REVISTACIENTIFICAMULTIDISCIPLINARNUCLEODOCONHECIMENTO

Cidade educadora e escola clássica de Atenas como proposta de pedagogia urbana em Caieiras

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/cidade-educadora
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

BRUGGEMANN, Marcelo Vagner [1]

BRUGGEMANN, Marcelo Vagner. Cidade educadora e escola clássica de Atenas como proposta de pedagogia urbana em Caieiras. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 10, Vol. 07, pp. 82-99. Outubro 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/cidade-educadora, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/cidade-educadora

RESUMO

Este artigo apresenta reflexões a respeito da formação cidadã no município de Caieiras, e busca levantar o seguinte questionamento: as diretrizes da Carta das Cidades Educadoras e o ideal da Escola de Atenas com Platão e Aristóteles, poderiam ser a garantia de uma fundamentação teórica para a compreensão da raiz epistemológica da cidade como logus da educação integral humana? Na busca por respostas, esse estudo se fundamenta na revisitação dos clássicos da Escola de Atenas, com Platão e Aristóteles no centro, vislumbrando a formação integral humana, voltada para a vida na cidade que se alto educa.  O artigo constitui-se de uma pesquisa bibliográfica com vistas a levantar discussões sobre um tema pouco abordado no meio escolar, contribuindo ainda, para um estudo epistemológico significativo. Deste modo, este trabalho proporciona também, uma análise da suposta ou não intencionalidade educativa da cidade de Caieiras quando relacionada a Carta das Cidades Educadoras cujo fim é a formação integral do cidadão, para sua própria ação ativa e significativa na cidade, demonstrando assim, que o velho modelo educacional grego tem muito a dizer para essa sociedade complexa, materialista, relativista, individualista e muitas vezes sem sentido.

Palavras-chave: Cidade Educadora, formação continuada, educação urbana.

INTRODUÇÃO

Cidade Educadora como conceito, se resume na intencionalidade educativa da cidade para além das suas funções tradicionais de ensino curricular obrigatório, promovendo no local políticas públicas voltadas à formação integral dos seus cidadãos. Este conceito encontra diálogo com o ideal aristotélico de cidade como um organismo vivo, razão pela qual o homem como um animal político, se forma com o objetivo de práticas virtuosas na pólis, dialogando inclusive, com seu mestre Platão (1997) que idealiza uma comunidade ideal por meio da relação corpo & alma, pressupostos fundamentais da escola clássica ateniense, como podemos ver nos diálogos da República de Platão.

Nesse sentido, o município de Caieiras localizado na sub-região norte da Grande São Paulo e recorte desta pesquisa, embora o poder público municipal tenha dado passos importantes ao encontro deste objetivo entre os anos de 2009 a 2020, ainda não pode ser considerada uma Cidade Educadora, até porque, as ações pedagógicas em âmbito municipal, não vão além de exemplos comuns a qualquer município que contém educação curricular formal.

Diante desse entrave, este artigo nasce da verificação empírica  da inanição formativa humana, que se revela nas próprias práticas negligentes cidadãs no trato da coisa pública, levando ao questionamento se as diretrizes da ainda desconhecida Carta das Cidades Educadoras e o ideal da Escola de Atenas com Platão e Aristóteles ao centro, não seria a  garantia de uma fundamentação teórica sólida para a compreensão da raiz epistemológica da cidade como logus da educação integral humana, visto que são os gregos os primeiros a desenvolver a partir da reflexão da justiça, um sentimento de identidade e pertencimento a uma cidade idealizada por meio da educação.

Aristóteles (2017) entende que a cidade é um organismo vivo que se forma com o objetivo do bem comum, pois as ações de todos os homens são praticadas com vistas na busca de um bem, enquanto seu mestre Platão (1997) busca estruturar uma comunidade ideal por meio da relação corpo & alma, de modo que o cidadão possa participar virtuosamente da vida política da cidade.

Este saber deve, portanto, chegar aos professores por meio de formação continuada, tendo como sugestão, formadores que pensam a escola clássica de Atenas a partir do modelo aqui apresentado dos velhos gregos.  Logo, dentre tantas possibilidades, encontra-se a Nova Acrópole (2021), uma organização internacional privada sexagenária presente em mais de 50 países e que promove por meio de formação permanente, o ideal de valores atemporais, cujo objetivo é desenvolver em cada ser humano aquilo que tem de melhor, por meio da filosofia clássica.

O ideal da Nova Acrópole (2021) encontra-se com as necessidades latentes do homem atual, que busca um novo sentido de pertencimento a um determinado lugar. Sendo assim, o lugar é o logus com potencial educativo suficiente para oferecer um sentido para a vida, a qual colocará o cidadão inserido na complexidade urbana, plural e complexa, uma situação que a Nova Acrópole apresenta como eficaz remédio: a   Escola de Atenas.

POR QUE CAIEIRAS?

O município de Caieiras está localizado na sub-região norte da Grande São Paulo, juntamente com os municípios de Cajamar, Francisco Morato, Franco da Rocha e Mairiporã tendo como principal característica a presença de municípios de pequena extensão territorial e de baixo porte populacional. Neste cenário, Caieiras merece atenção, pois semelhante as cidades vizinhas, o processo de uso e ocupação do solo urbano, nesse conjunto de municípios, foi condicionado por fatores bastante marcantes:

(…) a topografia, o sistema viário e a estrutura fundiária. Com relevo fortemente acidentado, apresenta formações serranas, como a Cantareira, o Japi e a Pedra Vermelha, além de morros como o do Juqueri, que orientaram o traçado dos principais eixos viários (GOVERNANÇA METROPOLITANA NO BRASIL, 2013, p. 18).

O desenho geográfico de Caieiras se aproxima da configuração de um retângulo com cerca de 18 km no sentido Leste-Oeste e 8 km no sentido Norte-Sul (Ver Fig. 1). Este formato é semelhante ao de três dos seus municípios vizinhos: Franco da Rocha, Francisco Morato e Cajamar (PAZERA JR. 1982, p.16), limitando-se ao Sul com São Paulo, a Norte com Franco da Rocha, a Leste com Mairiporã, e a Oeste com Cajamar, fazendo de Caieiras um município estratégico para toda a sub-região norte da metrópole paulistana.

A paisagem careirense apresenta aspectos semelhantes dos seus municípios vizinhos constituído por vegetação atípica da mata atlântica espacejada em relevo acidentado, porém, se diferenciando na apropriação e uso do solo, visto que Caieiras é fortemente marcada pela presença de uma espécie de eucaliptos, em pelo menos 50% do seu território destinado a abastecer a Cia Melhoramentos, empresa papeleira  sediada no município desde o final do século XIX.  A rigor, Caieiras possui apenas 30% de área urbanizada, cuja paisagem verde se divide em vegetação natural, matas secundárias, áreas antropizadas, áreas recobertas por mata ciliar e grupos aluviais diretamente associadas às fontes naturais que drenam os principais rios que cortam o território.

Os bairros de Caieiras, em sua maioria, praticamente nasceram no interior da plantação de eucaliptos da Cia Melhoramentos, estando hoje separados em dois agrupamentos:

[…] o primeiro grupo são os bairros localizados do lado direito da linha férrea sentido São Paulo-Jundiaí. São eles: Vila Rosina, Laranjeiras, Morro Grande e Santa Inês. Os outros localizados a sua esquerda da ferrovia (lado oposto do centro) estão mais próximos uns dos outros. São nesses bairros,  Serpa e Vera Tereza, e no espaço entre eles, que pode ser encontrada uma pequena conurbação entre vilas. Trata-se de uma antiga área de ocupação (Vila Operária), originando as vilas: São João; Jardim Boa Vista; Vila Miraval; Vila Gertrudes; Jardim Vitória; Jardim dos Eucaliptos; Jardim Marcelino; Vila dos Pinheiros 1 e 2; e Jardim Monte Alegre.  É nesse lado da cidade que se percebe uma maior concentração populacional (BRUGGEMANN, 2020).

Figura 1: Localização de Caieiras.  Na imagem o destaque dos limites territoriais no contexto estadual e metropolitano regional.

Fonte: Elaborado por Claudio Miranda – Arquivo: Revista Cidade Educadora (www.cidadeeducadora.net)

CAIEIRAS: SE DISTANCIANDO DA CARTA DAS CIDADES EDUCADORAS

A Associação Internacional de Cidades Educadoras, define que todas as cidades são educativas por si, mas para chegar a ser uma cidade educadora é necessário que a intenção consciente de suas propostas sejam voltadas às atitudes e convivências que geram valores, conhecimentos e habilidades.

A cidade será educadora quando reconhecer, exercer e desenvolver, para além das suas funções tradicionais (econômica, social, política e de prestação de serviços), uma função educadora, isto é, quando assumir uma intencionalidade e responsabilidade, cujo objetivo seja formar, promover e desenvolver todos os seus habitantes, a começar pelas crianças e pelos jovens (CARTA DAS CIDADES EDUCADORAS, 1990)

Caieiras, por essa ótica, não é uma Cidade Educadora, e ainda não se tem conhecimento de projetos de intencionalidade educativa que caminham no sentido de impactos da sua tradição educativa. As ações pedagógicas patrocinadas pelos órgãos oficiais do município, não vão além de simples exemplos de educação ambiental, ou seja, como ensinar os cidadãos a não jogar lixo na rua e a cuidar do ambiente, a não ser o projeto “Redescobrindo Caieiras” (BRUGGEMANN, 2019), iniciado em 2011, na EMEF Aurora Rodrigues, no Jardim Vitória.

Na época, os alunos pediram para que o professor Marco Dártora – representante das famílias tradicionais da cidade-, visitasse a unidade escolar e lhes contasse sobre a formação da Cidade dos Pinheirais pela ótica dos imigrantes italianos que vieram para trabalhar na empresa papeleira de Caieiras. O mesmo abordou o cotidiano dos imigrantes nas vilas operárias e a formação da cidade a partir do bairro do Cresciuma, além de outras informações relevantes sobre as origens do município.

Figura 2 – Capa Jornal Nosso Bairro, ed. 234, de abril de 2016

Fonte: Jornal Nosso Bairro, ed. 234, de abril de 2016.

A partir dessa entrevista, o projeto “Redescobrindo Caieiras” entrou na agenda de projetos pedagógicos da secretaria municipal da educação passando a ser   desenvolvido em toda rede, sendo inclusive continuado por todo o mandato do então prefeito Gersinho Romero (2017 a 2020) o qual sucedeu o Dr. Roberto Hamamoto (2009 a 2016).

Por meio da “Redescoberta de Caieiras” os alunos da rede municipal, em especial os do 3º Ano do Ensino Fundamental I tiveram a oportunidade de conhecer, na prática, parte da história da cidade, como os fornos de barranco, que originaram o nome do município, o mirante do Cristo – uma das áreas mais altas do território caieirense – localizado na Vila dos Pinheiros, e como parte do projeto, as crianças eram recebidas no Paço Municipal pelo prefeito e vice da época (Dr. Roberto Hamamoto e Gersinho Romero, respectivamente) (BRUGGEMANN, 2017, p. 80).

Para Caieiras tornar-se uma cidade educadora, é preciso que o poder executivo representado pelo prefeito municipal juntamente com o poder legislativo representado pelos dez vereadores eleitos democraticamente pelos cidadãos caieirenses, demonstrem a intencionalidade educadora por meio das potencialidades educativas não formais e informais presentes em todo território caieirense, se comprometendo inclusive, a incentivar novos projetos em educação para a cidade, que podem ser resumidos nas seguintes palavras da Carta das Cidades Educadoras: “hoje, mais do que nunca, as cidades, grandes ou pequenas, dispõem de inúmeras possibilidades educadoras”, devendo “ocupar-se prioritariamente com as crianças e jovens, […] numa formação ao longo da vida” (CARTA DAS CIDADES EDUCADORAS, 2004).

Caieiras entre os anos de 2009 a 2020, no papel, não era uma Cidade Educadora, mas suas ações na prática estavam caminhando ao encontro da garantia dos “princípios de igualdade entre todas as pessoas […]”. haja vista, “o direito a uma cidade educadora é proposto como uma extensão do direito fundamental de todos os indivíduos à educação”. Como reza a primeira versão da Carta das Cidades Educadoras delineada em Barcelona, 1990, local este reconhecido pelo vínculo existente entre educação e o urbano.

Na prática, o governo municipal deve dotar a cidade de espaços, equipamentos e serviços públicos adequados ao desenvolvimento pessoal, social, moral e cultural de todos os seus habitantes, prestando uma atenção especial à infância e à juventude. Deve ocupar-se prioritariamente com as crianças e jovens, mas com a vontade decidida de incorporar pessoas de todas as idades, numa formação ao longo da vida (CARTA DAS CIDADES EDUCADORAS, 2004).

A carta das Cidades Educadoras (1990) vislumbra o ideal platônico, onde os espaços urbanos se convergem para o ideal pedagógico.

Imagine uma escola sem paredes e sem teto. Nesse espaço, todos os lugares são salas de aula: rua, parque, praça, praia, rio, favela, shopping e também as escolas e as universidades. Há espaços para a educação formal, em que se aplicam conhecimentos sistematizados, e a informal, em que cabe todo tipo de conhecimento. Ela integra esses tipos de educação, ensinando todos os cidadãos, do bebê ao avô, por toda a vida (CABEZUDO, 2004).

Não se trata aqui, de educação voltada para a zeladoria do espaço público, tendo na criança um agente passivo desse processo, mas sim, um educando para a tomada de decisões consciente e coletiva para o bem comum da cidade. A proposta de participação ativa de crianças e jovens na vida da cidade, recebeu apoio imediato da ex-secretária da Educação do município de Caieiras, Shirley da Silva Santos, nomeada pelo ex-chefe do executivo caieirense, Gerson Romero, ainda no ano de 2017.

Figura 3 – Capa da Revista “Pense Urano”, ed. 2, de 2017

Fonte: Revista “Pense Urano”, ed. 2, de 2017

Logo de início, a ex-secretária fez a opção pela continuidade de todos os projetos corrigindo-os, melhorando-os e ampliando-os. No caso do projeto Redescobrindo Caieiras, a proposta era continuar e ampliar buscando novos projetos que pudessem de alguma forma, contribuir para integração de atividades sociais e culturais visando a potencialização educativa formal, informal e não-formal na cidade. Deste modo, a expressão “Cidade Educadora” tornou-se slogan no município de Caieiras, passando assim, para a busca de uma identidade para um sistema educacional humano e integral.

Mais que uma categoria científica é uma ideia que incorpora conteúdos à vez descritivos e desiderativos, projectivos e utópicos e que serve ainda de lema ou slogan sensibilizador ou meramente retórico. Perspectivada do lado da acção interventora na cidade, a ideia de cidade educadora comporta um conceito de cidade que dá unidade ao sistema humano, social, cultural em que os homens vivem e interagem e que serve de paradigma para ajuizar a capacidade ou potência educativa da cidade, através da educação formal, da educação informal e da educação não formal (MACHADO, 2003, p. 1)

As projeções para educação voltada à cidade, em Caieiras, estagnaram quando o novo grupo político assumiu o comando da cidade em janeiro de 2021. Por questões políticas, a pasta da educação passou a ser comandada através de forte influência de um grande líder regional, ex-prefeito da cidade vizinha, Franco da Rocha, e atual vice-presidente estadual do PT, Kiko Celeguin, o qual vem exercendo forte influência política no município de Caieiras, passando a ocupar espaços estratégicos em secretarias municipais, como é o caso da pasta da Educação ocupada por uma professora Kelyn Mindori, francorrochense alinhada ao Partido dos Trabalhadores.

As primeiras movimentações da nova secretária demonstram claramente um alinhamento a mesma política educacional do município de Franco da Rocha, o qual amargou em 2019, o último lugar no IDEB entre todos os municípios da sub-região norte da Grande São Paulo, ficando atrás inclusive da média da Diretoria de Ensino de Caieiras e bem atrás da média estadual.  É exatamente nesse ponto e diante desse contexto que a proposta de Cidade Educadora se enquadra visando a formação continuada por meio da Escola de Atenas. (IDEB, 2019)

UMA PROPOSTA DE EDUCAÇÃO URBANA PELO OLHAR DA ESCOLA DE ATENAS

A Escola de Atenas com Platão e Aristóteles no centro, foi representada por Rafael Sanzio, em um afresco pintado no Vaticano entre os anos de 1509 a 1511 estando localizado na “Sala da Assinatura”, um lugar hoje turístico, mas na renascença era de onde o sumo pontífice assinava os principais documentos eclesiásticos. Portanto, é possível se imaginar que era uma sala dedicada ao conhecimento, um espaço de muitos livros, onde a principal autoridade mundial da época: o papa, exercia na prática cotidiana, as virtudes transmitidas pela tradição apostólica dos velhos gregos como lembra Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino.

Figura 4 – Escola de Atenas – Sala da Assinatura, Vaticano

Fonte: Rafael Sanzio (1509 – 1511)

A relação da obra de Rafael com o legado de Platão e Aristóteles, encontra-se no fato que a dupla ocupou um lugar de destaque nas cidades da Grécia antiga e perpetua até hoje como uma das principais colunas de sustentação da civilização ocidental. Aristóteles foi aluno de Platão, seguiu os ensinamentos de seu mestre, mas foi além, desenvolvendo seu próprio conceito ético que pode ser resumido por meio do exercício da moral voltado para o exercício do bem comum no meio urbano, onde o homem busca a felicidade, ou seja, na cidade.

Aristóteles (2017) entende que a cidade é um organismo vivo que se forma com o objetivo do bem comum, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas na busca de um bem, razão pela qual o homem como um animal político, só pode se desenvolver e potencializar suas virtudes, na pólis. A cidade grega é uma comunidade estruturada para aceitar e internalizar sua capacidade de aprendizagem reconhecendo conscientemente sua identidade e pertencimento com o lugar carregado de crenças e valores que deve ser adequado a cada realidade.

Sendo a cidade algo de complexo como qualquer outro sistema composto de elementos ou partes, é preciso, evidentemente, procurar antes de tudo o que é um cidadão. Porque cidade é uma multidão de cidadãos, e assim é preciso examinar o que é um cidadão, e a quem se deve dar este nome (ARISTÓTELES, 2017, p.76)

Logo, Aristóteles (2017), dialoga com seu mestre Platão (1997) no sentido de estruturar uma comunidade ideal por meio da relação corpo & alma de modo que o cidadão possa participar virtuosamente da vida política da cidade, ou seja, em sua  Ética a Nicômaco, Aristóteles (2014) trata que a virtude humana deve ser praticada, buscada, exercitada desde a infância com bons hábitos, que vão levar o cidadão a ser tornar um ser humano virtuoso, justo, prudente,  pressupostos fundamentais da escola clássica ateniense, como podemos ver nos diálogos da República de Platão, que se inicia com o zelo da própria alma.

O próprio Werner Jaeger (2013), na sua consagrada Paidea, lembra que a República é uma reflexão sobre a alma, uma obra de psicologia na qual Platão fará uma profunda análise sobre a educação, que nos leva a revisitar Jean-Jacques Rousseau dois mil anos depois e vê-lo afirmar ser a República o mais “formoso estudo jamais escrito sobre educação”, assim, ao cuidar da alma humana, Platão lida com a tônica entrelaçada da Justiça e da Cidade e seus vários tipos humanos vivendo no mesmo espaço urbano destinado à formação da alma para constituição a cidade justa, e a cidade justa produz justiça em cada cidadão.

Por este caminho da pedagogia urbana, os gregos vão desenvolver a partir da justiça, um sentimento de identidade a uma cidade entendida pelo homem grego como um conceito de pertencimento a um todo. O próprio Platão (1997) dizia “todos somos parte do todo”. E quando o cidadão tem consciência desse pertencimento a uma cidade, ele deve obediência a ela. E tal cidade tem consciência que esse cidadão faz parte dela, logo, está obrigado por ela a cumprir com todos os requisitos desse pertencimento. Ou seja, há quase dois mil e quinhentos anos atrás, a liberdade, a responsabilidade, os deveres e os direitos, passavam pela formação integral do ser humano justo.

Nesse sentido, o filósofo neotomista Jacques Maritain (1945) com o seu Humanismo Integral, entendido neste artigo pelo abarcamento da moral como um meio de orientação para a vida justa em sociedade, encontra relação com a Carta das Cidades Educadoras (1990), a qual visa na pessoa do professor a potência necessária para os fins da formação. O educador, diz Maritain (1945), deve contribuir para o desenvolvimento integral do homem, a rigor, a educação não só prepara, mas conduz o aluno à felicidade, por meio do domínio da moral e da sabedoria prática.

O professor para o ideal da escola de Atenas, é o educador por excelência, é ele que diante da complexidade dos grupos e das formas de pensamento presentes na cidade, reconhece o espaço comunitário como sendo a própria escola. O lugar é, portanto, o ambiente perfeito para troca de boas experiências, de bons valores e de boa cultura com lembra Platão (1997) na República, podendo-se ainda dizer que o resultado do espírito de concidadania é valorizado.

Nesse sentido, a cidade com todos os seus templos, edifícios, ruas, avenidas, praças e parques tem potencial educativo. Logo, a educação para a cidade deve revelar ao homem a unidade, a ordem, o sentido de vida em uma cidade complexa. Aqui encontra-se a gênese da pólis na formação da alma humana, que leva o homem a enxergar que há uma transcendência a partir da imanência, onde o homem é movido a olhar para si e reverenciar o lugar como um espaço sagrado e de pertencimento.

Já o professor, para a escola clássica de Antenas, é o ser que professa um saber, declara diante de todos saber algo e é também um educador que orienta, alimenta, prepara, conduz seres humanos para fora de si, para a vivência das práticas virtuosas do bem comum, servindo assim a cidade complexa buscando esse horizonte da cidade justa, por meio das suas próprias práticas virtuosas.

Como lembra o professor Souza (2017), hoje a escola não transmite mais valores, apenas conteúdos práticos; e as relações escolares tendem a uma cultura de guerra, competição predatória e rivalidades internas, entre alunos e entre alunos e professores, do ensino fundamental à universidade (SOUZA, 2017). Isso certamente se reflete na ocupação dos espaços na cidade, onde a visão dos alunos -contrária ao que é proposto no humanismo integral e solidificado na escola de Atenas – passa ser fragmentada e justificada por opressores contra oprimidos. Com a formação continuada por meio da Escola de Atenas, o docente estará melhor informado e formado sobre a gênese da cidade. Uma cidade que educa a todos sem distinção e tem no educador um profissional preparado para ouvir as potencialidades educativas do meio urbano.

Pensando assim, uma cidade que educa, só será possível com professores com visão ontológica de cidade.  O município, portanto, precisa investir na formação constante de professores a partir do modelo aqui apresentado dos velhos gregos.  Logo, dentre tantas possíveis encontra-se na Nova Acrópole (NOVA ACROPOLE, 2021), uma organização internacional privada sexagenária presente em mais de 50 países e que promove por meio de formação permanente, o ideal de valores atemporais, cujo objetivo é desenvolver em cada ser humano aquilo que tem de melhor, por meio da filosofia clássica.

O ideal da Nova Acrópole encontra-se com as necessidades latentes do homem atual que busca um novo sentido de pertencimento a um determinado lugar. Sendo assim, o lugar é o logus educador que pode por meio da educação, oferecer um sentido para a vida na cidade inserido na complexidade de uma sociedade plural e complexa, uma situação enfrentada pela Nova Acrópole a qual apresenta como um eficaz remédio, a   Escola de Atenas. (NOVA ACROPOLE, 2021)

Por sua vez, a Nova Acrópole (2021) como uma potência educativa em nível internacional detém para si, autoridade moral e intelectual no sentido de diálogo com as diretrizes da carta das Cidades Educadoras (1990) que busca na prática, o convencimento do poder público para que assuma sua função de principal patrocinador da qualificação do professor no município, visando a melhoria da qualidade dos conteúdos ministrados além da sala de aula.

A Nova Acrópole (2021) oferece vários programas de estudos envolvendo os mais importantes sistemas de pensamento ocidental com enfoques práticos, para que se aprenda a utilizar seu potencial de forma útil e eficaz. Busca também aplicar os valores humanos essenciais e as qualidades atemporais que foram suporte de todas as civilizações, conciliando sentimento, pensamento, ação e consciência livre para tomada de decisões que vão em busca de um sentido à vida, e não apenas deixar-se levar por ela.

Para Nova Acrópole (2021) entrar em Caieiras e aplicar seu programa junto a toda rede de ensino, é necessário ter boas expectativas da participação dos poderes Executivos e Legislativos somado as inúmeras instituições formais e não formais, para a análise de questões simples, como a necessidade de reflexão a respeito dos princípios da Carta das Cidades Educadoras (1990) e dos saberes dos velhos gregos para construção coletiva de um caminho para chegar a uma cidade voltada à educação.

No entanto, não existe caminho viável na educação, sem passar pela formação. Logo, o primeiro passo é uma pequena comissão de professores conhecedores do assunto em questão, buscar o convencimento dos parlamentares eleitos democraticamente para a necessidade de formação continuada dos docentes por meio da Escola Clássica juntamente com as diretrizes da Carta das Cidades Educadoras (1990).

A partir de então, os parlamentares estariam junto a secretaria da educação dialogando para qualificar os docentes da rede municipal de ensino, cujo fim, é trazer um novo olhar para a cidade que educa, dando início assim, a possibilidade real dos docentes, formados e conscientes do potencial educativo presente na cidade, elaborar seus próprios projetos que vão no sentido de uma cidade educadora, dando continuidade a partir do pioneiro projeto “Redescobrindo Caieiras”.

CONCLUSÃO

Caieiras não é uma cidade educadora como é apresentada na carta de Barcelona, mas estava caminhando para ser. O pioneiro projeto “Redescobrindo Caieiras” de 2011, da EMEF Aurora Rodrigues, no Jardim Vitória, já sinalizava para uma educação urbana, que foi inclusive absorvida pela ex-secretária da educação Shirley Santos durante o ex- mandato do prefeito Gerson Romero.

No entanto, as projeções para educação voltada à cidade em Caieiras, estagnou com a atual secretária professora Kelyn Mindori, alinhada ao Partido dos Trabalhadores de Franco da Rocha. Diante desse entrave surgiu a oportunidade desse artigo apresentar uma proposta de pedagogia urbana a partir da reflexão da cidade que detêm para si a intencionalidade educadora alinhada ao ideal de cidade presente nos escritos da literatura clássica ateniense que tem Platão e Aristóteles como principais colunas de sustentação da civilização ocidental.

Aristóteles, aluno de Platão, desenvolveu seus próprios conceitos de cidadão e cidade, uma relação inseparável que tem como meta o bem comum, onde somente na cidade que o homem pode alcançar a felicidade, definindo inclusive, cidade como a última forma de comunidade humana. O lugar do bem comum, pois todas as ações são voltadas ao coletivo, para o bem de todos os homens, praticadas com vistas ao que parece ser um bem. Logo, desde a República já havia a reflexão sobre a formação da alma humana como a chave para a cidade justa.

Nesse sentido, buscando uma cidade que educa e se auto educa, tem nos professores os agentes educadores por excelência. São os professores, os detentores da autoridade moral, os professantes do saber da ontologia da cidade, conhecedores do processo educativo necessário da busca de uma Cidade Educadora, e Platão (1997) inclusive, atribui à educação uma posição central nas relações entre razão e a cidade tendo nas entidades existentes no meio urbano, o complemento necessário para desempenho essencial no processo educacional, centrado na alma humana.

Assim, pensando na retroalimentação do conhecimento que tem no professor aquele que professa um saber e que, portanto, precisa ser formado para formar, educado para educar, ensinado para ensinar, a Nova Acrópole (2021) como uma organização internacional voltada para formação do ser humano por meio da filosofia clássica, tem muito a oferecer. O entrave político/burocrático, no entanto, dá lugar à expectativa do exercício da prática contemplada na carta de Barcelona que é o convencimento dos poderes constituídos democraticamente para a busca de uma cidade que educa.

Logo, formando continuamente professores da rede pública de ensino no município de Caieiras por meio da escola de Atenas, é possível vislumbrar um horizonte de uma cidade que educa, dando início assim, a possibilidade real dos docentes, formados e conscientes do potencial educativo presente na cidade, elaborar seus próprios projetos lembrando o pioneiro projeto “Redescobrindo Caieiras” e colocando novamente o município nos trilhos de um horizonte de uma Cidade Educadora de fato.

REFERÊNCIAS

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__________________. Caieiras nos passos das Cidades  Educadoras. Cidade Educadora, 2019. Disponível em: https://cidadeeducadora.net/noticias/capa/caieiras-nos-passos-das-cidades-educadoras/ Acesso em: 30/07/2021

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_______________________________. 2004. Gênova. Disponível em: http://cidadeseducadoras.org.br/wp-content/uploads/2016/06/carta-cidades-educadoras-barcelona.pdf . Acesso em: 30/07/2021.

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[1] Doutorando em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FIAM-FAAM Centro Universitário. Especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Alvorada Paulista. Especialista em Gestão de Cidades e Planejamento Urbano pela Universidade Candido Mendes. Graduado em História pelo Centro Universitário Assunção. Jornalista profissional com Mtb 52.882. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8099-9410.

Enviado: Maio, 2021.

Aprovado: Outubro, 2021.

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Uma resposta

  1. Parabenizo ao dr.Brugermman pelo ousado projeto Redescobrindo Caieiras,um olhar voltado para uma cidade educadora,inspirada nos ensinos clássicos e gregos intermediada por docentes conscientes,competentes e corajosos que acreditam numa cidade que seja educada de fato.

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