BASTOS, Argemiro Midones [1]
BASTOS, Argemiro Midones. Preferência de Abastecimento por Tipo de Combustível Veicular no Município de Macapá/AP. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 02, Ed. 01, Vol. 01. pp 380-386, Abril de 2017. ISSN:2448-0959
Macapá possuía até abril de 2014, 54.101 veículos. Diante desta realidade, houve necessidade de caracterizar a frota de veículos e preferência do condutor por tipo de combustível para avaliar se Macapá estará sujeita a grandes emissões de gases de efeito estufa. Foram analisados 600 questionários aplicados a proprietários de veículos automotores em diversos pontos da cidade, no período de agosto de 2013 a junho de 2014. Os resultados indicam uma frota de veículos populares novos, fabricados entre os anos de 2010 e 2013, do tipo flex. A maioria dos condutores são pessoas do sexo masculino, com escolaridade de ensino superior, na faixa etária de 30 a 45 anos; 59% dos entrevistados abastecem seus veículos de uma a três vezes na semana; 89% utilizam somente a gasolina, justificando ser este tipo de combustível o de maior disponibilidade e menor consumo. A quilometragem média percorrida na semana foi 200 km (40%). Quanto ao número de pessoas que utilizam o veículo, este é usado somente por uma ou duas pessoas. Em relação à percepção ambiental do condutor, para 66% dos entrevistados um litro de gasolina faz o carro andar mais, e para 61 % dos entrevistados a gasolina é o combustível mais prejudicial ao ambiente, e diante dessa realidade 64% afirmam que pagariam mais por um combustível menos poluente. Na prática, o uso de um combustível mais poluente e a utilização do veículo por um número reduzido de pessoas indica que futuramente Macapá experimentará aumento nas emissões de CO2 na atmosfera.
Palavras–chave: Ambiente, Combustível Fóssil, Frota, Emissão, Efeito Estufa
Existe hoje uma grande preocupação quanto ao alto índice de poluição gerada por combustíveis fósseis, pois além de emitirem gases de efeito estufa durante a queima, seus resíduos contaminam o solo e a água, através dos derramamentos, quando ocorrem acidentes. Nos grandes centros urbanos brasileiros, a utilização de combustíveis fosseis é crítica devido ao grande volume de contaminantes atmosféricos emitidos (DRUMM et al, 2014). A quantidade de veículos de uma cidade e o tipo de combustível utilizado estão diretamente ligados às emissões de gases de efeito estufa (GEE), e os aumentos da emissão dos GEE implicam diretamente em mudanças ambientais na cidade e também afetando a outras cidades. Durante o período entre 1750 e 2000, as concentrações de CO2 na atmosfera aumentaram até 31± 4% principalmente devido à queima de combustíveis fósseis (MMA, 2007). Ou seja, o aumento de veículos automotores aumenta a emissão desses gases.
A composição química dos gases emitidos depende do tipo e qualidade do combustível utilizado. Os principais gases exalados pela frota automotora a partir de combustíveis fósseis são Dióxido de Carbono (CO2), Metano (CH4) e o Óxidos de Nitrogênio (NOx) (SZWARCFITER, 2004). Além disso, o CO2 tem um efeito de alteração na temperatura superior ao metano por permanecer na atmosfera por um prazo muito superior (ALVIM et al, 2008). Muito embora a emissão GEE por veículos seja apenas uma fração do total da emissão global, o aumento da frota mundial de veículos pode tornar essa fonte de emissão cada vez mais significativa (BORSARI; ASSUNÇÃO, 2006). No Brasil, a relativa queda na emissão de CO2 geralmente está ligada a crises, como exemplo no setor energia, a redução de emissões observada em 2009 corresponde a uma queda no consumo de combustíveis fósseis como reflexo da crise internacional na produção dos combustíveis (SEPED, 2013), ou seja, as ações para diminuir a emissão de GEE são negligenciadas.
O município de Macapá possui uma frota veicular superior a 100 mil veículos, correspondendo a aproximadamente 81% da frota estadual (DETRAN, 2012). Esta frota apresenta crescimento médio de 4% ao mês e é constituída principalmente por veículos leves bicombustíveis (Flex), no entanto, não há na literatura local qualquer estudo a respeito da caracterização desta frota e dos hábitos dos condutores a respeito dos critérios de abastecimento, quantidade de pessoas transportadas, média de quilometragem e tipo de combustível utilizado.
Tratar das questões ambientais é buscar esclarecimentos, conhecimentos e intervenções que envolvem a permanência da vida no planeta. Envolver-se com ações dessa natureza é buscar um equilíbrio ético e moral. Acselrad (2004) considera impossível separar a sociedade e seu meio ambiente, já que os objetos que constituem o “ambiente” não são redutíveis a meras quantidades de matéria e energia, pois eles são culturais e históricos.
Este estudo buscou caracterizar a preferência de abastecimento por tipo de combustível veicular no município de Macapá. A partir da qualificação da frota veicular quanto ao número e tipo de veículos; estimativa da quilometragem média e avaliação do número médio de pessoas que utilizam a frota; além de características do condutor foi possível avaliar a relação entre a preferência de abastecimento e as noções ambientais que condutores possuem sobre o uso de combustíveis. Os resultados apresentados servirão de subsídios à proposição de uma mudança de paradigma por parte da população macapaense acerca dos problemas ambientais advindos dos poluentes automotivos, do uso de veículos para deslocamento individual e da necessidade de priorizar o transporte coletivo em detrimento do transporte individual.
Faggionato (2007) destaca diversas formas de se estudar a percepção ambiental: questionários, mapas mentais ou de contorno, representação fotográfica, etc. Considerando-se a possibilidade apontada pelo autor, a pesquisa utilizou a abordagem qualitativo-quantitativa como método alternativo de investigação empregado na análise da preferência de abastecimento dos motoristas macapaenses, de forma a caracterizar os elementos econômicos e ambientais que determinam esta preferência.
A execução da pesquisa baseou-se na utilização de entrevistas composta de questões abrangendo aspectos referentes ao veículo (motorização, idade, tipo de combustível, quilometragem média, etc.) e aspectos psicossociais referentes ao condutor (periodicidade de abastecimento, tipo de combustível escolhido, razão de escolha, percepção ambiental sobre os impactos da escolha de determinado combustível, etc.). O questionário foi constituído de questões objetivas, sendo aplicado nos postos de combustível da cidade de Macapá, aos condutores de motocicletas e veículos leves, no período de agosto de 2013 a junho de 2014. Para aplicar os questionários aos condutores de veículos da cidade de Macapá foram escolhidos locais de grande circulação, dentre eles: postos de gasolina, shoppings e áreas comerciais. Foram aplicados seiscentos questionários que caracterizam satisfatoriamente a pesquisa.
Foi utilizado o pacote de aplicativos 2010 Microsoft Office da Microsoft Corporation: Access 2010, para confecção de um banco de dados e Excel, 2010 para o tratamento estatístico. Os dados uma vez compilados foram comparados aos dados estatísticos do Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) relativos à frota veicular do município de Macapá.
A primeira característica a ser discutida é o ano dos veículos automotores. A partir dos dados obtidos, observa-se que o ano de fabricação dos veículos se distribui entre 2010 e 2014. Ou seja, a cidade de Macapá apresenta uma frota de veículos relativamente nova (Figura 1), de acordo com os dados do Denatran (Figura 2) a frota de veículos do município de Macapá vem crescendo significativamente, a partir do ano de 2010.
Ainda sobre as características dos veículos foram investigadas a marca, a categoria (particular, aluguel frete, aluguel taxi) e o combustível (álcool, gasolina, flex.). Em relação à marca foi constatado que as marcas de veículos considerados populares concentram maior quantidade, dentre eles 26% da marca Fiat e 21% da marca Chevrolet. Em relação à categoria do veículo 97% são particulares, 2% aluguel frete e 1% aluguel táxi, quando questionado quantas pessoas utilizam esses veículos particulares, 41% responderam que duas pessoas e 33% responderam que somente uma pessoa utiliza, 15% responderam que três pessoas utilizam, 7% responderam quatro e 4% responderam cinco, ou seja, a cidade possui uma grande frota de veículos, mas ela é utilizada por poucas pessoas. Estes resultados refletem a tendência de aquisição de veículo próprio pela população amapaense devido à comodidade de horário e a deficiência do sistema de transporte coletivo. Segundo levantamento feito pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no ano de 2012, em 36,3% dos domicílios amapaenses havia pelo menos um carro ou moto (IPEA, 2013).
Sobre o combustível utilizado nos veículos, 77% dos respondentes relatam que o carro é do tipo Flex e 22% responderam que o carro abastece somente a gasolina, 1% respondeu que o carro abastece somente com diesel e nenhum dos carros abastece a álcool. No entanto, mesmo com a porcentagem de carro tipo Flex ser alta, 89% dos condutores utiliza somente a gasolina e enquanto apenas 8% dizem utilizar ambos os combustíveis (Gasolina e álcool), 1% utiliza somente o álcool como combustível e 1% utiliza diesel. A principal razão para esta escolha está no preço praticado do combustível, pois em Macapá a razão entre os preços álcool/gasolina é, em média, 0,85. A divulgação do que é mais vantajoso foca somente no preço sem evidenciar qualquer contribuição ou dano ambiental que o tipo de combustível provoca, estimulando o condutor a abastecer com álcool se o valor for até 70% o valor da gasolina.
Em relação ao estado civil dos entrevistados, 44% são casados e 43% são solteiros, 4% são separados, 8% responderam outros e 1% viúvo. A idade dos condutores está entre 30 anos a 45 anos. Dos 600 condutores entrevistados, 70% são do sexo masculino e 30% são do sexo feminino. Em relação à escolaridade, 62% possui o Ensino Superior, 32% Ensino Médio e 6% Ensino fundamental. Ou seja, os condutores da cidade são em sua maioria homens, a maioria também possui ensino superior. O nível de escolaridade parece não influenciar na escolha do tipo de combustível, uma vez que é elevado entre os respondentes a opção por um combustível mais poluente como a gasolina.
Em relação ao abastecimento perguntou-se ao condutor com que frequência ele abastecia seu veículo na semana, 34% abastecem somente uma vez na semana, 25% abastecem duas vezes na semana, 24% abastecem três vezes e 17% abastecem mais de três vezes na semana. Então a maioria abastece pelo menos três vezes ao mês. Para os respondentes, a principal justificativa para utilizar-se a gasolina é a disponibilidade (34%), menor consumo (33%), menor preço (27%) e menos poluente (6%). No entanto, durante a pesquisa, foi possível constatar que os condutores não conhecem ou sabem explicar os motivos pelos quais utilizam mais o combustível do tipo gasolina, e, portanto, observou-se que os condutores apresentavam desorientação no momento de responder a pergunta em relação ao combustível que utilizavam e por qual motivo utilizavam esse combustível, afirmando na maioria das vezes que estavam “costumados” com a gasolina.
Ainda sobre as características de abastecimento, perguntou-se ao condutor quantos quilômetros em média o veículo percorria na semana, 40% responderam que o veículo percorre entre 100 km a 200 km em média, 33% responderam menos de 100 km, 13% entre 200 km e 300 km e 14% mais de 300 km. Estes dados sugerem que em sua maioria os respondentes utilizam seus veículos para deslocamentos de casa para o trabalho e do trabalho para casa, visto ser comum que os trabalhadores almocem em casa.
Em relação à percepção ambiental dos condutores foi perguntado: O que faz o carro andar mais? (1 litro de gasolina, 1 litro de álcool, é equivalente ou não possui a informação). 66% responderam que 1 litro de gasolina faz o carro percorrer mais quilômetros, 7% responderam que o álcool faz o carro andar mais, 3% responderam que ambos (álcool e gasolina) fazem o carro andar mais e 24% não possuíam a informação a respeito. Foi perguntado, qual era o combustível mais prejudicial para o ambiente, 61% responderam que a gasolina é mais prejudicial, 5% responderam o álcool, 19% responderam que tanto a gasolina quanto o álcool são poluentes, 3% responderam que nenhum dos dois é poluente e 12% não possuíam a informação a respeito. Foi perguntado aos condutores também se eles pagariam mais por um combustível menos poluente, 64% responderam que sim, 14% responderam não e 22% responderam que talvez. O último questionamento versava sobre a adulteração de combustíveis, 53% afirmam que a gasolina é mais fácil de adulterar, 8% responderam que o álcool é mais fácil adulterar, 16 % responderam que tanto a gasolina quando o álcool é fácil de adulterar, 1% responderam que nenhum dos dois pode ser adulterado e 22% não possuíam informação a respeito.
Em geral, os questionamentos sobre a percepção ambiental provocaram mais dúvidas, ou seja, a falta de informação sobre o assunto é o fator que descreve claramente a escolha negligenciada dos condutores de veículos na hora de abastecer o seu veículo. Como exemplo, podemos citar que os entrevistados manifestaram a predisposição de pagar mais por um combustível menos poluente, no entanto não abastecem seus veículos com álcool que na prática é mais caro e por ser renovável e derivado da biomassa contribui para a redução das emissões de CO2.
A pesquisa buscou caracterizar os condutores de veículos da cidade de Macapá, através da aplicação de questionários e também da avaliação informal durante a pesquisa. Os condutores de veículos não consideram as questões ambientais ou econômicas que estão associadas ao abastecimento do veículo. O uso da gasolina como combustível é quase unânime entre os condutores e a frota de veículos na cidade vem aumentando gradativamente, acarretando um grande aumento nas emissões de dióxido de carbono. Um dado preocupante é que a quantidade de pessoas que utilizam os veículos particulares é pequena, ou seja, existem muitos carros, no entanto, eles são utilizados geralmente por uma ou duas pessoas. Então se reforça que é preciso investir em pesquisa a fim de alcançar alternativas que mitiguem o uso dos combustíveis fósseis ou investir na melhoraria dos transportes públicos para otimizar a circulação de pessoas na cidade, procurando o equilíbrio na convivência do cidadão e o ambiente.
ACSELRAD, H. Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.
ALVIM, C. F; FERREIRA, O. C. & VARGAS, J. I. Revisitando a concentração do metano na atmosfera. Economia e Energia, n. 65, p. 29-35, 2008.
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SZWARCFITER, L. Opções para o aprimoramento do controle de emissões veiculares de poluentes atmosféricos no Brasil: uma avaliação do potencial de programas de inspeção e manutenção e de renovação acelerada da frota. Tese de Doutorado (Ciências em Planejamento Energético) 261p. – Programa de Pós- Graduação em Engenharia, UFRJ, Rio de Janeiro, 2004.
[1] Doutor em Biodiversidade e Biotecnologia pela Universidade Federal do Amapá.
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