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Instrumentos para identificação de alunos com altas habilidades/superdotação no contexto escolar

RC: 125543
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/identificacao-de-alunos

CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

HEIMANN, Priscila Caroline [1], HENNEMANN, Ana Lúcia [2]

HEIMANN, Priscila Caroline. HENNEMANN, Ana Lúcia. Instrumentos para identificação de alunos com altas habilidades/superdotação no contexto escolar. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 08, Vol. 05, pp. 137-149. Agosto de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/identificacao-de-alunos, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/identificacao-de-alunos

RESUMO

Os indivíduos com Altas Habilidades/Superdotação, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial, demonstram um alto grau de potencialidade em alguns aspectos, isolados ou combinados, relacionados à capacidade intelectual, acadêmica, criativa, social, psicomotora e/ou talento especial. Tendo isso em vista, o presente artigo buscou investigar: quais instrumentos podem ser utilizados para identificar alunos com Altas Habilidades/Superdotação no contexto escolar? Dessa forma, teve-se como objetivo investigar os tipos de instrumentos avaliativos utilizados no contexto escolar para identificar os alunos com Altas Habilidades/Superdotação. Portanto, visando um aprofundamento do tema, realizou-se uma revisão de literatura sobre o mesmo e, com base nas análises dos artigos selecionados, foi possível observar que as intervenções se mostraram eficazes na identificação de alto grau de potencialidades em alunos, porém, para uma avaliação mais precisa, é necessário considerar mais de um componente, seja por meio da observação direta do comportamento, da avaliação do desempenho, das escalas de características, dos questionários ou das entrevistas ou conversas com o aluno ou com a família, pois sabe-se que nenhum teste avalia de forma efetiva todos os aspectos da inteligência.

Palavras-chave: Altas Habilidades, Superdotação, Instrumento de Avaliação, Alunos.

1. INTRODUÇÃO

Os estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) fazem parte do Público-Alvo da Educação Especial, junto daqueles que apresentam algum tipo de deficiência ou transtorno de desenvolvimento.

Nesse contexto, a Política Nacional de Educação Especial (PNEE), na Perspectiva da Educação Inclusiva, enfatiza que a pessoa com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) demonstra potencialidades isoladas ou combinadas, podendo assumir alguns tipos, a saber:

  • Tipo intelectual: possuem uma excelente e elevada memória, têm facilidade de resolver problemas, apresentam fluência de pensamento e têm capacidade de realizar associações por meio do pensamento abstrato;
  • Tipo acadêmico: está relacionado com as produções acadêmicas, envolvendo aptidão específica. Apresentam alto nível de atenção, concentração, memória e rápida aprendizagem. Demonstram a motivação pelas disciplinas escolares de seu interesse. E, além disso, têm ampla habilidade e capacidade de organizar o conhecimento e produzir trabalhos acadêmicos;
  • Tipo criativo: têm originalidade, grande imaginação, capacidade de resolver problemas com inovação. Possuem grande facilidade de autoexpressão, são flexíveis e sensíveis às questões ambientais reagindo a elas de forma diferente e inovadora;
  • Tipo social: demonstram sensibilidade interpessoal, agem com cooperatividade e o trato com as pessoas acontece de forma a construir relações sociais. Têm facilidade de resolver problemas sociais, agindo como influente e possuidor de alto poder de persuasão;
  • Tipo talento especial: destacam-se pelo alto desempenho em habilidades com artes plásticas, musicais ou até mesmo literárias;
  • Tipo psicomotor: possuem bom desempenho e controle motor em atividades psicomotoras que exigem habilidades como velocidade, força, e são ágeis em seus movimentos, tendo uma boa desenvoltura em atividades físicas (BRASIL, 1994).

Dada a complexidade do fenômeno, a avaliação precisa das altas habilidades ainda tem sido um desafio para os pesquisadores, visto que esta avaliação deve considerar o aspecto multidimensional (JAROSEWICH; PFEIFFER e MORRIS, 2002).

No Brasil, percebe-se que há uma falta de instrumentos para identificar alunos com AH/SD, o que é prejudicial, pois a não identificação desses indivíduos acaba trazendo problemas de baixo rendimento escolar, acarretando riscos não só acadêmicos, mas também sociais e emocionais (BARBOSA; SCHELINI e ALMEIDA, 2012).

A identificação adequada dos estudantes que possuem HA/SD precisa ser feita para que sejam elaboradas as devidas adaptações curriculares, visando evitar problemas de falta de interesse ou baixo desempenho por parte dos estudantes. Apesar de ser imprescindível, ainda estamos distantes de conseguir realizar a identificação de forma adequada e em grande número daqueles que possuem habilidades superiores e, por isso, demandam adequações acadêmicas (MARTINS, 2013).

Neste sentido, Martins; Pedro e Ogeda (2016) apontam que a identificação desses alunos é muito importante, sendo necessário que o processo de identificação nas escolas seja realizado o quanto antes, até mesmo na Educação Infantil, que corresponde a faixa etária de 0 aos 5 anos.

Posto isso, com esta revisão de literatura, buscou-se investigar: quais instrumentos podem ser utilizados para identificar alunos com Altas Habilidades/Superdotação no contexto escolar? Com isso, adotou-se como objetivo investigar os tipos de instrumentos avaliativos utilizados no contexto escolar para identificar os alunos com Altas Habilidades/Superdotação.

2. METODOLOGIA

Para o desenvolvimento deste estudo, realizou-se uma busca por artigos científicos publicados entre 2015 e 2020, nas bases de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e da SCIELO, utilizando os seguintes descritores: “Altas Habilidades/Superdotação”, “Identificação de Altas Habilidades” e “Indicadores Altas Habilidades”. Assim, a partir dessas buscas foram selecionadas 3 publicações na Biblioteca Virtual de Saúde e 6 publicações na SCIELO.

Desta forma, os artigos incluídos foram os que apresentaram a definição de Altas Habilidades/Superdotação, bem como avaliações e intervenções aplicadas em crianças e adolescentes em idade escolar (ensino fundamental), enquanto foram excluídos aqueles que  não abordavam sobre o tema ou traziam informações irrelevantes à esta pesquisa. Nesse aspecto, também foram utilizadas outras literaturas sobre o tema para fundamentar a discussão em questão.

3. RESULTADOS

Os artigos mencionados neste trabalho foram publicados no intervalo de 2015 a 2020, porém não havia nenhuma publicação, nas bases de dados investigadas, referente ao ano de 2017. Dessa forma, a maior concentração de publicações foi nos anos de 2020 (3 trabalhos), seguido de 2016 (3), 2019 (2), 2018 (1) e 2015 (1).

Para a apresentação dos resultados serão demonstrados 9 artigos, de acordo com os seus respectivos autores, títulos, objetivos, instrumentos utilizados e conclusão:

Quadro 1 – Apresentação dos artigos científicos

Autores e Ano Título Objetivo Instrumento de avaliação Conclusão
Mendonça (2015) Identificação de alunos com altas habilidades ou

superdotação a partir de uma avaliação multimodal

Identificar alunos com AH/SD através de uma

triagem inicial, utilizando testes para avaliar o desempenho intelectual e acadêmico

Teste das Matrizes Progressivas; Teste de Desempenho Escolar – TDE. Indicação dos professores; e escala WISC-III

 

Os instrumentos mostraram-se adequados, pois além de subsidiar na identificação de alunos com AH/SD, apontaram outros alunos, que precisam de uma observação mais cautelosa, uma vez que apresentaram resultados superiores em comparação com os demais.

 

Nakano, Campos e Santos (2016) Escala de Avaliação de Altas Habilidades/Superdotação – Versão professor: validade de conteúdo.

 

Verificar, através da validade de conteúdo, a adequação dos itens que compõem a Escala de Avaliação de Altas Habilidades – Versão Professor.

 

Escala de avaliação das altas habilidades – versão professor. Os resultados apontaram a adequação da escala com o conteúdo do modelo que se pretende avaliar.
Martins e Chacon (2016) Características de Altas Habilidades/Superdotação em Aluno Precoce: um Estudo de Caso.

 

Verificar se um aluno precoce apresentava características de altas habilidades/superdotação de acordo com literatura, em especial as que se relacionam à criatividade e à aprendizagem.

 

Observação não participante. Os resultados demonstraram a presença de características de altas habilidades/superdotação no comportamento do aluno e apontaram para a necessidade de atenção educacional que considere e respeite suas peculiaridades e estimule o desenvolvimento de suas potencialidades, porém, sem perder de vista suas necessidades próprias da infância.

 

Mendonça, Rodrigues e Capellini (2018) WISC-III: Instrumento para Confirmação de Altas Habilidades/Superdotação.

 

Pretendeu confirmar o alto desempenho intelectual de alunos com altas habilidades/superdotação (AH/SD), utilizando o WISC-III, em uma Escola Estadual.

 

Escala WISC-III. O WISC-III se mostrou adequado para confirmar a identificação de alunos com AH/SD e, ainda, apontar um grupo de alunos que apresentaram resultados superiores, potencialmente com AH/ SD, que se beneficiariam de serviços específicos.

 

Nakano e Oliveira (2019) Triagem de indicadores de altas habilidades/superdotação: estrutura fatorial.

 

Apresenta os resultados da análise fatorial confirmatória do instrumento TIAH/S. Instrumento TIAH/S. Os resultados da AFC se mostraram favoráveis ao modelo teórico adotado como base para a construção da escala. A partir das análises conduzidas, foi possível verificar que a TIAH/S confirmou um modelo multidimensional das altas habilidades/superdotação, reconhecido em diferentes países.

 

Suárez e Wechsler (2019) Identificação de Talento Criativo e Intelectual na Sala de Aula.

 

O estudo comparou a identificação de talentos criativos e intelectuais por professores com resultados de testes psicológicos e a influência de sexo no processo.

 

Escala Identificação de Talentos pelo Professor – ITP e Bateria de Avaliação Intelectual e de Criatividade

Infantil (BAICI).

 

Os subtestes de compreensão verbal, memória visual e criatividade tiveram relações significativas com o índice cognitivo total da BAICI. Não foram encontradas diferenças significativas por sexo. Percebeu-se a necessidade de capacitar professores para uma identificação mais pontual e assertiva de talentos a fim de melhor desenvolvê-los.

 

Cunha e Rondini (2020) Queixas escolares apresentadas por estudantes com altas habilidades/superdotação: relato Materno.

 

Descrever os tipos de queixas escolares que os estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) expressam, por meio do relato materno.

 

Entrevista de anamnese; Roteiro de Entrevista para a família; e Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ).

 

Os resultados demonstraram que as mães recebem queixas escolares de seus filhos na escola, dentre as quais estão os problemas de comportamento, desmotivação em sala de aula, indisciplina e dificuldades na interação social. Além disso, todas as mães avaliaram seus filhos dentro do padrão para o comportamento pro-social e não-padrão para os problemas de relacionamento com os colegas. É importante que a escola seja uma rede de apoio para auxiliar no desenvolvimento desses estudantes PAEE.

 

Mendonça, Rodrigues e Capellini (2020) Alunos com altas habilidades/superdotação: como se veem e como são vistos por seus pais e professores.

 

Descrever como alunos com altas habilidades/superdotação (AH/SD) se veem e são vistos por seus pais e professores por meio dos seus relatos.

 

Entrevista semiestruturada gravada em áudio e transcrita. Considerando a idade e ano escolar dos alunos, por meio dos dados obtidos, observou-se que alguns conhecem pouco sobre suas potencialidades uma vez que seus conhecimentos sobre as possibilidades de estudo e aprimoramento são poucos, reduzindo-se a algumas das disciplinas do currículo escolar.

 

De Oliveira, Capellini e Rodrigues (2020) Altas Habilidades/Superdotação: Intervenção em Habilidades Sociais com Estudantes, Pais/Responsáveis e Professoras.

 

Descrever e comparar o repertório de habilidades sociais, problemas de comportamento e competência acadêmica de estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD): 1) segundo o relato deles mesmos, antes e depois de um programa sobre habilidades sociais; e 2) segundo o relato de seus pais/responsáveis e professores, antes e depois de orientações sobre AH/SD e habilidades sociais.

 

Questionário Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais (SSRS). Os resultados apontaram que o repertório social dos estudantes melhorou no ponto de vista deles, de suas professoras e de seus pais, provavelmente devido ao procedimento de intervenção utilizado, que envolveu mais de um segmento.

Fonte: Autor

Dentre as 9 publicações selecionadas, 8 delas são experimentais (MENDONÇA, 2015; MARTINS e CHACON, 2016; MENDONÇA; RODRIGUES e CAPELLINI, 2018; NAKANO e OLIVEIRA, 2019; SUÁREZ e WECHSLER, 2019; CUNHA e RONDINI, 2020;  MENDONÇA; RODRIGUES e CAPELLINI, 2020; DE OLIVEIRA; CAPELLINI e RODRIGUES, 2020), sendo utilizadas amostras com alunos de 5 a 15 anos, em idade escolar. A idade mais representada pelas publicações corresponde à faixa etária de 8 a 10 anos, que compreende alunos do 3º ao 5º ano do ensino fundamental (MENDONÇA; RODRIGUES e CAPELLINI, 2018; NAKANO e OLIVEIRA, 2019; SUÁREZ e WECHSLER, 2019; CUNHA e RONDINI, 2020; MENDONÇA; RODRIGUES e CAPELLINI, 2020; DE OLIVEIRA; CAPELLINI e RODRIGUES, 2020).

Por fim, apenas uma pesquisa utilizou seis estudantes de pós-graduação na área da avaliação psicológica para atuar como juízes (NAKANO; CAMPOS e SANTOS, 2016). Dessa forma, os estudantes classificaram 41 itens que estão presentes no instrumento “Escala de avaliação de altas habilidades/superdotação” – versão professor: validade de conteúdo, em cinco fatores de capacidades, habilidades específicas e talentos.

4. DISCUSSÃO

Por meio dessa pesquisa, foi possível observar alguns instrumentos voltados à identificação de indivíduos com altas habilidades/superdotação, a saber: o Teste das Matrizes Progressivas; o Teste de Desempenho Escolar (TDE); a escala WISC-III; a Escala de avaliação das altas habilidades – versão professor; a observação não participante; o TIAH/S; a Escala Identificação de Talentos pelo Professor (ITP); a Bateria de Avaliação Intelectual e de Criatividade Infantil (BAICI); a Entrevista de anamnese; o Roteiro de Entrevista para a família; o Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ); a Entrevista semiestruturada gravada em áudio e transcrita; e o Questionário Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais (SSRS).

Assim, a começar pelos instrumentos destacados no estudo Suárez e Wechsler (2019), observa-se que, para avaliação dos alunos, os autores utilizaram o ITP e a BAICI:

  • ITP – a Escala de Identificação de Talentos pelo Professor: tem como finalidade avaliar ou indicar a probabilidade ou existência de talentos criativos e intelectuais. É um tipo de escala psicométrica, que compõe-se por trinta itens e as escalas 1 – nunca observado e 5 – sempre observado. Esse instrumento teve sua validade e exatidão avaliada e confirmada em estudos de Suárez e Wechsler (2019). Sua construção foi baseada na teoria CHC, que enfatiza a natureza multidimensional da inteligê;
  • BAICI – a Bateria de Avaliação Intelectual e de Criatividade Infantil (BAICI), de Wechsler (2018), objetiva avaliar tanto a dimensão intelectual quanto a criativa. Os itens dessa avaliação foram construídos a partir da bateria Woodcock-Johnson III (WJ III). Sendo assim, este teste possui seis subtestes em forma de cadernos e são aplicados coletivamente, de modo que, segundo as autoras Suárez e Wechsler (2019, p. 3),

As áreas avaliadas são: a compreensão verbal, medindo a inteligência cristalizada (Gc); teste visuo espacial, a inteligência visuo espacial (Gv); teste pensamento lógico, a inteligência fluida (Gf); teste memória visual auditiva, a memória de curto prazo ou de trabalho (Gsm); teste de rapidez de raciocínio, a rapidez de processamento (Gs) e finalmente o teste de pensamento criativo, tanto figurativo, quanto verbal que mede o pensamento divergente.

Neste estudo, portanto, ambos os instrumentos precisaram da autorização dos responsáveis para a sua aplicação, sendo que nos dias da aplicação dos testes o professor regente de cada turma se fez presente. Com isso, os autores concluíram que os professores muito se ocupavam com a rotina da sala de aula, o número de estudantes, os padrões e as regras da escola, que acabavam não percebendo as características individuais de cada um. Por este motivo, alunos com habilidades intelectuais, como: pensamento viso espacial, pensamento lógico e rapidez de raciocínio, foram menos percebidos em sala de aula, porém ganharam espaço nos testes aplicados.

Assim sendo, outros instrumentos que foram utilizados por Cunha e Rondini (2020), em seu estudo, foram a Entrevista de anamnese e o Roteiro de Entrevista para a família. Elaborado por Cunha (2018), esses questionários, quando feitos com os alunos, pais e professores, demonstram como os alunos se veem e como são vistos por seus pais e professores, além de como se sentem com relação aos colegas e aos seus professores. Além destes instrumentos, os autores também aplicaram o Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ), elaborado por Goodman (1997), aplicado às mães, com o intuito de identificar comportamentos, emoções, relações interpessoais e problemas de saúde emocional de crianças. Dessa forma, oportuno se faz ressaltar que este instrumento teve sua validação por Fleitlich, Cortázar e Goodman (2000), sendo composto por vinte e cinco itens distribuídos entre cinco subescalas, a saber: comportamento pró-social, hiperatividade, problemas de conduta, problemas de relacionamento com os colegas e sintomas emocionais.

Por outro lado, também foi possível observar no estudo de Mendonça, Rodrigues e Capellini (2018), a análise do instrumento WISC-III, que foi utilizado com a finalidade de confirmar o alto desempenho intelectual dos alunos. Nesse contexto, o WISC-III é um instrumento mundialmente conhecido e sua aplicação possibilita avaliar capacidades cognitivas em alguns contextos, como clínico, avaliação psicoeducacional e de pesquisa. Tem como objetivo mensurar aspectos e aptidões de um indivíduo. E conta com doze subtestes, cada um com um propósito específico, os quais são separados em dois subgrupos: Escala Verbal e Escala de Execução ou Desempenho (BOAKE, 2002; NASCIMENTO; FIGUEIREDO, 2002).

Nesse sentido, Mendonça (2015), por sua vez, aplicou o Teste das Matrizes Progressivas de Raven e o Teste de Desempenho Escolar (TDE) para realizar uma identificação inicial de alunos que possuíam indicadores de AH/SD. Além dos testes, utilizou a indicação feita pelos professores, a partir de um protocolo desenvolvido por Guenther (1998). E, após a realização dos testes listados acima, os alunos foram encaminhados para serem testados com a escala WISC-III. Diante disso, os dados deste estudo mostraram que, ao refinar essa identificação inicial, reduzindo o número de participantes, tornou-se mais fácil e viável o contato com os alunos, com seus familiares e professores.

Em outro artigo, De Oliveira; Capellini e Rodrigues (2020) aplicaram o Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais (Social Skills Rating System SSRS), que consiste em uma escala criada nos EUA (GRESHAM e ELLIOTT, 1990), que foi adaptada e validada à amostra brasileira (DEL PRETTE et al., 2016). Sendo assim, é oportuno mencionar que os resultados dessa escala são detectados a partir da soma da pontuação e transformados em uma porcentagem, conforme o sexo do aluno. Além disso, esta tem três versões, para professores, pais e crianças, e avalia questões de habilidades sociais, problemas de comportamento, competências acadêmicas e habilidades sociais.

Sendo assim, na avaliação descrita acima, o aplicador levou sua pesquisa até o Comitê de Ética para aprovação. Depois apresentou para os professores, pais e alunos e cada grupo recebeu o questionário. Os professores responderam no horário de Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo, os pais responderam no horário noturno e os estudantes responderam em grupo, por ano escolar. Após isso, aconteceram encontros semanais para a aplicação das etapas posteriores do instrumento avaliativo, visando maior adaptação desses alunos. Logo, o estudo teve como objetivo examinar as habilidades sociais e os problemas de comportamento, assim como as competências acadêmicas dos indivíduos com Altas Habilidades/Superdotação antes e depois das intervenções realizadas com relação às habilidades sociais. Com isso, os autores perceberam mudanças, principalmente nos relatos dos próprios alunos. A pesquisa alcançou seus objetivos, onde os resultados mostraram que a partir da intervenção, foi possível melhorar o repertório habilidoso de alguns participantes em alguns fatores. O estudo mostrou que em termos de implicações para intervenções com professores e pais, pode-se apontar a necessidade de mais encontros, tanto com o tema de AH/SD, quanto com o de habilidades sociais. O estudo também mostrou a importância do professor na identificação dos alunos com AH/SD.

Por sua vez, Nakato e Oliveira (2019) utilizaram como instrumento de avaliação o TIAH/S, que é composto por 42 questões, divididas entre as áreas de: Capacidade Intelectual (oito); Habilidades Acadêmicas Específicas (nove); Liderança (oito); Criatividade (oito); e Talento Artístico (nove). Dessa forma, esse instrumento foi respondido pelo professor, buscando assinalar a alternativa que melhor descrevesse o aluno. Portanto, chegou-se à conclusão de que o instrumento de avaliação TIAH/S mostrou-se eficaz, pois confirmou um modelo multidimensional de altas habilidades/superdotação, reconhecido nos mais diversos países.

Por outro lado, Martins e Chacon (2016), em sua pesquisa, e com intuito de avaliar apenas um aluno com indicadores de HA/SD na escola, optaram-se por utilizar a observação não participante, onde o pesquisador registrou o maior número de fatos de seu interesse para o estudo (RICHARDSON, 1999). Assim, para complementar o trabalho, os pais do aluno também foram submetidos a responder uma pesquisa.

Por fim, no estudo de Nakano; Campos e Santos (2016), através da validação de conteúdo, os autores fizeram uso da Escala de Avaliação de Altas Habilidades – Versão Professor. Logo, para esse estudo, seis alunos da pós-graduação na área da avaliação psicológica operaram como juízes, classificando quarenta e um itens do instrumento em cinco fatores, a saber: habilidades/capacidades intelectuais, acadêmicas, de liderança, criativo e artístico.

Diante desses instrumentos, conforme Martins; Pedro e Ogeda (2016) apontam, em relação a categorização das pesquisas sobre a identificação de alunos com AH/SD, é possível perceber que as temáticas mais exploradas estão relacionadas com a identificação de alunos, tanto em contextos públicos e privados, e com a elaboração de propostas e instrumentos. Contudo, ainda tem-se carências relacionadas a esse tema de pesquisa, no que diz respeito à identificação e à validação de outros instrumentos que possam ser utilizados em grande escala.

5. CONCLUSÕES

Considerando a questão norteadora: quais instrumentos podem ser utilizados para identificar alunos com Altas Habilidades/Superdotação no contexto escolar? Por meio dessa pesquisa, foi possível identificar como instrumentos de avaliação: o Teste das Matrizes Progressivas; o Teste de Desempenho Escolar (TDE); a escala WISC-III; a Escala de avaliação das altas habilidades – versão professor; a observação não participante; o TIAH/S; a Escala Identificação de Talentos pelo Professor (ITP); a Bateria de Avaliação Intelectual e de Criatividade Infantil (BAICI); a Entrevista de anamnese; o Roteiro de Entrevista para a família; o Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ); a Entrevista semiestruturada gravada em áudio e transcrita; e o Questionário Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais (SSRS).

Contudo, dentre o que foi visto nas publicações analisadas, foi possível perceber que ainda é preciso uma melhoria quanto aos instrumentos utilizados para detectar Altas Habilidades/Superdotação.

Conforme Terman (2007), esses testes devem ser aplicados como parte do processo de ensino e aprendizagem, porém de forma conjunta para tomadas de decisão, uma vez que nenhum teste avalia de forma efetiva todos os aspectos da inteligência.

Logo, é oportuno destacar que a identificação desses alunos não é eficiente se realizada com apenas um instrumento. Por isso, faz-se necessária a aplicação de mais de um instrumento para o aferimento do mesmo conjunto de habilidades.

Contudo, é perceptível que a escola precisa construir um meio de avaliar os estudantes em grande escala para que, então, os professores consigam realizar as devidas adaptações no currículo, não deixando que os alunos se desmotivem, acarretando baixo rendimento acadêmico ou, até mesmo, problemas sociais e emocionais.

Por essa razão, sugere-se a ampliação de pesquisas sobre o tema proposto, além de maiores estudos e adequações na elaboração de instrumentos mais completos para a identificação desses alunos.

REFERÊNCIAS

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[1] Mestranda pelo Programa de Pós Graduação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), cursando pós graduação em Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e especialização em Neuropsicopedagogia clínica pelo Centro Sul-Brasileiro De Assessoria Em Cursos De Pesquisa, Extensão E Pós-graduação – CENSUPEG. Com Especialização em Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade de Educação São Luís. Especialização em Neuropsicopedagogia Institucional e Educação Especial Inclusiva pelo Centro Sul-Brasileiro De Assessoria Em Cursos De Pesquisa, Extensão E Pós-graduação – CENSUPEG. Com Graduação em Pedagogia pela Faculdade Universitária da Grande Dourados. ORCID: 0000-0003-2351-4269.

[2] Orientadora. ORCID: 0000-0003-1192-878X.

Enviado: Agosto, 2021.

Aprovado: Agosto, 2022.

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Priscila Caroline Heimann

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