A dicotomia da educação física como disciplina curricular: uma análise bibliográfica

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ARTIGO DE REVISÃO

RIBEIRO, Jackson Luiz Gomes [1]

RIBEIRO, Jackson Luiz Gomes. A dicotomia da educação física como disciplina curricular: uma análise bibliográfica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 05, Vol. 10, pp. 34-42. Maio de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O presente artigo teve como objetivo investigar, como e por que ocorre a dicotomia da Educação Física como disciplina, sendo vista pelos alunos como a mais querida, mas em contrapartida uma das menos importantes para sua formação curricular, durante o ensino médio. A pesquisa se caracterizou como uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório, utilizando textos bibliográficos, livros científicos e publicações feitas em revistas da área. Por fim pode ser concluído por meio dessa pesquisa que as principais causas dessa desmotivação pelas aulas de Educação Física no ensino médio segundo a revisão bibliográfica, se devem a metodologia adotada pelos professores, a falta de espaços físicos e materiais adequados, a mudanças conceituais ocorridas na adolescência, entre outros fatores.

Palavras chave: Educação física escolar, ensino médio, desmotivação.

INTRODUÇÃO

O presente artigo teve como objeto de estudo investigar por meio de revisão bibliográfica de textos e estudos de diversos autores. Como e por quê ocorre a dicotomia da Educação Física, como disciplina, sendo vista pelos alunos como a mais querida, mas em contrapartida uma das menos importantes e valorizadas para sua formação curricular, durante o ensino médio.

O intuito dessa pesquisa será fornecer subsídios e contribuir para uma maior reflexão e discussão a respeito das aulas de Educação Física nos dias atuais, com ênfase na desmotivação dos alunos em participar das aulas. Identificando os principais motivos citados para a evasão das aulas de Educação Física.

Quando se fala em modernizar e modificar o currículo de ensino das escolas com a retirada de algumas disciplinas e a inclusão de outras, sempre vem à tona em grande parte dos sistemas de ensino a retirada, ou diminuição da carga horária, que já é reduzida, em alguns casos, das aulas de Educação Física.

Pensando nisso surgiu a indagação e o anseio de investigar por que a Educação Física é umas das disciplinas mais apreciadas pelos alunos e ao mesmo tempo é vista como uma das menos importantes para a formação curricular, tendo em vista a sua constante ameaça de exclusão do currículo escolar.

Hoje quando falamos de aprendizagem dos conteúdos e da avaliação de desempenho dentro do ambiente escolar, a primeira pergunta que vem aos pais quando vão à escola saber informações de seus respectivos filhos, é saber como eles estão se saindo em português, matemática, física, química, geografia, entre outras disciplinas e raramente perguntam ou se interessam em saber como eles se saem, dentro das aulas de Educação Física.

Esses conceitos e essa visão que a sociedade tem a respeito da Educação Física, se deve em grande parte dos casos ao fato dos profissionais de educação física serem vistos como aqueles que levam a bola para os alunos jogarem, e que a Educação Física não acrescenta nenhum aprendizado aos alunos durante as aulas.

As aulas de Educação Física é um espaço escolar que permite ao aluno experimentar os movimentos, e por meio dessa experimentação, desenvolver um conhecimento corporal e uma consciência dos motivos que o levam a prática desses movimentos. O tempo e a falta disciplinada de muitos docentes em aplicá-la corretamente acarretam ao educando um desinteresse tal dessa disciplina, que hoje é vista como uma matéria simplesmente de costume, onde a visão de aplicabilidade do processo de aprendizado é bem reduzido.

Essa motivação passe por uma reflexão com os alunos sobre o que deve ser trabalhado no decorrer do ano através de uma elaboração de um currículo de planejamento participativo e reflexivo, onde todos possam opinar sobre os conteúdos a serem trabalhados.

Em cima disso Coletivos de Autores (1990), disponibiliza alguns temas diversificados que podem e devem ser trabalhados no âmbito escolar, para auxilio e referência dos profissionais da área de educação física como: esportes, lutas, dança, capoeira, ginástica, corporiedade, jogos e brincadeiras.

Já Betti e Zulliani (2002), vê a necessidade de integrar o aluno dentro da cultura corporal de movimento ao dizer que:

A Educação física enquanto componente curricular da educação básica deve assumir uma outra tarefa: introduzir e integrar o aluno na cultura corporal de movimento, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la, instrumentalizando-o para usufruir do jogo, do esporte, das atividades rítmicas e dança, das ginásticas e práticas de aptidão física em benefício da qualidade de vida (BETTI e ZULIANI, 2002, p. 75).

Portanto objetivo deste estudo será investigar num primeiro momento por quê a Educação Física é a disciplina que os alunos mais gostam, mas em contrapartida é considerada por eles uma das menos importantes quando vista por alunos do ensino médio? Descobrir quais os motivos da perda repentina de interesse pelas aulas de Educação Física e investigar o que faz com que esses alunos tenham essas visões tão distintas da mesma disciplina, de modo a, sugerir soluções para esses problemas, a fim de que, as Aulas de Educação Física se tornem cada vez mais atrativas para os alunos.

DESENVOLVIMENTO

A pesquisa consistiu numa pesquisa bibliográfica de caráter exploratória utilizando como fonte materiais já publicados, como livros, artigos científicos, periódicos, Internet, etc.;

Complementando essa informação (TRUJILLO, 1974, pág. 230), descreve que “a pesquisa bibliográfica não é mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre certo assunto, ela propicia o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras”.

Para falarmos da Educação Física no ensino médio, é necessário primeiro, a fim de, uma melhor explicação do tema, entender como ela funciona nas séries iniciais em especial, no ensino fundamental, pois normalmente é onde as aulas apresentam uma maior adesão e participação por parte dos alunos. Com o intuito de compreender por que a Educação Física é uma disciplina muito apreciada nas séries iniciais (ensino infantil e ensino fundamental), e no ensino médio acaba perdendo o interesse por grande parte dos alunos?

No ensino fundamental os alunos estão naquela fase de descoberta da Educação Física, onde tudo que é apresentado durante as aulas é prazeroso e divertido sejam jogos, brincadeiras, esporte, lutas e dança. Isso faz com que eles façam a disciplina sem objetivo de vencer, mas sim de participar e se divertir durante as aulas.

Mattos e Neira (2000), partem da ideia de que os alunos quando saem do ensino fundamental e chegam ao ensino médio, trazem consigo um conhecimento empírico motor, assim como passam pelas mais diversas mudanças em seu corpo na sua aptidão física e no seu entendimento sobre saúde, esporte, lutas, dança e ginástica, devendo esse conhecimento ser aprimorado e aperfeiçoado, de modo que, seja utilizado durante as mais diversas situações sociais. Assim, segundo os autores, é função do professor elaborar alternativas que objetivem o desenvolvimento desses conhecimentos em questão, para que o jovem efetue problemas no plano estratégico e motor. E termina dizendo que professor precisa ser flexível, e dependendo da turma, rever seu planejamento ou programa do que será instituído no curso (MATTOS; NEIRA, 2000).

Porém no ensino médio esse interesse já não é tão grande como nas séries iniciais, essa falta de interesse inesperada dos adolescentes está relacionada entre outros fatores a fase da adolescência que acarreta nas mais diversas mudanças. Passando pela metodologia utilizada pelos professores que muitas vezes só chegam nas escolas e “deixam a bola para os alunos jogarem”, pela ausência de investimentos por parte dos governos que em muitos casos não oferta condições físicas ideais para se praticar uma modalidade esportiva, muitas vezes com quadras descobertas e com locais sem nenhuma estrutura para se desenvolver uma aula e a chegada das novas tecnologias contemporâneas, que faz com que os alunos tenham e vejam outros meios de diversão, que não seja o esporte.

Martinelli et al (2006), em uma pesquisa realizada com alunos de uma escola pública, constatou que os principais fatores responsáveis pela falta de interesse da maioria dos alunos em participar das aulas de Educação Física eram: a ausência de alternativas nos conteúdo da disciplina, o foco em esportes e o uso da metodologia global em total detrimento às outras metodologias de ensino.

Quanto a metodologia fica nítido a figura do professor, pois é ele que planeja, organiza, seleciona, põe em discussão e executa todos os conteúdos que serão trabalhados e desenvolvidos durante das aulas.

Partindo de uma outra perspectiva alguns autores creditam essa falta de interesse a constante exigência por parte dos professores junto aos alunos pela prática esportiva de rendimento, que em alguns casos, distorcem os objetivos da Educação Física, priorizando muito a competição e deixando de lado a ludicidade durante as aulas. O que acaba ocasionando situações frequentemente vistas durante as aulas de alunos “menos habilidosos”, por medo de errar e de serem repreendidos pelos colegas de turma, optam por não querer participar mais das atividades, utilizando por muitas vezes desculpas, como, a de que não gosta de Educação Física ou daquela determinada atividade que está sendo desenvolvida.

Essa situação também é descrita por Daolio (1997), ao descrever uma situação ocorrida no decorrer de uma de suas pesquisas, no qual, relatou a atitude de uma aluna com outra colega de turma, que por ser incapaz de recepcionar um saque durante uma partida de voleibol, acabou sofrendo xingamentos.

Outra causa constantemente citada quando o assunto é a desmotivação nas aulas de Educação Física concerne a fase da adolescência, no qual os alunos passam por grandes transformações físicas, psicológicas, cognitivas e sociais. Como também ao aumento da criticidade em relação aos mais diversos temas, interferindo de maneira incisiva em gostos, prioridades e escolhas para as suas vidas.

Já na visão de Salles (1998), os motivos desse desinteresse, se creditam ao aumento do relacionamento interpessoal e dos vínculos de amizade entre os alunos, ao afirmar que o relacionamento mantido entre os alunos e seus colegas de turma, são importantes nessa fase da vida. Tendo em vista que a preferência das alunas se resume em estar com os amigos. Isso também pode ser observado nas aulas de Educação Física, quando é pedido para que os alunos se dividam em grupos para a realização de determinada atividade, nota-se que seu grupo de amigos se mantém sempre os mesmos.

Outra discussão de bastante relevância diz respeito aos conteúdos abordados, pois na maioria das vezes a Educação Física se tornou uma prática, que utiliza como conteúdo, somente, esporte. Fazendo com que em alguns casos os alunos percam a motivação de participar sempre das mesmas atividades.

Nesse sentido cabe ao profissional de Educação Física ter a visão e a vivência de saber oportunizar as mais diversas atividades para seus alunos, para que eles possam ter a possibilidade de experimentar novas vivências motoras.

Paiano (1998), mencionou por meio de um estudo desenvolvido em algumas escolas públicas, uma possível solução para esse problema. Segundo o autor um formato de escola participativa, na qual, tenha como planejamento a seleção e a escolha das atividades a serem desenvolvidas, de acordo com as sugestões dos alunos, acrescentando outras formas de atividade física como: caminhada, mergulho, capoeira entre outras. Oportunizando a eles a comodidade de escolha das atividades que mais lhe agradavam, e com isso, ampliando o nível de interesse e participação dentro das aulas.

O que é seguido por Correa (1995), que com o objetivo de reduzir o número de alunos desmotivados durante as aulas de Educação Física, defende o uso de um padrão de aula mais incorporado, com a elaboração de um currículo com planejamento participativo. No qual os alunos em consonância com o professor se reúnem, para decidir quais atividades que serão trabalhadas e desenvolvidas. Ficando a cargo do professor, optar pela melhor escolha de execução do planejamento e das atividades que serão desenvolvidas.

Libâneo (1985) vê a necessidade de que o aluno possa assimilar o conteúdo desenvolvido durante as aulas, devendo o professor fazer com que o aluno perceba essa relevância dentro do seu contexto social, ao dizer que:

Libâneo (1985, pág. 39) “… os conteúdos são realidades exteriores ao aluno que devem ser assimilados e não simplesmente reinventados, eles não são fechados e refratários às realidades sociais”, pois “não basta que os conteúdos sejam apenas ensinados, ainda que bem ensinados é preciso que se liguem de forma indissociável a sua significação humana e social”.

Essa descrição põe em destaque um princípio curricular particularmente importante para o processo de seleção dos conteúdos de ensino: a relevância social do conteúdo, que significa absorver o sentido e o significado do mesmo para a reflexão pedagógica escolar, ou seja, o que aquele determinado conteúdo trabalhado durante a aula de Educação Física, irá trazer de benefícios no decorrer do seu dia-a-dia. Por outro lado este deverá estar vinculado à explicação da realidade social concreta e dar subsídios para a compreensão dos determinantes sócio históricos do aluno, em especial a sua condição de classe social.

Verenguer (1995), também vem ressaltar a importância de os alunos vivenciarem as mais diversas experiências motoras, assim como a necessidade de formar alunos crítico e reflexivos ao elencar os desafios que os profissionais de educação física terão no futuro ao dizer que:

“O papel da Educação Física é valorizar os conteúdos que “propiciem aos alunos pensar suas possibilidades motoras e a influência que recebem do contexto social, ampliando seu repertório cultural sem deixar de lado, naturalmente, experiências motoras que propiciem sua melhora e/ou refinamento.” A autora continua e argumenta que neste contexto o desafio dos docentes dos cursos de Licenciatura é desenvolver conhecimentos que possam servir para discussões nas aulas regulares de Educação Física na escola. (VERENGUER, 1995 p.73).

Por fim outro modelo que pode ser trabalhado, seria o de trazer para o âmbito das aulas, atividades que façam com que os alunos ampliem seu senso crítico e debatam entre si, a respeito de temas pertinentes à Educação Física atual, tais como doenças relacionadas ao sedentarismo, esporte como fator de inclusão na sociedade, a violência no esporte, uso de novas tecnologias, entre outros temas que podem ser perfeitamente adaptados as aulas de Educação Física.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto através da pesquisa pode se concluir que as principais causas para essa dicotomia existente entre a disciplina mais apreciada a ao mesmo tempo a menos importante no ensino médio, se deve ao currículo da disciplina, a falta de espaços físicos adequados para a sua prática, a metodologia e ao modelo de aula adotado pelos professores, a criticidade maior por parte dos alunos e a mudanças advindas com a chegada da adolescência.

Outra conclusão seguindo o que foi analisado das falas dos referenciais é que a Educação Física precisar ser aperfeiçoada, levando em conta sua grade curricular, seus objetivos e sua metodologia de ensino, de modo que diversifique os conteúdos a serem trabalhados, e que o aluno consiga identificar e perceber a relevância do conteúdo trabalhado para a sua vida.

REFERÊNCIAS

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

CORREIA, W. R. Planejamento Participativo e o Ensino de Educação Física no 2º grau. Revista Paulista Educação Física, São Paulo, supl.2, p.43-48, 1996.

DAOLIO, Jocimar. Educação Física na escola: uma abordagem cultural.

FREY, Mariana Camargo. Educação Física no Ensino Médio. A opinião dos alunos sobre as aulas. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires – Ano 12 – N° 113 – Outubro de 2007.

MATTOS, M. G.; NEIRA, M. G. Educação Física na adolescência: construindo o conhecimento na escola. São Paulo: Phorte, 2000.

MARTINELLI, C. R.; et. al. Educação física no ensino médio: motivos que levam as alunas a não gostarem de participar das aulas. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, Barueri, v. 5, n. 2, p13-19. 2006.

MATTOS, Mauro Gomes de e NEIRA, Marcos Garcia. Educação Física na adolescência: construindo o conhecimento na escola. São Paulo: Phorte, 2000.

PAIANO, Ronê. Ser.…ou não fazer: o desprazer dos alunos nas aulas de Educação Física e as perspectivas de reorientação da prática pedagógica do docente. Dissertação de mestrado em Educação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, 1998.

RANGEL-BETTI, Irene Conceição. Educação Física escolar: a preparação discente. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Campinas: 16 (3):158-167 Maio/1995.

TRUJILLO FERRARI, Alfonso. Metodologia da ciência. 3. ed. Rio de Janeiro: Kennedy, 1974. Epistemolo.

VERENGUER, R.C.G. Educação Física escolar: considerações sobre a formação profissional do professor e o conteúdo do componente curricular no 2º grau. Revista Paulista de Educação Física, n.9, p.69-74, 1995.

[1] Licenciatura plena em educação física.

Enviado: Outubro, 2018.

Aprovado: Maio, 2019.

 

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