Meio Ambiente

Diagnóstico ambiental das áreas de proteção de mananciais currais e pedras no distrito federal

DISSERTAÇÃO

CARDOSO, Larissa Moreira1, RODRIGUES, Erina Vitório2, OLIVEIRA, Maria Cristina de3

CARDOSO, Larissa Moreira. RODRIGUES, Erina Vitório. OLIVEIRA, Maria Cristina de. Diagnóstico ambiental das áreas de proteção de mananciais currais e pedras no distrito federal. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 11, Vol. 01, pp. 156-188. Novembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/meio-ambiente/diagnostico-ambiental, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/meio-ambiente/diagnostico-ambiental

RESUMO

Este estudo avaliou a preservação e a qualidade dos recursos hídricos nas Áreas de Proteção de Mananciais Currais e das Pedras na bacia hidrográfica do Rio Descoberto no Distrito Federal. Para isso foi utilizado o Protocolo Rápido de Avaliação Visual de Impacto Ambiental (PRAVIA) e o Índice de Qualidade da Água (IQA). O PRAVIA foi aplicado na estação seca em 10 pontos, sendo cinco no Córrego Currais e cinco no Ribeirão das Pedras. Nesses pontos foram realizadas coletadas de água na estação seca e chuvosa, para análise da qualidade da água e posterior cálculo do IQA. No Córrego Currais apenas um ponto (P2), que está inserido na poligonal da Floresta Nacional de Brasília (FLONA) foi categorizado como “Natural”, os outros foram considerados “Alterados”. No Ribeirão das Pedras os pontos foram classificados como “Naturais”. Amostras de água nos dois corpos hídricos foram consideradas como “Boa” conforme IQA. Conclui-se que o Ribeirão das Pedras se encontra mais preservado, o que pode ser justificado pelo fato deste curso d’água estar inserido completamente na poligonal da FLONA; enquanto o Córrego Currais está inserido parcialmente nesta unidade, além de ser impactado negativamente pelas ocupações irregulares e proximidade com a área urbana.

Palavras-chave: IQA, Recursos hídricos, Protocolo de Avaliação Rápida, Qualidade de água.

1. INTRODUÇÃO

O crescimento acelerado da população do Distrito Federal e as alterações no uso e ocupação do solo, resultaram em um incremento no consumo de água, tanto para o abastecimento público, quanto para a irrigação (Lima et al., 2018). No passado já existia a preocupação com disponibilidade de água em qualidade e quantidade no Distrito Federal, que conduziu os legisladores a buscarem soluções para a gestão eficiente de recursos hídricos. Dessa forma, o Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal (PDOT/DF) publicado no ano de 1997, instituiu partes do território que seriam destinadas “à conservação, recuperação e manejo das             bacias hidrográficas a montante dos pontos de captação da Companhia de Água e Esgotos de Brasília (CAESB)”, denominadas Área de Proteção de Mananciais – APMs (Distrito Federal, 1997).

No Distrito Federal as APMs não são classificadas como categorias de Unidades de Conservação (UC), não estão estabelecidas no Sistema Nacional, nem no Sistema Distrital de Unidades de Conservação. Contudo, são consideradas espaços territorialmente protegidos, possuindo restrições estabelecidas no PDOT/DF. No Distrito Federal há 27 APMs, localizadas tanto na área rural, quanto na zona urbana (IDE, 2023) e usualmente possuem o nome do corpo hídrico que abrigam.

A legislação de proteção de mananciais no Brasil visa proteger as bacias de captação das atividades que comprometam a qualidade da água (Tucci, 2008). A proteção destes mananciais é fator de suma importância na gestão de recursos hídricos, uma vez que sendo o corpo hídrico classificado como manancial de abastecimento, torna-se necessário que tanto os demais usos, quanto o ordenamento territorial sejam planejados de forma a garantir a qualidade e disponibilidade. Apesar dos ambientes protegidos constituírem uma das principais maneiras de intervenção governamental na redução das perdas da biodiversidade mediantes a degradação imposta pela sociedade, na prática, devido a forte pressão urbana e de suas atividades, essas áreas são, na maioria das vezes, ignoradas o que tem acarretado graves prejuízos ao meio ambiente, principalmente aos recursos hídricos.

É nesse contexto que o monitoramento dos recursos hídricos é uma atividade de grande importância para a gestão hídrica eficiente. Para Soares, Coldebella e Frigo (2021) a conservação dos recursos hídricos requer um monitoramento apropriado por meio de técnicas que sejam capazes de apontar qual a verdadeira situação que se encontra a qualidade dos                                mananciais. Nesse sentido, avaliar e mensurar a qualidade da água é   essencial para assegurar os usos múltiplos dos recursos hídricos e o desenvolvimento sustentável em bacias hidrográficas (Américo-Pinheiro; Ribeiro, 2019).

Além deste, e contribuindo também para a gestão e conservação dos recursos hídricos, os Protocolos de Avaliação Rápida (PAR) podem ser utilizados para avaliação da estrutura e o funcionamento dos ecossistemas fluviais, já que apresentam uma descrição geral e qualitativa dos atributos dos sistemas ao longo de um gradiente ambiental (Callisto et al., 2002).

No Distrito Federal as APMs Currais e Pedrais abrigam dois importantes tributários do Reservatório do Descoberto, que é o maior manancial utilizado para abastecimento e responsável pelo abastecimento de cerca de 65% da população no Distrito Federal (ADASA, 2017).      Essas APMs estão inseridas na Floresta Nacional de Brasília (FLONA) que foi criada com o objetivo conservar os recursos hídricos da Bacia do Descoberto. A FLONA é uma área significativa para a manutenção da disponibilidade hídrica no Distrito Federal, uma vez que nela estão contidas nascentes dos córregos Cana do Reino, Capão da Onça, Cortado, Currais, Zé Pires, do Valo e Ribeirões Bucanhão e das Pedras, bem como áreas de recarga hídrica (SEMA, 2021).

Nessa perspectiva, o presente estudo tem como objetivo caracterizar o nível de preservação das APMs Currais e Pedras, além de analisar a qualidade da água dos Córrego Currais e do     Ribeirão das Pedras no Distrito Federal.

2. METODOLOGIA

2.1 ÁREA DE ESTUDO

A área de estudo compreende as APMs Currais e Pedras localizadas na Bacia Hidrográfica do Descoberto, no Distrito Federal, e na unidade hidrográfica do Pedras (Figura 1).

Figura 1 – Localização da área de estudo (-15º46’31.42”S – 48º04’08.22”O) na porção oeste do Distrito Federal

Fonte: Os autores, 2024.

O território da APM Pedras possui 27 km² e está inserida integralmente no módulo 1 da FLONA de Brasília, enquanto a APM Currais se insere parcialmente no módulo 1 da FLONA e possui 16 km². O Ribeirão das Pedras e o Córrego Currais se enquadram na classe 2 segundo seus usos preponderantes, conforme a Resolução nº 02/2014-CRH/DF.

Quanto aos seus atributos físicos a região onde as APMs estão localizadas é classificada como Grupo Paranoá, metarritmito arenoso; situado no plano elevado, relevo plano a suave ondulado, com altitudes superiores a 1.100 metros e declividade inferior a 10%. Predominam as declividades plana (0% a 3%) e suave-ondulada (3% a 8%) (CODEPLAN, 2020; ICMBIO, 2016).

A pedologia é caracterizada por Cambissolos, Latossolo vermelho-amarelo, Plintossolo, Latossolo vermelho e Gleissolo (CODEPLAN, 2020).

O clima da região é do tipo Aw, segundo a classificação de Alvares et al. (2013), com verão chuvoso e inverno seco e frio. Os mesmos autores definiram a temperatura média anual de 21 °C, com média máxima de 22 °C em setembro e média mínima de 18 °C em julho e precipitação anual variando de 1.400 mm a 1.600 mm.

2.2 AVALIAÇÃO DO ESTADO DE CONSERVAÇÃO DAS APMS CURRAIS E DAS PEDRAS

2.2.1 PROTOCOLO RÁPIDO DE AVALIAÇÃO VISUAL DE IMPACTO AMBIENTAL (PRAVIA)T

O PRAVIA é um protocolo adaptado por Pinheiro (2007) às condições do                  Distrito Federal (Quadro 1). É composto por 20 variáveis, que possuem o objetivo de propiciar a avaliação da condição de conservação do corpo hídrico. O PRAVIA é baseado  no Protocolo de Avaliação Rápida (PAR) elaborado por Callisto et al. (2002), adaptado do Protocolo da Agência Ambiental de Ohio (EPA, 1987).

O protocolo sugere avaliar 20 variáveis em categorias com três níveis de peso, a saber: Natural (5 pontos); Alterado (3 pontos) e Impactado (0 pontos). O resultado é alcançado dos somatórios dos pesos conferidos a cada parâmetro, e reflete o nível de preservação do ambiente dos locais estudados, sendo: “Natural” (61-100 pontos); “Alterado” (41-60 pontos) e “Impactado” (0-40 pontos) (Callisto et al., 2002).

Quadro 1 – Protocolo Rápido de Avaliação Visual de Impacto Ambiental (PRAVIA)

Localização GPS:                                                        Altitude:
Data da coleta:                                                          Hora da coleta:
Tempo (situação do dia):
Modo de coleta (coletor):
Tipo de ambiente:       Nascente (   )      Córrego (   )        Rio (   )
Corredeira forte (    )      Corredeira fraca (   )     Remanso (   )
Largura:                                                      Profundidade:
Temperatura da água:
Tipo de vegetação ripária:
Parâmetros Pontuação
05 Pontos 03 Pontos 00    Pontos
1. Acesso ao local Mata fechada e/ou pelo rio

 

Trilha (acesso estreito) Asfalto/chão batido (indicador de transporte)
2.Tipo de ocupação das margens do corpo d’água (principal atividade) Vegetação Natural (árvore, gramínea, arbusto etc.) Campo de pastagem/Agricultura/ monocultura/ações de restauração /Reflorestamento Residencial/Comercial/ Industrial
3. Erosão próxima as nas margens do rio Ausente Erosão laminar moderada

 

Ravinas e/ou voçorocas
4. Esgoto a céu aberto e fossas sépticas Ausente Esgoto doméstico/lixo disperso Alterações de origem Industrial/ urbana (fábricas, siderúrgicas, canalização, reutilização do curso do rio)

 

5. Cobertura vegetal no leito Variação entre 70% a 95% Parcial (entre 40% e 70%)

 

Ausente
6. Odor da água Ausente Moderados cheiro de esgoto (ovo podre) Abundante cheiro de óleo/ Industrial

 

7. Cor Incolor Turva (cor de terra) Esverdeada (cor de esgoto)

 

8. Tipo de fundo Pedras/cascalho Lama/Areia Cimento/Canalizado

 

9. Tipo de substrato na margem/centro da lâmina d’água

 

Seixos abundantes (porte grande, nascente) Seixos abundantes (porte médio, cascalho comum) Seixos ausentes (Deposição de Lama)
10. Presença de Mata de Galeria/ Mata Ciliar Árvores de porte natural, entre 8 a 12 metros de altura Árvores de porte médio, menor que 8 metros de altura

 

Ausência de árvore
11. Presença de fauna aquática (piabas, alevinos etc)

 

Abundante Moderada Ausente
12. Largura da Mata de Galeria Largura entre 50 a 150

metros (ausência de ação antrópica)

Largura menor que 50

metros (desmatamento

visível)

 

Ausência de Mata de

Galeria

13. Presença de moradia no local Ausente Apenas fazenda/ chácara/

Sítios

 

Casas e/ou Condomínios
14. Alteração do nível de água Ausente Desbarrancamento

causado por enchentes,

materiais orgânicos

carreados e depositados

nas margens.

Presença de lixos e galhos

carregados pela água e

presos acima do nível d’água

(marca visível de enchente).

15. Deposição de sedimentos nas curvas

 

Ausente Deposição moderada/ cascalho novo/areia Grande depósito de lama
16. Óleos e graxas Ausente Moderado Abundante

 

17. Resíduos sólidos Ausente Moderado Abundante

 

18. Materiais flutuantes (inclusive espuma)

 

Ausente Moderado Abundante
19. Transparência da água (disco de Secchi) Cristalina (Visibilidade

até o fundo)

 

Visibilidade do Disco ½ da profundidade

 

Visibilidade menor que 1/3 da profundidade
20. Presença de plantas aquáticas Macrófitas aquáticas e/ou briófitas (bem

distribuídas)

Macrófitas aquáticas e/ou

briófitas (pouco

distribuídas)

Ausência de macrófitas

aquáticas e/ou briófitas ou grandes bancos de plantas

Fonte: Modificado dos protocolos de Hannaford et al. (1997) e da EPA (Environmental Protections Agency) (Estados Unidos) (1987) realizado por Callisto (2002) e Pinheiro (2007).

No presente estudo o PRAVIA foi aplicado no mês de setembro de 2022,        época seca, em um total de dez pontos, onde cinco corresponderam ao córrego Currais (C1; C2; C3; C4 e C 5) (Figura 2) e cinco ao Ribeirão das Pedras (P1;     P2; P3; P4 e P5) (Figura 2).

Figura 2 – Pontos de aplicação do Protocolo Rápido de Avaliação Visual de Impactos Ambiental (PRAVIA) e de coleta de água no Ribeirão da Pedras (P1, P2, P3, P4, P5) e no Córrego Currais (C1, C2, C3, C4 e C5) localizados na Bacia Hidrográfica do Descoberto no Distrito Federal

Fonte: Os autores, 2024.

A escolha dos pontos foi feita conforme as imagens de satélites da área considerando os locais com maior relevância, representatividade, acessibilidade e proximidade às fontes poluidoras. A coleta dos dados relativas às 20 variáveis foi feita utilizando a trena para medir a largura da Mata de Galeria; a vareta para averiguar a profundidade do córrego e o disco de Secchi para medir a transparência e o nível de turbidez. A medição da altura das árvores foi realizada por meio de aferição visual.

2.2.2 AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE ÁGUA E ÍNDICE DE QUALIDADE DA ÁGUA (IQA)

Foram realizadas análises físico-químicas e microbiológicas (Potencial Hidrogeniônico (pH), Turbidez, Condutividade, Nitrogênio, Fósforo, Oxigênio dissolvido (OD), Ferro, Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), Temperatura, Sólidos totais, Coliformes Termotolerantes) da água em amostras coletadas nos pontos identificados na figura 2, que correspondem ao Ribeirão das Pedras (P1; P2; P3; P4 e P5) e ao córrego Currais (C1; C2; C3; C4 e C5). As coletas referentes à primeira campanha foram realizadas no mês de setembro de 2022, época seca; e a segunda campanha em fevereiro de 2023, época chuvosa, considerando para análise de qualidade os parâmetros definidos para as variáveis de qualidade de água presentes na Resolução CONAMA nº 357/2005 (Brasil, 2005) especificadas para a água doce e corpos hídricos da Classe II de uso.

Na primeira campanha (época seca), o ponto Currais 1 referente à nascente do Córrego Currais, encontrava-se seca e não foi possível realizar a coleta. Este ponto não teve como ser realocado, uma vez que o Córrego Currais, após o ponto 2, segue por uma fitofisionomia de Campo de Murundum. Nos dez pontos, as amostras de água foram coletadas no início da manhã e armazenadas em recipientes identificados, que foram conservadas em caixa térmica e levados para o laboratório.

O IQA utilizado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) foi criado pela National Sanitation Foundation – NSF no ano de 1970, e atualmente é um dos principais índices empregados no Brasil, por representar variáveis estatísticas da qualidade da água (Toledo; Nicolella, 2002). De acordo com Pessoa et al. (2020) este índice objetiva avaliar a qualidade de água bruta para fins de abastecimento público, já que os parâmetros usados são indicadores de contaminação. Nove parâmetros são usados para o cálculo, são eles: coliformes termotolerantes, demanda bioquímica de oxigênio, fósforo total, nitrogênio total, oxigênio dissolvido, pH, sólidos totais, temperatura e turbidez.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na tabela 1 são apresentados os resultados do PRAVIA para o Córrego Currais e o Ribeirão das Pedras. No geral, observou-se que seis ambientes (66,66%) foram considerados “Naturais” e três (33,33%) “Alterados”. Nenhum dos ambientes estudados foram considerados “Impactados”.

Tabela 1 – Pesos dos parâmetros da aplicação do Protocolo Rápido de Avaliação Visual de Impacto Ambiental (PRAVIA) nos cinco pontos no Córrego Currais (C) e cinco no Ribeirão das Pedras (P) no Distrito Federal. *O ponto C1 referente à nascente do Córrego Currais, encontrava-se seca e não foi possível aplicar o PRAVIA. N: Natural; A: Alterado

Fonte: Os autores, 2023.

Dos quatro pontos avaliados no Córrego Currais (C2, C3, C4 e C5) o C2, que está localizado integralmente na poligonal da FLONA de Brasília (Figura 3), foi classificado como “Natural” (Tabela 1). Sabe-se que a FLONA de Brasília é uma Unidade de Uso Sustentável, cujo objetivo principal é conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável dos seus recursos naturais, de acordo com a legislação brasileira 9.985/2000 (Brasil, 2000). A figura 3 foi elaborada considerando a nova poligonal da FLONA de Brasília, estabelecida na Lei nº 14.447/2022 (Brasil, 2022), que acrescentou e considerou a extensão da APM Currais até o limite com a BR-070.

Os demais pontos (C3, C4 e C5) no Córrego Currais, que estão fora dos limites da poligonal da FLONA de Brasília (Figura 3), foram classificados como ambientes “Alterados” (Tabela 1). Ambientes “Alterados” foram aqueles com ausência de Mata de Galeria, presença de resíduos sólidos, odor de madeira em decomposição, instabilidade de barrancos e deposição de sedimentos nas curvas.

Figura 3 – Localização dos pontos analisados comparados com a área da Floresta Nacional (FLONA de Brasília) e das Áreas de Proteção de Mananciais (APM)

Fonte: Os autores, 2024.

Os três pontos no córrego Currais classificados como “Alterados” sofrem com a pressão da expansão urbana, ocupações irregulares ou invasões, além dos impactos causados pela visitação dos frequentadores da FLONA de Brasília. Ocupações irregulares ocorrem quando há o reparcelamento ou parcelamento fora da finalidade atribuída àquela área, a exemplo uma pessoa que possui concessão de uso para uma área rural, não tem autorização para fazer um parcelamento; já a invasão se refere a apropriação ilegal de uma área em que há impedimento, como Áreas de Preservação Permanente ou tombada pelo patrimônio histórico (SEGOV, 2022). Tanto as ocupações irregulares quanto as invasões afetam a qualidade dos recursos naturais, uma vez que, não há esgotamento sanitário ou coleta de resíduos nessas áreas (Lolive; Okamura, 2020). Conforme o plano de manejo da FLONA de Brasília parte das ocupações existentes na área datam das décadas de 60 e 70, quando ocorreu o processo de urbanização do Distrito Federal (ICMBIO, 2016), anterior à criação da FLONA de Brasília, que ocorreu em 1999 e das APMS Currais e Pedras que aconteceu no ano de 1997. Sabe-se que a regularização de ocupações irregulares do solo, apresenta-se como um exercício multidimensional, envolvendo a alocação de recursos, planejamento e capital político (Amaral; Machado; Lima Neto, 2017).

Ademais, problemas relacionados à drenagem urbana próxima às APMs, principalmente a APM Currais localizada à margem da rodovia BR-070 (Figura 3), também já foram relatados e são conhecidas há muitos anos. De acordo com Silva et al. (2018) o dimensionamento insuficiente do sistema de drenagem para as Regiões Administrativas de Taguatinga e Ceilândia no Distrito Federal e da BR-070 tem gerado danos ambientais, visto que, nos meses chuvosos a falta de dispositivos de drenagem acarreta o aumento significativo da vazão escoada, que associado com relevo declivoso, ganha velocidade cinética resultando em grandes processos erosivos na bacia e graves problemas de assoreamento, formando “novos canais”. Um exemplo dessa situação ocorreu no ano de 2007, quando parte do asfalto na BR-070 cedeu depois que a tubulação de águas pluviais ficou comprometida. A força da água das chuvas foi apontada como a causa dos estragos, que chegou a abrir uma cratera às margens da rodovia.

Por outro lado, no Ribeirão das Pedras, todos os cinco pontos analisados foram classificados como “Natural” (Tabela 1). No geral, ambientes nessa categoria possuem Mata de Galeria cobrindo o leito, corpos hídricos caracterizadas por águas limpas e presença abundante de fauna aquática, além de outros.

Os pontos P1 e P3 do Ribeirão das Pedras foram aqueles que receberam a menor pontuação, 73 pontos (Tabela 1), por possuírem vegetação herbácea circundado a nascente, como é o caso do P1, ou ainda por possuírem Mata de Galeria em apena um dos lados da margem. Tais fatores são analisados em quatro parâmetro do protocolo, diminuindo então o somatório dos itens. Já o ponto P4 foi considerado o mais conservado, 85 pontos (Tabela 1), em que foi atribuída a pontuação “0” para apenas um parâmetro, que foi a ausência de “macrófitas aquáticas e/ou briófitas”. Vale ressaltar que, exceto no P1 do Ribeirão da Pedras, os demais pontos também receberam pontuação “0” para este parâmetro.

Valente et al. (2019) também observaram que a parte da unidade hidrográfica Ribeirão das Pedras, que se localiza dentro da FLONA de Brasília, estava mais bem conservada, entretanto, naquela época os autores chamaram a atenção para a parte mediana e o exutório desta unidade hidrográfica que estavam sendo impactados pelas ações antrópicas, como atividades agrícolas e expansão urbana, caracterizando-se por locais propensos a processos erosivos e acúmulo de resíduos sólidos.

Sabe-se que as UCs quando bem geridas, viabilizam o planejamento, o controle e a organização do território, visto que são competentes para a preservação e conservação dos ecossistemas, biomas e domínios de natureza no Brasil (Brasil, 2011), uma vez que possuem um papel importante na garantia de serviços ambientais/ecossistêmicos e na qualidade dos recursos hídricos (Assis; Faria; Bayer, 2022).

Os resultados das análises de qualidade de água nas estações seca e chuvosa para o Córrego Currais e Ribeirão das Pedras podem ser vistos nas tabelas 2 e 3, respectivamente. Destaca-se que o Córrego Currais e o Ribeirão das Pedras se enquadram na classe 2, que são corpos hídricos que podem ser destinados ao abastecimento para consumo humano após tratamento convencional (CONAMA nº 357/05).

Tabela 2 – Resultados das análises de qualidade de água dos pontos amostrais localizados no Córrego Currais na estação seca e chuvosa no Distrito Federal. Os valores com asteriscos estão em desconformidade com a Resolução Conama nº 357. Não foi possível realizar coleta de água no ponto C1 na estação seca, uma vez que a nascente estava seca

Fonte: Os autores, 2023.

Tabela 3 – Resultados das análises de qualidade de água nos pontos amostrais localizados do Ribeirão das Pedras na estação seca e chuvosa no Distrito Federal. Os valores com asteriscos estão em desconformidade com a Resolução Conama nº 357

Fonte:  Os autores, 2023.

Todas as amostras analisadas, tanto no córrego Currais, quanto no Ribeirão das Pedras, atenderam ao estabelecido na legislação quanto ao parâmetro oxigênio dissolvido (Tabelas 2 e 3). A Resolução Conama nº 357/2005 determina que o limite de oxigênio dissolvido não seja inferior a 5 mg/L. O oxigênio dissolvido é a principal via de qualidade de água para a caracterização dos efeitos da poluição das águas por despejos orgânicos (Von Sperling, 2014). O dano mais evidente da poluição em um corpo hídrico por matéria orgânica é a queda nos níveis de oxigênio dissolvido, causada pela respiração dos microrganismos envolvidos na depuração dos esgotos (Fiorese, 2018). No ponto C3 do córrego Currais verificou-se grande quantidade de resíduos sólidos, assim como galhos e folhas de árvores presos nas raízes e acima do nível da margem do córrego, quando comparado aos demais pontos. Apesar dessa situação, os valores de oxigênio dissolvido se mantiveram em conformidade com a Resolução nº 357/2005.

Essa mesma Resolução estabelece que a faixa ideal de pH para corpos hídricos de classe 2 é entre 6,0 e 9,0. No Córrego Currais, na estação seca, o intervalo de pH identificado nos pontos analisados foi de 5,59 a 7,24 (Tabela 2), já na estação chuvosa este intervalo ficou entre 4,80 a 6,65. No Ribeirão das Pedras os resultados encontrados foram de 4,89 a 6,17 na estação seca, e de 4,67 a 5,35 na estação chuvosa (Tabela 3). Observa-se que no Córrego Currais, os dois pontos de coleta, que estão inseridos completamente na área da FLONA de Brasília, C1 e C2 (Figura 3), apresentaram resultados fora do padrão estabelecido pela Resolução Conama nº 357/2005 (Tabela 2). No ponto C1 na estação chuvosa o resultado foi de 4,80 (destaca-se que não houve coleta no referido ponto na estação seca), e no ponto C2 os resultados para a época seca e chuvosa foram de 5,64 e 4,67, respectivamente (Tabela 2). Os valores de pH para os demais pontos no córrego Currais estão de acordo com o estabelecido na Resolução citada acima (Tabela 2).

Já no Ribeirão das Pedras, na estação seca, apenas os pontos P3 com pH de 6,1 e o P5 com pH de 6,17, estavam em conformidade com o estabelecido no normativo de referência (Tabela 3). Nessa época, a nascente, onde está localizado o ponto P1, apresentou o valor mais baixo do parâmetro pH, 4,89. O menor valor encontrado para o parâmetro pH na época chuvosa foi no P2, cujo valor foi 4,67, e o maior valor no P5 de 5,35 (Tabela 3). Na época chuvosa, o resultado da coleta em nenhum dos pontos do Ribeirão das Pedras estava dentro do padrão estabelecido pela Resolução Conama (Tabela 2). Sabe-se que os valores de pH estão relacionados aos fatores naturais, desde aquelas decorrentes da variação de oxidação de matéria orgânica, dissolução de rochas, oscilações de temperatura, radiação solar, além das fontes antropogênicas pelo despejo de esgotos domésticos e industriais (Von Sperling, 2014). Nesse sentido, Lopes e Magalhães Júnior (2010) identificaram que valores baixos de pH encontrados em corpos hídricos comparados as normas vigentes, estão associados, possivelmente, à maior concentração de matéria orgânica vegetal oriunda da presença de vegetação ciliar e fragmentos florestais a montante do ponto amostral. Importante salientar que no presente estudo, em nenhum dos pontos onde o parâmetro pH foi classificado fora da faixa indicada na Resolução Conama nº 357 foram identificados lançamentos de efluentes domésticos ou industriais. No entanto, foi possível observar grande quantidade de folhas e troncos caídos nos corpos hídricos, especialmente no Córrego Currais, no qual foi possível identificar odor de madeira em decomposição nos pontos C3, C4 e C5.

Além disso, os solos predominantemente na área de estudo são do tipo hidromórficos, latossolos-vermelhos e latossolo-vermelho-amarelo (ICMBIO, 2016). Os latossolos do Distrito Federal são distróficos e ácidos, com pH entre 4,0 e 5,5 (Reatto et al. 2004). De acordo com esses autores, os solos hidromórficos podem ocorrer nas cabeceiras de rios e córregos e também ao longo deles. Dessa forma, os corpos hídricos estudado foram classificados com o pH baixo, podendo também ser devido à influência do tipo de solo no qual estão localizados.

A Resolução Conama nº 357/2005 preconiza que o limite adequado de DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) nas amostras de água para corpos hídricos de classe 2 é de até 5 mg/L. Em todos os pontos analisados, nos dois períodos, tanto no Córrego Currais, quanto no Ribeirão das Pedras, os valores atenderam ao estabelecido na norma.

Para o parâmetro Coliformes Termotolerantes a Resolução Conama nº 357/2005 determina que o limite aceitável é até 1000 NMP/100mL. No Córrego Currais, na época seca, o ponto C5, chama atenção, já que alcança o maior valor, 2400 NMP/100mL, sendo o único ponto que se enquadra fora do estabelecido pela resolução (Tabela 2). Já na estação chuvosa os resultados das amostras do Córrego Currais dos pontos C3, C4 e C5, foram respectivamente 2400 NMP/100mL, 2400 NMP/100mL e 1300 NMP/ 100mL, valores também considerados fora do limite da Resolução (Tabela 2).

Os pontos C3, C4 e C5 do córrego Currais não se encontram inseridos na poligonal da FLONA (Figura 3) e sofrem grande pressão com as ocupações irregulares próximas à sua margem. Essas ocupações não possuem sistemas de esgotamento sanitário fornecidos pela CAESB. Um dos principais indicadores do lançamento de esgotos domésticos sem tratamento é o aumento da presença de Coliformes Termotolerantes na água (CETESB, 2013). Embora não tenha sido visualizado lançamentos de esgotos no Córrego Currais, conforme observado nos resultados da aplicação do PRAVIA, há a criação de animais, como gado, cavalos e galinhas, próximos aos três pontos, o que pode justificar a presença de coliformes nas amostras estudadas.

Diferentemente, no Ribeirão das Pedras os resultados de análise das amostras de água para coliformes foram entre 1,8 NMP/100mL a 170 NMP/100mL na estação da seca e entre 18 NMP/100mL a 170 NMP/100mL, para o período (Tabela 3). Os resultados identificados estão de acordo com o estabelecido na Resolução Conama nº 357/2005.

Os resultados para o parâmetro turbidez tanto no Córrego Currais (Tabela 2) quanto no Ribeirão das Pedras (Tabela 3), estão de acordo com o estabelecido na Resolução Conama n° 357/2005 (até 100 UNT), para os dois períodos analisados. Dentre as principais fontes naturais de turbidez tem-se a precipitação, por desagregar e carrear partículas do solo, porém, a interação da precipitação com a superfície é influenciada pela cobertura vegetal, pelas características do solo e conformação do terreno (Loch; Brentano, 2020). Já as fontes antropogênicas podem ser caracterizadas pelos esgotos domésticos e diversos efluentes industriais, como exemplo a mineração (CETESB, 2016).

É conhecido que o mau uso do solo, aumenta processos erosivos das margens dos rios em época chuvosa, e este é um exemplo que resulta em aumento da turbidez das águas (CETESB, 2019). Nos pontos C3, C4 e C5 no Córrego Currais, foram identificados processos erosivos, conforme identificados pelos resultados do PRAVIA, e nos pontos C4 e C5, há vegetação em apenas uma das margens do corpo hídrico, esses pontos obtiveram os maiores valores para o parâmetro turbidez para o período da chuva, quando comparados aos demais pontos analisados (Tabela 2). A elevação da turbidez em corpos hídricos faz com que mais produtos químicos (por exemplo: coagulantes) sejam utilizados no tratamento da água, o que aumenta os custos de tratamento (Ana, 2012).

Quanto ao parâmetro resíduo total a Resolução Conama nº 357/205 preconiza o valor máximo de 500 mg/L para corpos hídricos de classe 2. Todas as amostras analisadas, tanto do Córrego Currais (Tabela 2), quanto do Ribeirão das Pedras (Tabela 3), para os dois períodos estudados, estação seca e chuvosa, estão em conformidade com o estabelecido na referida legislação.

Esta mesma Resolução estabelece o limite de 0,1 mg/L para o parâmetro fósforo nos corpos hídricos enquadrados na classe 2. Todos os pontos analisados no Córrego Currais na estação seca apresentaram-se com valor abaixo do limite citado na resolução. Os resultados variaram entre 0,014 mg/L a 0,082 mg/L (Tabela 2). Contudo, na estação chuvosa, os pontos C3 (0,31 mg/L), C4 (0,33 mg/L) e C5 (0,34 mg/L) não estavam em conformidade com a referida Resolução. Os valores variaram entre 0,061 mg/L a 0,34 mg/L (Tabela 2). Os pontos C3, C4 e C5 do córrego Currais são os mesmos que apresentaram desconformidade para o parâmetro coliformes termotolerantes.

Importante pontuar que os pontos referidos acima C3, C4 e C5, estão em locais impactados por serem situados próximos à região administrativa de Taguatinga e as ocupações irregulares. Assim, tal aumento na concentração de fósforo nestes pontos na época chuvosa, pode ser explicado pelo fato de a chuva carrear esse elemento, uma vez que, as ocupações irregulares não possuem sistema de esgotamento sanitário público, além da criação de animais, como gado e cavalo. Sabe-se que a principal fonte de fósforo que aparece em águas naturais é devido às descargas de esgotos sanitários, que são compostos por matéria orgânica fecal e detergentes (CETESB, 2016).

Por outro lado, no Ribeirão das Pedras, todas as análises para o parâmetro fósforo total atenderam ao estabelecido na Resolução Conama nº 357. Na estação seca o valor mínimo identificado foi de 0,064 mg/L, e o valor máximo de 0,085 mg/L, enquanto no período chuvoso o mínimo foi de 0,054 mg/L e o máximo de 0,067 mg/L (Tabela 3). Uma vez que o Ribeirão das Pedras se encontra inserido integralmente na poligonal da FLONA, não havendo ocupações irregulares ou lançamentos de esgotos clandestinos nas proximidades, não foi identificado alteração do parâmetro fósforo para o período chuvoso.

De acordo com a Resolução Conama nº 357/2005 o limite estabelecido para o parâmetro nitrogênio é de 2,18 mg/L para os corpos hídricos enquadrados como classe 2. Todas as amostras analisadas para os dois corpos hídricos, nos dois períodos estudados, estão em conformidade com a resolução citada (Tabelas 2 e 3). Condição importante já que o nitrogênio é um nutriente envolvido em vários processos biológicos e seu lançamento em grandes quantidades, juntamente com o fósforo, causa um crescimento excessivo das algas, processo conhecido como eutrofização, o que pode prejudicar o abastecimento público, a recreação e a preservação da vida aquática (Ana, 2012).

Os resultados dos IQAs das amostras dos cinco pontos (C1, C2, C3, C4 e C5) localizados no Córrego Currais, para as duas estações estudados (seca e chuva), se enquadraram na categoria “Boa”, conforme a classificação da CETESB (Tabela 4). Na estação seca o ponto C3 apresentou o valor mais elevado (77), enquanto o ponto C5 o valor mais baixo (68). Já no período da chuva o melhor resultado foi no C2 (71) e o pior resultado no C4 (66) (Tabela 4).

Tabela 4 – Valores do Índice de Qualidade de Água (IQA) na estação seca e chuvosa, classificação da qualidade da água, e conservação dos ambientes via aplicação do Protocolo Rápido de Avaliação Visual de Impacto Ambiental (PRAVIA) nos pontos amostrais no Córrego Currais no Distrito Federal

Fonte: Os Autores, 2023.

Na estação chuvosa, o ponto C3, assim como o C4 e C5 foram os pontos que mais variaram quando se observa o parâmetro coliforme termotolerante (Tabela 2). Estes apresentaram-se fora do estabelecido pela resolução Conama nº 357/2005. Conforme apontando anteriormente estes são os pontos mais vulneráveis aos impactos causados pelas ocupações irregulares e proximidade com a área urbana. Os resultados do PRAVIA no ponto C3 embora tenha apontado grande quantidade de resíduos sólidos, além de processos erosivos no local, a presença de Mata de Galeria com 15 m de largura e, ainda a presença de cerca de 150 m de Cerrado sentido restrito preservados morro acima, parece ser o que tem contribuído para a manutenção da “boa” qualidade da água no local.

É sabido que bacias que apresentam maior cobertura vegetal e áreas ripárias protegidas apresentam melhor qualidade da água (Silva et al. 2018). Vieira e Silva (2022) estudaram a relação da vegetação ripária com a qualidade da água em uma bacia hidrográfica localizada no munícipio de Três Lagoas em Minas Gerais, e concluíram que a vegetação ripária influencia diretamente a qualidade da água, uma vez que foi observado nas áreas em que a vegetação estava conservada, os melhores resultados para os parâmetros de qualidade de água, bem como a manutenção à classe de enquadramento estabelecida pela Resolução Conama nº 357/2005. A vegetação ripária pode contribuir para remoção de nitrato, fósforo, pesticidas dentre outros poluentes nos corpos hídricos (Aguiar Júnior; Parron, 2015), atuando como filtro natural ou zona tampão de entrada de nutrientes. Além disso, atua na estabilização das margens, diminuindo os processos erosivos, auxilia na recarga de aquíferos subterrâneos, além de diminuir o escoamento superficial e dificultar o carreamento de sedimentos (Kobiyama, 2003). Autores como Pinheiro (2007) e Melo, Oliveira e Abreu (2021) identificaram que os pontos mais conservados da Mata de Galeria, classificados como “natural” de acordo com o PRAVIA, foram aqueles que apresentaram os melhores resultados para o cálculo do IQA.

O ponto C2, embora também sofra pressão pela proximidade com a área urbana de Taguatinga e pelas ocupações irregulares, localiza-se integralmente no território da FLONA de Brasília (Figura 3). Conforme apontam Zanardini e Brandimarte (2015) as UCs exercem vários serviços ambientais, dentre eles a proteção da biota e da qualidade da água.

Nesse sentido, ao analisar a efetividade da criação de Unidades de Conservação para preservação dos recursos hídricos, Freitas Júnior (2021) identificou melhora na qualidade da água na Bacia Guariroba em Mato Grosso do Sul, por meio da utilização do IQA, especialmente quanto aos parâmetros de turbidez, sólidos e DQO, uma vez que a adoção de práticas de conservação do solo melhorou a qualidade da água captada para abastecimento público. Silva et al. (2007) identificaram que pontos do córrego Vargem Limpa, em Bauru, São Paulo, que se localizavam em UCs apresentaram melhores resultados para qualidade da água do que aqueles que se encontravam fora deste local, demonstrando a importância dessas áreas para a manutenção dos recursos hídricos. No entanto, Figueiredo et al. (2019) fazem uma ressalva e apontam que a criação de uma UC é, por si só, insuficiente para proteção aos recursos hídricos, há a necessidade de implementação de programas e ações eficazes relacionados ao uso do solo, ocupação e qualidade da água.

As análises realizadas nos cinco pontos (P1, P2, P3, P4 e P5) no Ribeirão das Pedras, tanto no período da seca, quanto no período chuvoso, foram categorizadas como “Boa”, variando entre 69 e 76 na seca, e 67 e 73 no período chuvoso (Tabela 5).

Tabela 5 – Valores do Índice de Qualidade de Água (IQA) na estação seca e chuvosa, classificação da qualidade da água, e conservação dos ambientes via aplicação do Protocolo Rápido de Avaliação Visual de Impacto Ambiental (PRAVIA) nos pontos amostrais no Ribeirão das Pedras no Distrito Federal

Fonte: Os Autores, 2023.

Observou-se que o IQA do ponto (P1) localizado na nascente do Ribeirão das Pedras obteve a melhor pontuação para a estação seca (76) e chuvosa (73) (Tabela 6). Na estação seca o ponto P4 obteve o menor valor (69), já no período chuvoso o menor valor foi atribuído ao P5 (67) (Tabela 5).

Na estação seca foi verificado que o valor do IQA do ponto P4 para o P5, houve um aumento, portanto, pode-se inferir em uma melhora na qualidade da água (Tabela 5). Tal situação pode ser explicada, uma vez que o parâmetro pH no ponto P5 se enquadrou dentro do limite estabelecido pela resolução Conama nº 357, que foi de 6,17, diferentemente do P4, cujo resultado para o pH foi de 5,33 (Tabela 3). De fato, no P4 foi observado pelo resultado do PRAVIA, grande quantidade de folhas acumuladas no leito do Ribeirão, o que, devido à maior decomposição de matéria orgânica, pode justificar o valor do pH. Sabe-se que o parâmetro pH possui o terceiro maior peso no cálculo do IQA.

No período chuvoso ocorreu o inverso, no ponto P4 (72) foi observado IQA maior do que o P5 (67) (Tabela 5). Neste período, o parâmetro pH estava fora do padrão em todos os pontos analisados (Tabela 3). Porém, o P4 obteve os melhores resultados para oxigênio dissolvido (7,12 mg/L) e para coliformes (20 mg/L), quando comparados com o P5, que obteve os resultados de 6,71 mg/L para o parâmetro oxigênio dissolvido e 170 NMP/100mL para coliformes (Tabela 3). Destaca-se que os oxigênios dissolvidos e coliformes termotolerantes possuem os maiores pesos no cálculo do IQA, que são, respectivamente, 0,17 e 0,15.

Como discutido anteriormente, no Ribeirão das Pedras, todos os pontos analisados foram categorizados como “Natural” de acordo com o PRAVIA, variando de 73 a 85 pontos, e foram classificados pelo IQA como “Boa”.

Nenhum dos pontos obtiveram o melhor valor para qualidade da água e o maior valor no PRAVIA, concomitantemente. O ponto P1 alcançou os melhores valores pra o IQA, tanto na seca, quanto na chuva, mas na classificação do PRAVIA obteve o terceiro melhor resultado. Tal situação se deve pela ausência de Mata de Galeria nas proximidades da nascente do Ribeirão das Pedras, fator que atribui nota “0” para três parâmetros analisados, que se referem ao porte e presença de cobertura vegetal ou Mata de Galeria.

O melhor resultado para o PRAVIA ocorreu no P4 (85 pontos) (Tabela 1), que obteve o menor resultado para o IQA no período da seca (64) e o segundo melhor resultado para a estação chuvosa (72) (Tabela 5). O P4 apresentou alteração para o parâmetro pH nos dois períodos analisados (Tabela 3). O pH possui o terceiro maior peso no cálculo do IQA.

No ponto P3 do Ribeirão das Pedras foi registrado o menor resultado do PRAVIA (73 pontos) juntamente com o P1 (Tabela 1), e o segundo melhor índice quanto à análise do IQA (75) na estação seca e o segundo pior resultado na estação chuvosa (68) (Tabela 5). Tal fato ocorreu devido o menor valor identificado para Oxigênio Dissolvido no Ribeirão das Pedras na estação chuvosa, 6,58mg/L, ter sido identificado no P3 (Tabela 3). Este parâmetro possui o maior peso no cálculo do IQA.

Embora o Ribeirão das Pedras tenha apresentado os melhores resultados quanto a conservação e a qualidade da água do que o Córrego Currais, ambos representam pequenas captações no DF e não estão atualmente em operação, contudo sua manutenção necessita de cuidados por estarem situadas em bacias produtoras de água importantes ao abastecimento público e ao mesmo tempo fortemente pressionadas pela ocupação urbana do Distrito Federal, entre outras formas de degradação.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A qualidade da água em todos os pontos analisados nos dois corpos hídricos foi considerada “Boa” de acordo com o IQA. No entanto, pela avaliação realizada via PRAVIA, 33,33% dos ambientes avaliados foram classificadas como “alterados” e estão localizados no Córrego Currais. Sabe-se que o IQA é imprescindível como indicador da qualidade de água, contudo, o resultado encontrado aqui reforça que esse indicador, quando verificado isoladamente, pode subestimar a situação real da condição de degradação dos ambientes.

Foi possível observar que o Córrego Currais é mais impactado devido a proximidade com área urbana e as ocupações irregulares. Foi associado o maior grau de conservação da APM Pedras ao fato desta estar totalmente inserida na poligonal da FLONA.

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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

1  Mestrado em Gestão e Regulação dos Recursos Hídricos (Universidade de Brasília, Faculdade UnB Planaltina); Graduação em Engenharia Ambiental (Universidade Federal do Tocantins). ORCID: 0009-0001-6511-8400. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3988124935466677.

2 Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro). Mestre em Genética e Melhoramento (Universidade Federal do Piauí). Bacharel em Engenharia Agronômica (Universidade Federal do Piauí). ORCID: 0000-0002-2120-0533. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5842587941126349.

3 Doutora em Ciências Florestais (Universidade de Brasília). Mestre em Botânica (Universidade de Brasília). Bacharel em Ciências Biológica (Universidade Federal de Uberlândia). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4456-0734. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1440663772914527.

Contribuição dos autores:

Larissa Moreira Cardoso: Concepção, planejamento, coleta de dados, análise, interpretação, redação do trabalho.

Erina Vitório Rodrigues: Análise, interpretação.

Maria Cristina de Oliveira: Concepção, planejamento, coleta de dados, interpretação, redação do trabalho.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

Os autores não tiveram conflito de interesse.

Agradecimentos e Financiamento:

CAPES – Financiamento 001; PROFAGUA Projeto CAPES/ANA AUXPE No 2717/2015.

Nota:

Nosso relatório identificou a presença de inteligência artificial para correção gramatical e ortográfica. No entanto, os autores informaram que não a utilizaram. Os autores se responsabilizam pelo material.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.

  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 24 de janeiro de 2025.

Material aprovado pelos pares: 24 de fevereiro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 06 de novembro de 2025.

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Larissa Moreira Cardoso

Mestrado em Gestão e Regulação dos Recursos Hídricos (Universidade de Brasília, Faculdade UnB Planaltina); Graduação em Engenharia Ambiental (Universidade Federal do Tocantins). ORCID: 0009-0001-6511-8400. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3988124935466677.

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