As expressões idiomáticas no livro didático

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ARTIGO DE REVISÃO

JÚNIOR, Claudemir Ferreira Carvalho [1]

JÚNIOR, Claudemir Ferreira Carvalho. As expressões idiomáticas no livro didático. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 10, Vol. 03, pp. 33-50 Outubro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

É notório que a formação do português brasileiro durante todo o percurso diacrônico sofreu influências ativas de outras culturas e, por essa razão, desenvolveu-se impregnado de uma miscigenação cultural que afetou não só os elementos culturais como também o léxico da língua que falamos. Na medida em que o crescimento industrial e cultural se transforma, o ensino de língua portuguesa continua a prevalecer à gramática normativa como ferramenta de ensino-aprendizagem para o estudante. Ressaltamos que algumas mudanças já aconteceram desde a década de 60 e início da década de 70 do século XX até o presente. Porém, ainda há mudanças que precisam ser realizadas, pois o ato de ensinar uma língua deveria estar pautado na competência comunicativa do discente e não em sentenças classificatórias. Por isso, conhecer o léxico de uma língua, mesmo que seja de uma forma sistematizada, como deveria ser em sala de aula, torna-se o melhor caminho para a construção do acervo lexical do estudante a partir de todas as modalidades existentes na língua. Nesse raciocínio, deparamo-nos com os Fraseologismos, mais especificamente as expressões idiomáticas, sendo que o ensino de tais expressões no português enquanto língua materna é quase desconhecida, visto que os Fraseologismos não alcançaram o prestígio merecido. Por isso, este artigo, essencialmente qualitativo, tem por objetivo averiguar e analisar, por intermédio das expressões idiomáticas encontradas e catalogadas na coletânea didática do ensino fundamental II, aprovados no PNLD/2014, como as expressões idiomáticas foram abordadas e transmitidas aos estudantes pelas atividades utilizadas nas coletâneas, considerando-as como recurso significativo no ensino de língua portuguesa pelos valores linguístico e cultural nelas inseridos.

palavras-chave: Léxico, Ensino, Expressões Idiomáticas, Livro Didático.

INTRODUÇÃO

Quando nos deparamos com o ato de ensinar uma língua, seja ela materna ou estrangeira, torna-se importante a valorização sociocultural de cada comunidade linguística, pois o léxico de uma língua é alvo de várias influências, sejam internas ou externas. Assim, Brown (1994, apud ORTÍZ, 2002, p.165) afirma que “uma língua é parte de uma cultura e a cultura é parte da língua, as duas são intrinsecamente interligadas de modo que não se pode separar uma da outra sem perda do significado de uma delas”. Diante disso, analisar o ambiente social em que o indivíduo esteja inserido torna-se primordial para entendermos todos os fatores linguísticos que o envolve. Nesse raciocínio, a heterogeneidade da língua é resultado de uma miscigenação cultural e, por isso, faz parte da identidade cultural e linguística de um povo.

Contudo não devemos esquecer que cada sociedade tem características próprias que a diferencia das demais, o conteúdo do que é cultura, sua dinâmica e sua importância, enfim, tudo isso deve variar bastante de uma comunidade para outra, inclusive dentro de uma mesma também acontece, portanto, seria mais do que interessante e de grande motivação, com certeza imprescindível, o estudo e análise dos valores culturais da língua-alvo (ORTÍZ, 2002, p.02).

De fato, nos últimos anos, o ensino de língua portuguesa tem passado por um longo processo de modificação, todavia, ainda há dificuldade no ensino de língua materna em que os fatores culturais não alcançaram o prestígio merecido, isto é, apresentam-se ao estudante os níveis de linguagem existentes na língua-alvo e não os recursos sociais que envolvem a língua, pois o conhecimento cultural que está por trás de uma língua resulta no entendimento de suas funções que levarão o estudante ao aprimoramento desta.

Sendo assim, entendemos que não se pode apresentar a cultura de um país como única e imutável, tendo em vista que, assim como a fala, ela é variável e mutável e sempre está-se renovando. Por outro lado, é necessário quebrar as mesmices que ainda se perpetuam no ensino de língua portuguesa dentro da sala de aula em que normas gramaticais e os vários meios de classificá-las sejam as únicas formas de abordar a aprendizagem do ensino da língua. Antunes (2007, apud CUNHA, 2008, p. 55) ressalta que “ninguém fala, ouve, lê ou escreve sem gramática, é claro, mas a gramática sozinha é absolutamente insuficiente”, ou seja, para que um falante possa se expressar de uma forma mais objetiva, é necessário ir além dos conhecimentos gramaticais, uma vez que ele precisa dispor de um bom acervo lexical, assim como dos vários conhecimentos que giram em torno das normas sociais do uso da língua.

Tal orientação está presente nos próprios PCNs que nos transmite uma definição de como deve ser vista a abordagem no ensino de língua portuguesa, ou seja, “assim um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultual atribui à escola a função e a responsabilidade de contribuir para garantir a todos os alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania” (PCN, 1998, p. 19).

Porém, ainda existe uma oposição entre a teoria e a prática, pois os professores permanecem com inúmeras incógnitas referentes ao melhor meio de ensinar língua portuguesa para falantes nativos, uma vez que termos gramaticais e os vários meios classificatórios de tais termos tornam-se os recursos principais no processo de ensino-aprendizagem.

Diante disso, Travaglia (2002) ressalta que:

O ensino de gramática nas aulas de Português como língua materna tem, sem dúvida, representado um problema constante para os professores de Língua Portuguesa das escolas de 1° e 2° graus deste país. Estes, principalmente depois das constantes e reiteradas críticas ao ensino de gramática nesse nível e também à própria teoria da gramática tradicional e a gramática normativa, sentem-se angustiado sobre o que fazer em sala de aula. Muitas vezes o desnorteio é tal que os professores acabam não fazendo nada que seja significante para a vida dos alunos (TRAVAGLIA, 2002, p. 09).

Os PCNs são referências que trazem uma percepção do ensino da língua, seguindo uma abordagem oposta do tradicionalismo, aproximando-se da proposta da competência comunicativa. Precisamos salientar que este suporte também possui falhas, mas já demonstram uma visão diferenciada, isto é, há um distanciamento do ensino tradicional da gramática normativa.

No ensino-aprendizagem de diferentes padrões de fala e escrita, o que se almeja não é levar os alunos a falar certo, mas permitir-lhes a escolha da forma de fala a utilizar, considerando características e condições do contexto de produção, ou seja, é saber adequar os recursos expressivos, a variedade de língua e o estilo às diferentes situações comunicativas: saber coordenar satisfatoriamente o que fala ou escreve e como fazê-lo; saber que modo de expressão é pertinente em função de sua interação enunciativa – dado o contexto e os interlocutores a quem se dirige. A questão não é de erro, mas de adequação às circunstâncias de uso, de utilização adequada linguagem. (PCNs, 1998, p. 31).

Os recursos apresentados nos PCNs têm por objetivo propiciar ao estudante uma melhor a aprendizagem de sua língua, em todos os níveis, tornando-o apto para fazer uso dela por intermédio da linguagem em quaisquer situações que tenham que a utilizar. Independentemente do ambiente social em que o estudante esteja inserido, uma vez que a função do professor de língua portuguesa vai além do ensinar norma-padrão da língua para o aluno, é preciso mostrar para ele a existência de formas que não estão previstas pela norma, isto é, pautar o ensino na diversidade linguística existente por trás da norma-padrão e, assim, a questão de certo ou errado desaparecerá das aulas de língua portuguesa.

Seguindo essa ótica referente ao ensino da competência comunicativa, podemos perceber que os métodos pretendidos com esta nova abordagem visam ao entendimento das funções linguísticas existentes na língua portuguesa e dos sentidos que podem causar no ato da comunicação, isto é, na troca de informação entre um interlocutor e o receptor. Uma vez que esta proposta referente à competência comunicativa não é um método desenvolvido isoladamente, como salienta Travaglia (2008):

o ensino de língua materna se justifica prioritariamente pelo objetivo de desenvolver a competência comunicativa dos usuários da língua (falante, escritor/ouvinte, leitor), isto é, a capacidade do usuário de empregar adequadamente a língua nas diversas situações de comunicação. Portando, este desenvolvimento deve ser entendido como a progressiva capacidade de realizar a adequação do ato verbal às situações de comunicação. A competência comunicativa implica duas outras competências: a gramatical ou linguística e a textual. (TRAVAGLIA, 2002, p.17)

Diante dessas informações arroladas, este trabalho tem por objetivo analisar o ensino de Língua Portuguesa enquanto disciplina, pautando-se nos estudos fraseológicos, mais especificamente nas Expressões Idiomáticas (EIs) que fazem parte patrimônio cultural de uma língua. No entanto, parece haver certo preconceito em relação a esses fraseologismos, porque eles têm aspecto coloquial, isto é, aproximam-se do nível informal da língua e, dessa forma, acabam sendo esquecidos de serem ensinados. Por isso, analisaremos a valorização atribuída para as expressões idiomáticas no livro didático e como se dá a orientação para ser abordada com o estudante em sala de aula, se é dado ênfase ao sistema estrutural, semântico e lexical.

1. O ENSINO DO LÉXICO

Em primeiro momento, é preciso ter em mente o que é léxico: semanticamente, é o conjunto de palavras existente em uma língua. Essa definição torna-se superficial e ao mesmo tempo insuficiente, tendo em vista que, conforme Biderman (1981), “se considerarmos a dimensão social da língua, podemos ver no léxico o patrimônio social da comunidade por excelência, juntamente com outros símbolos da herança cultural” (p.132). Desse modo, Dargel (2011) acrescenta “que o léxico se caracteriza como sendo um ponto de referência para análise sócio-linguístico-cultural de uma determinada comunidade linguística” (p.52).

Diante disso, nota-se que é impossível analisar o léxico de uma determinada língua sem levarmos em conta a formação cultural que o compõem. Se fôssemos levantar diacronicamente o surgimento e o desenvolvimento da língua portuguesa, encontraríamos uma contribuição influenciável de outras culturas que proporcionaram a identidade da língua que falamos e, assim, pode-se dizer que léxico e cultura estão intrinsecamente interligados. Referente a esses fatos já argumentados, Biderman (1981) acrescenta que:

O acervo verbal de um idioma é o resultado de um processo de categorização secular e até milenar na cultura, através do reconhecimento das semelhanças e das diferenças entre os elementos de experiência humana, tanto a experiência resultante da interação com o ambiente físico como meio cultural (BIDERMAN, 1981, p. 135).

Tudo indica que essa informação permanece desconhecida pelo professor que insiste na proposta tradicional de ensino, relacionando normas gramaticais ao ato de saber escrever. Quando o professor pratica tal ação, automaticamente está desmerecendo todas as variedades existentes na língua portuguesa, variedades estas que não surgiram pelo acaso, uma vez que cada uma contém informação histórico-cultural de um determinado período de tempo e espaço.

A língua é produzida socialmente. Sua produção e reprodução é fato cotidiano, localizado no tempo e no espaço da vida dos homens: uma questão dentro da vida e da morte, do prazer e do sofrer. Numa sociedade como a brasileira – que, por sua dinâmica econômica e política, divide e individualiza as pessoas, isola-as em grupos, distribui a miséria entre a maioria e concentra os privilégios nas mãos de poucos -, a língua não poderia deixar de ser, entre outras coisas, também a expressão dessa mesma situação (GERALDI, 2000, p.14).

É sabido que conhecer e dominar o léxico de uma língua é essencial, porque acreditamos que, quanto maior for o domínio do falante, melhor será a possibilidade de empregar esse conhecimento na competência comunicativa. Todavia, não é uma tarefa fácil, uma vez que o léxico possui um amplo acervo de palavras e essas palavras trazem seus sinônimos, antônimos, homônimos.

Sendo assim, observa-se que a função da escola é em ampliar a competência lexical dos seus discentes, levando em consideração a concepção de léxico exposta, porque “acreditamos que ensinar o léxico não significa ensinar listagens de palavras, ou mesmo organizar essas listagens em paradigmas. Vai, além disso. Objetiva evidenciar as relações, intrínsecas e extrínsecas, entre as palavras” (XATARA, 2001, p. 49). Vemos como necessário o estudante perceber as significações e usos de palavras ou expressões além de frases soltas ou listas para memorização.

Desse modo, é possível notar os múltiplos significados da palavra ao adequá-la em um contexto. Visa-se aqui ao estudo dos níveis lexicais de uma língua, não mais na perspectiva de ensino prescritivo, mas sim na prática comunicativa do uso da língua, a fim de propiciar ao aprendiz uma melhor estratégia de uso da língua no exercício da comunicação.

Por essa razão:

Procura-se, dessa maneira, demonstrar a relevância dos estudos sobre a produção de sentidos em práticas orais e escritas de uso da língua − e, mais amplamente, da linguagem −, em diferentes instâncias sociais; consequentemente, será apontada a importância de se abordarem as situações de interação considerando-se as formas pelas quais se dão a produção, a recepção e a circulação de sentidos. (BRASIL, 2008, p. 19).

Visto que a língua não possui apenas uma modalidade em sua estrutura funcional, encontramos em seu estudo prática oral e escrita, mas do que se refere ao estudo do léxico, o módulo oral não adquiriu a aceitação do docente que associa o ensino de língua portuguesa à prática gramatical verbal, que segue os preceitos formais da gramática normativa, como se houvesse receitas para escrever perfeitamente um texto.

Toda essa problemática sobre o ensino do léxico nos leva a uma justificativa, salientando-se que os argumentos utilizados são alicerçados de acordo com as pesquisas realizadas para este trabalho. Nesse sentido, frisa-se que a responsabilidade não recai somente na escola e sim no conjunto de todo sistema educacional. Por isso, é dever tanto da escola quando do professor ensinar o discente a desenvolver e aprimorar diversas competências, incluindo-se aqui a lexical, propiciando ao estudante o conhecimento dos vários significados de uma palavra, estabelecendo elos com outras palavras, assim como o sentindo que essa unidade pode assumir em um texto, fazendo inferências e pressuposições durante a leitura subsidiado pelo dicionário.

Nessa linha de raciocínio, Geraldi (2000) assinala sobre o equívoco cometido por muitos quando pensam que sabem o que realmente é ensinar língua portuguesa em sala de aula.

No entanto, uma coisa é saber a língua, isto é, dominar as habilidades de uso da língua em situações concretas de interação, entendendo e produzindo enunciados adequados aos diversos contextos, percebendo as dificuldades entre uma forma de expressão e outra. Outra coisa é saber analisar uma língua, dominando conceitos e metalinguagens a partir dos quais se fala sobre a língua, se apresentam suas características estruturais e de uso (GERALDI, 2000, p. 89).

Como é possível observar, analisar e ao mesmo tempo ensinar uma língua está além do sistema gramatical que esta possui, é o trabalho conjunto de todas as características estruturais e funcionais que giram em torno do uso da língua em suas diversas formas de manifestações.

1.2. EXPRESSÃO IDIOMÁTICA

Conceituam-se expressões idiomáticas como o conjunto de palavras que se caracteriza por não ser possível identificar o significado individual de cada termo que as compõem, pois, a compreensão não ocorre apenas com o aprendizado denotativo dos componentes linguísticos.

Não se pode afirmar ao certo quem criou as expressões idiomáticas porque elas são perpetuadas de uma geração para outra e fazem desta forma, parte da herança cultural de uma comunidade linguística. De acordo com Xatara (1998), “expressão idiomática é uma lexia complexa indecomponível, conotativa e cristalizada em um idioma pela tradição cultural” (p.149). Tomando-se como referência a definição de Xatara (1998) para as expressões idiomáticas, apresentamos um breve apanhado sobre cada item abordado pela autora.

As expressões idiomáticas são lexias complexas indecomponíveis, podendo também serem chamadas de lexias polilexemáticas, porque se tratam de expressões fechadas, isto é, sua estrutura contém apenas ligações sintagmáticas, ou seja, não podem ser alteradas ou modificadas em virtude de sua utilização na língua por parte do falante que, por esse motivo, tornou-as fixas devido ao processo de lexicalização. Nesse raciocínio, não há hipótese de associação paradigmática na estruturação dos idiomatismos. Para Xatara (1998), isso ocorre porque elas obtêm sintagmas complexos em sua formação impossibilitando, desse modo, a substituição de quaisquer elementos de sua estruturação por outros termos.

[…] Sincronicamente, portando, em análise distribucional ou funcional, as EI são unidades locucionais ou frasais que constituem uma combinatória fechada, de distribuição única ou distribuição bastante restrita, pois se apresentam como sintagmas complexos que não têm paradigmas, ou seja, quase nenhuma operação de substituição característica das associações paradigmáticas pode ser normalmente aplicada (XATARA, 1998, p.149).

Para Ilari (2001), “chamamos de idiomáticas as expressões, compostas de diferentes palavras, cujo sentido vale para o todo, e não pode ser obtido pela montagem dos sentidos das palavras que as compõem […]” (p.78). Isso ocorre porque o significado conotativo das expressões é construído em decorrência da carga semântica atribuída a elas e giram em torno do sentido metafórico, pois o significado isolado de cada componente não nos transmite informação. Em consequência disso, há valorização de todos os elementos que compõem as expressões a fim de decifrar o sentido figurado que se encontra por trás de cada sentença, permanecendo inalterável a sua interpretação.

As expressões idiomáticas são sintagma não-composicional, oriundo de uma combinatória de palavras que não formam uma unidade lexical e, por mutação semântica, passam a constituir uma unidade, porque os componentes do sintagma não podem mais ser dissociados significando uma outra coisa, ou seja, sua interpretação semântica não pode ser calculada a partir da soma dos significados individuais de seus elementos (XATARA, 1998, p.150) .

Já o que se refere ao processo de cristalização, “esse dado é normalmente fornecido pelo índice de frequência do emprego dessa expressão idiomática pela comunidade dos falantes, sendo usual como uma resposta condicionada à circunstância em que ocorre” (XATARA, 2001, p.52). Compreende-se então que a premissa de consagração de uma sentença como expressão idiomática dá-se pelo processo de lexicalização, isto é, quando uma comunidade linguística passa a fazer uso da expressão e a torna fixa na língua. Assim, a expressão adquire um valor semântico, cristaliza-se e contribui para tradição cultural dos falantes, possibilitando que seja transmitida às próximas gerações.

Ressalta-se ainda que, dentro dos estudos fraseológicos, além das expressões idiomáticas, abordam-se também os ditados populares e os provérbios, que são frases feitas transmitidas e fixadas pela herança cultural de uma sociedade linguística possuindo um alto grau de significação para a língua em foco. A formação e fixação na língua desses fraseologismos se dão pelo mesmo processo das expressões idiomáticas, ou seja, pela aceitação dos falantes que os tornaram cristalizados e os perpetuaram.

No entanto, há uma contradição entre as expressões idiomáticas e os provérbios, uma vez que nem todos os provérbios são considerados uma expressão idiomática. Isso ocorre porque alguns deles possuem em suas traduções metafóricas um sentido moralizante (Quem espera sempre alcança), diferente das expressões idiomáticas que não trazem em sua significação cunho morais. Os provérbios contêm esse caráter moralista porque muitos deles foram retirados de livros bíblicos.

1.3. POR QUE NÃO ENSINAR EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS?

Antes de partimos para a transmissão desses fraseologismos ao estudante por meio do livro didático, precisa-se esclarecer uma interrogação: Por que não ensinar expressões idiomáticas? Se alavancarmos uma negativa em prol de um ponto positivo, tornam-se necessários argumentos sólidos que comprovem a eficácia dessas expressões como vínculo produtivo de sentido para ampliação da competência lexical do discente.

Em primeiro momento, a não aceitação de tais expressões ocorrem pelo seu caráter coloquial que as aproximam do nível informal da fala e, por isso, são marginalizadas enquanto produto transmissor de ensinamento na construção da linguagem verbal humana. Por esse motivo, Nogueira (2008) acrescenta que esse fato é apenas uma justificativa para a carência das expressões idiomáticas nos livros didáticos de português, assim como a não inserção dessas expressões no ensino do léxico. Outra razão que fortalece a exclusão das expressões idiomáticas no ensino da língua-alvo se volta para a aproximação que elas têm com as frases feitas. Esse fato simples torna as EIs insignificantes na arte de escrever bem, no pensar de algumas pessoas ligadas ao ensino-aprendizagem da língua portuguesa.

Em ideia oposta, não podemos ignorar a existência de tais expressões na formação da língua que falamos pelo mesmo motivo que elas estão presentes em nossas vidas constantemente, isto é, são empregadas no vocabulário que utilizamos no dia a dia, nas revistas que lemos, nas reportagens dos rádios que ouvimos, assim como no que vemos pela televisão a todo instante.

Essa última principalmente é uma forte apresentadora de fraseologismos em sua programação, não como fonte do saber transmissível de ensinamento, mas como recurso demonstrativo da existência de tais expressões no acervo lexical da língua portuguesa. Como exemplos podem ser citados filmes: A casa da mãe Joana, A casa caiu, Nem que a vaca tussa, Se eu fosse você, Pra trair e coçar é só começar, O amor é Cego, Bicho de sete cabeças; títulos de novelas: Agora é que são elas, Cobras e lagartos, Caras e bocas, Deus nos acuda, Fina estampa, Escrito nas estrelas, Cama de gato, Pé na jaca, Morde e assopra; programas de humor também não ficam de fora dentro dessa perspectiva: Zorra total, Sai de baixo, Toma lá, dá cá, Pé na cova. Esses são apenas alguns exemplos existentes referentes à utilização das expressões idiomática pela mídia.

Assim, Resende (2012) afirma que:

Embora sendo de natureza tipicamente oral, os fraseologismos citados já “invadiram” a linguagem da mídia. Hoje eles aparecem na TV, na rádio, no cinema, nos jornais, nas revistas […] atingindo também a modalidade escrita da língua na fala das personagens criados pelos escritores e na linguagem dos seus narradores. Com base nisso, o livro didático, por estar presente na maioria das salas de aulas brasileiras, deveria ser um “instrumento” de ensino de tais fraseologismos. (RESENDE, 2012, p.04)

O intuito de abordar a mídia neste trabalho se deu apenas para mostrar que as expressões idiomáticas não estão escondidas só em teorias linguísticas, mas elas estão visivelmente expostas para todos, até em recursos midiáticos e que esses fazem uso delas em transmissões aos telespectadores. Dessa forma, ressaltamos e demonstramos que as expressões idiomáticas estão vivas e fazem parte do patrimônio cultural do país e que, por isso, merecem um olhar mais afetivo como proposta de contribuição da ampliação do saber linguístico do estudante.

1. 3. AS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS NO LIVRO DIDÁTICO

No que se refere ao ensino de língua portuguesa enquanto língua materna, o estudo específico das expressões idiomáticas permanece quase desconhecido. O seu reconhecimento volta-se apenas para as diversas pesquisas existentes na área. Uma vez que os livros didáticos principalmente os do Ensino Fundamental não fornecem abordagem exploratória que seja considerável suficiente sobre as unidades fraseológicas, fato decorrente, provavelmente, da ideia de as EIs pertencem ao nível coloquial da língua. Dessa forma, Rey (2004, apud NOGUEIRA, 2008, p.41) afirma que “existe um preconceito em relação ao estudo das expressões idiomáticas dentro da sala de aula de língua portuguesa, uma vez que estamos tratando de unidades que não pertencem ao registro formal da língua”.

De início o que nos chama a atenção no livro didático cuja avaliação, a respeito da abordagem das EIs, e apresentada neste trabalho, é a dicotomia existente entre o título e o conteúdo arrolado em cada página da obra: Português e Linguagens. Reconhecemos que o português do Brasil é um idioma oriundo de Portugal e que se ramificou pelo Brasil durante o processo de colonização do país por volta de 1500. Além do Brasil, há outros países que compartilham do mesmo idioma, porém, com variedades diferentes pelo o uso da língua como vínculo de expressão e comunicação entre os indivíduos. Por outro lado, linguagem são todas as manifestações expressivas que os interlocutores utilizam para se comunicarem uns aos outros, sendo assim, todas as variações e os fraseologismos existentes na língua fazem parte dessas manifestações e precisam ser valorizados enquanto elemento de comunicação e, o livro que traz em seu título essa ideologia, não abordam os níveis de linguagens presente nele de maneira satisfatória que venha a contribuir para o aprimoramento da competência comunicativa do estudante.

Acerca das informações apresentadas, podemos acrescentar que o elo existencial entre as contradições do título e o conteúdo da obra é verídico. No entanto, seria errôneo deixar de retratar que a coleção traz conteúdo de variedades linguísticas e, inclusive, das próprias expressões idiomáticas, mas EIs assim como as outras variedades são pouco exploradas e o que prevalece em cada livro da coleção são as regras gramaticais e os seus elementos classificatórios.

Os dados analisados de maneira qualitativa estão presentes na coleção didática (6º aos 9º. anos do Ensino Fundamental II), aprovada e recomendada pelo PNLD[2] 2014, 2016,2017, denominada: Português e Linguagem, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, da editora Saraiva. Entre as atividades analisadas da coleção Português e Linguagens, as expressões idiomáticas foram utilizadas apenas com a finalidade de dar as definições dos sentidos denotativos e conotativos, como podemos observar no primeiro exemplo, retirado do livro do 8°ano.

Imagem 1: Tipo e quantidade de imagens contidas no Livro Didático analisado. Fonte: CEREJA, William, Roberto, MAGALHÃES, Thereza Cochar, 2012.

A expressão “Um pé na cozinha” retirada do texto “O povo: suas cores, suas dores” é apenas uma das expressões utilizadas no texto, mas esta especificamente é a única abordada nas atividades de interpretação do texto. Por outro lado, a sua função enquanto vínculo de comunicação se remete em primeiro momento ao sentido metafórico do enunciado, em outro sentido, como um linguajar próprio das classes menos favorecidas, uma vez que o texto retrata a diferença entre as classes sociais, com ênfase no nível social, cultural e linguístico dos personagens.

O emprego dessa expressão foi utilizado apenas com o intuito de trabalhar o sentido figurado, além de ressaltar que expressões como essas são mais proferidas pelas camadas populares, mesmo que quem utiliza a expressão no texto é a personagem da empregadora, mas o sentido mencionado permanece intacto.

Além disso, cabe ressaltar o teor preconceituoso revelado pela expressão idiomática “Um pé na cozinha” que remete ao negro, escravizado durante tempo no Brasil, e sem comentários ou orientações para que se reparassem nesse aspecto discriminatório ao insinuar que samba é dança e música de negro.

Em um segundo exemplo, mais uma vez as expressões idiomáticas são abordadas visando somente ao sentido conotativo:

Imagem 2: Tipo e quantidade de imagens contidas no Livro Didático analisado. Fonte: CEREJA, William, Roberto, MAGALHÃES, Thereza Cochar, 2012.

Como é possível notar, as expressões “Em boca fechada não entram mosquito” e “Um colírio para os meus olhos”, encontradas nas atividades presentes no livro referente ao tema Denotação e Conotação, são utilizadas exatamente com o propósito de decifrar o sentido real e figurado desses idiomatismos. No decorrer das atividades, como se pode observar, são colocadas outras metáforas para serem trabalhadas com a mesma finalidade atribuída às expressões idiomáticas. Os exercícios não contribuem em nada para o desenvolvimento comunicativo do aluno, pois as EIs são retratadas apenas como função coloquial da língua empregada no vocabulário do dia a dia, deixando-se, assim, de explorar outras características dos fraseologismos, como a sintática por exemplo.

Na mesma coleção “Português e Linguagens”, encontramos mais um registro das expressões idiomáticas, só que agora extraído do volume do 7°. ano. A proposta apresentada no volume anterior permanece igual a esta, ou seja, ainda prevalece a conotação e a denotação dos fraseologismos e da metonímia, como se as EIs fornecessem essas únicas finalidades linguísticas.

Imagem 3: Tipo e quantidade de imagens contidas no Livro Didático analisado. Fonte: CEREJA, William, Roberto, MAGALHÃES, Thereza Cochar, 2012.

Na charge extraída da mesma coleção analisada e já citada anteriormente, observa-se que não há a presença de expressão idiomática, todavia, utiliza-se a assimilação entre a imagem e os personagens a fim de deduzir o fraseologismo que está implícito na charge, isto é, faz-se o uso do processo de metonímia para criar a expressão “ovelha negra” que por sua vez é enfraquecida e desvalorizada por ser fonte de aprendizagem figurativa de sentido. Ressalta-se ainda que novamente negro apareceu como uma forma de preconceito social, sem alusão ao fato.

O próximo exemplo foi também retirado do volume do 7°ano:

Imagem 4: Tipo e quantidade de imagens contidas no Livro Didático analisado. Fonte: CEREJA, William, Roberto, MAGALHÃES, Thereza Cochar, 2012.

Neste exemplo do livro designado Adjunto Adverbial, podemos perceber que os fraseologismos foram utilizados dentro de uma perspectiva mais significativa, pois cada provérbio trabalhado visava à função adverbial de cada sentença e não o sentido denotativo ou conotativo. Observam-se, portanto, que esta hipótese nem foi mencionada na pergunta e, por esse motivo, reitera-se que as EIs podem (e devem) ser vistas por outras vertentes, pois elas podem ir além do sentido figurativo e real.

Na presente pesquisa não foram catalogadas informações dos volumes do 6° e do 9°ano porque não havia presenças de EIs em ambos os livros, visto que no livro do 6°ano, em um determinado capítulo, foi abordado o assunto Folclore que também é um elemento que faz parte da herança cultural e fonte de inspiração para surgimento de EIs, porém, não fizeram uso algum delas. Entretanto, nos volumes do 7° e 8°anos, dos quais foram extraídos os exemplos analisados neste trabalho, catalogamos mais fraseologismos no decorrer dos livros, mas eles nem foram mencionados nas atividades propostas. É preciso salientar que os fraseologismos apresentados neste trabalho foram apenas àqueles utilizados nas atividades dos livros, os demais que nem sequer foram mencionados nas atividades, não fizemos uso deles, pois a proposta inicial é mostrar como os fraseologismos estão sendo abordadas nos livros didáticos e transmitidas aos estudantes em sala de aula.

1.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por intermédio da presente pesquisa, observamos que ainda há algumas falhas no ensino de língua portuguesa em relação aos fraseologismos que precisam ser revistas. Não houve neste estudo o intuito de fornecer métodos de ensino e tão pouco apresentar propostas metodológicas. O que objetivamos mostrar foi que o ensino de língua portuguesa, pautado preterivelmente no ensino da gramática normativa e no qual as variedades linguísticas são desprestigiadas, torna-se insustentável e não cumpre a missão de desenvolver as habilidades linguísticas do aluno, pois a desvalorização de tais variedades, como as expressões idiomáticas salientadas neste trabalho, resulta no desprestigio do aluno que vem de camadas sociais diversas e por essa razão sente-se diminuído diante de outros discentes.

Acreditamos que os fraseologismos fornecem de fato uma melhor contribuição na construção do acervo lexical do estudante ampliando assim a formação da competência comunicativa do mesmo. É preciso tomar conhecimento que as expressões idiomáticas não são anônimas e tampouco sua utilização é desconhecido, pois elas estão cristalizadas no acervo lexical de todos os falantes de língua portuguesa, independente de classe social e, a carência de tais expressões enquanto ferramenta de ensino ocorrem por atos preconceituosos devido sua formação cultural.

Observamos nesta análise que nenhuma das obras didáticas pesquisadas trouxe atividades relacionadas exclusivamente às expressões idiomáticas. A utilização de cada expressão dividia-se entre o exemplificar e diferenciar sentidos denotativo e conotativo, assim como elemento constituinte de um texto, frases humorísticas de charges ou apenas expressão figurativa de um diálogo de personagens de um texto.

Por este motivo, acreditamos que os livros devam direcionar seus olhares para uma abordagem linguística cultural, frisando todos os níveis de linguagens existentes na língua portuguesa, entre eles o ensino das expressões idiomáticas, fornecendo uma utilização melhor para elas e não apenas as propostas apresentadas na coleção exposta neste trabalho que giram em torno do seu sentido real e figurado, contribuindo assim para o processo de ampliação lexical do estudante.

REFERÊNCIAS

ANTUNES. Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

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[1] Graduado em Letras – Habilitação Português/Inglês – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – (UEMS) – Unidade Universitária de Cassilândia-Ms. Plano Nacional do Livro Didático.

Recebido : Maio, 2018

Aprovado : Outubro 2018

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