ARTIGO ORIGINAL
ROCHA JÚNIOR, Ivan Guilherme da [1], LOPES, Aldimara Ornelas Burock [2], NOGUEIRA, Elaine Guedes [3], SILVA, Lucinéia Almeida da [4], PEREIRA, Sergiana Maria da Silva [5], SILVA, José Geraldo Ferreira da [6], GUISSO, Luana Frigulha [7]
ROCHA JÚNIOR, Ivan Guilherme da et al. A importância de discutir o consumo sustentável nas escolas: buscando uma melhor relação entre o homem e a natureza. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 10, Edi. 08, Vol. 01. pp 77-94, Agosto de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/importancia-de-discutir, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/importancia-de-discutir
Desde o limiar da história, o homem sempre utilizou de bens e serviços para atender suas necessidades, mas tais necessidades foram tornando-se mais complexas, o que levou o homem a consumir mais produtos para satisfazer os seus interesses. O consumismo exagerado impactou diretamente a exploração dos recursos naturais e a afetação do ecossistema, e uma das tentativas de encontrar um equilíbrio entre o consumo e a manutenção do sistema ecologicamente equilibrado é estimular o consumo sustentável, o que demanda uma mudança de comportamento. Em vista disso, este trabalho aborda uma alternativa para contribuir com a mudança, partindo da premissa que a escola é um campo fértil para este debate. Nessa senda, o artigo trata da seguinte problemática: de que forma o consumo sustentável pode ser discutido nas escolas para melhorar a relação do homem com a natureza? Posta a problemática, o objetivo geral da pesquisa é de compreender como o consumo sustentável pode ser discutido dentro da educação ambiental no contexto escolar para minimizar o impacto ambiental. Orbitando o objetivo geral, destacam-se como objetivos específicos: (i) identificar os danos causados ao meio ambiente pelo consumo exagerado, (ii) abordar os conceitos de consumo sustentável e educação ambiental e (iii) discutir formas de inserir o debate do consumo sustentável no contexto escolar. Para cumprir a missão posta, a metodologia utilizada consiste em realizar o levantamento das informações a partir da análise bibliográfica de artigos, livros, monografias e dissertações, no qual se investiga, a partir do referencial teórico, o consumo exagerado, os danos ao meio ambiente, a educação ambiental e o consumo sustentável apresentado no ambiente escolar. O artigo apresenta a proposta de inserir no plano de ensino escolar o consumo sustentável, buscando uma melhor relação entre o homem e a natureza, de modo que se equalize a prática contemporânea do consumo e o respeito ao meio ambiente. Dessa forma, toda essa jornada acaba por reconhecer que a educação ambiental com foco no consumo sustentável pode e deve ser trabalhada de forma interdisciplinar dentro da escola, convocando os docentes a assumirem o papel de facilitadores da edificação de conhecimentos e saberes dos estudantes.
Palavras-chaves: Consumo sustentável, Meio ambiente, Escola.
Com o advento da Revolução Industrial, foram desenvolvidas várias técnicas para acelerar a produção e a modernização de bens de consumo, fato esse que acentuou ainda mais os problemas relacionados à preservação do meio ambiente e sua sustentabilidade. De acordo com Magera (2015), essa revolução desenvolveu a cultura capitalista, que, aliada ao crescimento e a evolução dos meios de comunicação, acelerou o consumo de produtos, além de torná-lo ainda mais eficaz. Corroborando com essa ideia, Vargas (2015, p. 3) destaca que:
Primeiramente era consumo de sobrevivência, colhendo, caçando, pescando, apenas aquilo que era necessário para a manutenção da vida. Com os avanços tecnológicos, a invenção da moeda como ordenação do mercado, a Revolução Industrial, o consumo foi se modificando até se tornar mandatário do crescimento econômico, sendo baseado em necessidades utópicas, na busca pela felicidade universal.
Na tentativa de conciliar o desejo da sociedade consumista com um ambiente ecologicamente equilibrado, o debate de implantar o consumo sustentável tem tomado força. A educação ambiental passa, portanto, pelo ideário do consumo sustentável que deve ser apresentado dentro do ambiente escolar, já que assim promove a transformação cultural desde a base da sociedade.
Nesse sentido, Segura (2001, p. 21) afirma que:
[…] a escola foi um dos primeiros espaços a absorver esse processo de “ambientalização” da sociedade, recebendo a sua cota de responsabilidade para melhorar a qualidade de vida da população, por meio de informação e conscientização.
A Lei N° 9.795, de 1999, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e introduz o ensino da educação ambiental dentro do contexto escolar. Logo no primeiro capítulo, a referida Lei trata a necessidade da existência da educação ambiental em todos os níveis e modalidades do processo educativo. Em seu Art. 2º, a lei dispõe que:
A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal (Brasil, 1999).
Para que esse tema seja trabalhado de forma plena, é necessário que os professores compreendam que a educação ambiental é uma temática interdisciplinar e estejam motivados e buscando sempre se atualizar e aperfeiçoar para ministrar suas aulas, pois:
Boa parte dos professores não está preparada nem capacitada para realizar projetos de Educação Ambiental. E mesmo que houvesse preparo um grande contingente de professores não tem interesse, nem didática ou conhecimento, para problematizar, junto com sua disciplina específica, as questões ambientais (Bernardes; Prieto, 2010, p. 6).
Sendo assim, a presente pesquisa busca demonstrar como o consumo sustentável pode ser discutido dentro do ambiente escolar, de maneira que propicie uma conscientização por parte dos educandos, bem como uma qualidade de vida satisfatória ao ser humano e à preservação do meio ambiente. E este artigo justifica-se em razão do fato de a escola ser um espaço de interação entre o homem, a sociedade e o meio ambiente, local em que coexistem diversidades sociais, econômicas e culturais, o que torna possível a discussão dessa nova postura de mudança de hábitos com os alunos e a com a comunidade em geral, de modo a evitar o desperdício e o consumo desenfreado que agride o planeta.
Em relação ao problema desta pesquisa, tem-se o seguinte questionamento: de que forma o consumo sustentável pode ser discutido nas escolas para melhorar a relação do homem com a natureza?
Para que se consiga verificar o problema citado acima, o objetivo geral que norteou esta pesquisa foi o de compreender como o consumo sustentável pode ser discutido dentro da educação ambiental no contexto escolar para minimizar o impacto ambiental.
A presente pesquisa adota uma metodologia qualitativa que, conforme Lüdke e André (2013), considera a multiplicidades de dimensões para um problema e traz possibilidades de explicação da realidade em relação ao fenômeno interpretado e compreendido. Para realizar o levantamento das informações, utilizou-se a análise bibliográfica de artigos, livros, monografias e dissertações obtidos em meio digital.
A sociedade contemporânea vive em um contexto globalizado e capitalista. O consumo, por sua vez, está diretamente interligado aos anseios de uma população crescente e ávida por adquirir bens e serviços cada vez mais novos e até mesmo supérfluos. Segundo Bernhardt (2015, online):
O ato de consumo em si não é um problema. O consumo é necessário à vida e à sobrevivência de toda e qualquer espécie. Para respirar precisamos consumir o ar; para nos mantermos hidratados, temos que consumir água; para crescermos e nos mantermos saudáveis, necessitamos de alimentos. O mesmo acontece com outras espécies que compartilham este planeta conosco. São atos naturais que sempre existiram e que precisamos para nos mantermos vivos. O problema é quando o consumo de bens e serviços acontece de forma exagerada, levando à exploração excessiva dos recursos naturais e interferindo no equilíbrio estabelecido do planeta.
Nesse sentido, ainda que o consumo seja vital ao homem, quando um ciclo consumista é instaurado, no qual o consumo estimula mais consumo, impulsionando o desenvolvimento industrial e econômico, a fim de atender a demanda existente da sociedade, surge a problemática: desequilíbrio do planeta e impacto ambiental.
A modernidade ocidental transformou a natureza num simples cenário no centro do qual reina o homem e se autodetermina dono e senhor. O que é certo é que, a partir do século XVII, o projeto moderno pretendeu construir uma supranatureza, à medida da nossa vontade e do nosso desejo de poder e de consumo. O homem passou a produzir bens numa escala muito mais superior do que o necessário para satisfazer o seu ciclo vital, sem perceber que para alcançar o seu objetivo era preciso transformar constantemente a natureza. E como consequência destes atos começou-se a viver no reinado do artifício, da máquina e da automatização (Bastos, 2006, p. 201).
Após a Revolução Industrial e Tecnológica, na sociedade capitalista e de consumo, a soberania do homem sobre a natureza, com o seu desejo de produção de bens, não duráveis, em muitos casos, superior ao que realmente necessita, gerou o consumo exagerado, que é uma das críticas e urgentes causas de desarmonia na relação homem-natureza, bem como do homem-homem. Consequentemente, há uma ruptura devastadora nesse relacionamento meio ambiente-ser humano, causando o desequilíbrio ambiental. Gonçalves (2021, online) afirma que:
A evolução humana com o aprimoramento das técnicas e da tecnologia proporcionaram mudanças na produção dos meios para a sua existência, gerando transformações na sociedade, na relação homem-natureza e homem-homem. A produção de bens de consumo à medida que aumentou, demandou maior exploração dos recursos naturais, desencadeando impacto ambiental e redefiniu o lugar do homem na natureza e na sociedade.
É inegável que o consumismo influencia a problemática ambiental, social e ética, concebida por meio da exploração da natureza e a quantidade enorme de lixo gerado por dia, em todos os lugares. Nessa lógica, Toscan e Toscan. (2020, p. 192) ressaltam a necessidade de:
[…] pensar em alternativas sustentáveis para reger essa orquestra desafinada que persiste em negação diante dos sintomas tangíveis do insucesso ao tentar promover satisfação humana por meio exclusivo do estímulo ao consumo.
E Bernhardt (2015, online) acrescenta, sabiamente, que:
Há uma pandemia mundial sem precedentes na história da humanidade e que aproveitou a globalização para se expandir e entranhar em quase todas as sociedades: o consumismo. São bilhões de pessoas que em algum momento perderam a racionalidade do ato de comprar e passaram a fazer deste o (des) caminho para a felicidade. Mas não é possível negar a natureza humana e somente seremos felizes quando alcançarmos alguns dos reais valores de nossa existência: amor, amizade, paz, serenidade, alegria de viver. A suposta felicidade trazida pela aquisição de bens é pueril, transitória e acaba por nos levar a um círculo vicioso sem fim de compra-felicidade-frustração-compra-felicidade-frustração.
Segundo Horn e Pereira (2009), o consumidor é persuadido por meio das mídias e propagandas a possuir aquilo que muitas vezes não têm condições de adquirir, é levado a acreditar que é livre e capaz de consumir tudo aquilo que é propagado, o tornando vulnerável ao meio no qual é inserido. E Moura (2018, p. 8) ressalta que:
Consumismo é uma sequência de desejos e anseios humanos, de modo permanente, para adquirir bens que excedem as necessidades de sobrevivência, comprando coisas de que não se necessita, sem ter dinheiro, apenas para impressionar os outros, buscando, com isto, um status aparente de poder.
Sendo assim, há uma urgente necessidade de equilibrar o planeta por meio do homem educado ambientalmente, agente construtor de sociedades sustentáveis e saudáveis. Pois, ao consumir algum produto, é preciso entender que o mesmo passa por um processo de produção em que é necessário retirar matérias primas da natureza, o que gera a emissão de gases poluentes, a degradação ambiental, o desmatamento, a escassez dos recursos hídricos, a poluição do ar e do solo, dentre tantos outros danos ambientais.
A Educação alavanca a construção de pensamentos e de pessoas, de atitudes e valores, de transformação social, permite o ser humano tornar-se humano em uma dimensão de socialização e aprendizado, apropriar-se da realidade que o cerca, sensibilizar-se com as complexas relações humanas e ambientais e movimentar-se, conscientemente, de forma cidadã e sustentável para a busca da qualidade de vida no meio em que vive, seja em âmbito local, regional, global, escolar, familiar ou pessoal.
A educação é uma dimensão indispensável do tornar-se humano. Por isso, sabendo ou não desse estatuto ontológico, em que o indivíduo só o é em sociedade, tanto se fala da educação como condição para qualquer transformação social. Contudo, enquanto um processo de socialização e aprendizado, é sempre oportuno lembrar que, ao mesmo tempo em que é indissociável dos movimentos transformadores, é igualmente elemento de reprodução das relações dominantes, uma vez que se realiza em sociedades determinadas e atende a certos fins quando é instituída (Loureiro, 2019, p. 21).
Carneiro e Dickmann (2012, p. 92) ressaltam, sob a contribuição paulofreiriana da Pedagogia da Autonomia, que a educação ambiental é integrada ao mundo humano e que os dois são interdependentes, ou seja, é impossível pensar no ser humano sem associá-lo à natureza que o insere, sem reproduzir relações corresponsáveis com a sociedade:
Há uma identidade entre a concepção de ser humano freiriana com os princípios constitutivos da Educação Ambiental, pois tal concepção só é inteligível integrada ao mundo onde vivem os humanos. Isso reafirma o princípio da indissociabilidade entre sociedade e natureza. Esta é uma das grandes contribuições freirianas, a pertença do ser humano ao mundo-natureza como unidade interdependente, superando uma visão dicotômica. Tal concepção possibilita uma educação voltada para a construção de um sentimento de pertencimento ao mundo e uma compreensão de mundo sistêmico-dinâmica, na qual está implicado o desenvolvimento de uma consciência ecológica, que não só identifica problemas, mas reflete sobre ações não-predatórias, ou seja, alternativas sustentáveis para o ambiente de vida como um todo.
As atitudes sustentáveis do homem são frutos da educação gerada por pensamentos e iniciativas sustentáveis, por ações conscientes, não prejudiciais e de pertencimento no mundo-natureza, gerando vida. A educação ambiental está além, então, dos seus enfoques biológicos e políticos, é uma realidade complexa que também envolve agentes químicos, físicos, naturais, sociais e culturais. É um processo contínuo e não genérico, por meio do qual, de acordo com a Política Nacional de Educação Ambiental, Lei nº 9795/1999, Art. 1º:
[…] o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (Brasil, 1999).
Por isso que a Proposta de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental, em seu Art. 2°, destaca que:
A Educação Ambiental é uma dimensão da educação, é atividade intencional da prática social, que deve imprimir ao desenvolvimento individual um caráter social em sua relação com a natureza e com os outros seres humanos, visando potencializar essa atividade humana com a finalidade de torná-la plena de prática social e de ética ambiental (Brasil, 2010).
Quando a atividade humana não se transfigura plena de corresponsabilidade e pertencimento da natureza, não está verdadeiramente educada ambientalmente. Consequentemente, impactos e tragédias ambientais e sociais são os resultados maléficos dessa ausência de consciência e sensibilidade, que é própria da escolha do ser humano. O meio ambiente torna-se vulnerável,
E mais do que isto, a situação trágica do ponto de vista da vulnerabilidade ambiental, nos encontramos mais próximos de batalhas, talvez não declaradas, do que da fluidez entre sociedade-natureza, razão pela qual tão pouco parece resultar da diplomacia de negociação da pilhagem. O intuito de modificar comportamentos e hábitos da população compõe-se de mecanismos de diálogo e de digladiar com práticas sociais adversas. A conflagração de ações para uma consistente oposição à degradação do ambiente e uma construção de iniciativas de Educação Ambiental pode revelar-se um campo efervescente e promissor. Para consolidar este horizonte, a realização e sistematização de pesquisas parece decorrer da importância de fundamentar experimentos em diferentes níveis. Estudar e sistematizar conhecimentos pode favorecer o comprometimento dos atingidos com as precauções e as soluções em face de um desastre socioambiental (Ruscheinsky; Treis, 2021, p. 207-208).
Um relevante exemplo disso é o consumo sustentável na sociedade contemporânea. A forma como o ser humano se comporta e seus hábitos de consumir os seus bens podem colaborar na preservação ambiental ou ocasionar um desastre socioambiental. Um consumidor sustentável tem sensibilidade sustentável, promove a vida do ambiente, diminui significativamente o impacto do consumo irresponsável, age ecologicamente correto, cumpre com os seus deveres de cidadania e exige os seus direitos de qualidade e bem-estar.
Para que o consumidor possa exercer este papel com plenitude, cabe verificar o respeito ao seu direito de ser suficientemente informado e esclarecido sobre as características e riscos dos produtos e serviços ofertados no mercado, inclusive sobre o modo adequado do descarte e dos respectivos resíduos. Da mesma forma, a opção consciente por produtos e serviços sustentáveis não pode representar ao consumidor, em si, um ônus. (Brasil, 2013, p. 5).
O manual de educação “Consumo sustentável”, elaborado pelo governo federal, alerta que a proposta de consumo sustentável é ampla e urgente, é uma meta a ser alcançada com responsabilidade e educação ambiental:
[…] pois além das inovações tecnológicas e das mudanças nas escolhas individuais de consumo, enfatiza ações coletivas e mudanças políticas, econômicas e institucionais para fazer com que os padrões e os níveis de consumo se tornem mais sustentáveis. Mais do que uma estratégia de ação a ser implementada pelos consumidores, consumo sustentável é uma meta a ser atingida. Para ficar mais claro, se é possível dizer “eu sou um consumidor verde”, ou “eu sou um consumidor consciente”, não teria sentido dizer “eu sou um consumidor sustentável” (Brasil, 2005, p. 19).
O papel da educação ambiental é imprescindível na sociedade. Quando aquela se encontra fortalecida, esta é saudável. O consumo de bens torna-se significativo e sustentável, visto que o cidadão se apropria do meio e do saber ambiental e o transforma com as suas ações.
Essa apropriação do ser humano gera transformação comportamental, todavia, a superação dos desafios de uma “sociedade de consumo” por uma “sociedade sustentável” é uma atitude permanente e consistente de forma coletiva e organizada, dimensional e impactante, é uma determinação do indivíduo educado ambientalmente que transcende o seu espaço de (con)vivência, é a educação que liberta, como afirma Paulo Freire (1996), que gera maturidade e transformação social, que produz harmonia entre o meio ambiente, a saúde humana e a sociedade.
Verificado os danos ambientais causados pelo consumo exagerado e irresponsável, bem como a necessidade desse consumo se tornar sustentável, chega-se ao debate de quais locais essa discussão deve ser travada. Nessa jornada, o ambiente escolar se apresenta como um promissor espaço para mudanças de comportamento, tendo em vista que a escolarização intensifica a progressão individual da pessoa, enquanto aprendiz, aluno pensante, ser sustentável, e sua relação educada com a natureza.
Como expressam Souza e Rosseti (2018, p. 16):
Compreende-se a urgente necessidade em sensibilizar e incentivar as crianças a agirem de forma atenta e colaborativa em relação a todo Meio Ambiente, sendo que atitudes apreendidas e desenvolvidas nessa idade são, consequentemente, apreendidas e continuadas no comportamento pelo resto da vida.
A escola é, portanto, um ambiente de fundamental importância para o debate do consumo sustentável, sendo esse o local da educação formal no qual a teoria ensinada pode ser apresentada com praticidade. O desenvolvimento de práticas sustentáveis para o ambiente escolar não deve apenas abordar a temática, mas também estimular iniciativas sustentáveis nos educandos, auxiliando em sua formação como cidadãos conscientes, pois essas atitudes potencializam a rotina escolar. Nesse sentido, Dias (2001, p. 82-83) descreve como deveria ser a educação ambiental:
Para o desenvolvimento da Educação Ambiental, foi recomendado que se considerassem todos os aspectos que compõem a questão ambiental, ou seja, os aspectos políticos, sociais, econômicos, científicos, tecnológicos, culturais, ecológicos e éticos; que a Educação Ambiental deveria ser o resultado de uma reorientação e articulação de diversas disciplinas e experiências educativas, que facilitassem a visão integrada do ambiente; que os indivíduos e a coletividade pudessem compreender a natureza complexa do ambiente e adquirir os conhecimentos, os valores, os comportamentos e as habilidades práticas para participar eficazmente da prevenção e solução dos problemas ambientais; […].
Atualmente, no cotidiano escolar, é perceptível que muitos educadores estão assumindo uma postura cada vez mais relevante na consolidação de ideias e de práticas que dão visibilidade ao processo de sensibilização do consumo sustentável, demonstrando que, através de práticas cotidianas simples, as relações humanas podem tornar o ambiente de vivência mais agradável. Como aponta Freire (1996, p. 7):
Conteúdos cuja compreensão, tão clara e tão lúcida quanto possível, deve ser elaborada na prática formadora. É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.
Assim, o desafio se mostra em repensar a disciplina no cotidiano escolar, tornando transparente as práticas desenvolvidas e constituindo autonomia, tal como aponta Currie (1998, p. 87):
O ser humano gosta de desafios, de um modo geral, e precisamos utilizar toda a criatividade à nossa disposição para tentar solucionar os problemas que estão ameaçando nosso meio ambiente.
Nesse contexto, é possível afirmar que a educação ambiental sustentável discutida no âmbito escolar necessita ser incorporada às instâncias de sua rotina, ser desenvolvida de forma contínua, permanente e sistemática. Ela precisa constituir novos comportamentos, ou seja, avançar além dos conteúdos e afirmar atitudes que vinculam a prática educativa, que priorizam a melhoria da qualidade de vida. Uma alternativa seria implementar nas escolas projetos e pesquisas cujos temas geradores sejam trabalhados de forma interdisciplinar. Ratificando esse conceito, Leff (2001, p. 218) destaca que:
O desenvolvimento de programas de Educação Ambiental e a conscientização de seus conteúdos depende deste complexo processo de emergência e constituição de um saber ambiental, capaz de ser incorporado às práticas docentes e como guia de projetos de pesquisa.
Como explica Gonçalves (2020, p. 47):
[…] a educação é um processo complexo e que seu sucesso não depende unicamente de uma pessoa, e/ou de um tipo de educação isolada, mas exige um conjunto de contribuições de todos os tipos de educação que compõem a formação humana.
Portanto, é imprescindível elencar propostas que possam aproximar as ações pedagógicas junto à comunidade escolar de maneira a contrariar o consumo excessivo de bens, mas favorecendo o desenvolvimento de suas potencialidades.
Há percepções de que educadores provocam mudanças em pensamentos e até ideias inovadoras. Daí a importância de a equipe pedagógica reformular o plano de ensino, inserindo em seu corpo a temática educação ambiental e consumo sustentável como componente a ser trabalhado. Contudo, esse assunto não deve ser ministrado para os alunos com base nas programações e currículos oficiais, é preciso que os educandos inovem, trabalhem com aulas mais dinâmicas e atrativas, pois, de acordo com Carvalho (2001, p. 46):
A Educação Ambiental nas escolas pode ser determinante para a amenização dos problemas que, há anos, vêm sendo causados ao meio ambiente pela ação do homem. As crianças representam as futuras gerações em formação e, como estão em fase de desenvolvimento cognitivo, supõe-se que nelas a consciência ambiental possa ser internalizada e traduzida de forma mais bem-sucedida do que nos adultos.
Além disso, a educação ambiental deve ser discutida de forma interdisciplinar durante todo o período letivo, e seu conteúdo deve ser incorporado ao currículo e alinhado com essa ideia. Torales (2013, p. 3) afirma que:
[…] um dos primeiros debates que surgiram, em relação à incorporação da Educação Ambiental nos currículos escolares, foi à forma e o modelo pelos quais esse processo se efetivaria […] destacando três fundamentalmente: o interdisciplinar, o multidisciplinar e o transversal.
Paralelamente a estas reflexões, é oportuno debater a necessidade de constantemente aprimorar a formação dos docentes a fim de promover entendimento. Uma forma de atualizar e enriquecer o conhecimento do professor é através da formação continuada, que deveria ocorrer de forma permanente, como afirmam Wengzynski e Tozetto (2012, p. 1):
A complexidade de fatores que permeiam a questão da formação continuada é bastante abrangente e está ligada ao desenvolvimento da escola, do ensino, do currículo e da profissão docente. Para além da aprendizagem da matéria a ser dada em sala de aula, a formação de professores traz consigo aspectos relevantes que constituem o ser professor.
Com o professor motivado e seguro dos conteúdos a serem trabalhados a respeito da educação ambiental e consumo sustentável, seu planejamento será mais efetivo, prático, lúdico, dinâmico e contextualizado, gerando proficiência e apreensão de conceitos que possam confirmar aprendizado e reflexões acerca da realidade vivenciada. Logo, os docentes se encontram comprometidos a exercer a função de serem os facilitadores da edificação de conhecimentos e saberes dos estudantes, orientando-os a interferir e promover de maneira diferenciada na comunidade local.
Com o objetivo de sensibilizar a comunidade escolar quanto à importância de se ter um consumo sustentável, o educador pode convidar os alunos a trazerem seus antigos brinquedos para compartilhar entre os colegas, a fim de desmontar e conferir que os mesmos ainda são interessantes. Pode, ainda, organizar a semana dos produtos naturais, em que apenas comidas sustentáveis sejam consumidas na escola, a fim de mostrar que produtos naturais podem ser saborosos e integrar de forma mais incisiva os cardápios de suas respectivas casas. Também pode planejar uma visita a locais de reciclagem, para mostrar a importância do processo de descarte do lixo e da possibilidade de ele ainda possuir valor, e apresentar documentários, tanto sobre barragens e florestas que sofreram desgastes como sobre outros locais que foram esfacelados e recuperados.
A educação ambiental com foco no consumo sustentável pode e deve ser trabalhada de forma interdisciplinar dentro da escola, pois possibilitará que os estudantes desenvolvam uma visão sistêmica do consumo consciente. Porém, para que se crie uma nova realidade, é preciso investir em educação e conscientização, e não há espaço para que essa mudança seja lenta, pois os atuais padrões de consumo estão muito acima do que o planeta Terra pode suportar.
Desta forma, a educação ambiental torna-se uma ferramenta que potencializa a consolidação da proposta almejada pelo desenvolvimento sustentável, pois, através dela, pode-se reconstruir a relação entre produção, consumo, sociedade e meio ambiente, visando a formulação de resposta aos desafios de uma crise socioambiental global.
Diante do exposto durante a confecção desta pesquisa, fica claro que, para que a educação ambiental seja trabalhada dentro do ambiente escolar, é preciso que o educador esteja motivado e comprometido com a ideia, além de possuir um amplo conhecimento da temática, que deve ser adquirido em sua formação inicial e através das formações continuadas.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o adequado planejamento curricular e a elaboração de um plano de ensino escolar eficaz e que aborde de maneira sistemática a educação ambiental e o consumo sustentável exercem um papel fundamental para que ocorra uma mudança de postura tanto para quem ensina quanto para quem estuda.
Com programas educacionais direcionados em todos os níveis de ensino, o consumo poderá voltar a cumprir sua função de suprir as necessidades do indivíduo sem alijar o meio ambiente, criando, assim, uma relação harmoniosa entre ser humano e a natureza. Mas, para isso, é necessário que as instituições de ensino não trabalhem apenas com informações e conceitos, e, sim, com metodologias diversas que possibilitem ao educando aprender de forma prática e prazerosa. Caso contrário, o estudo da educação ambiental será apenas uma transmissão de conhecimentos vazios que não levam o aluno a refletir sobre os problemas ambientais que afetam a comunidade em que está inserido.
Para tanto, é essencial planejar atividades dinâmicas que vão muito além da comemoração do dia da árvore, do dia do meio ambiente ou do simples ensinamento teórico. É preciso que a escola desenvolva projetos interdisciplinares no decorrer do ano letivo que promovam discussões, debates, palestras, teatros, documentários, uso de meios digitais, dentre tantos outros que estimulem a participação e conscientização dos alunos e, consequentemente, da comunidade escolar.
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[1] Especialista em Direito Constitucional. Graduado em Direito. ORCID 0000-0003-3889-6546.
[2] Especialista em Direito Constitucional. ORCID: 0000-0003-1640-1952.
[3] Especialista em Direito Constitucional. ORCID: 0000-0003-1650-6658.
[4] Especialista em Direito Constitucional. ORCID: 0000-0001-8340-0170.
[5] Especialista em Direito Constitucional. ORCID: 0000-0002-4496-2784.
[6] Orientador. Doutor. ORCID: 0000-0001-8478-4196.
[7] Orientadora. Doutora. ORCID: 0000-0002-9312-4680.
Material recebido: 29 de setembro de 2022.
Material aprovado pelos pares: 28 de outubro de 2022.
Material editado aprovado pelos autores: 24 de julho de 2025.
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