Jardim de chuva: técnica compensatória de drenagem urbana em São Paulo/SP

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

BUENO, Letícia dos Santos [1], NASCIMENTO, Larissa Araújo do [2], VASQUES, Eltiza Rondino [3]

BUENO, Letícia dos Santos. NASCIMENTO, Larissa Araújo do. VASQUES, Eltiza Rondino. Jardim de chuva: técnica compensatória de drenagem urbana em São Paulo/SP. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 07, Ed. 03, Vol. 02, pp. 195-212. Março de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-ambiental/jardim-de-chuva

RESUMO

Os jardins de chuva são considerados técnicas compensatórias de manejo de águas pluviais, já que objetivam amortecer os problemas de drenagem das áreas urbanas, por meio do retorno da água para o ciclo hidrológico. O jardim de chuva utiliza a atividade biológica das plantas e dos micro-organismos para remover os poluentes das águas pluviais. Desta forma, contribuem para sua infiltração e retenção nos níveis freáticos em ambientes urbanos, amenizando impactos ocasionados pela impermeabilidade do solo nas cidades. Esta pesquisa norteia-se em responder como o jardim de chuva tem sido utilizado como técnica compensatória de manejo de águas pluviais na área urbana do município de São Paulo/SP. O trabalho objetiva apresentar jardins de chuva já implantados no município de São Paulo e propor um local na cidade para implantação deste método de biorretenção. Além disso, mostra como o jardim de chuva, pode contribuir para a diminuição das inundações que atingem a cidade em períodos chuvosos. Como método, empregou-se a pesquisa bibliográfica e documental e a abordagem qualitativa, devido à interpretação das informações adquiridas na bibliografia pesquisada. Este artigo também apresenta estudos primários, que incluem a apresentação de casos de jardins de chuva implantados na cidade de São Paulo. Neste município, jardins de chuva têm sido implementados em diversos bairros, nas regiões Norte, Sul, Leste, Oeste e Central, atingindo seus objetivos de controle da quantidade de água escoada e melhoria da qualidade das águas retidas. A proposta para implantação do jardim de chuva é na praça pública denominada Praça Salim Lahud, localizada no bairro da Vila Prudente. Os jardins de chuva são benéficos à população, devido à melhoria na qualidade do ambiente urbano que proporcionam para as cidades. Além disso, mostra-se como uma alternativa aplicável a diversas áreas, como quintais, calçadas, canteiros, praças e estacionamentos.

Palavras-chave: urbanização; drenagem pluvial; cidade sustentável; jardim de chuva.

INTRODUÇÃO

A cidade de São Paulo está localizada sobre um território com extenso volume hídrico, tanto nos níveis freáticos, quanto em áreas fluviais. Estima-se que há aproximadamente 200 cursos d’água na metrópole, entretanto, sua maioria está canalizada ou abaixo da pavimentação urbana. Os rios foram considerados barreiras para o avanço da modernização da cidade e a pavimentação provocou a impermeabilização do solo, acarretando grandes impactos negativos na infraestrutura e na drenagem urbana. Isto aumentou o escoamento superficial e diminuiu a infiltração pluvial no solo, resultando em diversas inundações durante os períodos chuvosos, afetando diretamente a população (ENTRE RIOS, 2009).

Nessa perspectiva, diante do grande número de casos de enchentes nos ambientes urbanos em períodos chuvosos, cabe avaliar a eficiência de aplicação do sistema de biorretenção (jardim de chuva) como técnica compensatória de drenagem urbana na cidade de São Paulo, seus benefícios e sua estrutura, bem como o processo para sua implementação pelos órgãos governamentais.

Esta pesquisa norteia-se em responder como o jardim de chuva tem sido utilizado como técnica compensatória de manejo de águas pluviais na área urbana do município de São Paulo/SP. O trabalho objetiva apresentar jardins de chuva já implantados no município de São Paulo e propor um local na cidade para implantação deste método de biorretenção. Além disso, mostra como o jardim de chuva, pode contribuir para a diminuição das inundações que atingem a cidade de São Paulo em períodos chuvosos.

Esse estudo foi realizado baseado na necessidade de se encontrar alternativas de drenagem urbana sustentáveis, a fim de minimizar os impactos negativos das inundações de forma prática, eficiente e com baixo custo de obra, execução e manutenção. Esta pesquisa justifica-se por abordar um problema que afeta os habitantes da cidade de São Paulo, diretamente prejudicados durante os períodos chuvosos, devido a retificação, canalização e ocupação inadequada das áreas de várzeas dos rios, assim como a impermeabilização e compactação do solo, que prejudica a infiltração das águas. Assim, é possível compreender, após esta análise, as vantagens da aplicação dos jardins de chuva na cidade de São Paulo.

DESENVOLVIMENTO

O jardim de chuva tem sido considerado uma das tendências para cidades sustentáveis, beneficiando não apenas o meio ambiente, como também os moradores, pois um ambiente ajardinado e bem cuidado traz qualidade de vida e harmonia para o local e para os habitantes (DOURADO et al., 2020). Para sua implantação, é necessário um ambiente público ou privado que possa ser convertido em um jardim, independentemente do tamanho (SOLUÇÕES PARA CIDADES, 2021).

O jardim de chuva é uma técnica que pode ser utilizada como medida compensatória de manejo de águas pluviais, já que objetiva amortecer os problemas de drenagem das áreas urbanas, por meio do retorno da água para o ciclo hidrológico (DOURADO et al., 2020).

O custo de obra e manutenção é consideravelmente baixo, comparado aos tradicionais sistemas de amortecimento de águas pluviais urbanas (DOURADO et al., 2020). Podem ser instalados em calçadas largas e rotatórias, desde que não prejudiquem o passeio do cidadão a pé ou de carro (SOLUÇÕES PARA CIDADES, 2021).

O público diretamente beneficiado com a implementação dessa técnica compensatória de drenagem urbana são os moradores e as empresas que estão estabelecidas em pontos críticos na cidade de São Paulo que sofrem diretamente com enchentes e alagamentos em períodos de chuvas torrenciais (OLIVEIRA et al., 2020).

REFERENCIAL TEÓRICO

URBANIZAÇÃO

A urbanização é o processo de transformação e evolução de um espaço rural para urbano de uma sociedade, ou território. Assim como, quando a população urbana de um determinado local cresce em número maior que a do campo, considera-se que está ocorrendo um processo de urbanização (PENA, 2021).

Com o aumento da urbanização, são mais evidentes problemas ambientais que anteriormente não existiam. No século XIX, constatou-se por estudos, que surgiram diversas doenças nas áreas urbanas, originárias das águas pluviais e servidas da cidade, que se misturavam na rua em períodos chuvosos. Após essa constatação a cidade passou a utilizar o princípio higienista (BAPTISTA et al., 2015), baseado na implementação de estruturas subterrâneas com o intuito de retirar da cidade a água pluvial, o mais rápido possível.

Drenagem urbana é o conjunto de medidas que tem como objetivo minimizar os riscos de inundação e alagamentos no ambiente urbano, a fim de diminuir os prejuízos causados por enchentes e possibilitar o desenvolvimento urbano de forma harmônica, articulada e sustentável. Trata-se do gerenciamento das águas das chuvas do meio urbano (VAZ, 2004).

URBANIZAÇÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO

A cidade de São Paulo está situada nas coordenadas 23°33’01” Sul e 46°38’02” Oeste, na porção sudeste do Estado de São Paulo (figura 1).

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a área total do município é de 1.521,11 km², sendo o nono maior do estado em extensão territorial (IBGE, 2022). A população estimada para o município em 2021 era de 12.396.372 pessoas e a densidade demográfica é de 7.398,26 habitantes/km² (IBGE, 2022).

Figura 1 – Localização de São Paulo no Estado de São Paulo

Localização de São Paulo no Estado de São Paulo
Fonte: IBGE, 2022

O desenvolvimento de São Paulo foi majoritariamente irregular, não ocorrendo projeto de desenvolvimento urbano da cidade, que cresceu conforme a necessidade populacional e as demandas comercial, empresarial e industrial. No início da urbanização o conhecimento ambiental em legislações voltadas para a ocupação irregular era baixo; dessa forma os terrenos próximos a cursos d’águas, áreas de córregos e várzeas começaram a ser habitados, áreas estas onde ocorria o transbordamento natural dos rios em períodos chuvosos, gerando alagamentos e prejuízos para habitantes das áreas mais baixas da cidade (ENTRE RIOS, 2009).

Áreas de preservação permanente de cursos d’água, nascentes e várzeas do município de São Paulo foram ocupadas ao longo de décadas, devido ao crescimento populacional e à demanda habitacional (ENTRE RIOS, 2009). A reversão desta situação, porém, é inviável devido ao alto custo aos cofres públicos, resultantes, por exemplo, do remanejamento da infraestrutura de construções locais para áreas distantes dos rios, da alteração das rotas de trânsito, do reflorestamento das margens e da manutenção de fiscalizações para garantir a preservação da área. Desta forma, é imprescindível a busca por alternativas para conter as águas das chuvas e minimizar os impactos negativos das inundações.

OS RESERVATÓRIOS DE RETENÇÃO DE CHEIAS

Discussões constantes nas décadas de 1980 e 1990 levaram à construção, em 1994, do primeiro projeto de reservatório de retenção de águas pluviais, concebido pelo engenheiro Aluísio Canholi, localizado em frente ao estádio do Pacaembu, o piscinão do Pacaembu. Em termos hidrológicos, os resultados foram positivos e representou, assim, uma mudança de paradigma na drenagem urbana de São Paulo. A partir daí, vários outros piscinões foram construídos e estas estruturas tornaram-se a principal alternativa para minimizar as inundações da cidade (CANHOLI, 2014).

Entre 1998 e 2002, o governador Paulo Maluf juntamente com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) realizou o Plano Diretor de Macrodrenagem da bacia do Alto Tietê e definiu onde seriam necessários novos piscinões para conter as cheias da cidade (CANHOLI, 2014).

Assim, após as primeiras obras dos reservatórios de retenção de águas pluviais serem concluídas e estarem em funcionamento, acreditou-se que o problema das inundações e alagamentos estava resolvido. Entretanto, o que não levaram em consideração, foi se os sistemas de retenção continuariam sendo eficazes para a cidade pelos próximos períodos, devido ao aumento constante da impermeabilização do solo e, consequente, escoamento superficial, que poderia sobrecarregar a estrutura.

Com o tempo, muitos reservatórios de retenção foram construídos, e, em novembro de 2019, contabilizava-se 27 piscinões na cidade (AMBROSIO, 2019).

A instalação de um reservatório de retenção depende de vários fatores, dentre eles: planejamento de custo aprovado pelo município; tempo de construção, maquinário de escavação e demanda de mão de obra; densidade populacional; mapa de instalações de saneamento básico e sistema de energia elétrica; contratação de equipe técnica e empresa por licitação; manutenção periódica. (DE LUCCIA, 2018)

Para esse tipo de estrutura, deve ser realizada análise geográfica do local onde irá ocorrer a construção, visando verificar os impactos ambientais decorrentes da construção. Devem ser avaliados, declividade, manejo do solo, erosão, espaço utilizado e proximidade de algum curso d’água que possua tendência a transbordamento. O tempo de obra pode variar de acordo com a dimensão do reservatório, sua localidade e previsão climática (DE LUCCIA, 2018).

O reservatório de contenção realiza a captação da água quando ocorre inundação. A correnteza pode carregar detritos e resíduos sólidos, que, dependendo da intensidade da chuva, pode ser direcionada para o interior dos reservatórios de amortecimento. Com isso, o projeto do piscinão deve trazer defesas para as estruturas de captação e para as possíveis bombas hidráulicas utilizadas no escoamento de saída do reservatório. Também devem ser previstos acessos para manutenção, possibilitando a passagem, no reservatório, de caminhões e equipamentos de grande porte (NAKAMURA, 2022). A manutenção destas estruturas é importantíssima para mantê-las limpas e minimizar possíveis impactos sanitários, como mau odor e presença de animais portadores de doenças.

JARDINS DE CHUVA

Nos últimos 70 anos, a história mostrou a evolução de três visões na área de drenagem. A visão higienista, existente entre as décadas de 1940 a 1970, buscava remover rapidamente as águas acumuladas nas vias e fundos de vale. Assim, os problemas das enchentes dos cursos d’água eram transferidos para as áreas situadas mais abaixo dos pontos de alagamento. A visão corretiva persistente ao longo de 1970 a 1990, atuava no controle das enchentes urbanas a partir da detenção e amortecimento de cheias e das medidas estruturais focadas na implantação de sistemas de micro e macrodrenagem, reservatórios, diques e barragens. A partir do século XXI, a visão sustentável traz a ideia do manejo das águas das chuvas, privilegiando ações de planejamento do uso e ocupação do solo e a incorporação dos mecanismos naturais de escoamento e infiltração das águas e melhorias da qualidade das águas e a devolução da rede hídrica à cidade (BRASIL, 2013).

Sendo assim, na atual visão sustentável, as soluções mais viáveis são as que levam a cidade a se adaptarem a novos hábitos e adotarem projetos sustentáveis para o escoamento das águas com menor impacto social e ambiental. Como, por exemplo, os jardins de chuva.

Os jardins de chuva, conhecidos como técnicas compensatórias em drenagem urbana, visam preservar os mecanismos naturais de escoamento, diminuindo os focos de enchente e aumentando o controle de escoamento, mitigando os impactos ambientais negativos. O jardim de chuva (rain garden), método criado por Zephaniah Phiri Maseko, utiliza a atividade biológica das plantas e dos micro-organismos para remover os poluentes das águas pluviais. Assim, contribuem para a infiltração e retenção nos níveis freáticos e recursos hídricos em ambientes urbanos, amenizando impactos ocasionados pela impermeabilidade do solo na cidade (SOLUÇÕES PARA CIDADES, 2021).

Adotado, atualmente, no espaço urbano por paisagistas e ambientalistas, a técnica foi iniciada em São Paulo por Nik Sabey, no bairro da Vila Madalena, em 2016 (INFANTE, 2021).

Melo et al. (2014) citam em seu trabalho os autores Li e Zhao, que consideram que, tendo em vista que o jardim de chuva é uma estrutura hidrológica funcional, de baixo investimento e manutenção simplificada, foi considerada uma ótima alternativa para o ambiente urbano.

Em geral, estas estruturas são instaladas em áreas escavadas e rasas depressões de terra, que são preenchidas com material granular de alta permeabilidade e material orgânico e projetadas para captar, reter, retardar e minimizar ou evitar os impactos advindos do escoamento superficial. Os fluxos de água concentram-se nas depressões do solo, formando pequenas poças e, gradativamente, a água é infiltrada. Por meio deste sistema ocorre o processo de infiltração, retenção e adsorção, reduzindo o volume escoado e preservando as águas subterrâneas. Com isto, obtém-se diversos benefícios ambientais, ecológicos, paisagísticos e econômicos (MELO et al., 2014).

Os poluentes oriundos da água pluvial são removidos por adsorção, filtração, volatilização, troca de íons e decomposição. A água limpa pode ser infiltrada no terreno para reabastecimento do aquífero ou recolhida em um dreno e descarregada no sistema de microdrenagem. Em períodos de chuvas torrenciais, quando pode ocorrer a excedência da capacidade de absorção para a qual a estrutura foi projetada, o fluxo ultrapassado é desviado da área e encaminhado diretamente para o sistema de drenagem convencional (MELO et al., 2014).

Os critérios para projetos do jardim de chuva devem ser específicos para cada lugar de implementação e é imprescindível priorizar o estudo do solo e sua permeabilidade. Também se deve considerar as variações de nível da água subterrânea, que pode ser uma limitação quando muito próximo da superfície do solo (MELO et al., 2014).

Em um sistema de biorretenção como o jardim de chuva, devem ser consideradas duas questões: a primeira é o controle da quantidade de água escoada, por meio das suas depressões e cotas mais baixas, visando facilitar a captação e retenção da água; em segundo lugar, a melhoria da qualidade das águas retidas, por meio da remoção de poluentes e a associação de nutrientes advindos do escoamento superficial (MELO et al., 2014).

O jardim de chuva é uma estrutura adaptável, sendo possível sua aplicação em diversos lugares, como ruas largas com baixo tráfego de veículos, ruas próximas a locais em que se deseja diminuir a velocidade dos veículos (como escolas, hospitais e bairros residenciais), calçadas largas (trechos livres de hidrantes e garagens), pátios e estacionamentos, dentro de lotes próprios, sejam estes comerciais, residenciais ou públicos.

Melo (2011) apresenta em seu trabalho, a estrutura do jardim de chuva proposta por Dunnett e Clayden. Os autores comentam que o ideal é que seja composta por seis camadas. De baixo para cima, a primeira camada é de armazenamento e recarga, onde ocorre a infiltração da água. Neste local, a água infiltrada pode ter três finalidades: armazenamento, recarga subterrânea e sistema combinado. O armazenamento é realizado por meio de um dreno, ligado diretamente a um reservatório externo ao jardim, no qual a água pode ser reutilizada. Os drenos auxiliam no escoamento e secagem da água do sistema, evitando a sobrecarga de armazenamento dentro do sistema de drenagem tradicional. No caso da recarga subterrânea, ocorre diretamente após o processo de infiltração e redistribuição da água na estrutura interna do jardim, com o intuito de alimentar o aquífero e o fluxo de base. E o sistema combinado, é a junção entre o armazenamento e a recarga, que visa estimular tanto a preservação das águas, quanto o abastecimento subterrâneo.

A segunda camada, intitulada de transferência, consiste em uma formação por brita ou cascalhos, onde a água é temporariamente acumulada antes de ser destinada ao armazenamento ou reabastecimento do nível freático. Na terceira camada, denominada filtrante, realiza-se a aplicação de geomembrana ou geotêxtil, destinada à retenção de finos carreados com as águas infiltradas do sistema. A quarta camada, drenante, é formada na maior parte por areia, visando a infiltração e redistribuição da água no solo. A quinta camada nomeada de adubação, é onde se concentram todos os nutrientes que darão suporte à cobertura vegetal utilizada. A última camada é formada pela cobertura vegetal do jardim, que podem ser plantas rasteiras, arbustivas e, principalmente, espécies nativas, por se adaptarem melhor a região onde o jardim de chuva será instalado (MELO, 2011).

A mistura do solo e a profundidade devem considerar a capacidade para suportar e sustentar a vegetação selecionada, para infiltrar as águas retidas na superfície e para remover os poluentes existentes. As plantas, além de favorecer a estética e ecologia do local, melhoram a estrutura do solo e potencializam a capacidade de infiltração (MELO, 2011).

O desempenho do jardim de chuva depende do crescimento das plantas para uma maior eficiência e capacidade de absorção e retenção da água pluvial. Cada tipo de solo tem uma capacidade e velocidade para retenção de água. Isto também deve ser um fator analisado antes da implementação do jardim de chuva no local. Além do solo, outro ponto importante a ser observado para implementação dos jardins de chuva é a declividade do terreno: não é recomendada aplicação do sistema de biorretenção em áreas com declividade elevada, pois o objetivo principal dessa técnica, é de retenção e absorção da água, que pode não ocorrer como o desejado nessa situação (MELO, 2011).

Por se tratar de uma estrutura de jardim, Gonzaga et al. (2018) comentam, em seu estudo, que é necessária uma manutenção frequente, que garanta a total funcionalidade do jardim de chuva. Os autores também relatam que, por meio do sistema solo-planta-atmosfera e dos processos de infiltração, retenção e adsorção, ocorre a purificação e absorção das águas pluviais de pequenas áreas. Isto reduz o volume escoado e protege as águas subterrâneas.

A implementação do jardim de chuva em espaços públicos necessita de licença ambiental. Quando ocorrer a instalação na via, é necessária a autorização do órgão responsável pela administração do tráfego para interdição. Em instalações no calçamento, faz-se obrigatória a autorização do proprietário do lote e da Prefeitura. O projeto precisa estar de acordo com o mapa de instalações subterrâneas da região, levando em consideração a localização das redes de água, esgoto, luz e telefone (SOLUÇÕES PARA CIDADES, 2021).

METODOLOGIA

De acordo com Marconi; Lakatos (2007), pesquisa é um procedimento para investigação de fenômenos e ampliação do conhecimento sobre determinado assunto. Neste sentido, fica claro que com a pesquisa é possível investigar novas realidades em busca de conhecimento.

No contexto deste trabalho, que contém a finalidade de ampliar uma área do conhecimento, esta pesquisa se enquadra na investigação. Pois, na visão de Marconi; Lakatos (2003, p. 160) a investigação pura e aplicada “estuda um problema relativo ao conhecimento científico ou à sua aplicabilidade”.

Como descrito por Gil (2008), pesquisa exploratória tem como uma das suas bases as fontes literárias, sendo necessária uma busca aprofundada por conteúdos relevantes dentro de um tema. Além disso, a forma de abordagem qualitativa tem como base a interpretação das informações pelo pesquisador. Assim, é de particular importância a abordagem qualitativa, pois leva de forma adequada o conhecimento adquirido pelo pesquisador durante o estudo do tema abordado (GIL, 2008).

Este artigo foi elaborado com base em uma pesquisa exploratória, devido ao envolvimento investigativo profundo em literatura e outras fontes.

A base usada para a pesquisa foi livros, sites, artigos científicos e estudo de caso para complementar a ideia central. Como método, empregou-se a pesquisa bibliográfica e documental. Foram utilizados documentos na língua portuguesa, que abordassem a temática em questão. Complementarmente, foi realizada a abordagem qualitativa, devido à interpretação das informações adquiridas na bibliografia pesquisada.

Este artigo também apresenta estudos primários, que incluem a apresentação de casos de jardins de chuva implantados na cidade de São Paulo e uma proposta adicional de implementação de jardim de chuva, num bairro do município.

RESULTADOS

Colocando em prática todos os dados levantados, juntamente com as informações necessárias para a aplicação de um jardim de chuva, propõe-se, de forma simples, um local no município de São Paulo para implantação deste sistema de biorretenção.

Foi escolhido o bairro Vila Prudente, onde está localizado o Piscinão Guamiranga, um sistema de amortecimento de águas pluviais tradicional.

Por meio do site Geosampa (SÃO PAULO, 2017), foi possível identificar que este piscinão está localizado a aproximadamente 300 metros de distância do metrô Tamanduateí e 1 km do Terminal e Metrô Vila Prudente. A altitude destes três locais varia entre 730 metros e 740 metros e os cursos d’água que abastecem a região são o Rio Tamanduateí, o Córrego da Mooca e o Córrego Vacas (figura 2). Os mapas de gás e energia local foram analisados e mostraram a possibilidade de instalação do jardim de chuva.

A proposta para implantação do jardim de chuva é na praça pública denominada Praça Salim Lahud, localizada à Rua Pindamonhangaba com a Rua Limeira (figura 3). Assim, não seriam necessários gastos com remoção de pavimento. Para analisar a infiltração do solo existente, é preciso coletar amostras do solo para análise do tipo e tempo de infiltração. A proposta para implantação do jardim de chuva é na praça pública denominada Praça Salim Lahud, localizada à Rua Pindamonhangaba com a Rua Limeira (figura 3). Assim, não seriam necessários gastos com remoção de pavimento. Para analisar a infiltração do solo existente, é preciso coletar amostras do solo para análise do tipo e tempo de infiltração.

Figura 2: Localização do Piscinão Guamiranga

Localização do Piscinão Guamiranga
Fonte: Adaptado de São Paulo, 2017.

Figura 3 – Localização da Praça Salim Lahud

Localização da Praça Salim Lahud
Fonte: Adaptado de São Paulo, 2017.

Na cidade de São Paulo, jardins de chuva têm sido implementados em diversos pontos, atingindo seus objetivos de controle da quantidade de água escoada e melhoria da qualidade das águas retidas.

Em março de 2021, a Prefeitura de São Paulo contabilizava 123 áreas entre as regiões da Sé, Santana/Tucuruvi, Penha, Capela do Socorro, Vila Mariana, Lapa, Pinheiros, Butantã e Ipiranga. A região da Sé soma 49 jardins de chuva, todos implantados a partir de 2019. Em Santana/Tucuruvi, há 22 unidades. A zona sul da cidade ainda abriga 31 locais que acolhem os jardins de chuva, além de mais 11, na região da Capela do Socorro. Na Lapa, foram implantados três jardins de chuva e, em Pinheiros, cinco unidades. A Subprefeitura Butantã tem um jardim e no Ipiranga, a subprefeitura local mantém uma área verde de 452,16 m², desde fevereiro de 2020 (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO, 2021).

As fotografias 1 a 6 mostram jardins de chuva implantados em São Paulo.

Fotografia 1: Jardim de chuva localizado no encontro da Rua Teixeira Leite com a Rua do Lavapés (região central).

Jardim de chuva localizado no encontro da Rua Teixeira Leite com a Rua do Lavapés (região central)
Fonte: Dos próprios autores.

Fotografia 2: Jardim de chuva em rotatória na rua Teodureto Souto (região sul).

Jardim de chuva em rotatória na rua Teodureto Souto (região sul)
Fonte: Dos próprios autores.

Fotografia 3: Jardim de chuva na Praça Arquimedes Silva – Vila Mariana (região sul).

Fonte: Dos próprios autores.

Fotografia 4: Jardim de chuva no cruzamento da Avenida Pedra Azul com a rua Muniz de Souza (região sul), instalados em meados de julho de 2021.

Jardim de chuva no cruzamento da Avenida Pedra Azul com a rua Muniz de Souza (região sul), instalados em meados de julho de 2021
Fonte: Dos próprios autores.

Fotografia 5: Jardim de chuva na Avenida 23 de maio (região central).

Jardim de chuva na Avenida 23 de maio (região central)
Fonte: Dos próprios autores.

Fotografia 6: Jardim de chuva em rotatória na rua Teodureto Souto (região sul).

Jardim de chuva em rotatória na rua Teodureto Souto (região sul) - 1
Fonte: Dos próprios autores.

A implantação destas estruturas de biorretenção continuam sendo implementadas continuamente no município como medida mitigatória para os impactos ambientais negativos causados pela urbanização. Isto demonstra que o jardim de chuva tem sido considerado uma opção viável pela gestão pública e uma técnica efetiva para minimização dos efeitos das inundações em São Paulo. Além disso, funciona como um meio de melhoria da paisagem local, atração de fauna e polinizadores e como auxílio na preservação dos níveis freáticos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A mudança no escoamento superficial das águas pluviais da cidade de São Paulo levou à necessidade de se encontrar técnicas de drenagem urbana alternativas e sustentáveis, com o objetivo de minimizar os impactos ambientais negativos causados pela urbanização.

Diante disso, respondendo a questão norteadora, esta pesquisa mostrou que o jardim de chuva tem sido utilizado como técnica compensatória de manejo de águas pluviais na área urbana do município de São Paulo e pode contribuir na diminuição das enchentes que atingem a cidade em períodos chuvosos. Isto foi claramente demonstrado nos casos apresentados nesta pesquisa.

Diante disso, conclui-se que a implementação de jardins de chuva possibilita a transformação do espaço urbano, pois colabora com o aumento da permeabilização do solo e melhora a eficiência da drenagem urbana. Ao mesmo tempo, auxilia na diminuição da sobrecarga do sistema de amortecimento da cidade, que funciona com melhor desempenho.

A aceitabilidade dos jardins de chuva pela população é positiva, devido aos benefícios estéticos e de melhoria na qualidade do ambiente urbano que proporcionam para as cidades. Além disso, mostra-se como uma alternativa aplicável a diversas áreas, como quintais, calçadas, canteiros, praças e estacionamentos.

REFERÊNCIAS

AMBROSIO, A. Perto da temporada de chuvas, piscinões de SP ainda têm problemas. Folha de São Paulo, São Paulo, 18 de novembro de 2019. Disponível em: https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2019/11/perto-da-temporada-de-chuvas-piscinoes-de-sp-ainda-tem-problemas.shtml. Acesso em: 6 jan 2022.

BAPTISTA, M; NASCIMENTO N.; BARRAUD, S Técnicas compensatórias em drenagem urbana. 2 ed. Porto Alegre: ABRH, 2015. 266 p.

BRASIL. Ministério das Cidades. Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental. Rede Nacional de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental (ReCESA). Planos municipais de saneamento básico. Org. Juliano Rodrigues Gimenez, Vania Elisabete Schneider e Sérgio Faoro Tieppo. Anexo – Módulo 4. Brasília, 2013. 366 p.

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DE LUCCIA, O. P de B. Projeto de arquitetura de infraestruturas urbanas fluviais do rio Tamanduateí. 2018. Dissertação (Mestrado em Ciências). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16138/tde-12122018-104536/publico/MEOLIVERPAESDEBARROSDELUCCIA_rev.pdf . Acesso em: 10 jan 2022.

DOURADO, L. S.; SILVA, M. A. ; MENDES, S. R. S. Jardim de chuva como técnica compensatória: Um estudo no munícipio de Goiânia. Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2020. Disponível em: https://repositorio.pucgoias.edu.br/jspui/bitstream/123456789/867/1/TCC%202%20Marcela%20e%20Luana%20-%20PRONTO.pdf  . Acesso em: 30 jan 2022.

ENTRE RIOS. Direção: Caio Silva Ferraz. Produção: Joana Scarpelini. Vimeo.com. São Paulo, 2009. 25’16” Disponível em: https://vimeo.com/14770270 . Acesso em: 8 dez 2021.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

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INFANTE, MAISA. O que é jardim de chuva? VerdeSP. 2021. Disponível em: http://verdesp.com.br/o-que-e-jardim-de-chuva/ Acesso em: 30 dez 2021.

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[1] Técnica em Meio Ambiente (ETEC Getúlio Vargas); Técnica em Orientação Comunitária (ETEC Juscelino Kubitschek de Oliveira). ORCID: 0000-0002-0148-871X.

[2] Técnica em Meio Ambiente (ETEC Getúlio Vargas). ORCID: 0000-0002-2904-538X.

[3] Orientadora. Doutora em Ciências (USP), Mestre em Agronomia (USP), Pós-graduada em Gestão Ambiental (FGV), Engenheira Agrônoma e Geógrafa (USP). ORCID: 0000-0002-0113-8349.

Enviado: Janeiro, 2022.

Aprovado: Fevereiro, 2022

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