Antonio Renaldo Gomes Pereira [1]
Rodrigo Andrade de Oliveira [2]
Antonio George Lopes Paulino [3]
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/3238
“O POVO FAZ SEU SANTO”
Os Santos do Povo são personagens sagrados venerados pelas pessoas que os consideram protetores e intercessores em suas vidas. Os santos são parte importante da religiosidade presente em diversas culturas. Neste texto, detemo-nos no culto desenvolvido no seio do catolicismo, sobretudo, o que costumeiramente denominamos catolicismo popular. Interessa-nos, especificamente, conhecer um aspecto da religiosidade popular que se constitui na construção da santidade e das manifestações devocionais num fluxo que movimenta a fé na historicidade, independentemente da chancela normativa da Igreja Católica.
A partir do contato com dados exploratórios e das nossas vivências no contexto cearense, notamos que esse fenômeno da canonização popular é bem expressivo nessa vasta parte do território nordestino, assim como em toda a região. E como assume contornos míticos diversos, caracteriza-se de forma complexa, com denominações em que respinga essa diversidade: almas milagrosas, santos de cemitério, santos do povo ou simplesmente santos. Observando que determinados traços míticos de construção da santidade são recorrentes em alguns casos registrados no Ceará, propusemos o projeto de pesquisa Santos do Povo na religiosidade cearense: mapeamento e descrição de territorialidades devocionais, em execução pelo Laboratório de Antropologia e Imagem – LAI/UFC.
Bastide (1971), em seu ensaio Os dois catolicismos, apresenta uma das primeiras formas de manifestação popular do catolicismo em resistência ao cânone oficial da Igreja Católica, que emerge quando da segregação sociorracial no âmbito religioso imposta pelos brancos aos pretos, sendo estes catequizados menos para serem integrados socialmente do que para terem suas expressões culturais e de poder reprimidas.
O ensaio de Bastide (1971) é uma referência rica, que assim se constitui pelo zelo do pesquisador com a história social de um fenômeno tão importante e complexo como a religiosidade, notadamente no contexto pluriétnico em que se formaram as bases da cultura neste país farto em diversidade simbólica. O que os senhores brancos mais temiam, aconteceu: o catolicismo dos brancos tentou a todo o custo domesticar a fé dos negros, mas reforçou o poder de um catolicismo dos pretos, organizado em irmandades de santos pretos, construindo suas igrejas e realizando suas festas, seus cortejos, num sincretismo religioso em que o catolicismo dos brancos contagiou-se pelo processo simbólico introduzido pelos pretos.
Ademais, nos primeiros séculos da colonização, a investida dos portugueses na consolidação da fé católica com a imposição do batismo e dos cultos a indígenas e, posteriormente, aos africanos e seus descendentes, deparou-se com um ambiente de proporções continentais. Assim, era impossível que a representação oficial do clero alcançasse os interiores do Brasil. A devoção aos santos expandiu-se da demarcação de terras cujos donatários também doavam parte delas a santos católicos, firmando assim territorialidades devocionais, caracterizadas por relações votivas e de penitência com os santos, mas também por graças, milagres e festejos.
O clima dos festejos de santos nem sempre contou com a agência e gerência de sacerdotes oficializados para tal. Fecundava-se, assim, o terreno para o desenvolvimento de uma espontaneidade da fé como um fenômeno em que “o povo faz seu santo” (CASCUDO, 2011, p. 101). Assim diz Cascudo: “Ao lado dos santos universais e regulares vivem os Santos regionais, irregulares canonicamente mas consagrados pela confiança popular”. E acrescenta: “Entende o Povo, que aclamava elegendo seus Pontífices e Arcebispos, caber-lhe o direito de consagrar seus Santos” (2011, p. 104).
É nesse curso da história que a fé ganha contornos imprecisos e “irregulares canonicamente”, fazendo do Brasil interior, sobretudo o interior nordestino, o ambiente favorável ao crescimento e à continuidade de missões de fé, peregrinações, agrupamentos de beatos e penitentes (CAMPOS, 2008), exortando ao alívio do sofrimento das almas terrenas com o trabalho de lideranças que acessam o mundo das almas santas, pois “acompanhando-lhes a vida, o heroísmo das virtudes, o devotamento caritativo, ambienta-os com um halo de invulgar autoridade que o renome espalha e autentica” (CASCUDO, 2011, p. 104).
Assim, no contexto do catolicismo os “santos do povo” são aqueles que não fazem parte do cânone oficial da Igreja, contudo, seu culto é realizado pelo povo inicialmente de forma espontânea. Os santos do povo têm sua origem na devoção popular, e não na hierarquia eclesiástica, estando a sua origem no âmago do imaginário popular que considera, em primeira mão, os milagres realizados e, por conseguinte, sua história de vida. Diversas são as formas de santificação conhecidas, representadas por aspectos da vida e da morte dos personagens santificados, que funcionam como “critérios” de santidade na identificação do perfil social e culturalmente estabelecido como “santo”.
Ao dizer que “o povo faz seu santo”, Câmara Cascudo lista uma série de santos populares que, embora canonicamente irregulares, tiveram testada socialmente a eficácia de seus feitos materiais e divinos como atributo da santidade:
Pelo Norte do Brasil recordo o Padre Ibiapina (José Antônio Pereira Ibiapina, 1806-1883), professor de Direito Natural na Academia de Olinda, […] ordenando-se, recusando ser Vigário-Geral de Pernambuco preferindo cumprir a vocação missionária pelo Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, fundando e mantendo Casas de Caridade, igrejas, recolhimentos, escolas […]. Padre Cícero Romão Batista, 1844-1934, vigário do Juazeiro, no Ceará, que tudo lhe deve, suspenso de ordens por divulgar intervenção divina numa familiar, é o mais impressionante motivo humano de atração cultural e de inspiração na literatura popular, canonizado pelo Nordeste, túmulo com milhares de peregrinos, infinitas ‘graças’ publicadas (2011, p. 101-105).
Seguindo essa linha de observação do fenômeno, Cascudo lista santos do povo presentes na historicidade de vários estados brasileiros, não somente no Norte e Nordeste, como também no Sul, Sudeste e Centro Oeste, quando cita alguns exemplares dessas almas milagrosas, geralmente santificadas em função de dolorosas mortes que as apartaram da vida terrena: “Em Curitiba, é Maria Bueno a santa aclamada do Paraná, assassinada em 1893 pelo amante, soldado de Cavalaria”. Outro caso interessante, já desdobrado na oralidade popular em narrativas que às vezes se desencontram: “Ceará, ‘Menino Vaqueiro’ no Ipu, encontrado morto quando procurava o pai. Põe à vista as coisas perdidas. Madre Vasconcelos, Freira Doroteia em Fortaleza, invocada quando desaparecem documentos preciosos” (2011, p. 105-106).
Conforme dados coletados na pesquisa, notamos tipos de motivação para a santificação: o martírio e a violência sofrida nos últimos momentos, quando sentidos sob a égide da crença na salvação da alma através da fé em Deus, da castidade e do perdão; e a caridade, quando praticada exclusivamente pelo amor ao próximo, são aspectos recorrentes entre as causas de santificação nos casos estudados. Catalogamos cerca de trinta santos do povo. No âmbito do catolicismo popular, aspectos valorizados pelo imaginário religioso para a constituição da santidade, como a honra, a castidade e o perdão podem assumir posição secundária quando comparados à presença da caridade e do martírio. Todavia, o martírio em muitos casos advém da resistência da vítima ao assédio do algoz, para defender sua castidade em nome da fé. Perdoar o próprio algoz também pode ser uma porta para a santidade. Portanto, as nuanças da santificação nem sempre podem ser hierarquizadas em primárias e secundárias.
Vendo-nos diante de uma tipologia que se esboçava desde os dados exploratórios, formulamos hipóteses voltadas para a relação entre a causa da santificação e a pessoa santificada, considerando a categoria gênero como relevante, pois se observou uma maior recorrência de casos envolvendo mulheres vítimas de assassinato, estando situadas num contexto onde predomina a valorização da honra e da castidade em prol da “pureza da alma”, em detrimento de uma consciência da opressão vivenciada por essas mulheres.
Dessa forma, o sofrimento e a prática da caridade evidenciados nas narrativas de vida, bem como a ação das almas santas na cura de doenças e na realização de outras graças permitem a investidura dos termos relacionados à santificação, mas não somente. São emblemáticos também, embora menos recorrentes, casos em que a morte do corpo físico é antecedida da morte social decretada pela aplicação do estigma a pessoas que representam o perigo de espalhar a peste. E ainda os casos em que o sofrimento e a morte ruim deram-se na solidão, a esmo; alguém perdeu-se no caminho ou na mata e sua dor o santificou. O conjunto permite elencar tais personagens em nossa pesquisa e, de certa forma, entendê-lo como objeto de investigação.
A apropriação de práticas devocionais pelas territorialidades em que ocorrem, assim como, em determinados casos, a sua relação com o turismo religioso, estimulam midiática e politicamente a apresentação do local, enfatizando-se o seu aspecto sagrado, o que também sinaliza uma linha de investigação. Por fim, a distribuição da expressividade desse fenômeno tanto quantitativa como qualitativamente no estado do Ceará é mais uma hipótese a ser analisada.
A pesquisa busca, de forma geral, mapear territorialidades de práticas devocionais às almas santificadas pelo povo cearense. A partir do material coletado, estamos realizando a descrição da devoção em cada caso, considerada como forma de expressão cultural de uma territorialidade. Na análise dos dados de cada caso catalogado, almejamos contemplar a problematização teórica, assim como a dinâmica presente na apropriação cultural dos modelos de santificação pelas suas respectivas territorialidades.
A metodologia utilizada para o desenvolvimento da pesquisa é qualitativa, de caráter documental. As fontes de pesquisa são diversas, tendo sido realizado, inicialmente, um levantamento exploratório nas redes sociais, seguido de pesquisas em jornais, bibliografia acadêmica e não-acadêmica, sítios eletrônicos, documentários, vídeos e fotografias. Decidimos realizar a pesquisa virtualmente pela indisponibilidade de recursos para percorrermos um território tão extenso, mas, sobretudo, pelo fato de que já contamos com diversos estudos sobre personagens específicos desse universo de santos e, ainda, pela possibilidade de acesso a contatos e outras fontes disponíveis nas redes sociais.
O MAPEAMENTO E UMA ANÁLISE EM CURSO
O mapeamento de casos foi realizado considerando-se a identificação a partir da localização geográfica, nome do(a) santo(a) e do lugar sagrado, dados narrativos e/ou analíticos (publicações, documentos e relatos audiovisuais, relatos em redes sociais) a respeito da sua trajetória e do processo de santificação. Entre os cerca de 30 casos já catalogados, 19 são do sexo feminino. Geograficamente distribuídos, 13 são da mesorregião noroeste, 05 da norte, 05 dos sertões, 02 da centro-sul, 03 da sul, 01 da mesorregião do Jaguaribe e 02 da metropolitana.
Nesse sentido, mobilizou-nos o estudo de narrativas de santificação que revelam os processos devocionais e os conteúdos simbólicos neles envolvidos: a) a proximidade com o imaginário católico canônico; b) o distanciamento em face do imaginário canônico, quando se santifica um ladrão; c) as práticas discursivas que enfatizam a caridade, a honra, o perdão etc.; d) a forma como o imaginário age sobre a santificação de mulheres vítimas de feminicídio; e) o modo como essas práticas devocionais atuam e são apropriadas nas territorialidades onde tal fenômeno ocorre; f) e como se elabora a relação humana com o sagrado mediada pelos diversos tipos de experiências devocionais. Dessa forma, pudemos perceber e explorar o fenômeno sob uma maior amplitude de ângulos, o que possibilitou a formulação de uma maior variedade de hipóteses, bem como a percepção de um campo investigativo mais profícuo sobre um mesmo fenômeno.
Por se tratar de um estudo em andamento, não podemos tratar, neste espaço, de todos os casos já catalogados. Resolvemos abordar alguns exemplos que nos parecem emblemáticos. O suplício, ou seja, o sofrimento sentido no momento da morte, é um tipo de caso com grande recorrência, presente mais frequentemente em casos de martírio feminino, decorrente de relacionamento abusivo, no qual, em geral, o homem não aceita recusa ao assédio ou que se ponha em dúvida a condição da mulher como propriedade sua. São os de Mártir Francisca, em Aurora, morta com treze facadas por se negar a se casar com Chico Belo, o homem que a atormentava (MORAIS, 2006); de Maria de Bil, em Várzea Alegre, que, ao descobrir a traição do marido, Bil, em um caso com a própria irmã, decidiu terminar o relacionamento, o que não foi aceito pelo cônjuge, que o levou a assassiná-la, ainda grávida, com três facadas (ALVES, 2013); e de Santa Maria Alice, em São Gonçalo do Amarante, morta a facadas por Domingos Madaleno, um agricultor que a perseguia já fazia um tempo (MATOS, 2012), sendo esta também venerada pelo perdão concedido, pouco antes de morrer, ao violentador.
A caridade, como valor tradicionalmente cristão, é outro aspecto fortemente presente no imaginário popular sobre a santidade. O caso de Irmã Clemência, em Baturité, é um bom exemplo para ilustrar tal forma de devoção. A forma como ela é lembrada, seu engajamento no atendimento a pessoas doentes, não obstante os seus próprios, e na arrecadação de recursos para a caridade, através de esmolas, fez com que fosse criada uma imagem de santidade em torno dos seus feitos.
Não podemos deixar de notar que todos esses casos, destacados pela maior recorrência, não eventualmente, remetem a personagens femininas. A manutenção da ordem patriarcal, configurada por uma conduta valorativa da submissão e do sofrimento enquanto meios de salvação da alma em conformidade com a fé em Deus, é evidenciada quando se observa a disparidade da quantidade de casos femininos em relação aos masculinos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No ponto em que nos encontramos na pesquisa, não temos conclusões sistematizadas além das que confirmam nossas bases de problematização aqui resumidas, mas temos pistas para aprofundarmos o estudo em casos específicos, enquanto novos casos vão chegando ao nosso conhecimento e, quem sabe, abrindo novas hipóteses e tipos, como a presença da espiritualidade indígena na narrativa da santificação.
Por enquanto, importa notar que o culto aos santos do povo é uma expressão da religiosidade popular, sendo muitas vezes uma forma de resistência cultural contra a dominação religiosa da elite clerical, incluindo na esfera do sagrado valores nem sempre correspondentes aos canônicos, produzindo uma relativa autonomia na gestão do sagrado, às vezes esvaziando a fronteira entre o mágico e o religioso.
REFERÊNCIAS
ALVES. Daniele Ribeiro. O feminino dilacerado e a “santificação”: estudo sobre o assassinato e veneração a Maria de Bil em Várzea Alegre-CE. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 10. Anais Eletrônicos, Florianópolis, 2013.
BASTIDE, Roger. “Os dois catolicismos”. In: BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. Primeiro volume. São Paulo: Pioneira; Editora da Universidade de São Paulo, 1971. pp. 157-179.
CAMPOS, Roberta Bivar Carneiro. Como Juazeiro do Norte se tornou a Terra da Mãe de Deus: penitência, ethos de misericórdia e identidade do lugar. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 28(1), p. 146-175, 2008.
CASCUDO, Luís da Câmara. Religião no povo. São Paulo: Global, 2011.
MATOS, Ivna dos Santos de. Maria Alice: a santa sem identidade. Relatório Técnico, Trabalho de Conclusão de Curso. Faculdade Cearense, Jornalismo. Fortaleza, 2012.
MORAIS, Álvaro Dellano Rios. Santa do povo: comentários sobre a devoção à mártir Francisca de Aurora. Trajetos Revista de História UFC, Fortaleza, v. 4, n. 8, p. 147-161, 2006.
[1] Doutorando em Antropologia pelo PPGA/UFPB. Mestre em Antropologia. Especialista em Ensino Religioso. Licenciado em Pedagogia. Licenciado em História. Licenciado e bacharel em Ciências Sociais. Professor da Educação Básica. Membro da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Pesquisador do Laboratório de Antropologia e Imagem (LAI/UFC). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4832-8825. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7628264779459752 E-mail: [email protected].
[2] Bacharelando em Ciências Sociais pela UFC. Bolsista de iniciação científica (FUNCAP) no projeto de pesquisa “Santos do Povo” na religiosidade cearense: mapeamento e descrição de territorialidades devocionais, vinculado ao Laboratório de Antropologia e Imagem (LAI/UFC). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9073-0450. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5475673148908740. E-mail: [email protected].
[3] Professor Associado III, Departamento de Ciências Sociais, Antropologia, UFC. Professor permanente do Programa Associado de Pós-Graduação em Antropologia UFC-UNILAB. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFC. Membro da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Coordenador e pesquisador do Laboratório de Antropologia e Imagem (LAI/UFC). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9287-1801. Lattes: https://lattes.cnpq.br/9438816902023564. E-mail: [email protected].
