REVISTACIENTIFICAMULTIDISCIPLINARNUCLEODOCONHECIMENTO
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Camila Flora da Silva [1]

Bruna Sayumi Ueno Rocha [2]

Jhulia Calderini Bueno [3]

Silvane Marcela Mazur [4]

Annecy Tojeiro Giordani [5]

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/3214

1. INTRODUÇÃO

Embora diversas tecnologias existentes na sociedade globalizada auxiliem em atividades pessoais, sociais, profissionais e educacionais, estas não substituem o contato humano essencial ao desenvolvimento das sociedades e do ser humano. Nesse contexto, tomando por referência os princípios norteadores da Política Nacional de Humanização (2003), entendemos que a formação do estudante de Curso Técnico em Enfermagem deva ser permeada pelo ensino humanizado para que, quando profissional valorize e pratique tais princípios em seu campo de atuação.

Quanto ao Curso Técnico em Enfermagem no Brasil, segundo consta nas Referências Curriculares Nacionais de Educação Profissional, este é voltado para o ensino e aprendizagem de conteúdos técnicos e procedimentais, o que não dispensa que seja levado em consideração os princípios e diretrizes da humanização do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2003). Assim, o objeto desse estudo é o ensino humanizado no Curso Técnico em Enfermagem no Brasil, por entendermos que a humanização no contexto profissional da Enfermagem, visa sobretudo, a melhoria da qualidade do cuidado aos usuários dos serviços de saúde.

Dada a importância da humanização à assistência na saúde e o número significativo de profissionais que atuam na Enfermagem brasileira, torna-se imprescindível que as instituições formadoras valorizem e promovam a conscientização do estudante em torno dessa questão.

A humanização é entendida como a valorização dos diferentes sujeitos, implicada no processo de produção de saúde, com foco na prática da autonomia, no protagonismo dos sujeitos, na corresponsabilidade entre eles, no estabelecimento de vínculos solidários, na construção de redes de cooperação e na participação coletiva no processo gestor (BRASIL, 2010).

Para Beltran Salazar (2011), os técnicos em Enfermagem precisam estar preparados para atender de maneira humanizada demonstrando interesse em contribuir para a resolução dos problemas, na oferta de ajuda e apoio no exercício de acolher o paciente humanizadamente.

Nesse sentido, Morin (2011) apud Strieder (2012) sinalizam que em geral, as ciências apresentaram bons resultados em relação ao progresso material, porém, a dificuldade está no elemento mais importante “o humano do ser humano” e, por isso, consideram a formação dos futuros trabalhadores um grande desafio. Segundo os autores, importa oportunizar o exercício da humanização durante a educação formal, o qual deve iniciar-se na escola, estender-se ao exercício profissional e manter-se como processo de educação continuada, tendo-se em vista os princípios norteadores da Política Nacional de Humanização (PNH) na direção à humanização da assistência.

Portanto, este estudo permeia as áreas do Ensino e da Saúde, ao enfocar o ensino humanizado no transcurso da formação de futuros técnicos de Enfermagem. Vale ressaltar que, a Enfermagem brasileira constitui-se de três categorias de trabalhadores a serem: Enfermeiro, Técnico de Enfermagem e Auxiliar de Enfermagem e, os princípios e diretrizes da PNH, lançada em 2003 pelo Ministério da Saúde, sugerem que a formação desses profissionais seja pautada no estabelecimento de relações interpessoais saudáveis, que levem em conta atitudes humanizadas no trato com o outro, que valorizem o estudante e seu contexto, com vistas a atitudes que reflitam na melhor qualidade do exercício profissional na Enfermagem.

Assim, no âmbito escolar, as boas relações interpessoais entre professores e alunos devem ser valorizadas e incentivadas, como um bom começo ao estabelecimento de atitudes humanizadas na Saúde. A PNH completou duas décadas e, embora ainda requeira muitos avanços, esta política pública é mais conhecida e valorizada no âmbito das instituições de saúde e menos no meio escolar, o que nos levou ao seguinte questionamento: O que pesquisas acadêmicas abordaram sobre o ensino humanizado no Curso Técnico em Enfermagem no período de 2003 a 2021?

A partir dessa questão foram delineados os objetivos de pesquisa. Assim, o objetivo geral constituiu-se em levantar um panorama da produção acadêmica brasileira sobre o ensino humanizado na formação do Técnico em Enfermagem no período de 2003 a 2021 e, o objetivo específico, em analisar as abordagens sobre o ensino humanizado na formação deste profissional da Enfermagem nos estudos selecionados.

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Optamos por realizar uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL) com o propósito de responder a seguinte questão de pesquisa: O que pesquisas acadêmicas abordaram sobre o ensino humanizado no Curso Técnico em Enfermagem no período de 2003 a 2021?

A RSL é uma metodologia de pesquisa que se utiliza como fonte de dados a literatura sobre o tema em pauta, a partir de um protocolo de pesquisa para que as buscas sejam “metódicas, explícitas e passíveis de futuras reproduções” (SAMPAIO; MANCINI, 2007, p. 83). Segundo os autores, é usada para “agregar evidências de pesquisa para guiar a prática clínica”, entretanto, pode e deve ser empregada em diferentes áreas do conhecimento. Para este estudo, foi realizada uma adaptação livre das sete etapas da RSL de Atallah e Castro (s\d, p. 26), sendo então, redefinidas como: Protocolo (definição da questão de pesquisa, termos de busca, base de dados, período das publicações); Busca e seleção dos trabalhos; Pré-análise (leitura dos títulos e resumos); Organização dos trabalhos selecionados; Leitura e Interpretação.

A construção do protocolo considerou o termo de busca “Ensino humanizado no Curso Técnico em Enfermagem”; para a busca de artigos, dissertações e teses disponíveis na versão online e em língua portuguesa, publicados no período de 2003 a 2021. Foram definidos como critérios de exclusão, trabalhos não acadêmicos, fora do período de publicação definido, em duplicidade e/ou sem relação direta com o objeto dessa pesquisa. As bases de dados foram definidas por seu reconhecimento nacional e consequente importância, além de disponibilizarem muitas publicações de acesso livre aos leitores. Portanto, a busca dos estudos foi realizada no Banco de Teses e Dissertações da CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, Google Acadêmico, Scielo e LILACS.

O período selecionado para a pesquisa correspondeu a dezenove anos (de 2003 a 2021), levando-se em conta que a PNH do SUS iniciou em 2003.

2.1 PRINCIPAIS ASPECTOS DOS TRABALHOS SELECIONADOS

Considerando o protocolo proposto para esta RSL, dos 978.824 trabalhos resultantes das buscas, após leitura do título e resumo dos mesmos, foram selecionados 44 estudos e após lidos na íntegra, resultou na seleção de 4 Dissertações relacionadas a temática investigada, conforme o Quadro 1.

Quadro 1 – Publicações selecionadas e seus respectivos títulos, autores, instituições, tipo de documento e ano de publicação

N TÍTULO AUTOR INSTITUIÇÃO TIPO ANO PUB.
1 A prática dos facilitadores da aprendizagem no Ensino do Curso Técnico da Enfermagem do SENAC Kátia de Moraes Jorge Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Centro se Ciências da Saúde/

Escola de Enfermagem Anna Nery

Dissertação 2004
2 Ensino de enfermagem e cuidado humanizado: estudo das representações sociais de professores do Ensino Médio Cristina Mara Del Grossi Uhlmann Universidade Estadual de Campinas/Faculdade de Ciências Médicas/Programa de Pós-graduação em Enfermagem Dissertação 2004
3 Relação interpessoal professor aluno no ensino profissional Técnico

em Enfermagem: repercussões na aprendizagem atitudinal

Daniele Soares Carlin Universidade de São Paulo/Escola de enfermagem/ Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em
Enfermagem
Dissertação 2011
4 Avaliação do Curso Técnico em Enfermagem sob o Enfoque da Humanização Karla Jaciara Vieira Damaceno Abreu Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri/ Programa de Pós-Graduação em Ensino em Saúde Dissertação 2016

Fonte: As autoras (2023).

As quatro Dissertações que integram este estudo, três na área da Saúde e uma na área do Ensino em Saúde, foram desenvolvidas no âmbito de Programas de Pós-Graduação de Universidades na região Sudeste do país, sendo: um no Estado de Minas Gerais; dois no Estado de São Paulo e um no Estado do Rio de Janeiro. Os autores são pessoas do gênero feminino cuja formação e/ou atuação profissional corresponde a três enfermeiras, duas das quais se identificam como docentes e uma não identificou sua formação/atuação profissional. Dois estudos foram publicados em 2004, ano seguinte ao lançamento da PNH, um em 2011 e um em 2016.

Em atendimento ao objetivo específico desta pesquisa, foram identificadas as Unidades temáticas (algumas com respectivas Estruturas relevantes) ou Categorias, após leitura atentiva de cada trabalho selecionado, sendo possível a elaboração de uma síntese apresentada a seguir, nos Quadros 2, 3, 4 e 5.

A Dissertação 1 (Jorge, 2004) corresponde a um estudo qualitativo que objetivou descrever as atividades do facilitador da aprendizagem no ensino de um curso Técnico de Enfermagem, como também, analisar a correlação das atividades do facilitador com a formação dos alunos cursistas. Assim, foram entrevistados treze facilitadores da aprendizagem e a análise de suas respostas resultou em quatro unidades temáticas, conforme o Quadro 2.

Quadro 2 – Unidades temáticas referentes a Dissertação 1

Unidades temáticas Síntese da Discussão
1.     Conhecimento sobre o conceito de facilitador da aprendizagem Ser facilitador da aprendizagem é orientar os alunos no caminho da aprendizagem, valorizando as experiências, vivências familiares e conhecimentos prévios do aluno no ambiente de aprendizagem, resultando numa relação mais próxima entre o educador e o aluno;
 

2.     Desenvolvimento da aprendizagem

Alternância quanto ao uso dos recursos didáticos, privilegiando os métodos ativos nos quais promovam a reflexão e autorreflexão do aluno. Preocupação sobre a interação do facilitador de aprendizagem com alunos no dia a dia, a fim de que se desenvolva o aprendizado;
3.     Recursos didáticos que norteiam as ações do facilitador da aprendizagem Dentre os recursos de aprendizagem utilizados (simulação e aula expositiva dialogada), a maioria utiliza recursos audiovisuais, considerando que as imagens traduzem com maior propriedade o tema desenvolvido pelo facilitador nas aulas.
 

 

4.     Comprometimento do facilitador da aprendizagem no ensino do aluno

O termo comprometimento envolve abordagens diretas quanto ao cuidar de uma forma integral de forma ética a ponto de colocar o aluno no centro das atividades pedagógicas. Alguns participantes mostraram preocupação em evitar regras ditadas de convívio para os alunos, mas compartilhar o êxito ou fracasso no processo de aprender.  Considera de vital importância em situar o aluno no seu dia a dia sobre valores éticos e sociais, e assim promover um ensino que envolve tomada de decisões internas e externas daquilo que o professor se propõe a ensinar, respeitando as características de cada pessoa envolvida no processo.

Fonte: As autoras (2023).

O estudo de autoria de Jorge (2004), considerou que os professores participantes da pesquisa desempenharam a função pedagógica como facilitadores da aprendizagem, pois centralizaram o aluno em cada etapa do processo ensino-aprendizagem, o que resultou numa relação mais próxima com os mesmos. Apesar de muitos processos formativos do aluno de nível médio no Brasil, ocorrerem por meio de práticas pedagógicas ultrapassadas, este estudo evidenciou que a maioria dos docentes, além de comprometer-se com os conhecimentos a serem trabalhados em sala de aula, manteve uma postura ética e de respeito para com os alunos, o que sugere uma boa qualidade das relações interpessoais na escola, que possivelmente refletirão no exercício profissional.

A Dissertação 2 (Uhlmann, 2004), enfatiza as representações sociais dos professores de um curso Técnico de Enfermagem objetivando identificá-las e analisá-las no tocante ao ensino do cuidado humanizado. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa que teve por referencial teórico metodológico a representação social com análise temática nas discussões de tratamento e análise de dados. Catorze enfermeiros-professores de um curso Técnico de Enfermagem foram entrevistados, além, foram analisados documentos referentes ao curso, como: proposta pedagógica; plano escolar/ensino; regimento escolar; manual de orientações aos alunos e grade curricular.

A autora desta Dissertação, intentou saber se durante sua formação escolar, os futuros técnicos de enfermagem são preparados à humanização do cuidado; se são estimulados durante o curso a tornarem-se capazes de exercê-la; se existe preocupação dos professores em desenvolver a humanização em suas práticas docentes, além do tecnicismo que profissionaliza e se trabalham a perspectiva dos alunos sobre o cuidado humanizado. Nesse sentido, questionou: Como pensar no exercício da humanização pelo técnico de enfermagem, sem antes implementá-lo na escola, começando pelo estabelecimento de relações interpessoais saudáveis entre professores e alunos?

A análise criteriosa deste estudo, resultou em quatro Unidades temáticas, três delas com Estruturas relevantes, conforme Quadro 3.

Quadro 3 – Unidades temáticas e Estruturas relevantes referentes a Dissertação 2

Unidades temáticas e Estruturas relevantes Síntese da discussão
1.       Cuidado de Enfermagem Humanizado:

– O cuidado de Enfermagem e o cuidado de Enfermagem humanizado;

– Humanizar versus Desumanizar;

– A Profissão de Enfermagem: alguns princípios e valores ideológicos históricos.

Sobre o ensino do cuidado de Enfermagem humanizado, destaca-se que o entendimento de que o professor deve ter coerência e ética entre o discurso e a prática. Tem-se que o cuidado humanizado deve ser revestido de amor, entretanto, tratam a questão de forma pouca refletida, voltada para uma melhora subjetiva do paciente. O cuidado humanizado x desumanizado aponta para a ausência de considerações com as especificidades do ser humano, ou seja, um protocolo de cuidado de enfermagem pode se transformar em um instrumento de desumanização, pois nivela todos os seres humanos como sendo iguais.
2.       O trabalho docente:

 

– A organização da prática pedagógica;

– Os objetivos da prática pedagógica;

– Princípios e valores que influenciam a prática pedagógica;

– A influência do perfil do aluno adolescente na organização da prática pedagógica.

Houve preocupação de alguns professores com aspectos que envolvem o planejamento de ensino e sua sistematização com os conteúdos envolvidos e em relação às técnicas que são ensinadas. Para o ensino das técnicas prioriza-se a flexibilidade e adequação aos princípios científicos e ajuste aos alunos. Apesar das leis que asseguram um cuidado humanizado, o desafio é o seu desenvolvimento no cotidiano. Quanto ao ensino, os participantes enfatizaram a necessidade de provocar a curiosidade do aluno, com base no pensamento de Paulo Freire sobre o princípio da ação-reflexão-ação. Considerando os objetivos da prática pedagógica para a humanização, os mesmos estão relacionados intimamente com o perfil do profissional a ser formado.  No ensino sobre o cuidado de enfermagem, valoriza-se a comunicação interpessoal e a integração com o paciente.
3.       Ensinando o cuidado de enfermagem humanizado:

 

– Refletindo a prática pedagógica do cuidado de enfermagem humanizado;

– Os instrumentos pedagógicos para ensinar o cuidado de enfermagem humanizado.

Destacam-se os múltiplos papéis sociais assumidos pelos professores requerendo deles que sejam revestidos de humanização, considerando, portanto, que o processo de humanização deve ser iniciado na relação aluno e professor. Observa-se que muitos dos valores e princípios ensinados pelos professores em sala de aula entram em conflito com as práticas encontradas em locais onde ocorrem as práticas de enfermagem. Aponta para uma contradição sobre o ensino humanizado, por exemplo, quando no seu discurso ovaciona o amor e respeito ao paciente, mas na prática, há falta de material e de compromisso da instituição tanto com os pacientes como aos profissionais. Ressalta-se que a formação do aluno depende de vários fatores e setores e o professor sente-se realizado quando identificam ao aluno a associação do que é ensinado teoricamente com as experiências em aulas práticas. Quanto ao ensino sobre o cuidado de enfermagem humanizado, o professor incorpora as qualidades de humanizador do cuidado e o aluno buscará a reprodução desta ação humanizadora.
4.       Humanização do cuidado de enfermagem relacionado com humanização do profissional que cuida Identificaram-se duas formas de representar o assunto: o cuidador deve estar com as condições internas adequadas e equilibradas para prestar o cuidado e; as condições externas podem se tornar adversas e provocar como consequência uma assistência desumana. É necessário intensificar a valorização da humanização pois a enfermagem é uma ciência que se deve pautar pelo ensino e prática de forma consciente, refletindo sobre o seu papel e auxiliando na construção de uma enfermagem humanizada.

Fonte: As autoras (2023).

A análise dos documentos evidenciou que o aluno é tido como indivíduo e pessoa humana (reflete individualidade e singularidade), o que implica no uso de várias metodologias de ensino e aprendizagem; buscam o desenvolvimento pleno das capacidades do educando (formação integral); educação do ser humano, cidadão e trabalhador, sendo a tecnologia referida como centrada no contexto histórico atual (teoria aplicada à prática do cotidiano), o que segundo a autora, contribui para o desenvolvimento do ensino profissional humanizado.

Entretanto, verificou-se que nas falas dos professores há algumas representações sociais dicotômicas entre o cuidado de enfermagem (valoriza a técnica) e o cuidado humanizado (valoriza as interações entre o profissional e o paciente e, as relações humanas). Ainda, alguns entrevistados atribuem o cuidado humanizado ao sentimento amor ao próximo, entendendo-o como algo pessoal, sem relação com aspectos políticos e profissionais da Enfermagem, embora todos tenham mostrado preocupação em humanizar as técnicas que ensinam, a partir da flexibilidade e da adequação aos alunos.

Embora o termo humanização possa ressoar redundância no cotidiano das relações nas escolas e nas instituições de saúde, por envolver relações entre seres humanos, nem sempre é o que acontece, sendo comum atitudes que contrariam esta lógica, inclusive no tocante aos cursos Técnicos de Enfermagem.

A Dissertação 3 (Carlin, 2011) é um estudo exploratório e descritivo com abordagem qualitativa tendo como referencial teórico educacional os pressupostos de Vygotsky e analisou a percepção dos professores acerca da relação interpessoal professor-aluno no ensino profissional Técnico em Enfermagem. Participaram da pesquisa oito enfermeiros-professores por meio de Grupo Focal e os dados coletados foram interpretados a luz da Análise de Conteúdo de Bardin (2009) apud Carlin (2011), resultando em quatro categorias de análise dispostas no Quadro 4, a seguir.

Quadro 4 – Síntese das categorias de análise referentes à Dissertação 3

Categorias  Síntese da discussão
 

 

 

 

 

 

1.       Relacionamento interpessoal professor- aluno

Revelou que o processo vinculado à postura e a comunicação precisa ser melhor discutido e trabalhado entre os professores, pois mesmo que a relação interpessoal professor-aluno, esteja voltada para um aprofundamento na própria prática pedagógica, nem sempre é pautada em princípios e valores. Nesse aspecto consideraram que os espaços para diálogos e reflexões acerca de questões relativas à qualidade da relação interpessoal entre professores e alunos, são escassos. Consideraram que os alunos podem tomar os professores como exemplo, portanto, os mesmos devem ter ciência que suas posturas poderão ser
reproduzidas pelos alunos quando estes se tornarem profissionais.
Quando a relação com o professor é de respeito e
confiança, estes se aproximam do mesmo e começam a interagir melhor
com o meio, todo esse movimento faz parte do processo de aprendizagem, à luz do pensamento de Vygotsky que preconiza o caráter mediado nas relações interpessoais. Nesse aspecto, considerou-se que a valorização da humanização nas relações interpessoais, pelo professor, contribui para o crescimento intelectual e emocional dos alunos.
 

2.       Atitudes de professores e alunos

Destaca a importância das atitudes tanto dos alunos como do professor para o processo de ensino e de aprendizado e deste ter percepção sobre as atitudes dos alunos que ajudam em seu processo de crescimento. Evidencia que as atitudes do professor durante a formação do aluno, influenciarão no desenvolvimento de atitudes profissionais do futuro técnico em Enfermagem, refletindo o que aprendeu no contexto escolar.
 

 

 

 

3.       Perfis de professores e alunos

Alguns dos professores rotulam os alunos em grupos em alguns casos, não permitindo olhar a ele individualmente. Essa situação acaba por dificultar o processo de aprendizagem, por relações interpessoais desconexas de sentido. Considerando os diversos ambientes de estágios do estudante do Curso Técnico em Enfermagem, o processo de aprendizagem vivenciado pelo aluno do curso é influenciado pelo relacionamento com os profissionais da área da saúde, professores, pacientes e seus familiares. Destaca, então, a essencialidade do relacionamento saudável e de parceria entre a escola, os professores e o campo de estágio. No contexto de novas tecnologias na área da Saúde, a comunicação de qualidade é uma habilidade necessária.
 

 

4.       Compromisso com aprendizagem

O aluno deve ter prazer em aprender e o professor em ensinar, permeados pelo compromisso em agregar e atualizar conhecimentos. Enfatiza a necessidade de adequação das metodologias de ensino para atender as demandas dos alunos. No entanto, constatou-se que muitos enfermeiros estão exercendo a docência em Cursos Técnicos em Enfermagem se o conhecimento específico e faz crítica a cursos de graduação em Enfermagem que não dispõe em seu currículo dos conhecimentos essenciais à docência.

Fonte: As autoras (2023).

Assim, no trabalho de Carlin (2011) percebe-se aspectos positivos relacionados às relações interpessoais entre professores e alunos, quando enfatizaram o respeito e a valorização da humanização, citando o professor como exemplo, espelho em que suas atitudes refletirão nas ações do futuro profissional, No entanto,  observa-se há os desafios a serem superados, pois houve apontamentos como escassez de espaços de diálogos e reflexões sobre as relações interpessoais que não são pautadas por princípios e valores, como por exemplo, ao rotular alunos.

Outro apontamento nessa pesquisa foi a existência de crítica aos cursos de Graduação em Enfermagem, por não disporem em seu currículo, conhecimentos específicos para o exercício da docência (CARLIS, 2011).

Por fim, a Dissertação 4 (Abreu, 2016) constitui-se em um estudo exploratório, descritivo, de enfoque qualitativo, que adota o delineamento de pesquisa bibliográfica e documental. Propôs analisar a articulação do projeto político pedagógico (PPP) de um curso Técnico em Enfermagem com a humanização da assistência à saúde. Foram coletadas informações de documentos deste curso e aplicado um questionário sobre Ensino da humanização aos professores, cuja análise de conteúdo se deu com base nas dimensões política e pedagógica, de acordo com Bardin (2011) apud Abreu (2016), resultando em categorias de análise apresentadas no quadro 5, a seguir.

Quadro 5 – Síntese das categorias de análise referentes à Dissertação 4

Categorias de análise Síntese

 

Dimensão política
 

 

1. Concepção de saúde no PPP, e subcategorias: concepção de formação profissional e concepção de atuação profissional.

Acredita-se que se faz necessário abordar a temática da humanização durante toda a formação do profissional de saúde. A pesquisadora entendeu que o PPP cumpre sua função política de conceituar saúde ao trazer os termos saúde-doença; atendimento integral e de qualidade; direitos do usuário; autonomia; qualidade de vida; ciência e arte; saúde e a eficiência física e mensal, entendendo assim, como a integralidade do SUS.  Quanto aos aspectos da formação e atuação profissional, argumentou-se sobre a necessidade de preparar o futuro Técnico em Enfermagem, para compor equipe multidisciplinar nos serviços de atenção à saúde, com atividades além do campo da saúde.
Dimensão pedagógica Síntese
 

 

 

2.       Humanização da assistência à saúde

Após análise dos documentos, mesmo que esteja previsto a contemplação da humanização no ensino, verificou-se que essa temática é pouco abordada nas ementas das disciplinas e há dificuldade em promover a integração ensino/serviço/comunidade. Observa-se ausência de interdisciplinaridade e falta de ações concretas que favoreçam a integração entre teoria e prática humanizada, bem como, valoriza-se o conhecimento técnico-científico, com foco na doença. Nesse aspecto mostrou-se necessário pensar na formação dos profissionais de saúde para que haja articulação entre teoria e prática.
3.       Perfil docente Os 13 professores são bacharéis em enfermagem, sendo 4 (quatro) professores possuírem pós-graduação na área da educação.
4.       Conhecimento sobre a temática humanização Apesar da maioria dos professores do curso afirmar que conhece a PNH, isto pouco interfere no processo de formação do aluno do curso Técnico de Enfermagem.
 

5.       Estratégias pedagógicas e humanização

 

 

Doze (12) professores afirmaram que abordam o tema da humanização em sala de aula e/ou estágio supervisionado e de um (1) professor disse que, eventualmente, aborda o assunto. A metodologia mais utilizada pelo professor para abordar o tema Humanização e as opções mais evidenciadas foram: “em aula teórica, utilizando textos sobre o assunto”; “em rodas de conversa para retratação da realidade vivenciada” e “com orientações durante a realização de práticas supervisionadas”.
6.       Ensino da humanização Inferiu-se que os professores restringem a humanização em ações cuidadoras, abarcando todo o conjunto de atitudes relacionais que qualificam as relações humanas na área da saúde. Professores privilegiam temáticas tais como: “ética e bioética”; “valorização e respeito ao outro durante os cuidados” e “humanização nas práticas de assistência à saúde”. Evidenciou-se que o desafio para se trabalhar a Humanização, deve-se ao privilégio dado as disciplinas técnicas e científicas; seguido no curto tempo de aula e a falta de interdisciplinaridade.

Fonte: As autoras (2023).

A autora entende que incluir a PNH em todo o processo de formação profissional, é um passo significativo em direção à humanização da assistência. O privilégio dado as disciplinas técnicas, reforça o que foi evidenciado na matriz curricular do curso pesquisado, ou seja, a maior carga horária é ofertada ao ensino técnico, o que corrobora com a fragmentação do processo de formação e trabalho em saúde e, dificulta a apreensão da complexidade que envolve o processo saúde-doença-cuidado.

Na análise documental, uma das limitações identificadas pela autora, relacionou-se com a pouca abordagem dos objetivos descritos no PPP (dimensão política) na dimensão pedagógica, dificultando o processo ensino-aprendizagem da humanização, na contramão do que propõe. Outra lacuna apresentada aponta que a temática humanização é pouco abordada nas ementas das disciplinas do curso Técnico de Enfermagem, havendo dificuldade em promover a integração ensino/serviço/comunidade. Observou-se também, a ausência de interdisciplinaridade e falta de ações concretas que favoreçam a integração entre teoria e prática humanizada.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Poucas publicações foram encontradas nas bases de dados pesquisadas que abordassem a humanização nas relações interpessoais na escola, e, em especial, no contexto de cursos Técnicos em Enfermagem no Brasil. Assim, relacionaram-se com a temática investigada, somente quatro (4) trabalhos dentre os quarenta e quatro (44) previamente selecionados.

A partir da leitura e análise desses trabalhos, pudemos inferir alguns aspectos positivos, tais como: postura ética dos professores nas relações interpessoais com os alunos; ensino com o foco no aluno e voltado para a formação do ser humano, do cidadão e trabalhador, valendo-se das tecnologias para isso; a percepção de que o professor é um exemplo para seus alunos e que suas atitudes refletirão na futura atuação profissional do egresso do Curso Técnico em Enfermagem; valorização da humanização nas relações interpessoais, por meio do respeito.

Contudo, percebemos alguns desafios a serem superados, como por exemplos: incoerência entre o discurso/teoria e a prática (valorizar a técnica e memorizar o cuidado humanizado); poucos espaços para reflexões sobre as relações interpessoais entre professores e alunos que as vezes não são permeadas por princípios e valores éticos do ser humano; embora haja previsão nos documentos legais do Curso Técnico em Enfermagem, para desenvolver a temática da humanização, ela era pouco abordada nas disciplinas; dificuldades em integrar a comunidade na escola e de práticas que favoreçam a humanização. Muitas dessas evidências culminam na formação recebida na Graduação em Enfermagem, que por vezes deixa lacunas na formação pedagógica para os enfermeiros

Os estudos indicaram que muitos professores entendem a humanização como algo inerente ao ser humano, o que não dispensou a criação da Política Nacional de Humanização da Saúde, cujos princípios indicam a necessidade de maior acolhimento do outro pela prática do respeito, de saber ouvir e falar, que culmina em um processo educativo-formativo e emancipatório.

Destarte, é necessário direcionar o olhar de educadores e pesquisadores para a valorização do exercício de relações interpessoais saudáveis durante a formação escolar, servindo de base positiva e incentivadora para que o futuro técnico de enfermagem preste cuidados humanizados aos seus pacientes pautados em uma educação humanizada.

Por fim, dada a escassez de pesquisas a respeito do ensino humanizado em cursos Técnico de Enfermagem, sugere-se melhor investigação do tema, tendo como base a PNH da Saúde.

REFERÊNCIAS

ABREU, K. J. V. D. Avaliação do Curso Técnico em Enfermagem sob o Enfoque da Humanização.  Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Ensino em Saúde) – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Diamantina –MG. p. 147, 2016. Disponível em http://acervo.ufvjm.edu.br/jspui/handle/1/1156 Acesso em jan. dez.2022.

ARAÚJO, A. C. DE; NASCIMENTO, E. M.; SILVA, F. R. A Perspectiva da Formação Humana Integral de Paulo Freire e suas contribuições para a Educação de Jovens e Adultos. @rquivo Brasileiro de Educação, v. 5, n. 10, p. 65–84, 2017. Disponível em http://periodicos.pucminas.br/index.php/arquivobrasileiroeducacao/article/view/P.2318-7344.2017v5n10p65. Acesso março 2023.

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BELTRAN SALAZAR, Oscar Alberto. Rejeição do paciente aos cuidados de enfermagem. Investir. ed. doente , Medellín, v. 29, não. 3, pág. 343-352, nov. 2011 . Disponível em http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0120-53072011000300002&lng=pt&nrm=iso Acessos em  de maio de 2023.

BRASIL. Humaniza SUS – Política Nacional de Humanização. Ministério da Saúde, p.01-20, Brasília – DF, 2004. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/humanizasus_2004.pdf Acesso março 2023.

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CARLIN, D. S. Relação Interpessoal Professor Aluno no Ensino Profissional Técnico em Enfermagem: Repercussões na Aprendizagem Atitudinal. Dissertação Escola de Enfermagem (Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em Enfermagem) – Universidade de São Paulo. São Paulo, p. 93, 2011. Disponível em https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/7/7140/tde-02032012-123644/pt-br.php Acesso em nov. 2022.

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SAMPAIO, R.F.; MANCINI, M.C. Estudos de revisão sistemática: um guia para síntese criteriosa da evidência científica. In: os de revisão sistemática 83 Rev. bras. fisioter., São Carlos, v. 11, n. 1, p. 83- 89, jan./fev. 2007. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbfis/v11n1/12.pdf Acesso 20 Abr 2023.

STRIEDER, R. B. Abordagens CTS na educação científica no Brasil: sentidos e perspectivas. Tese (Doutorado em Interunidades em Ensino de Ciências.) – Faculdade de Educação, Instituto de Física, Instituto de Química e Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo. São Paulo, p. 283. 2012. Disponível em https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/81/81131/tde-13062012-112417/publico/Roseline_Beatriz_Strieder.pdf Acesso em maio 2023.

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[1] Graduanda de Enfermagem pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Campus Luiz Meneghel em Bandeirantes- PR. ORCID: 0000-0001-9556-2863. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/1819510236192532.

[2] Residência em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Londrina (2023-2025). Enfermeira graduada na Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP (2017-2023). ORCID: 0000-0002-0080-2463. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/7874246265395079.

[3] Graduanda de Enfermagem pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Campus Luiz Meneghel em Bandeirantes-PR. ORCID: 0000-0001-9993-2438. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/8959697860871371.

[4] Doutoranda em Educação – Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE)- Universidade Nove de Julho – UNINOVE (ingresso em 2021). Mestra em Ensino (Programa Pós-Graduação em Ensino PPGEN – Mestrado Profissional em Ensino – Universidade Estadual do Norte do Paraná- UENP – Campus Cornélio Procópio (2016-2017). Especialização em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG (2017-2018). Especialização na área social pela Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (2007-2008). Especialização na área educacional, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO (2006-2007). Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO (2002-2005). ORCID: 0000-0001-6678-0642. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/3888026829305738.

[5] Pós-doutorado (2013), Doutorado (2003) e Mestrado (2000)  pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP). Especialização em Enfermagem do Trabalho (2008) pela Faculdade Estácio de Sá. Especialização em Administração Hospitalar (1986) pelo Centro São Camilo de Desenvolvimento em Administração da Saúde. Aperfeiçoamento em Licenciatura em Enfermagem (1999) pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo. Graduada em Enfermagem e Obstetrícia (1984) pela Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA). ORCID: 0000-0001-5655-609X. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/7608724073951667.

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Camila Flora da Silva

Graduanda de Enfermagem pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Campus Luiz Meneghel em Bandeirantes- PR. ORCID: 0000-0001-9556-2863. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/1819510236192532.

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