ARTIGO ORIGINAL
OLIVEIRA, Gustavo Rodrigues Vidal de [1]
OLIVEIRA, Gustavo Rodrigues Vidal de. Efeitos nocivos do calor excessivo no cabelo: Análise sobre pranchas e escovas/secadores. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 11, Vol. 02, pp. 95-104. Novembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/efeitos-nocivos, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/efeitos-nocivos
O uso de ferramentas térmicas, como pranchas alisadoras e escovas/secadores, tornou-se prática rotineira na modelagem capilar, mas está associado a diversos tipos de dano físico e químico à fibra do cabelo. Este trabalho apresenta uma revisão narrativa da literatura científica sobre os efeitos nocivos do calor excessivo na haste capilar, com ênfase em pranchas e em instrumentos que combinam escovação e fluxo de ar quente. Foram consultados artigos indexados em bases internacionais e revisões especializadas em cosméticos capilares, térmica de queratinas e métodos in vitro de avaliação de dano. Estud O uso de ferramentas térmicas, como pranchas alisadoras e escovas/secadores, tornou-se prática rotineira na modelagem capilar, mas está associado a diversos tipos de dano físico e químico à fibra do cabelo os de microscopia eletrônica, calorimetria exploratória diferencial e termogravimetria evidenciam que temperaturas elevadas (acima de 180–200 °C) podem levar à desnaturação irreversível da α-queratina, formação de trincas, bolhas e poros no córtex, além de levantamento e perda de cutícula. Ferramentas térmicas de ar quente em temperaturas moderadas, quando usadas a adequada distância e com movimento contínuo, produzem principalmente dano superficial, mas modelos recentes demonstram que o uso prolongado de secadores é capaz de reduzir a resistência mecânica, o conteúdo hídrico e o teor proteico da fibra. Conclui-se que a contenção de temperatura, a redução da frequência de uso, o emprego de termoprotetores e a consideração do histórico químico do fio são estratégias fundamentais para minimizar danos térmicos, especialmente em cabelos previamente descoloridos ou quimicamente tratados.
Palavras-chave: Cabelo, Calor excessivo, Dano térmico, Prancha alisadora, Secador de cabelo.
O cabelo humano é constituído principalmente por queratina, organizada em cutícula e córtex, sendo a medula ausente em grande parte dos fios. A cutícula é formada por camadas de células sobrepostas recobertas por uma monocamada lipídica rica em 18-metil eicosanóico (18-MEA), responsável pela hidrofobicidade, brilho e baixo atrito da superfície. Já o córtex concentra a maior parte da massa da fibra, sendo composto por macrofibrilas de α-queratina com alta densidade de ligações dissulfeto, o que confere resistência e elasticidade à haste (Dias, 2015).
A integridade dessas estruturas é determinante para a percepção de “cabelo saudável”, entendida como combinação de superfície lisa, brilho, facilidade de penteabilidade e ausência de frizz e quebra excessiva (Dias, 2015). Embora grande parte da literatura foque em danos químicos — por exemplo, descoloração, alisamentos e tinturas oxidativas — sabe-se que traumas físicos, como penteados agressivos, fricção, radiação UV e calor excessivo, também contribuem para o fenômeno de “weathering” ou envelhecimento da haste capilar.
Nos últimos anos, o uso cotidiano de pranchas alisadoras e de secadores/escovas secadoras intensificou a exposição térmica do cabelo. Revisões baseadas em calorimetria e termogravimetria apontam que o aquecimento da fibra até 300 °C desencadeia eventos de desnaturação da α-queratina e, em faixas mais altas, processos de degradação e pirólise, com dano potencialmente irreversível (Lima et al., 2018; Mihăilă et al., 2017).
Paralelamente, estudos clínicos e experimentais demonstram que tanto o fluxo de ar quente de secadores quanto o contato direto de chapinhas com temperaturas elevadas modificam a morfologia da cutícula, alteram o conteúdo hídrico e reduzem a resistência mecânica do fio (Lee et al., 2011; Gamez-Garcia, 2011; Zi et al., 2025).
Diante da ampla utilização desses dispositivos em ambientes domésticos e profissionais, torna-se relevante sistematizar as evidências científicas disponíveis sobre os efeitos nocivos do calor excessivo no cabelo, discutindo mecanismos de dano, diferenças entre ferramentas térmicas e estratégias de mitigação.
A resposta do cabelo ao calor depende de fatores como composição química, umidade, taxa de aquecimento e histórico de tratamentos químicos. Revisão de Lima et al. (2018) mostra que a calorimetria exploratória diferencial em água (DSC) permite identificar a temperatura de desnaturação da α-queratina no córtex, geralmente entre 150 e 230 °C, dependendo do teor de água e do tipo de cabelo. Uma vez desnaturada, a estrutura helicoidal se reorganiza de forma desordenada, com perda das propriedades elásticas originais.
Estudo termoanalítico de Mihăilă et al. (2017), avaliando amostras de cabelo europeu em condições dinâmicas (25–700 °C) e em regime isotérmico a 230 °C, demonstrou que a remoção da umidade ocorre em faixa baixa de temperatura (até aproximadamente 100 °C), seguida por múltiplos estágios de degradação. Em 230 °C por 1 minuto, observou-se perda de massa inferior a 2% apenas em um dos tipos de cabelo, indicando que temperaturas típicas de pranchas podem iniciar processos de degradação em amostras menos estáveis.
A literatura destaca ainda que cabelos previamente submetidos a tratamentos oxidativos, como descoloração, apresentam estabilidade térmica reduzida. Estudos com microscopia eletrônica mostram que o clareamento intenso leva à separação da cutícula, formação de poros no córtex e perda de melanina, tornando o fio mais suscetível a danos adicionais, inclusive térmicos (Kim; Oh; Chang, 2024; Freye, 2011).
O dano térmico causado por pranchas é particularmente relevante, pois o contato ocorre diretamente sobre o fio, em temperaturas frequentemente superiores a 180 °C e com compressão entre placas. Em estudo clássico, Gamez-Garcia (2011) reproduziu em laboratório o dano observado em fios de doadoras que utilizavam chapinhas e secadores, submetendo mechas virgens a ciclos controlados de alisamento.
Os principais achados para o uso de pranchas incluíram: formação de trincas transversais longas na cutícula; levantamento e perda de células cuticulares; formação de poros e vazios no córtex associados à evaporação súbita de água (“bubble hair”); e distorção permanente da forma da fibra. Tais alterações aumentaram de forma dependente do número de ciclos e da temperatura aplicada, evidenciando caráter cumulativo do dano (Gamez-Garcia, 2011).
Estudos cinéticos posteriores mostraram que a exposição de cabelos naturais e descoloridos a 200 °C por até 800 s resulta em redução progressiva da entalpia de desnaturação medida por DSC, indicando perda estrutural da α-queratina, mais acentuada em fios pré-oxidativos (Lima et al., 2018; Gama; Baby; Velasco, 2017).
Revisões sobre características físicas da fibra apontam que, após aquecimento a altas temperaturas, o cabelo sofre modificação irreversível da resistência à tração, com redução do módulo de elasticidade e maior propensão à quebra por fadiga (Lima et al., 2018). Em termos práticos, isso significa que ondas sucessivas de chapinha, mesmo sem ruptura imediata, podem fragilizar o fio a ponto de favorecer quebra em pentear ou escovar.
Lee et al. (2011) avaliaram o dano da haste após 30 ciclos de lavagem e secagem em cinco condições: sem tratamento; secagem natural a 20 °C; e secagem com secador a 47 °C (15 cm), 61 °C (10 cm) e 95 °C (5 cm). Os resultados mostraram que o dano superficial de cutícula aumentou com a temperatura do secador, sendo mais acentuado a 95 °C. Não foi observado dano de córtex nas condições testadas, sugerindo papel de barreira da cutícula. O complexo de membrana celular foi danificado na condição de secagem natural prolongada, possivelmente pela exposição prolongada à água, e houve alterações de cor após múltiplos ciclos.
Os autores concluíram que, apesar de o secador causar mais dano de superfície que a secagem natural, o uso a 15 cm de distância, com temperatura moderada e movimento contínuo, resultou em menor dano global que deixar o cabelo secar ao ar (Lee et al., 2011).
Em outro trabalho, Gamez-Garcia (2011) expôs mechas a 20 ciclos de lavagem e secagem a aproximadamente 80 °C, medindo a temperatura na superfície úmida. Foram observadas trincas longitudinais curtas na cutícula, associadas à contração rápida de células previamente inchadas pela água, além de redução da resistência mecânica.
As chamadas escovas secadoras combinam aquecimento por resistência elétrica, fluxo de ar quente e tração mecânica pela escovação. Embora poucos estudos tratem especificamente desse formato de aparelho, modelos recentes de dano térmico por secador ajudam a inferir seus efeitos.
Zi et al. (2025) estabeleceram um modelo de cabelo termicamente danificado para avaliação de cosméticos, expondo mechas virgens a 24 horas de secagem em estufa a 60 °C, simulando aproximadamente um mês de uso diário de secador. Houve levantamento de cutícula, redução do ângulo de contato, da umidade, das propriedades mecânicas e do teor de triptofano, além de aumento da liberação de proteínas em solução. O modelo reproduziu de forma intensificada o dano observado após um mês de uso diário de secador, sugerindo que a exposição repetida, mesmo em temperaturas moderadas, compromete a coesão da cutícula, a integridade do córtex e o conteúdo proteico do fio.
A quantificação do dano induzido por calor recorre a métodos morfológicos, térmicos e mecânicos. Gama, Baby e Velasco (2017) revisam metodologias in vitro que incluem microscopia eletrônica (SEM e TEM), microscopia de força atômica, espectroscopias vibracionais, ensaios de perda de proteína, análise de cor e brilho e ensaios de resistência à tração e à escovação.
No contexto específico de calor, destacam-se: DSC em água, para monitorar deslocamento da temperatura de desnaturação da α-queratina e redução da entalpia associada (Lima et al., 2018); termogravimetria, para avaliar perda de massa em regimes dinâmicos e isotérmicos, estabelecendo parâmetros como Tonset e porcentagem de resíduo (Mihăilă et al., 2017); e ensaios de resistência mecânica e fadiga por tração e escovação, úteis para correlacionar dano microscópico com quebra visível e fragmentação da fibra (Gama; Baby; Velasco, 2017).
Revisões recentes enfatizam, ainda, o papel de silicones e polímeros condicionadores na proteção térmica, demonstrando que certos filmes superficiais reduzem a fragmentação de fibras após escovação e chapinha, além de atenuar a perda de brilho e a aspereza da superfície (Lima et al., 2018; Dias, 2015).
De forma geral, os estudos apontam alguns fatores que agravam o dano térmico. Em primeiro lugar, temperaturas elevadas e tempo de contato prolongado: danos estruturais tornam-se mais expressivos quando a fibra atinge temperaturas próximas ou superiores a 200 °C, mesmo em exposições relativamente curtas (Mihăilă et al., 2017; Lima et al., 2018).
Em segundo lugar, o histórico químico: cabelos descoloridos, tingidos repetidamente ou alisados apresentam menor estabilidade térmica, com degradação mais rápida sob aquecimento, o que torna recomendável limitar de forma mais rigorosa a temperatura de pranchas e a frequência de uso (Kim; Oh; Chang, 2024; Freye, 2011).
Em terceiro lugar, o tipo de fibra: estudos termoanalíticos sugerem diferenças de estabilidade entre cabelos de distintas etnias e morfologias, indicando que alguns tipos são mais suscetíveis a danos em temperaturas elevadas (Mihăilă et al., 2017; Lima et al., 2018).
Por fim, a ausência de proteção cosmética: a remoção da camada lipídica e de recobrimentos condicionantes aumenta o atrito entre fibras e facilita a formação de fissuras, sendo desejável o uso regular de produtos com agentes termoprotetores, como silicones funcionalizados e polímeros catiônicos (Dias, 2015; Gama; Baby; Velasco, 2017).
As principais recomendações práticas derivadas da literatura incluem limitar a temperatura da prancha, evitar o uso de chapinha em fios úmidos, preferir secadores e escovas em temperaturas moderadas, mantendo distância mínima de 15 cm quando possível e movimento constante, além de utilizar termoprotetores antes da exposição ao calor e adotar rotina de condicionamento e reconstrução para minimizar perda de massa proteica e fragmentação da fibra.
A literatura científica evidencia que o calor excessivo constitui um importante agente de dano à haste capilar, capaz de comprometer de forma cumulativa tanto a superfície quanto o interior da fibra. Pranchas alisadoras, em particular, atuam em faixas de temperatura próximas ou superiores à desnaturação da α-queratina, produzindo trincas, bolhas e poros no córtex, além de levantar e remover células cuticulares. Secadores e escovas secadoras, quando usados em temperaturas moderadas e com técnica adequada, tendem a provocar sobretudo dano superficial; porém, modelos experimentais de exposição prolongada demonstram redução significativa de propriedades mecânicas e de indicadores bioquímicos da integridade proteica.
O impacto do calor é modulado pelo tipo de cabelo, pelo histórico de tratamentos químicos e pela presença — ou ausência — de agentes protetores. Cabelos descoloridos e quimicamente processados mostram menor estabilidade térmica e maior suscetibilidade à quebra, exigindo limites de temperatura ainda mais conservadores.
Do ponto de vista clínico e cosmético, os dados reforçam a necessidade de educação de consumidores e profissionais acerca da escolha adequada de temperatura e frequência de uso de ferramentas térmicas, do uso consistente de produtos termoprotetores e condicionantes e do planejamento integrado entre procedimentos químicos e térmicos, evitando sobrecarga na fibra.
Por fim, novos estudos experimentais, como modelos padronizados de dano por secadores e escovas, contribuem para a avaliação objetiva da eficácia de produtos reparadores e protetores, oferecendo base científica para o desenvolvimento de formulações mais seguras. Há, contudo, espaço para investigações adicionais que comparem, de forma sistemática, diferentes dispositivos e condições de uso doméstico, aproximando ainda mais os achados laboratoriais da realidade cotidiana dos usuários.
DIAS, Maria Fernanda Reis Gavazzoni. Hair cosmetics: an overview. International Journal of Trichology, Bangalore, v. 7, n. 1, p. 2-15, 2015. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4387693/>. Acesso em: 20 nov. 2025.
FREYE, Stefanie. Characterisation of human hair and the effects of chemical treatments. 2011. Tese (Doutorado em Materials) – The University of Manchester, Manchester, 2011. Disponível em: <https://research.manchester.ac.uk/en/studentTheses/characterisation-of-human-hair-and-the-effects-of-chemical-treatm>. Acesso em: 20 nov. 2025.
GAMA, Robson Miranda da; BABY, André Rolim; VELASCO, Maria Valéria Robles. In vitro methodologies to evaluate the effects of hair care products on hair fiber. Cosmetics, Basel, v. 4, n. 1, p. 1-10, 2017. DOI: 10.3390/cosmetics4010002. Disponível em: <https://www.mdpi.com/2079-9284/4/1/2>. Acesso em: 20 nov. 2025.
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[1] Especialista em Técnicas Avançadas de Coloração, Mechas e Correção de Cor; Certificado pelo Centro de Formação Lady Lord e Truss Academy. ORCID: 0009-0000-5997-9661.
Contribuição dos autores:
Gustavo Rodrigues Vidal de Oliveira: Foi integral e exclusiva em todas as etapas de elaboração do artigo, atuando de forma autônoma e completa. Seu trabalho começou na concepção do estudo, identificando a necessidade de aprofundar, sob perspectiva científica, os impactos do uso excessivo de calor na fibra capilar, e definindo o foco na análise comparativa entre chapinhas e escovas secadoras. Abrangeu o planejamento (seleção rigorosa de fontes bibliográficas) e a análise e interpretação de dados (cruzando achados científicos e observações empíricas para construir um panorama didático sobre os riscos e prevenção). Por fim, foi o único responsável pela redação final do manuscrito, garantindo clareza, rigor acadêmico e coesão entre a teoria e a relevância prática, demonstrando domínio técnico e autonomia total no processo.
Conflito de interesse:
Não há conflito de interesse.
Agradecimentos e Financiamento:
Não há financiamento.
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 14 de outubro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 04 de novembro de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 24 de novembro de 2025.
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