Meio Ambiente

Pesquisa: Decomposição biodegradável de tecidos por traças e a construção de “fazendas” de degradação

ARTIGO ORIGINAL

TORRES, Bernardo de Oliveira Couto [1], FRANCO, Rafael Alves [2]

TORRES, Bernardo de Oliveira Couto. FRANCO, Rafael Alves. Pesquisa: Decomposição biodegradável de tecidos por traças e a construção de “fazendas” de degradação. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 11, Vol. 02, pp. 127-145. Novembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/meio-ambiente/decomposicao-biodegradavel, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/meio-ambiente/decomposicao-biodegradavel

RESUMO

As traças, insetos da ordem Lepidoptera, desempenham um papel vital nos ecossistemas como polinizadoras e, em muitos casos, como fonte de alimento na cadeia alimentar. Encontradas em uma variedade de ambientes, a dieta dos Lepidoptera varia, com algumas larvas especializadas na digestão de queratina, um polímero encontrado em lã, penas e pelos. A enzima responsável pela degradação dos tecidos queratinizados é o que torna a família Tineidae tão eficaz na quebra desses materiais. Utilizar traças para decomposição têxtil é uma abordagem ecológica ao manejo de resíduos, transformando produtos orgânicos em adubo para vegetais. Ainda assim, infestações em casa devem ser mantidas sob controle, pois algumas espécies são prejudiciais para roupas e carpetes, e todas as precauções devem ser tomadas para evitar desequilíbrios ecológicos no uso de espécies não nativas. Contudo, as traças podem ser excelentes para práticas de reciclagem sustentável e compostagem, algo que necessita ser mais explorado e evidenciado. As abordagens metodológicas utilizadas são qualitativas, descritivas e experimentais, visando um estudo abrangente da biologia, comportamento e ecologia de Tineola bisselliella, bem como a aplicação prática do conceito de ‘fazenda de mariposas’. Além disso, foi realizada uma extensa revisão da literatura científica, incluindo artigos, livros e trabalhos científicos, para reunir informações sobre a biologia, ecologia e impactos ambientais de Tineola bisselliella.

Palavras-chave: Traças, Tecido, Decomposição, Biodegradável.

1. INTRODUÇÃO

O filósofo alemão Hans Jonas define como “Ética da Responsabilidade” que os efeitos das tuas ações não destruam a possibilidade futura da vida das novas gerações. É baseado nessa ética e nas questões ambientais atuais que surgiram os ideais dessa pesquisa. O acúmulo de lixo e resíduos é um dilema que vem se agravando juntamente de várias outras problemáticas ambientais na atualidade, vale ressaltar que em um mundo consumista e extremamente volátil como o atual faz com que o mercado têxtil tenha um crescimento desenfreado, e até mesmo aqueles tecidos que são biodegradáveis ou reutilizáveis ainda demoram certo tempo para serem consumidos pela natureza — isso caso desconsideramos outras formas mais rápidas como o descarte espacial e a incineração, métodos que não passam de emplastros, afinal, transferem os problemas de uma área ambiental para outra.

Uma possível solução para o problema é a decomposição por traças. Alguns animais consomem queratina, que está presente em lã, cabelos e alguns tecidos que comumente usamos em roupas e mantas, como o besouro de carpetes – Gorgulho-dos-tecidos (Anthrenus verbasci) – e algumas traças – traça case-making (Tinea pellionella); traça-das-roupas (Tineola bisselliella (Hummel); traça-dos-livros/tapeçaria (Trichophaga tapetzella).

A traça que se mostrou ser mais eficaz para a função de decomposição foi a Tineola bisselliella.

A Tineola bisselliella, ou traça-das-roupas, desempenha um papel significativo na decomposição de materiais orgânicos ricos em queratina, como lã e penas. Suas larvas são altamente eficientes em quebrar essas proteínas complexas, contribuindo assim para o ciclo natural de decomposição. (Hedges, 1996).

A partir dela, foi feito o planejamento de uma fazenda de traças funcional que poderia, a longo prazo, utilizar meios naturais para decompor, o que representa 1% de todo o lixo têxtil do planeta. A uma primeira vista o valor pode parecer irrisório, todavia, segundo a pesquisa do Sebrae, no mundo, o número chega a 50 milhões de toneladas de roupas jogadas fora a cada ano, parte delas levadas para países da África — como Gana — e da América do Sul— como o Chile —, isso desconsiderando peças como capas de sofá, tapetes e cobertores.

A cada ano, cerca de 50 milhões de toneladas de roupas são descartadas globalmente. Parte dessas roupas é enviada para países da África, como Gana, e da América do Sul, como o Chile. Isso sem considerar itens como capas de sofá, tapetes e cobertores. (Niinimäki, et al. 2020).

Ou seja, essa é uma alternativa viável, de como usarmos a natureza a nosso favor e transformar aproximadamente 500.000 (mil) toneladas de lixo têxtil por ano em pequenas quantidades de matéria que pode ser reaproveitada para produção de fertilizantes e afins; tudo isso por meios que respeitam a natureza, em uma harmonia onde usamos o natural para salvar o meio ambiente, danificando-o ao mínimo, principalmente se comparado aos meios atuais.

O presente estudo visa analisar as possibilidades e a viabilidade da utilização de traças como uma forma sustentável e ecológica para a decomposição de tecidos, a fim de explorar as barreiras ainda pouco conhecidas e abordadas sobre o assunto. Busca-se refletir sobre o potencial de sua utilização no desenvolvimento de meios e formas para o tratamento de um problema crônico mundial: o excesso de produção de lixo, gerado de forma exponencial, desordenada e sem controle, que o planeta Terra não consegue acompanhar. Isso tem acarretado, de forma preocupante, um aumento significativo dos dejetos mencionados. Em seguida, o estudo apresentará informações sobre Tineola bisselliella, a estrutura da planta da fazenda de traças, incluindo detalhes sobre a varredura térmica, além das quantificações dos valores e resultados da pesquisa.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 TINEOLLA BISSELLIELLA

Não iremos discorrer a respeito dos outros animais, como o besouro ou os outros tipos de mariposas, a não ser a Tineola bisselliella, afinal, não é o propósito da pesquisa apresentá-los e, por vários fatores, a traça-das-roupas é a mais eficaz para o trabalho. Por conseguinte, a Tineola bisselliella de nome popular: traça-das-roupas; reino: Animalia; ordem: Lepidoptera; classe: Insecta, é um animal que nos chama atenção por sua dieta atípica, constituída por celulose (algodão, linho) e proteínas (seda e lã), como peles. Eles comerão fibras sintéticas se forem misturadas com lã, ou até mesmo se tiverem secreções e suor. Podem digerir até mesmo cabelo devido seu metabolismo fora do comum, capaz de digerir queratina.

Por possuírem uma relação intrigante com a luminosidade, e diferente das demais mariposas que conhecemos, as traças-das-roupas preferem locais quentes, úmidos e têm aversão à luz. É uma pequena mariposa cinza-amarelada com tamanho variado, segundo as fontes, algumas afirmam meia polegada, outras maiores, outras menores, de 2 a 5 mg. São uniformes, de cor amarelada, com um pequeno tufo de pelos avermelhados no topo da cabeça.

As traças se desenvolvem em 4 fases: a primeira fase de larva, a segunda fase passa por uma pupa com casulo, a terceira semelhante à segunda, porém sem casulo, e a fase de adulto. A traça se reproduz em todo o ano. Porém, tem uma tendência de acelerar seu ciclo durante os tempos mais quentes, como de primavera e verão.

A Tineola bisselliella passa por quatro fases de desenvolvimento: ovo, larva, pupa e adulto. As fêmeas depositam ovos em materiais ricos em queratina, onde as larvas emergem e se alimentam, causando danos significativos. Após a fase larval, a traça entra no estágio de pupa antes de se transformar em um adulto capaz de reproduzir e reiniciar o ciclo. (Pinniger, 2001).

As fêmeas põem cerca de 50 –150 ovos em média, que aderem às superfícies com uma cola semelhante à gelatina, geralmente depositando-os diretamente na fonte de alimento ou em locais escuros e abrigados, como buracos. Entre quatro e dez dias, depois, elas eclodem em lagartas, com um período larval em condições perfeitas de 30 a 90 dias, mas pode durar até 2 anos ou mais se retardado o processo até a fase de pupa. Neste ponto, as lagartas tecem casulos sedosos e passam aproximadamente 10–50 dias, tornando-se adultos. Ao contrário das lagartas, as mariposas adultas não se alimentam e possuem uma espécie de boca atrofiada e não funcional. “As mariposas adultas de Tineola bisselliella não se alimentam, por possuírem partes bucais atrofiadas.” (Carter, D. J. 1984). Toda a alimentação necessária para o seu desenvolvimento é realizada durante a fase larval. Todos os danos causados pela alimentação aos têxteis são causados pela forma de lagarta. Todos os nutrientes e umidade necessários são adquiridos na fase larval e a função das mariposas é única e exclusivamente para a reprodução. Os adultos podem viver por mais 15 a 30 dias, após os quais perecem (caso contrário, a morte ocorre logo após o acasalamento para os machos e logo após a postura dos ovos para as fêmeas), assim como o macho, a fêmea perece alguns dias depois, pois utilizou muita energia e não possui aparelho para se alimentar.

O ciclo de vida pode ser concluído em um mês sob as condições mais favoráveis (75 °F (aprox. 24 °C) e 70 –75% de umidade relativa), mas pode levar vários anos (temperaturas e umidade mais baixas apenas retardarão o desenvolvimento, as larvas ainda eclodirão e crescerão em temperaturas tão baixas quanto 10 °C (50 °F) e podem sobreviver até 33 °C (91°F), vale ressaltar que esses dados são uma média e existem casos anormais nos quais elas suportam condições mais adversas. O ciclo de vida geral de ovo a ovo leva normalmente de 4 a 6 meses, com duas gerações por ano.

Elas são um tema relativamente recorrente na sociedade, seja por problemas do dia a dia como infestações em casas, roupas danificadas, entre outros relatos populares, até mesmo problemas de larga escala, como em fábricas têxteis e em museus; o que faz com que a ciência esteja voltada para o fator de praga da Tineola bisselliella, se preocupando com formas de impedir seu avanço, sua proliferação, e pouco com suas funções ecológicas reais. Todavia, esse é o objetivo de um trabalho ecológico de fato, enxergar soluções com a ajuda da natureza para problemas atuais da sociedade. É com uma visão não comum que surge a ideia de tratá-las não como um problema e pragas, mas sim como uma ‘ferramenta’, solução e função de decomposição para melhorar as condições do planeta sem o agravar de outras maneiras.

Figura 01 – Ciclo de Vida de uma Traça de Roupa

Fonte: Total Wardrobe Care, 2022.

2.2 PLANTA COMPLETA DA FAZENDA DE TRAÇAS

É com um objetivo de tornar esse projeto, além de apenas uma idealização, algo mais próximo à realidade, é necessário, por início, planejar a viabilidade e funcionalidade de uma criação a esses moldes. Atualmente larvas já são criadas em processos para a alimentação humana, geralmente ocorre em recipientes semelhantes à caixas, um cubo que tem aproximadamente 1 m² e nele, elas são criadas para objetivar somente a alta produção, empilhando-as em cima umas das outras, criando andares literalmente de corpos. Todavia, essas larvas são levadas para a comercialização antes de se desenvolverem (caso possam), e nenhumas são mariposas, nem se tem a necessidade de que elas reproduzam e respeitem seu ciclo vital; portanto, seria justo recorrer a um modelo de criação de borboletas?

A resposta é não. Em uma primeira análise, elas podem até ser semelhantes, mas além de terem hábitos e preferências divergentes – como a particular aversão à luz das Tineola bisselliella – ainda têm propósitos diferentes. É comum que a criação de borboletas seja voltada para atrações, como parques, jardins, etc. O foco do que chamamos ser a Fazenda de Traças, é a decomposição dos produtos têxteis, portanto, a estrutura tem que ser uma aposta ousada, inédita e diferente dos modelos que já conhecemos; uma fórmula quase perfeita para a ciência desdobrar.

A fazenda consiste em uma área que será totalmente fechada e monitorada, caso as traças saiam dela, pode ocorrer um estrago imensurável na organização ecológica ao redor, então a preocupação é constante. As dimensões podem variar, mas visando economia e dados de que já foram encontradas traças que escalaram até 4 m de altura para se alojarem, é bom manter a altura em 3 à 5 metros – um fator importante e também peculiar das mariposas, é que elas não estão acostumadas a voar, seu voo é irregular e lento, sendo que algumas nunca voam em sua vida; elas preferem correr, o que é incrivelmente mais rápido que se comparada à sua capacidade aérea. Ter um espaço de entrada bem desenvolvido é fundamental para o funcionamento, este será explicado mais adiante.

Um fator importante é que o controle dessas traças há muito é estudado pela comunidade, já que são uma ameaça recorrente nas livrarias e fábricas; o melhor método constatado e que será utilizado para “esterilização” dos produtos e regulamento da fazenda, é o popularmente conhecido como ‘bater e escovar’, e a variação de temperatura. As larvas da espécie são resistentes, podendo se adaptar a variações climáticas, porém, não em alta velocidade.

A Tineola bisselliella, conhecida como traça-das-roupas, é sensível a baixas temperaturas. A exposição prolongada a temperaturas abaixo de 0 °C pode ser eficaz no controle dessas traças, pois tanto os ovos quanto as larvas e adultos não sobrevivem bem nessas condições. (Pinniger, 2001).

É comprovado por diversas pesquisas que, ao diminuir a temperatura, elas entram em um estado de ‘dormência’ para se adaptarem ao novo ambiente. As traças por si só já aguentam surpreendentes variações de temperatura. Ao aquecer, em seguida, elas despertam novamente como se nada houvesse ocorrido. Mas e se logo após isso o ambiente esfriar novamente? Impressionantemente, as larvas podem ser enganadas; ao despertarem elas não possuem mais energia para entrarem no estado de conservação, e se o ambiente esfriar todas perecerão devido ao acontecimento inesperado – o mesmo acontece se você inverter as temperaturas (calor, frio, calor) ou (frio, calor, frio). Porém, usaremos a ordem mais eficaz: frio, calor, frio.

Vamos chamar esse processo de varredura térmica. A varredura será utilizada tanto para a entrada e saída de funcionários, quanto para a limpeza dos excrementos larvais após a decomposição de uma abundância de têxteis. Para entrar no complexo de decomposição, os funcionários deverão usar roupas completamente fechadas e feitas para esse serviço – semelhante às de bombeiros e apicultores – e passar por câmaras antes de passar ao interior da instalação. Os ovos da Tineola bisselliella são microscópicos, não ‘esterilizar’ as roupas utilizadas no interior da fazenda pode fazer com que elas se agarrem às roupas dos funcionários; é por esse motivo que eles devem passar pela varredura térmica antes e após entrarem nela, além de bater e escovar a roupa antes de estendê-la no sol (uma técnica usada por moradores, principalmente de países frios que sofrem com essas larvas em seus casacos).

É importante que as três câmaras de entrada/saída sejam individuais, separadas entre si por portas totalmente isoladas e de no mínimo 3 m², com 2 m de altura, para comportarem um funcionário e um berço ao mesmo tempo.

Chamaremos de “berços” as separações de caixas de 1 m², semelhantes às usadas nas criações de larvas atuais já citadas, mas que funcionarão de uma forma diferente. Os berços serão assim como seu nome artístico, abertos na parte superior, fechados apenas para transporte, com a parte inferior e as laterais que poderão ser de 0,05 m e poderão ser feitos a partir de madeira ou plásticos resistentes; materiais que as larvas não possam consumir e que aguentem as mudanças de temperatura da varredura térmica. Por ser uma estrutura grande, serão dispostos vários e vários berços dentro dela, a importância deles é a seguinte: um berço deve comportar x quantidade de têxteis, desde 10 camisas a 1 cobertor grande de 5 kg, a partir disso esse material será introduzido na fazenda, o que automaticamente atrairá as mariposas para uma nova fonte de alimento e de suas larvas; eles permitem o controle da quantidade e de excrementos, uma vez que todo material for digerido restará uma quantidade muito menor de excrementos, e, como as mariposas perecerão logo após a reprodução, fica a cargo dos funcionários de tentar retirar o máximo de organismos vivos dos berços antes de levá-los para fora, passando pela varredura térmica para eliminar as larvas que restaram, possibilitando assim o transporte dos materiais degradados, o controle da fazenda, da curva de produção, limpeza e retirada, tudo por meio deste sistema de berços.

Os berços deverão ser postos com espaços entre eles, seja entre cada um, seja em grupos de 4×4; de um modo que seja possível para os funcionários transitarem entre eles, colocá-los com novos materiais a serem degradados e retirá-los com tranquilidade.

Até o momento, já se tem a esquematização da fazenda e de seu funcionamento, porém, o que fazer com os berços depois de já decompostos e ‘esterilizados’? Fora da fazenda, por serem ainda compostos orgânicos, eles poderão ser encaminhados para algum centro tecnológico ou fábrica para saber a respeito da sua utilização em insumos agrícolas, como fertilizantes e afins. Podem ser um grande auxílio em áreas de reflorestamento ou de plantio agrícola. Caso seja benéfico, as mariposas mortas poderão ser transportadas juntos, facilitando mais ainda o trabalho dos funcionários que teriam que retirá-las antes de enviar a outros produtores. Essas “caixas” provenientes dos excrementos dos berços apresentam um potencial para agregar aos solos de alguma maneira, e caso se consolide, pode se tornar uma maneira lucrativa de descartar os excrementos e restos da fazenda. Vale lembrar também que eles serão uma quantidade bem inferior à dos têxteis levados para decomposição, caso não fosse, não seria considerada uma degradação, mas sim uma simples troca de materiais. Caso funcione corretamente, isso pode transformar algo que antes poluía e degradava a natureza em um produto bem menor e auxilia a natureza em seu desenvolvimento e reconstrução, tanto pelo reflorestamento quanto pelas produções extensivas e de alimentos.

A seguir está o esboço de uma planta dessa fazenda e seu funcionamento, ressaltando que as câmaras têm portas entre elas. Está marcado com x áreas em que não haverá berços, para efeito de praticidade na locomoção em seu interior, e as pequenas distâncias demarcadas entre eles são os espaços de transação — no esboço, estão separadas de forma única, mas podem ser feitas em um layout 4×4. É conveniente a construção de um galpão e uma casa de monitoramento, tanto para avaliar e controlar a fazenda, quanto para guardar novos berços, novos têxteis que deverão ser degradados e os excrementos para distribuição. Uma curiosidade é que para funcionários da Fazenda poderão buscar pelo perfil de um ‘gari’, essa profissão se assemelha bastante à realizada na fazenda, já que estaremos transformando lixo em produtos recicláveis.

2.3 PLANTA DA FAZENDA DE TRAÇAS

Figura 02 – Planta da Fazenda de Traças

Fonte: Bernardo de Oliveira Couto Torres (autor da pesquisa), 2024.

2.4 QUANTIZAÇÃO DOS VALORES E RESULTADOS

A quantidade de alimento que uma larva de traça-das-roupas pode consumir ao longo de sua vida larval varia dependendo de fatores como disponibilidade de alimentos, temperatura, umidade e outras condições ambientais.

Em média, uma larva de traça-das-roupas pode consumir cerca de 2 a 5% do seu próprio peso corporal em alimentos por dia. Considerando que uma larva típica dessa espécie pode pesar cerca de 2 a 5 miligramas, isso significa que elas podem consumir em torno de 0,04 a 0,25 miligramas de alimento por dia.

Se assumirmos um período larval de cerca de 30 a 90 dias, isso significaria que uma larva de traça-das-roupas pode consumir aproximadamente 1,2 a 22,5 miligramas de alimento ao longo de sua vida larval, correspondendo a aproximadamente 0,0012 a 0,0225 gramas. Esta é apenas uma estimativa e os números reais podem variar dependendo das condições específicas do ambiente e da disponibilidade de alimentos para as larvas — fatores esses que podemos alterar para as larvas continuarem nesse estágio o máximo possível, aproximadamente 2 anos.

A gama de alimentos e produtos que as larvas podem digerir é imensa, principalmente atualmente em que tecidos naturais estão em alta devido à preocupação com o meio ambiente, portanto é melhor considerarmos para uma exemplificação o kg da lã, afinal para as larvas um cobertor de 1,5 kg ou 10 camisas de lã que juntas resultam 1,5 kg é a mesma quantidade de alimento.

Determinar quantas larvas seriam necessárias para digerir um cobertor de lã médio também é um exercício aproximado, por depender de vários fatores, incluindo o tamanho do cobertor, a densidade da lã, a idade e o estágio de desenvolvimento das larvas, entre outros.

Vamos fazer uma estimativa aproximada:

Peso do cobertor de lã médio: um cobertor de lã médio pode pesar entre 1,5 a 3 quilogramas (kg).

Peso médio de uma larva de traça-das-roupas: supondo uma larva com peso médio de 3 (2 – 5 mg) miligramas (0,003 gramas).

Consumo médio diário de uma larva: conforme indicado acima, uma larva de traça-das-roupas pode consumir cerca de 2 a 5% do seu peso corporal em alimentos por dia.

Se considerarmos uma larva consumindo o máximo diário (5% de 0,003 gramas), ela consumiria aproximadamente 0,00015 gramas de lã por dia.

Agora, para calcular quantas larvas seriam necessárias para digerir o cobertor de lã, dividimos o peso total do cobertor pela quantidade consumida por uma larva em um dia:

Supondo um consumo diário de 0,00015 gramas de lã por larva:

Para uma colcha de 1,5 kg: 1,5 kg / 0,00015 g = 10.000.000 larvas (10 milhões de larvas). Para um cobertor de 3 kg: 3 kg / 0,00015 g = 20.000.000 larvas (20 milhões de larvas).

As larvas têm de 1 até 12 mm, em um berço de 1 m² de área. Um metro quadrado (m²) é uma medida de área, enquanto milímetro (mm) é uma medida de comprimento. Portanto, não há uma conversão direta entre os dois. No entanto, para obter a área em milímetros quadrados (mm²), você pode multiplicar a área em metros quadrados por 1.000.000, já que 1 metro é igual a 1000 milímetros, e ao elevar ao quadrado, você multiplica a quantidade de milímetros por milímetros. Assim:

1 m² = 1.000.000 mm²

Considerando a média das larvas de 6 mm para o cálculo, concluímos que 1.000.000/6 é uma dízima periódica de aproximadamente 166666.67. Como não temos 0,67 larvas, ficam 166.667 larvas em um único berço sem se sobrepor. Mas se considerarmos o modelo de produção para consumo, que, como dito anteriormente, elas se sobrepõem 3 a 10 vezes, elas ainda têm que comer o material abaixo, portanto, utilizaremos 3 sobreposições.

166.667 × 3 = 500.001

Com isso, vamos trabalhar com números exatos, cada berço deverá comportar aproximadamente 500.000 larvas para uma produção média por berço. Ou seja:

10.000.000 / 500.000 = 20 dias.

Em 20 dias, um berço terá consumido um cobertor de 1,5 kg. Se cada camisa de 100% algodão é em média 200 g, será digerida em menos de dois dias e meio por um único berço.

Segundo a pesquisa do Sebrae, no mundo, o número chega a 50 milhões de toneladas de roupas jogadas fora a cada ano. A cada ano, estima-se que 80 bilhões de novas peças de roupas são produzidas, e 35% disso tudo é feito de algodão. 28 bilhões de peças de algodão por ano, uma camisa de algodão pesa aproximadamente 150g. Isso quer dizer que uma fazenda com um berço consume 75 g/dia, em um ano não bissexto, um único berço pode decompor 27,375 kg de algodão.

Com 4.200.000.000 kg de algodão produzida em um ano aproximadamente em roupas, uma fazenda com 153.424.658 berços iria decompor toda a produção anual de algodão nas roupas, isso são simplesmente 35% a menos de lixo têxtil em todo o mundo. Claro, não tem como uma única fazenda ter tentos berços em funcionamento, mas 1.000.000 de berços é, possível, e com isso já eliminaria 4,38% do lixo têxtil mundial por ano. Algo que é sem sombra de dúvidas, benéfico ao meio ambiente e ao nosso planeta.

Quanto ao crescimento na fazenda:

Se começarmos uma única fazenda com 10 mariposas fêmeas que vão pôr seus ovos, depois de 10 dias já teremos 1250 larvas (lembrando que todos os valores usados são a média). Se utilizarmos todos os valores médios e as condições ideais para o crescimento e reprodução de larvas, de uma forma bruta e instável, temos a seguinte função para atingirmos essa fazenda de 1.000.000 berços cheios e conseguir reduzir mais de 4% do lixo têxtil por ano no mundo:

Resultando em: 10 mariposas se tornando 500.000.000.000 larvas em 11.738 dias.

E para alcançar a meta da fazenda em um ano (365 dias) basta começar com 322 mariposas que irão por seus ovos.

Claro, muitos números são irreais, devido à viabilização de um projeto desses fora do papel e de tamanha dimensão. Porém, os dados servem para nos mostrar que é uma opção a se considerar e que tem, sim, potencial para reduzir o lixo do nosso planeta.

Para criarmos uma situação mais próxima à realidade, vamos considerar uma fazenda de 1000 m², que comporta até 444 berços. Ela conseguiria degradar 33,3 kg/dia, em um ano isso daria 12,1545 toneladas de lixo a menos no planeta; lixo esse transformado em matéria orgânica reaproveitável. Tal distribuição pode ser feita em 3 andares, resultando em 36.463,5 kg de material têxtil decomposto por ano apenas nessa simples instalação.

Ao destacarmos o potencial da traça-das-roupas na gestão de resíduos têxteis e na mitigação do impacto ambiental, consideramos os seguintes aspectos:

  • Consumo Diário das Larvas: As larvas de traça-das-roupas consomem cerca de 2 a 5% do seu próprio peso corporal em alimentos por dia.
  • Consumo Total Durante a Vida Larval: Ao longo de um ciclo de vida de 30 a 90 dias, uma larva pode consumir entre 1,2 e 22,5 mg de alimento.
  • Estimativa para Decomposição de Têxteis: Seriam necessárias cerca de 10 milhões de larvas para decompor um cobertor de lã de 1,5 kg em 20 dias.
  • Capacidade de Decomposição em Escala: Uma instalação com 1.000.000 de berços poderia decompor 4,38% do lixo têxtil global anualmente, contribuindo significativamente para a redução de resíduos têxteis.
  • Potencial Ambiental: Uma fazenda de decomposição de 1000 m², com três andares, poderia transformar aproximadamente 36.463,5 kg de resíduos têxteis em matéria orgânica reutilizável por ano, mostrando um grande potencial para a redução de resíduos e impacto ambiental positivo.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de tudo que foi observado fica evidente que o desafio de sustentabilidade no planeta não é leviano. O ser humano polui, destrói, usa e abusa do ambiente à sua volta, e usar do próprio ambiente para restaurá-lo é algo que comparado com nossa influência se aproxima de nada. Produzimos muito a cada ano, e a cultura consumista faz com que essa produção e seu descarte aumentem mais ainda, um ato egoísta e irresponsável com o habitat da nossa própria espécie.

Este trabalho tem como seu principal objetivo mostrar que a natureza pode, sim, ajudar a repor os nossos danos, mas com sua progressão, o que é impossível de acompanhar a velocidade humana. As Fazendas de Traças conseguem decompor material têxtil que produzimos, e torná-lo em outra matéria fertilizante para o planeta; mas nada disso importará se a humanidade não alterar o curso que tem seguido, sem mudanças nas nossas ações medidas de revitalização não são nada além de soluções temporárias. O desenvolvimento das traças para decompor é possível, isso é um fato. Porém, essa decomposição atinge uma porcentagem significativa — afinal, nenhuma ação é pequena demais; e nenhum sonho, grande demais — de um todo muito grande, uma produção exagerada e que fará a Terra cobrar o preço por isso. Ações inovadoras ajudam, mas sem reter a produção, vemos um limite claro.

Diante dos desafios apresentados pelo lixo têxtil e pela sociedade consumista, é crucial que cada um de nós assuma a responsabilidade de promover mudanças significativas em nossos padrões de consumo e descarte. Precisamos repensar nossa relação com a moda, optando por um consumo mais consciente e sustentável. Além disso, é fundamental pressionar as empresas e os governos para adotarem políticas e práticas mais responsáveis em relação à produção e descarte de têxteis, exigindo transparência, redução do desperdício e respeito pelos direitos humanos e ambientais. Somente mediante esforços coletivos e mudanças sistêmicas podemos esperar reverter os danos causados pelo lixo têxtil e pela sociedade consumista. Juntos, podemos criar um futuro mais sustentável e equitativo para todos, como uma “humanidade” em sua forma mais unida.

As Fazendas de Traças são uma idealização que já fora feita por alguns cientistas na história–poucos, mas existentes–e nenhum com dados e uma coletânea tão completa, mas, ao mesmo tempo, sucinta de informações. Não se trata apenas de uma maneira de reduzir o lixo

no mundo; mas de um meio de alertar os desafios que estamos criando. Um modelo que mostra o quão penoso para a natureza é repor nossos erros e exageros. Espero que não olhem para isso apenas como um projeto de limpeza e uma opção viável para a decomposição, mas vejam também a enorme lacuna entre o poderio e influência humano e animal.

As informações apresentadas destacam a relevância da utilização das traças como uma alternativa sustentável para a decomposição de resíduos têxteis, bem como a compreensão da morfologia das traças e a apreciação do habitat e das condições necessárias para que esse processo ocorra. Assim, abrem-se oportunidades para que mais pesquisas e testes sejam realizados, em busca de informações adicionais e inovações tecnológicas que possam contribuir para a formação de fazendas de decomposição de traças. Entre as características a serem exploradas, inclui-se o fornecimento de traças para essas fazendas, a utilização das traças após o período larval, o descarte dos resíduos gerados e o uso desses resíduos como matéria-prima para a agricultura, resultantes do processo de biodegradação de tecidos nessas fazendas.

REFERÊNCIAS

CARTER, D. J. Pest Lepidoptera of Europe with Special Reference to the British Isles. Dr. W. Junk Publishers, 1984.

HEDGES, S. A. Field Guide for the Management of Structure-Infesting Moths. Mallis Handbook of Pest Control. GIE Media, Inc., 1996.

NIINIMÄKI, K. et al. The environmental price of fast fashion. Nature Reviews Earth & Environment, v. 1, n. 4, p. 189-200, 2020.

PINNIGER, David. Pest management in museums, archives and historic houses. London: Archetype Publications, 2001. Disponível em: https://archive.org/details/pestmanagementin0000pinn. Acesso em: 05 nov 2025.

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

[1] Graduando em Engenharia de Minas – UFMG. ORCID: 0009-0007-8244-8691.

[2] Orientador. Graduado em Ciências Biológicas. ORCID: 0009-0006-2726-0904.

Contribuição dos autores:

Bernardo de Oliveira Couto Torres: Concepção e planejamento, análise e interpretação dos dados, elaboração do rascunho, revisão crítica do conteúdo, participação na aprovação da versão final do manuscrito.

Rafael Alves Franco: Contribuir significativamente no processo geral de correção e revisão crítica do conteúdo, da concepção e planejamento, análise e interpretação dos dados, elaboração do rascunho e participação na aprovação da versão final do manuscrito.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

Os autores não possuem conflito de interesse.

Agradecimentos e Financiamento:

Não possui financiamento.

Nota:

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial Chat GPT 3.5 para correção e revisão gramatical e melhora da coesão textual. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.

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  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 17 de dezembro de 2024.

Material aprovado pelos pares: 06 de fevereiro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 05 de novembro de 2025.

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Bernardo de Oliveira Couto Torres

Graduando em Engenharia de Minas – UFMG. ORCID: 0009-0007-8244-8691.

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