ARTIGO ORIGINAL
CAVALCANTE, Aurismar Pereira [1], OLIVEIRA, Kerley Fernandes Duarte de [2], FONSECA, Luciana Barbosa [3], ECKARDT, Márcio [4]
CAVALCANTE, Aurismar Pereira et al. Agroindustrialização no Tocantins: Desafios estruturais, potencialidades e o caminho para a agregação de valor. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 08, Vol. 02, pp. 32-55. Agosto de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/economia/agroindustrializacao-no-tocantins, DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.22148060
O agronegócio brasileiro é um vetor primordial, mas a alta concentração de commodities primárias na pauta de exportação expõe o país à volatilidade e restringe seu avanço tecnológico. O Tocantins, território de fronteira agrícola, enfrenta uma versão aguda dessa primarização, caracterizada pela baixa densidade industrial. Este estudo de caso analisa os desafios estruturais e as potencialidades da agroindustrialização no estado, com base em revisão de literatura, análise documental e entrevistas semiestruturadas com especialistas. O referencial teórico abrange o modelo de Lewis (1954), os encadeamentos produtivos de Hirschman (1958) e a crítica estrutural de Furtado (2000). Os resultados confirmam que a baixa industrialização decorre de uma escolha histórica pela commodity e é agravada pela instabilidade política e pela complexidade regulatória, que afasta grandes investimentos. Os gargalos críticos incluem a insuficiência da infraestrutura logística adjacente à Ferrovia Norte-Sul e a carência de capital humano qualificado para a Agricultura 4.0. Contudo, os stakeholders (entrevistados) apontam um potencial expressivo, com a industrialização dos grãos servindo como base para o desenvolvimento das cadeias de proteína animal, além da piscicultura, que possui grande potencial inexplorado. A superação exige ação estatal coordenada, que promova estabilidade, desburocratização e invista na articulação entre pesquisa e produção, transformando a sustentabilidade e a rastreabilidade em um diferencial competitivo para mercados premium.
Palavras-chave: Agronegócio, Agroindustrialização, Desenvolvimento Regional, Tocantins.
O agronegócio brasileiro estabeleceu-se como um vetor primordial da economia nacional, sendo o principal responsável pelo superávit da balança comercial e garantindo a posição do país como um dos maiores produtores e exportadores globais de alimentos (Wilkinson, 2020). Essa performance notável é historicamente sustentada pela combinação de vastos recursos naturais, solos férteis e uma diversidade climática, fatores que conferiram ao Brasil vantagens comparativas significativas (Lisbinski et al., 2020). Contudo, a dinâmica contemporânea do mercado global impõe desafios crescentes e complexos, marcados por tensões geopolíticas, a escalada das exigências por sustentabilidade, o uso estratégico de barreiras comerciais e as mais recentes crises ideológicas, que tornam as vantagens naturais insuficientes para garantir o sucesso competitivo no longo prazo (Quintam; Assunção, 2023).
A compreensão dos obstáculos enfrentados por regiões como o Tocantins, cuja economia se baseia predominantemente na exportação de matéria-prima, exige o aprofundamento das teorias do desenvolvimento. A agroindustrialização refere-se à inserção e à articulação de atividades industriais ao longo das cadeias produtivas agropecuárias, promovendo um salto qualitativo ao gerar valor agregado, emprego e renda no território (Wilkinson; Rocha, 2009). Para que esse processo se consolide, é imprescindível o desenvolvimento de arranjos produtivos locais, o acesso a uma infraestrutura moderna e um robusto apoio institucional (Mior, 2007).
Sob a ótica teórica, o modelo de Lewis (1954) postula que o desenvolvimento econômico é impulsionado pela transferência da força de trabalho do setor agrícola, onde a produtividade marginal é frequentemente baixa ou nula, para o setor industrial, que detém maior produtividade e capacidade de absorção de capital. Esta transição, que historicamente definiu o crescimento de muitas nações, é fundamental para o aumento da riqueza per capita.
Corroborando essa visão, Hirschman (1958) introduziu o conceito seminal de encadeamentos produtivos (linkages). Ele argumenta que o investimento em um setor-chave, como a agroindústria, cria uma teia de interconexões econômicas através de: Encadeamentos para trás (backward linkages) que caracterizam a demanda por insumos e equipamentos gerada pela indústria estimula a criação e o desenvolvimento de outros setores, como a indústria de máquinas, a de fertilizantes e a de serviços especializados; Encadeamentos para frente (forward linkages) onde o produto da indústria se torna um insumo para outros setores, como por exemplo, o farelo de soja produzido localmente alimenta a suinocultura, a piscicultura e a avicultura regional.
A ausência ou a fraqueza desses encadeamentos em uma economia primária, como a do Tocantins, significa que o valor e a demanda por insumos são externalizados, ou seja, são transferidos para regiões ou países que detêm a indústria de transformação.
Em visão mais ampla dos encadeamentos é possível verificar a crítica estrutural e a persistência da primarização ao se analisar o desenvolvimento na América Latina, formulada pela CEPAL e por autores como Celso Furtado (2000), que adiciona uma camada crítica ao modelo de Lewis e Hirschman. Furtado defendeu que o crescimento baseado unicamente na exportação de commodities gera uma dependência estrutural, pois a valorização dos produtos industrializados tende a crescer em ritmo superior ao das matérias-primas. A industrialização, sob essa perspectiva, deve ser um instrumento para internalizar o valor, fortalecer o mercado interno e mitigar as desigualdades.
A pauta de exportações brasileira, mesmo após décadas de industrialização, ainda reflete essa fragilidade. Em relação ao valor exportado os cinco principais setores foram: complexo soja (40,4% do total exportado); carnes (14,1%); complexo sucroalcooleiro (10,4%); cereais, farinhas e preparações (9,3%) e produtos florestais (8,6%) o que representa, em conjunto, 82,9% das vendas do setor em 2023 (Agência Gov, 2024). Essa concentração traz graves implicações para o país: Vulnerabilidade cambial e de preços: A receita de exportação fica excessivamente exposta à volatilidade dos preços internacionais, dificultando o planejamento de longo prazo. Barreiras não-tarifárias: A dependência da commodity expõe o setor a exigências cada vez mais sofisticadas e mutáveis, como rastreabilidade, sanidade e certificações ambientais e sociais (Quintam; Assunção, 2023). Restrição da Especialização: A análise da especialização regional do comércio brasileiro indica que o país consegue exportar produtos de alta intensidade tecnológica para mercados como o norte-americano, mas para a União Europeia, por exemplo, a pauta é essencialmente composta por commodities (De Negri, 2005). Isso demonstra que o superávit é sustentado por produtos intensivos em recursos naturais e, muitas vezes, mão de obra, sem o devido retorno do valor agregado da industrialização. Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar os desafios estruturais e as potencialidades da agroindustrialização no estado do Tocantins, buscando identificar fatores que limitam a agregação de valor local e as oportunidades para a consolidação de um polo industrial sustentável na região.
O desenvolvimento em regiões de fronteira agrícola, como o Tocantins, deve ser compreendido além dos aspectos puramente econômicos. Abramovay (2000) argumenta que o desenvolvimento rural deve se basear no fortalecimento do capital social dos territórios. O capital social, compreendido como as redes de cooperação, a confiança mútua e a inovação social, permite que pequenos e médios produtores superem barreiras de mercado e tecnologia de forma coletiva.
A agroindustrialização contemporânea é, portanto, inseparável das tendências de sustentabilidade, rastreabilidade, inovação digital e responsabilidade socioambiental (FAO, 2022). O novo paradigma de desenvolvimento proposto pela CEPAL (2022) exige dos estados uma estratégia que promova a inclusão, a resiliência e a sustentabilidade, onde a agroindustrialização é um meio de transformação social e ambiental, e não apenas de crescimento do PIB.
Aliada a transformação, a tecnologia não é um mero complemento, mas sim um fator determinante e diferencial para a competitividade do agronegócio brasileiro e para o desempenho exportador das empresas (De Negri, 2005). O mesmo autor, ainda, aponta que as firmas que incorporam inovações tecnológicas apresentam chances significativamente maiores de se inserirem e de expandirem seus volumes no comércio internacional. Sendo assim, o desenvolvimento científico-tecnológico, impulsionado por instituições de pesquisa e pela indústria de máquinas e implementos, é crucial para a consolidação do Brasil como uma potência global (Nascimento et al., 2017).
A inovação na agroindústria, ao ser classificada em inovação de processos e em inovação de produtos, revela estratégias distintas para a inserção externa (De Negri, 2005; Sereia; Stal; Câmara, 2015). A classificação em inovação de processos visa a eficiência operacional e a redução dos custos produtivos. Essa modalidade é de vital importância para a exportação de produtos de menor intensidade tecnológica, como as commodities (grãos, minérios), onde o preço final é o principal fator de competição. O foco é garantir a maior qualidade ao menor custo possível. Já a inovação de produto concentra-se na agregação de qualidade, diferenciação e valor ao bem final. A criação de novos produtos ou a customização de existentes tem uma influência maior na probabilidade de uma firma se tornar exportadora, pois permite acessar nichos de mercado mais exigentes e de maior rentabilidade.
Para produtos de média intensidade tecnológica, como o setor de alimentos processados e carnes, tanto a inovação de processos, eficiência no abate e processamento, quanto a de produtos, cortes diferenciados e produtos prontos, são mandatórias para garantir o desempenho externo (Lopes, 2006).
A experiência de grandes players brasileiros do setor de carnes e alimentos ilustra essa dinâmica. Empresas do porte da BRF, resultante da fusão entre Sadia e Perdigão, mantêm a inovação como um pilar estratégico. A busca por adaptar os produtos ao mercado consumidor de destino, através de projetos de customização que alteram sabores e formatos para diferentes culturas (Lopes, 2006), é um exemplo claro de como a inovação de produto é utilizada para sustentar o volume de exportação e garantir a penetração em mercados globais.
Para ampliar a inserção dos produtos, a ascensão da agricultura digital representa uma nova fronteira para a produtividade e a gestão. Tecnologias como Internet das Coisas, Big Data, drones e Inteligência Artificial estão remodelando as práticas agrícolas (Lisbinski et al., 2020). A agricultura de precisão, com o uso de GPS, sensores de solo e drones, permite a coleta de dados detalhados para a otimização do uso de insumos, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência. No campo da biotecnologia, o desenvolvimento de variedades geneticamente modificadas confere maior robustez às safras e reduz a necessidade de agrotóxicos (Zafani, 2024). Essas inovações contribuem diretamente para a competitividade, a redução de custos e o cumprimento da agenda de sustentabilidade.
No entanto, a plena adoção dessas ferramentas esbarra no acesso desigual à tecnologia no Brasil. A digitalização requer uma infraestrutura de internet e conectividade robusta, cuja disponibilidade ainda é precária em muitas regiões, inclusive no Tocantins (Sobrinho, 2022). Portanto, a superação desse desafio exige uma atuação estatal forte que promova a inclusão digital no campo e a oferta de crédito e capacitação técnica para produtores de todos os portes.
No Brasil, como um todo, é necessário superar obstáculos tecnológicos e estruturais para que o agronegócio continue a gerar valor de forma sustentável.
As referências teóricas apontam que a expansão do setor está atrelada à superação de desafios críticos (Quintam; Assunção, 2023), como os da infraestrutura e logística que apresentam deficiência nas estradas, a subutilização de ferrovias e os gargalos nos portos que elevam o Custo Brasil, corroendo a competitividade internacional dos produtos.
Outro ponto a ser superado são as barreiras comerciais que se apresentam em forma de resistência de países desenvolvidos em abrir seus mercados, frequentemente justificadas por exigências sanitárias, fitossanitárias ou ambientais. Em complemento a estas a sustentabilidade e compliance impõe exigência global por práticas responsáveis, o combate ao desmatamento ilegal e a necessidade de uma agricultura de baixo carbono.
Para alterar o padrão de especialização brasileiro, o estímulo contínuo à inovação tecnológica é o meio mais eficaz, sendo que as políticas públicas devem concentrar-se na ampliação do conteúdo tecnológico da pauta exportadora, fomentando a pesquisa e o desenvolvimento (P&D), fortalecendo instituições como a Embrapa e incentivando parcerias público-privadas (Zafani, 2024).
Dados apontam que a transformação estrutural revelada no Censo Agropecuário 2017, resultam na transformação produtiva no Brasil, com a consolidação de um modelo produtivo capital-intensivo.
Tabela 1 – Resultados estruturais dos censos agropecuários – Brasil 1975 e 2017
A análise dos dados na Tabela 1 é crucial para entender a base sobre a qual o desenvolvimento regional precisa se apoiar. O aumento expressivo de tratores e a concomitante redução de pessoas no pessoal ocupado confirmam a tese de Lewis (1954) sobre a transição para um modelo capital-intensivo.
Já o contraste entre a alta produção primária do estado do Tocantins e a baixa industrialização de sua pauta exportadora gera a necessidade de estudar modelos de agregação de valor bem-sucedidos em outros estados.
O Modelo do Sul para Proteína Animal é um exemplo de excelência em agregação de valor. A avicultura e suinocultura se destacam por cadeias produtivas altamente integradas e tecnológicas, onde a matéria-prima (grãos) é transformada in loco em produtos de alto valor agregado (cortes processados, produtos embalados), que são amplamente exportados. O forte cooperativismo (Schneider; Grisa, 2013) nesses estados foi um facilitador para que pequenos e médios produtores atingissem escala e investissem em tecnologia de processamento.
O Modelo do Centro-Oeste, por sua vez, demonstrou a capacidade de atrair grandes investimentos em plantas de transformação de Grãos, como indústrias de esmagamento de soja (produção de farelo e óleo) e usinas de etanol de milho. Essas indústrias atuam como âncoras regionais, estabelecendo os encadeamentos produtivos (Hirschman, 1958) que geram empregos na indústria, em vez de exportar apenas a matéria-prima de menor valor.
O Estado do Tocantins se insere neste panorama nacional como um território de expansão da fronteira agrícola, com vasta produção de commodities (soja, milho e carne bovina) e uma localização logística estratégica, dada a presença da Ferrovia Norte-Sul (Sobrinho, 2022). Entretanto, o estado enfrenta uma versão mais aguda da primarização, com uma densidade industrial baixa e uma pauta exportadora focada no produto primário.
A baixa industrialização no Tocantins significa que a maior parte do valor agregado e dos lucros da transformação é transferida para outras regiões do país ou para o exterior (Sobrinho, 2022). O estado exporta grãos e gado vivo, mas importa os produtos processados, como óleos, farelos e cortes especiais de carne. Para que o Tocantins se posicione de forma mais vantajosa, é crucial alavancar seu potencial em nichos como a aquicultura (Castilho, 2017), a pecuária bovina (Dall’Agnol et al., 2017) e a agricultura familiar (Pereira; Nascimento, 2014).
O aproveitamento desse potencial depende da superação de desafios estruturais como o da infraestrutura logística e de conectividade. O Tocantins possui a Ferrovia Norte-Sul como um ativo, mas o aproveitamento desse modal é limitado pela deficiência da infraestrutura adjacente (Sobrinho, 2022). A capacidade de armazenamento de grãos é insuficiente em relação ao potencial de produção (Moreira, 2016), e a necessidade de integração entre modais os rodoviário, ferroviário e, potencialmente, hidroviário é um pré-requisito para o escoamento eficiente dos produtos industrializados. A busca pela competitividade da cadeia da carne bovina (Rodrigues et al., 2009) e a industrialização de commodities (Moreira, 2016) dependem de uma rede logística robusta que suporte o fluxo de matérias-primas e produtos acabados. Adicionalmente, a disponibilidade de internet é crucial para a digitalização da agricultura e a atração de indústrias modernas (Sobrinho, 2022).
Adicionalmente, a instalação de um parque agroindustrial moderno e diversificado como a indústria moveleira D’ambros, Gonçalez, Angelo, (2012) ou a cadeia de biodiesel Moreira, 2016, exige um corpo técnico e gerencial altamente especializado. A carência de mão de obra qualificada é um fator limitante que se manifesta desde a gestão de sistemas integrados de produção (Dall’Agnol et al., 2017) até o desenvolvimento de cooperativas de agricultura familiar (Santos et al., 2022) e o avanço tecnológico, o que impõe a necessidade de alinhar os currículos das instituições de ensino técnico e superior às demandas da agroindústria 4.0.
Aliado a todas as necessidades, a complexidade burocrática e a insegurança jurídica geram incerteza e podem atrasar ou inviabilizar investimentos. A persistência de práticas que dificultam a regularização fundiária no estado, conforme Bazolli, Oliveira e Pereira. (2017) é um obstáculo à expansão organizada do agronegócio e, consequentemente, da agroindustrialização. Além disso, a presença de comercialização clandestina em nichos como a agroindústria familiar (Oliveira et al., 2022) indica falhas na fiscalização e na regulamentação que dificultam a formalização e a escala dos pequenos produtores.
Concomitantemente, o desafio ambiental é gerado com a expansão do agronegócio que tem causado impactos socioambientais, como desflorestamento e degradação, que resultam na marginalização de comunidades e poluição (Duarte, 2018). A gestão inadequada de resíduos da pecuária e da indústria madeireira é um problema que precisa de soluções tecnológicas e políticas adequadas (Silva et al., 2017).
No entanto, a agenda de sustentabilidade deve ser encarada como uma oportunidade. O Tocantins deve utilizar a rastreabilidade e as certificações para provar a origem responsável de sua produção, transformando a exigência global em um diferencial competitivo para acessar mercados premium (Sobrinho, 2022).
A superação destes desafios no Tocantins exige a adoção de estratégias multiescalares, baseadas nos modelos de sucesso e adaptadas à realidade local.
A agroindustrialização inclusiva pode ser impulsionada pelo fortalecimento do capital social e pelo apoio a arranjos produtivos locais (Abramovay, 2000; Schneider; Grisa, 2013). O impacto positivo do PRONAF na produção agrícola familiar em municípios tocantinenses (Pereira; Nascimento, 2014) demonstra a importância de políticas de crédito direcionadas, o que pode levar a atração de Capital e Integração de Cadeias, como no caso do sul do Brasil. Para isto a atração de Indústrias-Âncora com a oferta de segurança jurídica e incentivos fiscais para atrair grandes investimentos em plantas de esmagamento de soja e produção de etanol de milho, posicionando-as ao longo da Ferrovia Norte-Sul, a fim de estabelecer os encadeamentos produtivos de Hirschman (1958) e internalizar o valor.
O que também pode ser realizado com a integração do sistema de proteína animal ao conectar a vasta produção de grãos (insumo para ração) à criação de polos de suinocultura e avicultura, aproveitando a experiência de gestão integrada da cadeia da carne bovina no estado (Dall’Agnol et al., 2017)
O estudo adota uma abordagem metodológica de natureza qualitativa, combinando técnicas de pesquisa bibliográfica, análise documental e coleta de dados primários por meio de entrevistas semiestruturadas. O desenho de pesquisa caracteriza-se como um Estudo de Caso único, focado na análise aprofundada dos desafios estruturais e potencialidades da agroindustrialização e industrialização no Estado do Tocantins. A estratégia metodológica empregada baseia-se na triangulação de dados para conferir robustez à análise, utilizando a Revisão da Literatura para fundamentação teórica, a Análise Documental para contextualização estrutural e as Entrevistas Semi-Estruturadas para obtenção de percepções aprofundadas e validação dos achados.
A primeira fase da pesquisa consistiu na Revisão de Literatura, de natureza exploratória e descritiva. Foram mapeados os principais fundamentos teóricos que sustentam a discussão sobre desenvolvimento regional, agronegócio e industrialização, com foco no modelo de Lewis (1954), no conceito de encadeamentos produtivos (linkages) de Hirschman (1958), na crítica estrutural de Celso Furtado (2000) e na análise do conteúdo tecnológico (De Negri, 2005). Além disso, a revisão abordou o novo paradigma de desenvolvimento, que inclui a importância do capital social (Abramovay, 2000) e a agenda de sustentabilidade e inovação digital (FAO, 2022; CEPAL, 2022).
Concomitantemente, a Análise Documental concentrou-se na coleta e interpretação de dados secundários de órgãos oficiais, crucial para estabelecer o contexto estrutural do agronegócio brasileiro e a base de comparação regional. Foram utilizados dados do Censo Agropecuário 2017 (IBGE, 2017) para demonstrar a transição para o modelo capital intensivo e a magnitude das mudanças estruturais no campo. A análise também incluiu o estudo dos modelos de sucesso regional, como o Modelo do Sul para proteína animal e o Modelo do Centro-Oeste para grãos, para estabelecer estratégias replicáveis ao Tocantins.
Para a coleta de dados primários, foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas, que permitiram um aprofundamento nas percepções dos atores-chave. A seleção dos stakeholders foi intencional, totalizando cinco especialistas: incluindo três economistas, quatro administradores, e um empresário. O roteiro de entrevista, guiado pela questão central do abordou três eixos principais: (a) Fatores Históricos e Estruturais da Baixa Industrialização: questionou-se sobre os determinantes que levaram o Estado a priorizar a exportação de commodities em detrimento do investimento em cadeias produtivas locais; (b) Desafios Estruturais Críticos (Infraestrutura, Capital Humano e Regulação); as questões focaram nas políticas públicas, incentivos fiscais e parcerias necessárias para impulsionar a infraestrutura e a formação de capital humano; além do papel da cooperação entre os setores público e privado para o fomento à inovação tecnológica e ao desenvolvimento de pesquisas aplicadas; e (c) Potencialidades e Estratégias para Agregação de Valor; explorou-se a identificação de cadeias produtivas com maior potencial de verticalização, como grãos e carnes e o uso da sustentabilidade, rastreabilidade e certificações internacionais como ativos estratégicos para a inserção competitiva do Tocantins no mercado global. Por fim, as transcrições das entrevistas foram submetidas à análise de conteúdo temática, confrontando as percepções dos stakeholders com as premissas teóricas da Revisão de Literatura, para validar as hipóteses do estudo e identificar as nuances da realidade tocantinense.
Esta seção apresenta a análise dos dados qualitativos obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas com especialistas do setor, confrontando-os com o referencial teórico estabelecido na Revisão de Literatura. A discussão está orientada pela questão central do artigo: os desafios da agroindustrialização e industrialização no Tocantins, os motivos da baixa industrialização e as potencialidades para o futuro.
O cenário atual é visto como resultado de fatores históricos e estruturais, como a criação recente do estado e a vocação natural, que impulsionaram a priorização do escoamento de commodities como por exemplo soja, arroz, milho e carne bovina em detrimento do investimento em cadeias de transformação local. Este achado dialoga diretamente com a crítica de De Negri (2005) e Quintam e Assunção (2023) sobre a persistência da primarização na pauta de exportação brasileira. Os especialistas ressaltam que o processo de industrialização é historicamente subsequente à consolidação da matéria-prima. A produção de commodities é relativamente recente no estado, com maior concentração nos últimos 15 anos. A consolidação do modelo primário ocorreu porque os investimentos iniciais focaram na infraestrutura de escoamento, e não na instalação industrial. A ausência de uma malha ferroviária integrada e a falta de logística adequada dificultaram a consolidação de cadeias de transformação, forçando o estado a especializar-se nas etapas iniciais da produção. A exportação de matéria-prima, que resulta na externalização do valor e da demanda por insumos, é, portanto, uma característica de uma economia primária, conforme postulado na teoria dos encadeamentos produtivos de Hirschman (1958). Adicionalmente, a burocracia e a falta de segurança jurídica, destacadas no referencial teórico (Bazolli; Oliveira; Pereira, 2017), reforçam a criticidade desses fatores no contexto tocantinense. A instabilidade política é consistentemente apontada pelos especialistas como um fator que afasta o investimento de alto capital, fundamental para a indústria. A descontinuidade de projetos ilustra como a falta de estabilidade e transparência nas políticas de incentivo impacta diretamente a confiança do investidor. A burocracia é vista na prática como um impeditivo, pois as empresas enfrentam alta carga tributária e dificuldades no licenciamento e instalação, fatores que as colocam em desigualdade competitiva até mesmo com vizinhos sulamericanos. Tais entraves burocráticos e a insegurança jurídica geram incerteza e podem inviabilizar investimentos, confirmando o desafio apontado pela literatura especializada. Para o desenvolvimento do setor, a estabilidade e a implementação de políticas de incentivo e transparência são consideradas cruciais.
A análise empírica confirma que a superação dos desafios estruturais exige uma ação coordenada, sendo o setor público o indutor principal. No quesito Infraestrutura e Logística, embora a Ferrovia Norte-Sul seja um ativo, a percepção dos especialistas é que ela ainda não é plenamente aproveitada para o escoamento de produtos industrializados. A infraestrutura de suporte, como armazéns e malhas viárias de escoamento, é considerada insuficiente em relação ao potencial produtivo, o que é corroborado por Sobrinho (2022) e Moreira (2016). Para reverter esse quadro, um especialista sugeriu passos como: “investimentos em infraestruturas portuárias, malhas viárias de escoamento de safra, e por fim a criação de um distrito agroindustrial voltado a receber empresas do agronegócio bem como oferecer incentivos fiscais para viabilização das instalações dessas empresas nos primeiros anos de funcionamento”. Em relação à Lacuna do Capital Humano e da Inovação Aplicada, tanto a literatura quanto as entrevistas apontam para um déficit na qualificação da mão de obra e na articulação do sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). O sistema estadual de CT&I é incipiente e desarticulado, com universidades desconectadas e a FAPT com pouco contato efetivo com o setor produtivo, resultando em produção científica que não se traduz em inovação aplicada. Para reverter isso, os especialistas defenderam a criação de um sistema de CT&I articulado, com fundos para subsidiar pesquisas aplicadas em parceria com empresários. A carência de mão de obra qualificada é um fator limitante que se manifesta desde a gestão de sistemas integrados de produção (Dall’agnol et al., 2017) até a adoção de tecnologias avançadas, sendo crucial a formação forte por parte dos institutos federais, SENAI, SENAR e do governo. Por fim, a Sustentabilidade, Rastreabilidade e os Custos da Conformidade emergem como um fator de complexidade elevado. Enquanto a Revisão de Literatura (Duarte, 2018a) aponta os desafios do desmatamento e gestão de resíduos, a prática percebida pelos especialistas adiciona a dimensão do custo operacional, observando que a adoção de práticas sustentáveis, rastreabilidade e certificação encarece o produto final. A conclusão geral é que é responsabilidade do Estado fornecer meios que desburocratizem e desonerem a produção para que o agro possa produzir de forma rentável e sustentável simultaneamente, alinhando-se às exigências globais (Quintam; Assunção, 2023).
Apesar dos desafios, os especialistas são unânimes no potencial do Tocantins, desde que haja investimento estratégico em processamento. As respostas convergem para a necessidade de industrializar as cadeias já estabelecidas e desenvolver nichos promissores. Nas Cadeias de Grãos e Proteína Animal, a industrialização do milho (etanol de milho DGG) e da soja (esmagamento para farelo e óleo) é vista como o primeiro passo, replicando o modelo do Centro-Oeste brasileiro. Já existem plantas operando no estado, o que estabelece a base para desenvolver as cadeias de produção de proteína animal (suinocultura e avicultura), buscando estabelecer os encadeamentos produtivos (linkages) de Hirschman (1958). A Piscicultura é destacada como a cadeia com maior potencial devido às condições climáticas favoráveis, sendo o desafio a falta de uma política pública específica, conforme também apontado pela literatura (Castilho, 2017). Outros setores de transformação específica, como a indústria moveleira alavancada pelo eucalipto (D’ambros; Gonçalez; Angelo, 2012) e a potencial cadeia de seringueira, foram citados, embora dependam da superação da burocracia ambiental para o manejo de florestas cultivadas. Rumo à Internacionalização de valor agregado, o potencial de inserção do Tocantins no comércio exterior não deve se limitar ao grão ou ao gado in natura. A ascensão de blocos como o BRICS e a demanda asiática criam janelas de oportunidade para alimentos processados e cortes especiais. A tecnologia, vista como fator de competitividade (De Negri, 2005), deve ser aplicada tanto no campo (agricultura de precisão) quanto na gestão industrial (rastreabilidade). A superação do acesso desigual à tecnologia (Sobrinho, 2022) é o desafio imediato para que o estado avance no patamar de inovação. A sustentabilidade deve ser o diferencial para acessar os mercados mais exigentes, permitindo que o Tocantins se posicione como um fornecedor de produtos certificados e de baixo impacto, transformando a exigência global em um diferencial competitivo para acessar mercados premium, conforme sugerido por Sobrinho (2022). Para alcançar esse novo patamar, é essencial ter políticas de estado, estabilidade política e combater a corrupção e a instabilidade de governo, além de ter processos simplificados e desburocratização.
O Estado do Tocantins encontra-se em um momento decisivo, onde a persistência no modelo de exportação de commodities cede espaço à necessidade da agroindustrialização para um desenvolvimento econômico robusto e sustentável. Os resultados deste estudo reforçam que o sucesso dessa transição é indissociável da superação de obstáculos de natureza estritamente estrutural e política.
A análise de conteúdo realizada a partir das entrevistas semiestruturadas revelou uma convergência nas percepções dos stakeholders quanto à primarização da economia. Os dados demonstram que a especialização em produtos primários não é apenas uma vocação natural, mas uma resposta estratégica à insegurança jurídica e à complexidade regulatória, que elevam o risco para a instalação de indústrias de transformação. Além disso, as evidências de campo destacaram que ativos logísticos estratégicos, como a Ferrovia Norte-Sul, são percebidos como subutilizados devido à carência de infraestrutura complementar e de armazenamento nas zonas de influência, o que limita a competitividade do produto processado localmente.
Nesse sentido, um passo crucial para a reversão desse quadro reside na garantia da segurança jurídica e na estabilidade política, fatores essenciais para atrair investimentos de alto capital. Paralelamente, é imperativo resolver os gargalos de infraestrutura logística e integração multimodal para que a produção possa ser escoada com maior valor agregado.
A transformação do padrão de especialização do estado depende, fundamentalmente, de investimento em pesquisa, educação e inovação, especialmente na qualificação do capital humano para a Agroindústria 4.0. As políticas públicas devem concentrar-se na criação de um sistema de ciência, tecnologia e inovação articulado entre os setores público e privado, que direcione recursos para pesquisas aplicadas e conecte as instituições de ensino às demandas reais do setor produtivo. Por meio dessa sinergia estratégica, o Tocantins poderá internalizar o valor, estabelecer encadeamentos produtivos sólidos e transformar a exigência de sustentabilidade em um diferencial competitivo no mercado global.
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[1] Bacharel em Direito. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-4773-509X.
[2] Mestre em Desenvolvimento Regional. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1942-7405. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2299344118489194.
[3] Graduada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. ORCID: 0009-0002-5838-955X.
[4] Doutor em Biodiversidade e Biotecnologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6756-9053. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3223484342819610.
Contribuição dos autores:
Aurismar Pereira Cavalcante: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.
Kerley Fernandes Duarte de Oliveira: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.
Luciana Barbosa Fonseca: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.
Márcio Eckardt: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.
Conflito de interesse:
N/A.
Agradecimentos:
N/A.
Financiamento:
N/A.
Nota de presença de IA:
Os autores utilizaram as Inteligências Artificiais, Gemini PRO, Mendeley, Chat GPT, NotebookLM como auxiliares no processo de organização do material elaborado por todos os autores. Especificamente, a IA foi utilizada para: Revisão e Formatação: Correção de português, ajustes de organização gramatical e formatação do texto. Gestão de Referências: Uso do Mendeley. Sendo a IA empregada exclusivamente como uma ferramenta de suporte para garantir a clareza e a qualidade técnica do conteúdo. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 18 de dezembro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 11 de fevereiro de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 17 de julho de 2026.
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