convicção é a de que a Igreja tem vocação e condições concretas para ser instrumento de proteção da vida e da dignidade da mulher. A constatação é a de que, para cumprir essa vocação, ela precisa abandonar o modelo de mediação que aconselha a vítima a “orar mais” e abraçar um modelo de intervenção direta, qualificado, articulado com a rede de proteção e este é um eixo central do presente trabalho liderado por mulheres.
O objetivo geral é demonstrar, com base em evidências quantitativas e em casos comparados, a importância e a viabilidade da intervenção eclesial direta na conscientização e no suporte a mulheres em situação de violência doméstica. Como objetivos específicos, busca-se: (i) dimensionar a magnitude global e nacional do fenômeno; (ii) compreender por que a maioria das vítimas não busca ajuda e qual o lugar da Igreja nesse fluxo; (iii) analisar experiências internacionais e brasileiras de intervenção religiosa bem-sucedida; e (iv) propor um modelo de atuação direta, protagonizado por lideranças femininas, aplicável a comunidades de fé.
Justifica-se a pesquisa pela urgência do tema e pela relativa escassez de literatura empírica sobre o papel das organizações religiosas no enfrentamento da violência de gênero, lacuna apontada por diversos pesquisadores da área. Para profissionais da psicologia, do serviço social e da assistência pastoral, dispor de um quadro de referência que articule dados, fundamentos e práticas é condição para uma atuação responsável e eficaz.
O presente estudo caracteriza-se como pesquisa de natureza aplicada, de abordagem predominantemente quantitativa e complementada por análise qualitativa-comparativa, com objetivos descritivos e exploratórios. O delineamento adotado é o de revisão documental e bibliográfica de fontes secundárias, organizadas em três blocos.
O primeiro bloco reúne dados epidemiológicos e estatísticos de organismos internacionais Organização Mundial da Saúde (OMS), Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e ONU Mulheres e nacionais Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Ministério das Mulheres, Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Instituto de Pesquisa DataSenado. O segundo bloco compreende a literatura científica revisada por pares sobre intervenções de base religiosa, recuperada em bases como PubMed, SciELO e portais acadêmicos. O terceiro bloco abrange relatos institucionais e documentos de programas religiosos de enfrentamento à violência.
O tratamento dos dados foi conduzido por meio de estatística descritiva (frequências, proporções e séries temporais), e a comparação entre experiências internacionais e nacionais seguiu a lógica do estudo de casos múltiplos, buscando identificar fatores comuns de êxito. Reconhece-se como limitação metodológica a conhecida subnotificação da violência doméstica todos os inquéritos provavelmente subestimam a prevalência real, pois sempre haverá mulheres que não revelam a experiência vivida, sobretudo onde a violência é fortemente estigmatizada.
A análise quantitativa do fenômeno deve começar pela escala global, para então descer ao caso brasileiro. Antes, porém, convém reconhecer que a violência doméstica não se reduz à agressão física, e que sua dinâmica psicológica explica por que as vítimas frequentemente permanecem por longos períodos expostas ao risco.
Compreender a magnitude do fenômeno exige reconhecer que a violência doméstica não se reduz à agressão física. A Lei Maria da Penha, alinhada à literatura internacional, distingue ao menos cinco formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Os dados nacionais demonstram que a violência psicológica é, frequentemente, a mais registrada respondendo, segundo a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), por cerca de um terço das violações relatadas, à frente até da violência física. Essa constatação é decisiva para o trabalho eclesial, porque a violência psicológica é precisamente a forma mais invisível, mais difícil de nomear e mais propensa a ser minimizada pela própria vítima e por sua comunidade.
Crescem, ademais, formas contemporâneas como o stalking (perseguição) e a violência digital, ambas em expansão nos registros oficiais brasileiros. A violência patrimonial, controle do dinheiro, destruição de bens, sabotagem da autonomia econômica da mulher é particularmente relevante em contextos comunitários, pois aprisiona a vítima ao agressor por dependência material. Uma comunidade de fé atenta a essas múltiplas faces amplia significativamente sua capacidade de identificação precoce, antes que o ciclo escale para a agressão física e, no limite, para o feminicídio.
A pergunta que recorrentemente se ouve “por que ela não vai embora?” revela desconhecimento sobre a dinâmica psicológica da violência íntima. A literatura descreve um ciclo em três fases: o acúmulo de tensão, a explosão da agressão e a fase de reconciliação, popularmente chamada de “lua de mel”, em que o agressor demonstra arrependimento, faz promessas e reativa o vínculo afetivo. É esse ciclo, repetido e progressivamente mais curto, que prende a vítima: a esperança de mudança, reforçada nas fases de reconciliação, convive com o medo e com a corrosão da autoestima.
A pesquisa do DataSenado evidencia a recorrência: quase seis em cada dez mulheres relatam que as agressões se repetem, e parcela significativa convive com episódios há mais de um ano. Soma-se a isso o agravante de que, na maioria dos casos, há crianças presentes durante a agressão, frequentemente filhos e filhas da própria vítima, o que conecta a violência conjugal à perpetuação transgeracional de padrões familiares disfuncionais. Compreender o ciclo é indispensável para que o acolhimento não recaia no erro de cobrar da vítima uma saída imediata, mas a sustente ao longo de um processo que é, por natureza, gradual.
As estimativas mais recentes, divulgadas conjuntamente pela OMS e por parceiros das Nações Unidas em novembro de 2025, revelam que aproximadamente 840 milhões de mulheres, cerca de uma em cada três no mundo já sofreram violência por parceiro íntimo[3] ou violência sexual por não parceiro ao longo da vida.
Esse número, alarmante por si só, é agravado por um dado de estagnação: a redução média anual da violência por parceiro íntimo nas últimas duas décadas foi de apenas 0,2%, o que torna a meta 5.2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável[4] eliminar a violência contra mulheres e meninas até 2030, praticamente inalcançável nos termos atuais. Em outras palavras, em vinte anos de monitoramento global, a marca de “uma em cada três” permaneceu essencialmente inalterada.
Somente nos últimos doze meses considerados, estima-se que 316 milhões de mulheres, 11% daquelas com 15 anos ou mais, tenham sido submetidas a violência física ou sexual por parte de um parceiro íntimo. A esses dados soma-se a estimativa de que cerca de 263 milhões de mulheres já sofreram violência sexual praticada por alguém que não era seu parceiro.
A distribuição do fenômeno é profundamente desigual entre regiões. Mulheres em contextos menos desenvolvidos, afetados por conflitos e vulneráveis ao clima são desproporcionalmente atingidas. A Oceania (excluídas Austrália e Nova Zelândia) registra a maior prevalência de violência por parceiro íntimo no último ano, mais de três vezes a média global, seguida pela África Subsaariana e pela Ásia Meridional. O Gráfico 1 sintetiza esse panorama regional.
Gráfico 1. Prevalência regional de violência por parceiro íntimo (VPI)
A face mais extrema da violência doméstica é a morte. Estima-se que, a cada onze minutos, em algum lugar do mundo, uma mulher ou menina seja assassinada por um familiar ou parceiro íntimo. Anualmente, aproximadamente cinquenta mil mulheres são mortas por alguém de seu próprio círculo familiar. A maioria dos assassinatos de mulheres ocorre, portanto, não nas ruas, mas precisamente onde elas deveriam estar mais seguras.
A literatura é consistente ao demonstrar que a violência doméstica tende a aumentar em períodos de emergência, incluindo epidemias e desastres. Durante o distanciamento social imposto pela pandemia de COVID-19, países como França, Chipre, Singapura e Argentina registraram aumentos de 25% a 30% nos casos, vitimando de forma especialmente cruel grupos mais vulneráveis idosas, mulheres com deficiência, refugiadas e moradoras de áreas de conflito. O confinamento, medida sanitária necessária, converteu-se, para muitas, em aprisionamento junto ao agressor. Essa constatação reforça a importância de redes comunitárias capilares entre as quais a Igreja capazes de manter canais de escuta abertos mesmo quando os serviços formais se retraem.
O Brasil reproduz e, em certos indicadores, agrava o quadro mundial. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado, em sua edição de 2025, estimou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar no período. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, por sua vez, registrou novo recorde da série histórica de feminicídios, conforme ilustra o Gráfico 2.
Gráfico 2. Evolução dos feminicídios no Brasil (2020–2024)
Os dados oficiais traçam um perfil nítido das vítimas e das circunstâncias. Em 2024, cerca de 63,6% das vítimas de feminicídio eram negras; aproximadamente sete em cada dez tinham entre 18 e 44 anos; oito em cada dez foram mortas por companheiros ou ex-companheiros; e a maioria dos crimes em torno de 64% ocorreu dentro de casa. Quase a totalidade dos agressores (97%) era do sexo masculino. Esses números confirmam que o feminicídio é, em regra, o desfecho de um ciclo de violência doméstica previamente instalado, e não um ato súbito.
O ambiente doméstico como local de risco é confirmado por outra fonte oficial: segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde, cerca de 71,6% das notificações de violência contra mulheres ocorreram dentro de casa, e em 76,6% dos registros o agressor era do sexo masculino. A interseccionalidade de raça e gênero é evidente: 60,4% das vítimas adultas notificadas eram mulheres negras.
O Conselho Nacional de Justiça registrou, em 2024, mais de 966 mil casos novos de violência doméstica chegando ao Judiciário, com mais de 1,29 milhão de processos pendentes ao fim do ano. Foram solicitadas centenas de milhares de medidas protetivas, das quais a maioria concedida. Embora o tempo médio de análise das medidas protetivas tenha caído de dezesseis para cinco dias na última década, um avanço relevante, o volume de processos pendentes evidencia que a resposta estatal, isolada, é insuficiente para conter a demanda.
O dado mais decisivo para o argumento deste artigo diz respeito ao comportamento de busca de ajuda. Globalmente, menos de 40% das mulheres que sofrem violência buscam qualquer tipo de apoio; entre as que buscam, a minoria recorre a instituições formais. No Brasil, o estudo “Visível e Invisível”, do FBSP e do Datafolha (2025), revelou que 47,4% das mulheres vítimas de violência grave não fizeram nada após o episódio mais sério, e apenas 6% procuraram a igreja. O Gráfico 3 sintetiza o destino das vítimas.
Gráfico 3. Resposta das mulheres após episódio grave de violência
Dois fatos extraídos desses números orientam toda a discussão subsequente. Primeiro: a inação é a resposta mais comum, o que significa que o desafio central não é apenas oferecer serviços, mas criar condições de confiança e segurança que rompam o silêncio. Segundo: embora a igreja seja procurada por uma parcela ainda pequena (6%), ela já figura entre os recursos acionados e o faz a partir de uma posição de proximidade afetiva e cotidiana que poucas instituições possuem. O potencial de crescimento desse canal, se devidamente qualificado, é considerável.
A relação entre religião e violência doméstica é marcada por uma ambivalência que precisa ser nomeada com honestidade. Pesquisas brasileiras indicam que a prevalência de violência entre mulheres evangélicas é elevada: o estudo “Visível e Invisível” apontou que cerca de 42,7% das mulheres evangélicas relataram já ter sofrido algum tipo de violência. Entre as vítimas, parcela significativa não tomou qualquer providência, apenas uma fração procurou a igreja.
A literatura qualitativa esclarece os mecanismos. Em muitas comunidades, a centralidade do casamento e a ideia de que a união deve ser preservada a qualquer custo levam a que mulheres sejam orientadas a perdoar, resignar-se e orar pela mudança do agressor, em vez de buscar proteção. Quando a vítima é aconselhada a “orar mais”, transfere-se a ela a culpa pela própria violência, como se a falta de fé explicasse o sofrimento. Nesse modelo, a mediação religiosa funciona como barreira ao enfrentamento: desestimula a denúncia, retarda a saída do relacionamento e prolonga a exposição ao risco.
A própria voz das lideranças que romperam com esse paradigma é eloquente. Em manifesto sobre o tema, lideranças femininas afirmam que é imperativo que líderes jamais peçam a uma mulher em relacionamento abusivo que ore mais, e que a comunidade deve auxiliá-la na denúncia, buscar abrigo, alimentação e condições dignas para ela e seus filhos, lembrando que a violência contra a mulher é crime e que quem se cala diante dela torna-se cúmplice.
Ao modelo de barreira contrapõe-se o modelo de ponte, em que a comunidade de fé funciona como elo entre a vítima e a rede de proteção. As mesmas características que, mal orientadas, produzem silenciamento, proximidade, confiança, acesso cotidiano à liderança convertem-se, quando bem direcionadas, em poderosos instrumentos de proteção. Pesquisadoras observam que, diferentemente da hierarquia mais distante de algumas tradições, em diversas comunidades evangélicas o pastor ou a pastora é figura acessível, a quem a fiel recorre para desabafar; essa proximidade, em vez de barreira, pode tornar-se a porta de entrada para a quebra do ciclo de agressões.
O Gráfico 4 contrasta, de forma conceitual, as duas posturas institucionais ao longo de cinco dimensões críticas da resposta eclesial.
Gráfico 4. Modelo barreira versus modelo ponte
A violência doméstica raramente é um evento isolado: ela se inscreve, em geral, em um sistema familiar disfuncional, marcado por relações de poder assimétricas, comunicação hostil ou ausente, segredos, isolamento e papéis rígidos. A psicologia sistêmica ensina que o sofrimento de um membro expressa um desequilíbrio do conjunto, e que padrões de violência tendem a se reproduzir entre gerações quando não há interrupção qualificada do ciclo. Crianças que crescem expondo-se à violência entre os pais têm maior probabilidade de, na vida adulta, reproduzir ou tolerar relações abusivas, fenômeno que os dados brasileiros, ao registrarem a presença de filhos em grande parte das agressões, tornam tangível.
É nesse ponto que a comunidade de fé revela um potencial singular. Por acompanhar famílias ao longo do tempo, em diferentes gerações e em múltiplos momentos do ciclo de vida, casamentos, nascimentos, lutos, a Igreja dispõe de uma janela de observação que nenhum serviço pontual possui. Essa convivência prolongada permite identificar sinais de disfunção antes que se convertam em violência aberta e oferecer suporte ao sistema familiar como um todo, sem jamais perder de vista que a prioridade absoluta é a segurança da mulher e das crianças. Trabalhar a família disfuncional não significa, em hipótese alguma, condicionar a proteção da vítima à preservação do vínculo; significa, ao contrário, interromper a transmissão do padrão e abrir caminho para relações saudáveis, dentro ou fora daquela configuração familiar.
A literatura adverte, contudo, para um risco específico do ambiente religioso: a ideia de que o casamento deve ser mantido a qualquer custo pode transformar o cuidado com a família em instrumento de aprisionamento da mulher. O discurso que atribui a ela a responsabilidade pelo “equilíbrio do lar” e que mede o sucesso feminino pela manutenção da união converte a vítima em culpada por um eventual divórcio. Cabe à liderança feminina qualificada desarmar essa armadilha, afirmando com clareza teológica e psicológica que não há família saudável onde há violência, e que proteger a mulher é, também, proteger a família.
Do ponto de vista da psicologia, a eficácia da intervenção comunitária apoia-se em mecanismos bem documentados. A escuta sem julgamento reduz a vergonha e a autoculpabilização que caracterizam o trauma da violência íntima e que constituem barreiras centrais à revelação. O suporte social percebido é um dos preditores mais robustos de recuperação e de capacidade de saída de relacionamentos abusivos. O fortalecimento da autoestima e do senso de agência em oposição ao discurso que reduz a mulher à função de cuidado e à manutenção do lar é condição para que a vítima reconheça a situação e busque ajuda, processo que a literatura descreve como um longo caminho de conscientização.
É justamente nesse terreno o da reconstrução do senso de valor e de direito que a competência da psicologia se encontra com a missão de acolhimento da comunidade de fé. A articulação entre ambas, longe de ser concorrência, é complementaridade.
A seguir, examinam-se quatro experiências de intervenção religiosa que oferecem lições transferíveis. O Quadro 1 resume seus elementos centrais.
Quadro 1. Síntese comparativa de quatro experiências de intervenção eclesial
| Iniciativa / País | Tradição | Contribuição central |
|---|---|---|
| FaithTrust Institute (EUA) | Multirreligiosa | Formação de lideranças religiosas para prevenção e resposta à violência sexual e doméstica. |
| Programa MATE (Austrália) | Cristã (rede de igrejas) | Abordagem do espectador adaptada à fé, mudança de normas sociais e formação de multiplicadores. |
| Domestic Violence Outreach (Chicago, EUA) | Católica | Estrutura diocesana e paroquial sustentada por cultura institucional de compromisso persistente. |
| EIG e pastoras (Brasil) | Evangélica | Acolhimento, formação de lideranças femininas e incentivo à denúncia, articulado à rede de proteção. |
Fonte: Elaboração própria a partir da literatura analisada (2025).
O FaithTrust Institute[5] é uma organização multirreligiosa e multicultural de alcance global dedicada a pôr fim à violência sexual e doméstica. Sua estratégia central não é substituir os serviços especializados, mas capacitar líderes religiosos clero, seminaristas e leigos com formação, ferramentas e materiais educativos religiosamente sensíveis. A premissa é simples e poderosa: líderes religiosos frequentemente são as primeiras pessoas a quem a vítima recorre, e por isso precisam saber reconhecer sinais, responder com segurança e encaminhar adequadamente. O instituto integra uma rede mais ampla de organizações que reconhecem o papel crítico da comunidade de fé na prevenção, na intervenção e na cura.
O programa Motivating Action Through (MATE)[6] Empowerment foi implementado em uma rede de igrejas cristãs na região de Gold Coast, em Queensland. Sua inovação está em deslocar o foco do binômio agressor-vítima para a responsabilidade comunitária: o objetivo é mobilizar o “espectador” (bystander) para que não aceite atitudes e comportamentos que sustentam a violência. Tradicionalmente oferecidos em campi universitários, programas desse tipo foram, no caso australiano, adaptados ao contexto religioso por meio de oficinas de mudança cultural conduzidas por multiplicadores formados nas próprias igrejas. A avaliação qualitativa identificou que esse modelo multifacetado pode elevar a conscientização, promover a igualdade de gênero e encorajar a ação pró-social, desde que adaptado às necessidades e à linguagem de cada comunidade.
O ministério de enfrentamento à violência por parceiro íntimo da Arquidiocese de Chicago[7] oferece uma lição organizacional preciosa. Estudo baseado em entrevistas com sua liderança identificou que o principal fator de sucesso foi a cultura institucional: a paixão e o compromisso com a causa permitiram aos membros do ministério persistir, sobretudo no trabalho de reverter a relativa inação histórica da própria Igreja sobre o tema. A experiência atuou simultaneamente nos níveis diocesano e paroquial, demonstrando que a sustentabilidade da intervenção depende menos de recursos pontuais e mais de uma cultura partilhada de responsabilidade.
No Brasil, multiplicam-se experiências que apontam o caminho. Coletivos como o Evangélicas pela Igualdade de Gênero[8] atuam, desde 2015, no acolhimento de mulheres vítimas e na formação de lideranças religiosas, enfrentando interpretações que associam a mulher à submissão. As pastoras têm assumido publicamente a posição de que mulheres vítimas não devem apenas “orar pelo agressor”, mas buscar proteção para si, postura que, ao viralizar, reacendeu um debate nacional. Observa-se que lideranças femininas frequentemente percebem nuances da violência espiritual, emocional e doméstica que por muito tempo permaneceram invisíveis.
No campo católico, a Arquidiocese de Brasília firmou parceria inédita com a Secretaria da Mulher para acolher e instruir mulheres em situação de violência, sob o entendimento de que a Igreja não pretende substituir o Estado, mas cumprir seu papel de evangelizar, acolher e instruir mulheres que não conhecem seus direitos. Some-se a isso a presença histórica de centros de acolhimento, alguns com assessoria jurídica em estabelecimentos religiosos de diferentes tradições. O conjunto dessas iniciativas, embora ainda disperso, comprova a viabilidade prática do modelo de ponte em solo brasileiro.
A comparação entre as quatro experiências revela convergências notáveis, apesar das diferenças de país, tradição e escala. A primeira é que nenhuma delas pretende substituir o Estado ou os serviços especializados: todas operam como ponte, qualificando a comunidade para reconhecer, acolher e encaminhar. A segunda é que o investimento em formação de lideranças e não em ações isoladas é o que confere consistência e durabilidade ao trabalho. A terceira é que a adaptação ao contexto de fé, longe de ser concessão, é condição de eficácia: a mensagem precisa falar a linguagem da comunidade para mobilizá-la.
A quarta convergência, central para este artigo, é o protagonismo feminino. Seja nas pastoras brasileiras que percebem nuances invisíveis da violência, seja nas equipes que sustentam os ministérios norte-americanos, a presença de mulheres em posição de liderança e escuta aparece sistematicamente associada ao êxito. Esse achado não é acidental: a identificação entre quem acolhe e quem é acolhida reduz barreiras de vergonha e desconfiança, e a experiência compartilhada de gênero amplia a sensibilidade para formas sutis de abuso. Daí decorre, com força de evidência, o posicionamento que estrutura a proposta apresentada na seção 8.
Da análise comparativa dos casos e da literatura emergem fatores recorrentes que determinam o êxito ou o fracasso das iniciativas religiosas. Sistematizá-los é útil para que profissionais e lideranças não reinventem o caminho a cada nova experiência, mas aprendam com o conjunto.
A primeira barreira é teológico-cultural: leituras que sacralizam o matrimônio a qualquer custo e que associam a mulher à submissão transformam o conselho religioso em obstáculo à proteção. Quando a vítima é orientada a resignar-se e a orar pela mudança do agressor, a religião opera contra a vida. A segunda barreira é a inação institucional histórica: estudos registram que a proporção de congregações com programas estruturados de apoio a vítimas é baixa e, em algumas séries, declinou ao longo do tempo, revelando que o tema permaneceu por décadas à margem da agenda eclesial.
A terceira barreira é a revitimização comunitária: relatos de mulheres que, ao buscar acolhimento, foram julgadas ou hostilizadas por outros membros por vezes mais pelas próprias mulheres do que pelos homens demonstram que, sem formação de toda a comunidade, o espaço de fé pode tornar-se fonte adicional de sofrimento. A quarta barreira é a restrição à liderança feminina: muitas denominações ainda limitam ou impedem a ordenação de mulheres, mantendo à margem precisamente as lideranças mais capazes de perceber nuances da violência e de inspirar confiança nas vítimas.
Entre os facilitadores, destaca-se em primeiro lugar a cultura institucional de compromisso, identificada como o principal fator de êxito na experiência de Chicago: paixão, persistência e responsabilidade compartilhada sustentam o trabalho mais do que recursos pontuais. Em segundo lugar, a proximidade e a acessibilidade da liderança característica de muitas comunidades evangélicas convertem-se, quando bem orientadas, em porta de entrada privilegiada para a quebra do ciclo.
Em terceiro lugar, a adaptação cultural e linguística dos programas, lição central do MATE, garante que a mensagem ressoe no contexto de fé em vez de soar como intervenção externa. Em quarto lugar, a parceria com a rede pública, a exemplo da articulação entre arquidioceses e secretarias da mulher, multiplica a eficácia ao combinar o alcance comunitário da Igreja com a competência técnica do Estado. Por fim, o protagonismo feminino aparece transversalmente como facilitador decisivo, presente em todas as experiências bem-sucedidas analisadas.
Articulando os dados quantitativos, os fundamentos psicológicos e os casos analisados, propõe-se aqui um modelo de atuação eclesial direta, estruturado e protagonizado por lideranças femininas. O posicionamento é deliberado: por razões de identificação, confiança e percepção de nuances, a condução do trabalho por mulheres não é um detalhe operacional, mas um princípio estruturante. A seguir, os eixos do modelo.
Constituição, em cada comunidade, de um grupo de referência de mulheres preferencialmente integrando ao menos uma profissional da psicologia ou do serviço social encarregado de coordenar o acolhimento. A proximidade entre mulheres reduz a barreira da vergonha e amplia a capacidade de identificar formas sutis de violência psicológica e patrimonial. Esse grupo deve ter mandato institucional claro e respaldo da liderança máxima da comunidade.
Formação de todas as pessoas envolvidas no acolhimento para a escuta ativa, sem julgamento e sem qualquer transferência de culpa à vítima. O princípio inegociável, extraído da experiência das lideranças brasileiras, é que jamais se peça à mulher que “ore mais” como resposta à violência. A escuta deve validar a emoção sem validar a permanência no risco, e deve sempre culminar em encaminhamento.
Promoção sistemática do conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, as medidas protetivas e os canais oficiais entre eles o Ligue 180. A pesquisa do DataSenado mostra que o desconhecimento da legislação é maior entre mulheres de menor renda e escolaridade, exatamente o público que muitas comunidades de fé alcançam. Levar informação jurídica acessível ao espaço religioso é, portanto, ação de alto impacto e baixo custo.
Estabelecimento de protocolos de encaminhamento para delegacias especializadas, centros de referência de atendimento à mulher, casas-abrigo, defensoria pública e serviços de saúde. A Igreja não deve e não pode substituir o Estado ou exercer função de perícia; seu papel é ser porta de entrada confiável e ponte segura para os serviços especializados. A clareza dessa fronteira protege a vítima e a própria instituição.
Inserção contínua do tema na vida comunitária por meio de pregações temáticas, estudos, semanas da família dedicadas ao enfrentamento da violência, encontros de conscientização de mulheres e testemunhos de restauração. O objetivo é duplo: desnaturalizar a violência e desautorizar leituras que a legitimem, deslocando a comunidade de espectadora passiva para agente ativo de prevenção, na linha do que demonstrou o programa MATE.
Capacitação periódica de líderes homens e mulheres inspirada no modelo do FaithTrust Institute, para reconhecimento de sinais, resposta segura e encaminhamento adequado. A sustentabilidade do trabalho, como ensina a experiência de Chicago, depende menos de campanhas pontuais e mais da construção de uma cultura institucional de compromisso persistente.
O Quadro 2 sintetiza os eixos, suas ações e os resultados esperados.
Quadro 2. Síntese do modelo de intervenção direta liderado por mulheres
| Eixo | Ação principal | Resultado esperado |
|---|---|---|
| 1. Liderança feminina | Grupo de referência de mulheres com apoio técnico. | Maior confiança e identificação da vítima. |
| 2. Escuta qualificada | Acolhimento sem julgamento nem culpabilização. | Quebra do silêncio e redução da vergonha. |
| 3. Letramento jurídico | Difusão da Lei Maria da Penha e canais oficiais. | Conhecimento de direitos e acesso à proteção. |
| 4. Rede de proteção | Protocolos de encaminhamento à rede especializada. | Saída segura do ciclo de violência. |
| 5. Conscientização | Tema permanente na vida comunitária. | Desnaturalização e prevenção. |
| 6. Formação continuada | Capacitação periódica de lideranças. | Sustentabilidade e cultura institucional. |
Fonte: Elaboração própria (2026).
A defesa da intervenção eclesial direta não pode obscurecer seus limites. Três advertências são indispensáveis. Primeira: a fronteira entre acolhimento espiritual e atuação técnica deve ser rigorosamente respeitada[9]; a comunidade de fé acolhe e encaminha, mas não realiza perícia, não conduz processos e não substitui o atendimento psicológico clínico nem a atuação policial e judicial. Segunda: jamais se deve promover a reconciliação como meta a priori, nem submeter vítima e agressor a aconselhamento conjunto, prática contraindicada por colocar a mulher em risco. Terceira: o sigilo e a segurança da vítima são absolutos, e qualquer ação deve respeitar seu protagonismo e sua autonomia decisória.
Há ainda o risco de revitimização institucional, documentado em relatos de mulheres que, ao buscar a comunidade, foram hostilizadas ou julgadas por outros membros. Por isso, a formação proposta deve alcançar não apenas as lideranças, mas a comunidade como um todo, sob pena de a vítima encontrar, no lugar de refúgio, nova fonte de sofrimento. O cuidado ético, portanto, não é acessório ao modelo: é sua condição de legitimidade.
Os dados examinados neste artigo não deixam margem a dúvida quanto à gravidade e à persistência da violência doméstica como pandemia global: uma em cada três mulheres atingida ao longo da vida, prevalência estagnada há duas décadas, dezenas de milhares de mortes anuais e um lar que, para milhões, é o lugar mais perigoso. No Brasil, recordes sucessivos de feminicídio convivem com a constatação de que a maioria das vítimas não busca ajuda e que, quando busca, a igreja já figura, ainda que timidamente, entre os recursos acionados.
É exatamente nessa lacuna entre o sofrimento e a busca de ajuda que reside a oportunidade histórica da Igreja. Pela capilaridade, pelo vínculo de confiança e pela presença cotidiana, a comunidade de fé pode encurtar a distância entre a agressão e a proteção. Para isso, precisa optar conscientemente pelo modelo de ponte em vez do modelo de barreira, abandonando o conselho de “orar mais” e abraçando o acolhimento qualificado, o letramento jurídico, a articulação com a rede e, sobretudo, o protagonismo das mulheres.
As experiências internacionais e brasileiras analisadas demonstram que esse caminho não é utópico, mas praticável e replicável. O modelo de intervenção direta liderado por mulheres aqui proposto sintetiza essas lições em eixos operacionais aplicáveis a qualquer comunidade disposta a assumir a defesa da vida e da dignidade da mulher como parte inseparável de sua missão. Mais do que uma possibilidade, trata-se de um imperativo: onde há violência, não há amor; e calar-se diante dela é, como advertem as próprias lideranças religiosas, tornar-se cúmplice.
Recomenda-se, por fim, que pesquisas futuras avancem na avaliação empírica de impacto dessas intervenções com indicadores de denúncia, de tempo até a busca de ajuda e de desfechos de segurança, suprindo a reconhecida escassez de evidências quantitativas sobre a eficácia das iniciativas de base religiosa e fortalecendo, com ciência, uma causa que é, antes de tudo, de proteção à vida.
AGÊNCIA BRASIL. Brasil registra 1.450 feminicídios em 2024, 12 a mais que ano anterior. Brasília: EBC, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 25 jun. 2026.
AGÊNCIA BRASIL. Mortes intencionais caem 5,4% no país em 2024; feminicídios sobem 19%. Brasília: EBC, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 25 jun. 2026.
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2. Adota-se neste artigo a definição da Lei n. 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), que compreende como violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico, patrimonial ou moral.
3. VPI: violência por parceiro íntimo (em inglês, IPV intimate partner violence), categoria empregada pela OMS para padronizar estimativas globais.
4. ODS 5.2: meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU referente à eliminação de todas as formas de violência contra mulheres e meninas até 2030.
5. FaithTrust Institute: organização multirreligiosa sediada nos Estados Unidos, pioneira no treinamento de lideranças religiosas para o enfrentamento da violência sexual e doméstica.
6. MATE — Motivating Action Through Empowerment: programa australiano de abordagem do espectador (bystander) adaptado a redes de igrejas cristãs em Queensland.
7. ACDVO — Archdiocese of Chicago Domestic Violence Outreach: ministério da Arquidiocese de Chicago dedicado à resposta à violência por parceiro íntimo em nível diocesano e paroquial.
8. EIG — Evangélicas pela Igualdade de Gênero: coletivo brasileiro fundado em 2015, atuante no acolhimento de mulheres e na formação de lideranças religiosas.
9. Sobre os limites éticos da mediação pastoral, ver discussão na seção 6 acerca da fronteira entre aconselhamento espiritual e encaminhamento à rede especializada.
[1] Graduação em Psicologia pela Universidade Bandeirante de São Paulo (UNIBAN). ORCID: 0009-0007-2448-4096.
Contribuição dos autores:
Josefa Vieira de Oliveira Severo: Concepção e planejamento do estudo; levantamento e análise das fontes; interpretação dos dados; elaboração dos quadros e gráficos; redação, revisão crítica e aprovação da versão final do manuscrito.
Conflito de interesse:
N/A.
Agradecimentos:
N/A.
Financiamento:
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Nota de presença de IA:
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 01 de julho de 2026.
Material aprovado pelos pares: 15 de julho de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 11 de agosto de 2026.
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