ARTIGO DE REVISÃO
SOBRAL, Ana Jaerlly Mendes [1]
SOBRAL, Ana Jaerlly Mendes. Navegando rumo à moeda forte: educação financeira e investimentos nos Estados Unidos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 09, Ed. 10, Vol. 01, pp. 29-41. Outubro de 2024. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/contabilidade/rumo-a-moeda-forte, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/contabilidade/rumo-a-moeda-forte
Metodologia de pesquisa: Este artigo de revisão foi desenvolvido com base em pesquisa bibliográfica em sites especializados, periódicos eletrônicos e repositórios científicos. Objetivo: O objetivo é demonstrar a importância da Educação Financeira no contexto pessoal e/ou familiar dos indivíduos, sejam nativos ou imigrantes residentes nos Estados Unidos, para fortalecer a prática de investimentos na moeda americana. Resultados e conclusão: O que se verifica é que mesmo com o ensino sobre Educação financeira desde o ensino médio, ainda é necessário intensificar a conscientização dos indivíduos e familiares sobre as melhores formas de otimizar seus ganhos, evitar dívidas e poupar, e ainda explicitar as possibilidades de investimentos e como fazê-los, o que evidencia a importância do acesso a profissionais especializados no assunto, ensejando o fortalecimento da economia local.
Palavras-chave: Moeda forte, Educação financeira, Investimentos, Gerenciamento.
O termo “financeiro” compreende diversas atividades relativas ao dinheiro, por exemplo o gerenciamento de cartão de crédito, a elaboração de um orçamento mensal, a busca por um empréstimo pessoal, a adesão a determinado seguro, ou a realização de algum tipo de investimento. Segundo Lucci et al. (2016, p.4), é preciso considerar todos os conhecimentos relativos ao dinheiro que a pessoa detém, já que a educação financeira “implica no conhecimento de termos, práticas, direitos, normas sociais, e atitudes necessárias ao entendimento e funcionamento destas tarefas financeiras vitais”, já que se trata do uso de habilidades matemáticas pessoais para que sejam tomadas decisões sábias quanto ao uso do dinheiro.
A educação financeira compreende não apenas ganhar dinheiro e ser bem-sucedido, como ainda gastar dentro dos ganhos reais, manter as contas em dia, e reservar parte desses ganhos, utilizando-a para “quitar dívidas, investir e construir um patrimônio” (Pires et al., 2013, p.721).
Para Santos (2014), ter sucesso financeiro significa que a pessoa deve ganhar mais do que gasta, ou então, que ela gaste valores bem abaixo daquilo que ganha. O fato é que grande parte das pessoas, em diferentes países, não detêm os saberes necessários para controlar o próprio dinheiro, já que muitas delas não têm essa consciência sobre a própria realidade financeira, o que os leva a fazerem exatamente o contrário.
Na perspectiva da Educação Financeira, os ensinamentos relativos à forma
ideal de lidar com o dinheiro colaboram para que os indivíduos reflitam bem para tomar decisões acertadas quanto ao próprio dinheiro, no sentido de adotarem uma “boa gestão de suas finanças pessoais”, e com isso, colaborarem com o giro do mercado financeiro (Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia, 2011, p.62).
Já Grzybouski, Matte e Goettems (2020, p.223) defendem que a elaboração de um planejamento financeiro é de grande importância, por ser fundamental aos indivíduos “pensar antes de agir, considerando as possibilidades de atingir objetivos e as metas, acompanhando e avaliando sempre”, inclusive pela compreensão das próprias necessidades básicas. Os autores reforçam que um planejamento permite que sejam evitados gastos supérfluos e pagamento de juros, que se faça economia a partir de compras planejadas, que devem caber no orçamento do cidadão, e ainda que se crie uma cultura pessoal sobre poupança.
Segundo Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia (2011), a disciplina de Educação Financeira já faz parte do currículo do ensino médio em diferentes países, como é o caso dos Estados Unidos, providência embasada, em parte, pelos resultados de indicadores que demonstram altos índices de inadimplência e endividamento pessoal de grande parte dos norte-americanos.
Este artigo de revisão foi desenvolvido a partir de uma pesquisa bibliográfica realizada em sites e periódicos eletrônicos especializados, e ainda, em repositórios científicos. Tem por objetivo demonstrar a importância da Educação Financeira no contexto pessoal e/ou familiar dos indivíduos, sejam nativos ou imigrantes residentes nos Estados Unidos, de modo a usarem seus conhecimentos e realizarem investimentos no dólar, e em ações de empresas norte-americanas, fortalecendo a moeda local.
A gestão financeira da vida pessoal de um indivíduo pode ser comparada à gestão de uma organização, requerendo conhecimentos técnicos, habilidades práticas e a tomada de decisões adequadas em dado momento, o que reforça a importância da Educação Financeira (Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia (2011).
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),
Educação Financeira é o processo pelo qual consumidores/investidores aperfeiçoam seu entendimento dos produtos e conceitos financeiros e, por meio de informação, instrução e conselhos objetivos, desenvolvem habilidades e confiança para tornarem-se mais conscientes dos riscos e das oportunidades financeiras, para tomarem decisões com base em informações, para saber onde buscar ajuda e para realizar outras ações efetivas para melhorar seu bem-estar financeiro (Saraiva, 2017, p.158).
Observa-se cada vez mais a importância que vem sendo dada ao ensino e divulgação dos conceitos sobre Educação Financeira, para a conscientização das pessoas quanto ao bom uso do dinheiro. A crise ocorrida nos Estados Unidos em 2007, que ocasionou a queda do índice Dow Jones, originou-se pelo fornecimento de empréstimos hipotecários de alto risco concedidos pelos bancos locais – a crise do subprime – desencadeando uma crise financeira internacional, que levou diferentes instituições financeiras à insolvência, afetando as bolsas de valores mundiais (Saraiva, 2017, p.158).
Naquele momento, surge uma atuação mais incisiva da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que vem promovendo, desde 2003, iniciativas para que a Educação Financeira se torne uma realidade concreta nas diversas nações, por meio da criação da Rede Internacional de Educação Financeira (INFE) (Saraiva, 2017).
A partir de 2012 a OCDE integrou-se ao Programa Internacional para Avaliação de Estudantes (PISA), pesquisa aplicada a cada 3 anos para avaliação de estudantes de 15 anos de idade integrados ao sistema de ensino nos diferentes países, testando seus saberes e habilidades quanto à leitura, matemática e ciências (Saraiva, 2017).
No que se refere à população de baixa renda, Saraiva (2017, p. 161) defende que apenas tomar conhecimento sobre os conceitos relativos à Educação Financeira não é suficiente para que as pessoas tomem decisões melhores quanto ao uso do dinheiro, face à sua condição de vulnerabilidade e ganhos inferiores às suas necessidades básicas cotidianas.
Contudo, Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia (2011, p.65) referem que, segundo a OCDE, seja qual for o nível de renda de uma pessoa, ela pode ser conscientizada sobre a importância de suas decisões relacionadas aos seus ganhos e gastos. Nesse sentido, a OCDE defende que o bem-estar funcional dos mercados deve refletir o letramento financeiro dos indivíduos, que pode ser atingido a partir de outras ações práticas além das disciplinas escolares, isto é, mediante a promoção de cursos e informações acessíveis às diferentes pessoas, conduzindo-as a decisões assertivas e ao cuidado individual com o próprio dinheiro, levando-as a fazerem melhores escolhas sobre ganhar, gastar, economizar e guardar (Saraiva, 2017).
No que se refere ao mercado financeiro e à economia, Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia (2011) defendem que as escolhas individuais relativas ao uso do dinheiro têm importante relevância no contexto social e monetário de determinada localidade, uma vez que o conjunto de más escolhas pode alavancar problemas econômicos e sociais, entre eles a inadimplência, o endividamento familiar e a ausência da habilidade em elaborar e cumprir um planejamento, seja de curto, médio ou longo prazo.
Em diferentes países, entre eles Estados Unidos e França, a disciplina sobre Educação Financeira faz parte do ensino secundário, ensejando criar a consciência individual e coletiva sobre o dinheiro. Entretanto, evidencia-se o crescente aumento na inadimplência doméstica norte-americana, que preocupa diferentes setores da economia local, levando o governo a incluir tal disciplina já na educação básica (Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia (2011).
Diante dessa realidade, têm surgido outras iniciativas para popularizar os conceitos sobre Educação Financeira locais, por parte de diferentes instituições financeiras, como o Federal Reserve System (FED) e o National Endowment for Financial Education (NEFE), os quais divulgam diversos ensinamentos online voltados à capacitação dos consumidores, independentemente de classe social. Por sua vez, instituições como o Citibank e o Bank of America e o J.P.Morgan Chase, entre outros bancos americanos, financiam projetos sobre educação financeira para a capacitação dos jovens (Amâncio-Vieira, Bataglia e Sereia, 2011, p.66-7).
No que se refere à aplicabilidade dos saberes inerentes à Educação Financeira, Lucci et al. (2016, p.5) explicam ser necessário ao menos um nível básico de saberes sobre finanças, para que a pessoa possa analisar as informações sobre os diferentes produtos financeiros disponíveis.
A este respeito, a pessoa que deseja multiplicar suas reservas pode encontrar no mercado financeiro diferentes produtos, os quais requerem saberes mais específicos para que a melhor escolha seja feita. Grzybouski, Matte e Goettems (2020, p. 226-7) ensinam que as escolhas de produtos de maior ou menor risco implicam no perfil do investidor: enquanto os mais jovens costumam ter um perfil mais agressivo, optando por investimentos de maior risco; já os investidores com idade a partir dos 40 anos costumam ter um perfil mais maduro, optando por investir em modalidades de menor risco.
Já Moura e Carvalho (2022, p.4) defendem que entre os diferentes produtos financeiros disponíveis para pessoas físicas, estão as seguintes ações:
Grzybouski, Matte e Goettems et al. (2020, p. 226-7) destacam ainda que a premissa para a realização de investimentos requer conhecimentos básicos quanto a dois conceitos tão relevantes quanto inversos entre si:
Segundo Ertel (2020, p.29), até os anos 1980 os trabalhadores norte-americanos contavam com o seguro social, entre outros benefícios oferecidos pelo governo local. Contudo, a partir de 1980 as mudanças sociais permitiram aos cidadãos a conscientização sobre a importância de poupar para seu futuro e de seus familiares, e ainda sobre o aprendizado relativo a economizar e investir em ações, prevenindo a formação acadêmica de seus filhos e das próprias aposentadorias.
O fortalecimento do dólar iniciou-se com o final da 2ª. guerra mundial, quando o governo norte-americano implantou o Plano Marshall, um programa de apoio financeiro à reconstrução da Europa e Japão. Segundo Milan (2012, p.133), a partir dos anos 1970 as diversas mudanças na economia mundial colaboraram na consolidação do dólar americano, transformando-o em “moeda-chave do novo padrão monetário não-oficial”.
O Plano Marshall projetou os Estados Unidos ao protagonismo mundial, devido à força conquistada por sua moeda e, ainda, pelo poder bélico americano. Milan (2012, p.133) explica que a importância da economia norte-americana ocorreu mediante a transformação do dólar em “fonte de liquidez internacional dos mercados financeiros”.
A despeito das várias crises econômicas ocorridas ao redor do mundo, observa-se a resiliência do dólar norte-americano ao longo do tempo, cujas reservas a níveis elevados atraem investidores e poupadores (Milan, 2012, p.148). O autor explica ainda que o dólar se mantém tão forte devido à sua capacidade de mitigar os diferentes riscos que surgem na economia global, uma vez que as empresas multinacionais utilizam o dólar em suas transações globais.
As vantagens dos investimentos possíveis naquele país promovem a força do dólar perante o mercado norte-americano, enquanto principal mercado financeiro do mundo. Entre essas vantagens estão as inúmeras opções de investimentos com volatilidade menor, se comparada à de outros países. Além disso, existem duas bolsas de valores locais: a New York Stock Exchange (NYSE), e a National Association of Securities Dealers Automated Quotations (Nasdaq), segundo o portal Renova Invest (2023).
Entre as possibilidades de investimentos nos Estados Unidos, estão as ações no tesouro americano, os fundos de investimentos e os títulos (renda fixa) de empresas americanas. As diferentes modalidades de investimentos, destacadas por Larghi, (2023) são:
Por sua vez, Pires et al. (2013) referem os fundos de investimentos e os títulos de renda fixa (bonds):
Já os fundos de renda fixa, denominados Exchange Traded Funds (ETFs) são intermediados pelas corretoras de valores (Balsemão, 2024). É um fundo que replica os investimentos de um índice, também denominados fundos espelhos ou fundos de índices, cuja finalidade exclusiva é acompanhar o desempenho de um mercado financeiro nacional ou internacional.
Discorrer sobre Educação Financeira implica em abordar a sabedoria de saber ganhar, gastar, economizar e multiplicar dinheiro. Contudo, há um aspecto que se torna fundamental, já que investir neste ou naquele tipo parece ser algo fácil, a partir dos conhecimentos adquiridos em um curso sobre finanças (Pires et al., 2013).
Saber poupar e guardar já não é fácil; investir, então, é algo muito menos fácil, diante dos saberes necessários para que o indivíduo se lance no mercado de ações. Pires et al. (2013) explicam que investir requer conhecimentos sobre análise de gráficos, a partir da análise técnica de ações, isto é, interpretar as demonstrações gráficas de diferentes ativos financeiros, observando o comportamento do mercado e da massa que movimenta o ambiente dessas ações em observação, atendando-se para questões como preço, volume, quantidade e volatilidade das operações atuais e futuras.
Nesta perspectiva, Pires et al. (2013, p.724) definem que há uma complexidade maior para operar um investimento do que analisar os tipos de investimentos existentes e poder escolher um deles. Essa complexidade se deve ao fato de os indicadores em análise apresentarem “o equilíbrio de poder entre os que apostam na alta e os que apostam na baixa”.
A este respeito, os operadores de mercado profissionais decidem quando e quanto comprar ou vender, ou então, optam por ficarem fora de compras e vendas em dado momento, em função da alta ou queda no valor das ações, e de outros aspectos, como por exemplo o preço aceitável das ações e o seu desempenho econômico e financeiro, e além disso, de sua capacidade de gerar lucros ou não, para os investidores. Neste sentido, Pires et al. (2013, p.723-4) destacam que a decisão dos operadores pode apresentar:
Ainda segundo Pires et al. (2013), operar junto à bolsa de valores e realizar investimentos pessoais é uma atividade que requer determinado expertise, que, eventualmente, uma pessoa sem experiência na área financeira, por ser uma atividade para a qual apenas os conhecimentos básicos de Educação Financeira são insuficientes, diante de toda a complexidade para análises e escolhas até aqui demonstradas. Neste sentido, Pires et al. (2013) referem o papel do agente autônomo de investimentos, profissional especializado no acompanhamento, análise e interação das aplicações financeiras, tendo em vista tratar-se de um profissional cujos conhecimentos e experiência na realização de tais operações junto à bolsa de valores podem fazer a diferença entre ganhar ou perder dinheiro.
Para atuar como agente autônomo de investimentos, individualmente ou como pessoa jurídica, essa pessoa deve obter um registro junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), assim como credenciar-se junto aos bancos de investimentos, corretoras de valores e de mercadorias e distribuidoras de valores, assim como credenciar-se aos demais órgãos reguladores neste ramo (Pires et al., 2013).
Entre os princípios da boa educação financeira, estão conceitos como ter uma boa qualidade de vida no presente e no futuro, que a pessoa mantenha suas despesas dentro do orçamento, no qual todas as necessidades mensais devem ser contempladas. A literatura analisada demonstra que uma parte significativa da população norteamericana mantém altos os índices de endividamento, o que nos permite concluir sobre a necessidade e relevância da oferta do ensino sobre conceitos e práticas relativas à Educação Financeira, para que se conscientizem sobre sua forma de consumir e que aprendam a economizar e a poupar, prevenindo-se contra o próprio endividamento, e ainda, que assegurem alguma reserva, visando necessidades e/ou imprevistos futuros. Por sua vez, está a questão de saber investir e multiplicar as reservas pessoais. Ainda que os indicadores atuais demonstrem um crescimento de novos entrantes em plataformas independentes de investimentos, toda essa movimentação individual em praticar investimentos não é suficiente para uma mudança de mentalidade, na direção de uma sociedade que se aproxime, de fato, de sua liberdade financeira.
No que se refere à compreensão e prática para a realização de investimentos, seja em diferentes tipos de papéis, fundos ou nas outras opções existentes no momento, verifica-se, também, que inúmeras pessoas precisam de suporte especializado em investimentos, devido à complexidade do assunto. Ao recorrer a um consultor ou especialista em investimentos, as pessoas podem aprender a analisar e operar no mercado de ações com maior segurança, evitando assim que percam suas reservas investindo de forma equivocada.
Neste sentido, recorrer a um consultor de investimentos para orientar, ensinar e operar os diversos tipos de investimentos pode ser um caminho mais curto e seguro, já que uma consultoria especializada pode promover a motivação necessária aos diferentes perfis de investidores, conduzindo-os ao gerenciamento e realização de aplicações inteligentes, além de contribuir para uma sociedade mais forte financeiramente.
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[1] MBA Com foco em Gestão de cambio e Mercados Financeiros Internacionais, Pós-graduação em Gestão de Investimentos (latu sensu), Especialista em Investimentos pela AMBIMA, Graduação em Ciências Contábeis. ORCID: 0009-0000-6277-4536.
Material recebido: 02 de abril de 2024.
Material aprovado pelos pares: 18 de setembro de 2024.
Material editado aprovado pelos autores: 09 de outubro de 2012.
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