Memórias Narrativas e Discurso Identitário

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Memórias Narrativas e Discurso Identitário
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SILVA, Kathiely Balduino da [1]

SILVA, Kathiely Balduino da. Memórias Narrativas e Discurso Identitário. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 05. Ano 02, Vol. 01. pp 974-986, Julho de 2017. ISSN:2448-0959

Resumo

Esta pesquisa buscou analisar as memórias escolares de quatro alunos Surdos, a fim de ajudar a problematizar as práticas pedagógicas que historicamente tem ordenado as experiências destes sujeitos em relação á linguagem dos ouvintes. Nestas narrativas memorialísticas, percebemos que um projeto de normalização tem construído, na História da Educação dos Surdos as identidades surdas como deficitárias, problemáticas e inferiores, movimento este que ora leva alguns Surdos a posicionarem-se como menos capazes diante da língua dos ouvintes, ora leva os Surdos a lutarem na perspectiva afirmativa de uma cultura própria e singular. O enfoque ocorre através das memórias de si, de que maneira as experiências escolares subjetivaram os Surdos e os discursivizam diante de um projeto ouvinte-normativo, no intuito de contribuir para pensar a Língua de Sinais como uma conquista linguística que tem possibilitado às identidades surdas construir espaços de resistências e de lutas político- culturais.

Palavras-chave: Memórias, Discurso, Surdo, Linguagem e Identidade.

Introdução

Este trabalho tem como objetivo discutir a respeito das memórias narrativas do sujeito Surdo enfocando suas identidades que tem se constituído ao longo do tempo. Os contatos que tive, em minha cidade (Paranaguá), com quatro sujeitos Surdos suscitou o interesse para as possibilidades da análise da construção de suas identidades. Assim, desejo começar alertando aos nossos leitores sobre qual foi o aprendizado mais importante: o respeito não tem que ser nenhum esforço ou concessão, porque as diferenças estão sempre presentes, para nos lembrar que nossas experiências não são únicas, nem unânimes, nem muito menos as melhores. É claro que, no discurso social, nas relações de poder, a gente é levada a acreditar que uma experiência (a racional, a branca, a heterossexual, a masculina, a adulta, a ocidental e, é claro, a ouvinte) vale mais do que a outra (a louca, a homossexual, a feminina, a infantil, a oriental, a indígena, a cega e, é claro, a surda). É preciso se esforçar, ao menos tentar contar outra história diferente desta que se leva a acreditar. Por isso, houve disposição a realizar este trabalho. Deste modo, é importante que tenha se conhecimento dos significados construídos ao longo da História de ser surdo.

Sacks (1989) aponta que existe uma grande diferença entre o Surdo e o deficiente auditivo (D.A). O Surdo com letra maiúscula é o indivíduo que se identifica com a sua identidade e cultura, enquanto o surdo com letra minúscula ou deficiente auditivo refere-se aos olhares que nomeiam os sujeitos a partir da perspectiva ouvinte, tomando esta existência – a ouvinte –como certa e inquestionável.

O nascimento de uma perspectiva que passa a questionar a perspectiva ouvintista deu-se nas primeiras lutas políticas dos Surdos na sociedade, constituindo o reconhecimento destes como sujeitos da diferença e não da deficiência. Essa luta tornou-se referência para estudos voltados ao exercício do ser Surdo e os seus desafios na sociedade.

SKLIAR (1998, p15) afirma que o termo ouvintista são representações pela qual o Surdo é obrigado a se narrar e olhar para si como ouvinte. A palavra ouvinte é muito usada na comunidade Surda, para designar o indivíduo não surdo. Durante muito tempo o Surdo foi obrigado a se narrar como ouvinte, negando sua identidade e cultura. Os Surdos eram vistos como deficientes, doentes, um indivíduo que devia ser reabilitado.

Desta forma, foram colocadas em foco as memórias escolares narradas por sujeitos surdos, no intuito de que isto possa nos ajudar a problematizar os discursos que historicamente tem ordenado as experiências desses sujeitos em relação a sua linguagem. Esta pesquisa também pretende contribuir para pensar a Língua de Sinais como uma conquista linguística que tem possibilitado as identidades surdas construir espaços de resistências e de lutas político – culturais.

Identidades e Diferenças

Sabemos que as identidades se constroem pelo discurso e, por muito tempo o Surdo não pôde narrar a si mesmo, seus pensamentos, ideais entre outros, pois não se reconhecia dentro de uma identidade Surda, uma vez que sua língua, a Libras não era reconhecida e oficializada.

Para um indivíduo construir sua identidade é necessário que seu grupo cultural lhe dê subsídios, porém infelizmente a identidade cultural surda fora forçada a se desconstruir e a crer que a identidade cultural ouvinte fosse superior e inquestionável. Isto tudo constitui numa violência histórica, uma vez que, como coloca Strobel (2007)

“… a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo, a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas. ” (STROBEL, 2007, p.27

E Silva (1998) complementa:

“A identidade cultural ou social e o conjunto dessas características pelas quais os grupos sociais se definem como grupos: aquilo que eles são, entretanto e inseparável daquilo que eles não são, daquelas características que os fazem diferentes de outros grupos. ” (Silva, 1998, p.58).

E um dos meios de acesso a cultura surda é a comunidade surda, pois a partir do contado com o outro existirá a compreensão, a identificação em ser surdo, a interação através da Língua de Sinais, o compartilhamento de objetivos e ideias em comum. É bom ressaltar que na comunidade surda não há somente sujeitos surdos, mas amigos, famílias, interpretes, pessoas que os apoiam. Os sujeitos Surdos se sentem mais confiantes e orgulhosos de sua cultura quando estão inseridos na sua comunidade.

É esta aproximação com o outro Surdo que possibilitara o sujeito a se aceitar e se sentir inteirado no mundo social. Somente assim a sua identidade será construída como sujeito “diferente” e não “deficiente”.

Sabe-se que não existem culturas melhores ou piores, mais importantes ou menos, o que a sociedade necessita compreender é que há diferenças. Estas diferenças levam em consideração a cultura surda que possui uma Língua com sua gramática própria, visual, expressiva e que jamais será semelhante a Língua Portuguesa.

O sujeito Surdo sempre utiliza sua experiência visual, enquanto o ouvinte utiliza sua experiência auditiva, porém preconceitos e violências são estabelecidos quando esta diferença é silenciada.

O discurso da sociedade, até pouco tempo, determinou, sem nenhum questionamento, que o sujeito Surdo precisava narrar-se a partir da normalidade ouvinte e o fato de não conhecermos a cultura surda contribuiu para muito desrespeito e exclusão.

Mais ainda: por muito tempo ocorreu à insistência de fazer com que o Surdo falasse, pronunciasse som de palavras que, por inúmeras vezes, não fazia sentido para a sua cultura. A escrita do Surdo não pode se aproximar da escrita ouvinte por serem diferentes.

Ao se legitimar a experiência ouvinte como a experiência normal e, portanto, a verdadeira e válida, o que ocorreu e ocorre, muitas vezes, é que o ouvinte não consegue ver além de si mesmo, da sua cultura e, por este motivo, ignora o outro. Tenta-se, não raras vezes, levar o Surdo a conhecer a cultura ouvinte, sem que, ao menos, aprenda-se a LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais).

Memórias escolares dos surdos: Reflexões a partir de quatro histórias de vida escolar.

Pretende se analisar as marcas deixadas pelo discurso ouvintista na maneira como alguns surdos narram as suas experiências. São filhos de pais ouvintes que falam sobre as consequências destas marcas, a ausência da responsabilidade da escola sobre o seu aprendizado e os estereótipos encontrados em sala de aula.

Lembrando que o ouvintismo é um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o Surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte. (Skliar, 1998, p15)

Tentamos identificar, assim, a marca do sujeito “surdo” presente nos discursos, como isto é “narrado para si mesmo e para os outros”, pensando também as máscaras e disfarces percebidos no biculturalismo e bilinguismo.

Para poder discorrer sobre as memórias escolares, precisa-se primeiro mostrar a presença da heterogeneidade das identidades surdas. Baseando-se nas ideias de Gladis Perlin sobre identidades surdas:

Analisemos a narrativa do primeiro entrevistado (A1). Ele possui identidade surda hibrida, ou seja, é um surdo que nasceu ouvinte e que, com o tempo, tornou-se surdo. Este surdo compreende tanto o português como a Língua de Sinais. O que se percebe é que esta transição trouxe alguns traumas. Este sujeito, por várias vezes, demonstra a irritação por ter sido envergonhado em sala de aula, por causa de sua voz, mas mesmo assim prefere oralizar.

“Eu acho a Libras muito bom, mas prefiro oralizar porque minha família e os ouvintes não entendem, e minha mãe grita comigo. (A1)

O sujeito (A2) reconhece a identidade. Possui identidade política, ou seja, é marcado fortemente pela política surda:

“Há vários tipos de identidades surdas. Eu tenho a identidade política, porque luto pela inclusão e pelos direitos dos Surdos. ”

O sujeito (A3) também possui a identidade política. Reconhece que precisa da Libras e prefere a comunidade surda para se comunicar, apesar de saber oralizar:

“Não gosto que me chamem de deficiente auditivo, gosto que me chamem de surdo porque sei Libras (A3). ”

Este discurso sugere que o deficiente auditivo não sabe Libras, mas ele, como tem identidade surda, sabe Libras, reconhece seus direitos.

Sujeito (A4) possui identidade de transição. É o sujeito que viveu sem contato com a identidade surda e, no momento em que consegue contato com a comunidade surda a situação muda e passa pelo processo da rejeição da representação da identidade do ouvinte.

“Só com vinte anos que eu tive contato com outros surdos. Antes disso, minha mãe procurava surdos na cidade. Ela chorava muito e eu também sofria muito. ” (A4)

Ao relatar estas diferentes identidades, descobre-se que ao falar sobre “surdo”, não está se referindo somente ao sujeito branco de classe média que sabe oralizar, pois “surdo” pode ser negro, branco, índio, etc. E é um desrespeito dizer que os surdos são um grupo homogêneo.

Este grupo está subjugado pela sociedade, mesmo no discurso da inclusão. Isto ocorre principalmente nas escolas, em que se percebe que os surdos foram subjugados pela perspectiva ouvinte:

“Eu prefiro a escola ouvinte, porém é muito difícil o contato com o ouvinte através do oralismo. ” (A1)

“Antes dos doze anos, eu não conhecia Libras, eu só lia os lábios.” (A2)

“Com cinco anos eu entrei na escola CEDAP. Na segunda série, eu reprovei e mudei para escola do ouvinte. Reprovei novamente e fui transferido para o Cedap e passei. Fiquei no Cedap até a quarta série. ” (A3)

“Entrei na escola com vinte e dois anos. Fui aprendendo Libras aos poucos com um surdo chamado Valdir. Antes eu não sabia nada, não tinha estudo. ” (A4)

Foi possível perceber que o sujeito (A1), mesmo sabendo que o entrevistador sabia Libras, fazia os sinais e continuava oralizando. O sujeito (A2) só sinalizava, não havia marcas “ouvintistas”. O sujeito (A3) sinalizava e oralizava. O sujeito (A4) somente sinalizava e não contou porque não a escola antes dos vinte e dois anos.

Todos os quatro sujeitos passaram pelo o processo de oralização. Eles se depararam em determinado momento com o choque cultural, nos intrigando sobre a representação do ouvinte para estes e como isto afetou a identidade surda de cada um.

Ao analisar a narrativa do sujeito A1, pode se dizer que suas memórias escolares demonstram uma identidade cambiante, pois em determinado momento o sujeito afirma gostar mais dos ouvintes, mas em outros diz que é difícil oralizar e sabe que o interprete em sala de aula é um direito seu. Perceba o que o sujeito diz sobre a Libras:

“Eu acho Libras muito bom, mas prefeito oralizar… Eu acho Libras um pouco difícil, eu escolho oralizar porque Libras as pessoas não sabem e acabam gritando comigo. ” (A1)

É como se ele tivesse que se deparar com duas identidades ao mesmo tempo, a do ouvinte e a do surdo. E este processo de transição do ouvinte para o surdo trouxe algumas marcas como o preconceito:

“No início foi muito difícil, eu não entendia Libras, tinha preconceito com os Surdos e chorava muito. ” (A1)

Após conseguir de certa maneira se adaptar, este sujeito percebe que ao oralizar em sala de aula seus colegas de classe o compreendem. Então se esforça ao máximo para oralizar e ser entendido:

“Na 5°série, quando entrei na escola do ouvinte, eu tinha vergonha, também tinha medo de oralizar, mas quando falei foi normal, agora não tenho mais vergonha. ” (A1)

No começo do seu discurso, este sujeito diz que não tinha preconceito em ser surdo, mas tinha receio em encontrar dificuldades na sala de aula, e se sinalizasse para os seus colegas provavelmente ninguém entenderia. Este conflito faz com que a sua identidade surda fique cada vez mais sublimada e a identidade ouvinte predomine.

Já o sujeito A2 possui uma identidade surda mais assumida. Primeiramente, por ter nascido surdo, mesmo tendo descoberto Libras aos 12 anos. Uma de suas memórias escolares bastante peculiar foi o fato de que, somente em idade escolar, “descobriu-se” que ele era surdo em razão da desconfiança de uma professora:

“Foi só quando […] Uma professora chamou a minha mãe e disse para levar-me ao médico. Então, descobriram que eu era surdo. ” (A2)

Este sujeito teve que, tentar se narrar como um ouvinte, pois passou pelo momento em que a Língua de Sinais era proibida:

“No início aprendi somente alguns sinais, tudo tinha que ser oralizado. Eu também ia ao fonoaudiólogo para treinar. ” (A2)

Apesar de saber oralizar, somente se “encontrou” quando teve o primeiro contato com a Libras:

“Antes dos 12 anos eu não conhecia a Libras, conheci com esta idade. Antes disto eu só lia os lábios quando vi Libras pela primeira vez me encontrei. ” (A2)

A partir deste momento, o sujeito se identifica, ele fez o sinal de “sentir” ao explicar o momento quando encontrou a Libras pela primeira vez, porém não havia interprete:

“Quando tive que voltar ao colégio normal não tinha interprete para mim. Era muito difícil. Em Paranaguá, somente no ano de 2002 é que começou a ter interprete de Libras nas escolas. ” (A2)

Apesar de ter que oralizar a sua vida escolar inteira até o Ensino Médio, não teve motivos para desistir porque ele foi “treinado” a ler os lábios:

“Eu também ia ao fonoaudiólogo para treinar. ” (A2)

Percebe-se, nestas memórias, o quanto o saber chamado fonoaudiológico foi um saber construído sob a perspectiva da normalidade ouvinte, que, por muito tempo, considerou a experiência Surda como um “erro”, uma anormalidade e, neste sentido, o quanto a sua dimensão de correção e “treinamento” dos surdos para oralizar e/ou “ler os lábios” significou uma imposição violenta sobre a linguagem própria dos surdos. Quando perguntado sobre qual escola o sujeito A2 escolheria para frequentar, com toda firmeza responde:

“Entre escola de ouvinte e escola de Surdos, eu prefiro escola de Surdos, porque eu consigo ter mais contato, me comunicar e ser entendido, já com o ouvinte eu não consigo ter contato. Não combina! ” (A2)

Apesar de ele entender o que os outros falavam, não era entendido. E o próprio sujeito faz uma sugestão, a partir da subjetivação ouvintista que aprendeu a assimilar como importante:

“Eu recomendo a comunicação total, porque o Surdo precisa fazer Libras e oralizar. Libras é importante para se comunicar com os Surdos e oralizar é importante para ajudar o ouvinte a compreender Libras. ” (A2)

Outro discurso bastante relevante é sobre a utilização da Libras pelos ouvintes:

“O ouvinte faz português sinalizado, usa gramática do português na Libras, o Surdo só faz Libras. ” (A2)

Além de não ser entendido, o Surdo se depara com a Libras sendo utilizada erroneamente, e que por muitas vezes dificulta o seu desempenho em sala de aula. Este assunto leva ao que é possível denominar como disfarce das políticas públicas, em que o intérprete é a solução dos problemas, porém, o despreparo destes profissionais deixa de lado “o que o surdo não aprende” em sala de aula.

Como se pode aperfeiçoar estes profissionais se não há ninguém para averiguar a sua interpretação do português para Libras e vice-versa? E se em determinado momento houve falta de ética do intérprete? A voz em sala de aula acaba sendo do próprio intérprete, o Surdo aparece em segundo plano. Se ele não possui identidade política, vai se aquietar e aceitar a situação em sala de aula.

Este sujeito A2 conhece a história da comunidade de sua cidade, e foi também o primeiro instrutor e professor Surdo do município:

“Somente em 1990 que surgiu a comunidade Surda em Paranaguá, no CEDAP. Começou com um pequeno grupo de Surdos no colégio Estadual José Bonifácio. Eu me sinto muito feliz na comunidade Surda, ela é muito importante para mim. Eu não fico triste por ser surdo. ” (A2)

Ele acompanhou o desenvolvimento da comunidade surda e dos intérpretes. E quando perguntado a respeito das comunidades (surda e ouvinte), ele diz:

“Não acho a comunidade surda superior a comunidade ouvinte. São comunidades com culturas diferentes. ” (A2)

Para ele, não se pode comparar estas duas comunidades, pois compreende que são culturas diferentes, lembrando que ele é o único entrevistado que sabe a respeito da sua identidade:

“Há vários tipos de identidades surdas. Eu tenho identidade política porque luto pela inclusão e pelos direitos dos Surdos. ” (A2)

Ele também percebe que a comunidade surda não é homogênea, que cada Surdo tem sua própria identidade e dentre estas ele reconhece a sua. Um dos motivos para que o ouvinte não reconheça a identidade do Surdo é a seguinte:

“Acredito que os Surdos precisam divulgar a sua cultura para os ouvintes. Os ouvintes não entendem a cultura surda, acham que os Surdos são deficientes. ” (A2)

O fato do ouvinte não saber a respeito da cultura surda dificulta o contato entre ouvintes e os surdos. E o equívoco que surge é chamar o Surdo de deficiente auditivo, quando isto acontece o surdo se sente discriminado:

“Não gosto de ser chamado de deficiente auditivo. Gosto de ser chamado de Surdo”. (A2)

O sujeito A3 também nasceu surdo como o sujeito A2. E, ao longo de suas memórias escolares, relata o despreparo dos profissionais mediante a sua dificuldade na escola:

“Com cinco anos eu entrei na escola CEDAP. Na segunda série, eu reprovei e mudei para escola do ouvinte. Reprovei novamente e fui transferido para o Cedap e passei. Fiquei no Cedap até a quarta série. ” (A3)

Este sujeito reprovou duas vezes na mesma série, um na escola do ouvinte e outra na escola do surdo. O que se percebe não é o fato do sujeito ser surdo a causa de ele ter reprovado, mas a falta de preparo dos profissionais direcionados ao letramento dos Surdos.

Além desta dificuldade encontrada por ele logo cedo, também deveria haver um acompanhamento em relação à inclusão dos Surdos com a comunidade surda:

“Aprendi Libras com seis anos. Antes eu era muito quieto. Minha mãe batia palma para me chamar. Em casa eu oralizava pouco, mas na escola eu ficava quieto. ” (A3)

Quando o sujeito diz “quieto”, ele se refere tanto a Libras quanto a oralização. O mais adequado é que o Surdo aprenda Libras desde cedo, e não com seis anos, pois é necessário ter a sua própria experiência visual desde pequeno. E o fato de ainda não ter tido esta experiência dificulta a socialização.

Apesar de saber oralizar e saber Libras este sujeito prefere estudar na escola de Surdos:

“Eu acho Libras fácil, sou a favor da comunicação total, mas eu prefiro estudar na escola de Surdos, porque entendo mais os Surdos. ” (A3)

Apesar de saber da importância da Libras, se percebe no seu discurso o estereotipo que há na comunidade surda:

“Eu gosto da comunidade Surda, posso conversar, contar piada com os Surdos, só não posso contar segredo porque os Surdos são muito fofoqueiros. ” (A3)

Três dos quatro entrevistados disseram o mesmo discurso que o “Surdo é fofoqueiro”, não é um discurso que o ouvinte diz a respeito do Surdo, mas que o Surdo diz de si mesmo. Para eles, o ouvinte é menos fofoqueiro, mas isto pode trazer um impedimento da aceitação da identidade Surda e de motivação para idealizar a identidade ouvinte.

Quando questionado a respeito das comunidades o sujeito A3 diz:

“Não há superioridade entre a comunidade surda e ouvinte. Há um equilíbrio, porque como há surdo esperto e outros não, também há ouvintes espertos e outros não. ” (A3)

Mesmo o sujeito A3 percebendo que não há como comparar a comunidade e que tanto o que há na comunidade surda também pode haver na identidade ouvinte, para ele isto não se diz respeito ao sujeito fofoqueiro, que por sua vez, ele pensa que só se encontra na comunidade surda.

Isto sem contar os estereótipos ditos pelos ouvintes, de que o sujeito Surdo é incapaz de conseguir cargos altos como gerência no trabalho, ou ser um professor Surdo em sala de aula, ou ser um escritor Surdo. Estes estereótipos cada vez mais acompanham os Surdos e o subjugam a pensar que não podem almejar tais cargos.

Ao relatar sobre isto, nota-se que o ultimo sujeito a ser entrevistado A4, passou por este constrangimento de ser subjugado ao ponto de pensar em ser incapaz de aprender algo:

“Meu pai me levou para a igreja para me ensinarem a falar, mas eu não conseguia entender, não sei oralizar. ” (A4)

Este sujeito, quando perguntado como era antes de ter aprendido Libras, diz que não sabia nada e não tinha estudo. A falta da Libras o tornou em um sujeito que não conseguia aprender, não sabia falar e, por este motivo, não entendia e não era entendido. E a primeira escola com que ele teve contato foi o Cedap:

“Tive o primeiro contato com a escola no CEDAP. Quando fui para escola de ouvinte já tinha interprete, eu era o único Surdo na sala de aula. Mesmo estando na escola de ouvinte eu ia ao CEDAP para ter aula de reforço. O CEDAP me ajudou muito. ” (A4)

E neste tempo ele está concluindo o Ensino Médio no CEEBJA (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos). Por ter aprendido Libras tardiamente, precisou de reforço, mas saber Libras facilitou o seu aprendizado. Para quem antes nada sabia, hoje tem estudo e trabalha. Este sujeito por muito tempo foi tratado como incapaz por não saber falar:

“Só com 22 anos que eu tive contato com outros Surdos. Antes disso, minha mãe procurava Surdos na cidade. Ela chorava muito e eu também sofri muito. ” (A4)

A “dificuldade” deste sujeito, em sua narrativa, está em não saber oralizar e por ter aprendido Libras muito tarde. Isto faz com que ainda tenha dificuldade de ler em Português, mas ele não encontra esta dificuldade em aprender Libras, pois a usa fluentemente:

“Eu acho Libras fácil. A oralização entendo pouco. Estudei em escola de ouvintes e escola de Surdos. Não tive vergonha. Achei normal. Quando a pessoa não sabe Libras e quer conversar comigo, me sinto envergonhado porque não sei oralizar direito e se a pessoa escreve e um papel, muitas vezes eu não entendo. ” (A4)

Apesar de toda esta dificuldade, não foi impedimento para este sujeito voltar a estudar e se sentir capaz e a se ver como a sua identidade diz que ele é: um sujeito Surdo.

Conclusão

Este trabalho procurou contemplar, com um olhar voltado para o Surdo e suas identidades, o resgate dos seus valores na busca do ser Surdo. O estudo feito nasceu da ideia de como o Surdo é discursado no ambiente escolar e sobre como diante destes discursos, ele irá constituir a sua subjetividade.

Os Surdos são sujeito que, diante das suas lutas identitárias e das políticas afirmativas, estão reconfigurando seus direitos e deveres, e estão preparados para lutar pelas transformações necessárias.

Entretanto, a busca pela interação social passa por um processo de afirmação linguística (que inclui a luta contra o preconceito linguístico em relação a Libras) e esse é o processo fundamental para que haja troca de conhecimentos e experiências que vai acarretar em um maior respeito entre os membros da comunidade ouvinte e comunidade surda e, consequentemente, o respeito da sociedade em geral.

Entendemos que este enfoque é necessário para um melhor entendimento de como é ser surdo e para o reconhecimento de sua alteridade.

Referências

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FENEIS. A educação que nós surdos queremos.Disponível em: < http://www.feneis.org.br/arquivos/A%20EDUCAÇÃO%20QUE%20
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novmebro de 2016

FRANCO, Telma. Bulling contra surdos: a manifestação silenciosa da resiliencia.Curitiba:Appris,2014.216 p.

LONGMAN, V.Liliane.Memórias de surdos. Recife: Massangana,2007.168p.

PERLIN, G; Strobel, K.Fundamentos da educação de surdos.Florianópolis, 2006.

QUADROS, M.R; PERLIN,G. (org).Estudos Surdos II.Petrópolis, RJ:Arara azul, 2007.267p.

SKLIAR, Carlos.A educação e a pergunta pelos outros:diferença, alteridade, diversidade e os outros “outros”.Ponto de Vista, Florianópolis, n.05, p.37-49, 2003.

SKLIAR, Carlos.(org).A surdez: um olhar sobre as diferenças.Porto Alegre: Mediação, 2005 3°ed.192p.

[1] Formada em Letras Português-Inglês e Respectivas Literaturas. Especialista em Educação Bilíngue para Surdos. Interprete de Libras na sala de aula.

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