Alfabetização ecológica: um relato de experiência no processo de ensino e aprendizagem de geografia

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ARTIGO ORIGINAL

LEAL, Matheus de Castro [1], ROCHA, Ricael Spirandeli [2]

LEAL, Matheus de Castro. ROCHA, Ricael Spirandeli. Alfabetização ecológica: um relato de experiência no processo de ensino e aprendizagem de geografia. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 08, Vol. 01, pp. 39-58. Julho de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/ensino-e-aprendizagem

RESUMO

Diversos são os problemas socioambientais que afligem as sociedades na contemporaneidade. Sabe-se que a água é um elemento indispensável para a vida, no entanto, esse importante recurso é utilizado, muitas vezes, de maneira inadequada, com altas taxas de desperdício e contaminação. A educação básica apresenta-se como um importante espaço de intervenção e sensibilização no que se refere ao uso desta. Nesse sentido, como podemos intervir de maneira significativa, nos anos finais do ensino fundamental, a fim de que os estudantes reconheçam o problema hídrico e repensem sua postura diante desse recurso, para, dessa forma, modifiquem seu comportamento? O presente artigo objetiva-se em fornecer estratégias metodológicas para professores de Ciências e Geografia do 6° ano do ensino fundamental II na abordagem da temática “Água”. A abordagem metodológica ocorreu a partir do relato de experiência de natureza qualitativa, utilizando relação multidisciplinar e interdisciplinar, contempla habilidades e competências das disciplinas de Língua Inglesa, Matemática, Ciências e Geografia. Como resultado, a sequência didática foi pertinente para realização do trabalho, dado que, a cada atividade, que estava liga à anterior, os estudantes davam um passo a mais quanto ao conhecimento sobre a água e em sua conscientização para mudança de atitude. Dessa forma, concluímos que a sequência didática apresenta positiva relevância para realização metodológica, colaborando com o processo de ensino e aprendizagem dos alunos, e evidencia a importância do professor como mediador desse processo, proporcionando interatividade e equidade aos estudantes.

Palavras-chave: Alfabetização ecológica, Aprendizagem, Água, Impacto socioambiental, Saneamento básico.

INTRODUÇÃO

Diversos são os problemas socioambientais que afligem as sociedades na contemporaneidade. Muitos deles estão relacionados à poluição da água e são consequências do desmatamento, do lixo sem destinação adequada, do lançamento de esgotos domésticos e industriais e do uso indiscriminado de agrotóxicos. Somado a esses, enfrenta-se outro impasse, que está associado à dificuldade de acesso a esse bem indispensável à vida. Como aponta o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o direito humano à água potável segura e ao esgotamento sanitário, “onde a água não está disponível na própria residência, mulheres e meninas são as principais responsáveis pela água e pela higiene em casa, além de carregar o pesadíssimo fardo de coletar água” (ONU, 2016, p. 3), o que aumenta a desigualdade entre homens e mulheres.

Sabe-se que a água é um elemento indispensável para a vida. Um ser humano pode passar algumas poucas semanas sem se alimentar, mas não mais que poucos dias sem água. Além disso, é um recurso natural classificado como renovável, já que a Terra pode ser vista como um sistema fechado quando se trata do ciclo hidrológico. No entanto, esse importante recurso é utilizado, muitas vezes, de maneira inadequada, com altas taxas de desperdício e contaminação, fato que leva alguns estudiosos a repensarem sobre a questão de a água potável ser renovável ou não: “[…] a quantidade de água no sistema permanece próxima da constância, globalmente. Dessa forma, também globalmente falando, a qualidade da água é o que seria o maior problema à capacidade desse recurso se renovar” (UNICAMP, 2011, on-line).

A partir dessa premissa, compreende-se a necessidade de se trabalhar com a educação ambiental e com a alfabetização ecológica em todos os níveis e áreas do ensino básico, sendo esse o primeiro contato que o estudante possui com ações ecológicas educacionais. É visto que essas ações educativas relacionadas ao ambiente natural apresentam ganhos cognitivos, mudança de valores e auxiliam na construção da consciência socioambiental (FONSECA et al., 2007, p. 67 apud PÁDUA; TABANEZ, 1997; TILBERY, 1999; BECKER; ELLIOT, 2000; NKOSKI, 2002).

Nesse sentido, a educação básica apresenta-se como um importante espaço de intervenção e sensibilização no que se refere ao uso da água. Tendo isso em vista, como podemos intervir de maneira significativa, nos anos finais do ensino fundamental, a fim de que os estudantes reconheçam o problema hídrico e repensem sua postura diante desse recurso, para, dessa forma, modificarem seu comportamento?  Umas das formas para alcançar tal objetivo é o trabalho com uma sequência de atividades nas quais os alunos são expostos a diversas situações-problemas e desafios que devem ser discutidos em grupo e estimulados a apresentarem soluções para esses impasses.

O relato de experiência apresentado neste artigo objetiva fornecer estratégias metodológicas para professores de Ciências e Geografia do 6° ano do ensino fundamental II na abordagem da temática “Água”. Tal assunto, muitas vezes, é abordado, nos livros didáticos, de maneira conceitual, com uma visão estereotipada e distante da realidade dos estudantes, não gerando, significado para esses sujeitos. Desse modo, indo de encontro a essa realidade, foi desenvolvida uma sequência didática que apresenta aulas teóricas individuais e coletivas, experimentos coletivos e aulas de campo. A abordagem utilizada foi multidisciplinar e interdisciplinar e contempla habilidades e competências das disciplinas de Língua Inglesa, Matemática, Ciências e Geografia. Ademais, programas básicos do pacote Office, como Excel e Word, também foram utilizados.

RECURSO RENOVÁVEL: CONCEPÇÕES E DESAFIOS

Desde a primeira Revolução Industrial, a relação conflituosa do homem com o ambiente (composto por seres vivos e não vivos) se intensificou. Os recursos naturais passaram a serem utilizados em larga escala e os impactos negativos desses usos e explorações se intensificaram. Nessa lógica, segundo o Relatório da ONU sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos em 2019, mais de 2 bilhões de pessoas vivem em países que experimentam estresse hídrico; cerca de 4 bilhões vivenciam uma escassez de água grave durante, pelo menos, um mês do ano; e cerca de 90% de todos os desastres naturais são relacionados à água, além de 5% deles serem causados pela seca, que afeta 1,1 bilhão de pessoas, matando mais 22 mil e causando US$ 100 bilhões em prejuízos. Além disso, mais de 80% das águas residuais, em todo o mundo, retornam ao meio ambiente sem tratamento, ocasionando várias doenças como hepatite A; cólera e esquistossomose (UNESCO, 2019).

Outro fator importante é que, em todo o mundo, apenas 2,9 bilhões de pessoas (39% da população mundial) tiveram acesso a serviços sanitários gerenciados de forma segura em 2015. Já no Brasil, existe uma grande desigualdade no fornecimento de serviços de saneamento básico, ficando a população mais carente suscetível a doenças de fácil resolução, que há tempos não deveriam mais causar mortes (UNESCO, 2019).

Desse modo, em documento escrito pelo Papa Francisco, a Carta Encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum, o tema água aparece com destaque. Tal ênfase se deu em virtude de sua importância para a qualidade ambiental do planeta: “a água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos” (FRANCISCO, 2015, p. 24).

Além disso, na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, a questão da água também é tratada com relevância. Essa agenda foi desenvolvida no ano de 2015, em Nova York, com a participação de representantes dos 193 Estados-membros da ONU, onde “reconheceram que a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio global e um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável” (ONU, 2015, on-line). Foram estabelecidos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável, (ODS) sendo o de número 6 relacionado à água: “assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos” (ONU, 2015).

A partir dessa compreensão, pode-se destacar o aumento da emissão de gases do efeito estufa, que causam o aumento da temperatura global, como retrata o Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas:

Estima-se que as atividades humanas tenham causado cerca de 1,0°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, com uma variação provável de 0,8°C a 1,2°C. É provável que o aquecimento global atinja 1,5°C entre 2030 e 2052, caso continue a aumentar no ritmo atual. Projeta-se que os riscos relacionados ao clima para a saúde, meios de subsistência, segurança alimentar, abastecimento de água, segurança humana e crescimento econômico aumentem com o aquecimento global de 1,5°C e aumentem ainda mais com 2°C (IPCC, 2019, p. 12).

Um ponto a ser ressaltado é a relação entre os problemas ambientais e a pobreza. As classes menos favorecidas são as mais impactadas pela crise socioambiental. Segundo Leonardo Boff, em Ecologia: Grito da Terra, Grito do Pobres:

A Terra está enferma e ameaçada. Das muitas constatações, aduzamos apenas duas. A primeira: o ser mais ameaçado da natureza hoje é o pobre. Setenta e nove por cento da humanidade vivem no Grande Sul Pobre; 1 bilhão de pessoas vivem em estado de pobreza absoluta; 3 bilhões tem alimentação insuficiente(…) A segunda: as espécies de vida correm semelhante ameaça. Estimativas apontam: entre 1500 a 1850 foi presumivelmente eliminada uma espécie a cada 10 anos. Entre 1850 a 1950, uma espécie por ano. A partir de 1990 está desaparecendo uma espécie por dia (BOFF, 2005, p. 14).

Ademais, com o advento da Sociedade de Consumo e o surgimento e uso em grande escala da TV (a partir da década de 1950), a necessidade por matérias-primas intensificou-se ainda mais. Consequentemente, os problemas ambientais também, inclusive aqueles relacionados à água, recurso indispensável para a produção de qualquer mercadoria, seja agrícola/extrativista, ou industrializada. A título de exemplo, na produção de um quilo de carne bovina, são consumidos cerca de 15 mil litros de água e, na produção de uma xícara de café, cerca de 140 litros são utilizados (UNESP, 2021).

Sendo assim, qualquer que seja o desperdício e/ou consumismo, é importante ter em mente que ocorre gasto de água. Muitas vezes, é transferida a responsabilidade dos problemas relacionados à água ao sujeito, cabendo a ele, através de ações amplamente divulgadas, fechar torneiras, regular descargas, não limpar as calçadas com água etc., a solução dos problemas. No entanto,

Isso revela uma forma de operação da ideologia do desenvolvimento sustentável: há o expurgo do uso doméstico que é, indiretamente, colocado como vilão da degradação ecológica, ocultando as reais relações estabelecidas no bojo da sociedade. Assim, a abordagem sobre o mau uso e/ou desperdício da água, centrada no consumo doméstico, transforma o consumidor doméstico (e individual) em responsável pelos problemas da água em detrimento de outros setores, tais como a indústria e a agricultura (FREITAS, 2014, p. 259).

Outrossim, a Agência Nacional de Águas (ANA) expõe dados importantes destacando que, de toda a água existente no planeta, 97,5% são salgados, impróprios para o consumo direto e 2,5% são compostos por água doce. Dessa última, 69% estão em geleiras, 30% em reservatórios subterrâneos e apenas 1% em rios (ANA, 2019).

O diagnóstico dos serviços de água e esgoto, produzido pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, indicou que 47% dos brasileiros não possuem rede de esgoto e 54% do que é coletado são jogados em cursos d´águas. Aproximadamente 17% da população brasileira não têm acesso à água potável, situação essa responsável por doenças às populações mais carentes, como cólera, hepatite A e diarreia, que há muito tempo não afetam regiões mais desenvolvidas. Somado a isso, pontua-se que 39,2% de toda a água potável são desperdiçados durante a distribuição (SNIS, 2019).

ALFABETIZAÇÃO ECOLÓGICA: CONSCIENTIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, anualmente, 15 mil pessoas venham a óbito e 350 mil sejam internadas no Brasil devido a doenças ligadas à precariedade do saneamento básico (USP, 2020). Todos esses dados são alarmantes e preocupantes, assim como os relativos à utilização inadequada da água.  Tendo isso em vista, a educação ambiental deve ocorrer desde os anos iniciais em âmbito escolar, a fim de que, assim, exista conscientização do uso de recursos renováveis.

Diante desse cenário, o espaço escolar é indispensável para que os estudantes desenvolvam a capacidade de ler, descrever e interpretar o ambiente que os cerca para que intervenham positivamente nessa realidade. Uma das várias funções da escola é a formação da cidadania, que, de maneira simplificada, é “o exercício pleno dos direitos e deveres do cidadão numa sociedade democrática, incluindo a participação efetiva em todo o processo social como sujeito histórico, de forma crítica e consciente” (LEITE, 2012, p. 1).

O conceito de cidadania global ainda não é um consenso no meio acadêmico e são múltiplas as interpretações. Em documento de 2015 da Unesco

Alguns chamam a cidadania global de cidadania sem fronteiras, ou cidadania além do Estado-nação. Outros observam que o termo cosmopolitanismo pode ser mais amplo e mais inclusivo que cidadania global, enquanto outros, ainda, optam por cidadania planetária ao abordar a responsabilidade da comunidade global para preservar o planeta Terra (UNESCO, 2015, p. 14).

METODOLOGIA

O relato de experiência é o procedimento metodológico utilizado para o trabalho, sendo esse “uma ferramenta da pesquisa descritiva que apresenta uma reflexão sobre uma ação ou um conjunto de ações que abordam uma situação vivenciada no âmbito profissional de interesse da comunidade científica” (CAVALCANTE; LIMA, 2012, p. 96). Dessa forma, o relato de experiência possui natureza qualitativa e se configura como uma proposta flexível que permite novas possibilidades quanto à investigação e à pesquisa, propondo trabalhos que exploram novos enfoques (GODOY, 1995).

A experiência relatada ocorreu em uma escola particular da região metropolitana de Belo Horizonte com estudantes do 6° ano do Ensino Fundamental. As atividades foram realizadas nos meses de outubro e novembro de 2019, em um total de 16 horas/aula.

Com o intuito de descrever as atividades desenvolvidas com o tema “água” e a fim de contribuir de forma relevante para o processo de ensino e aprendizagem nos anos finais do ensino fundamental, a estratégia adotada foi a sequência didática, uma vez que, em seu desenvolvimento, etapas bem-definidas e planejadas devem ser seguidas para se atingir o objetivo desejado, que é a efetiva aprendizagem dos estudantes, tais como “escolha do tema a ser trabalhado; questionamentos para problematização do assunto a ser trabalhado; planejamento dos conteúdos; objetivos a serem atingidos no processo de ensino aprendizagem; delimitação da sequência de atividades […]” (OLIVEIRA, 2013, p. 40).

Além disso, a sequência didática foi escolhida para desenvolver, nos estudantes, habilidades e competências para o pleno exercício da cidadania no que se refere à questão da água. A sequência didática é um conjunto de ações que se conectam “[…] prescinde de um planejamento para delimitação de cada etapa e/ou atividade para trabalhar os conteúdos disciplinares de forma integrada para uma melhor dinâmica no processo de ensino-aprendizagem” (OLIVEIRA, 2013, p. 39).

Segundo Carvalho (2011), para alcançar os objetivos de uma sequência didática, deve-se propor aos alunos um problema realmente significativo a fim de que construam o conhecimento e as questões que possibilitem o desenvolvimento da consciência das suas ações na resolução do problema.

O impasse deve dialogar com a realidade próxima dos estudantes envolvidos, para que vejam sentido naquilo que está sendo estudado. Para a sequência em questão, a partir da roda de conversa inicial, foram selecionados dois problemas relacionados à água: um em escala mundial, “O problema da água limpa”, da National Geographic Brasil, e outro, em escala local, “Moradores da Região Metropolitana de BH se mobilizam em defesa de Várzea das Flores”, do site de notícia Brasil de Fato.

A multidisciplinaridade e interdisciplinaridade foi pensada durante o desenvolvimento da sequência, pois se faz necessária a superação da fragmentação do conhecimento por disciplinas. Visou-se à “integração e engajamento de educadores num trabalho conjunto, de interação das disciplinas do currículo escolar entre si e com a realidade de modo a superar a fragmentação do ensino, objetivando a formação integral dos alunos” (LÜCK, 1995, p. 64).

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DA SEQUÊNCIA DIDÁTICA

A apresentação dos resultados da sequência didática, denominada “Hidrosfera terrestre: um novo olhar para uma outra prática”, foi separada em três subseções. A primeira descreve a organização da atividade, a segunda destaca a forma como a atividade foi executada e a terceira aponta as observações e contribuições a partir dos resultados alcançados na aplicação da atividade. A fim de preservar a identidade dos alunos, foram utilizados pseudônimos como “Estudante A”; “Estudante B” […], caracterizando a palavra estudante e utilizando letras do alfabeto. Além disso, a identidade visual dos estudantes foi preservada para manter a integridade de cada aluno.

ORGANIZAÇÃO DA SEQUÊNCIA DIDÁTICA

Conferiu-se destaque, no desenvolvimento da sequência, a conhecimentos relacionados às ciências e à geografia, com contribuições das linguagens e matemática. Partes das aulas foram realizadas em campo, à beira do Riacho das Pedras, município de Contagem-MG. Muitos estudantes, durante a roda de conversa, desconheciam a existência de tal curso d´água, que deu origem ao nome do bairro da escola, denominando-o apenas como um “esgoto”.

Os estudantes formaram grupos de três a quatro integrantes e ao menos um deles possuía um tablet com acesso à internet, fornecido pela escola, para o desenvolvimento das atividades. Algumas questões foram desenvolvidas individualmente e identificadas na sequência com a sigla ID e outras, coletivamente, identificadas com CL.

Compreende-se que o trabalho em grupo é de suma importância, já que, por meio dele, ocorre a troca de conhecimentos entre os participantes, que possuem, muitas vezes, habilidades distintas. Ademais, eles são expostos a opiniões e ideias divergentes e, assim, é possível que desenvolvam capacidade de respeitá-las. Somado a isso, pode-se desenvolver a capacidade de comunicação e empatia. Todos esses objetivos são abordados nas competências e habilidades da UNESCO para o século XXI (UNESCO, 2015 ).

Além disso, para uma efetiva aprendizagem dos conteúdos e habilidades propostas na sequência, o trabalho/aula de campo se fez necessário. Segundo Carvalho (2011) é importante trabalhar formas e ações que possibilitam a formação crítica do sujeito, criando um ambiente de ensino e aprendizagem sob a ótica e concepções da realidade global.

EXECUÇÃO DA SEQUÊNCIA DIDÁTICA

No início do desenvolvimento da sequência didática, realizou-se uma roda de conversa para levantar o conhecimento prévio dos estudantes e os interesses e dúvidas em relação ao tema de trabalho. A partir desse primeiro momento, foram feitos pequenos ajustes na sequência.

Perguntas foram realizadas para iniciar a conversa: “O que é a água e qual a importância dela para a vida?” – “Um dia a água irá acabar?” – “Se ficássemos sem água, quais possíveis problemas enfrentaríamos?” – “Como fazemos para economizar e preservar a água?” – “Onde a sociedade utiliza/consome mais água?” – “Onde estão os cursos d´água da nossa cidade?” – “De onde vem a água que consumo na minha cidade/casa?” – “Existem riachos/rios próximos à nossa escola? Se sim, eles estão preservados?” – “Por que ocorrem enchentes no bairro de nossa escola e em vários pontos das cidades?” Após esse momento, os estudantes puderam falar livremente sobre seus interesses ao estudar a temática água.

Depois isso, foram compiladas as principais respostas e questões levantadas. Os estudantes apresentaram as seguintes ideias: a água é importante para se beber e compõe 70% do corpo humano; a água está acabando e, a cada dia que passa, sua quantidade no planeta é menor, sendo necessário economizar (Estudante A); – se ficássemos sem água, todos os seres vivos morreriam e possivelmente não existira mais vida na Terra (Estudante B); – para economizar água, devemos fechar a torneira enquanto escovamos os dentes, tomar banhos rápidos e fechar o chuveiro enquanto ensaboamos (Estudante C); – não devemos “varrer” a rua com a mangueira; lavar o carro apenas com balde; aproveitar a água da máquina de lavar para dar descarga e lavar a garagem (Estudante D); – próximo à escola, não existe nenhum riacho, nem rio, apenas esgoto (Estudante E); – a água da minha casa vem de nascentes e do subsolo (Estudante F); – as enchentes ocorrem pois as pessoas jogam lixo no chão que entope os bueiros (Estudante G).

Diante da roda de conversa, a problematização inicial ocorreu através do estudo de dois textos, que levantam a questão da água em escala local e mundial. Um deles é da rede televisiva NATGEO e se chama “O problema da água limpa”, que aborda, dentre outros aspectos, a dificuldade do acesso à água doce em algumas regiões do planeta, “embora a quantidade de água doce no planeta tenha permanecido razoavelmente constante ao longo do tempo – continuamente reciclada pela atmosfera e devolvida às nossas xícaras” (NETGEO, 2018). O outro texto refere-se a um problema da água em escala local, “Moradores da Região Metropolitana de BH se mobilizam em defesa de Várzea das Flores”. Nessa notícia, é apresentada a possibilidade de que um manancial de água, que abastece 8% da Região Metropolitana de Belo Horizonte, seque nas próximas décadas, caso seja autorizada a urbanização do seu entorno.

Em continuidade com a atividade, após a leitura dos textos, os estudantes apresentaram seu entendimento sobre os problemas abordados nos textos nos formatos de resumo e podcast. A atividade inicial desenvolveu-se de forma multidisciplinar, uma vez que o segundo parágrafo do primeiro texto foi apresentado em inglês e traduzido para o português.

Não foram realizadas aulas expositivas durante o desenvolvimento das atividades. Durante as aulas, o professor se deslocava entre os grupos verificando as produções. Ao identificar dificuldades, realizava intervenções específicas para aquele grupo, geralmente no formato de questionamentos. Os registros foram realizados nos cadernos, sempre de maneira individual. Ao final, o professor verificou o que os grupos produziram.

Os materiais utilizados durante o desenvolvimento das atividades foram: tablets e celulares, caderno e material de escrita, duas garrafas pets para experimento de erosão, terra e alpiste, luvas de látex para coleta de água no córrego. Os resultados foram satisfatórios, já que houve a compreensão dos problemas apresentados, inclusive com questionamentos do estudante B, como “então é da Várzea das Flores que vem a água da minha casa? Minha família nadava lá no passado”.

Após duas outras atividades inseridas na sequência didática, em que foram trabalhadas questões teóricas sobre a origem da água no planeta e ciclo da água, foi proposta a seguinte tarefa: “Discuta com seus colegas de grupo se a água é considerada um recurso natural renovável ou não renovável. Registre as conclusões de seu grupo justificando a escolha.”  A intenção dessa questão, juntamente com as anteriores, foi desconstruir a ideia de que a água está “acabando” e demonstrar que ela segue um ciclo e que sua quantidade, no planeta, permanece constante, mas que o homem vem realizando intervenções ao longo do seu ciclo, o que torna a disponibilidade de água potável cada vez menor.

O resultado foi atingido com a compreensão dos estudantes em relação a esse aspecto. Nas questões posteriores, foram desenvolvidas estratégias para que os estudantes reconhecessem a distribuição de água no planeta, o volume de água consumido nos diversos setores (agropecuária, indústria, consumo doméstico) e compreendessem o conceito de água virtual.

Seguindo as orientações da sequência, rapidamente os estudantes compreenderam a divisão de água no planeta. Eles entenderam que a maior parte é salgada e a menor parte doce e que, desta última, a maior quantidade se encontra em estado sólido, nas calotas polares e geleiras. A figura 1 representa os gráficos construídos pelos estudantes, utilizando o software de planilha eletrônica Excel, sobre a distribuição de água no planeta.

Figura 1 – Gráficos construídos pelos estudantes sobre a distribuição de água no planeta.

Fonte: produção dos autores

Por meio de pesquisas relacionadas à água virtual (volume de água utilizado no processo de produção de bem ou serviço), os alunos perceberam que a maior parte da água é consumida pela atividade agropecuária e que, mesmo tomando todas as medidas detalhadas na roda de conversa, as quais são importantes, o impacto no consumo total de água seria pequeno. A partir disso, perceberam a forte relação entre consumismo e gasto de água, tendo em vista que a indústria e agricultura são grandes consumidores desse recurso, e que, quando consumimos em excesso e/ou desperdiçamos alimentos, estamos também desperdiçando água.

No mesmo período em que a sequência se desenvolvia, os estudantes estavam trabalhando, em Matemática, operações básicas com números decimais. Logo, essa habilidade foi explorada na sequência. Os alunos deveriam identificar a quantidade de água consumida em uma situação e período fictícios. Posteriormente, iriam interpretar a conta de água, para comparar o consumo per capta de água com o dos colegas e encontrar possíveis excessos em sua casa.

Neste mesmo momento, os estudantes pesquisaram e confirmaram que boa parte do desperdício de água residencial se dá por vazamentos na distribuição. Na maioria dos casos, o consumo médio dos estudantes foi muito próximo. Em dois casos, esse consumo destoou consideravelmente. Um dos estudantes, no início do ano seguinte (2020), relatou que, em virtude da atividade, encontrou, em sua casa, um vazamento considerável, que era responsável por quase 50% do consumo mensal.

Em uma das aulas, as dinâmicas ocorreram à beira do Riacho das Pedras, principal curso d´água do bairro em que a escola está inserida. Como constatado na roda de conversa, a grande maioria dos estudantes desconhecia a existência desse riacho, considerando-o apenas como um “esgoto”.

A figura 2 evidencia a prática em campo planejada na sequência didática e a aula de laboratório com simulação de erosão e análise no microscópio da água coletada no Riacho das Pedras.

Figura 2 – Aula de campo à beira do córrego e a aula de laboratório com simulação de erosão

Fonte: produção dos autores

Experimentos relacionados à infiltração e ao escoamento da água foram realizados, bem como a coleta da água para posterior análise no laboratório da escola. Os estudantes compreenderam que as enchentes que ocorrem nas cidades (e em outros lugares) não estavam relacionadas apenas “ao bueiro entupido”, mas, principalmente, à impermeabilização dos solos em grandes centros urbanos.

Nas últimas atividades da sequência, os estudantes foram convidados a conhecer um pouco mais dos direitos do cidadão e a como exigi-los. Eles tinham que fotografar algum problema relacionado ao saneamento básico na sua rua/bairro e, após aprenderem que o saneamento é um direito de todos e dever do poder público municipal, investigaram onde poderiam reivindicar seus direitos e exigir o seu cumprimento.

Nesse momento, alguns contataram a ouvidoria da prefeitura municipal, via site. Foram realizadas queixas formais em relação aos problemas encontrados. A figura 3 mostra esgoto sendo despejado, in natura, no Ribeirão Arrudas, Belo Horizonte.

Figura 3 – Esgoto sendo despejado, in natura, no Ribeirão Arrudas, Belo Horizonte.

Fonte: Registro de atividade dos estudantes – figura selecionada pelos pesquisadores

Como última atividade, os grupos foram desafiados a aplicar o conhecimento adquirido durante o desenvolvimento da sequência para a resolução de 3 situações-problemas sendo uma delas: “Vocês estão perdidos em uma área onde a única água existente está extremamente salgada e, como sabemos, a água salgada mais desidrata do que hidrata. Os únicos objetos disponíveis são: um balde, um copo, uma pedra e um plástico. Vocês sobreviverão ou morrerão de sede?” Nesta tarefa, verificou-se o entendimento do estudante em relação ao ciclo da água e incentivou-se a competição saudável entre os grupos. A maioria encontrou a solução e os outros, após questionamentos do professor, também o fizeram.

No desenvolvimento das atividades, buscou-se envolver e despertar o interesse dos estudantes para com o tema. As estratégias utilizadas para tal foram exitosas, uma vez que os alunos participaram de parte da construção das atividades, apresentaram seus interesses de estudo e conheceram um pouco da realidade do recurso natural água no seu espaço de vivência. Tudo isso fez com que o objeto de estudo realmente tivesse um significado e uma aplicabilidade à realidade de cada sujeito. Em avaliação final (leitura das produções por parte do professor e roda de conversa) as produções e devolutivas dos estudantes/grupos foram positivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento da sequência didática atingiu seus objetivos e gerou mudança de atitude por parte dos estudantes, portanto a questão levantada neste artigo foi respondida. Com o desenvolvimento das aulas, os estudantes reconheceram a importância da água para a vida e o quão ameaçado está esse recurso. Perceberam que, caso não haja uma mudança de postura, problemas relacionados à escassez e à contaminação da água serão ainda mais frequentes.

Constatou-se a dificuldade dos estudantes em realizar tarefas básicas no Windows e programas do pacote Office. No entanto, aplicativos, tablets, celulares, vídeos, textos diversos e leis, bem como momentos de laboratórios, aulas de campo e experimentos otimizaram a aprendizagem dos alunos.

Ao identificarem problemas relacionados à água em suas ruas e bairros e identificarem vazamentos em casa, pôde-se perceber um novo olhar sobre esse recurso e uma mudança de atitude. Os estudantes ficaram indignados ao verem a situação dos cursos d´água em seus bairros e saberem que, no passado, muitas vezes, seus pais, tios e avós brincavam naquela água e que, dessa forma, nem sempre foi um “esgoto”.

Durante o desenvolvimento da sequência, ficou evidente a importância do professor como mediador do processo de ensino e aprendizagem. As atividades não foram realizadas no tradicional formato de transmissão de conhecimento, mas de maneira processual e com certa autonomia do estudante, o que as tornaram mais atrativas e significativas.

A sequência didática foi pertinente para realização do trabalho, dado que, a cada atividade, que estava liga à anterior, os estudantes davam um passo a mais no seu conhecimento sobre a água e em sua conscientização para uma mudança de atitude. Nas atividades finais, foi possível que aplicassem tudo aquilo que aprenderam no reconhecimento, na descrição e no questionamento no que se refere aos problemas associados à temática central da sequência.

Portanto, nota-se que mais atividades como essa devem ser desenvolvidas, com outras temáticas socioambientais. Isso deve ser feito com o intuito de se gerar, no médio e longo prazo, mudanças efetivas na sociedade.

REFERÊNCIAS

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CAVALCANTE, Bruna Luana de Lima; LIMA, Uirassú Tupinambá Silva de. Relato de experiência de uma estudante de Enfermagem em um consultório especializado em tratamento de feridas. Journal Nurs Health, Pelotas, v. 1, n. 2, p. 94-103, jan/jul 2012.

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[1] Graduado em Geografia – licenciatura.

[2] Mestrando em educação.

Enviado: Junho, 2021.

Aprovado: Agosto, 2021.

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