Ulisses Francisco Mascarenhas Moura [1]
INTRODUÇÃO
Organizar e sistematizar o processo de ensino é uma tarefa de extrema relevância e existem importantes fatores nesse processo que se nós, professores de Educação Física, deixarmos de considerar tenderemos ao fracasso. Fatores como quem são os sujeitos, as etapas de ensino e os contextos em que estão esses sujeitos são de extrema relevância. (DARIDO, 2003). Considerar os documentos oficiais e abordagens de ensino de modo reflexivo e crítico também o são.
Sabemos que a Educação Física esteve refém de diversas políticas públicas em diferentes governos e que as aulas na prática acabavam por reproduzir o que estava no discurso político (CASTELLANI FILHO, 1988), porém desde a década de 1980 pra cá houve uma revolução no sistema educacional e também na Educação Física e, pelo menos no discurso, surgiram novas propostas de sistematização e organização das aulas de Educação Física escolar baseadas principalmente em visões críticas e pós-críticas. (DARIDO, 2003).
Diante dos fatos citados delimitou-se a seguinte pergunta de pesquisa: como os professores de Educação Física buscam organizar e sistematizar suas aulas dentro do processo de ensino? Para chegar a resposta da pesquisa a mesma teve como objetivo analisar trabalhos que trouxessem metodologias de aulas para verificação de como se dá a organização e sistematização do processo de ensino por parte dos professores de Educação Física.
A presente pesquisa utilizou-se da revisão da literatura como metodologia para chegar aos seus objetivos. A revisão de literatura é indispensável para se obter uma ideia fidedigna do atual estado de conhecimentos sobre um tema. A mesma busca nos livros e artigos somente a informação mais relevante. (BENTO, 2012)
ORGANIZAÇÃO E SISTEMATIZAÇÃO DO PROCESSO DE ENSINO
Primeiramente é importante destacar que sendo o Brasil um país continental se torna uma tarefa cruel dar uma resposta padrão sobre todos os professores de Educação Física e suas sistematizações no processo de ensino. Existem diversas abordagens com metodologias alicerçadas em fatores sociais e culturais, como abordagem crítico-superadora, crítico-emancipatória, cultural e outras (Darido, 2003), além de documentos oficiais (como a BNCC, por exemplo) que orientam e auxiliam os professores nesse processo de organização e sistematização.
Analisando documentos oficiais, apesar de diversas críticas feitas a BNCC, a mesma buscou de algum modo organizar os conteúdos trabalhados. Betti (2018), um de seus críticos, destaca a importância dada aos sujeitos da aprendizagem na BNCC quando a mesma fala em ampliar sua consciência (do aluno), cuidado de si, autonomia e participação autoral na sociedade.
Além da BNCC, existem também os documentos oficiais estaduais e municipais. Bracht (2010) traz em seu texto a elaboração do referencial curricular da Educação Física do estado do Rio Grande do Sul, por exemplo. O mesmo foi elaborado em 2009 por Fernando Jaime González e Alex Branco Fraga. De acordo com o autor esse documento foi um esforço de sistematizar propostas e experiências oriundas do movimento renovador da Educação Física brasileira. O mesmo entende que esse documento valoriza os diversos contextos históricos, além da cultura corporal de movimento e seus temas. É possível notar que o documento ao valorizar os diversos contextos históricos e a cultura corporal e seus temas têm uma visão crítica e pós-crítica sobre o ensino e os sujeitos. Compreende-se também que o conteúdo e cada etapa da educação básica são valorizados pelo mesmo devido ser oriundo do movimento renovador da Educação Física, o qual tem o Coletivo de Autores e sua obra como peça fundamental nesse movimento. Essa obra (Coletivo de Autores, 1992) busca trabalhar o conhecimento de forma espiralada, ou seja, o conteúdo vai avançando a cada etapa de ensino. Por outro lado, isso não significa que na prática os professores tem buscado seguir ou serem orientados por esse documento no estado do Rio Grande do Sul.
Assim como existem documentos que buscam orientar os professores de Educação Física em suas sistematizações e organizações, é bem verdade que também existe ainda uma herança histórica de tendências biologicistas e esportivistas, as quais são possíveis de serem notadas nas aulas e metodologias de ensino por parte de diversos professores, as quais não contribuem na formação dos alunos de modo crítico, pós-crítico e reflexivo devido as mesmas tão somente contemplarem o corpo biológico e o alto rendimento gerando assim conceitos equivocados, preconceitos e exclusão (CASTELLANI FILHO, 1988).
PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA E A ORGANIZAÇÃO E SISTEMATIZAÇÃO DO PROCESSO DE ENSINO
Buscando conhecer os conteúdos que têm sido trabalhados nas aulas de Educação Física escolar Silva e Sampaio (2012) realizaram uma investigação a partir do levantamento e análise de artigos publicados em periódicos nacionais entre os anos de 1997 e 2010. Investigou-se somente literaturas relacionadas ao ensino fundamental. A pesquisa conclui que o esporte tem sido o conteúdo principal das aulas, além do mesmo ser trabalhado de modo não-crítico. Os autores propõem que haja uma ressignificação do esporte, de modo democrático e que sejam enfrentados os valores geradores de exclusão. Também propõem que sejam trabalhados outros temas da cultura de movimento (jogos, lutas, ginásticas e outras) e que o planejamento e objetivo das aulas sejam traçados a partir da necessidade dos alunos. É possível ver tanto a teoria crítica como a pós-crítica na análise do trabalho citado quando os autores concluem que o esporte é trabalhado de modo não-crítico e quando os mesmos propõem que o planejamento e objetivos das aulas sejam traçados a partir da necessidade dos alunos. Porém nos resultados encontrados pelos autores conclui-se justamente o oposto como citado acima, o que reforça a ideia de dicotomia, a qual na teoria encontram-se muitos trabalhos com críticas ao modo com que o esporte é trabalhado na escola, porém na prática a realidade segue a tendência esportivista. É importante destacar que o grande movimento de mudança da educação e da Educação Física especialmente, inicia-se na década de 1980 juntamente com mudanças políticas e econômicas e que a conscientização a respeito da importância da sistematização das aulas de EF e de novas metodologias por parte dos professores se deu (e ainda se dá) gradualmente, sendo possível que grande parte dos professores que tiveram suas aulas investigadas tenha tido formações mais voltadas ao ensino do esporte.
Em outra pesquisa Santos, Nobre, Niquini e Lopes (2018) buscando apreender a presença do conteúdo ginástica nas aulas de Educação Física em uma escola específica e de realidade específica verificaram que no ensino fundamental a ginástica foi desenvolvida do 1º ao 6º ano, porém somente a Ginástica Para Todos (GPT). De acordo com a Brasil (2018) a GPT também é conhecida como ginástica geral e a BNCC indica que a mesma deve ser trabalhada dentro do conteúdo de ginástica desde o 1° ano do ensino fundamental até o 5°, não sendo citada em relação ao 6° ano como desenvolvida na escola onde ocorreu a pesquisa. Pode-se observar coerência com o documento oficial apesar do 6° não trazer esse conteúdo dentro do tema Ginástica. Por outro lado, é importante destacar que a ginástica, como tema da cultura de movimento, possui diversas modalidades que devem ser trabalhadas em todas as etapas da educação básica.
Um terceiro trabalho analisado buscou descrever os conteúdos trabalhados e ações realizadas por parte dos professores de Educação Física escolar na cidade de Pelotas, RS. Fortes, Azevedo, Kremer e Hallal (2012) observaram que dentre as estratégias metodológicas utilizadas nas aulas (e a ausência das mesmas) encontraram-se majoritariamente o “jogo livre” (famosa rola a bola), sendo o esporte coletivo o conteúdo mais presente, além da ação dos professores estar voltada a observar a atividade. Nota-se nos resultados dessa pesquisa que os professores de Educação Física dessa escola, na qual a pesquisa foi realizada, se distanciam das abordagens da Educação Física que propõem metodologias de aulas com base em fatores sociais e culturais. Distanciam-se também dos documentos oficiais, como a BNCC por exemplo, e o do referencial curricular do estado do Rio Grande do Sul citado por Bratch (2010), pois trabalham majoritariamente o esporte coletivo e “oferecem” aos alunos aulas livres de conteúdos, de proposições, de problematizações, de contextualizações fazendo assim um desserviço a toda a comunidade da Educação Física escolar comprometida com o trabalho docente, a comunidade local, incluindo pais e alunos.
Megale (2020) realizou um interessante trabalho analisando o processo do ensino do Rúgbi para turmas de 5° ano do ensino fundamental de uma escola pública a partir da BNCC. O autor aponta que a proposta da BNCC é viável ao sugerir que as habilidades devem ser desenvolvidas durante o ensino dos esportes de invasão através das dimensões do conhecimento Experimentação, Análise e Compreensão. Pontua também a respeito da importância do trabalho integrado de cada dimensão orientado pela BNCC. O trabalho de Megale (2020) demonstra coerência com o documento oficial, além de oferecer um conteúdo esportivo distinto do “quarteto fantástico”, podendo o mesmo ser contextualizado na escola por nós professores de diversas formas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisando os trabalhos descritos acima podemos observar o quanto existem lugares em que o comprometimento com a Educação Física vem crescendo. Porém, por outro lado ainda há muitos locais em que o esporte é o “carro chefe” e pior ainda, locais em que há um descompromisso com a profissão, com a escola e com os alunos, simplesmente rolando a bola. Enquanto dois trabalhos foram coerentes com o documento oficial (BNCC), o qual (ainda que contenha pontos conflituosos) busca de algum modo organizar e sistematizar os conteúdos de acordo com o nível de ensino e com contextos e realidades distintas, outros dois trabalhos verificaram o esportivismo e o desinteresse com o trabalho pedagógico por parte de alguns docentes.
Há a necessidade de destacar que toda essa mudança que a EF vem vivenciando nos últimos 40 anos é um processo, processo esse que envolve visões de mundo, sociedade e políticas públicas. Muitos professores talvez tenham dificuldade com mudanças metodológicas devido a suas formações durante a graduação. Acredito que a formação continuada seja um dos caminhos para que nós, professores de Educação Física, não deixemos de lado o compromisso com nosso trabalho, o qual é contribuir com a formação de nossos alunos através da cultura de movimento e seus temas.
É importante destacar que alguns estudos podem nos dar pistas sobre a organização e a sistematização do processo de ensino por parte dos professores de Educação Física, porém não significa que essas análises e conclusões sejam a realidade em todo o nosso país, fazendo-se desta maneira necessário mais estudos a respeito do tema.
REFERÊNCIAS
BENTO, Antonio. (2012, Maio). Cmo fazer uma revisão da literatura: Considerações teóricas e práticas. Revista JA (Associação Académica da Universidade da Madeira), nº 65, ano VII (pp. 42-44). ISSN. 1647-8975.
BETTI, Mauro. A versão final da Base Nacional Comum Curricular da educação física (Ensino Fundamental): menos virtudes, os mesmos defeitos. Rev. Bras. Educ. Fís. Escolar, São Paulo, Ano IV, v. 1, p. 156-175, Jul. 2018. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/329244831_A_VERSAO_FINAL_DA_BASE_NACIONAL_COMUM_CURRICULAR_DA_EDUCACAO_FISICA_ENSINO_FUNDAMENTAL_menos_virtudes_os_mesmos_defeitos>. Acesso em: 11/03/2023.
BRACHT, Valter. A Educação Física no ensino fundamental. Anais do I Seminário Nacional: Currículo em Movimento – Perspectivas Atuais. Belo Horizonte, novembro de 2010. Disponível em: <https://portalidea.com.br/cursos/7341cffb7deadad829f5e22f3ad3f4b8.pdf>. Acesso em: 18/02/2023.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
CASTELLANI FILHO, L. Educação Física no Brasil: a história que não se conta. Campinas, SP: Papirus, 1988.
(Coletivo de Autores) Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
DARIDO, Suraya Cristina. Educação Física na Escola. 1. ed. Guanabara Koogan S.A., 2003.
FORTES. Milena de Oliveira; AZEVEDO. Mario Renato; KREMER. Marina Marques; HALLAL. Pedro Curi. A Educação Física escolar na cidade de Pelotas-RS: contexto das aulas e conteúdos. Rev. Educ. Fís/UEM, v. 23, n. 1, p. 69-78, 1. trim. 2012. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/refuem/a/8kKHmtzqd3xLR9GcQCxX3WC/?format=pdf&lang=pt>. Acesso em: 18/02/2023.
MEGALE. Tiago de Souza. Rúgbi nas aulas de Educação Física Escolar: análise de uma proposta de ensino a partir da BNCC. Dissertação (mestrado profissional) – Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto de Biociências, Rio Claro, 2020. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/193578/megale_ts_me_rcla.pdf?sequence=3&isAllowed=y>. Acesso em: 19/02/2023.
SANTOS. Thyago Thacyano de Souza dos; NOBRE. Juliana Nogueira Pontes; NIQUINI. Claudia Mara; LOPES. Priscila. A Ginástica Para Todos nas aulas de educação física: um estudo de caso. Educ. Fís., Esporte e Saúde, Campinas: SP, v. 16, n. 4, p. 450-467, out./dez.2018. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/conexoes/article/view/8653973/18872>. Acesso em: 18/02/2023.
SILVA. JVP; SAMPAIO. TMV. Os conteúdos das aulas de educação física do ensino fundamental: o que mostram os estudos? R. bras. Ci. e Mov 2012;20(2):106-118. Disponível em: <https://portalrevistas.ucb.br/index.php/rbcm/article/view/3007>. Acesso em: 18/02/2023.
[1] Mestrando em Educação Física escolar (Unesp); pós-graduação lato sensu Esportes e Atividades Físicas Inclusivas para Pessoas com Deficiência (UFJF); Licenciatura Plena em Educação Física (Universidade Estácio de Sá). ORCID: 0000-0003-2791-4112. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/3519622288605735.
