Ulisses Francisco Mascarenhas Moura [1]
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/livros/3212
1. INTRODUÇÃO
Em uma era onde a tecnologia tem avançado cada vez mais, inclusive no campo educacional, se faz pertinente abrir-se para o campo tecnológico e seus benefícios possíveis ao aluno no processo de ensino e aprendizagem. Ao se abordar o tema inclusão nesse mesmo ambiente conseguimos contemplar variados grupos através desse conceito. Um desses grupos são os alunos com deficiência (AcD), os quais estão nas turmas regulares de ensino, além do atendimento educacional especializado (AEE). Conseguir incluir esses alunos tem sido um grande desafio de todos os profissionais presentes no contexto escolar e nada melhor do que ter ferramentas adequadas para que essa inclusão possa se dar de uma maneira equalizadora. Neste contexto apresenta-se como ferramenta para a inclusão, autonomia e funcionalidade (dentre outras possibilidades) dos alunos com deficiência a tecnologia assistiva (TA) (SCHIRMER et al., 2007 apud GIROTO et al, 2012).
O problema desta pesquisa se relaciona à necessidade de inclusão de AcD nas aulas regulares de educação física escolar, tendo como questionamento: a tecnologia assistiva é uma ferramenta utilizada pelos professores de educação física para incluir alunos com deficiência em suas aulas? Através do exposto objetivou-se investigar as possíveis barreiras, dificuldades, possibilidades e benefícios do uso da TA na inclusão de AcD’s nas aulas regulares de educação física escolar. A pesquisa justifica-se pela necessidade de averiguar a utilização da TA nas aulas regulares de educação física escolar, no intuito de contribuir com a inclusão dos AcD nas aulas e a partir daí contribuir também com o campo de pesquisa para a utilização da TA nas aulas de educação física escolar. A presente pesquisa utilizou-se da revisão da literatura em livros e artigos publicados entre os anos de 2006 e 2015 no Brasil, em idioma português como metodologia para chegar aos seus objetivos. A revisão da literatura é indispensável para se obter uma ideia fidedigna do atual estado de conhecimentos sobre um tema. Ela busca nos livros e artigos somente a informação mais relevante (BENTO, 2012). Utilizou-se como critério de exclusão artigos de outras nacionalidades, além de pesquisas com abordagem quantitativa.
2. TECNOLOGIA ASSISTIVA: O QUE É?
Schirmer et al. (2007 apud GIROTO et al, 2012) afirma que a TA é um termo utilizado para identificar todo o tipo de recursos e serviços que possam contribuir para proporcionar ou mesmo ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiências e, com isso, oferecer estilo de vida independente e inclusão. Para Lauand e Mendes (2008 apud GIROTO et al, 2012) a TA se caracteriza como uma área que vem estimulando novas pesquisas e desenvolvimento de equipamentos, os quais podem contribuir com o aumento, manutenção e a melhoria das habilidades funcionais da pessoa com deficiência, em distintos momentos de sua vida, oferecendo condições efetivas de melhoria da qualidade de vida, ao contribuir para maior autonomia permitindo assim que as pessoas com deficiência se tornem mais produtivas.
A TA, no Brasil, é um campo de conhecimento relativamente novo e o termo ajudas técnicas tem sido utilizado como sinônimo dela. Em ata da reunião VII de dezembro de 2007 o Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) aprovou um conceito de TA:
Tecnologia Assistiva (TA) é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (CAT, 2007 apud ROCHA; DELIBERATO, 2012; BRASIL, 2009).
2.2. A TECNOLOGIA ASSISTIVA NO CONTEXTO ESCOLAR
Com relação à educação a TA está organizada em serviços e recursos que visam atender aos AcD, tendo por objetivo construir, com os alunos, as condições que se fazem necessárias para o aprendizado. Busca também ampliar a participação do aluno nos processos de aprendizagem, estando com o foco no alcance dos objetivos educacionais (BERSCH, 2009). Para a autora a educação faz TA quando investiga necessidades e oferece caminhos que possam promover a participação do estudante com deficiência nos desafios da escola buscando a promoção da autonomia e da aprendizagem.
De acordo com Filho (2012) no ambiente escolar o seu uso se torna de extrema relevância, pois as tecnologias assistivas são importantes ferramentas contra barreiras causadas pela deficiência e permitem a inserção do indivíduo em ambientes ricos para o processo de aprendizagem e desenvolvimento. De acordo com Valente (1991 apud FILHO, 2012) crianças com deficiência possuem limitações na sua capacidade de interação com o mundo. Estas limitações podem impedir que as elas venham a desenvolver habilidades que constroem a base do seu processo de aprendizagem. Peres (2003 apud FILHO, 2012) afirma que o desenvolvimento de uma criança com deficiência, seja ela sensorial ou física, não é menor do que o de outra criança, porém, distinto, de forma singular, pois o seu aprendizado se dá por caminhos alternativos para que haja uma compensação.
Bersch (2013) relatando a respeito de professores do AEE propõe algumas etapas para a utilização da TA no processo de ensino e aprendizagem dos alunos com deficiência, sendo elas: identificação do problema e priorização de ações; observação da tarefa no local para classificação do problema e projeto de solução; o projeto com base nestes dados; experimentação; tomada de decisão; desenvolvimento de competência operacional e implementação do recurso; educação aos parceiros e avaliação de resultados e revisão do projeto. O Ministério da Educação abordando sobre a utilização de um sistema de comunicação alternativo (ao qual a TA faz parte) indica também caminhos para que esse suporte seja utilizado como auxílio que ofereça condições desejáveis para o aluno: levantamento das habilidades já existentes e do potencial do aluno, possibilitando o trabalho do professor com aspectos de compreensão e expressão da linguagem do estudante. A partir dessa avaliação se torna possível a preparação do recurso utilizado (BRASIL, 2006).
Diante desses conceitos fica evidente a importância de ferramentas que possam auxiliar os AcD no ambiente escolar no processo de ensino-aprendizagem. Como mencionado anteriormente, o uso da TA é de extrema importância para esse auxílio. A utilização dela proporciona maior independência dos alunos com deficiência. Também se torna uma grande aliada na construção do conhecimento na realidade da pessoa com deficiência, estimulando a construção de novos caminhos e possibilidades para o desenvolvimento e o aprendizado, além de minimizar dificuldades intelectuais, sensoriais e motoras através do uso de programas, recursos didáticos adaptados e equipamentos, os quais possibilitam as pessoas com deficiências superarem suas limitações (RIBEIRO, 2012).
2.3. AS AULAS REGULARES DE EDUCAÇÃO FÍSICA E O USO DA TECNOLOGIA ASSISTIVA
A TA também está presente nas aulas de educação física escolar, porém ela encontra obstáculos em alguns fatores como, por exemplo, as dificuldades dos professores de educação física em as utilizarem. Podemos observar a dificuldade deles em trabalhar com turmas regulares onde também estão AcD incluídos nelas. De acordo com pesquisas professores de educação física escolar têm tido dificuldades com a inclusão de alunos com e sem deficiência na mesma turma (FIORINI; MANZINI, 2014). Os autores constataram no relato de professores em sua pesquisa que os mesmos acreditam que alunos sem deficiência dificultam a inclusão de AcD nas aulas. Com relação ao uso da TA Ferreira e Ranieri (2016) através da sua pesquisa de campo puderam verificar que a maioria dos professores de educação física entrevistados não sabe o que são as mesmas, além de utilizarem adaptações e improvisos para o auxílio de AcD’s nas suas respectivas aulas.
Baseado nos dados acima podemos observar que além do desconhecimento sobre o uso e o termo da TA, há professores de educação física que também não conseguem lidar com a questão da inclusão.
A falta de conhecimento e compreensão do termo não justifica a não aplicação da TA. De acordo com Galvão Filho (2009 apud FERREIRA; RANIEIRI, 2016) apesar de o conceito ser novo, a sua aplicação não é uma novidade, pois se trata de qualquer meio que aumente a funcionalidade de uma pessoa. Ferreira e Ranieri (2016) afirmam que o professor de educação física necessita de se envolver com o uso dessa tecnologia, pois ele trabalha com atividades motoras diversas com seus respectivos alunos, sendo estes com limitações e potencialidades também diversas.
Apesar disso, mesmo que a formação docente, em alguns momentos, possa se tornar um empecilho para o uso da TA para a inclusão de AcD nas aulas de educação física escolar, não quer dizer que as mesmas não sejam utilizadas nesse ambiente, ainda que de maneira inconsciente e insuficiente. Para Brasileiro (2003 apud FERREIRA; RANIERI, 2016) as adaptações realizadas nas aulas de educação física são com base nas regras, no ambiente e nos materiais, mas o contato do professor de educação física com o uso da TA não acontece.
Se por um lado podemos observar barreiras e limitações, há também que se considerar as possibilidades e benefícios da utilização da TA nas aulas de educação física escolar para favorecer autonomia aos alunos com deficiência e a sua inclusão. Uma das possibilidades é através da ludicidade. Para Ramos (2015) relacionando às possibilidades da utilização da TA ao lúdico, nas práticas pedagógicas, essas possibilidades existem e já estão sendo realizadas, ainda que de uma outra forma de entender, como metodologias adaptadas ou estratégias de ensino. Em sua pesquisa sobre o uso da TA nas aulas de educação física em uma perspectiva lúdica a autora destaca que os resultados de sua pesquisa tiveram uma repercussão positiva nos entrevistados, pois mesmo os professores não estando familiarizados com o termo tecnologia assistiva e suas especificidades, os mesmos já a utilizam satisfatoriamente.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O termo tecnologia assistiva é relativamente novo. Porém, pôde ser percebido que tanto o termo quanto a tecnologia já são realidades que devem ser conhecidos e utilizados nas aulas de educação física para facilitar a inclusão de AcD. Em frente ao grande desafio de inclusão de AcD nas aulas regulares de educação física se faz necessário a utilização da TA, sendo uma possibilidade e estratégia o lúdico. Observou-se, por outro lado, que devido ao desconhecimento docente do termo TA ou da utilização dela criam-se impossibilidades. Verificou-se ainda que a dificuldade por parte dos docentes não está somente no uso da TA mas ainda na questão da inclusão de alunos com deficiências em suas aulas. Por outro lado, percebeu-se que há professores que utilizam a TA sem saber mesmo o seu nome, e que há ainda aqueles que buscam utilizá-la. Diante dos fatos pondera-se ser necessário que universidades e docentes invistam em formações durante a graduação e continuadas para que de fato aconteça inclusão de AcD e que o uso da TA e seu conhecimento se façam cada vez mais comum nas aulas de educação física escolar.
REFERÊNCIAS
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BERSCH, R.Recursos Pedagógicos Acessíveis. Tecnologia Assistiva (TA) e Processo de Avaliação nas escolas. Porto Alegre, 2013. Disponível em:< https://www.assistiva.com.br/Recursos_Ped_Acessiveis_Avaliacao_ABR2013.pdf>. Acesso em:15/032023.
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FERREIRA, Natasha Reis; RANIERI, Leandro Penna. O uso da tecnologia assistiva por professores de educação física. Revista Eletrônica de Educação, v. 10, n.3, p. 215-229, 2016. Disponível em: http://www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/view/1593/523. Acesso em 15/03/2023.
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FIORINI, Maria Luiza Salzani; MANZINI, Eduardo José. Inclusão de alunos com deficiência na aula de educação física: identificando dificuldades, ações e conteúdos para prover a formação do professor. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 20, n.3, Marília, jul/set. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-65382014000300006&script=sci_arttext. Acesso em 15/03/2023.
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RIBEIRO, Raimundo Nonato Costa. O uso de tecnologias assistivas no ensino de pessoas com deficiência visual no curso técnico de informática na Escola Professor Raimundo Franco Teixeira/Senai/São Luís do Maranhão. Universidade Fernando Pessoa. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Porto, 2012. Disponível em: <https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/3327/1/DM_23662.pdf>. Acesso em: 15/03/2023.
ROCHA, Aila Narene Dahwache Criado; DELIBERATO, Débora. Tecnologia assistiva para a criança com paralisia cerebral na escola: identificação das necessidades. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 18, n. 1, p. 71-92, Marília, jan/mar. 2011, 2012. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rbee/v18n1/a06v18n1.pdf>. Acesso em:15/03/2023.
[1] Mestrando em Educação Física escolar (Unesp); pós-graduação lato sensu Esportes e Atividades Físicas Inclusivas para Pessoas com Deficiência (UFJF); Licenciatura Plena em Educação Física (Universidade Estácio de Sá). ORCID: 0000-0003-2791-4112. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/3519622288605735.
